Escrito por Orlando Vitorino
«Descritos
os meios de que a planificação da cultura dispõe, Ernesto Palma passa a
descrever os seus fins, que são a eliminação do pensamento. Mas lembra
previamente, que, ao realizar a planificação, o socialismo é um instrumento do
igualitarismo. Abona-se na demonstração que um dos epígonos de Leonardo Coimbra
faz de como o igualitarismo é o grande obstáculo à actividade do espírito ou, o
que é o mesmo, tem no pensamento o obstáculo que lhe é necessário vencer.
Enquanto o pensamento distingue, e separa para unir, as singularidades de que é
feito o real, se move do conhecido para o desconhecido e a todo o momento
transcende a realidade de que formou o conceito para a superior realidade a
conceptualizar, o igualitarismo equaciona todos os singulares e diferentes,
reduz o superior ao inferior negando o que não é redutível, até arrasar todo o
real num único plano, necessariamente o mais inferior, do qual já formou o
conceito, e aí se imobiliza.
Integrando-a
no igualitarismo, Ernesto Palma faz-nos compreender que a planificação da
cultura vai mais fundo do que a massificação das populações, do que a
uniformização política, institucional, exterior, a que o socialismo procede, o
que explica a surpresa dos socialistas ao verem-se ultrapassados pela cultura
unificada. Faz-nos compreender que a eliminação do pensamento filosófico,
artístico e científico obedece a um processo interior, talvez irreversível,
movido pelo igualitarismo. Faz-nos compreender, enfim, como a cultura planificada
realiza essa eliminação.
Para eliminar o pensamento filosófico, a planificação dá, por ele, o cientismo, isto é, a convicção de que a tecnologia trará remédio a todas as carências da existência social, e o pragmatismo, isto é, a concentração de todos os meios e esforços, não no alcance de uma finalidade, mas na resolução dos problemas de cada momento. Com isso, a planificação abafa e apaga a substância da mesma cultura, aquela imagem ou concepção metafísica, que o idealismo alemão designou por Bildung, que a cultura se destina a transmitir para consciencializar o povo, cada povo, da sua singularidade, sua identidade e seu destino. Sem esta imagem metafísica, sem a filosofia que eliminou, a cultura planificada é uma formação artificial, arbitrária e vazia.»
Ernesto Palma («O Plutocrata»).
1. Vivemos,
felizes, a época da desolação do mundo. Quem primeiro empregou a expressão foi
Leonardo Coimbra. Mais tarde, também Heidegger a veio a empregar e, depois, viu-se
ela frequentemente repetida.
Por
«desolação do mundo» entende-se a ausência de princípios, uma vez abandonados e
esquecidos os que havia, e a transmutação de valores e sua ausência enquanto a transmutação
perdura. Não se trata, porém, de uma ausência deixada pelo que se ausentou mas
há-de voltar, trata-se de uma não-presença, portanto de um vazio ou, em expressão
mais própria e recente, de um nihilismo.
A
existência, contudo, persiste neste vazio, o que se deve, decerto, a que alguma
coisa o preenche. O que o preenche, envolvendo e penetrando a existência, é a
técnica, com seu império e seus triunfos, que nenhuma metafísica ensombra, e é
o cálculo, que tudo operaliza, conformiza e totalitariza pois «a primeira regra
do cálculo é tudo calcular»[1].
Vivemos a época da desolação do mundo sujeitos ao
império planetário da técnica e uniformizados em unidades totalitárias. E
vivemos felizes porque não há princípios nem valores que nos inquietem, porque
o totalitarismo nos assegura a igualdade sem lugar para singularidade, ambições
e invejas, porque o império da técnica nos oferece os triunfos que nunca
sonhámos poder a natureza prometer-nos.
Vivemos felizes e contentes uma existência boiando,
ordenada e segura à superfície do vazio, toda ela um espectáculo em que só
velhas aves agoirentas, remexendo o cadáver apodrecido e nauseabundo de
metafísicas mortas, poderão ver o espectáculo da desolação numa ténue película
sempre prestes a quebrar-se mergulhando no vazio sem fundo que cobre a
existência que vai conseguindo resguardar.
2. Essas aves das mortas metafísicas andam, decerto, por aí cortando com seus pios sinistros o espectáculo do mundo. Mas nada alcançando contra o inabalável totalitarismo e a impassível técnica, seus agoiros são absorvidos no espectáculo onde, como aos antigos bobos nas cortes medievais, seus agoiros, denúncias e avisos se permitem e aplaudem por representarem, em irónico contraste com a euforia geral, medos lúgubres enterrados com as metafísicas.
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É assim que são lidas, editadas em todas as línguas,
transpostas para o cinema, difundidas pela cibernética, aplaudidas por todas as
populações e até ensinadas nas escolas, descrições da desolação do mundo, em
especial da existência em sociedades totalitárias controladas ou calculadas
pela técnica, que os próprios autores, temerosos, se deram ao cuidado de
apresentar como imaginárias utopias. E sendo elas universalmente aplaudidas,
louvadas e admiradas, até exaltadas pelos menos acomodados e instalados na
desolação, ninguém reconhece nelas a sua própria existência. Nem no império da
técnica a que está sujeito no Eumeswill,
de E. Jünger, ou no Admirável Mundo Novo,
de A. Huxley. Nem no «Big Brother is watching you», «imaginado» por G. Orwell,
o führer do fundamentalismo democrático que, em figura própria ou por
interpostas figuras, a todo o momento tem perante si.
Ninguém aí se reconhece porque se trata de utopias.
E pode-se, em boa consciência, aplaudir a comicidade desses intermezzos
sanguinolentos e melodramáticos do grande espectáculo do mundo porque a utopia é
coisa imaginada, por definição sem lugar no mundo, e as imaginações não são para
pensar, não quebram a regra de ouro da desolação do mundo, que é «não pensar».
3. Há, porém, quem persista em pensar. E quem faça, da
desolação do mundo, descrições que se não escondem na linguagem da utopia
perante as quais se corre o risco de pensar.
(In A Desolação do Mundo - Leonardo Coimbra e Martinho Heidegger, Bookbuilders, 1.ª edição, 2025, pp. 17-20).


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