quarta-feira, 5 de agosto de 2026

As Grandes Certezas da Revolução Nacional

Escrito por Oliveira Salazar









Alberto Franco Nogueira discursando no Conselho de Segurança da ONU (1963). Ver aqui

«Diz-me as elites que tens e dir-te-ei o País que és».

Franco Nogueira

 






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«O que ficaríamos sendo, nós, portugueses, sem colónias e sem soberania? Espectro aviltado e miserável de antiga e nobre nacionalidade.»

Augusto Fuschini («O Presente e o Futuro de Portugal»).

 

«Pode dizer-se que Portugal se antecipara, no após-guerra, a romper com o passado. Fora de início simplesmente negativa essa ruptura: antidemocrática, antiparlamentar, antiliberal. Durante dois anos, a ditadura procura administrar: ordem pública, economia de gastos, honestidade, isenção. Mas não tem um conteúdo ideológico. Por isso o debate com a oposição processava-se em termos clássicos. Se em 1910 o conflito se trava entre Monarquia e República, em 1926 o choque produz-se entre parlamentarismo e antiparlamentarismo. Decerto: já se seguiam com atenção o riverismo espanhol e a crise profunda a que conduzira, o comunismo russo, o fascismo italiano. Mas estes totalitarismos são havidos por experiências nacionais: não tinham assumido o carácter messiânico de vocação internacional. Por isso, de 1926 a 1930, a luta entre ditadura e oposição gira em torno de um problema simples: restaurar ou não restaurar o sistema democrático e parlamentar. Não está em causa o tipo de sociedade: discute-se a estrutura e orgânica do Estado. Desde 1930, todavia, são alterados os parâmetros da questão, e isso tanto no seio das forças que sustentam a ditadura como no daquelas que pretendem derrubá-la. Entre os homens da União Nacional, da Liga 28 de Maio, da ditadura em suma, estão os conservadores à maneira antiga, os monárquicos tradicionais, os liberais e republicanos moderados, e todos estes, educados à luz de uma Europa que vinha do século XIX, queriam ordem, paz, boa administração; mas não sabiam que espécie de ordem, de paz, de administração. No ângulo oposto, continuam a existir correntes políticas filiadas na democracia parlamentar, no republicanismo clássico, no socialismo histórico. E no entanto também estes a partir de 1930 sentiam que era de momento inviável, sem que soubessem exactamente qual a alternativa, um regresso puro e simples ao quadro político de 1926. Num campo e noutro havia que defrontar as gerações novas – as que despontam para a vida política na década de trinta – que pretendem fazer e afirmar uma opção social e ideológica já à sombra do novo debate europeu. Do lado da ditadura, o vazio ideológico é preenchido por Oliveira Salazar com princípios políticos e sociais cuja raiz é muito anterior a qualquer dos novos totalitarismos, e cuja substância é diferente da destes e até contrária. Por isso Salazar rejeita-os, e o ideário que tem proclamado tenta manter-se fora de qualquer enquadramento internacionalista. Mas as forças que o rodeiam têm tendência a alinhar, ao menos politicamente se não ideologicamente, com o totalitarismo da direita: porque são comuns alguns valores (ideias de pátria, de ordem, de propriedade privada, de hierarquia social) e sentem naqueles amparo para subsistirem: e ainda porque são nesse sentido impelidas por uma larga parte das gerações novas que faz uma clara opção ideológica afim. Do lado das oposições, há uma aproximação, decerto política mas também não necessariamente ideológica, com o totalitarismo de esquerda: porque partilham de alguns valores, são arrastadas pela ala das novas gerações que faz uma opção de esquerdas, e ainda porque julgam ver no auxílio destas a possibilidade de destruir a situação que se instala no país. Mas tanto num campo como noutro há homens a quem repugna qualquer dos extremismos: Salazar, chefe da situação que está no poder, repudia a aceitação em bloco do totalitarismo de direita: Cunha Leal, oposicionista tenaz, repele um totalitarismo de esquerdas; aquele por considerar como valor primacial a consciência cristã da pessoa humana, este por considerar sagrada a liberdade individual de expressão e de actuação; e ambos sabem que qualquer dos totalitarismos sufoca e mata aqueles valores. De todo este condicionalismo resulta que a ruptura portuguesa com o passado político e a sua inserção na Europa da década de trinta traduz um compromisso: a ditadura, nas vésperas de se institucionalizar, repudia a essência do fascismo, mas acolhe alguns dos seus princípios; nega a democracia parlamentar, mas aceita algumas das suas formas exteriores; e a oposição rejeita a substância do comunismo, mas não recusa alguns dos seus auxílios; e defende a pureza da democracia parlamentar, mas reconhece as suas limitações. [Era este aliás o pensamento de Cunha Leal. Este, por um lado, sustentava também a necessidade de “um partido único ao serviço dum programa de reconstrução nacional” (era, no fundo, a União Nacional), mas por outro lado entendia que um partido único deveria “apenas subsistir até o instante em que tivesse chegado a seu termo essa obra comum” (era o regresso à democracia). E concluía: “nem queremos o passado, que não deixou saudades, nem o presente, que não nos honra”. Era o reconhecimento das limitações do parlamentarismo. Ver Cunha Leal, Os Partidos Políticos na República Portuguesa, Imprensa Moret, Corunha, Outubro de 1932. Leal deixa sem resposta as perguntas: quem organiza e chefia o partido único? Enquanto o partido único governa, a que ideologia obedece? Quem é o juiz do momento da sua transformação em vários partidos?].



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Esta ruptura portuguesa com as formas políticas do liberalismo do século XIX encontra o seu reflexo na geração que se afirma literariamente durante a década de 1930. Há grandes nomes que são figuras literárias já feitas e em pujança criadora. Na prosa, Aquilino Ribeiro tem vinte anos de letras, e acalmados os seus ímpetos de revolucionário ardente regressa do exílio a Portugal para se tornar o estilista que constrói um mundo de serranos, de camponeses, de almocreves, de velhacos pícaros, que corresponderiam aos oprimidos da sociedade; Raul Machado acaba de morrer, mas a sua obra contemplativa, cheia de humildes e esmagados, mantém a sua influência; e Ferreira de Castro, mais novo cerca de quinze anos, de capacidade literária limitada e usando um humanitarismo convencional, desfruta de largo sucesso ao traçar o quadro de párias sociais forçados a emigrar. Na poesia, projecta-se o vulto de Teixeira de Pascoaes, com o seu saudosismo; Afonso Lopes Vieira valoriza temas românticos do lirismo tradicional; António Correia de Oliveira cultiva a poesia nacionalista; e em círculos literários restritos cita-se um nome, Fernando Pessoa, que o grande público ignora e que os admiradores consideram um poeta genial. [Morre em 1935. Só após a sua morte, e depois do conhecimento integral e difusão da sua obra, ganha Fernando Pessoa toda a sua eminência na história da literatura portuguesa]. Através da prosa, do teatro e da poesia, Júlio Dantas, amaneirado, postiço e formal, atravanca o mundo das letras, e sobrevive ao manifesto anti-Dantas com que Almada Negreiros agredira o convencionalismo literário, havia mais de uma década. Estes nomes, se no plano individual fazem opções políticas e se constituem um produto do após-guerra, não reflectem todavia o debate emocional de que, simultaneamente com o debate político, a Europa está agora prisioneira. Neste particular, é o grupo da Presença que realiza a ruptura. José Régio e António de Navarro, na poesia; Miguel Torga na poesia, no conto, na novela; Adolfo Casais Monteiro na poesia, no ensaio, na crítica; Branquinho da Fonseca na novela e no romance; João Gaspar Simões no romance e sobretudo no ensaio e na crítica – aparecem como vultos fundamentais da Presença. Todos proclamam uma rebeldia de princípio em face de qualquer literatura comprometida; não escondem o seu cepticismo perante os ideais republicanos clássicos, de direita ou de esquerda; a liberdade do espírito criador é reivindicada como sacrossanta; não ocultam a sua revolta contra os valores consagrados; e, se ao seu esteticismo repugna qualquer sistema totalitário, o seu protesto contra a sociedade constituída empresta-lhes uma imagem onde há traços de um socialismo que é ao mesmo tempo liberal e patriótico. Estes homens estão mobilizando as atenções do público ledor: não fazem doutrinação política: mas a sua atitude estética implica uma recusa ao ideário do Estado Novo. Na medida em que o grande debate europeu atinge Portugal, as suas simpatias, senão a sua adesão, estão com um regime político de esquerdas, sem que aceitem o seu internacionalismo, e isso dentro de uma sociedade de direitas, sem que partilhem do classicismo destas.


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Para além do escol político e intelectual, no entanto, está a massa da nação. Fatigada de caos administrativo, exausta de sacrifícios, ávida de ordem e segurança, ansiosa pelos destinos nacionais, descrente dos políticos e da política, alheia a teses e especulações doutrinárias, a opinião pública encontra a sua exaltação e a sua mística num ideário nacional: o projecto de aventura, de uns ou de outros, não está afectando o cerne do país. Mas aceita a revolução, porque esta constitui um projecto de vida nova, e português.»

Franco Nogueira («Salazar – Os tempos áureos, 1928-1936», II, Estudo Biográfico). 

 


«Vejo em José Régio a figura central da literatura portuguesa no século XX, como todos nós vemos no Doutor Oliveira Salazar a personalidade central da política portuguesa na mesma centúria. Esta comparação entre os dois contemporâneos, se não coetâneos, será altamente fecundada para quem quiser explorar na historiografia da Pátria. Ela representa, por agora, uma observação de facto, sem qualquer solidariedade nos juízos de valor.»

Álvaro Ribeiro («A Minha Admiração por José Régio»).


 


«Concentram-se agora as atenções na data que se celebra: o décimo aniversário do 28 de Maio. Governo, União Nacional, círculos políticos situacionistas dão à efeméride ressonância popular. Regressa a Revolução à pureza das origens, às fontes de que emergiu; para firmar o contraste recorda-se o que era antes e compara-se com o que tem sido depois; e isso em termos de ordem pública, restauração financeira, obras públicas, melhoria económica, dignidade da vida colectiva e da vida política, e prestígio internacional do país. Para Braga se voltam as atenções, como há dez anos atrás; em Lisboa é organizada uma Exposição documental; e pela nação, na Metrópole e no Ultramar, o significado do acontecimento é levado ao povo, tornando-o vivo na sua imaginação e na sua emotividade. Por sua parte, após a sua posse como ministro da guerra, Oliveira Salazar começa a preparar os discursos que pensa pronunciar; Carmona, por recomendação do chefe do governo, dispõe-se a participar nos grandes actos colectivos; e a actividade de muitos políticos, para doutrinação e propaganda, é mobilizada ao serviço das celebrações. A imprensa tudo noticia com relevo que prende a atenção do público. E o governo decreta uma amnistia para muitos dos autores de subversão ou conspiração.

Em 25 de Maio, depois de almoçar com Prudência Serras e Silva, Oliveira Salazar toma o rápido para Aveiro, e depois segue de automóvel até Póvoa de Varzim. Aí pernoita. E no dia seguinte, por Nine, chega a Braga pela meia-manhã. Já se encontra na cidade o Presidente Carmona. É de festa o ambiente, como o era na manhã de 28 de Maio de 1926, quando se efectuava a peregrinação ao Sameiro e se reunia o Congresso Mariano, e Gomes da Costa chegava à Cidade dos Arcebispos para se revoltar contra o governo de Bernardino Machado e António Maria da Silva. Em carro descoberto, Carmona e Salazar entram pelo Arco da Porta Nova, seguidos por forças de cavalaria; de um lado e outro das ruas, por detrás de tropas que apresentam armas, aglomera-se povo alegre e entusiástico; e das janelas debruçam-se pessoas que atiram flores, agitam bandeiras, entoam cânticos, gritam saudações calorosas. Depois, ao princípio da tarde, pela Avenida dos Combatentes há desfile cívico e parada militar; e no Regimento de Infantaria 8, Carmona oficializa uma lápide comemorativa. E perante as grandes patentes das forças armadas, e a par da multidão aglomerada no terreiro de Agrolongo, Salazar profere da varanda do Quartel o discurso que há dias começou a preparar.

Dirige-se às “gentes do Minho e de Portugal”. Na “cidade santa da Revolução”, quereria ser simples romeiro, e preferiria não ter de falar. Mas recorda o que dissera em Braga há doze anos, no Congresso Católico: contra todas as desordens passadas e todas as desordens futuras, defendera então a “única revolução necessária”. Porque era inútil o “receituário” aconselhado pelas facções políticas da época: na anarquia mental e moral em que o país se debatia, era supérfluo “mudar os homens, substituir os partidos, experimentar sistemas já experimentados e já falidos”: o que “importava era reconstruir o sentido perdido da vida humana e fazê-lo penetrar na família e na sociedade, na organização política, no funcionamento da administração, na economia particular e pública, na formação moral dos homens”.  E “sem qualquer pensamento reservado, sem qualquer intento de ordem prática imediata, entre as quatro paredes nuas duma igreja profanada, estas ideias simples foram lançadas ao vento”: e sabe-se agora que, por mistérios da Providência, não foram perdidas. Para que assim acontecesse, outros decerto fizeram mais e melhor. “Eu por mim nada fiz: nada sabia, nada preparei, em nada intervim; sentia apenas no fundo da alma a tristeza do abatimento pátrio e a possibilidade duma reacção salvadora”. E agora ali está de novo, no mesmo local de onde há dez anos, “às ordens de Gomes da Costa”, o “Exército português desencadeara o movimento, triunfante sem luta, glorioso sem sangue”. E “começou a nova era”.

Como se apresenta a sociedade portuguesa no termo de dez anos de Revolução Nacional? Que imagem se solta do rosto de Portugal? Fora reformado o Estado, votada uma nova Constituição; e esta, repudiando totalitarismos de direita ou de esquerda, implantara um regime autoritário que, criando os seus próprios princípios, se lhes submetia depois inteiramente. Nega-se o socialismo, sem prejuízo de um objectivo de justiça social; e limita-se o capitalismo, sem prejuízo da propriedade e da iniciativa privada. Pelo corporativismo, está disciplinada a economia. Há um maior aproveitamento dos meios nacionais; é definida e respeitada uma ordem de prioridades; o desafogo do Tesouro, a estabilidade monetária, e a restauração do crédito permitem a recuperação de capitais e um crescente volume de investimentos; e sobe o produto nacional bruto. Toda a estrutura do país é revolvida: as estradas estão em boas condições e a sua rede foi alargada; renovou-se e expandiu-se o sistema ferroviário; melhoraram as comunicações telegráficas e telefónicas; multiplicaram-se os meios de transporte; ampliaram-se e apetrecharam-se os portos; repararam-se ou construíram-se edifícios para instalação de serviços públicos; é atacado o problema da instrução e o da saúde pública. Parecem diferentes a estrutura material e o aspecto físico do país: o povo português usa melhor os seus recursos, domina-os mais extensamente, aumenta-os, e da superfície visível do território desprende-se uma sensação de rejuvenescimento, de maior bem-estar, de melhores condições de vida. Trabalham com rigor, disciplina e eficiência os serviços públicos e os departamentos oficiais; e na actividade geral reflecte-se uma preocupação de arrumo e de ordem, de moralidade e de competência. Entra na rotina o culto de novos valores: o patriotismo, o respeito pela história, a recordação dos grandes vultos do passado, a vivência de todo um património moral e espiritual, e até de ordem material, traduzido numa noção nova de império: e há um espírito de grandeza, de regresso aos altos feitos, de galhardia, de brio nacional, de amor-próprio colectivo. E há também uma noção de que o país, sem embargo de continuar o seu caminho histórico, ao mesmo tempo se actualiza, se moderniza, e começa a absorver e a utilizar uma tecnologia que frisa com a de outras nações. Simultaneamente, chega à superfície e principia a intervir na vida toda uma nova geração. Esgotadas as gerações políticas do parlamentarismo democrático, envelhecida uma classe média que vivera no quadro da I República, desponta uma nova camada social que se distribui por todas as classes. Da alta burguesia vieram alguns que tiveram o génio da adaptação e souberam colaborar com o novo estado de coisas; e muitos de outras classes, desiludidos e frustrados, afeiçoaram-se ao novo regime. Desde que de boa-fé, foram aceitos sem embaraço de monta os homens da classe militar, das profissões liberais, do funcionalismo, da técnica, da economia, do trabalho. Mas, destroçados pelo desprestígio ou pela impotência os valores políticos e sociais em que se apoiavam as classes antigas, demolidos preconceitos e hábitos ultrapassados, esta nova geração, que agora se aproxima dos trinta anos, forma-se à sombra de novos padrões, está impregnada de uma nova mentalidade, tem outros gostos e exigências. São os homens que começam a actuar nos últimos anos da década de vinte e durante a década de trinta. Do passado recente, perante os seus espíritos, apenas ressalta o contraste. À ruína anterior, ao caos administrativo, à permanente desordem nas ruas, à insegurança de pessoas e bens, ao desânimo colectivo, à descrença nas raízes nacionais, ao desdouro dos homens e das instituições, à miséria da imagem externa, a uma estrutura social que parecia dissolver-se num fim de época, a uma vida colectiva em que o lucro era produto de especulação e o triunfo o resultado de proteccionismo e de favor, contrapõe a nova camada as realidades actuais: e o país, possuído de uma nova energia, funciona com precisão. Está criado um hábito de normalidade, sem estremecimento ou surpresas; desconhecem-se os sobressaltos, as crises dramáticas, os momentos de perplexidade; e, enquanto se vão esbatendo os abencerragens nostálgicos do que foi, afirmam-se os entusiastas do que está e do que há-de vir. E a estes anima-os um sentido heróico da vida e uma vontade que os torna eficazes na acção: a sociedade portuguesa está impregnada de uma mística. Por outro lado, dos altos círculos políticos, dos meios dos adversários, não estão ausentes os jogos do poder, as manobras, por vezes os conflitos pessoais: mas foram-se diluindo, perdendo amplitude por falta de ambiente. Desses episódios de bastidores, contudo, não se apercebe a massa da opinião pública. Esta tem consciência de que, aquém e além-fronteiras, podem existir problemas complexos, situações graves, perspectivas acaso sombrias e mesmo perigosas; mas há a confiança de que o governo saberá resolver as dificuldades que surjam. A imagem de Portugal é a de estabilidade, coesão, civismo, e trabalho. 

Cumprida uma década de Estado Novo, Oliveira Salazar está nos seus quarenta e sete anos. Mantém o seu aspecto grave, e o semblante severo, como traços do seu natural; veste sempre de escuro, e muito apurado, escanhoado, meticuloso; conserva o rosto cheio, mas as feições são macias, ainda que marcadas por uma vida que lhe tem acentuado a maturidade; e no cabelo negro e farto, sempre muito aparado e penteado, aparecem as primeiras brancas. Em torno de si, espalha serenidade, comedimento; os seus gestos são cada vez mais lentos, suaves, compassados; e tudo encara e observa e escuta sem surpresa, emoção, ou pressa. No país, entre partidários e opositores, está fixada a sua reputação; não se põe em causa a sua inteligência superior, nem a sua lucidez; não tem sombra ou nódoa a sua honestidade pessoal, a sua incorruptibilidade; e reconhece-se o seu saber e a sua competência. Na massa do povo, é figura querida; transpira muito pouco do seu viver; e suscita o respeito que a distância e o mistério infundem. No escol político, é havido por figura nacional, já parte da história. Entre os adeptos, provoca dedicação, mesmo devoção cega; e não duvidam de que seja autêntica a sua modéstia, sincera a sua isenção, genuíno o seu desapego ao poder, verdadeira a sua imolação à causa pública. Entre os adversários, e para além de reconhecerem a sua inteligência e honestidade, aquelas virtudes são tidas por postiças e parte de uma imagem fria e pacientemente construída. Em dez anos, forjaram-se crises sucessivas, alternadas com uma acalmia que se afigurava nunca se impor como definitiva. Não desistiam os adversários, e preparam golpe após golpe; e com intermitências o regime parecia a ponto de se dissolver e esbarrondar. Mas a opinião pública foi sendo ganha, o eco que nela encontram os adversários do Estado Novo restringe-se a pouco e pouco, e à míngua de apoio ruíam as tentativas progressivamente espaçadas e menos plausíveis. Formara-se um consenso nacional em torno das novas instituições; e ao cabo de uma década não provocava ressonância na massa popular o debate incessante a que os seus opositores queriam submetê-las. Como consequência, e pela sua pequena dimensão e base, não ultrapassavam o segredo dos gabinetes os ensaios sediciosos; os homens antigos que os promoviam entravam em crescente isolamento, sofriam de um divórcio cada vez mais fundo com as realidades sociais e políticas da nação; às novas camadas do regime correspondiam também novas camadas nos sectores adversários; mas os chefes destes não se haviam revelado ainda, ou não os conhecia o país. Salazar cria uma imagem de invencibilidade: aparentemente sem meios bastantes, consegue todavia frustrar os conluios, as manobras, as intrigas: e desfaz os golpes sem que se compreenda bem a maneira por que alcança o seu objectivo. E, no entanto, são as características essenciais de Salazar que explicam o seu triunfo sobre os adversários. Consentâneo com o seu temperamento, mantém-se fiel ao seu princípio, e é inesgotável a sua capacidade de intransigência: jogar sempre tudo numa carta única: arriscar tudo de uma só vez: e apenas lhe interessa a derrota total ou o sucesso total. Por isso jamais transige, ainda que sob risco de destruição: não cede, não negoceia: está nos seus próprios termos ou não está de todo. Confessa-o com autenticidade nos seus discursos: é o homem que não provoca, não foge, não transige. Em cada momento, está pronto a partir, a abandonar o poder, a tomar o rápido de Santa Comba; não se enleia em compromissos que tenha de honrar, não se enreda em cumplicidades por que fique manietado, não faz promessas que tenha de cumprir, não se submete a dependências que o limitem; e pode partir a todos os instantes sem deixar rasto.  Sendo firme no exercício do poder, e completo, e livre na sua consciência, e sem barreiras além das que esta imponha, transmite ao mesmo tempo uma sensação de desinteresse, de descanso, de desapego pelo poder; e estando sempre preparado para partir, jamais tem de partir. Depois, nas crises, nas emergências, nos perigos, recorre ao inusitado, ao inesperado: quando as preocupações gerais incidem sobre um problema, sai a público para tratar de outro problema: quando as atenções convergem num ponto, surge noutro ponto: e desorganiza, paralisa, desorienta os adversários. Numa situação de risco ou dificuldade, nunca se precipita a fazer o que parece deveria fazer; e depois de um período de passividade exterior, actua rapidamente em sentido diferente ou oposto ao que se diria curial. Além de tudo, por entre as mais graves vicissitudes, e em curso de embaraços ou obstáculos que podem ser catastróficos, está apto a manter a rotina, sem desvios, sem alteração de hábitos: acabada a leitura de um relatório da polícia sobre a iminência de uma revolução, não fica inibido de receber um visitante com quem trata, a fundo e exaustivamente, de parques infantis ou da inauguração da Lisboa Antiga. Organiza o seu espírito em compartimentos separados, e estes não são comunicáveis, nem se influenciam reciprocamente. No fundo, é comandado por actos de vontade: a sua ininterrupta sucessão conduz a uma permanente tensão de vontade que se transforma em estado natural. Essa vontade é por isso usada, empregada, aproveitada naturalmente, automaticamente, dir-se-ia inconscientemente, como quem respira; e isso tanto no plano interno como no plano externo. Não há perigos para a independência nacional, porque Portugal quer ser independente; não há ameaças para as colónias portuguesas, porque Portugal não as quer ceder; e por isso “o futuro não depende senão de nós”. Repudia dependências exteriores como repudia dependências internas. Deste travejamento complexo, que parece rígido, não está todavia ausente a flexibilidade; esta surge perante argumentos da lógica, razões fundadas em direito, imposições de moral ou de consciência; e pode então produzir-se uma alteração, não de princípios, mas de rumo, que aparece dialecticamente fundamentada. Além de tudo, e em consequência, Salazar desenha a figura do homem infalível: não se deixa lograr, não se perturba nos lances, não o ofuscam resultados, não teme as consequências, não se entibia com os obstáculos, não se impressiona com as seduções, não se engana nos juízos, não erra nas decisões. Ficam deslumbrados e rendidos os partidários, ficam exasperados os inimigos; aqueles justificam-no pelos atributos carismáticos; e os segundos, à força de buscarem motivos dirimentes dos insucessos, alegam para razão destes a frieza de Salazar, a sua desumanidade, a sua opressão brutal e desapiedada, o seu carácter satânico. Uns e outros parecem ignorar que Salazar é um chefe político, com a dupla personalidade que lhe é inerente, e que pisa, e calca, e esmaga o que é íntimo, pessoal, subjectivo, emocional. Considera a política apostolado nos princípios que defende, nos objectivos com que aplica a autoridade, no ânimo de servir o bem comum com que usa o poder, no desinteresse pessoal com que exerce funções, no propósito de defender e afirmar a visão que se forma do país; mas o subjectivismo e a emoção cessam na fronteira do dever à luz do próprio ideário em que acredita. Para todos, Salazar é uma figura central, uma bandeira que se segue ou se combate. Nessa posição, e em ritmo acelerado, todos os grandes e pequenos problemas são reconduzidos a Oliveira Salazar. São-lhe submetidas as grandes questões do Estado, internas ou externas. Mas também os casos menores da administração, desde as exposições de arte popular até à reparação do Convento de Santa Clara e da Sé Velha de Coimbra, desde os negócios da Companhia de Açúcar do Cassaquel até à plantação de eucaliptos: tudo é tomado e tratado seriamente, gravemente. Salazar é o homem das pequenas coisas e dos máximos problemas. Dada a sua severidade de critérios, o seu rigor nas críticas, as suas exigências na perfeição, alguns dos ministros acanham-se de iniciativas, ou de tomar decisões finais sem consulta prévia ao chefe do Governo. Por outro lado, suprimida uma oposição pública frontal, Salazar transforma-se por seu turno na maior força oposicionista do Estado Novo. Sobre o gabinete e por toda a administração paira o vulto do chefe do governo. São constantes as suas perguntas aos ministros, as suas interrogações sobre motivos de atrasos ou demoras; nos seus memorandos, nas folhas brancas do seu bloco, é implacável a apontar falhas, duro em sublinhar erros, gelado em aplicar a lei, embora em termos sempre correctos e impessoais; e, se perdoa os defeitos e vícios e fraquezas dos homens, não desculpa uma carência que afecte o bem comum, um desvio que prejudique o interesse nacional. [Entre muitos casos averiguados, com que poderia ilustrar estas afirmações, tenho conhecimento directo de um exemplo típico. Um alto funcionário cometeu uma falta disciplinar: comunicou que partia para o seu posto numa data e, sem nova comunicação em contrário, apenas partiu 30 dias mais tarde, com grave prejuízo de interesses portugueses. Salazar mandou aplicar a pena de demissão. O funcionário escreveu a Salazar uma carta, apelando para o seu coração. Salazar respondeu: “O Sr. X apela para o meu coração. Eu devo dizer-lhe que não tenho coração”. E manteve a pena de demissão]. Deste modo, o temor do que possa pensar o chefe do governo, o receio das decisões que possa tomar, actuam como estímulo de eficiência, zelo, dinamismo, honestidade e administração. E no plano internacional, pela duração no cargo, pela obra realizada, pela impressão que causava nos visitantes estrangeiros, pelas suas reflexões lúcidas e avisadas, tornara-se uma figura conhecida, e com influência entre os meios conservadores e liberais moderados da Europa Ocidental e do Brasil, e prestígio pessoal generalizado. E o Times, de Londres, exprimia um sentimento comum quando escrevera: “estes resultados poderiam seguramente constituir o orgulho de qualquer paiz, e fazem do Senhor Salazar um dos maiores ministros das Finanças dos tempos modernos”.





Para além de Salazar, politicamente, não existe outro vulto na sociedade portuguesa. Decerto: com Salazar ascendeu ao plano superior um grupo de homens de alto valor: Duarte Pacheco, Manuel Rodrigues, Mário de Figueiredo são de inteligência fulgurante; Carneiro Pacheco, Armindo Monteiro, João da Costa Leite, Fezas Vital, são homens de saber, de competência, de trabalho; José Alberto dos Reis e Caeiro da Mata são mestres eminentes mas pertencem a gerações anteriores, e vieram para o Estado Novo por admiração pessoal de Salazar; Pedro Theotónio Pereira, Sebastião Ramires, Araújo Correia, Vieira Machado, Rafael Duque, outros ainda, são homens de especialização, mas não se superam até ao nível do Estado e da Nação; e muitos outros são figuras de mérito, mas de craveira limitada. E nenhum tem personalidade carismática que se imponha e arraste as massas, e para estas o governo no momento personifica-se em Salazar. Carmona é popular, tem prestígio, mantém a unidade das forças armadas, é respeitado, é acarinhado; mas não é homem por quem outros homens estejam prontos a correr o risco da vida. [Na generalidade da opinião portuguesa parece existir a ideia de que Fragoso Carmona foi um homem mediano, mesmo medíocre, que só por acaso desempenhou papel de relevo, e que estava inteiramente dominado por Salazar. Creio que é injusta essa ideia. Carmona foi homem de inteligência, coragem, bom-senso e de grande patriotismo e dignidade; e, além dos assuntos militares, foi homem de boa cultura geral, sendo um apaixonado pela história, estando o seu saber na matéria muito acima do comum]. Por outro lado, no terreno dos adversários, não se ergue qualquer figura de projecção nacional. Haviam desaparecido os vultos históricos do parlamentarismo democrático: ou mortos, como António José de Almeida e Brito Camacho; ou em exílio voluntário, como Teixeira Gomes. Sobrevive Afonso Costa, em exílio forçado, mas está com sessenta e cinco anos, e de saúde precária; e a sua imagem, esbatida pela distância e pela erosão do tempo, não impressiona as gerações actuais. Bernardino Machado agita-se e intriga, mas aos oitenta e cinco anos é uma figura, além de ultrapassada, apenas pitoresca para os poucos que o recordam ainda. Norton de Matos, admirado pelos seus méritos e respeitado pela sua integridade, apagou-se politicamente; e Cunha Leal, embora somente com quarenta e oito anos e em pleno vigor físico, está tolhido na sua actividade, além de se apegar a fórmulas antigas que perante os novos, de direita ou de esquerda, têm sabor arqueológico. Salazar está assim isolado, e muito acima dos demais; e, além do seu carisma próprio, apresenta-se portador de uma mística, criador de fórmulas novas para Portugal, corajoso na extinção do que estava, audacioso na implantação de uma ordem nova. É um revolucionário. E simboliza e personifica a revolução. Em maioria vasta, a sociedade portuguesa segue-o. Para que destino? Através de que perigos ou convulsões ou tormentas?».

Franco Nogueira («Salazar – Os tempos áureos, 1928-1936», II, Estudo Biográfico).

 


«Salazar assistiu à estreia de A Revolução de Maio e no dia seguinte, António Ferro, cheio de curiosidade de saber qual era o juízo do Presidente do Conselho sobre o filme em que tinha investido dinheiro (o financiamento veio do Secretariado de Propaganda Nacional, que então dirigia), trabalho, talento e convicção, perguntou-lhe: “Então, Senhor Presidente, gostou?”. Resposta de Salazar: “Gostei, gostei muito. Mas aquilo acabou muito tarde e, esta noite, dormi muito mal. Olhe, não me leve mais a ver essas fitas.” A Revolução de Maio ficaria como uma das nossas duas únicas verdadeiras longas-metragens de ficção propagandística do Estado Novo, juntamente com Feitiço do Império, também de António Lopes Ribeiro, rodada em 1940, e cuja banda de som se perdeu, restando apenas a imagem. Intacta, sobra apenas A Revolução de Maio. Salazar considerava o cinema uma arte “horrivelmente cara”, e a propaganda do regime neste meio limitou-se essencialmente aos documentários – onde Lopes Ribeiro também se destacaria com versatilidade e brilho, mesmo até à vigência de Marcello Caetano – e aos jornais de actualidades.»

Eurico Barros («Revolução de Maio: Um singular e isolado filme de propaganda», in O Século de Maio – 100 Anos da Revolução Nacional).

 

«É de lembrar que em Viseu, no Colégio da Via Sacra, onde Salazar fora prefeito, estava dependurado um painel de seda que tinha bordado um dístico de Afonso Pena: “Deus, Pátria, Liberdade, Família”. E recorde-se ainda que na sua primeira conferência pública em Coimbra, no CADC, Salazar concluía a sua palestra dizendo: “Defendamos a Família, defendamos a Pátria, defendamos Deus pela Liberdade. Deus, Pátria, Liberdade, Família” Era o dístico de Afonso Pena. (...) Agora, substitui Liberdade por Autoridade e acrescenta-lhe o Trabalho. E evidentemente renova e elabora por si próprio os fundamentos doutrinários. No fundo, subsiste intacto o homem de Viseu.

(....) Recorde-se que nos versos À Bandeira, publicados no jornal do Colégio da Via Sacra, Salazar escrevera: “Salvé, bandeira que lembras/A Pátria que é minha Mãi.” E a mesma ideia aparece expressa na conferência feita em 1 de Dezembro de 1909 no Liceu de Viseu. (...) Em Viseu, Salazar adquirira certezas de que nunca mais se apartou

Franco Nogueira («Salazar – Os tempos áureos, 1928-1936», II, Estudo Biográfico).





AS GRANDES CERTEZAS DA REVOLUÇÃO NACIONAL

Discurso proferido em Braga, da varanda do quartel de infantaria n.º 8, em 26 de Maio de 1936, por ocasião da grande parada e festa ali realizadas em comemoração do décimo aniversário do movimento de 28 de Maio.

SENHOR PRESIDENTE DA REPÚBLICA, SENHOR MINISTRO DA MARINHA, OFICIAIS E SOLDADOS, GENTES DO MINHO E DE PORTUGAL:

É para mim grande sacrifício ter de falar hoje aqui: penso me deveriam conceder o direito de ser simples romeiro à «cidade santa da Revolução nacional», a meditar o passado, a descansar um pouco da aspereza dos caminhos, a sentir, a beber, no ar repassado de hinos e de cânticos, nas praças coalhadas de gente, o riso e a alegria do povo.

Eu só continuaria assim o meu silêncio de muitos anos, e quem sabe quantos dos que me ouviram da última vez estarão agora a lembrar-se de como então defendi, contra todas as desordens futuras, a única revolução necessária.

Nem divisões, nem ódios, nem lutas, nem particularismos de pessoas ou de grupos, nem programas vazios de sentido ou destituídos de possibilidades práticas, nem reformas constitucionais, nem mesmo mudanças de regimes políticos: todo o receituário aconselhado ou imposto obraria quando muito à superfície, e deixaria no fundo intactas as causas da nossa enfermidade. Na desordem política e social que era um pouco a de toda a parte, e entre nós minava a coesão dos portugueses e submergia a consciência nacional, quer dizer a essência e a razão de ser da Nação, mudar os homens, substituir os partidos, experimentar sistemas já experimentados e já falidos, seria inútil para o futuro de Portugal. Na anarquia mental e moral do século a que aderíramos, criticando, negando, demolindo juntamente com os desfeamentos do tempo as paredes mestras das instituições sociais, invertendo as escalas dos valores humanos para apresentar novidades de doutrina, seria igualmente inútil toda a revolução que não partisse desta base: o que importava era deixar de ser tudo movediço ou arbitrário e definir e assentar os pontos firmes sobre que edificar o futuro; o que importava era reconstruir o sentido perdido da vida humana e fazê-lo penetrar na família e na sociedade, na organização política, no funcionamento da administração, na economia particular e pública, na formação moral dos homens.

Sem qualquer pensamento reservado, sem qualquer intento de ordem prática imediata, entre as quatro paredes nuas duma igreja profanada, estas ideias simples foram lançadas ao vento e, mistérios da Providência! Só agora se sabe para não serem perdidas.

Muitos outros, certamente mais claros e incisivos, foram, por terem chegado no exame do problema às mesmas conclusões, os defensores, os propagandistas, o pensamento, o verbo e a acção da nova ordem de coisas. Mas eu por mim nada fiz: nada sabia, nada preparei, em nada intervim; sentia apenas no fundo da alma a tristeza do abatimento pátrio e a possibilidade duma reacção salvadora.

Gomes da Costa é aclamado por populares na varanda do Governo Civil de Coimbra, em Junho de 1926.


Faz hoje dez anos, neste mesmo local, às ordens de Gomes da Costa, cujo optimismo e valentia quase não eram virtudes – brotavam-lhe espontaneamente da alma como exigência da própria natureza, – o Exército português desencadeara o movimento, triunfante sem luta, glorioso sem sangue, porque na verdade a voz do comando foi apenas a expressão militar de uma ordem irresistível da Nação. E começou a nova era.

Eis agora o que se passou.

Às almas dilaceradas pela dúvida e o negativismo do século procurámos restituir o conforto das grandes certezas. Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua História; não discutimos a família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.

Se a fé não é uma mentira, será fonte inesgotável de vida espiritual; mas, se como a virtude é dom de Deus, nem compreendemos que se imponha pela força nem a vantagem de se contrariar a sua prática. Através da História tem sido muitas vezes programa de governos ou de estados estender às almas a ânsia de despotismo e destruir nelas o germe da fé. Inglória tarefa! Vem o tempo, repara os estragos, reconstitui as igrejas e o culto, mas já não pode fazer ressurgir virtudes que se não exerceram, nem evitar a triste desolação das almas que perderam um mundo.

Àparte o valor intrínseco da verdade religiosa, individualmente, socialmente temos necessidade do absoluto, e não vamos criar por nossas mãos de entre as coisas contingentes e efémeras o que existe fora e acima de nós, nem desviar para o Estado a função de decretar o culto e definir os princípios da moral. Esta atitude nos levou a considerar o Poder moralmente limitado e nos tem valido não cometermos o erro ou o crime de deificar o Estado, a força, a riqueza, a técnica, a beleza ou o vício.

Compenetrados do valor, da necessidade na vida duma espiritualidade superior, sem agravo das convicções pessoais, da indiferença ou da incredulidade sinceras, temos respeitado a consciência dos crentes e consolidado a paz religiosa. – Não discutimos Deus.

Não discutimos a Pátria, quer dizer, a Nação na sua integridade territorial e moral, na sua plena independência, na sua vocação histórica. Há-as mais poderosas, mais ricas, porventura mais belas; mas esta é a nossa, e nunca filho algum de coração bem formado teve o desejo de ser filho de outra mãe. Deixemos aos filósofos e aos historiadores o entretenimento de alguns devaneios acerca da possibilidade de diferente aglomeração de povos e até das vantagens materiais de outras combinações que a História não criou ou desfez; no terreno político e social, para nós portugueses que somos de hoje e velhos de oito séculos, já não há processo que possa ser revisto, debate que possa ser aberto, pedaço de soberania ou de terra que nos pese e estejamos dispostos a alijar de cansados ou de cépticos.







Sem receio colocámos o nacionalismo português na base indestrutível do Estado Novo, primeiro, porque é o mais claro imperativo da nossa História; segundo, porque é inestimável factor de progresso e elevação social; terceiro, porque somos exemplo vivo de como o sentimento pátrio, pela acção exercida em todos os continentes, serviu o interesse da Humanidade. Vocação missionária se tem podido chamar a esta tendência universalista, profundamente humana do povo português, devido à sua espiritualidade e ao seu desinteresse. Em qualquer caso ela não tem ponto de contacto com o suspeito internacionalismo humanitário de hoje a defender que as fronteiras se abatam para alargar as próprias em prejuízo das alheias. – Não discutimos a Pátria.

Não discutimos a autoridade. Ela é um facto e uma necessidade: só desaparece para se reconstituir, só se combate para a entregar a outras mãos. É um direito e um dever – dever que se nega a si próprio se se não exerce, direito que tem no bem comum o seu melhor fundamento. É ainda um alto dom da Providência, porque sem ela nem seria possível a vida social nem a civilização humana. A passagem da criança ao homem, da ignorância ao conhecimento, dos instintos à virtude, da barbárie à civilização é o fruto do esforço persistente contra a inércia natural, é a coroa de glória da autoridade. A organização, a defesa dos interesses colectivos e a conciliação dos interesses individuais, a ordem, a paz, a definição dos fins a atingir pelo agregado social, a preparação dos meios necessários, o impulso no sentido do melhor são ainda sua obra e fruto.

Na família, na escola, na igreja, na oficina, no sindicato, no quartel, no Estado, a autoridade não existe nunca para si mesma mas para os outros; não é uma propriedade, é um ónus. As suas vantagens são na proporção do bem que se ordena e da fidelidade com que se cumprem as ordens. Como é possível que erre, deve poder ser apreciada a sua acção, mas há menor dano em não se deixar criticar do que em não se fazer obedecer. – Não discutimos a Autoridade.

Não discutimos a família. Aí nasce o homem, aí se educam as gerações, aí se forma o pequeno mundo de afectos sem os quais o homem dificilmente pode viver. Quando a família se desfaz, desfaz-se a casa, desfaz-se o lar, desatam-se os laços de parentesco, para ficarem os homens diante do Estado isolados, estranhos, sem arrimo e despidos moralmente de mais de metade de si mesmos; perde-se um nome, adquire-se um número – a vida social toma logo uma feição diferente.

Tem várias vezes acontecido, em épocas perturbadas de retrocesso à soberania dos instintos, relaxarem-se os laços da família, desaparecerem a intimidade e o pudor, submergirem-se a autoridade dos pais e o respeito dos filhos. Mas só no nosso tempo se ergueu em teoria, em ciência e em programa de Estado o que havia de supor-se passageiro desvairamento.

A natureza reconquistará os seus direitos e a sociedade civil verá mais uma vez como a sua moral, consistência e coesão dependem directamente da moral, consistência e coesão do agregado familiar. Este é na verdade a origem necessária da vida, fonte de riquezas morais, estímulo dos esforços do homem na luta pelo pão de cada dia. – Não discutimos a família.

Não discutimos o trabalho nem como direito nem como obrigação. Não como direito, porque seria obrigar aqueles que não têm senão o seu braço a morrer de fome; não como obrigação, porque seria conceder aos ricos o direito de viver do trabalho dos pobres. Porque dele se alimenta a vida, provém a riqueza das nações e deriva a prosperidade dos povos, o trabalho é glória e é honra, com diferente utilidade, diverso valor económico, mas idêntica dignidade moral.

Fez-nos a Providência o dom de tornar o trabalho necessário e felizmente, por mais que se progrida e se acumule, sempre há-de ser preciso trabalhar para viver: senão os homens morreriam de tédio numa atmosfera de vício. Se apesar desta necessidade e daquele dever se chega por vezes à situação de serem uns obrigados à inactividade para que outros vivam, é que não temos bem organizada a vida ou não conhecemos o segredo de organizá-la melhor: repugna à natureza das coisas que o trabalho em alguma circunstância deixe de ser factor de riqueza para se converter em fonte de miséria.

Sucede por vezes os homens não compreenderem a benéfica disciplina do trabalho, revoltarem-se contra ela e pretenderem viver das riquezas acumuladas consumindo como as abelhas os favos do seu mel. Loucamente a multidão proclamará o direito à preguiça: é o mesmo que sujeitar-se à escravidão da fome e da miséria. – Não discutimos o trabalho.

Assim se assentaram os grandes pilares do edifício e se construiu a paz, a ordem, a união dos portugueses, o Estado forte, a autoridade prestigiada, a administração honesta, o revigoramento da economia, o sentimento patriótico, a organização corporativa e o Império Colonial. E pode perguntar-se como foi isso possível.

Muitos hão-de pensar que os melhoramentos materiais explicam suficientemente o caso. De facto, a estrada, a ponte, a linha telegráfica ou telefónica, o porto, o palácio alindado, o vetusto monumento reparado e enobrecido, a obra de hidráulica agrícola, os navios da Armada, a igreja da povoação caiada de branco, os muros levantados do cemitério e até o caminho ou a humilde fonte que valem para a pequena aldeia nem as obras de Leixões para a cidade do Porto, são benefícios certos, realidades tangíveis a desafiar a cegueira dos incrédulos; podem-se palpar à falta de olhos. Mas nada disso poderia de per si operar a transformação moral do País. O que foi pois?

A duas coisas se deve – à compreensão do povo e à sinceridade do Poder.







Primeiro à compreensão do povo.

Portugal, Portugal sem mais nada – curso de bacharel ou diploma de emprego público – pouco podia entender das muitas teorias políticas e sociais que aspiravam a partilhar-se o mando, nem do alcance das mudanças governamentais ou administrativas em que aliás se lhe afirmava ter intervenção decisiva. Mas cada qual sentia que de desordem em desordem tudo se afundava, e via nitidamente isto: a mulher e os filhos, a velha casa, o trabalho diário, o campo, a horta, o pinhal. Estes já foram dos pais, já foram dos avós e mesmo de outros avós pelos séculos dentro. Uns após outros desbravaram as terras, cultivaram a vinha e o milho, criaram os filhos, sofreram. A vida é áspera, há desgostos, angústias, privações, injustiças que parece ninguém pode reparar. Um ambiente de carinho porém envolve o lar e uma luz superior ilumina a existência: a velha igreja e o seu adro foram feitos a expensas de todos os vizinhos, com esmolas e trabalho; o cemitério também. Numa parte e noutra há verdadeiramente o suor do rosto, a preocupação do viver, a tradição do sangue, o patriotismo moral.

Do fundo das consciências claramente surgem estes imperativos: o trabalho na vida, a propriedade na terra, a virtude na família, a esperança nas almas.

Para além das várzeas e dos montes há outras várzeas e outros montes, onde vivem e trabalham homens da mesma raça, parentes próximos ou remotos, que falam a mesma língua, têm os mesmos sentimentos. Como quem desbrava o campo para cultivar e levanta as paredes duma casa para nela viver, há muitos séculos grandes chefes traçaram com a espada os limites e disseram: aqui se vai edificar a casa lusitana. Outros a alargaram depois. A este ideal de construir o lar pátrio, sem ingerência ou mando ou exploração de estranhos sacrificaram-se fazendas e vidas que todavia se não perderam: entraram no património comum e custa a crer que tudo fosse cegueira, loucura ou inutilidade.

Mas o homem na vida doméstica, no trabalho, na Nação, é obrigado a organizar a sua ordem. Devido ao desequilíbrio do espírito humano, a ordem não é espontânea: é preciso que alguém mande em benefício de todos e que se procure para mandar quem possa mandar melhor.

E surgem outros imperativos: no mundo, sem ódios, a Pátria; no Estado, com justiça, a autoridade.

Nada valem filosofias e filósofos ou sonhos de sonhadores contra estas realidades. Simplesmente hei-de agora emendar a frase de começo: não foi o povo que compreendeu o espírito da Revolução; foi a Revolução que soube interpretar o sentimento do povo.

O outro factor é a sinceridade do Poder: nem adulação à soberania do povo, em que não crê, nem promessas que se não cumpram, nem programas que se não realizem. O Poder só tem compromissos de doutrinas, não de pessoas, pelo que não pode ser invocada a sua autoridade ou acordo para cobrir desvios, abusos, injustiças, deficiências, que são o oposto do seu verdadeiro espírito.





Contrariamente à mentira – a escola política e sistema de governo – a verdade, a verdade nas palavras, nos actos, nas reformas, nas leis e na sua execução. E ou porque muito se foi enganado ou porque a verdade faz falta à inteligência humana, ainda que por vezes desejássemos não sabê-la, a sinceridade do Poder só tem facilitado pela confiança pública a acção governativa e dado à marcha da Revolução equilíbrio e elegância moral.

Por mais fundas que estivessem nos corações portugueses as raízes da transformação a que todos temos assistido no decurso deste período, ela não poderia realizar-se independentemente da criação de certo número de condições materiais. Falta-me agora dizer a quem se devem (e foi afinal quase só para isso que esta festa se fez): foi ao Exército.

O Governo quis que no décimo aniversário do movimento que deu origem à Revolução nacional se convidasse a Nação a prestar, nesta cidade de Braga, berço do movimento, especial homenagem ao Exército de terra e mar, representado pelos seus mais altos corpos, por uma força de Marinha e por contingentes de todas as regiões militares; solicitou do Senhor Presidente da República se dignasse como português, como general, como Chefe do Estado, associar-se pessoalmente a esta consagração. Obtendo o deferimento do seu desejo, o Governo não podia fazer mais do que fez para honrar o Exército, nem dizer mais em seu abono do que afirmando por meu intermédio que nada do que está feito se faria sem a sua intervenção.

Eram há dez anos crianças os soldados de hoje; já não vivem muitos dos soldados de ontem que gratamente lembramos na nossa saudade. Estarão aqui presentes muitos dos que então se bateram por nós todos; alguns andarão agora por longe da nossa vista e quem sabe mesmo se divorciados do seu pensamento primeiro, julgando-se divorciados apenas da nossa acção. Mas o Exército tem o segredo de manter uma mocidade perpétua e, como grande e antiga família dos mais nobres títulos, conserva e transmite tão íntegras e vivas as suas tradições, que é sempre a mesma unidade moral.

Nem quem honramos aqui são pessoas, por mais que apetecesse citá-las nesta parada solene; quem honramos é a instituição, com suas virtudes, seu valor, seus heróicos feitos, seus altos serviços à Pátria. Glória ao Exército!

SENHORES – Findam hoje dez anos que constituíram na História pátria apenas uma era de restauração; vão começar outros dez que hão-de constituir uma era de engrandecimento, a erguer sobre mais duros sacrifícios, mais altos heroísmos e mais seguras dedicações. Não desejava ir daqui sem saber quem tem coragem para nos acompanhar.

(In Oliveira Salazar, Discursos e Notas Políticas, II, 1935-1937, 2.ª Edição, Coimbra Editora, pp. 127-141).