Escrito por Álvaro Ribeiro
«(...) aquele que se interroga como homem religioso,
ou como poeta e artista, ou como sábio de alguma certeza, na pausa de sua finita
ciência, aquele ainda que se interroga como homem comum, em momento singular de
perplexidade ou aflição, temor ou desespero, sobre a vida e o sentido da vida,
esse interrogará afinal sobre o mesmo, embora de modo menos directo, nu e
abstracto, por maneira mais indirecta, impura e aleatória.
E é neste momento, pela consideração do enigma no
homem, como ser da verdade para si enigmático, que o sentido radical do enigma
surge. Tanto em filosofia como decisivo cabe apreender não só o sentido do mais
alto e raro, mas o do mais humilde e mais comum, tanto o sentido do saber mais
significativo como o da menos sábia e mais taciturna relação do saber e do
ignorar!
O enigma, em sua autenticidade, não é dado para o
interrogar fora: adere radicalmente ao ser que interroga. Pois quando, para
além do mero ser e sentir enigmaticamente, o sentido autêntico do enigma se
alcançou, nesse e por esse se reconhece a subtil urgência de se interrogar a si, de si, e de si
para si mesmo sucessivamente interrogar e responder.
Interrogando-se sobre o ser do seu ser, situa já o homem ao enigma em seu sentido denso e grave. Pois se o homem fosse apenas o que é sem consciência da relação entre saber e ignorar, não haveria enigma; e se ele fosse o que de si plenamente sabe, também não haveria enigma. O homem, porém, não é um nem outro: e por isso ele se interroga como o que se não detém no amor de si ou de algo, e na crença ou descrença insciente ou fácil, e ele se interroga como o que é para si enigmático em seu ser e na verdade do seu ser e do ser em si e no saber da verdade e na mesma verdade. Eis porque o enigma marca o momento solene do encontro do homem consigo mesmo. Homem: o ser que entra e sai incessantemente no ser da visão unívoca, e na mesma visão, para sobre um e a outra se interrogar; ou, se não se interroga, para existir em equivalente misterioso ou dramático desde o âmago de si às mais extrínsecas formas do seu viver.»
José Marinho («Teoria do Ser e da Verdade»).
Orlando Vitorino («A Desolação do Mundo – Leonardo Coimbra e Martinho Heidegger»).
«Com o pensamento de Álvaro Ribeiro se nos deparou
desde cedo um dos mais árduos momentos do nosso trabalho. Como com o poeta José Régio ocorrera também, o íntimo convívio de longos anos e a muito grave
consciência das fundas afinidades e dos vivos contrastes tornam-nos ainda hoje
confessadamente difícil a requerida e equânime compreensão.
A filosofia deste pensador exemplifica a nossa tese
da situação barroca. Com uma unidade subjacente de ponta a ponta, na obra pela
qual se traduziu o seu pensamento, este se nos apresenta em sucessivas
mutações. Aparece-nos aquela unidade imediatamente assegurada pela renovada
sondagem das íntimas e subtis correspondências da crença e da razão. Para além
delas, no fundo e amplo vínculo da fé e do pensamento, se nos entreabre a mais
substancial relação com a autêntica universalidade.
O primado da teologia e do sentido de transcendência
afasta-se em Álvaro Ribeiro, de modo nítido, da via aberta por Amorim Viana e
pensadores consequentes: o aprofundamento das noções, nele essenciais também,
de liberdade e de justiça, insere-se numa concepção providencialista no quadro
da tradição judaico-cristã. Num aristotelismo renovado, de boa raiz platónica,
viu entretanto o pensador da Arte de
Filosofar e da Razão Animada, com
outros filósofos do nosso tempo, a garantia filosófica das relações intrínsecas
do ser e da verdade de Deus com o homem e o Universo.
Considerado no mais restrito âmbito da filosofia portuguesa, cuja apologia e propedêutica mais que nenhum outro dos nossos filósofos promoveu, insere-se a obra de Álvaro Ribeiro numa enigmática: pois não só dele, nem dos que de vários modos acompanharam a sua persistente e responsável exigência de filosofar, depende o êxito do propósito na terra que seu Mestre designou como “a mais anti-filosófica do planeta”».
José Marinho («Verdade, Condição e Destino no Pensamento Português Contemporâneo»).
«Saudamos no livro de José Marinho, no pensamento e no estilo admiráveis da Teoria do Ser e da Verdade, uma obra autêntica de filosofia que efectivamente nos obriga a cogitar, a meditar e a reflectir. A crítica dirá se as respectivas teses concordam entre si, para coerência do sistema, e se estão de harmonia com a cultura que nos cumpre propagar e defender. O livro surge na hora em que, perplexos ante as dificuldades opostas pelos estrangeiros ao pensamento nacional que estrutura a verdade da Pátria, buscamos as razões justificativas da posição que nos singulariza pelo modo de colaborar na redenção da Humanidade. Os estrangeiros, e com os estrangeiros os nossos emigrados ou turistas, arguem maliciosamente com a denúncia das tristes culpas, certos de que o ensino das escolas públicas, viciado pela frenesia cientista e tecnicista, tem revogado de geração para geração os valores defensáveis pela filosofia portuguesa. Aos escritores, e especialmente aos autores das obras de pensamento, tem sido efectivamente desleixado o poder de educar as novas gerações. Só eles constroem o futuro, já que o ser do homem é o seu pensar, e com o pensar se ilumina o agir. No passado repousam, ou adormecem, parentes, professores e sacerdotes, que repetindo palavras pretéritas esvaziam de conteúdo intelectual ou emocional as cerimónias em que por hábito colaboram, transformando as comemorações históricas em farsas revogáveis, dispersando em terras mortas o vínculo espiritual da tradição.»
Álvaro Ribeiro («Decisão e Indecisão na Casa de Portugal»).
HOMENAGEM A JOSÉ MARINHO
O
Estado português, fundamentalmente positivista, não tem por missão essencial
promover o cultivo da filosofia. Desta afirmação, que merece acordo unânime,
inferimos e esclarecemos as consequências observadas naquele ramo de
administração pública que até agora tem sido designado por instrução, educação ou escolaridade, o qual pressupõe opção por
uma tese definidora da liberdade e do destino do homem em seu trânsito pelo
mundo. Outrora referida à finalidade suprema de conhecer e amar a Deus, a vida
humana é hoje, programada em obediência às ilusões da prosperidade material e
da distribuição das riquezas pelos povos. A falta de uma disciplina ordenadora
e coordenadora de todo o saber, a falta de uma filosofia nitidamente
caracterizada por princípios, meios e fins, tem por consequência a
impossibilidade de projectar e concretizar no quadro do ensino público uma
instituição que mereça o nome de Universidade. Um aglomerado de escolas em que
falte a unidade, a monarquia, a teologia do saber teorético ou teórico, jamais
poderá assegurar ou promover a realização da autêntica e verdadeira cultura. Há
escolas superiores umas às outras; há escolas inferiores umas às outras;
predomina o relativo sobre o absoluto; mas deste modo a pluralidade dispersiva
das ciências, das técnicas e dos ofícios, se torna permeável a todas as
contradições que, no tempo como no espaço, ameaçam a continuidade e a segurança
do espírito que caracteriza a Nação.
De
lustro para lustro, ao fim de cinco anos, após a duração de um curso, volta-se
a falar em nova reforma, em dar outra forma, ao articulado jurídico de
estruturas escolares que parecem já caducas, inoperantes ou improdutivas. Tal
resulta de olhar apenas para o que no mundo é efémero, transferível ou relativo,
em vez de prestar atenção ao que a experiência tem demonstrado ser constante e
improgressivo, tanto no educador como no educando. Quantas vezes se procura
imitar o melhor modelo estrangeiro, tantas vezes se esquece o propósito essencial
da formação do homem português, do homem que fala português e que pensa em
português.
Tal
não acontece, porém, em outros povos, e em outros estados, os quais não só
cultivam ciosamente as filosofias que criaram ou que importaram, mas também as difundem
por livros de apologética adequados à propagação de ideologias propícias ao
domínio hegemónico sobre o pensamento estrangeiro. Ocioso será lembrar os
exemplos históricos de indução falaciosa na construção de sistemas universais,
porque tais factos de intercâmbio cultural demonstraram uma lição que se impõe
à memória dos bons entendedores. A subordinação da política à filosofia,
implícita ou explícita nos textos jurídicos, vai-se tornando evidente a quem
sabe ler com atenção as mais recentes páginas da História, sem confundir as
constantes com as variantes de acontecimentos progressivos para um fim remoto
ou ignoto.
Durante os séculos áureos da Nação Portuguesa, em que se verificou a hegemonia
universitária da Escolástica, foi a filosofia predominantemente cultivada em latim
e intimamente associada à religião. A disciplina promotora da liberdade de
pensamento, enviada em sua forma aristotélico-jesuítica, esteve associada à
disciplina seguradora da unidade da fé. Depois de 1772, instaurados o
iluminismo liberalista e o sociologismo positivista, haveria o vulgo ignorante,
mas bem falante de considerar como anacrónico, retrógrado, ou reaccionário o
ensino da filosofia.
Ao
longo do século XIX desenvolveu-se contra a Escolástica, não uma crítica minuciosa
e certeira, mas uma injusta polémica, tendente a dissolver a relação perene
entre a filosofia e a religião. Exaltada foi a liberdade de pensamento, mas tal
liberdade deveria ficar subordinada ao determinismo da ciência, formando-se à
margem deste círculo vicioso um campo propício às variantes da opinião. Alguns
plumitivos chegaram até a doutrinar sobre os conflitos havidos entre a ciência
e a religião, encobrindo numa expressão caracterizada pela impropriedade dos
termos, intenções precursoras de agitação política e revolução social.
Eliminar a filosofia dos quadros do ensino público foi a aspiração confessada ou inconfessada de muitos reformadores políticos, mas a tal propósito obstavam não só os hábitos didácticos dos professores fiéis à nossa tradição escolástica, mas também o prestígio de que a filosofia gozava nas nações estrangeiras e nos congressos internacionais. Adentro das nossas fronteiras, a filosofia ia sendo também atacada pela licenciosidade dos literatos e parlamentares românticos; mas os escritores realistas, mais prudentes ou mais inteligentes, admitiram uma filosofia esboçada para complemento da enciclopédia científica, imitando o exemplo das celebridades estrangeiras. Ninguém elevou a voz para demonstrar que a exclusão da filosofia escolástica iria dificultar a autêntica e metódica investigação histórica do pensamento artístico, político e religioso do povo português; seria o factor mais profundo de adulteração da fisionomia espiritual da Pátria; aceleraria a dissolução da língua portuguesa no jornalismo escrito e falado para melhor aceitação das expressões de origem internacional.
A
palavra «filosofia» permaneceu a designar uma das últimas disciplinas do curso
dos liceus, mas tal disciplina, periodicamente reformada nos seus programas ou
ministrada por livros estrangeiros, reproduz ainda hoje um método incompatível
com uma didáctica vivente, do qual resulta a demissão da inteligência em que se
propõe transitar para uma escola universitária. Seria inútil repetir ou resumir
as críticas feitas por especialistas autorizados. Nos serviços públicos, desde
o Curso Superior de Letras até à última reforma das Faculdades de Letras, nunca
houve intenção de formar filósofos entre os estudantes que para tal
demonstrassem vocação ou aptidão, (a exemplo do que se praticou outrora quanto
às carreiras eclesiásticas), porque sempre os legisladores atribuíram
prioridade às disciplinas de história e à ordenação histórica dos tópicos dos
programas, em detrimento das actividades especulativas que se reflectem no julgar,
no conceber, no meditar, e que manifestam sua fecundidade pela elaboração de
livros originais.
Graças
à iniciativa do Professor Doutor Joaquim de Carvalho, e à dos seus directos e
indirectos discípulos, Portugal começou a ter uma brilhante minoria de eruditos
que honram o laborioso campo de historiografia filosófica, sinal promissor de que
não tardará o dia em um legislador inteligente se mostre capaz de promover a
inventariação dos manuscritos latinos que ainda existem nos arquivos e
bibliotecas, a tradução que os restitua à língua portuguesa em que foram
pensados, e sua publicação em livros acessíveis às bolsas dos estudiosos. Será
assim traçado o caminho que nos permitirá descobrir aquela filosofia política
e aquela filosofia jurídica de que resultou a esquecida mas gloriosa
contribuição dos soberanos portugueses para a civilização mundial. A História
goza hoje de notável prestígio entre os
editores portugueses, e a título de História, sob a capa de História, a coberto
da palavra História, vão alguns estudiosos conseguindo substancial auxílio de
instituições particulares e de serviços de Estado, auxílio quase sempre
indeferido a quantos o requerem para livre cultura das ciências, das artes e
das técnicas, sempre recusando ao cultivo da imaginação e da especulação.
A
nítida separação entre a Igreja e o Estado, justificável apenas no plano
administrativo, revogou totalmente a doutrina tradicional acerca das
finalidades da educação humana, e contribuiu para consolidar a prioridade dos
interesses económicos na sociedade civil, proclamados pelo liberalismo, como
para exaltar a ambição infinita de prosperidade material. A palavra interesse obteve assim alta dignidade
legislativa como termo próprio para agrupar ou classificar as actividades
sociais, e assim se compreende que os zeladores dos interesses públicos
reiteradamente signifiquem por omissão acintosa o seu estranhado desfavor pelas
actividades em que o pensamento humano se manifesta tão livre como
desinteressado. Não admira que, numa sociedade constituída por tão moderna
teoria, só a aprendizagem profissional, em sucessores graus, seja considerada instrução de interesse social, e mereça uma atenção que não recai sobre o pensamento
interessado no culto, na cultura e na civilização.
Muitos
dos que exaltam a protecção do Estado à investigação científica tomam o cuidado
de evitar que tal se confunda com o amor da verdade, já que de seus dizeres
transparece a preocupação consciente ou inconsciente de uma finalidade técnica,
bélica ou industrial. Ora, sem o amor da Verdade, que é a propedêutica do amor de Deus, não há ensino digno de eficiência intelectual ou espiritual. A
essência do filósofo inútil assume, assim, aos olhos dos pedagogos e dos
pessimistas, o odioso aspecto de um escândalo que urge reprimir ou suprimir.
Fácil
é inferir que a filosofia, omitida na articulação jurídica do Estado, e
realmente excluída dos fins propostos à Universidade, não beneficie de qualquer
protecção ou defesa contra as injúrias quotidianas de quantos naturalmente se
esquivam à disciplina e à vercidade no pensar, no falar e no escrever. É
evidente que a filosofia, como tal, nunca estava ao alcance de quem se estime
dotado de instrução primária. As ofensas incidem, portanto, sobre os filósofos
contemporâneos, principalmente sobre aqueles que se distinguem pela crítica
lucidamente racional sobre o modo leviano ou empírico porque o vulgo discute as
mais sérias questões públicas.
Muitos
processos há de excluir a filosofia, ou de fazer passar por filosofia o que é a
sua contradição e contrafacção; maior é, porém, o número de artifícios de
estilo para significar desdém ou aversão pelos filósofos que não se conformam
com o destino injusto do anonimato. Desde o cumprimento insincero, e portanto
irónico, mediante palavras lisonjeiras até às práticas de ofensa, difamação e
desonra que os jornais e as revistas liberalmente acolhem para divertimento dos
seus leitores, consolida-se aquela opugnação vulgar ou pública segundo o qual o
qualificativo de filósofo é mais ou menos ridículo e, portanto, mais próprio
para a comédia do que para a tragédia. Morrem os filósofos nas condições que a
História regista para que o castigo social não deixe de recair sobre quantos se
dedicam a uma forma de pensamento livre, independente de qualquer ideologia
sectária ou partidária, motivados apenas pelo excelso amor da verdade.
A
quantos cultivam a filosofia é dificultada a publicação de seus escritos na
imprensa periódica, alegando os editores e livreiros que o nosso público ainda
não está preparado para comprar obras de pensadores portugueses. Nenhum prémio
pecuniário, nenhuma medalha honorífica, nenhuma iniciação académica surge para
prestar justiça a quem se distinga por seus escritos filosóficos, e muito menos
para quem esteja no princípio de uma carreira que a sociedade tolera mas não
considera promissora de valores nacionais. Tal se evidencia por contraste, a
preto e branco, com essa composição de mentira e de verdade, que é a literatura
de ficção, a qual vai conquistando o respeito que lhe é prestado pelos
políticos que a temem, governadores ou opositores.
Compreende-se
assim que a minoria dos filósofos, vivendo em condições que lhes são adversas,
pois nem sequer gozam de um estatuto comparável ao dos estrangeiros, se reúnam
brevemente em tertúlias para discutirem em linguagem mais ou menos esotérica a
temática superior de quem ama acima de tudo a luz perene da verdade. Tratam-se
mutuamente por amigos, a exemplo do
que foi outrora ensinado por Aristóteles, já que na amizade encontram merecida
compensação de justiça que lhes é negada. Chamar-se-iam talvez companheiros, se esta designação,
referente a participantes de uma cerimónia religiosa, estivesse livre de
qualquer significação confessional, a que nem todos aderem.
Formando
como que pequenas academias, sem estatutos escritos, como fora habitual no século
dezoito, permutam entre si os estudos que destinam apresentar em público, e
auxiliam-se tanto pela discussão severa dos temas imaturos como pela crítica
lúcida das teses imprecisas. Não há entre eles respeito mundano nem elogio
mútuo, mas ao contrário do que acontece com os literatos, à míngua de assuntos,
formalmente excluem de suas conversas qualquer demora na maledicência acerca de
presentes e ausentes. Realizam, por vezes, breves simpósios intencionais, para
prestarem uns aos outros aquele alento espiritual que lhes é negado pelas
entidades públicas, as quais se defendem dos filósofos pela táctica habitual da
conspiração pelo silêncio.
Na
homenagem que vai ser prestada a José Marinho por seus amigos e contertúlios,
não poderia eu estar ausente, nem silencioso, como se julgasse tal iniciativa
uma cerimónia despropositada, inútil ou supérflua. Concordo inteiramente com a
manifestação a que me associo. Louvo quem a promoveu, na certeza de que é mais
meritório prestar o calor da bondade humana aos que connosco vivem, do que
esperar pelo dia remoto do necrológio, ou pelo livro de memórias, para obedecer
aos mandamentos da verdade.
Não
é esta a primeira vez que escrevo palavras de justo elogio ao Amigo José
Marinho. Narrei o nosso primeiro encontro nos salões da «Renascença
Portuguesa», aludi às nossas primeiras conversas que fortaleceram a minha
fidelidade à vocação espiritual, referi-me à divergência dos nossos rumos culturais,
acentuei a distracção dos trabalhos por cada um de nós realizados. Nunca será
demais retocar o perfil de alguém que, honrado por um círculo de amigos, que
lhe reconheceram méritos, não recebeu até agora o merecido prémio de ser
aclamado como primeiro filósofo português da segunda metade do século XX.
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| Ex-libris da «Renascença Portuguesa», da autoria de António Carneiro |
Desde o tempo de estudante universitário José Marinho se tornara notável pelos dons de eloquência, que exibia nas conversas com seus condiscípulos, os quais confessavam que nenhuma discussão académica poderia ser esclarecida ou encerrada sem a palavra decisiva do inspirado orador. Era surpreendente, mas verdadeiro, que José Marinho tinha o condão de apresentar a nova luz poética, ou sob um aspecto inédito, o problema em estudo e o critério de o resolver. A superioridade da sua inteligência, facilmente reconhecida pelos seus colegas mais orgulhosos ou mais invejosos, tornara-se famosa nos ambientes universitários. José Marinho comparecia frequentemente em todas as reuniões de jovens que se dedicassem a actividades intelectuais, intervinha com a lucilação da sua palavra inspirada, deslocava ou removia o tema para o plano superior em que brilha a tese, ou a ideia. Nos debates, colóquios e simpósios que se efectuaram de 1920 a 1930, – decénio em que a onda intelectual da cidade do Porto foi também vida espiritual, como nunca mais – os espectadores ou assistentes solicitavam ou exigiam que José Marinho não ficasse calado, e que lhes dissesse a última palavra. Habituaram, assim, o notável orador ao esforço máximo de reflexão e de meditação, adequado à responsabilidade do pensador, mas contribuíram talvez para acentuar inibições em que iria adiar de decénio para decénio a sua esperada revelação de escritor.
Admirável conversador de
tertúlia, José Marinho era sempre esperado com impaciência para que o tema
banal da conversa desultória fosse, enfim, transposto para o plano intelectual
de analogia com os diálogos platónicos. A discussão inútil transformava-se
imediatamente em acto de ensinar ou de aprender. Por seus dons de simpatia e de
comunicação, José Marinho conseguia integrar quaisquer ouvintes num ambiente espiritual de iniciados e agraciados, perturbando e
deslumbrando até os mais refractários à arte de filosofar.
Seria
estulto dizer que não haja na conversa de José Marinho algo de semelhante ao
que nos foi traçado no modelo de Sócrates, pois há diferenças vantajosas para o
perfil espiritual do filósofo português. A sua argumentação dialéctica, tendente
sempre a mostrar a alternância do sim
e do não em toda a ordem de valores e
em toda a instância de conceitos, não propicia ao ouvinte a facilidade de
alcançar o cerne íntimo de ideia pura. José Marinho humilha os orgulhosos que
não aspiram a mais do que ter razão, e exalta os que humildemente procedem por
amor da verdade.
Desconfiando
do estruturalismo, desvalorizando o pensamento categorial, opondo-se à tese
positivista de que cada nomenclatura científica forma um compartimento
estanque, José Marinho usa magicamente das palavras quando exerce o magistério
de tradutor, intérprete e hermeneuta em suas lições admiráveis. Conforta-nos
ouvi-lo atribuir aos termos políticos, que se intrometem nas conversas mais banais,
as equivalências semióticas, semânticas e simbólicas, pelas quais a
inteligência ascende às superiores esferas religiosas. Ensinando-nos a enunciar
em termos cristãos, e até em termos clericais, os conflitos humanos que os
jornalistas medíocres transferem para a política, a apologética e a polémica,
dá-nos a ver que os graves desentendimentos entre novos e velhos, filhos e
pais, estudantes e professores, homens e mulheres, governantes e governados,
nacionais e estrangeiros, etc, só podem ter significação autêntica e resolução
possível nos quadros apocalípticos da vida religiosa.
Quem
alguma vez ouviu José Marinho interpretar uma frase de Jesus, extraída dos Evangelhos, ou explicar um dos mais
belos poemas da língua portuguesa, jamais esqueceu a maravilhosa mestria de quem facilmente abre, desenvolve ou desenrola a verdade das doutrinas sagradas.
Transitando do significado exotérico para o sentido esotérico, já não é o
professor quem fala, mas talvez o sacerdote inspirado. Desta observação se infere
a função que José Marinho pessoalmente atribui à filosofia, deslocando-a para a
escolástica, segundo a honrosa tradição medieval.
É,
para seus discípulos, evidente que a vocação espiritual de José Marinho se exprime
no apelo de transcender a escolástica, a filosofia, o pensamento situado, na
inquietação de alcançar a ideia pura. Enquanto outros pensadores, seus
contemporâneos, opondo barreiras ou diques ao positivismo invasor – que ameaça
anular amanhã as últimas características da cultura portuguesa, e até o idioma
nacional, – iam escrevendo ensaios escolásticos sobre as relações da filosofia
com a religião, com a pedagogia, com a política, com a literatura, etc., José
Marinho elaborava em segredo a sua obra-prima, que haveria de ser intitulada Teoria do Ser e da Verdade. Publicou-a
em 1961, com plena consciência de que praticava uma «intempestiva ousadia» numa
sociedade adversa aos livros de pensamento puro.
Traduzida
em francês, inglês ou alemão, esta obra seria a demonstração perfeita da
superioridade da filosofia portuguesa sobre todas as suas rivais estrangeiras;
ela permanece ignorada e esquecida aquém e além fronteiras, por culpa de todos
nós, que não sabemos cultivar nem aproveitar as verdadeiras fontes das nossas
riquezas espirituais. Síntese poderosa de todas as teses enunciadas na
filosofia contemporânea, ela é além disso verificada por uma dinâmica de
intenção mística. Ela realiza, com a superação da filosofia, a transcensão
infinita que ao homem como tal é possível falar, dizer ou escrever.
Na sua estrutura severa de pensamento puro, a Teoria do Ser e da Verdade contraria os hábitos mentais dos leitores de obras fáceis de filosofia, e desperta uma atitude de expectativa para com as obras complementares que José Marinho há-de publicar. Todos nós, seus amigos, leitores e admiradores fazemos votos por que a José Marinho sejam dadas possibilidades humanas, sociais e divinas de completar a sua obra, prometida e esperada.
(In Parábola, n.º 34. Página Cultural do Diário do Minho, Ano LV, n.º 17 542 (Braga, 9.2.1974).

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