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domingo, 15 de janeiro de 2017

...Nós Somos uma Força Destinada a Vencer...

Escrito por Oliveira Salazar








«Subsistia há três anos e meio a ditadura militar. Obedecia ao programa revolucionário do 28 de Maio de 1926. Este propunha-se restaurar as finanças portuguesas, sanear a administração, garantir a ordem pública; mas destinava-se também a liquidar um passado, criar uma nova mentalidade política e social, reformar o Estado e as instituições; e haveria, para realizar os seus objectivos, de apresentar ao país um novo projecto nacional e de suscitar em torno deste uma nova mística colectiva. Para tudo, imponha-se a definição de prioridades. Mais grave que todos, e urgente, era o problema financeiro: e este recebeu a primeira prioridade. Mas agora, dentro de uma orientação clássica, ortodoxa e severamente aplicada, estavam assentes as bases da sua solução. Resolver a questão do Tesouro e recuperar para o país o crédito perdido constituíam as premissas de uma política: não eram em si uma política. Decerto Salazar confidenciaria a Mário de Figueiredo: "agora, que já temos algum dinheiro, podemos começar a fazer alguma política". No seu discurso às forças militares, de 9 de Junho de 1928, o ministro ordenara os problemas nacionais: o financeiro, o económico, o social, o político. Mais tarde, ao submeter o seu segundo orçamento, recomendara: "a atenção e o interesse do País devem abandonar as preocupações financeiras, e ser atraídos para outros problemas da vida colectiva". Queria o ministro dizer que, esmiuçado o problema financeiro, se lhe deveriam seguir o económico e o social; e que após a resolução destes se deveria abordar a questão política. Nestas afirmações singelas continha-se um programa de governo. Pretende o ministro sugerir que, antes de tudo, haveria que administrar bem, governar bem, assegurar o bem-comum. Apenas mais tarde se deveria enfrentar o problema político: significava com isto que constituíam matéria remota a reforma do Estado e as novas instituições políticas a implantar. Simplesmente, ficava por esclarecer como se administrava bem e em nome de que ideologia ou doutrina se governava bem. De outro modo: em que consistia administrar bem, governar bem, e o que era o bem-comum? Nas suas conferências doutrinais de Lisboa, em 1922, e do Funchal e de Coimbra, em 1925, Oliveira Salazar sustentara que o Estado, ainda que o não quisesse, não podia deixar de ter um conteúdo ideológico, moral, doutrinário. E na sua entrevista às Novidades, de 1 de Maio de 1929, o ministro desvendara os grandes princípios que propunha à ditadura: inventariar os vícios e os erros da sociedade portuguesa, e extirpá-los; destruir a mentira, a hipocrisia e a injustiça social na vida colectiva; liquidar os decadentes que se revelassem incapazes de regeneração; retomar as grandes linhas da civilização cristã e latina; afirmar um nacionalismo extremado; e caldear nesta visão todos os materiais vivos do país, e todos os homens, sem curar se provinham das direitas, das esquerdas ou do centro. Em fórmulas singelas, e acaso herméticas, era um vasto programa. E subentendia pelo menos estes conceitos básicos: fomentar riqueza, para resolver o problema económico; nivelar as classes, mantendo-as sem privilegiar nenhuma, para resolver o problema social; abolir os partidos e cristianizar o Estado, para resolver o problema político. Sem que alguém se apercebesse, Oliveira Salazar retoma as encíclicas de Leão XIII; e, fazendo-as reverdecer e remoçar, mergulha nas raízes ideológicas que são as suas desde os tempos do Colégio da Via Sacra, do CADC, do Imparcial, e da nova escola de Coimbra, proclamada pelo Padre Gonçalves Cerejeira havia uma dúzia de anos. Fora um caminho ideológico e doutrinal para o 28 de Maio: e é uma revolução. Desejava-se esta, sem dúvida. Mas ao cabo de três anos e meio, a ditadura ainda procura como realizá-la. Num aspecto havia acordo entre os homens da nova situação: não se fizera o 28 de Maio para que, depois de esforços e sacrifícios, se regressasse ao passado. E no entanto, quando se interrogavam sobre o futuro, esbarravam no vácuo ideológico: sob o ponto de vista doutrinal, era indigente a ditadura. Oliveira Salazar indica a maneira de preencher esse vazio: e surge competente, lúcido, íntegro, severo: e impelido por uma fé, animado por certezas íntimas, servido por vontade sem quebras, sabia muito bem o que queria e para onde ia.

Porque revolucionária, é radical esta posição. Suscitava apoio, e mesmo entusiasmo, em largas camadas do país. Além da opinião pública, davam-lhe a sua adesão, antes de mais, os militantes católicos, os conservadores liberais, os republicanos moderados. Mercê da actuação de Carmona, as forças armadas mantinham-se fiéis à ditadura. E também a aceitavam muitos monárquicos. Mas avultava igualmente a oposição. Em círculos militares restritos, sobretudo entre os oficiais comprometidos na situação anterior, não deixava de se perguntar com insistência crescente para onde se ia. A alta roda económica e financeira, que receara os tumultos e a insegurança, e uma vez que julgava estarem restabelecidos a ordem e o crédito, hesitava em aplaudir um estado de coisas que vinha cercear os seus privilégios, contrariar os seus hábitos, retirar-lhe posições. E opunham-se por fim todos os saudosistas, os democráticos, os parlamentaristas, os partidários de uma revolução vinda da esquerda.



Teófilo Braga



Destes últimos provinha o combate mais aguerrido. Não haviam desaparecido todos os grandes chefes do regime anterior. Mas muitos estavam inutilizados, ou exilados, ou dispersos. Manuel Teixeira Gomes, antigo Presidente da República, expatriara-se voluntariamente, minado de desgosto e frustração; vivia isolado na Argélia, na cidadezinha de Bougie; abeirava-se dos setenta anos; era um ático, um clássico, um esteta; e reeditava o seu Agosto Azul, escrevia os seus Regressos, dirigia Cartas a Columbano, elaborava as suas Novelas Eróticas. Brito Camacho, acaso o maior homem de Estado potencial do seu tempo, dobrava a esquina dos sessenta e sete, e aposentara-se politicamente: compunha volumes de memórias e dedicava-se à ficção em Gente Vária e Cenas da Vida. João Chagas, homem ardente e jornalista de nervo e turbulento, está morto há quatro anos; António José de Almeida, o grande tribuno romântico e ingénuo, encontrava-se gravemente enfermo; Álvaro de Castro falecera havia pouco; e Teófilo Braga, patriarca das letras, do socialismo, e da república, tinha morrido pelos inícios de 1924, desenganado dos homens, da vida, das instituições. Mas outros grandes nomes mantinham-se activos. Bernardino Machado, duas vezes Presidente da República, abeirava-se dos setenta e oito anos; permanecia activo, todavia; e da sua casa de Beyris, no sul de França, escrevia, conspirava, intrigava. Afonso Costa está exilado em Paris: atrás de si, em Portugal, deixara um rasto de devoção fanática nalguns e de ódio cego noutros: ainda relativamente novo, com escassos cinquenta e oito anos, exerce advocacia entre Londres, Bruxelas e Paris: e do seu quarto do Hotel Vernet, ou do seu escritório no Boulevard Malesherbes e depois no Faubourg de Saint-Honoré, desenvolve uma incansável diligência política para restauração da república parlamentar. Norton de Matos, antigo ministro da Guerra e alto-comissário em Angola, vai nos sessenta e dois anos: e está exilado em Londres. E igualmente irrequietos se encontram no estrangeiro outros vultos democráticos mais novos: José Domingues dos Santos, que fora chefe do governo entre 1924 e 1925; Jaime Cortesão, nos seus quarenta e cinco anos, poeta, deputado, intelectual de primeira grandeza; António Sérgio, apenas um ano mais velho, ensaísta, pensador, nacionalista pedagógico [Quando director da Biblioteca Nacional, Jaime Cortesão reunia habitualmente no seu gabinete um núcleo de amigos: António Sérgio, Raul Proença, Aquilino Ribeiro, entre outros. Esse grupo, que pelo alto talento dos seus membros exerceu grande influência intelectual e mental, ficou conhecido pelo grupo da biblioteca, e encontrou a sua expressão política, literária e ideológica na Seara Nova]; Jaime de Morais, médico, oficial de Marinha, antigo governador-geral da Índia, e que habitava em Madrid; e outros ainda, de menor nomeada. Mas se todos estes se encontravam dispersos pelo estrangeiro, ou em contactos a distância, ou em reuniões ocasionais, outros permaneciam em Portugal. Cunha Leal, nascido como Salazar em 1889, chefiava a União Liberal Republicana, reivindicava o retorno ao parlamentarismo sem os excessos anteriores: mas era um moderado, um homem de lei e ordem: e dirigia o Banco de Angola. E Sá Cardoso, antigo chefe do governo; Adalberto de Sousa Dias, oficial distinto; Hélder Ribeiro, que fora ministro da Guerra e da Instrução; Rego Chaves, que ocupara as Finanças: todos se viam afastados dos seus postos de oficiais, mas não abandonam a oposição. Nesta atitude eram acompanhados por outros, desde Álvaro Poppe a Prestes Salgueiro, desde João Soares a Sarmento Beires, desde Agatão Lança a Utra Machado. E todos se mantinham fiéis a convicções de que não abdicam, a uma luta em que não cedem, até a sacrifícios de que não se eximem.

Simplesmente, estes homens nada possuem agora para oferecer ao país. Propunham de novo um projecto antigo: o regresso ao regime de assembleia. Mas fora este que precisamente conduzira ao 28 de Maio. Para mais, aqueles homens não assumiam, nem o dever lho impunha, a responsabilidade pessoal por erros praticados e vícios permitidos. Todavia, não tomando essa atitude, estavam por esse modo responsabilizando as instituições e a estrutura do Estado. Tornava-se portanto inviável, porque não encontraria aceitação, dar ao país o que este repudiara havia pouco. Também não podiam apresentar-se num rumo político considerado direitista: porque justamente as direitas, desde o início, haviam chamado a si a ditadura: e portanto, se o tentassem, não teriam crédito na opinião pública ou estariam a aderir à situação ditatorial. Desta forma, e com a repugnância de muitos, das suas reuniões de exílio, e dos golpes e conspirações que procuravam concertar com elementos do interior do país, emergia um esboço de república que, se triunfante, caminharia rapidamente para a extrema-esquerda, porque apenas em forças deste matiz político encontraria decidido apoio. Este facto tornava-se patente: e daqui resultava, por outro lado, que algumas forças conservadoras e centristas, que recusavam o seu aplauso à ditadura, não o davam também ao aliciamento que de fora os homens antigos procuravam organizar. Era o caso típico dos monárquicos: uma parte estava com a ditadura, na esperança de que esta repusesse o trono: outra parte, sem essa esperança, mantinha-se alheia, ou até a hostilizava, sem no entanto enfileirar com os homens do sistema anterior. E assim, se o governo ditatorial mantivesse a sua firmeza, administrasse com competência, e formulasse um novo esquema político nacional, poderia condenar ao esgotamento e ao insucesso os adversários».

Franco Nogueira («Salazar. Os tempos áureos - 1928-1936», Vol. II).







«Sigo o princípio de ordenação de Richard Bloch para uma rápida síntese do panorama geral europeu através da sua carreira nas idades: - a primeira formulação duma Europa deve-se à Igreja Católica (na Idade Média o Papa "presidia verdadeiramente a uma autêntica Sociedade das Nações); no século XVIII o espírito enciclopedista e a língua francesa substituem Roma e o latim. O humanismo europeu fixa-se com nítida base francesa. Depois da Revolução, durante o século XIX, explodem os antagonismos. "A Europa não será, dentro em breve, mais que um mosaico e os espíritos lançam-se à procura de uma unidade impossível".

Vem a Guerra. Segue-se aquilo a que chamaram a apoteose do progresso republicano e democrático. Mas logo após o fim do conflito surgem três candidatos à sucessão do velho espírito europeu: - Roma católica; os representantes do fatigado humanismo liberal; e a Internacional Comunista. Aparecem os Estados totalitários e um político da França - Blum, impotente para uma reacção, julga-se apto para uma sentença: "as férias da legalidade".

A democracia representativa e o parlamentarismo entram em crise aguda. Lenine, Primo de Rivera, Pilsudski, Alexandre da Jugoslávia, Mussolini e até Venizelos vão exercer a "ditadura", palavra ainda então limitada como designação de um "fenómeno político".

O próprio Barthélemy, apóstolo do democratismo, acentua que a nossa época é apaixonadamente interessante: "Não é um campo de ruínas; é o estaleiro onde, ao som da vibração das serras, das trolhas e dos martelos, se constrói um mundo". E referindo-se a 1914. "Então podia dizer-se que o futuro parecia pertencer às democracias. Não há hoje a mesma certeza"».

Luiz Teixeira («Perfil de Salazar. Elementos para a história da sua vida e da sua época»).


«Pode dizer-se que Portugal se antecipara, no após-guerra, a romper com o passado. Fora de início simplesmente negativa essa ruptura: antidemocrática, antiparlamentar, antiliberal. Durante dois anos, a ditadura procura administrar: ordem pública, economia nos gastos, honestidade, isenção. Mas não tem um conteúdo ideológico. Por isso o debate com a oposição processava-se em termos clássicos. Se em 1910 o conflito se trava entre Monarquia e República, em 1926 o choque produz-se entre parlamentarismo e antiparlamentarismo. Decerto: já se seguiam com atenção o riverismo espanhol e a crise profunda a que conduzira, o comunismo russo, o fascismo italiano. Mas estes totalitarismos são havidos por experiências nacionais: não tinham assumido o carácter messiânico e de vocação internacional. Por isso, de 1926 a 1930, a luta entre ditadura e oposição gira em torno de um problema simples: restaurar ou não restaurar o sistema democrático e parlamentar. Não está em causa o tipo de sociedade: discute-se a estrutura e orgânica do Estado. Desde 1930, todavia, são alterados os parâmetros da questão, e isso tanto no seio das forças que sustentam a ditadura como no daquelas que pretendem derrubá-la. Entre os homens da União Nacional, da Liga 28 de Maio, da ditadura em suma, estão os conservadores à maneira antiga, os monárquicos tradicionais, os liberais e republicanos moderados, e todos estes, educados à luz de uma Europa que vinha do século XIX, queriam ordem, paz, boa administração; mas não sabiam que espécie de ordem, de paz, de administração. No ângulo oposto, continuam a existir correntes políticas filiadas na democracia parlamentar, no republicanismo clássico, no socialismo histórico. E no entanto também estes a partir de 1930 sentiam que era de momento inviável, sem que soubessem exactamente qual a alternativa, um regresso puro e simples ao quadro político de 1926. Num campo e noutro havia que defrontar as gerações novas - as que despontam para a vida política na década de trinta - que pretendem fazer e afirmar uma opção social e ideológica já à sombra do novo debate europeu. Do lado da ditadura, o vazio ideológico é preenchido por Oliveira Salazar com princípios políticos e sociais cuja raiz é muito anterior a qualquer dos novos totalitarismos, e cuja substância é diferente da destes, e até contrária. Por isso Salazar rejeita-os, e o ideário que tem proclamado tenta manter-se fora de qualquer enquadramento internacionalista. Mas as forças que o rodeiam têm tendência a alinhar, ao menos politicamente se não ideologicamente, com o totalitarismo de direita: porque são comuns alguns valores (ideias de pátria, de ordem, de propriedade privada, de hierarquia social) e sentem naqueles amparo para subsistirem: e ainda porque são nesse sentido impelidas por uma clara opção ideológica afim. Do lado das oposições, há uma aproximação, decerto política mas também não necessariamente ideológica com o totalitarismo de esquerda: porque partilham de alguns valores, são arrastados pela ala das novas gerações que faz uma opção de esquerdas, e ainda porque julgam ver no auxílio destas a possibilidade de destruir a situação que se instala no país. Mas tanto num campo como noutro há homens a quem repugna qualquer dos extremismos: Salazar, chefe da situação que está no poder, repudia a aceitação em bloco do totalitarismo de direita; Cunha Leal, oposicionista tenaz, repele um totalitarismo de esquerdas; aquele por considerar como valor primacial a consciência cristã da pessoa humana, este por considerar sagrada a liberdade individual de expressão e de actuação; e ambos sabem que qualquer dos totalitarismos sufoca e mata aqueles valores. De todo este condicionalismo resulta que a ruptura portuguesa com o passado político e a sua inserção na Europa da década de trinta traduz um compromisso: a ditadura, nas vésperas de se institucionalizar, repudia a essência do fascismo, mas acolhe alguns dos seus princípios; nega a democracia parlamentar, mas aceita algumas das suas formas exteriores; e a oposição rejeita a substância do comunismo, mas não recusa alguns dos seus auxílios; e defende a pureza da democracia parlamentar, mas reconhece as suas limitações.










Esta ruptura portuguesa com as formas políticas do liberalismo do século XIX encontra o seu reflexo na geração que se afirma literariamente durante a década de 1930. Há grandes nomes que são figuras literárias já feitas e em pujança criadora. Na prosa, Aquilino Ribeiro tem vinte anos de letras, e acalmados os seus ímpetos de revolucionário ardente regressa do exílio a Portugal para se tornar o estilista que constrói um mundo de serranos, camponeses, de almocreves, de velhacos pícaros, que corresponderiam aos oprimidos da sociedade; Raul Brandão acaba de morrer, mas a sua obra contemplativa, cheia de humildes e esmagados, mantém a sua influência; e Ferreira de Castro, mais novo cerca de quinze anos, de capacidade literária limitada e usando um humanitarismo convencional, desfruta de largo sucesso ao traçar o quadro dos párias sociais forçados a emigrar. Na poesia, projecta-se o vulto de Teixeira de Pascoaes, com o seu saudosismo; Afonso Lopes Vieira valoriza temas românticos do lirismo tradicional; António Correia de Oliveira cultiva a poesia nacionalista; e em círculos literários restritos cita-se um nome, Fernando Pessoa, que o grande público ignora e que os admiradores consideram poeta genial. Através da prosa, do teatro e da poesia, Júlio Dantas, amaneirado, postiço e formal, atravanca o mundo das letras, e sobrevive ao manifesto anti-Dantas com que Almada Negreiros agredira o convencionalismo literário, havia mais de uma década. Estes nomes, se no plano individual fazem opções políticas e se constituem um produto do após-guerra, não reflectem todavia o debate emocional de que, simultaneamente com o debate político, a Europa está agora prisioneira. Neste particular, é o grupo da Presença que realiza a ruptura. José Régio e António de Navarro, na poesia; Miguel Torga na poesia, no conto, na novela; Adolfo Casais Monteiro na poesia, no ensaio, na crítica; Branquinho da Fonseca na novela e no romance; João Gaspar Simões no romance e sobretudo no ensaio e na crítica - aparecem como vultos fundamentais da Presença. Todos proclamam uma rebeldia de princípio em face de qualquer literatura comprometida; não escondem o seu cepticismo perante os ideais republicanos clássicos, de direita ou de esquerda; a liberdade do espírito criador é reivindicada como sacrossanta; não ocultam a sua revolta contra os valores consagrados; e, se ao seu esteticismo repugna qualquer sistema totalitário, o seu protesto contra a sociedade constituída empresta-lhes uma imagem onde há traços de um socialismo que é ao mesmo tempo liberal e patriótico. Estes homens estão mobilizando as atenções do público leitor: não fazem doutrinação política: mas a sua atitude estética implica uma recusa do ideário do Estado Novo. Na medida em que o grande debate europeu atinge Portugal, as suas simpatias, senão a sua adesão, estão com um regime político de esquerdas, sem que aceitem o seu internacionalismo, e isso dentro de uma sociedade de direitas, sem que partilhem do classicismo destas.

Para além do escol político e intelectual, no entanto, está a massa da nação. Fatigada de caos administrativo, exausta de sacrifícios, ávida de ordem e segurança, ansiosa pelos destinos nacionais, descrente dos políticos e da política, alheia a teses e especulações doutrinárias, a opinião pública encontra a sua exaltação e a sua mística num ideário nacional: o projecto de aventura, de uns ou de outros, não está afectando o cerne do país. Mas aceita a revolução, porque esta constitui um projecto de vida nova, e português».

Franco Nogueira («Salazar. Os tempos áureos - 1928-1936», Vol. II).


«Difícil é apelidarmos o regime português de democracia autoritária, como ao regime fascista chamou o chefe do governo italiano (mesmo a palavra democracia desacreditou-se ou obscureceu-se bastante para que nos importe adoptá-la). A sua característica fundamental há-de vir-lhe da organização corporativa num Estado de forte autoridade, não autoridade proveniente da força mas assente nela, na razão, na bondade, no interesse público, na consciência geral das virtudes do sistema. A moderação nos processos do governo não invalida toda a decisão e rasgo nos objectivos a atingir; não sacrificamos aos "sagrados princípios" a que não reconheçamos verdade e utilidade prática; nada nos limita senão os princípios superiores que regem a vida, a justiça e a caridade, devidas a todos os homens, e o bem da Nação [1936].

Não temos posto de lado os erros e vícios do falso liberalismo e da falsa democracia para abraçarmos outros que podem ser ainda maiores, mas antes para reorganizar e robustecer o País com os princípios de autoridade, de ordem, de tradição nacional, conciliados com aquelas verdades eternas que são, felizmente, património da humanidade e apanágio da civilização cristã [26 de Maio de 1934].

A estrutura filosófica do sistema não permite, no entanto, confusões: o conceito de limitação do Estado pela moral e pelo direito na ordem interna e pelos tratados e convenções livremente aceitos na ordem internacional; a moderação dos processos políticos; um nacionalismo saudável sem agressividade; uma extensa base moral em todas as manifestações da vida pública ou particular; o respeito pela pessoa humana e pela realização dos seus fins superiores; a cultura da vocação civilizadora da Nação que por isso mesmo se dá uma colaboração largamente humana; o espírito e tendência educativa das instituições públicas - são traços que, mesmo antes da Constituição de 1933, permitiram distinguir de ditaduras militares ou de partidos, esta ditadura a que, se me fosse permitido, chamaria ditadura da razão ou da inteligência [1936].






Estamos no limiar duma época, envoltos ainda em sombras - aurora de novo dia - e sem mesmo nos poderem servir de guia modelos estranhos pela diversidade de algumas concepções fundamentais. Eis a primeira dificuldade.

Nenhum de nós afirmaria em Portugal a omnipotência do Estado em face da massa humana, simples matéria-prima das grandes realizações políticas. Nenhum de nós se lembraria de considerá-lo a fonte da moral e da justiça sem que às suas decisões e normas se sobreponham os ditames de uma justiça superior. Nenhum de nós ousaria proclamar a força mãe de todos os direitos sem respeito pela consciência individual, pelas legítimas liberdades dos cidadãos, pelos fins que se impõem à pessoa humana. Nenhum de nós - nacionalista e amante do seu País - faz profissão de nacionalismo agressivo, exclusivo, odioso, antes, se se apega à noção de pátria, é que compreende, por instinto do coração e por imposição da inteligência, que o plano nacional é ainda o melhor para a vida e os interesses da humanidade. E no entanto, fugindo da divinização do Estado e da sua força, em nome da razão e da história, nós temos de realizar o Estado forte, em nome dos mais sagrados interesses da Nação; temos de fortalecer a autoridade, desprestigiada e diminuída, diante das arremetidas de mal compreendida liberdade; temos de dar à engrenagem do Estado a possibilidade de direcção firme, de deliberação rápida, de execução perfeita [13 de Janeiro de 1934]».

J. P. D'Assac («O Pensamento de Salazar extraído dos seus Discursos»).


«[...] os políticos portugueses exilados não desistem da sua actividade. Apelos são dirigidos a governos e organizações internacionais. São praticadas diligências junto de personalidades estrangeiras. No outono de 1931, idos dos diferentes locais, reúnem-se no sul de França, na casa de Bernardino Machado em Beyris, elementos de diversos matizes ideológicos. Estão Afonso Costa, José Domingues dos Santos, Cunha Leal, Jaime Cortesão, Jaime de Morais, outros ainda. Todos têm a queda da ditadura em Portugal como objectivo supremo, e a curto prazo. Para a luta, preconizam dois organismos: o primeiro actuaria dentro da legalidade, à luz do dia, e seria a Aliança Republicana-Socialista; o segundo, a criar, seria estabelecido no estrangeiro com o fim de desenvolver dentro das fronteiras portuguesas uma acção clandestina. Ao mesmo tempo, propõem-se angariar fundos para auxílio àqueles a quem fora fixada residência em pontos afastados no território nacional. Mas a polícia de informações está atenta; é escasso o apoio interno e externo que os exilados reúnem; e dos seus propósitos revolucionários são estéreis os resultados.

[...] Dois decretos são examinados em Conselho de Ministros. Pelo Ministério da Justiça, Manuel Rodrigues submete um diploma que regula e agrava a punição de delitos de carácter político; e pelo Ministério do Interior Albino dos Reis faz aprovar um outro diploma que, extinguindo a polícia de informações, cria e organiza a Polícia de Defesa Política e Social. Mais importante, no entanto, e mais difícil, é o problema da amnistia que o novo governo, em vésperas de dotar o país com nova Constituição, pensa conceder aos adversários políticos. Divergem os critérios: uns são favoráveis a uma amnistia larga, liberal, quase completa, salvo para os acusados de crime comum; mas outros, receosos pela segurança ou animados por ideologia extremista, manifestam-se por uma amnistia reduzida, ou até contra qualquer concessão. Circulam entre os membros do governo listas de nomes que deveriam ser exceptuados de qualquer perdão. A Salazar é proposta pelo Ministério do Interior uma lista de cinquenta e oito nomes: todos estes deveriam continuar banidos no exílio. Mas o chefe do governo corta os nomes de dez homens, que assim ficam inteiramente livres: entre estes estão Jaime Cortesão, intelectual de primeira grandeza; José Domingues dos Santos, que fora ministro do Trabalho nos dois gabinetes Sá Cardoso e nos de Liberato Pinto e Bernardino Machado, e chefe do governo, por cerca de três meses, entre 1924 e 1925; Moura Pinto, antigo oficial do Exército; João Camoezas, antigo deputado; outros ainda. A lista final, aprovada como anexo ao decreto, contém cinquenta nomes, de homens que não são amnistiados e que continuarão proscritos por dois anos [Decreto n.º 21 943, de 5 de Dezembro de 1932. À última hora foram acrescentados mais dois nomes - Manuel António Correia e Júlio Faria Lapa - que não constavam da lista submetida a Salazar]. Entre eles estão Bernardino Machado, Afonso Costa, Sousa Dias, Agatão Lança, Jaime de Morais, Sarmento de Beires, Pestana Júnior, Prestes Salgueiro, Utra Machado. E o articulado do decreto estabelece a cessação de procedimento criminal contra os indiciados na altura, e considera expiada a pena aos que se encontrem presos, que são imediatamente libertos [O decreto aplicava-se aos que por crimes políticos estivessem incursos nos arts. 1.º e 2.º do decreto n.º 21 942, também de 5-12-1932]. Por outro lado, grandes nomes do regime parlamentar, que se encontram deportados em território nacional, deixam de estar submetidos a quaisquer restrições. Regressam a Lisboa ou ao continente Hélder Ribeiro, João Soares, Rego Chaves, Sá Cardoso, Cunha Leal, Maia Pinto. Do exílio, a pouco e pouco tornam ao país Norton de Matos, António Sérgio, entre outros; mas alguns, como José Domingues dos Santos, preferem continuar no estrangeiro».

Franco Nogueira («Salazar. Os tempos áureos - 1928-1936», Vol. II).







«A Inglaterra usa a influência nos jornalistas portugueses para reproduzir panfletos e literatura de propaganda em casos de emergência. A PVDE sabia que as tipografias do Jornal do Comércio e das Colónias, por exemplo, eram utilizadas para reproduções clandestinas de panfletos de propaganda para Portugal e para Espanha, que eram em seguida distribuídos por redes próprias para o país vizinho.

As editoras eram outro dos alvos da propaganda inglesa, que as procurava influenciar através de testas de ferro. Algumas editoras eram conhecidas pela sua declarada parcialidade anglófila, como acontecia com a "Parcela A.M. Pereira", que tinha várias colecções de autores portugueses e traduções que eram propaganda disfarçada. Noutros casos, a intervenção aliada tinha de ser mais directa, como aconteceu com a "Bertrand" em 1942.

O adido de Imprensa inglês mantinha contactos regulares com a Censura, pela qual passavam os artigos dos correspondentes locais e os cedidos aos periódicos portugueses. No geral, as relações eram consideradas satisfatórias e no fim da guerra mesmo boas, excepto durante as eleições de 1945 em Portugal, quando muitos dos artigos dos correspondentes aliados são mutilados.

[...] As boas relações tinham o seu preço e as suas vítimas. Uma delas foi Armando Cortesão, um português ligado à oposição que trabalhava na BBC e que é despedido sem explicações em 1942. A razão é simples: certas cartas de Armando Cortesão criticavam a BBC por não atacar o regime português e foram apanhadas pela PVDE em Portugal; imediatamente a PVDE pede o seu despedimento e a Censura passa a ter uma atitude menos favorável aos ingleses como forma de pressão, até que estes cedem. O FO foi informado do facto e tanto Williams como Kirkpatrick "lamentam" o sucedido, mas são de opinião que Armando Cortesão deve ser despedido, sem o informarem das verdadeiras razões. FO 371 31113 C8635».

António José Telo («Propaganda e Guerra Secreta em Portugal - 1939-45»).


«[...] não findam as actividades dos exilados em Espanha: e agravam-se as relações com Madrid. Sobre o armamento fornecido àqueles, relatam pormenores António Ferro, Vasco Borges, Pereira da Rosa; e segundo Abel de Andrade a Maçonaria não seria alheia ao processo. Salazar manda fazer em Madrid os devidos reparos e protestos. E combina com José Alberto dos Reis o debate do assunto na Assembleia Nacional. Todavia, em Espanha o caso transpira dos bastidores para a arena política. Em fins de Março, o governo espanhol é interpelado no parlamento; e os grandes nomes das direitas espanholas - Gil Robles, José António Primo de Rivera, Goicochea - acusam Manuel Azaña e Casares Quiroga, ministros da Guerra e do Interior, de promoverem uma revolução em Portugal e de estarem a armar, municiar e subsidiar emigrados portugueses. E exibem peças comprovativas, emanadas de um tribunal espanhol, que procedera a averiguações. Azaña e Quiroga defendem-se; mas, subjugado pela evidência, o parlamento espanhol aprova por grande maioria os documentos acusadores vindos do tribunal. Em Lisboa, dois dias mais tarde, Mário de Figueiredo levanta o problema na Assembleia Nacional, em aviso prévio: desejava tratar da "actividade criminosa desenvolvida em Espanha pelos emigrados portugueses e dos prejuízos que dela podem advir para o sistema das boas relações que importa manter entre os dois países da Península". Desperta o debate vasto interesse na opinião pública; mas a votação anterior do parlamento espanhol retira-lhe o conteúdo emocional. Figueiredo distingue entre a nação espanhola e alguns homens: e só estes eram os responsáveis. Dada a atitude da câmara espanhola, as boas relações entre os dois países poderiam continuar como "sempre tem existido, desde há séculos". Figueiredo, todavia, não se exime de recordar e vincar os factos: "as bombas foram fornecidas pelas estâncias oficiais espanholas, superiormente cobertas pelo Sr. Azaña"; os emigrados portugueses dispunham de um posto de rádio na fronteira; e Moura Pinto, Jaime Cortesão e Jaime de Morais haviam obtido, com aprovação de Madrid, meio milhão de pesetas do banqueiro Echevarrieta. E quanto aos emigrados portugueses? Esses "procuram o apoio de homens que em Espanha representavam a ideia federalista; procuram ligações com pessoas que querem desmembrar a Espanha para nela incorporarem Portugal", e isto "é um crime de alta traição à Pátria, um acto miserável e antinacional". Garcia Pulido, Vasco Borges, Cancela de Abreu, Lopes da Fonseca intervêm em apoio e aplauso a Mário de Figueiredo. E Cancela de Abreu apresenta uma moção: esta repudia todas as modalidades de federalismo ibérico, nota as decisões do parlamento espanhol, condena a acção dos emigrados portugueses e urge o governo português a apurar da sua culpabilidade, e formula o voto de que no futuro "nenhuma sombra volte a atingir a amizade entre Portugal e a Espanha e as cordiais relações entre os seus governos". Recolhe a moção a unanimidade da Câmara».

Franco NogueiraSalazar. Os tempos áureos - 1928-1936», Vol. II).









...NÓS SOMOS UMA FORÇA DESTINADA A VENCER...


Legionários! Além do que possa significar a minha presença entre vós - pouco ou muito, vós o avaliareis - para mais não vim que para ouvir, gritada a toda a força dos pulmões sadios e do entusiasmo viril, a palavra que sôbre tudo o que pudesse dividir, nos une na mesma aspiração, na mesma luta e cremos firmemente que na mesma vitória: Portugal! Não vim para mais nada, repito, mas porque vim, terei de dizer algumas palavras, muito poucas e certamente desnecessárias para quem não precisa de encorajamentos e revela tal consciência do dever que prescinde mesmo de louvores.

Nós não somos uma força destinada só a batalhar; nós somos uma força destinada a vencer e a manter intacta a vitória; e é por isso que em cada peito legionário, em cada bandeira, em cada quartel ou acampamento há-de poder ler-se, gravada por vontade de aço, esta legenda simples: aqui não reside o temor. Vieira escreveu magistralmente: «a audácia é a metade da vitória e quem temeu ao inimigo já vai vencido». Eis onde eu veria um risco enorme; por isso, antes de apelar para o sentimento, não fujo, segundo a minha predilecção, a fazer apelo à inteligência, e desta solicito as razões de não temer.

Uma das maiores fontes do temor é a ignorância do inimigo: não saber quem seja, qual o seu número, a sua força, as armas de que dispõe, as suas posições, a direcção dos seus ataques paralisa ou enfraquece os mais esforçados ânimos. Nenhum general se arrisca a dar batalha sem ter colhido e estudado as informações mais minuciosas; e de não serem suficientes ou precisas se arriscam ou perdem muitas vitórias.

Ora a primeira vantagem que temos na luta e a primeira razão de não temer é que o inimigo - o grande inimigo a cuja sombra se agitam alguns aliados ocasionais que importa não confundir com ele - é perfeitamente conhecido; e neste ponto não tivemos nunca as ilusões que embalaram muitos outros. Nunca nos iludiu quando se esforçou por parecer pacifista em Genebra, condescendente em Londres, humanitarista em Espanha, cordato nas chancelarias, civilizado nas cortes europeias. E porque nunca nos iludiu, nada perdemos nos negócios e financiamentos, não fomos obrigados a dar foros de legitimidade à sua propaganda oficial, não sofremos o desaparecimento de homens entregues confiadamente à nossa protecção, nem sentimos o desgosto de ver passar diplomatas das recepções das Necessidades para o cadafalso dos criminosos ou dos desgraçados.

O inimigo é conhecido e não sei por que espécie de trágica cegueira se não viu que tem de sê-lo por necessidade da sua mesma existência, por lógica irremovível dos seus princípios, quando não pela natural força de expansão dos erros que acordam, no espírito dos homens, baixos instintos adormecidos ou acorrentados por séculos de civilização.

Mas não deixando já lugar a quaisquer dúvidas, atirando fora as confusões possíveis, desistindo de diáfanas separações estabelecidas e fingidamente aceites entre orgãos de Estado e organismos revolucionários, o homem que parece depositário do maior poder efectivo no Império russo, claramente, expressivamente retoma a tese da revolução universal para defesa e consolidação dos sovietes, e prega e promete ajudar a luta civil em todos países para a implantação do comunismo. Temos de reconhecer-nos obrigados!

Andam por aí uns pobres homens que por já não saberem onde hão-de ter as mãos as estendem pressurosos aos operários, aos proprietários rurais, aos donos das empresas, aos tímidos conservadores e até aos católicos e a velhos caudilhos monárquicos. E é bom que por inequívoca confissão dos responsáveis saibam todos donde vem a ordem para a guerra civil, donde é inspirado o internacionalismo contra a Pátria, o domínio estrangeiro contra a independência da Nação, a propaganda contra a beleza e o valor da vida, o ódio a Deus e ao próximo, a ditadura execranda da ininteligência e da insensibilidade moral. O inimigo é pois conhecido, e mais do que conhecido, confessado - «tu o dizes». E aqui temos a primeira razão para não o temer.




Conhecendo o inimigo e o alvo dos seus ataques, importa ter igualmente presentes a qualidade e têmpera das suas armas.

O inimigo tem do seu lado dinheiro com que procura comprar consciências e armamento, técnica com que busca vencer as dificuldades, a eterna fascinação do mal, absoluta independência de regras morais, o ódio - ódio ao homem, ao pai, ao filho, à mulher, à inteligência, à cultura, à bondade, o ódio que parece não cansar, que parece não se satisfazer nunca e desdobra sobre as nações desprevenidas o manto negro da crueldade e do terror. Armas temíveis, sem dúvida; melhores que as nossas? Não o direi: sobretudo diferentes.

A guerra não é estado permanente mas colapso da paz; o ódio não pode ser eterno, pois os corações anseiam pelo amor e rendem-se facilmente à bondade; o terror nem sempre paralisa as vontades: do paroxismo do medo brotam com o desprezo da vida rasgos de heroísmo. Para sustentar a crueldade, o comunismo tem-se visto obrigado a substituir a cada passo os algozes, convertendo estes em vítimas; e montes de cadáveres não têm evitado que sobre eles muitos outros tenham de ser lançados também.

Parece a alguns que o nosso poder ofensivo é afectado exactamente porque nem pregamos o ódio nem prescindimos de nobreza e dignidade na luta. Mas seria incompreensível que adoptássemos os mesmos processos que combatemos; nem a experiência deixou de revelar ainda a força, o ascendente especial de ter sempre razão. Fazemos constantemente apelo a sentimentos superiores, a motivos elevados de acção e de luta; haurimos da consciência recta a força com que batalhamos e tiramos das próprias veias - não de outras - o sangue dos sacrifícios; e certamente a Providência abençoa estas armas, pois temos sempre vencido.

O último motivo de não temer é conhecermos as posições que o inimigo ocupa e aquelas que se esforça por ocupar. Ele está em muita parte, sem dúvida, e até em nós mesmos, se não sabemos medir a gravidade desta hora nem cumprir todo o nosso dever. Está o inimigo ainda na repartição pública, está ainda no ensino, está ainda na imprensa, está ainda no teatro e no cinema, no boato, na má língua, no desalento dos derrotistas. Fixa-se ou muda conforme as circunstâncias e as necessidades; vai do campo para a cidade e da cidade para as aldeias em segredos alvoraçados, e propagandas dissolventes, em resistências e más vontades. Neste ou naquele momento ora se manifesta aqui, ora surge de além. Simplesmente nós também estamos, estamos sempre e em toda a parte. Estamos sempre na vigilância, na contradita, na acção; estamos em toda a parte - nos cafés, nos teatros, nos serviços públicos ou particulares, nos comboios, nas serras, nos campos, nas cidades, nas praças e nas ruas, e depois que nos mostrámos dispostos a ocupá-las, nunca mais o inimigo conseguiu apoderar-se delas.

Como poderia pois haver medo, se não há razão para o temor? E como poderia o inimigo vencer-nos, se não temos medo dele? - Eis porque desde o princípio me pareceram inúteis estas palavras.

Legionários! Quem vive? - PORTUGAL!

... O Portugal de nossos avós - de Afonso Henriques, de D. João I, do Infante de Sagres, dos Gamas, dos Albuquerques, de Camões; dos descobrimentos, da restauração; conquistador de reinos, fundador de impérios, pregoeiro e defensor nos outros continentes da civilização latina e da palavra de Cristo!

Legionários! Quem vive? - PORTUGAL!

... O Portugal de nossos pais, explorador de sertões, fundador de colónias a repetir-se e multiplicar-se pelo Mundo - pedaços da sua alma, da sua carne e do seu sangue - tirando dos revesses da fortuna, dos azares da sorte e até da desconsideração alheia a revolta e orgulho que nos transmitiu a nós!

Legionários! Quem vive? - PORTUGAL!

... O Portugal de vossos filhos, redimido no sacrifício e na dor, nas privações, no trabalho, na angústia destes calamitosos tempos, mas salvo, honrado, belo, forte, engrandecido, como o divisamos já na aurora de amanhã! (Alocução aos Legionários, no Ginásio do Liceu Camões, em 11 de Março de 1938, in Discursos e Notas Políticas, III, 1938-1943, Coimbra Editora, pp. 15-22).






segunda-feira, 1 de junho de 2015

Unidade das Forças Armadas e Consciência Nacional

Escrito por Oliveira Salazar







«... mesmo em ambiente de paz, um ponto sobressalta a sensibilidade política de Salazar: a campanha que internacionalmente se lança contra a existência de ligações de soberania entre a Europa Ocidental e territórios noutros continentes. Já há anos, em discurso público, aludira a ventos que poderiam pegar fogo à África; e em Conselho de Ministros de há tempo declarara estar no momento mais preocupado com o futuro do ultramar português do que o estivera durante a guerra. E agora Salazar verifica que se interpretam e procuram aplicar algumas disposições da Carta das Nações Unidas no sentido de pôr em causa e destruir os laços políticos que a Europa Ocidental mantém na Ásia e África; e o maior perigo reside em os Estados Unidos e a União Soviética, no seu intervencionismo, darem à Carta da ONU, naquele capítulo, uma interpretação semelhante, e no facto de a Europa parecer desejosa de alijar as suas responsabilidades pelo mundo. Perante as grandes forças, e as borrascas que desencadeiam, há que resistir até ao amainar da tempestade: e o chefe do governo procura incutir no país o ânimo apropriado, e habilitá-lo a descortinar com nitidez as realidades por detrás das aparências.

(...) E Salazar, certo de que, mais do que a de outros povos, é fugaz a memória dos portugueses, insiste nos seus temas. Em face dos erros cometidos pelos ocidentais, na sua política de guerra, a Rússia tem explorado com êxito a vitória, criando à sua volta uma rede de países em que a identidade do sistema constitui o elemento de defesa e de monopólio económico; o comunismo deixou de ser havido por doutrina filosófica ou económico-social como qualquer outra, aspirando a partilhar o poder ou a realizar no poder certo número de reformas em favor das massas; o carácter totalitário da doutrina torna-a incompatível com a civilização do Ocidente, e os partidos comunistas funcionam "efectivamente como secções de um partido que é um Estado estrangeiro"; todas as tentativas de conciliação na ordem interna ficam votadas ao fracasso; e a vastidão do império russo dá-lhe imunidade quanto ao exterior, ao mesmo tempo que se arroga o direito de intervir por toda a parte. Felizmente, desde há um ano, as potências ocidentais retomaram a iniciativa, e as vantagens têm sido evidentes. Se todos os povos, incluindo o russo, aspiram à paz, "só é política digna dos nossos esforços a que tenda e consiga evitar a guerra". Mas um conflito apenas pode ser prevenido "através de uma preparação bastante" que restabeleça "um equilíbrio de forças", de modo a tornar "a guerra negócio arriscado e grave". Ao Ocidente compete, portanto, "reforçar a sua defesa e não largar de mão as poucas cartas que, embora diminuídas, ainda lhe ficaram no desbarato final das operações militares". Esta política de se "armar para a guerra por amor da paz" exige sólidas frentes interiores, e sobre a "formação da nossa farei as minhas últimas considerações". Importa ter em conta que "o comunismo não é necessariamente um partido nem precisa de dispor de maioria: basta-lhe dispor de uma minoria, movida por uma fé e servida por uma técnica de proselitismo e de combate, técnica que é a síntese de tudo quanto a experiência e a psicologia descobriram para dominar e conduzir as massas humanas". Para se opor ao comunismo há uma tendência para depositar esperanças na repressão; mas estas são excessivas; e impõe-se sobretudo uma "acção intensiva de aliciação das inteligências à volta de um sistema de ideias que o repilam". E o chefe do governo conclui: "Tomemos sobretudo em mãos a iniciativa da campanha, porque é para mim evidente que o comunismo em Portugal só pode tomar o lugar que nós deixarmos vago na inteligência e no coração dos portugueses".

Oliveira Salazar



Torre de Belém e Fábrica de Gás (1887).










Pavilhão da Fundação na Exposição do Mundo Português (1940). Ver aqui















Porta da Fundação






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Ao centro: Manuel Gonçalves Cerejeira e Óscar Carmona (1940).




Sala de Aljubarrota (Pavilhão da Independência).













Nau Portugal



Espelho de Água









Ao centro: a Praça do Império (1940).



Pavilhão da Honra e de Lisboa



Jardim da Praça do Império (1940). À direita: Pavilhão dos Portugueses no Mundo.





No Diário de Notícias, em dois longos fundos, Augusto de Castro comenta o discurso de Salazar: E pergunta: há uma ideologia ocidental? Há: "é greco-latina, cristã, atlântica, mãe soberba de todas as grandes invenções".

(...) Paralelamente, adquire consciência e dimensão a ofensiva ideológica contra os países ocidentais. Seguindo a orientação política que já Lenine propusera, e uma vez que está organizada a defesa da Europa Ocidental, Moscovo procura contornar esta, e enfraquecê-la em áreas que ficam para além dos limites geográficos do Pacto do Atlântico. À derrota do Japão sucede o esboroamento da hegemonia ocidental no extremo-asiático; e paradoxalmente o Japão vê triunfar, naquela parte do mundo, os ideais e os objectivos por que se batera e fora esmagado. Mas outro continente está ligado à Europa: é a África: e ambos se entreajudam e são complementares nos planos económico, estratégico, político. Nesta base, a ruptura e a hostilidade entre os dois arrastam ao enfraquecimento recíproco; e este convém à União Soviética, e aos novos países cuja independência fora proclamada na Ásia depois da guerra. Para o conseguir, os adversários exploram princípios de que o próprio Ocidente é autor e lhe são caros: a dignidade da pessoa humana, os direitos individuais, a legitimidade do facto nacional, o direito dos povos a determinarem o seu destino, o consenso democrático em torno de instituições e regimes, a liberdade de expressão do pensamento. Do mesmo passo, acusa-se o Ocidente Europeu de se contradizer, e alega-se o imperialismo, a opressão, o racismo, a exploração económica a que está submetido o continente africano. Julgam os países europeus que se encontram presos de um dilema: proclamarem para si princípios que negam para outros. E a Europa, ainda exangue, perturbada, em crise moral e mental, suscita no seu seio um complexo de culpa: há que redimir os pecados, há que ser genuína no respeito e aplicação dos princípios. E entre os europeus dissemina-se uma convicção: a melhor forma de destruir as acusações consiste em aceitar a sua procedência. Se se instituir por toda a África o princípio da democracia de raiz ocidental, este facto leva por si à rejeição de regimes autoritários e assegura a continuidade da cooperação e do entendimento entre a Europa do Ocidente e a África. Para mais, uma tal solução aliviará a Europa de pesadas responsabilidades, de despesas de administração, de gastos militares para a defesa da soberania. Está-se assim perante uma situação que é, ao mesmo tempo, ideológica e de expediente político. Por parte da União Soviética, seus satélites e novos países, há o objectivo de enfraquecer a Europa, batendo-a com os seus próprios princípios, e de negar a esta o apoio e os recursos da África; e por parte do Ocidente há o objectivo de, dando razão ao adversário, frustrar as acusações deste, e manter para a Europa a cooperação da África, garantindo assim a complementaridade dos dois continentes. Conquistar ideologicamente a África torna-se fundamental; e para tanto segue-se uma política de licitação pública, numa corrida de concessões em que cada um procura exceder as dos adversários, para assim aliciar as boas graças daqueles cujo apoio busca. Está firmado o anticolonialismo.

Encontra este o seu centro impulsionador no plano das Nações Unidas, e à sombra da Carta. Para promover o bem-estar dos povos e assegurar entre as nações a colaboração nos domínios económico, social, educativo e até político, a Carta estabelece três modalidades: a Cooperação Internacional Económica e Social, regulada nos capítulos IX e X; a Declaração sobre Territórios Não-autónomos, de que se ocupa o capítulo XI; e o Sistema Internacional de Fideicomissos ou Curadorias, tratado no capítulo XII. Ao primeiro sistema, e para o executar, corresponde o Conselho Económico Social, onde se debatem os problemas económicos e sociais que afectem áreas determinadas ou grupos de nações; e ao terceiro corresponde o Conselho de Curadorias, onde se examinam as questões respeitantes a territórios sob o antigo mandato da Liga de Genebra, ou que as potências responsáveis hajam espontaneamente colocado sob curadoria internacional. Mas para administrar o sistema do capítulo XI - relativo a territórios não-autónomos - não estabelece a Carta qualquer orgão. No entanto, o anticolonialismo rapidamente aproveita a Quarta Comissão da Assembleia Geral e transforma-a no orgão de ataque às potências coloniais. Para o efeito, o capítulo XI, nos seus arts. 73.º e 74.º, é interpretado através de sucessivas resoluções como impondo às potências administrativas de territórios não-autónomos obrigações equivalentes às das potências em territórios em fideicomisso. Nestes termos, os territórios não-autónomos são havidos por colónias e da parte das potências detentoras há o dever de conduzir os seus habitantes à auto-determinação, sob a égide e fiscalização da ONU: e os membros das Nações Unidas que possuam colónias são solicitados a declarar as suas intenções e os seus planos para se alcançar aquele objectivo. Achou o anticolonialismo a sua plataforma parlamentar para a acção política.

Sede das Nações Unidas (Nova Iorque).




Desde 25 de Novembro, Salazar não tem reunido o Conselho de Ministros. Arreiga-se a sua convicção de que é pouco profícuo o trabalho do Conselho em plenário. Para mais, preocupa-o a revisão constitucional, e em particular a do Acto Colonial. Trata-se de integrar este, de forma homogénea, no corpo da Constituição. Importa acima de tudo, no entanto, resolver um problema básico: mantém-se para os territórios de além-mar a designação de colónias ou regressa-se à de províncias ultramarinas? Não é apenas vocabular a questão; e são muitas as implicações no plano interno e externo: No primeiro, a mudança supõe a ideia de integração progressiva, nos domínios económico e político, entre metrópole e ultramar, com toda uma visão nova e em grande da nação portuguesa; no plano externo, nega frontalmente as teses anticolonialistas, e portanto exime os territórios de além-mar à aplicação dos princípios proclamados pelas Nações Unidas; e finalmente, por paradoxal que parecesse a muitos, significa o abandono da noção de império e de estruturas imperiais, incompatíveis com uma integração paritária.

(...) Na tradição do direito público português e na terminologia corrente os territórios de além-mar haviam tido a designação de províncias. Esta designação é usada desde 1576 e consta de um diploma de 12 de Março de 1633; e foi transladada para as constituições liberais, desde 1820, que consideravam as províncias ultramarinas como parte integrante da Coroa portuguesa. O Título V da Constituição de 1911 designava-se: Administração das Províncias Ultramarinas. Posteriormente, a I República adoptou a designação de colónias. A abolição deste nome e o regresso ao de províncias foi assim um retorno a uma tradição de séculos. No plano internacional, o governo português foi depois acusado de inventar a expressão províncias ultramarinas e de a usar como expediente político para escapar ao anticolonialismo. Este factor teve decerto influência; mas não foi o único; e em qualquer caso não se tratou de facto de uma invenção.

(...) Este último ponto, todavia, suscita dúvidas e objecções em alguns sectores. Do Acto Colonial, por que Salazar fora responsável quando gerira as Colónias, passara-se a uma concepção imperial, a que Armindo Monteiro dera o seu esforço, quando ministro daquela pasta. Depois de demitido da embaixada de Londres e de um regresso acerbo a Lisboa, atravessara um período de ressentimento e ostracismo. Esbatida a mágoa, Monteiro reaproxima-se do governo, e pela mão de Marcello Caetano entra como procurador da Câmara Corporativa. Mas agora enfileira entre os que se opõem à conversão de colónias em províncias. Salazar encara o problema sob ângulo diverso: há que colocar o país num terreno jurídico e político que lhe permita resistir com êxito à onda de anticolonialismo. É nesta base que Salazar concebe as propostas de revisão constitucional a apresentar à Câmara Corporativa e à Assembleia Nacional e que, além do Acto Colonial, afectam outros artigos da Constituição, para os tornar conformes com a nova terminologia. Salazar concentra-se no problema com atenção e minúcia; e consulta repetidamente os seus conselheiros e numerosas personalidades ultramarinas. Pensa, reflecte, avança com lentidão. Para mais, o funcionamento da Assembleia está suspenso, e não é necessário precipitar a submissão das propostas.

Desta preocupação é distraído em meados de Janeiro de 1951. Numa viagem que o leva às capitais dos países membros do Pacto do Atlântico, chega a Lisboa o general Eisenhower, e na manhã de 17 daquele mês é recebido pelo chefe do governo.









Ver 1 e 2



Lockheed Aurora



Aurora Goldeneye



Blackbird


B2 Spirit






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Lockheed Have Blue





Parte inferior do Have Blue



F-117 Nighthawk



Um B2 seguido de dois F-117 Nighthawks
















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Ver 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7










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Avrocar (ver aqui).












Vista aérea da base militar instalada na Área 51 (1965).









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E.T.: The Extra-Terrestrial. Ver aqui







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A Estrela da Morte




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Ver 1,  2  e 3













Ver 1 e 2



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É no gabinete de S. Bento; Salazar está bem-disposto, com modo afável mas decidido, e calmo e senhor de si. Felicita Eisenhower pela designação para comandante supremo das forças do Pacto, e estima a escolha, tão lembrado como o general é desde as campanhas na Europa. Eisenhower parece intimidado: fala de locais pitorescos de Lisboa, das fotografias que tirou. Salazar pergunta que estado de espírito encontrou o general nas capitais já visitadas. Tem melhorado, afirma Eisenhower, mas há um problema psicológico: os europeus não actuam sem que os americanos entreguem os equipamentos prometidos, os americanos não entregam os equipamentos sem saber o que estão os europeus fazendo de concreto. Comenta Salazar que este lhe parece ser um problema político: se solucionado, os demais resolver-se-ão também. Depois, o chefe do governo expõe o seu ponto de vista sobre a situação actual. Foi errada a base de partida. Julgou-se ser a miséria a única fonte do comunismo. "isto é uma ilusão: o comunismo pode desenvolver-se mesmo em meios ricos ou pobres: é uma atitude de snobismo intelectual, com a pretensão de ser diferente dos demais". E assim "os milhões de dólares americanos não bastarão para o conter". Todavia, em virtude do plano Marshall, está hoje facilitada a missão do comandante supremo; agora, importa evitar a guerra, não importa vencê-la; e apenas pela força é possível evitá-la. Seriam idênticos para todos os resultados de um conflito: a destruição. "Decerto", interpõe Eisenhower, "mas se a guerra deflagrar, a última das coisas a fazer seria perdê-la". Salazar entende que pior do que a derrota é a escravidão. Por si, a "Rússia não quer a guerra"; e "não haverá guerra se for possível preparar defensivamente todo o Ocidente". Mas Eisenhower sente um receio: as correntes isolacionistas nos Estados Unidos. Homens de consequência, como Hoover ou Taft [Herbert Hoover, antigo presidente dos Estados Unidos, e Robert Taft, influente senador do Partido Republicano], desconfiam da Europa, e sustentam que a América não tem de assumir responsabilidades para além-fronteiras. Há que persuadi-los de que a Europa está pronta a dar a sua contribuição. "É muito perigosa para os próprios Estados Unidos a tese do Senador Taft", diz Salazar. Sem dúvida: mas veja-se como é aliciante: "não mais encargos, não mais impostos a pagar". Há que rebater a tese antes de conquistar muitos adeptos; e por isso Eisenhower está desejoso de ir aos Estados Unidos para "poder falar dos esforços feitos na Europa, do que viu e ouviu com os seus próprios olhos e ouvidos". Sim, conclui Salazar, a Europa está pronta, se os Estados Unidos forem firmes no seu apoio, e há ainda valores europeus desaproveitados, que o poderiam ser com benefício. Eisenhower despede-se. Mas antes de sair quer pedir desculpa de um incidente. Desculpa? Um incidente? Sim, um incidente durante a guerra. Um piloto americano, dirigindo-se a África, aterrou por engano em Portugal, e só então se apercebeu de que estava em país neutral; prometeu à torre de comando que se apresentaria às autoridades portuguesas; mas levantou voo, e fugiu. Quebrara assim a promessa, e iludiu a boa-fé daquelas. Então Eisenhower entrou em contacto com o embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, e pediu-lhe para comunicar às autoridades portuguesas que estava disposto a mandar o piloto para ser internado. Simplesmente, o governo de Lisboa responde que "esquecera" o incidente. E Salazar ri: "Ah! É que houve a intenção de não diminuir as forças de que dispunha o general!" Depois o comandante supremo visita ainda Santos Costa, Paulo Cunha, entidades militares superiores, e cumprimenta Carmona. E quando atravessa o Atlântico e, em Otava, se avista com os ministros canadianos reunidos em Conselho, Eisenhower diz-lhes: "De todos os estadistas europeus com quem conversei, Salazar parece-me o mais lúcido e avisado".






(...) Chegam a Lisboa jornalistas  do mundo e figuras de marca na política internacional do Ocidente: Dean Acheson, pelos Estados Unidos; Anthony Eden, pela Inglaterra; Paul Van Zeeland, pela Bélgica; Dirk Stikker, pela Holanda; Edgar Faure, Robert Schumann e Georges Bidault, pela França; Lester Pearson, pelo Canadá; Alcide de Gasperi, pela Itália. No Palácio de S. Bento, a 20 de Fevereiro de 1952, reúnem-se todas as delegações para uma sessão solene, sob a presidência de Costa Leite, em representação de Salazar. Paulo Cunha profere um discurso de abertura: são seus temas o Ocidente, o reforço da sua defesa, a admissão da Espanha no Pacto. No Diário de Notícias, Augusto de Castro reivindica para Portugal e Salazar a prioridade na definição de atitudes do Ocidente, que foram mais tarde perfilhadas e seguidas pelas grandes potências. Depois, são as sessões de trabalho no Instituto Técnico. São tomadas decisões básicas: a entrada definitiva da Grécia e da Turquia, como membros do Pacto; a criação de um posto de secretário-geral; o reforço do dispositivo de segurança; a mobilização de 50 divisões de combate; a atribuição de novos créditos para despesas militares. Salazar recebe individualmente os principais ministros estrangeiros. Recebe o seu amigo André de Staerck, delegado belga junto da NATO, que "deu o prazer de vir um dia almoçar comigo" mas "não me soube dar notícias do príncipe Carlos". E "pude estar três quartos de hora com Van Zeeland, que foi brilhante como sempre". É longa a conversa com Eden: conhecem-se enfim aqueles dois homens que há quase vinte anos, cortados de algumas intermitências, conduzem entre si negócios graves para Portugal e Inglaterra, mesmo para o mundo. E é também extensa a entrevista com Dean Acheson. Este sente-se surpreendido: "Fiquei muito impressionado com Portugal". Não notou tensões sociais, nem os indícios de uma ditadura; o povo parecia tranquilo, tanto na cidade como nos campos. "E fiquei especialmente impressionado quando visitei Salazar", no edifício da Assembleia Nacional. Não havia polícia, nem guardas; no gabinete, não viu telefones; Salazar não tinha papéis em cima da secretária. Salazar diz que o seu interesse consiste em equilibrar o orçamento, manter estável a moeda, assegurar pleno emprego, fortalecer e ampliar uma vasta classe média, garantir preços baixos para géneros essenciais. E industrialização? Decerto; mas com vagar e prudência, para não criar desemprego. E que retrato de Salazar fixa Dean Acheson? "Ele é uma personalidade muito forte, e agradável, de tipo português"; "A coisa mais impressionante em Salazar, são as suas mãos, extraordinariamente belas, e sempre activas enquanto fala, esculpindo no ar aquilo de que fala, como se o ar fosse feito de plástico e ele o estivesse a talhar"; "nada tem de pomposo, nem pretende impor-se"; "enterra-se na poltrona, quase fica suspenso pelos ombros, pernas estendidas, e conversa com muita facilidade e calma". E Dean Acheson estranha o gabinete, modesto embora digno, mas sem bulício, sem agitação: "o do Presidente dos Estados Unidos é um cortiço, com gente a entrar e a sair, telefones a tocar, processos e papéis por toda a parte". Salazar comenta: "Eu não poderia trabalhar assim; fazer muitas coisas ao mesmo tempo e ter a sensação de estar muito atarefado não significa realização efectiva"; quando enfrenta um problema, tem de o estudar: e "não julga que muitos telefones a tocar e muitos secretários a correr o pudessem auxiliar". Não: pondera uma questão como um navegador, com a bússola e a carta, traça o rumo; no percurso surge toda a sorte de problemas, o mar calmo, as tempestades, os escolhos; vai-os resolvendo um a um; e com bússola e carta mantém o navio no rumo certo. Acheson observa que essa é a técnica de quem espera o futuro calmamente, sem pressas; e isso faz-lhe lembrar uma velha senhora sua conhecida, para quem a coisa melhor que o futuro tinha era aproximar-se apenas por um dia de cada vez. "É isso", diz Salazar, "essa senhora é muito sábia".



A mais antiga Rosa-dos-Ventos com flor-de-lis da carta de marear de Pedro Reinel de 1504.





Rosa-dos-Ventos da carta náutica de Jorge de Aguiar (1492).




Tábua astronómica do Almanach Perpetuum, de Abraão Zacuto (1496).







Planisfério de Cantino (1502), a mais antiga carta naútica portuguesa conhecida, mostrando o resultado das viagens de Vasco da Gama à Índia, Cristovão Colombo à América Central, Gaspar Corte Real à Terra Nova e Pedro Álvares Cabral ao Brasil, com meridiano de Tordesilhas assinalado.



Planisfério de Cantino (1502). Detalhe mostrando as Américas.







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(...) Regressado aos Estados Unidos, Dwight Eisenhower apresenta a sua candidatura à Presidência, em nome do partido republicano; é eleito; e sucede a Harry Truman. No Departamento de Estado, Dean Acheson é substituído por John Foster Dulles. Tem repercussões no mundo o resultado da eleição: que política será a de Eisenhower? Em França, acentua-se a instabilidade governamental, e desta resulta uma oscilação constante da atitude de Paris. Schumann abandona os Negócios Estrangeiros, e regressa Georges Bidault; e de novo estão em causa o papel da França, na NATO, e as relações como a nova Alemanha de Konrad Adenauer. Neste particular, o debate político em França trava-se sobre a questão de manter um exército francês autónomo, ou de o europeizar numa união da Europa Ocidental, ou na estrutura da NATO; e ainda sobre o estatuto da Alemanha, que ressurge como Estado Federal, e a cooperação desta com o Ocidente. São tradicionais os receios da França perante um ressurgimento do poderio germânico; restabelecer este, todavia, parece indispensável para resistir ao expansionismo soviético; há que procurar, desta forma, o melhor enquadramento para uma Alemanha remilitarizada; e Londres e Washington, com a anuência de Bonn, inclinam-se para a entrada da nova República Federal no quadro do Pacto do Atlântico. Por seu lado os Estados Unidos, sob a orientação de Dulles, reforçam uma política de alianças para além da NATO, e destinada a conter a penetração russa; as Filipinas, a Austrália, a Nova Zelândia, a Tailândia, o Paquistão, a França e o Reino Unido dão o seu aval a essa política; e em paralelo com a NATO, é firmada a SEATO [iniciais para significar: South East Treaty Organization]. De súbito, porém o mundo é colhido por uma notícia inesperada: em 5 de Março de 1953 morre Estaline. Da reunião do presidium emana a escolha de Georgi Malenkov para lhe suceder em todos os cargos; mas, pouco após, a sua actividade fica cingida à chefia do governo; e as suas funções de secretário do partido são confiadas a Nikita Krushchev. No exterior, há a sensação de que, no plano político, está constituído um triunvirato formado por Malenkov, Beria e Molotov, e que disporia das decisões supremas: é o princípio da chefia colectiva ou colegial, apresentado como inovação na estrutura do poder soviético: e é denunciado o culto da personalidade do tempo de Estaline. Pelo mundo corre uma interrogação: vão cessar o terror, a agressividade, a subversão de terceiros países, o expansionismo imperial da ditadura estaliniana? Muitos ficam persuadidos de que a União Soviética, desaparecido o ditador de aço, vai entrar num período de distensão, de liberalismo; e entre os povos dos países satélites há sobressaltos de esperança. E Eisenhower declara: "o mundo inteiro sabe que com a morte de Estaline findou uma era".

Em Lisboa, Salazar, sempre apaixonado pela situação do mundo, não deixa de se sentir preocupado, e mesmo perplexo. Como a encara neste momento? Escreve para Bruxelas, a Eduardo Leitão: "Noto na vida internacional uma pausa, de um lado provocada por ninguém saber quais serão e até onde irão as divergências no respeitante aos negócios do mundo entre a administração Eisenhower e a de Truman, por outro lado pela mutação no governo da França que se encontra em face de uma opinião pouco disposta a aceitar o exército europeu, ou talvez mais precisamente a dissolução do exército francês no exército europeu". E quanto a ideias federalistas? "A meu ver", diz Salazar, "as ideias federalistas que parece terem sido tão do agrado de franceses e italianos e não sei se belgas e holandeses, apesar do impulso que por todas as formas lhes dão os americanos, encontram dificuldades de execução e até poucas simpatias em muitos meios, convencidos de que se trata menos de um problema europeu do que de arranjar maneira de resolver dificuldades da política francesa". Em nada disto tem Portugal que estar envolvido, mas "o caso é sobretudo desagradável porque estes vai-vens da política europeia fazem perder tempo na organização de forças e no estreitamente da cooperação económica, militar, cultural e política que, sem federação ou com federação, é possível e necessário estabelecer e reafirmar".


Estas preocupações pela defesa do Ocidente não são exclusivas de Salazar. São partilhadas por homens eminentes, da política e das letras, em muitos países do Ocidente. Há pouco fora Henri Massis, que viera desabafar junto de Salazar a sua ansiedade; e agora é a Gustave Thibon, da mesma linha ideológica de Massis e de Gabriel Marcel, que Salazar recebe, e interroga sobre a situação francesa, e de quem escuta iguais desabafos. E são também homens da política: é André de Staercke, muito ligado a Paul Spaak, que em cartas e visitas não esconde o seu pessimismo; é Van Acker, primeiro-ministro belga; é Paul Van Zeeland, que continua ministro dos Estrangeiros da Bélgica; são outros ainda. E justamente Van Zeeland acaba de convocar Eduardo Leitão e de lhe pedir para consultar o chefe do governo português sobre a conjuntura mundial, e em particular os negócios da Europa e as ideias em curso quanto ao futuro desta. Leitão tudo transmite para Lisboa, e Salazar responde à consulta de Van Zeeland no dia seguinte ao da morte de Estaline. Traça um quadro inicial: "As coisas aparecem-nos assim: os Estados Unidos, pela simplicidade do seu espírito e ligeireza das suas opiniões, não vêem para a Europa outra solução política que não seja a unidade através da federação; a França, que se nos afigura um país cansado de lutar e a quem a plena independência parece pesar, adopta a ideia como a maneira mais fácil de evitar o rearmamento alemão isolado e amanhã potencialmente hostil; as nações que se agrupam em volta da França parecem convencidas, embora por motivos diversos, de que aquele é o melhor caminho de salvar a Europa e talvez o único de assegurar o apoio americano, em potência militar ou em dólares". Desdobra depois o seu pensamento: há apenas duas realidades, que são uma ideologia americana e uma política francesa: mas a viabilidade de executar a ideia, o ambiente político e moral, os problemas económicos, estão em plano secundário, embora sejam o essencial. Por ideologia americana, entenda-se uma ideia de partido político no governo; por política francesa entenda-se a de uma fracção dos políticos franceses, porque a França, "se anseia por não ter de bater-se, também procura não ser mandada por outros"; e quanto ao receio de perda do auxílio americano, "penso que esse receio não tem razão de ser, porque a Europa é tão necessária à América como esta à subsistência da liberdade europeia". Mas "é sobre tão frágeis fundamentos que se anda a construir a federação da Europa". E essa federação é possível? No domínio lógico, é. Apenas há duas maneiras, no entanto, de a conseguir: por acto de força de um federador ou por lenta evolução que pode levar séculos. Não existe um federador: "se a Rússia puder, talvez ela o faça nos países danubianos sob a sua égide; se Hitler tem ganho a guerra, era possível que obrigasse a Europa a federar-se sob a hegemonia alemã; e pelos frutos e demoras da evolução não se quer esperar". E que pode resultar de uma federação? Resultam o abandono de terras, arrumação ou concentração de indústrias, deslocação de populações, desequilíbrios económicos, perdas de interesses e capitais: são sofrimentos sem conta, alterações profundas nas maneiras de viver e de pensar: "mas retoma-se a vida em novas bases, e no futuro, num futuro largo, pode até ser melhor para todos os que então existirem". Isto pode fazer-se pela força; não o podem fazer os políticos, ao menos de um dia para o outro, contra interesses inconciliáveis e os sentimentos das populações. Porque a verdade é que a Europa nasceu de um certo modo e tem um certo carácter; a sua diversidade, se é fraqueza, é também fonte da sua radiação universal; tem nações tão antigas que o seu nacionalismo se confunde com o instinto de propriedade; e é duvidoso que por combinações ou tratados se possa erigir o Estado Europeu. E, se se constituísse, esse Estado europeu seria por muito tempo destituído de coesão e força efectiva; "o momento óptimo para o ataque russo, se a Rússia pensasse em atacar o Ocidente, era exactamente o da constituição do Estado Federal Europeu". Essa federação, a fazer-se, far-se-ia sob a égide republicana: comportaria três grandes repúblicas (França, Alemanha, Itália) e três pequenas monarquias (Bélgica, Holanda, Luxemburgo): a força das primeiras, a dificuldade de escolha de uma dinastia comum, o desejo dos americanos, imporiam a solução republicana: e os três pequenos países teriam de se desfazer das suas instituições. Depois, há o problema colonial. Itália e Alemanha foram despojadas de tudo; os domínios ultramarinos serão integrados na federação, que herdará as colónias belgas e francesas; os que nada têm a perder são os que têm tudo a ganhar; mas a Bélgica e a França não pertencem a este grupo. Deste modo, uma federação europeia suscitará mais problemas do que resolve; constituiria por muito tempo uma construção política e economicamente frágil; por cima de sacrifícios e sofrimentos a impor às gerações actuais, a Federação poderá dispor de mais espaço, racionalizar a produção, conseguir com os territórios ultramarinos uma maior base económica para o conjunto. Acontece que, pela sua força e capacidade, será a Alemanha quem conduzirá a federação para todos os seus destinos. "Para isto, talvez não valesse a pena ter feito a guerra". E a Inglaterra? No território europeu, a Inglaterra funciona já como um estado federal; no mundo, é a cabeça de uma associação de Estados. Se a Inglaterra tomar na Europa o compromisso de um esforço total, será a perda da chefia da comunidade; e os vários Estados que compõem esta, privados daquele ponto de apoio, procurarão outros pólos de atracção. Parece desassisado que, em nome de uma unidade hipotética, se desfaça ou corra perigo de desaparecer uma outra unidade, já existente e de real valor.






Neste quadro, que posição convém a Portugal? Independentemente da aliança antiga, e considerando apenas o jogo das forças mundiais que emergem, importa a Portugal uma Inglaterra forte e independente: "quem nos dera que possa continuar a ser um factor de equilíbrio entre os Estados Unidos e uma federação europeia em que a Alemanha seja o elemento preponderante". No mais, e "se posso ser intérprete do sentimento do povo português, devo afirmar que é tão entranhado o seu amor à independência e aos territórios ultramarinos, como parte relevante e essencial da sua história, que a ideia da federação, com prejuízo de uma e de outros, lhe repugna absolutamente". Nos dissídios da Europa, raras vezes Portugal interveio; e sempre com dano de outros interesses mais altos. Se agora se compromete no Pacto do Atlântico, e para caso de ataque pelo imperialismo russo, "é que há a compreensão nítida de que esse imperialismo traz consigo os elementos destrutivos da nossa mesma razão de ser"; e por isso evitar aquele ataque "é condição necessária ao prosseguimento da nossa missão no mundo". Da Europa, interessam a Portugal a paz, o génio e espírito da civilização cristã e mais nada; e Angola e Moçambique interessam bem mais. Felizmente, são de tal relevo os Pirenéus que abrigam a Península de uma absorção ou decisiva influência; a Espanha, com as suas ligações à América Central e do Sul decerto vê mais futuro no conjunto hispano-americano do que numa federação europeia. Do debate em torno do problema, a Portugal somente interessa não ser embaraçado no seu caminho; e por isso se tem abstido de intervir em discussões públicas ou de pertencer a alguns organismos, como o Conselho da Europa e outros. Portugal sabe que não pode influir na evolução das ideias e dos acontecimentos; "mas não devemos esquivar-nos a dizer com inteira lealdade o que pensamos acerca de umas e dos outros"».

Franco Nogueira («Salazar. IV, O Ataque - 1945-1958»).


«A sede do Council [on Foreign Relations] está situada na Park Avenue, encontrando-se quase em frente à embaixada da Rússia. O Christian classificou o Council como "provavelmente uma das mais influentes organizações semi-públicas no campo das relações exteriores". O edifício em que se encontra instalado foi oferta dos Rockefeller.

Quanto à sua constituição, o referido artigo afirma que dele faziam parte "nomes de pessoas que se distinguiram no campo da diplomacia, governo, finanças, ciências, no trabalho, no jornalismo, no campo jurídico e na educação. O que reunia representantes tão numerosos e de proveniência tão variada como seus membros, foi o apaixonado propósito de reflectirem sobre a orientação da política externa norte-americana".






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George W. Bush



John Kerry




Durão Barroso




Donald Rumsfeld




Benjamim Netanyahu




George Clooney




Angelina Jolie



Hillary Clinton






Naturalmente que os membros desta organização são cuidadosamente seleccionados, sendo os escolhidos apoiados com tudo o que necessitam para influenciar o meio em que desenvolvem a sua actividade profissional e naturalmente treinados para o desempenho da missão ou missões que lhes forem confiadas. O artigo do Christian afirma que dos mil e novecentos membros "cerca de metade dos seus membros foi convidada a assumir cargos oficiais no governo ou a intervir como consultores em numerosas ocasiões".

Por sua vez no Harpers de Julho de 1958, encontra-se também um artigo intitulado Escola de Estadistas escrito por Joseph Kraft, membro da organização, que a "descreve como tendo sido o lugar privilegiado de decisões básicas do governo, como tendo determinado o contexto de muitas mais decisões e como tendo servido repetidamente de campo de recrutamento de funcionários superiores da administração".

Nesta exposição o autor revelou como "o CFR fornece aos seus membros o treino que lhes permite actuar de acordo com a linha estratégica a ser levada a cabo". Joseph Kraft esclarece ainda que a criação do CFR dentro da rede da Casa Branca se deve ao Colonel Mandell House, ajudante e confidente do Presidente Wilson e intimamente relacionado com James Green. O Colonel House revelou a criação de um organismo internacional, apoiado em poderosas forças, tendo como objectivo a implantação do Socialismo como foi sonhado por Karl Marx O quadro cuidadosamente seleccionado de apoiantes do CFR para apoiarem o Colonel House na sua acção junto do Presidente e através deste na Administração, foram Walter Lippman, John Foster Dulles, Allen Dulles e Christian Herter.

Todos eles estiveram com o Colonel House na Conferência de Paz em Paris, hóspedes dos grupos ingleses e americanos dos Round Tabletendo-se reunido em 19 de Maio de 1919 no Hotel Magestic de Paris com House, para organizarem as diferentes frentes de actuação em vários pontos do mundo.

Sobre a influência do CFR nas tomadas de posição do Departamento de Estado na política externa dos EUA, depois da guerra de 1914, bastará citar o seguinte documento inserto no State Department Publications, 2349, intitulado Report to the President on the results of the San Francisco Conference, da autoria de Edward Stettinius, Secretário de Estado: "Com a erupção da guerra na Europa era claro que os Estados Unidos seriam confrontados depois da guerra com novos e excepcionais problemas ... Consequentemente foi criada uma comissão por sugestão do CFR antes do final de 1939, para tratar dos problemas do pós-guerra (como tal 2 anos antes do EUA terem entrado na guerra). Esta comissão foi assistida por um grupo de investigadores que em Fevereiro de 1941 deu origem a uma classificação de Investigação Especial no Departamento de Estado, (todos menos um eram membros do CFR), passando os seus membros da lista de pagamento do CFR para a lista de pagamentos do mesmo Departamento de Estado".














Foi este grupo que criou as estruturas básicas das Nações Unidas [o terreno em que se encontra construída a sua sede foi oferecido por Nelson Rockefeller] e definiu as políticas de pós-guerra que levaram à entrega ao bloco comunista, de milhões de cidadãos livres, durante os sete anos que se seguiram ao final da guerra.

Em 1945, a delegação americana à conferência das Nações Unidas compreendia nada menos de 74 membros pertencentes ao CFR, estando entre eles Alger Hiss, mais tarde condenado como espião da URSS, Harry Dexter White, também agente soviético, Owen Saltimor, descrito pela Comissão do Congresso como um "consciente, articulado instrumento da conspiração internacional soviética", John J. McCloy, antigo membro da direcção do Rockefeller Chase Manhattan Bank, Harold Strassen, Nelson Rockefeller, John Foster Dulles, Philip Yesrap e Dean Acheson. Estes e 38 membros do CFR ocuparam as posições chave mais importantes, ao nível em que as decisões eram tomadas para a constituição da organização das Nações Unidas.

No eixo Morgan-Rockefeller, a família dos Lamont, cujos membros eram personalidades de relevo nos círculos do CFR e que representavam os principais banqueiros de Wall Street, desempenharam um importante e activo papel na promoção das políticas pró-soviéticas. Corliss Lamont, membro do CFR, foi classificado pelo House Un-American Activities Commitee como sendo "provavelmente o mais persistente propagandista da União Soviética que se possa encontrar em qualquer parte dos EUA"

Os Lamont e outros membros do escol do CFR estavam em estreita ligação com muitos outros programas financiados por Wall Street, naturalmente por incumbência do CFR, todos orientados no sentido de criar um clima favorável aos interesses da União Soviética. Entre os que se salientaram pela acção desenvolvida neste sentido, podem citar-se os seguintes: American Association for the United Nations, Council Affairs, Commitee for Economic Development, Business Advisory Council, Commission on National Goals, American Assembly, National Planning Association, Americans for Democratic Action.

No plano internacional, o CFR está ligado a numerosas organizações quer directa quer indirectamente, como, por exemplo, às Conferências de Bilderberg, às Pugwash Conferences, à English Speaking Union, às Pilgrims Society, todas elas controladas pelas Round Table.




















É nestas reuniões de nível internacional, que se traçam as linhas de orientação a ser inseridas na política internacional. O número dos que participam nestas reuniões, naturalmente variável, corresponde à representação mais altamente classificada dos sectores mais relevantes da vida das nações representadas: os banqueiros internacionais, as corporações que englobam as maiores empresas internacionais, as fundações isentas de taxas e as personalidades mais representativas pertencentes à organização. Estas reuniões, geralmente anuais e sem local fixo, são secretas, sabendo-se apenas sobre elas, e nem sempre se sabe o local da reunião e o nome dos participantes...».

Fernando Pacheco de Amorim («25 de Abril. Episódio do Projecto Global»).


«Lisboa, 31 de Março de 1964 - Recebi o Embaixador Anderson, a seu pedido. Veio fazer o relato da sua viagem a Angola e Moçambique, donde regressou há dias. Não fez uma descrição sequente da visita. Preferiu ocupar-se de vários assuntos sem ligação entre si. Deixei-o falar quase sem o interromper. Do que Anderson disse julgo de reter o seguinte, pela ordem por que o disse:

a) Como problema mais grave a enfrentar, temos o de criar empregos e trabalho para as novas gerações que em Angola e Moçambique estão sendo educadas. Serão necessários grandes investimentos e estes, para poderem serem atraídos, requerem a existência de ordem e paz públicas, e de razoáveis garantias contra confiscos, impostos abusivos e nacionalizações; e, além disso, de uma boa administração que assegure que o dinheiro não é desperdiçado. (O Embaixador sublinhou estes pontos mais duas vezes no decurso da sua exposição).

b) Não devemos retirar de Angola nenhuma tropa. Se possível, devíamos para lá enviar mais. Como militar, teria algumas observações a fazer quanto à táctica que seguimos. Mas fá-las-á ao general Pina, com quem se propõe avistar-se.

c) Ainda como militar, considera que o problema que temos de enfrentar em Angola é muito sério e difícil. A extensão da fronteira, e as bases e "santuários" no Congo-Leopoldville, são dados que agravam o problema.

d) Deveríamos procurar convencer o Congo, o Tanganica, a Niassalândia e a Rodésia do Norte de que era do seu interesse colaborar com Portugal, e de que no fim de contas a política portuguesa só era benéfica para aqueles países. Vincou duas vezes que julgava saber que entre nós e a Niassalândia as coisas se estavam processando já numa base de colaboração. Não comentei.






e) Tinha notado em alguns oficiais e comandantes de sectores (field commanders) a tentação de passarem ao ataque, e destruir as bases no Congo. Como militar, compreendia perfeitamente essa tentação. Mas recomendava-nos muito vivamente que resistíssemos a esse desejo natural; e sobretudo que não empenhássemos tropas de infantaria no Congo. Seria uma aventura sem fim. (Interpus uma palavra para dizer que nós éramos "wise" e prudentes, e que as nossas forças tinham instruções estritas para respeitarem a fronteira. Isso não obstava a que nos sentíssemos impacientes; e aquelas instruções não se aplicavam, evidentemente, no caso de bombardeamentos aéreos vindos do Congo. Anderson disse que compreendia muito bem este último ponto: mas ainda mesmo nesse caso entendia que devíamos retaliar com aviação e não "empenhar" tropas no Congo.

f) Visitara muitas escolas, hospitais, serviços públicos. Tudo muito bom: alguns melhores do que na metrópole. Impressionaram-no algumas empresas: a Cádá, a Tentativa: e era preciso que se multiplicassem às dezenas. Vira em Moçambique uma empresa agrícola que lhe parecia típica de exploração colonial: era uma sociedade norueguesa, cujos lucros vão para a Noruega. (Comentei que me sentia feliz por ver que os "exploradores" eram os puros, liberais e imaculados noruegueses - e não nós).

g) Falara com muita gente, brancos e negros. Todos reclamavam maior descentralização: o Governo central estava muito longe e era muito lento. Também escutou reclamações consoante as profissões: os médicos achavam que não tinham meios suficientes, os professores queriam mais escolas, etc. Mas isto era normal em todos os países.

h) Visitara a África do Sul. Não lhe ficara dúvida acerca da firmeza e determinação dos sul-africanos brancos: se os forçarem muito, Anderson julga que aqueles matarão pelo menos meio milhão de negros. Os brancos sul-africanos são bons soldados, estão bem organizados, têm excelente Polícia, são muito duros - e bater-se-ão até à morte.

i) Visitara as minas na África do Sul. Investigara como era feita a instrução dos mineiros negros. Descobrira que em sete dias, por processos modernos, aprendiam uma linguagem técnica completa que lhes permitia trabalhar com eficiência; e no mesmo espaço de tempo, e através de testes simples, os sul-africanos determinavam os "leaders" ou capatazes que dirigiam os grupos de mineiros. Tudo os negros aprendiam com facilidade. E pensara: que perigo tremendo representam aqueles homens se forem ensinados a serem guerrilheiros!




África do Sul



j) Estivera no Quénia. Ficara desapontado: o Governo era constituído pelo bando (outfit) que dirigira o "mau-mau"; mas isso não era suficiente para governar um país. Falara com Mboya: achara este muito hostil contra Portugal. Mboya afirmara não ser possível tolerar a humilhação portuguesa, e perante uma pergunta do embaixador exemplificara tal humilhação referindo um qualquer caso de arbitrariedade de que tivera conhecimento em Moçambique, cometido por um chefe de posto, e de que ficou de enviar documentação a Anderson, para destruir a incredulidade que este expressara. (Observei que, segundo voz corrente em África, Mboya era uma "criatura" americana. Anderson disse que não sabia).

k) De conversas e investigações ficara com a impressão de que no Tanganica e um pouco por toda a África as condições eram idênticas às do Quénia. Uma coisa compreendera: as nacionalizações forçadas eram uma forma de "aguentar" as economias durante algum tempo, e iludir a má administração: mas ao cabo de um ou dois anos a "fachada" tinha de estalar. Além disso, percebera que não há unidade africana: só contra Portugal e a África do Sul estão unidos; mas isso não tem importância; não tem importância o que faça ou diga a Tunísia ou a Argélia: se nos entendêssemos com os vizinhos, isso para nós bastaria. (No meio do que precede, Anderson exclamou, ansioso, para mim: "Não cite estas críticas que eu faço aos países africanos!". Assegurei a Anderson que eu não citaria).

l) Ficara convencido de que uma declaração de princípios, da nossa parte, não satisfaria os africanos: no dia seguinte exigiriam a independência imediata de Angola e Moçambique. Apesar disso, continuava a pensar que devíamos fazer a declaração segundo as linhas que há tempo nos sugerira. Também pensava que devíamos renovar as conversas com os africanos: não levariam a nada, provavelmente; mas ganhávamos tempo e influenciaríamos talvez alguns mais moderados.

m) A uma pergunta minha, declarou que nunca se sentira inseguro em Angola ou Moçambique: se tivesse levado a sua mulher e filhas passeariam com ele por toda a parte sem receio. Também se admirara da falta de protecção de algumas autoridades, embora notasse que nalguns casos polícias ou jeeps armados estavam próximos dos locais onde se encontravam governadores: mas isto era normal em qualquer parte.

n) Podíamos estar orgulhosos do que estávamos fazendo no Ultramar: não interessava averiguar se podíamos, ou não, ter feito há mais tempo o que estávamos fazendo. Encontrara funcionários da mais alta competência e dedicação. A organização portuguesa do programa da visita e execução que lhe proporcionáramos haviam sido perfeitas. Ia escrever dezenas e dezenas de cartas a agradecer as atenções recebidas.

o) Das conversas no Quénia e de outras informações concluíra que os africanos eram fanáticos, e que nós tínhamos de enfrentar esse fanatismo. (Observei muito calmamente que nós em matéria de África também éramos fanáticos. Anderson olhou para mim com ar muito sério, e com alguma relutância disse: "It is true").

p) Como lhe perguntasse se, como eu previra antes da sua partida, entendia agora melhor Portugal e a política portuguesa, Anderson respondeu que sim: a sua viagem fora imensamente instrutiva. Está claro que alguma imprensa lhe atribuíra declarações que não fizera e opiniões que não exprimira. Mas isso não tinha importância.





q) Perguntei-lhe se, perante as realidades que observara em Angola e Moçambique, compreendia melhor o nosso ressentimento para com as Nações Unidas, e se concordava comigo quanto à nenhuma ligação entre o que se dizia na ONU e o que existia e se passava no Ultramar português. Anderson comentou que decerto compreendia melhor: mas havia uma ligação entre a ONU e a nossa África e consistia no facto daquela ir continuar com a sua pressão sobre nós. Um pouco desligadamente, e com veemência, Anderson afirmou: "Os Estados Unidos não vão mudar a sua política". Depois, aludiu à necessidade de aumentarmos a nossa campanha de "public relations" nos Estados Unidos, e até no Mundo. Muito havíamos feito: mas havia que fazer mais e em novos meios. Anderson sublinhou este aspecto mais de uma vez.

r) Talvez devêssemos fazer uma declaração quanto ao regresso dos "refugiados" do Congo a Angola, e permitir a sua actividade dentro do rigoroso cumprimento da lei e estrito respeito pela ordem pública. (Não percebi, nem procurei esclarecer o que Anderson quis dizer: mas ficou-me a impressão de que não se referia ao chefe da UPA mas aos supostos "moderados" de outros movimentos).

s) Como eu falasse da visita a Cabinda, e dissesse que se tratava de território ainda subdesenvolvido, Anderson logo afirmou com incontida alegria: "muito subdesenvolvido!".

t) Anderson, à saída, manifestou o desejo de dentro em pouco se avistar com o presidente do Conselho».


Franco Nogueira («Diálogos Interditos. A Política Externa Portuguesa e a Guerra de África», II Volume).


«Consoante asseveram os peritos em línguas africanas, Mau Mau é um termo de proveniência incerta. Algumas pessoas garantem que é o termo kikuyu para designar um grupo de montes que ladeiam o vale do Rift e o lago Naivasha, no Norte do Quénia, enquanto outros dizem que é uma rude aliteração do grito de guerra dos Kikuyu. Há uma terceira interpretação, que afirma que Mau Mau é uma invenção inglesa, destinada não só a designar os rebeldes, como a convertê-los em demónios. Num documentário da televisão inglesa, transmitido no Channel 4, How Britain Crushed the Mau Mau Rebellion, o professor Londsdale, historiador, salientou o modo como o governo britânico descreveu pela primeira vez os Mau Mau: "o brotar da velha África não conformada, que ainda não recebera a suficiente iluminação e disciplina colonial, o que provava que o colonialismo ainda tinha trabalho a fazer". Por outras palavras, os Mau Mau eram pouco mais que selvagens, propensos ao tumulto e à destruição.

Lago Naivasha




Localização do lago Naivasha





Quénia



Seja qual for a proveniência do termo Mau Mau - seja uma forma de demonização ou o grito de guerra kikuyu - crê-se que o grupo tenha sido criado entre 1947 e 1952, com um único objectivo: libertar o Quénia do colonialismo, a qualquer preço. Na prática, os Mau Mau envolveram-se numa campanha de violência terrorista anticolonial, durante a qual morreram muitas pessoas, tanto europeias como africanas.

Tinha existido, desde sempre, uma minoria de quenianos que cooperavam com o governo colonial e que, portanto, beneficiavam do domínio colonial. Transformar esses grupos em alvos (na maior parte viviam e trabalhavam no distrito de Nyeri da Província Central) foi uma tarefa relativamente fácil e, subsequentemente, vieram a morrer muitos "colaboradores" negros. Contudo, pelo menos no início, a violência Mau Mau dirigia-se contra os colonos brancos - violência que se reflectia nas cerimónias de iniciação do grupo. Nessas cerimónias fazia-se uso extensivo da simbologia ancestral e da magia negra em conjunto com o número sete que, para o Kikuyu, possui um profundo significado e está directamente ligado aos rituais de iniciação sagrados.

Escrevendo extensivamente sobre essas cerimónias de iniciação no seu livro sobre os Mau Mau e baseando grande parte do seu trabalho na pesquisa original efectuada pelo escritor L. S. B. Leakey Fred, Majdalany descreve um desses rituais:

"Está bastante escuro e ordenam-lhe [ao iniciado] que tire a roupa. Na escuridão, é empurrado e recebe o primeiro choque quando o seu corpo nu é esfregado pela linha exterior de um arco. É absolutamente inesperado, mas ele sabe que se trata do arco de cana-de-açúcar e folhas de bananeira, através do qual terá de passar durante a sua iniciação à idade adulta [...] Agora irão trabalhar rapidamente sobre ele. Vão-mandá-lo comer um pedaço de carne sacrificial, que lhe comprimem contra os lábios. Este gesto será repetido sete vezes e depois de cada uma delas terá de repetir um juramento. Em seguida, os lábios serão tocados com sangue sete vezes, sendo o voto repetido após cada toque. Então, um recipiente com sangue é passado sete vezes em volta da sua cabeça; ser-lhe-á ordenado que espete sete espinhos numa maçã-de-sodoma e que fure o olho de um carneiro".

Esta mistura entre o sagrado e o profano tinha um efeito prolongado sobre os iniciados, que normalmente eram completamente sobrepujados pela cerimónia. "Costumamos beber o voto", admitiu um rebelde ex-Mau Mau, chamado Jacob Njangi. "Jurámos que não permitiríamos que o homem branco nos governasse para sempre, que lutaríamos contra ele até ao último homem, para que o homem possa viver em liberdade".






Estandarte presidencial de Jomo Kenyatta




Majdalany fez uma lista do conjunto de votos que acreditava que os iniciados Mau Mau eram obrigados a fazer:

a) Que este voto me mate, se eu alguma vez revelar os segredos desta organização.

b) Que este voto me mate, se eu alguma vez ceder qualquer terra kikuyu a um estrangeiro.

c) Que este voto me mate, se eu alguma vez trair Kenyatta, nosso grande líder.

d) Que este voto me mate, se alguma vez der informações contra qualquer membro desta organização que roube os europeus.

e) Que este voto me mate, se alguma vez deixar de pagar as quotas desta organização.

As mortes que decorriam da falta de cumprimento destes votos eram extremamente selváticas. Muitos dos corpos de antigos Mau Mau que foram descobertos tinham ferimentos característicos do ritual de mutilação praticado pelos Kikuyu. Contudo, apesar do derramamento de sangue, ou talvez por causa dele, cada vez era maior o número de pessoas que se juntava aos Mau Mau, que até aí tinham crescido livremente; a sua ilegalidade foi decretada em 1950. Em Agosto desse ano, a Kenya's Internal Security Working Commitee (Comissão de Trabalho para a Segurança interna do Quénia) tinha sido encarregada de avaliar a questão da rebelião. O relatório que produziu constituiu uma denúncia corrosiva dos Mau Mau, definida do seguinte modo:

"Trata-se de uma sociedade secreta kikuyu, que provavelmente é outra manifestação da extinta Kikuyu Central Association. Os seus objectivos são antieuropeus e a sua intenção é desapossar os europeus das White Highlands. Os adeptos fazem o voto de não fornecer informações à polícia, podendo também jurar a não obediência a determinadas ordens do Governo. Suspeita-se de que alguns dos seus membros, a trabalhar nas propriedades dos europeus, aderem a uma política de 'lentidão', podendo inclusivamente ter cometido pequenos actos de sabotagem nessas propriedades. Acredita-se que as perseguições consecutivas e bem sucedidas que têm sido efectuadas contra esta sociedade, impediram o seu crescimento ou, pelo menos, levaram à diminuição do recrutamento forçado de novos aderentes. A força da organização depende da extensão do poder latente em todas as sociedades secretas, que as leva a serem mais temidas do que as forças da lei e da ordem".


Soldados britânicos à procura de guerrilheiros Mau Mau.



Malgrado o reconhecimento do problema e malgrado o facto de os Mau Mau terem sido declarados ilegais, durante o mês de Janeiro de 1952 continuaram a surgir relatórios sobre "cerimónias de juramento", não só no Norte do território queniano, como também no distrito de Nairobi. As circunstâncias eram desesperadoras, embora o governador colonial da época, Sir Philip Mitchell, reconhecido perito em assuntos africanos, não parecesse preocupado. No seguimento do relatório da Comissão de Trabalho para a Segurança, afirmou desembaraçadamente que os Africanos não passavam de um povo primitivo e, como tal, o que podia esperar-se que fizessem senão atolar-se na magia negra e nas cerimónias votivas? Por volta de Fevereiro de 1952, os acontecimentos tinham-se agravado, com relatos de várias colheitas incendiadas em terras pertencentes aos colonos brancos. Mas os ataques não se limitavam às plantações de café dos brancos - existiam relatórios adicionais de violência dos Mau Mau nos subúrbios de Nairobi habitados por brancos. Em Maio de 1952, os relatórios dos serviços secretos sugeriram que o conteúdo dos juramentos dos Mau Mau tinha começado a mudar de carácter - afastando-se do juramento geral de violência contra os colonos europeus, passando a ameaças mais especificas de assassinato contra indivíduos identificados. As práticas votivas estavam também a ser assumidas a uma escala cada vez maior, com a ocorrência de cerimónias de iniciação maciças, que envolviam grupos de oitocentas pessoas. Os kikuyu que não fizessem o juramento ou que não delatassem os que o não haviam feito eram sumariamente mortos ou mutilados.

A 25 de Setembro de 1952, foram atacadas cinco propriedades pertencentes a brancos. As construções exteriores foram completamente queimadas e mais de quatrocentas cabeças de gado bovino e ovino foram mutiladas ou mortas. Com todos estes acontecimentos, seria de esperar que o governador Mitchell mudasse de táctica, mas isso não aconteceu e continuou a negar a existência de um problema grave no Quénia. Só depois de ele ter abandonado o país (com uma autorização de partida definitiva) é que foram tomadas medidas sérias para combater os Mau Mau.

O novo governador, Sir Evelyn Baring, foi um homem que, logo que chegou ao Quénia, procedeu a uma intensiva visita de uma semana a todo o território. Chegara ao seu conhecimento que, só no mês anterior, os Mau Mau tinham assassinado quarenta pessoas e que começavam a adquirir grandes quantidades de armas de fogo. Baring concluiu rapidamente que o único remédio para a situação seria declarar o estado de emergência em grande escala, acompanhado pelo aumento do número de efectivos do exército britânico.

(...) Após a declaração do estado de emergência, os acontecimentos sucederam-se rapidamente; o governo queniano empreendia todos os esforços para suprimir os Mau Mau e proteger os cidadãos brancos. Kenyatta foi enviado para Kapenquria e colocado sob forte vigilância armada, esperando pelo julgamento (em 1953, foi sentenciado a sete anos de prisão com trabalhos forçados); foram também aprisionadas mais cento e doze pessoas, igualmente suspeitas de envolvimento com os Mau Mau. Na manhã do dia 22 de Outubro, os cidadãos de Nairobi ficaram alarmados ao constatarem que a cidade estava a ser patrulhada pelos fuzileiros Lancashire e, no dia seguinte, o cruzador Kenya, da Marinha Real britânica, chegava a Mombaça, transportando um destacamento de fuzileiros navais, também destinados a suprimir qualquer actividade Mau Mau naquela cidade.

Contudo, apesar das prisões em massa efectuadas em Nairobi e nas áreas circundantes, rapidamente se constatou que os Mau Mau continuavam a fortalecer-se. Um chefe kikuyu, favorável aos objectivos da administração britânica, tentou desmantelar uma cerimónia votiva dos Mau Mau, o que lhe valeu ser despedaçado pela multidão a golpes de catana. Pouco depois, os Mau Mau fizeram a sua primeira vítima branca, um fazendeiro chamado Eric Bowyer. Bowyer vivia com dois criados africanos numa propriedade isolada. Enquanto estava a tomar banho, os rebeldes Mau Mau entraram em casa e mataram os seus três ocupantes. Actos deste tipo continuaram a ocorrer de vez em quando, provocando na administração uma sensação de frustração e impotência. Aparentemente, os seus problemas dividiam-se em três categorias. Em primeiro lugar, constatava-se uma aguda falta de informações que indicasse a estrutura organizativa dos Mau Mau, o seu grau de armamento e as intenções que tinham. Isso significava que as forças governamentais se sentiam incapazes de planear uma estratégia adequada à aniquilação dos rebeldes. Em segundo lugar, as forças armadas que operavam no Quénia provinham de vários ramos. Havia os militares ingleses, os militares coloniais, uma polícia tribal civil extremamente deficiente em pessoal e uma unidade de polícia tribal desarmada. Por fim, todas as unidades acima citadas operavam independentemente umas das outras e a organização da sua coordenação era deficiente».

Shelley Klein («Sociedades Secretas»).



Os Gansos Selvagens é um filme britânico de 1978, no qual se procura retratar a imagem do mercenário num contexto colonial africano.  Ver aqui



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Sir Roger Moore



















Richard Burton





















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Stewart Granger








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«No fundo, [o 25 de Abril de 1974] não passou de um pequeno episódio num percurso que se pretende que conduza à formação de um Governo Mundial, que já tem no seu activo um número elevado de vitórias e de vítimas».

Fernando Pacheco de Amorim («25 de Abril. Episódio do Projecto Global»).


«... A ONU tem-se revelado um fracasso total. A sua inércia em relação ao problema do Ruanda e do Burundi em 1994, para citar apenas dois exemplos, acabou por desafiar todos os princípios éticos por traição aos imperativos da paz mundial e ainda hoje levanta inúmeras interrogações. Quando aqueles países africanos entraram em colapso e se transformaram em verdadeiros açougues humanos [pois dizimaram-se centenas de milhares de civis tutsis e hutus], a ONU limitou-se a guardar silêncio e os seus esfíngicos diplomatas a balbuciar explicações hipócritas depois de pressionados pela opinião pública mundial. Nem mesmo confrontada com factos terríveis foi capaz de adoptar uma resolução que condenasse os cabecilhas de tamanha criminalidade. Paul Kagame e Yoweri Kaguta Museveni, presidentes do Ruanda e o Uganda respectivamente, estão arrolados em relatórios da ONU e em querelas judiciais em Espanha como instigadores das atrocidades. Nenhum deles, porém, foi citado a comparecer até hoje diante do Tribunal Penal Internacional para o Ruanda. Continuam a gozar de tal impunidade. Recentemente vieram a público nos Estados Unidos denúncias contra a administração Bill Clinton pelo seu envolvimento no golpe de Estado terrorista de 6 de Abril de 1994 que mudou o regime político no Ruanda e pelo "apoio técnico" aos criminosos tutsis da Frente Patriótica Ruandesa [FPR], chefiada pelo general Kagame. Pelo que se supõe, estas revelações não perturbaram a comunidade internacional.

De então para cá o que se tem visto? Os EUA reforçaram a sua presença na sub-região dos Grandes Lagos por meio de bases militares, o regime ditatorial de Museveni converteu-se no seu principal aliado e o Uganda numa porta de entrada das armas americanas em África. É com tais armas, e com o apoio de Kampala e Kigali, que as milícias interhawme, agrupadas nas Forças Democráticas de Libertação do Ruanda [FDRL] invadem a RDC a pretexto de proteger as populações ruandófonas e destruir os acampamentos de insurrectos hutus, que são acusados de cumplicidade com Kinshasa e de ataques contra o Uganda e o Ruanda a longo da fronteira.

Mais: o Uganda não se transformou somente numa placa giratória de entrada de armas, mas outrossim num centro de escuta norte-americano na região. De acordo com o semanário queniano The East African, a Agência Central de Inteligência [CIA, pelas siglas em inglês] instalou na região ocidental do país, no primeiro trimestre de 2005, uma moderna base de espionagem situada em Fort Portal, ao sul do Lago Albert, de modo a permitir às forças militares estadunidenses intervenções rápidas na RDC se a situação assim o exigir. Quanto à presença militar, os EUA justificam-na à sua maneira dizendo - pela voz de Cindy Courville, directora americana para os Assuntos Africanos no Conselho de Segurança das Nações Unidas, em Washington - que a administração George W. Bush apenas procurou ajudar o governo de Museveni a neutralizar as rebeliões internas que lhe fazem guerra há vinte anos, a saber: o Lord's Resistance Army [LRA], sob o comando de Joseph Kony, que integra adeptos acholi da seita fanática do Espírito Santo e concentra as suas acções no norte do Uganda, em área próxima à fronteira com o sul do Sudão; o Allied Democratic Force [ADF], no sul; e o West Nile Bank Front [WNBF], a oeste. Porém, a rebelião que mais preocupa a sociedade internacional é a de Joseph Kony pelos abalos que provoca no Poder político ugandês e pelas matanças em larga escala praticadas contra a população civil.

Ruanda



Burundi




Uganda



Claro que, para lá destas falsas razões, o que se joga no Congo é uma carta geopolítica complexa e altamente explosiva. Ali digladiam-se os interesses da cleptocracia neoliberal internacional que cobiça e disputa áreas económicas vitais, as mais ricas do planeta, em cujo subsolo se escondem minerais estratégicos [já classificados de "escândalo geopolítico], como o cobalto, o ouro, diamantes, manganês, tório, cádmio, urânio, mas sobretudo coltán [utilizado na indústria de produtos electrónicos e centrais atómicas].

Efectivamente são estas disputas que trazem o Congo debaixo de uma permanente instabilidade e concorrem para fragmentar o seu vastíssimo território. A pouco e pouco, a continuar este cenário, o Estado, já em colapso, deixará de existir porque perde o monopólio da coerção legítima e, no seu lugar, despontarão exércitos rebeldes e empresas de segurança privadas [como de resto já está a acontecer] que, armados e agrupados etnicamente, sem nenhum respeito pelo direito, ditarão as suas leis particulares e apenas reconhecerão "lealdade" a um ou a vários senhores da guerra, umbilicalmente ligados aos cartéis transnacionais da droga e de outras mercadorias. A distinção entre guerra e crime tenderá a desaparecer e, neste vazio, cada vez menos política e mais conflitos primitivos de pilhagem em territórios alheios, conforme o diz o jornalista e ensaísta político americano Robert Kaplan no seu livro À Beira da Anarquia».

Carlos Pacheco («Angola. Um gigante com pés de barro e outras reflexões sobre a África e o mundo»).





UNIDADE DAS FORÇAS ARMADAS E CONSCIÊNCIA NACIONAL


DISCURSO PRONUNCIADO POR SUA EXCELÊNCIA O PROF. DOUTOR OLIVEIRA SALAZAR, NO ACTO DE CUMPRIMENTOS DAS FORÇAS ARMADAS, EM 28-5-1962



Senhores Ministros e Senhores Oficiais


Desculpar-me-ão que não me demore a agradecer em nome do Governo os cumprimentos que me foram presentes, para me deter uns minutos a considerar dois tópicos das palavras aqui ouvidas - unidade das forças armadas e consciência nacional, a mesma consciência que as impeliu a tornar possível uma nova ordem de coisas em 28 de Maio de 1926.

Direi primeiro que me parece não haver força armada sem unidade e esta revela-se tanto na simples presença como na actuação efectiva. É pela unidade que um Exército se distingue de um bando armado e que a sua acção, mesmo quando devastadora, pode ser no final construtiva, se reflecte uma disciplina e assegura ou edifica uma ordem. Mesmo reduzida ao mínimo do seu conteúdo possível, a unidade da força armada exige um substrato moral e na realidade das coisas a adesão espiritual à Pátria. Quando a nação se apague dos espíritos como o primeiro valor a defender, não há soldados, não há exército, mas indivíduos que não sabem que fazer das suas armas. A unidade nacional é condição da unidade de Exército; por sua vez o Exército é o último quadrado que nas crises mais graves defende o destino e a consciência da Nação. - Estes conceitos explicam muita coisa da história do nosso tempo.

Na confusão de ideias em que vivemos hoje, já admitem alguns que só um grande Estado se arrogue o direito de estruturar uma nação; os mais Estados e as mais Nações haviam de dissolver-se ou diminuir-se no reconhecimento dessa unidade, subordinando-se-lhe inteiramente e submetendo-se à sua direcção. Daqui vem que no credo comunista o nacionalismo é para todos um pecado e para a Rússia uma virtude que se deve venerar. A forma porém como se previu e verifica a evolução dos acontecimentos tem variado na mente dos dirigentes e na prática das coisas: a cada momento são as circunstâncias que indicam o melhor caminho a seguir. Como se conclui pela impossibilidade na Europa da guerra de fronteiras, anunciam as duas maiores potências da Terra ter acordado e ir propor aos mais a luta contra a guerra, contra a propaganda belicista, contra o armamento convencional ou não. Entendamos bem os termos da combinação; proíbem-se as guerras que não haverá, mas estimular-se-ão as guerras que continuará a haver. A França não invadirá a Alemanha, a Bélgica não se baterá com a Holanda, a Espanha respeitará Portugal; mas os mesmos que tão convictamente se hão-de vangloriar duma paz já consolidada por força dos acontecimentos e da vontade dos povos, continuarão a reivindicar o direito de interferência ideológica, de apoio político e financeiro, de fornecimento de armas, da preparação de núcleos subversivos em territórios estrangeiros, por cima e sem embargo das relações diplomáticas, das declarações de amizade e dos desejos de boa vizinhança. E o fundamento desta política contraditória está em que não se trata de guerras de conquista mas de guerras de «libertação», tal qual a efectuada em Goa, com desprezo dos direitos soberanos de Portugal e os interesses dos goeses, não considerados no conflito nem havidos para nada, senão por nós mesmos, antes e depois da ocupação.



Antiga fortaleza portuguesa do século XVI em Diu, uma ilha na costa oeste da Índia.


Sendo pois que na Europa vão diminuir as possibilidades de guerra externa, mas aumentarão noutros continentes as de tipo diverso, por efeito das contradições em que as nações ocidentais se vão deixando enlear, é para a África sobretudo que têm de dirigir-se os nossos esforços, porque não temos motivos para diferenciar os territórios e muito menos para abandonar os portugueses de além-mar. É desde há séculos pluricontinental e plurirracial a nação portuguesa, e isso sem prejuízo da sua unidade, nem das largas autonomias locais; e as guerras que ali nos são impostas desconhecem tanto a história como o direito como os verdadeiros interesses dos povos que para elas são arrastados. Os que nos defendemos em África defendemos de facto a África, e fazemos uma experiência histórica, permitindo confrontar os efeitos duma obra conduzida para benefício geral por nações portadoras duma cultura e os resultados do abandono, ainda que largamente subsidiado, a que serão votados muitos povos africanos. A invasão de Goa no que representa de desmentido ao apregoado pacifismo da União Indiana, os actos terroristas de Angola no começo do último ano, a defesa da Província apoiada na população branca e de cor que se reconhece tão portuguesa uma como a outra, o êxito militar, a sucessiva expulsão dos terroristas para além fronteiras e a recuperação das populações deslocadas são factos que começam a pesar nos juízos dos homens em muitas nações e confio em que chamarão os mais à evidência das coisas. É certo que fazemos ali uma guerra difícil e custosa, e que a fazemos sozinhos (não digo sem alianças, digo sem aliados); mas é igualmente certo que cumprimos um dever para connosco e para com um continente que deve sobretudo a Portugal os seus primeiros contactos com a civilização.

A reconsideração geral dos factos e dos conceitos que se encontram na base da política africana e da política do Mundo Ocidental em relação à África, pensamos que se fará a tempo de evitar as últimas derrocadas; e, embora o nosso povo seja muito atreito a afinar os seus juízos pelo veredicto estrangeiro, neste particular a barreira oposta pela consciência da Nação às campanhas vindas de todos os quadrantes não pôde ser vencida nem abalada sequer; e seria bem importante que o fosse, para os que trabalham na desintegração europeia, tanto aqui como no Continente Africano. O povo não pode ter o conhecimento em pormenor destes problemas; tem porém a acuidade do instinto que, tendo-o feito Nação há muitos séculos, o mantém atento às exigências da sua identidade e da sua própria sobrevivência. E do que se trata afinal é de sobreviver e continuar igual a si próprio.

Temos pois a unidade e coesão das forças armadas e quase seria uma traição aos mortos que houvesse o mais pequeno dissídio; temos a consciência da Nação firme e bem formada acerca deste problema fundamental. Pergunto a mim mesmo o que pode valer, em face deste bloco, a agitação e as lucubrações, mesmo que inspiradas do estrangeiro, dos que infelizmente perderam a sua alma de portugueses e não sentem já Portugal.









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Daniel Francisco Roxo



















Monumento aos Combatentes do Ultramar




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A TRAIÇÃO DO 25 DE ABRIL DE 1974



Reunião da 'Junta de Salvação Nacional'






Álvaro Cunhal no 1.º de Maio de 1974



Tomada de posse de Álvaro Cunhal como ministro do I Governo Provisório (16 de Maio de 1974).



Costa Gomes conferindo posse a Vasco Gonçalves como primeiro-ministro do III Governo Provisório (Setembro de 1974).




Costa Gomes com Vasco Gonçalves, Melo Antunes e Mário Soares (Outubro de 1974).



Costa Gomes nos jardins da Casa Branca, com Gerald Ford, Henry Kissinger, Mário Soares, Hall Themido, entre outros (Outubro de 1974).



Costa Gomes com o secretário-geral da ONU Kurt Waldheim, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares, em Nova Iorque (Outubro de 1974).



Costa Gomes a discursar na Organização das Nações Unidas (Outubro de 1974).




Costa Gomes com o presidente Jugoslavo Josip Broz Tito (Outubro de 1975).




Costa Gomes com Leonidas Brejnev e Andrei Gromiko na União Soviética (Outubro de 1975).




Costa Gomes com o Patriarca de Moscovo, durante a visita à União Soviética (Outubro de 1975).




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Pintura mural de 1975: Comando Operacional do Continente (COPCON). Foi criado em 8 de Julho de 1974, para cumprir os desmandos da revolução comunista, e era constituído por fuzileiros, Pára-quedistas, comandos, polícia militar, Infantaria de Queluz e pelo Regimento de Artilharia de Lisboa (RALIS).