Mostrando postagens com marcador Luís de Camões. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luís de Camões. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Viriato sabemos que se chama, / Destro na lança mais que no cajado

Escrito por Luís de Camões


[...]

Quem será estoutro cá, que o campo arrasa

De mortos, com presença furibunda?

Grandes batalhas tem desbaratadas,

Que as Águias nas bandeiras tem pintadas.


Assim o Gentio diz. Responde o Gama:

este que vês, pastor já foi de gado;

Viriato sabemos que se chama,

Destro na lança mais que no cajado.

Injuriada tem de Roma a fama,

Vencedor invencíbil, afamado.

Não tem com ele, não, nem ter puderam,

O primor que com Pirro já tiveram.


Com força não; com manha vergonhosa

A vida lhe tiraram que os espanta;

Que o grande aperto, em gente inda que honrosa,

às vezes, leis magnânimas quebranta.


Os Lusíadas (Canto VIII, 5, 6 e 7).




Estátua de Viriato em Folgosinho, conselho de Gouveia.

 

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Esta é a ditosa Pátria minha amada / ...Esta foi, Lusitânia...

Escrito por Luís de Camões



Eis aqui, quase cume da cabeça

Da Europa toda, o reino Lusitano,

Onde a terra se acaba e o mar começa,

E onde Phebo repousa no Oceano.

Este quis o Céu justo que floreça

Nas armas contra o torpe Mauritano,

Deitando-o de si fora; e lá na ardente

África estar quieto o não consente.

 

Esta é a ditosa Pátria minha amada,

A qual se o Céu me dá que eu sem perigo

Torne, com esta empresa já acabada

Acabe-se esta luz ali comigo.

Esta foi, Lusitânia, derivada

De Luso ou Lisa, que de Baco antigo

Filhos foram, parece, ou companheiros,

E nela então os íncolas primeiros.

 

Desta o Pastor nasceu, que no seu nome

Se vê que de homem forte os feitos teve;

Cuja fama ninguém virá que dome,

Pois a grande de Roma não se atreve.


Os Lusíadas (III, 20, 21 e 23).




sábado, 26 de agosto de 2023

"Amor é fogo que arde sem se ver..."

Escrito por Luís de Camões



Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente

É dor que desatina sem doer;

 

É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;

 

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo amor?

 

Luís de Camões (Rimas).


Gruta de Camões em Macau.

terça-feira, 30 de maio de 2023

A linda Inês

Escrito por Luís de Camões


Túmulo de D. Inês de Castro (Mosteiro de Alcobaça).

(...) Passada esta tão próspera vitória,

 Tornado Afonso à Lusitana terra,

A se lograr da paz com tanta glória

Quanta soube ganhar na dura guerra,

O caso triste, e digno de memória

Que do sepulcro os homens desenterra,

 Aconteceu da mísera e mesquinha

Que depois de ser morta foi Rainha.

 

Tu, só tu, puro Amor, com força crua,

Que os corações humanos tanto obriga,

Deste causa à molesta morte sua,

Como se fora pérfida inimiga.

Se dizem, fero Amor, que a sede tua

Nem com lágrimas tristes se mitiga,

É porque queres, áspero e tirano,

Tuas aras banhar em sangue humano.

 

Estavas, linda Inês, posta em sossego,

De teus anos colhendo doce fruto,

Naquele engano da alma, ledo e cego,

Que a Fortuna não deixa durar muito,

Nos saudosos campos de Mondego,

De teus formosos olhos nunca enxuto,

Aos montes ensinando e às ervinhas

O nome que no peito escrito tinhas.

 

Do teu Príncipe ali te respondiam

As lembranças que na alma lhe moravam,

Que sempre ante seus olhos te traziam,

Quando dos teus formosos se apartavam;

De noite, em doces sonhos que mentiam,

De dia, em pensamentos que voavam.

E quanto, enfim, cuidava e quanto via

Eram tudo memórias de alegria.

 

De outras belas senhoras e Princesas

Os desejados tálamos enjeita,

Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas

Quando um gesto suave te sujeita.

Vendo estas namoradas estranhezas,

O velho pai sesudo, que respeita

O murmurar do povo e a fantasia

Do filho, que casar-se não queria,

 

Tirar Inês ao mundo determina,

Por lhe tirar o filho que tem preso,

Crendo co’o sangue só da morte ladina

Matar do firme amor o fogo aceso.

Que furor consentiu que a espada fina

Que pôde sustentar o grande peso

Do furor Mauro, fosse alevantada

Contra uma fraca dama delicada?



Traziam-na os horríficos algozes

Ante o Rei, já movido a piedade;

Mas o povo, com falsas e ferozes

Razões, à morte crua o persuade.

Ela, com tristes e piedosas vozes,

Saídas só da mágoa e saudade

Do seu Príncipe e filhos, que deixava,

Que mais que a própria morte a magoava.

 

Para o céu cristalino alevantando,

Com lágrimas, os olhos piedosos

(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando

Um dos duros ministros rigorosos);

E depois nos meninos atentando,

Que tão queridos tinha e tão mimosos,

Cuja orfandade como mãe temia,

Para o avô cruel assim dizia:

 

Se já nas brutas feras, cuja mente

Natura fez cruel de nascimento,

E nas aves agrestes, que somente

Nas rapinas aéreas tem o intento,

Com pequenas crianças viu a gente

Terem tão piedoso sentimento

Como co’a mãe de Nino já mostraram,

E co’os irmãos que Roma edificaram:

 

Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito

(Se de humano é matar uma donzela,

Fraca e sem força, só por ter sujeito

 O coração a quem soube vencê-la),

A estas criancinhas tem respeito,

Pois o não tens à morte escura dela;

Mova-te a piedade sua e minha,

Pois te não move a culpa que não tinha.

 

E se, vencendo a Maura resistência,

A morte sabes dar com fogo e ferro,

Sabe também dar vida, com clemência,

A quem para perdê-la não fez erro.

Mas, se to assim merece esta inocência,

Põe-me em perpétuo e mísero desterro,

Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,

Onde em lágrimas viva eternamente.




Pente cita

Põe-me onde se use toda a feridade,

Entre leões e tigres, e verei

Se neles achar posso a piedade

Que entre peitos humanos não achei.

Ali, co’o amor intrínseco e vontade

Naquele por que morro, criarei

Estas relíquias suas que aqui viste,

Que refrigério sejam da mãe triste.

 

Queria perdoar-lhe o Rei benigno,

Movido das palavras que o magoam;

Mas o pertinaz povo e seu destino

(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.

Arrancam das espadas de aço fino

Os que por bom tal feito ali apregoam.

Contra uma dama, ó peitos carniceiros,

Feros vos amostrais e cavaleiros?



Qual contra a linda moça Policena,

Consolação extrema da mãe velha,

Porque a sombra de Aquiles a condena,

Co’o ferro duro Pirro se aparelha;

Mas ela, os olhos com que o ar serena

(Bem como paciente e mansa ovelha)

Na mísera mãe postos, que endoidece,

Ao duro sacrifício se oferece:


Morte de Policena

Tais contra Inês os brutos matadores,

No colo de alabastro, que sustinha

As obras com que Amor matou de amores

Aquele que depois a fez Rainha,

As espadas banhando, e as brancas flores,

Que ela dos olhos seus regadas tinha,

Se encarniçaram, férvidos e irosos,

No futuro castigo não cuidosos.

 

Bem puderas, ó Sol, da vista destes,

Teus raios apartar aquele dia,

Como da seva mesa de Tiestes,

Quando os filhos por mão de Atreu comia!

Vós, ó côncavos vales, que pudestes

A voz extrema ouvir da boca fria,

O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,

Por muito grande espaço repetistes.

 

Assim como a bonina que cortada

Antes do tempo foi, cândida e bela,

Sendo das mãos lascivas maltratada

Da menina que a trouxe na capela,

O cheiro traz perdido e a cor murchada:

 Tal está, morta, a pálida donzela,

Secas do rosto as rosas e perdida

A branca e viva cor, co’a doce vida.




 As filhas do Mondego a morte escura

Longo tempo chorando memoraram,

 E, por memória eterna, em fonte pura

As lágrimas choradas transformaram.

O nome lhe puseram, que inda dura,

Dos amores de Inês, que ali passaram.

Vede que fresca fonte rega as flores,

Que lágrimas são a água e o nome Amores.

 

Não correu tempo que a vingança

Não visse Pedro das mortais feridas,

Que, em tomando do Reino a governança,

A tomou dos fugidos homicidas.

Do outro Pedro cruíssimo os alcança,

Que ambos, imigos das humanas vidas,

O concerto fizeram, duro e injusto,

Que com Lépido e António fez Augusto.

 

Este castigador foi rigoroso

De latrocínios, mortes e adultérios;

Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,

Eram os seus mais certos refrigérios.

As cidades guardando, justiçoso,

De todos os soberbos vitupérios,

Mais ladrões, castigando, à morte deu,

Que o vagabundo Alcides ou Teseu.

 

Luís Vaz de Camões («Os Lusíadas», Canto III)




Juízo Final (Túmulo de D. Inês de Castro).

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Milagre de Ourique

Escrito por Luís de Camões





A matutina luz, serena e fria,

As Estrelas do Pólo já apartava,

Quando na Cruz o Filho de Maria,

Amostrando-se a Afonso, o animava.

Ele, adorando Quem lhe aparecia.

Na Fé todo inflamado, assim gritava:

Aos Infiéis, Senhor, aos Infiéis,

E não a mim, que creio o que podeis.

Os Lusíadas, III, 45



quarta-feira, 24 de junho de 2020

«Assim fomos abrindo aqueles mares, que geração alguma não abriu...»

Escrito por Luís de Camões






Luís de Camões (Padrão dos Descobrimentos).


Estas sentenças tais o velho honrado
Vociferando estava, quando abrimos
As asas ao sereno e sossegado
Vento, e do porto amado nos partimos.
E, como é já no mar costume usado,
A vela desfraldando, o céu ferimos,
Dizendo: Boa viagem! Logo o vento
Nos troncos fez o usado movimento.

Entrava neste tempo o Eterno lume
No animal Nemeio truculento;
E o Mundo, que com tempo se consume,
Na sexta idade andava, enfermo e lento.
Nela vê, como tinha por costume,
Cursos do Sol catorze vezes cento,
Com mais noventa e sete, em que corria,
Quando no mar a armada se estendia.

Já a vista, pouco e pouco, se desterra
Daqueles pátrios montes, que ficavam;
Ficava o caro Tejo e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos se alongavam.
Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam.
E, já depois que toda se escondeu,
Não vimos mais, enfim, que mar e céu.

Assim fomos abrindo aqueles mares,
Que geração alguma não abriu,
As novas Ilhas vendo e os novos ares
Que o generoso Henrique descobriu;
De Mauritânia os montes e lugares,
Terra que Anteu num tempo possuiu,
Deixando à mão esquerda, que à direita
Não há certeza doutra, mas suspeita.


Panorama arqueológico de Pafos


Citera ou Kythera no grego.



Localização de Citera na Grécia



Ilha da Madeira


Passámos a grande Ilha da Madeira,
Que do muito arvoredo assim se chama;
Das que nós povoámos a primeira,
Mais célebre por nome que por fama.
Mas, nem por ser do mundo a derradeira,
Se lhe avantajam quantas Vénus ama;
Antes, sendo esta sua, se esquecera
De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.

Deixámos de Massília a estéril costa,
Onde seu gado os Azenegues pastam,
Gente que as frescas águas nunca gosta
Nem as ervas do campo bem lhe abastam;
A terra a nenhum fruto, enfim, disposta,
Onde as aves no ventre o ferro gastam,
Padecendo de tudo extrema inópia,
Que aparta a Barbaria de Etiópia.

Passámos o limite aonde chega
O Sol, que para o Norte os carros guia;
Onde jazem os povos a quem nega
O filho de Clímene a cor do dia.
Aqui gentes estranhas lava e rega
Do negro Sanagá a corrente fria,
Onde o Cabo Arsinário o nome perde,
Chamando-se dos nossos Cabo Verde.

Passadas tendo já as Canárias ilhas,
Que tiveram por nome Fortunadas,
Entrámos, navegando, pelas filhas
Do velho Hespério, Hespéridas chamadas;
Terras por onde novas maravilhas
andaram vendo já nossas armadas.
Ali tomámos porto com bom vento,
Por tomarmos da terra mantimento.

Localização de Cabo Verde









Àquela ilha aportámos que tomou
O nome do guerreiro Santiago,
Santo que os Espanhóis tanto ajudou
A fazerem nos Mouros bravo estrago.
Daqui, tanto que Bóreas nos ventou,
Tornámos a cortar o imenso lago
Do salgado Oceano, e assim deixámos
A terra onde o refresco doce achámos.

Por aqui rodeando a larga parte
De África, que ficava ao Oriente:
A província Jalofo, que reparte
Por diversas nações a negra gente;
A mui grande Mandinga, por cuja arte
Logramos o metal rico e luzente,
Que do curvo Gambeia as águas bebe,
As quais o largo Atlântico recebe;

As Dórcadas passámos, povoadas
Das Irmãs que outro tempo ali viviam,
Que, de vista total sendo privadas,
Todas três dum só olho se serviam.
Tu só, tu, cujas tranças encrespadas
Neptuno lá nas águas acendiam,
Tornada já de todas a mais feia,
De víboras encheste a ardente areia.

Sempre, enfim, para o Austro a aguda proa,
No grandíssimo golfão nos metemos,
Deixando a serra aspérrima Leoa,
Co'o Cabo a quem das palmas nome demos.
O grande rio, onde batendo soa
O mar nas praias notas, que ali temos,
Ficou, co'o Ilha ilustre, que tomou
O nome dum que o lado a Deus tocou.


Curso e bacia hidrográfica do rio Congo ou Zaire



Ali o mui grande reino está de Congo,
Por nós já convertido à fé de Cristo,
Por onde o Zaire passa, claro e longo,
Rio pelos antigos nunca visto.
Por este largo mar, enfim, me alongo
Do conhecido Pólo de Calisto,
Tendo o término ardente já passado
Onde o meio do Mundo é limitado.

Já descoberto tínhamos diante,
Lá no novo Hemisfério, nova estrela,
Não vista de outra gente, que, ignorante,
Alguns tempos esteve incerta dela.
Vimos a parte menos rutilante
E, por falta de estrelas, menos bela,
Do Pólo fixo, onde inda se não sabe
Que outra terra comece ou mar acabe.

Assim, passando aquelas regiões
Por onde duas vezes passa Apolo,
Dois Invernos fazendo e dois Verões, 
Enquanto corre dum ao outro Pólo.
Por calmas, por tormentas e opressões,
Que sempre faz no mar o irado Eolo,
Vimos as Ursas, a pesar de Juno,
Banharem-se nas águas de Neptuno.

Os Lusíadas (Canto V)