sábado, 11 de abril de 2026

Desafio e queda do homem fáustico

Escrito por Oswald Spengler



«Quando falamos hoje de técnica, o nosso entendimento fica-se pelas máquinas da idade industrial. Mas, entretanto, esta caracterização já se tornou inexacta. Porque no interior da idade industrial moderna verificamos uma primeira e uma segunda revolução técnica. A primeira consiste na passagem da técnica do artesanato e da manufactura à técnica das máquinas com motor. Consideramos como segunda revolução técnica a introdução e o triunfo da maior “automação” possível, cujo princípio de base é definido pela técnica da regulação e da direcção, a cibernética. O que significa que o termo técnica não é, antes de mais, claro numa primeira abordagem. A técnica pode significar o conjunto das máquinas e dos aparelhos que se apresentam, tomados apenas como objectos disponíveis (vorhanden) – ou então em funcionamento. A técnica pode querer dizer a produção destes objectos, produção que precede um projecto e um cálculo. A técnica pode também significar a co-pertença num conjunto de produtos e de homens ou grupos humanos que trabalham na instalação, na manutenção e na vigilância das máquinas e dos aparelhos. Mas não consideraremos a técnica sob este aspecto, que não é mais que uma forma grosseira de a descrever. Todavia, o campo de que falaremos será – ao menos aproximadamente – delimitado, se tentarmos agora fixar numa série de cinco teses as representações hoje normativas sobre a técnica.

(...) Segundo a concepção corrente:

1. A técnica moderna é um meio inventado e produzido pelos homens, isto é, um instrumento de realização de fins industriais, no sentido mais lato, propostos pelo homem.

2. A técnica moderna é, enquanto instrumento em questão, a aplicação prática da ciência moderna da natureza.

3. A técnica industrial fundada sobre a ciência moderna é um domínio particular no interior da civilização moderna.

4. A técnica moderna é a continuação progressiva, gradualmente aperfeiçoada, da velha técnica artesanal segundo as possibilidades fornecidas pela civilização moderna.

5. A técnica moderna exige, enquanto instrumento humano assim definido, ser igualmente colocada sob o controlo do homem – e que o homem se assegure do domínio sobre ela assim como da sua própria fabricação. 

1.    Ninguém pode contestar a exactidão das teses que enumerámos relativas à técnica moderna, porque cada um dos enunciados pode ser apoiado pelos factos. Mas permanece a questão de saber se esta exactidão atinge suficientemente o carácter mais adequado da técnica moderna, quer dizer, o que a determina previamente e do princípio ao fim.»

Martin Heidegger («Língua de tradição e língua técnica»).

 


«Por todo o mundo há equipas e laboratórios em constante actividade. Isto significa o seguinte: que embora a actividade visando a descoberta de novos conhecimentos científicos seja contínua, a produção desses mesmos conhecimentos é sempre descontínua. O que quer isto dizer? Isto significa que as descobertas científicas são raras dentro da perseverança das investigações a que a ciência constantemente se dedica.

Os institutos e os grandes laboratórios funcionam permanentemente e, no entanto, poderemos dizer que as descobertas realmente importantes são raras e demoradas se tivermos em conta a permanência da sua actividade. Por isso dizemos que a descoberta científica é descontínua, ou seja, acontece de vez em quando.

(...) A limitação da informação no que respeita à ciência tende a ser nos nossos dias um acontecimento de certo modo vulgar, porque as nações mais avançadas dispõem de determinados segredos no campo da técnica e da indústria que se abstêem de comunicar. Existe até noutros campos como, por exemplo, na informática ou na inteligência artificial, uma certa espionagem.

Com efeito, mesmo no campo puramente industrial da produção de bens de consumo, o conhecimento de determinadas técnicas consegue muitas vezes que um determinado produto possa ser mantido no mercado sem concorrência. Assim, há muitas empresas que, embora tenham produção de equipamentos noutros países, não facultam a esses mesmos países a possibilidade de um fabrico integral dos instrumentos [relativos a] esses mesmos equipamentos. As informações tecnológicas representam vantagens de produção.»

Luís Furtado («Cadernos de Filosofia»).

 

«Falou-se muito nestes anos da decadência da Europa. Suplico fervorosamente que não se continue a cometer a ingenuidade de pensar em Spengler simplesmente porque se fale da decadência da Europa ou do Ocidente. Antes de o seu livro ter aparecido, todos falavam disso, e o êxito do livro foi devido, como é notório, à suspeita ou preocupação preexistente em todas as cabeças, com os sentidos e pelas razões mais heterogéneas.

Falou-se tanto da decadência europeia que muitos chegaram a encará-la como um facto. Não que acreditem a sério e com evidência nele, mas habituaram-se a encará-lo como certo, embora não se recordem sinceramente de se terem convencido disso em nenhuma data determinada. O recente livro de Waldo Frank, Redescoberta da América, apoia-se integralmente no pressuposto de que a Europa agoniza. Não obstante, Frank nem analisa nem discute, nem questiona tão enorme facto, que lhe vai servir de formidável premissa. Sem mais averiguações, parte dele como de algo inconcusso. E esta ingenuidade no ponto de partida basta-me para pensar que Frank não está convencido da decadência da Europa; longe disso, nem sequer levantou tal questão. Toma-a como se tomasse um eléctrico. Os lugares-comuns são os eléctricos do transporte intelectual.




E como ele fazem-no muitas pessoas. Sobretudo, fazem-no os povos, os povos inteiros.

É uma paisagem de puerilidade exemplar aquela que o mundo nos mostra agora. Na escola, quando alguém dá notícia de que o professor saiu, a turba infantil encabrita-se e indisciplina-se. Cada qual sente o prazer de se libertar da pressão imposta pela presença do professor, de tirar o jugo das normas, de se pôr de pernas para o ar, de se sentir dono do próprio destino. Mas como, tirada a norma que fixava as ocupações e as tarefas, a turba infantil não tem um trabalho próprio, uma ocupação formal, uma tarefa com sentido, continuidade e trajectória, resulta que não pode executar mais do que uma coisa, a cambalhota.

É deplorável o frívolo espectáculo que os povos menores nos dão. Visto que, como se diz, a Europa decai e, portanto, deixa de mandar, cada nação e naçãozinha pula, gesticula, vira-se de cabeça para baixo ou põe-se em bicos de pés e estica o pescoço, fingindo-se uma pessoa maior que rege os seus próprios destinos. Daí o panorama como que de vibrião de “nacionalismos” que se nos apresenta em todas as partes.

Já nos capítulos anteriores tentei filiar um novo tipo de homem que hoje predomina no mundo: chamei-lhe homem-massa, e fiz notar que a sua característica principal é que, sentindo-se vulgar, proclama o direito à vulgaridade e nega-se a reconhecer instâncias superiores a ele. É natural que, se esse modo de ser predomina no seio de cada povo, o fenómeno se produza também quando olhamos para o conjunto das nações. Também há povos-massa decididos a rebelarem-se contra os grandes povos criadores, minoria de estirpes humanas que organizaram a história. É verdadeiramente cómico contemplar como esta ou aquela republicazinha, do seu recanto perdido, se põe em bicos de pés e increpa a Europa e se declara demissionária da história universal.

Que resulta daqui? A Europa tinha criado um sistema de normas cuja eficácia e fertilidade os séculos demonstraram. Essas normas não são as melhores possíveis, longe disso. Mas são, sem dúvida, definitivas enquanto não existirem ou se divisarem outras. Para superá-las é inexcusável dar à luz outras. Agora, os povos-massa resolveram dar por caducado aquele sistema de normas que é a civilização europeia, mas, como são incapazes de criar outro, não sabem que fazer e, para ocupar o tempo, dedicam-se à cambalhota.

É esta primeira consequência que advém quando no mundo alguém deixa de mandar: os outros, ao rebelaram-se, ficam sem ter que fazer, sem programa de vida.»

José Ortega y Gasset («A Rebelião das Massas»).



«Observação digna de nota é que os matemáticos, ciosos da sua terminologia que legitimamente respeitam como segredo esotérico e prontos a pôr a ridículo os profanos que não falem com correcção a língua dos iniciados nos algarismos, apropriam-se dos termos das outras ciências, não respeitam os direitos da nobreza etimológica, não curam dos equívocos que vão impunemente lançando no congresso dos homens cultos. Muitos exemplos poderiam ser dados num estudo de semântica, mas por agora bastará discernir o uso do verbo generalizar (que significa relacionar com o género biológico, ou com o análogo do género biológico) dando-lhe a significação de estender, e assim falam da generalização da ideia de número. Outros exemplos se poderiam ver num estudo de estilística, porque não é difícil demonstrar que a linguagem do cálculo, cheia de paradoxos, revela uma intencional indiferença para com o sensível e o imaginável.

Sabendo que o homem, por condição natural, não pode pensar sem imagens, – tese fundamental do aristotelismo, – o matemático, e especialmente o geómetra, postula ou pede definições que contrariam, se não contradizem, os dados da sensitividade. Assim, na nossa humildade intelectual perante as exigências dos matemáticos, admitimos números fraccionários, negativos, irracionais, imaginários, definimos o ponto sem dimensões, a linha sem largura, etc. Ficções tais como o polígono de indefinido número de lados, a tendência do polígono para a circunferência, a indistinção entre rectas e curvas, são docilmente admitidas pelo estudante que constrói a representação de um mundo diferente daquele que lhe é dado pela natureza e pela vida, mundo onde incrementa indústrias, e constrói máquinas, o engenhoso espírito de contradição.»

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).

 


«O declínio da verdade do ente dá-se de um modo necessário, como o acabamento da metafísica.

O declínio efectiva-se pelo desabamento do mundo marcado de metafísica e, ao mesmo tempo, pela devastação da terra, resultado da metafísica.

Desabamento e devastação encontram a consumação que lhes convém nisto de o homem da metafísica, animal rationale, aí estar agora como besta de trabalho.

Esta situação confirma a extrema cegueira do homem no limiar do esquecimento do ser. Mas o homem quer ser, ele próprio, o voluntário da vontade de vontade, aquele para quem toda a verdade se transforma no erro que precisa para poder estar certo de se iludir a si. Trata-se de, para ele, não ver que a vontade de vontade nada pode querer se não a nulidade do nada perante a qual se afirma sem conseguir aí conhecer a sua própria e completa nulidade.

Antes que o ser se possa mostrar na sua verdade inicial, é preciso que o ser com a vontade seja quebrado, que o mundo seja destroçado, a terra entregue à devastação e o homem jungido ao que não seja senão trabalho. Só depois deste declínio se tornará sensível, no decurso de um longo intervalo, a duração abrupta do começo. No declínio, tudo tem fim: tudo, quer dizer, o ente no inteiro horizonte da verdade da metafísica.

O declínio já se deu. As consequências deste acontecimento são os grandes feitos da história mundial que assinalaram [o] século [XX]. O fim deste decurso está ordenado segundo a técnica da “história” e com o sentido do último estádio da metafísica. Tal pôr-em-ordem é o último acto pelo qual o que teve fim está instalado na aparência de uma realidade cuja operação é irresistível porque pretende dispensar-se do desvelamento do ser do ser e isso de um modo tão decidido que todo o pressentimento desse desvelamento é supérfluo. A verdade ainda escondida do ser recusa-se aos homens da metafísica. A besta de trabalho é abandonada à vertigem das suas fabricações para que ela se destroce a si própria, se destrua e caía na nulidade do Nada.»

Heidegger (in Orlando Vitorino, «A Desolação do Mundo – Leonardo Coimbra e Martinho Heidegger»).

«Precisamente a técnica é o fenómeno que expressa, no plano do modo de ser homem no mundo, o desabrochar e o cumprimento da metafísica. Ao dar-se do ser só como vontade, teorizado por Nietzsche – que é o modo extremo de ocultar-se do ser e que deixa aparecer só o ente – corresponde a técnica moderna que dá ao mundo essa forma que hoje se chama “organização total”. Os sistemas metafísicos do século XIX são uma forma de “organização total” a um nível ainda teórico: pressupõem ainda, como toda a metafísica, certa recordação da diferença ontológica. Com efeito, a metafísica nasce como pergunta sobre o ser do ente: neste sentido, a metafísica adverte a diferença ontológica mesmo quando a esquece de facto, enquanto pensa o ser do ente apenas como aquilo que todos os entes têm de comum, atendendo ao modelo do ente concebido como simples presença. Embora esquecendo o verdadeiro sentido da diferença ontológica, a metafísica concebe, no entanto, sempre o ser do ente e sobrevive assim até que o seu esquecimento do ser se apresenta mascarado sob o aspecto de uma indagação do ser do ente. Vimos como o desenvolvimento da metafísica a levou a reduzir o ser do ente à certeza da representação e, por conseguinte, à vontade como vontade do sujeito reduzir tudo a si mesmo. Apesar de tudo, também os grandes sistemas idealistas do século XIX supõem ainda, como teorias, uma remota sobrevivência de uma recordação, embora cada vez mais mistificada, da diferença ontológica. Esses sistemas, por exemplo, distinguem sempre de alguma maneira entre uma realidade “empírica” e uma realidade “verdadeira”, que é a descrita na sua teoria, realidade verdadeira que tem uma razão de ser precisamente porque não se identifica ainda com a realidade no seu modo de se dar imediato e quotidiano; mas aquilo para que tendem fundamentalmente esses sistemas é a organização total do ente: o que reconhecem como empírico é só o que ainda escapa a essa organização total, à “sistematização” geral da realidade. Segundo Heidegger, a técnica dá justamente o último passo no caminho da delimitação de toda a diferença residual entre realidade “verdadeira” e realidade “empírica”. A organização total realizada pela técnica já não está apenas na teoria, mas concretiza-se efectivamente como ordem do mundo. Abolida esta última diferença, fica também abolida a última e pálida recordação da diferença ontológica: do ser já não fica mais nada e só ficam os entes. O ser do ente é total e exclusivamente o ser imposto pela vontade do homem produtor e organizador.»

Gianni Vattimo («Introdução a Heidegger»).

 


«O mundo da técnica é o mundo da errância: os homens não têm nenhum ponto de referência. As guerras mundiais que enfurecem o mundo não têm mais sentido que a paz que se segue: porquê fazer a paz e porquê ter feito a guerra?

Esta visualização deplorável, da qual podemos continuar a descrição, não deve dar lugar a lamentações de tipo moral, como se não tivéssemos feito o que de nós depende para manter a técnica nos seus justos limites ou como se não tivéssemos sabido insuflar os valores ou o “suplemento de alma” necessários ao equilíbrio do desenvolvimento da máquina. Heidegger – e é este o seu grande mérito – quer ir mais longe na análise e esforça-se por desvelar o sentido profundo da situação que está para além de um juízo ético. Este, se tiver lugar, dependerá de uma investigação que religue os aspectos deploráveis concretos que vimos às dimensões mais radicais dos homens: as que têm que ver com a sua relação com o ser e o tempo, e com a história desta relação. É o que Heidegger procura quando faz remontar a técnica, como instrumentalidade e manipulação (e não há nada a dizer contra  ela a este nível), à essência da técnica.

De que se trata? De que a técnica é o fim do que Heidegger chama a “metafísica”; ela é o fruto da sua longa história; ela é o ponto em que a filosofia “conjuga as suas possibilidades extremas”, o ponto terminal de um itinerário em que a figura de Platão marca o ponto de partida e dá a inspiração constante. Se não se refere esta situação terminal da técnica ao longo caminho da metafísica, não a compreendemos em absoluto e ficamos desarmados face à sua penetração totalitária. Então, para ir ao fundo do problema que põe a expansão da técnica que se tornou terrífica é necessário deslocar o discurso ou ao menos religá-lo à investigação sobre a metafísica.

Para trazer à luz a ligação da técnica à metafísica há que remontar para o longo processo histórico que Heidegger chama o destino da filosofia ocidental, onde se encontra a ligação necessária e fatal que nos conduziu onde estamos.

Martin Heidegger designa por uma palavra não traduzível, Gestel, o estado mortal onde nos encontramos. Este termo reúne e sugere todas as variantes da raiz que encarna (não apenas no sentido de exprimir, mas também no de tomar concretamente corpo), o processo de manipulação, de artificialidade, de abstracção destrutiva que é preciso indicar, stellen: colocar, meter, adiante, atrás, violentamente, docemente, produzir, arrancar, dispor de, deslocar. Ora todos estes termos reenviam para uma certa atitude da vontade, que se tomou a si própria como fim e reconduz indefinidamente tudo a si, uma deslocação que unifica paradoxalmente a desmedida (uma vez que não há outra regra que o puro querer de si) e a exactidão (pois, para esta acção agressiva, ela usará até ao fim a razão mais friamente calculista, donde a inflação das ciências e da sua aplicação sem limites no maquinismo).

Esta atitude da vontade, virada sobre si própria e o seu querer viver, reenvia a Nietzsche: foi por ele que o fundo do real se manifestou como força de vida, imediatez sensível e vital, que constrói campos de valores livres da escravatura da racionalidade e da lei. Ora esta recentração da realidade como dinamismo de um querer-viver centrado em si, “vontade da vontade”, “possibilidade de voltar a si, fora de qualquer condição, como à vontade da vida”, é de facto uma transmutação: Nietzsche herda de um mundo secularmente marcado pela omnipotência do racional, suposto com capacidade para reassumir qualquer coisa e toda a história, seja segundo a variante idealista de Hegel (movimento dialéctico do espírito absoluto), ou a de Marx, materialista (processo histórico da produção), e transmuta este primado do racional em primado da vontade.

Somos então reenviados de Nietzsche a Hegel, onde o idealismo transcendental aparece, por seu lado, como a forma radical de um processo iniciado com Descartes: na aurora dos tempos modernos, a percepção da consciência por si própria torna-se fundamento de toda a certeza; sobre este fundamento se constrói a distinção entre sujeito e objecto, encontrando-se o real objectivado e dominado pela consciência, critério último da verdade. A reflexão do Cogito sobre si próprio tem como corolário o primado da representação, tomando todo o ser a forma da apresentação que os homens se fazem do objecto a partir da certeza de si. Não é possível seguir aqui as vicissitudes desta construção da realidade da autoposição do sujeito, de Descartes, onde ela se inicia, até Hegel, onde se torna perfeita, duas etapas importantes, passando por Leibniz e Kant, para a posição de Heidegger. Há que ter em conta apenas que, em Hegel, o fundamento é total e definitivamente posto no sujeito, como termo de um percurso que reassume e articula a realidade do ser, do pensamento e da história. É este absoluto do percurso como racionalidade subjectiva que Nietzsche quis transpor.»

Mário Botas (posfácio in Martin Heidegger, «Língua de tradição e língua técnica»).

 


A queda do homem fáustico

Qualquer Cultura Superior é uma tragédia. A própria História da Humanidade é completamente trágica. Mas o desafio e a queda do homem fáustico ultrapassam tudo aquilo que Ésquilo e Shakespeare alguma vez imaginaram. A criatura ergue-se contra aquele que a criou. Assim, tal como, um dia, o microcosmo-Homem se revoltou contra a Natureza, agora o microcosmo-Máquina se subleva contra o homem Nórdico. O senhor do Mundo está a caminho de devir o escravo da Máquina, que a força – que nos força a todos, estejamos ou não conscientes disso – a seguir na sua trajectória. O triunfador, abatido, é condenado a morrer espezinhado pelo galope de seus cavalos.

No início do século XX o aspecto do «mundo» no nosso minúsculo planeta é, pouco mais ou menos, como segue: um grupo de nações, de sangue nórdico, domina a situação, sob comando dos Ingleses, Alemães e Franceses, e dos Americanos. O seu poderio político assenta na Riqueza que possuem, riqueza que é fruto do seu poder industrial. Mas este, por seu turno, depende estreitamente dos recursos em carvão. A localização das jazidas de carvão assegura, especialmente aos povos germânicos, um monopólio quase completo deste recurso. Este facto conduz a uma multiplicação populacional sem paralelo na história. Dependendo do carvão e das vias principais de comunicação que irradiam das minas, existe uma massa humana de monstruosas proporções, com uma vida disciplinada na técnica mecanista, trabalhando para ela e obtendo todos os seus meios de subsistência. Quanto aos outros povos, é-lhes confiado, quer sob o estatuto de colónias, quer de Estados nominalmente independentes, o papel de fornecedores de matérias-primas e de consumidores do produto final. Essa divisão de funções é mantida e assegurada por exércitos e frotas, cuja conservação pressupõe a riqueza industrial, exércitos esses que foram organizados e equipados por meio de técnicas tão aperfeiçoadas que podem entrar em acção com a simples pressão de um botão. Mais uma vez, é posta em relevo a conexão estreita e profunda, a quase total identidade entre a política, a guerra e a economia. O grau de poder militar é correlativo do grau de desenvolvimento industrial. Os povos industrialmente pobres passam privações em todos os aspectos; não têm meios para manutenção de um exército nem para fazer a guerra, pelo que são politicamente impotentes. E, em consequência disso, os elementos activos desses países, tanto dirigentes como dirigidos, representam apenas peões no tabuleiro da política dos seus adversários.

Face às massas de «Mãos» executantes, único factor que retém a atenção do «olhar medíocre» dos descontentes, o valor do trabalho de chefia dos poucos cérebros criadores (empresários, organizadores, administradores, inventores e engenheiros), embora seja cada vez mais elevado, queda incompreendido e ignorado [1]. Essa incompreensão nota-se menos na América, que é uma nação pragmática, e mais na Alemanha, país de «poetas e pensadores». A frase idiota: «todas as rodas parariam de girar se tal fosse a vontade do Braço Poderoso» obnubila a mente dos linguareiros e escrevinhadores. Para parar a engrenagem das máquinas, bastaria que nelas caísse um simples carneiro... Mas inventar essas máquinas e pô-las em marcha, assegurando assim a subsistência desse tal «braço poderoso», é algo que apenas pode ser concretizado pela minoria dos que são congenitamente dotados para tal. Esses chefes incompreendidos e detestados, que formam um conjunto de personalidades fortes, têm, contudo, características psicológicas bem diferentes. Não perderam o sentimento secular do predador que segura nas suas garras a vítima, ainda palpitante, tal o sentimento de Cristóvão Colombo, quando viu surgir terra no horizonte; tal o sentimento de Marco António, ao contemplar em Filipe as legiões inimigas caindo na ratoeira. Tais momentos, pontos altíssimos da experiência humana, são também disfrutados pelo construtor, quando vê um majestoso paquete ser lançado à água, ou pelo inventor, quando a sua mais recente máquina inicia o seu trabalho com perfeição, quando se eleva nos ares o primeiro «zeppelin».

Mas o que é intrínseco à tragédia dos tempos actuais é justamente o facto de o pensamento humano, que desencadeara o processo técnico, já não ser capaz de apreciar o alcance e as consequências dos actos a que dá origem. A técnica tem-se tornado tão esotérica como as matemáticas superiores, (de que, aliás, se serve). As teorias da física, partindo da abstracção dos fenómenos, levaram o seu requinte ao ponto de mesmo sem tomarem claramente consciência disso, terem penetrado os limites fundamentais do entendimento humano[2]. A mecanização do Mundo entrou já numa fase de tensão extremamente perigosa. A própria face da Terra, com as suas plantas, seus animais e seus homens, já não é a mesma. Em escassas dezenas de anos, muitas das grandes florestas desapareceram, transformadas em papel de jornal; provocaram-se modificações climatéricas que põem em perigo a economia rural de populações inteiras[3]. Por causa do homem, numerosas espécies animais encontraram a quase total extinção, como é o caso exemplar do bisonte; e raças inteiras têm sido sistematicamente exterminadas, pouco faltando para o seu desaparecimento total – caso dos índios americanos e dos aborígenes da Austrália.

Todos os seres orgânicos sucumbem perante a crescente mecanização. Um mundo artificial invade o mundo natural, envenenando-o gradualmente. A Civilização converteu-se, por si-própria, numa máquina que faz, ou tenta fazer, tudo mecanicamente. Já não conseguimos pensar senão em termos de cavalos-vapor. Não podemos olhar uma cascata sem mentalmente a transformarmos em energia eléctrica. Somos incapazes de contemplar o gado que pasta nos campos sem contabilizarmos o rendimento da sua carne. Não sabemos já admirar a beleza do artesanato dos povos ainda simples, pois logo queremos substituir os seus processos manuais por técnicas modernas. Seja isso viável ou absurdo, o pensamento técnico quer realizar. O luxo mecanicista é a consequência de uma distorção mental. Em última análise, a máquina tornou-se num símbolo análogo ao ideal que lhe esteve na origem – o perpettum mobile. Mas este é uma necessidade espiritual e intelectual, não vital.

Aliás, a máquina mostra-se já, em muitos aspectos, contraditória com a prática económica; os sinais antecipados desse divórcio começam a manifestar-se por todo o lado. Através da sua multiplicação e do seu requinte cada vez mais acentuado, a máquina começa a provocar consequências inversas aos objectivos para que foi construída. Nos grandes aglomerados urbanos o automóvel, devido à sua proliferação, anulou o seu próprio valor utilitário; já nos deslocamos mais depressa a pé... Na Argentina, em Java e em muitas outras regiões a simples charrua do pequeno lavrador, puxada por um cavalo, já demonstrou que proporciona uma rentabilidade superior a grandes máquinas da agricultura mecanizada, achando-se em vias de expulsar esta última. Em muitas regiões tropicais o homem negro ou amarelo, com seus processos primitivos de trabalho, já concorre perigosamente com a técnica moderna das plantações adoptadas pelo homem branco. E até o trabalhador industrial da velha Europa e da América do Norte experimenta um certo mal-estar, uma adesão renitente ao trabalho que executa.



Claro que é absurdo falar, como foi moda no século XIX, no esgotamento das minas de carvão nos próximos séculos, e das consequências de tal eventualidade. Mas, no século XIX, época de enraizado materialismo, não era fácil pensar de outra forma que não fosse materialmente. Mesmo sem ter em conta que o petróleo e a energia hidráulica estão sendo cada vez mais utilizadas como fontes energéticas substitutas do carvão, é óbvio que o pensamento técnico rapidamente descobriria outros recursos possíveis. Aqui, do que se trata, é que é completamente vão querer antecipar tanto as coisas, em relação ao futuro, porque a própria técnica da Europa e da América irá acabar antes disso. Não subsistem dúvidas de que não será um insignificante pormenor como ausência de matéria-prima (lato sensu) que comprometerá essa transformação gigantesca. Enquanto existir a Inspiração que anima essa técnica, ela estará no seu apogeu e apta a produzir sem falha os meios adequados aos seus fins.

Mas durante quanto tempo permanecerá ela no auge? Só para manter os nossos processos técnicos ao nível actual, são necessários uma centena de milhar de cérebros excepcionais, organizadores, inventores e engenheiros. Todos eles tem de ser talentos fortes e até criativos, entusiasmados pelas suas tarefas graças a um dispendioso processo de formação, que exige muitos anos. Na realidade, é justamente essa vocação que tem atraído irresistivelmente, durante os últimos cinquenta anos, a fina flor dos indivíduos mais dotados e fortes de toda a juventude de raça branca; já em crianças se divertiam com brinquedos técnicos. Nas famílias e classes sociais da cidade (cujos filhos são, neste ponto, os que interessa considerar), uma tradição de conforto e cultura constituía a base normal de formação destes frutos tardios do pensamento técnico.

Mas nestes últimos decénios tem sido patente que tal estado de coisas começou a alterar em todos os países onde a grande indústria se instalou de há longa data. O pensamento Fáustico começa a sentir náuseas da máquina. Está a propagar-se uma lassitude, uma espécie de pacifismo na luta contra a Natureza. Os homens viram-se para modos de vida mais simples e próximos da Natureza; consagram mais tempo aos desportos que às experiências técnicas. As grandes cidades estão a parecer-lhes odiosas, e eles aspiram a evadir-se da opressão esmagadora das actividades sem alma, do jugo da máquina, da atmosfera rígida e glacial da organização técnica. E são precisamente os talentos fortes e criadores que voltam, deste modo, as costas aos problemas práticos das ciências, para se lançarem na especulação pura. O ocultismo e o espiritismo, as filosofias hindus, a curiosidade metafísica oculta em manto cristão ou pagão, que ao tempo de Darwin não passavam de objectos a desprezar, ressurgem agora. Esta era a índole de Roma no século de Augusto. Desgostosos da vida, os homens afastam-se da civilização, procuram refugiar-se em regiões primitivas, na vagabundagem e no suicídio. Inicia-se a fuga dos chefes natos perante a máquina[4]. Todo o grande empreendedor, seja qual for a esfera da sua actividade, tem inúmeras ocasiões para constatar a quebra de qualidades intelectuais naqueles que tenta recrutar. Ora o esmagador desenvolvimento técnico do século XIX só foi possível pela constante elevação do nível intelectual. Por isso, mesmo que não se dê uma diminuição, um simples estado de estagnação é já perigoso, constitui um sinal precursor do fim, por muito numerosas e treinadas que possam ser as Mãos para o trabalho.



Nova Iorque, Manhattan. Ver aqui

E que acontece a essas «Mãos»? A tensão entre o trabalho de chefia e o de execução atinge o seu paroxismo, aproxima-se da catástrofe. A importância desse trabalho de direcção e o valor económico de toda a Personalidade autêntica que nela participa têm aumentado ao ponto de se tornarem imperceptíveis e incompreensíveis para a maioria daqueles que ocupam cargos subalternos. Mas ao outro nível, ao nível dos que trabalham manualmente, o indivíduo deixou de ter a mínima importância. Apenas os números contam. O pleno conhecimento deste irrevogável estado de coisas, e ainda explorado financeiramente e envenenado, é de tal modo desconsolador que, em reacção conforme à natureza humana, os homens revoltam-se contra o papel que a maioria deles foi obrigado a desempenhar pela máquina – e não, como se julga, pelos seus possuidores. E assim se inicia, das mais variadas formas, desde a chantagem sob a forma de greve ao suicídio, a amotinação das Mãos contra o seu destino, contra a Máquina, contra a vida padronizada, finalmente contra todos. A organização do trabalho, tal como tem existido, durante milhares de anos, baseado na «acção colectiva combinada» e na distinção entre dirigentes e dirigidos, entre cérebros e mãos, está sendo pulverizada desde os alicerces. Mas a «Massa» não é mais que um ente que nega, que recusa o conceito de organização; a «massa» nunca é, por si-mesma, capaz de organizar a vida. Um exército sem oficiais jamais deixa de ser uma mera horda desordenada e inútil[5]. Um montão de tijolos esboroados e de sucata não pode tomar o lugar de um edifício. Essa amotinação, espalhada pelo mundo inteiro, ameaça pôr termo à própria possibilidade do trabalho técnico rentável. Os chefes podem encontrar solução na fuga; mas aqueles que eles conduziam, tornados inúteis, ficam perdidos. E o simples facto de serem muito numerosos os condena à morte.

O terceiro e mais sugestivo sintoma da derrocada incipiente reside naquilo que se poderia designar por traição para com a técnica. O que vou afirmar é do conhecimento público, mas nunca foi considerado sob todos os seus ângulos e como tal, seu fatal significado nunca foi patenteado. A enorme superioridade de que disfrutámos, durante a segunda metade do século XIX, na Europa Ocidental e na América, baseada no poderio económico, político, militar e financeiro, assentava, em última instância, no monopólio incontestado da indústria. E as grandes indústrias não eram viáveis sem estarem conjugadas com as jazidas carboníferas desses países nórdicos. A função do resto do mundo era absorver os produtos finais dessas indústrias; a política colonial foi sendo constantemente fundamentada, no plano prático, na abertura de novos mercados e de novas fontes de matérias-primas, e, nunca o desenvolvimento de novos centros de produção. Sem dúvida existem jazidas de carvão noutros lugares, mas só os engenheiros de raça branca sabiam como lidar com ele. Éramos possuidores exclusivos, não só de matérias-primas, como de cérebros e técnicas capazes de as valorizar. É isto que está na base do nível de vida luxuoso do trabalhador branco, cujo rendimento, comparado com o do trabalhador «moreno»[6], é principesco; esta circunstância foi omitida pelo marxismo, omissão que agora lhe causa grande dano. Actualmente, a compensação natural para este facto começa a evidenciar-se com o problema da falta de postos de trabalho. O nível elevado dos salários do trabalhador branco, que pode pôr em perigo a sua vida, deve-se ao monopólio que os chefes industriais souberam criar em seu redor[7].

Mas eis que, cerca do final do século XIX, a cega Vontade de Domínio começa a cometer erros cruciais. Em vez de guardarem zelosamente a sua técnica, que era a sua melhor arma, os povos brancos ofereceram-na complacentemente a outros povos, por esse mundo fora, utilizando as mais diversas formas de divulgação oral e escrita. Perante o espanto admirativo de Indianos e Japoneses, compraziam-se e envaideciam-se. Instaurou-se assim a famosa «descentralização da indústria», motivada pelo desejo de aumentar os lucros com a transferência da produção para as regiões de colocação dos produtos. E foi assim que, em vez de uma exportação, em exclusividade, dos produtos acabados, os povos de raça branca começaram a exportar os seus segredos, os seus métodos, os seus processos, os seus engenhos e organizadores. Os próprios inventores começaram a emigrar, porque o socialismo, ao querer submetê-los ao seu jugo, expulsou-os. De repente, os «morenos» penetraram rapidamente nos nossos segredos; compreenderam-nos e utilizaram-nos com pleno rendimento. Em trinta anos, também os Japoneses se tornaram técnicos de primeira ordem; na sua guerra contra a Rússia demonstraram uma tal superioridade técnica que dela até seus professores extraíram ensinamentos. Hoje, por todo o lado – Extremo Oriente, Índias, América do Sul, África do Sul – existem, ou estão em vias de existir regiões industriais que, graças ao baixo nível de salários auferidos pelos seus trabalhadores, nos vão colocar face a uma concorrência mortal. Os intangíveis privilégios das raças brancas foram disseminados ao acaso, esbanjados, divulgados. Os não-iniciados prenderam nas suas malhas os iniciadores, e talvez os venham a ultrapassar, graças à aliança entre a manha dos «morenos» e a sua atávica maturidade intelectual, resultante das suas civilizações muito antigas. Em todas as regiões onde existem carvão, petróleo e hulha branca podem ser forjadas armas apontadas ao coração da própria civilização Fáustica. Aqui começa a vingança do mundo explorado sobre os seus senhores. As multidões incontáveis de Mãos da raça de cor, tão capazes como as Mãos das outras raças, mas muito menos exigentes, corroeram a organização económica dos Brancos até aos seus alicerces. Os hábitos de vida do trabalhador branco, luxuosos se comparados ao do Kulí, serão a sua perda, pois o seu trabalho, mais dispendioso, chegará a ser indesejável. As enormes massas humanas concentradas nas regiões carboníferas setentrionais, cidades e regiões inteiras com seus complexos industriais, os capitais aí investidos, tudo isso vê surgir a probabilidade de uma derrota nesta competição. O centro de gravidade da produção afasta-se constantemente, tal como se desvaneceu, após a primeira Guerra Mundial, o respeito das raças de cor pelos Brancos. Estas são as condições que estão na base da irremediável falta de trabalho que reina entre os Brancos. Não se trata apenas de uma simples crise, mas do início da catástrofe.

Muralha da China vista do espaço

Para esses povos de cor, onde incluímos também os Russos, a técnica Fáustica não surge, de modo algum, como uma necessidade interior. Só o homem Fáustico pensa, vive e sente nas suas formas. Para ele, isso é uma necessidade espiritual, não uma mera resposta a necessidades económicas; são as vitórias que essa técnica propicia aquilo que realmente conta – «navigare necesse este, vivere non est necesse». Para as massas de cor, pelo contrário, a técnica não passa de uma arma na sua luta contra a civilização fáustica, arma semelhante a um ramo que se corta da árvore depois de cumprida a sua tarefa. Essa técnica mecanicista desaparecerá com a Civilização Fáustica e, um dia, os seus despojos serão espalhados, esquecidos, as nossas vias férreas e paquetes jazerão olvidados, como as estradas romanas ou a Muralha da China; as nossas cidades gigantes e os nossos arranha-céus quedarão em ruínas, como as construções de Memphis e da Babilónia. A história dessa técnica dirige-se célere para o seu fim inelutável. Será corroída e devorada a partir do seu interior, como todas as grandes formas de culturas. Porém, ignoramos quando e como tal acontecerá.

Ruínas da cidade antiga de Memphis, no Egipto. Ver aqui e aqui


Muralhas de Babilónia em 1970

Ἀχιλλεύς

Confrontados com tal destino, uma só concepção da vida é digna de nós, aquela que já foi designada por «Escolha de Aquiles»: mais vale uma vida breve, plena de acção e brilho, que uma vida longa mas vazia. O perigo é tão grande, para cada indivíduo, para cada classe, para cada povo, que tentar ocultá-lo é deplorável. O tempo não pode deter-se; não há retrocessos prudentes, nem renúncias cautelosas. Só os sonhadores poderão acreditar em tais saídas. O optimismo é cobardia. Nascidos nesta época, temos de percorrer até final, mesmo que violentamente, o caminho que nos está traçado. Não existe alternativa. O nosso dever é permanecermos, sem esperança, sem salvação, no posto já perdido, tal como o soldado romano cujo esqueleto foi encontrado diante de uma porta de Pompeia, morto por se terem esquecido, ao estalar a erupção vulcânica, de lhe ordenarem a retirada. Isso é nobreza, isso é ter raça. Esse honroso final é a única coisa de que o homem nunca poderá ser privado.

(In Oswald Spengler, O Homem e a Técnica, Guimarães Editores, Segunda Edição, Lisboa, 1993, pp. 107-119).



[1] Decadência do Ocidente, Tomo III, cap. V, n.º 7.

[2] Decadência do Ocidente, Tomo II, cap. IV, n.º 14 e 15.

[3] Acerca deste assunto leia-se, por exemplo, Fairfield, Osborn, La Planète au pillage, Payot, 1949.

[4] Dentro em pouco, só estarão disponíveis talentos de segunda ordem, meros epígonos de uma grande época.

[5] Aquilo que o regime soviético tem tentado fazer não passa de um regresso, com nomes diferentes à organização política, militar e económica que tinha destruído.

[6] Com  esta designação abrangemos os habitantes da Rússia e de certas regiões do sul e sudoeste da Europa.

[7] Sem que tenhamos de ir mais longe, basta lembrar a tensão que existe a propósito dos salários, entre trabalhadores rurais e operários metalúrgicos, que testemunha o que afirmamos.






domingo, 5 de abril de 2026

O Homem e a Técnica

Escrito por Luís Furtado



 

«A progressiva restrição de todas as liberdades em certos povos, não obstante a licença exterior, que lhes dá a ilusão da posse dessas liberdades, parece ser consequência da sua velhice tanto como a de qualquer regime. Constitui um dos sintomas precursores da fase de decadência a que nenhuma civilização até hoje pôde escapar.

A avaliarmos pelas lições do passado e por sintomas que por toda a parte se manifestam, algumas das nossas civilizações modernas chegaram à fase da velhice extrema, que precede a decadência. Ao que parece, são fatais em todos os povos fases idênticas, pois que as vemos muitas vezes repetidas na História.»

Gustave Le Bon («A Psicologia das Multidões»).

 

«Pois bem: a civilização do século XIX é de tal índole que permite ao homem médio instalar-se num mundo farto, do qual percebe só a superabundância de meios, mas não as angústias. Encontra-se rodeado de instrumentos prodigiosos, de medicamentos benéficos, de estados previdentes, de direitos cómodos. Ignora, pelo contrário, o difícil que é inventar estes medicamentos e instrumentos e assegurar para o futuro a sua produção; não repara como é instável a organização do Estado, e mal sente obrigações dentro de si. Este desequilíbrio falsifica-o, vicia-o na sua raiz de ser vivo, fazendo-o perder contacto com a própria substância da vida, que é perigo absoluto, problemática radical. A forma mais contraditória que pode aparecer na vida humana é a do “menino satisfeito”. Por isso, quando se torna figura predominante, é preciso dar o grito de alarme e anunciar que a vida se encontra ameaçada de degeneração; quer dizer, de morte relativa. Segundo isto, o nível vital que a Europa de hoje representa é superior a todo o passado humano; mas, se se olha para o porvir, é de temer que não conserve a sua altura nem produza outro nível mais elevado, antes pelo contrário, que retroceda e recaia para níveis inferiores.»

Ortega y Gasset («A Rebelião das Massas»).

 

«A técnica moderna passa, como qualquer técnica mais antiga, por coisa humana, inventada, executada, desenvolvida, dirigida e estabelecida de modo estável pelo homem e para o homem. Para confirmar o carácter antropológico da técnica moderna é suficiente a referência ao facto de ela estar fundada sobre a ciência moderna da natureza. Compreendemos a ciência como uma tarefa e uma exploração do homem. O mesmo vale num sentido mais lato e englobante para a civilização, cuja técnica constitui um domínio particular. A civilização em si tem por finalidade cultivar, desenvolver e proteger o ser-homem do homem, a sua humanidade. É aqui que se situa a muito debatida questão: será que a cultura técnica – e por conseguinte a própria técnica – contribui em geral, e se sim em que sentido, para a cultura humana (Menschheitsbildung), ou arruína-a e ameaça-a?».

Martinho Heidegger («Língua de tradição e língua técnica»).

 


«A cultura atinge o seu termo quando se desenvolve na fase da civilização. Por outras palavras, quando, à criação global de ideias, de crenças, de intuições, de concepções artísticas, de símbolos, de mitos e de finalidades universais, se segue a sua expansão extrínseca. Cultura e civilização exprimem, para Spengler, “uma sucessão orgânica rigorosa e necessária. A civilização é o destino inevitável da cultura”. E o pensador alemão explica eloquentemente o seu conceito: “As civilizações são os estados mais exteriores e mais artificiais que pode atingir uma espécie humana superior. São um fim; sucedem ao devir como o devindo, à vida como a morte, à evolução como a cristalização, à paisagem e à infância da alma, visíveis no dórico e no gótico, como a velhice espiritual e a cidade mundial petrificada e petrificante. São um termo irrevogável, mas que é sempre atingido com uma profunda necessidade.»

António Quadros («Introdução à Filosofia da História»).

 

«Tanto faz, pois, dizer: em tal data manda o homem, tal povo ou tal grupo homogéneo de povos, como dizer: em tal data predomina no mundo tal sistema de opiniões – ideias, preferências, aspirações, propósitos.

Como deve entender-se este predomínio? A maior parte dos homens não tem opinião, e é preciso que esta lhe venha de fora à pressão, como o lubrificante entra nas máquinas. Por isso é preciso que o espírito – seja ele qual for – tenha o poder e o exerça, para que as pessoas que não opinam – e são a maioria – opinem. Sem opiniões, a convivência humana seria o caos; menos ainda: o nada histórico. Sem opiniões a vida dos homens careceria de arquitectura, de organicidade. Por isso, sem poder espiritual, sem alguém que mande, e na medida em que isso faltar, o caos reinaria na humanidade. E, paralelamente, toda a movimentação do poder, toda a mudança de quem impera é ao mesmo tempo uma mudança de opiniões e, consequentemente, nada mais nada menos do que uma mudança de gravitação histórica.

(...) Durante vários séculos mandou no mundo a Europa, um conglomerado de povos com espírito afim. Na Idade Média não mandava ninguém no mundo temporal. Foi o que se passou em todas as idades médias da história. Por isso representam sempre um caos relativo e uma relativa barbárie, um défice de opinião. São tempos em que se ama, se odeia, se anseia, se repugna, e tudo em grande escala. Mas, por outro lado, opina-se pouco. Tempos assim não carecem de encanto. Mas, nas grandes épocas, é da opinião que vive a humanidade, e por isso há ordem. Do outro lado da Idade Média, encontramos novamente uma época em que, como na Moderna, alguém manda, se bem que numa porção demarcada do mundo: Roma, a grande mandona. Ela pôs ordem no Mediterrâneo e arredores.

Nestas jornadas do pós-guerra começa a dizer-se que a Europa já não manda no mundo. Apercebemo-nos de toda a gravidade deste diagnóstico? Com ele anuncia-se uma movimentação do poder. Para onde se dirige? Quem vai suceder à Europa no comando do mundo? Mas estamos seguros de que lhe vai suceder alguém? E, se não fosse ninguém, que aconteceria?».

Ortega y Gasset («A Rebelião das Massas»).




«“A Escola” - isto significa o conjunto das instituições escolares desde a escola primária até à universidade. É esta última que é hoje provavelmente a forma de escola mais esclerosada, a mais atrasada na sua estrutura. O nome “universidade” perpetua-se pesadamente e apenas como um título fictício.»

Martinho Heidegger («Língua de tradição e língua técnica»). Ver aqui


«Não nos é lícito interpretar o aristotelismo em termos de mecanismo, porque contra tal interpretação conspiram a letra e o espírito das obras de Aristóteles. Vemos, aliás, que na Física de Aristóteles se passa da dinâmica para a cinemática, e da cinemática para a estática, em gradação ascendente da Terra para o Céu, ao contrário da mecânica ensinada nos tempos modernos. O ideal “moderno” da física parece ter sido contrariado pela classificação dos movimentos, das forças e das energias que figura na obra aristotélica; mas no nosso tempo, em que os fenómenos magnéticos, eléctricos e luminosos por sua vez contrariam o determinismo mecanista e materialista, já os esquemas aristotélicos ressurgem para cingirem, melhor do que os outros, a onda, a emissão e a explosão que configuram os principais fenómenos físicos. Se o fenómeno nos é descrito por uma série de fases, entre a aparição e a aparência se restabelece um nexo lógico que permite a inteligibilidade do universo. Não houve revolução a Aristóteles, no decurso dos séculos XIX e XX, porque revolução significa revolvimento, retorno, regresso. Houve, sim, o reconhecimento de um modo perene de filosofar, e portanto a possibilidade de ver na mesma enciclopédia o progresso das ciências filosóficas.



Enciclopédia, dizemos, para lembrar a rotação que era para Aristóteles o movimento mais puro. No centro, o motor imóvel, o infinito, expressão que para significar a transcendência parece de estrutura contraditória. Se soubermos ler na Psicologia a doutrina do movimento que se encontra exposta em outros escritos, em especial a doutrina da circulação angélica e da locomoção humana, compreenderemos o que em puridade significa a eternidade do mundo, cujo emblema admirável é a esfera. Bastará ler com atenção filológica o livro a que Henrique Bergson deu o título de La Pensée et le Mouvant para redescobrir o aristotelismo inspirador do poema evolutivo de Dante. A relação da psicologia com a teologia, a mediação do Logos entre o Homem e Deus, o silogismo que está para a vida intelectual como o amor para a vida religiosa, constituem efectivamente elementos que permitem considerar a superioridade da filosofia aristotélica sobre todas as outras filosofias helénicas ou helenísticas. O aristotelismo contém em si as melhores condições de adaptação aos progressos que a técnica, a ciência e a metafísica foram realizando no decurso dos séculos; mas contém, igualmente, a vigorosa refutação dos sofismas que impedem a inteligência humana de receber docilmente os dados da revelação divina. Em plena Idade-Média, foi o aristotelismo estudado e adoptado por pensadores judeus, cristãos e islâmicos. Não devemos estranhar, antes devemos admirar, que Santo Alberto Magno, e mais limpidamente Santo Tomás de Aquino, hajam visto na obra de Aristóteles a filosofia perene, e, portanto, aquela que mais convém à teologia católica. A confirmação do Magistério Eclesiástico, pela voz autorizada dos Pontífices, tem encontrado fácil eco no nosso país, exactamente porque o aristotelismo está integrado na filosofia portuguesa, quer dizer, na verdadeira tradição portuguesa.»

Álvaro Ribeiro («Aristóteles e a Tradição Portuguesa»).


«Sinto que, em Aristóteles, aquilo que entendo por assimilar se constitui por necessidade congénita sempre em benefício e referência ao sujeito. O que significa que no conceito o sujeito não se encontra a si mesmo, a não ser como o outro de si, dentro do próprio concebido. A assimilação, para mim, é a primeira notícia que assinala a mais discreta integração ou fusão intemporal da ordem enquanto física para a ordem metafísica. Assim se integra o conceber pensado em conceito actual. A nossa tendência comum é a de considerar a assimilação através de um critério apenas de ordem física, mas devemos ter em conta que esta sempre subentende o sentido para a unidade, para um fim a cumprir no âmbito dos estados ou das mutações da realidade. Desde o metabolismo das células, a assimilação procura a unidade do orgão ou do modelo constituinte, pelo qual se realiza na sua singularidade. Julgamos ser lícito conservar esta palavra como uma valia sugestiva no sentido de uma hermenêutica do movimento concebente para a realização dos conceitos. Deste modo, em sentido ambicioso e ideal, direi que o saber dos elementos deveria ser assumido pelo homem tal como o sabor dos alimentos. A assimilação é a similitude incorporada em conceito. A incorporação é que confere a qualidade sui generis ao conceito. Não se detém no serviço das nossas operações lógicas. O fim do conceito é conceber o in+concebível. Verdadeiramente quanto a nós, é o que Aristóteles quer significar por sínfise! É o lugar em si do sujeito, no universo que só ao sujeito pertence numa situação nova, como se, sem se dar conta, transitasse o espectador para dentro do espelho da sua reflexão, invertendo o foco da sua realidade. A partir daí, certamente que a epistemologia passava a usufruir e compreender melhor o critério da distinção e avaliação entre o pensamento científico e o pensamento propriamente filosófico. Não somos daqueles que acreditam numa filosofia validamente elaborada atenuando as dificuldades. O que queremos dizer, porém, é que uma filosofia da imaginação poderia ter esclarecido melhor o desenvolvimento posterior da filosofia europeia

Luís Furtado («Teoria da Luz e da Palavra»).


O Homem e a Técnica

Pretende o livro O Homem e a Técnica, tornar acessíveis ao leitor comum os fundamentos essenciais que justificam o declínio inelutável das culturas vivas em civilizações mortas. A obra de Oswald Spengler, A Decadência do Ocidente, é agora por este filósofo simplificada com o intuito de esclarecer as causas determinantes do sombrio presságio que ameaça a civilização europeia. O Homem e a Técnica pretende ainda evidenciar que este previsto declínio terá consequências finais nunca verificadas em outras culturas precedentes. Ficamos pois aptos a compreender que esta cultura fáustica “se não é por acaso a última, é decerto a mais poderosa, a mais vibrante, e ainda a mais trágica, devido ao conflito latente e interior entre a sua intelectualidade que tenta a compreensão do todo, e a sua alma profundamente desenraizada” [1].

A história está semeada de vestígios de antigas eras, onde jazem os despojos das culturas vencidas. Todas tiveram um ciclo de vida próprio em que aspiravam a uma possível eternidade. Caíram no entanto numa entropia decadente que lhes fez perder o valor criativo do espírito e a dinâmica de uma resposta activa sempre renovada.

Isto acontece porque todos os espaços culturais se encontram, quando nascem, congenitamente comprometidos numa estratégia de domínio, numa luta sem tréguas com o meio ambiente. Esta estratégia que logo de início é apenas uma «táctica vital» conforme as possibilidades naturais da espécie, vai pouco a pouco desenvolvendo e refinando novas vantagens pela criação contínua de utensilagem própria. É certo que o impulso eterno do fenómeno humano se alimenta de um desejo sempre insatisfeito de manipular todos os recursos disponíveis, numa superação constante das carências quotidianas. Daí que as sociedades se afastam da sua alma verdadeira modificando em artifícios cada vez mais complexos a paisagem originária em que nasceram. Resulta assim a técnica de um antagonismo do homem com a natureza. Mas se pela intervenção directa no próprio mundo dos objectos as mãos indicam já o esboço de “uma técnica tão antiga como a própria vida”, qual o facto determinante susceptível de conquistar um novo universo activo, para além dos limites orgânicos da espécie? Para Spengler é a linguagem a potência libertadora que vem abrir os novos caminhos do homem sobre a terra. É ela que de início elaborada a partir de representações espaciais vividas, solicita a marcha do progresso, respondendo às perguntas do intelecto atento e pesquisador. É por este esforço de constante autonomia que a linguagem vai dar origem à plenitude de um pathos onde se constituem imagens possíveis de uma terceira dimensão da realidade, já separada do círculo natural das sensações imediatas. Através da palavra é agora possível o exercício livre do pensamento abstracto que abre as portas de um novo espaço, em que as formas teóricas são outras tantas hipóteses de trabalho e acção sobre o sensível. É esse universo intelectualizado que transforma a originária estratégia instintiva em ponderados sistemas metódicos, com o fim de definir pela prática um controlo eficiente dos fenómenos. O conceito de espaço natural vai pois sendo esboçado mediante sistemas eidéticos que progressivamente esvaziados da densidade mística e divina se oferecem como abstracções susceptíveis de serem tratados pela racionalidade de uma lógica pura. Deste modo a física constitui-se como panorama do extenso, supondo que a natureza só pode ser descoberta através da unidade da razão e que por sua vez esta última subsume tudo o que acontece no espaço e sucede no tempo.

Desenha-se assim a tendência essencial da cultura fáustica, que é a de traduzir o mundo em sistemas lógicos e converter o movimento do universo em pensamentos extensivos e mecânicos. É evidente que o pensamento que procura modos operativos e concretos de intervenção, deseja definir na imagem visível do espaço todo um sistema ideal de acções finalizadas. Ele tem de atender aos modelos de uma mecânica universal em que as leis da casualidade respondem por um sistema possível de processos funcionais. Só neste contexto pode aspirar ao fim supremo de conceber numa constância calculada as variáveis cósmicas do devir. Nos movimentos livres da natureza a técnica vai explorar a imagem funcional de um universo lógico e teórico com o desígnio de desencadear tendências unilaterais e controladas no acontecer dos fenómenos. Nesta estratégia, consegue submeter ao seu serviço os princípios de uma dinâmica susceptível de potenciar a acção do homem sobre o ambiente que o rodeia.

Não admira pois que a técnica transporte consigo o dogma da força e do domínio! Mas esse domínio e essa força só lentamente se vão realizando, já que uma coisa são os sistemas que teorizam os processos funcionais e outra são os meios disponíveis que aguardam em perspectivas futuras de mecânica a possibilidade de objectivação concreta. A mecânica é com efeito, desde o princípio, um sistema de forças que nos seus aspectos genéricos mantém uma estrutura muito vizinha dos modelos biológicos que a inspiram. Resulta em termos práticos da observação dos seres vivos e tenta imitar ou superar determinadas aptidões da dinâmica dos corpos. Ela se nos apresenta como o sistema materializado de um conjunto de forças concorrentes para fins específicos de actividade.

Mas o pensamento corre à frente do tempo e por isso a mecânica concreta e possível só muito lentamente corresponde a todas as figuras que a alma fáustica visiona e antecipa nas sequências dinâmicas do movimento universal. Das possibilidades reais às teorias imaginadas há sempre uma distância abstracta a percorrer, em que os planos e as estratégias aguardam participar mais tarde como modelos objectivos na vivência quotidiana do homem. A história da técnica está pois cheia de visões ainda não consumadas! Desde Arquimedes ou Leonardo que se pensam e projectam esquemas dinâmicos que possuem a síntese possível das forças e a geometria sonhada de máquinas futuras...

Sempre será assim, apesar de no séc. XIX se terem efectivado as condições necessárias para o advento triunfante da civilização maquinista em que vivemos. Considerando que a mecânica depende do conhecimento do modo como actuam determinadas forças, ela supõe em si uma cadeia necessária de dependências estruturais que ambicionam desde logo uma possível unidade de todos os seus sectores. Com efeito, pela primeira vez na história, ela detém as sínteses dinâmicas de uma morfologia eficiente, que pode ser extensiva a vários domínios de intervenção. A mecânica ganha assim a indispensável cidadania na esfera do labor humano.

É esta fase maquinista que uniformiza pela indústria produzida a fisionomia da cultura. Nasce sob o signo da vontade e constitui-se como imperativo de um progresso que oposto ao mundo natural instaura um projecto de formas inertes e destituídas de vida. Há neste desígnio uma intenção planificadora que de modo resoluto programa a vida dos povos, em obediência a indiscutidas soluções funcionais. Por isso mesmo, a indústria patenteia os sintomas mais petrificantes da decadência do espírito. Ao constituir-se como suporte essencial e necessário das sociedades humanas, a produção industrial programada não pode aceitar lapsos, já que tenta substituir artificiosamente os recursos naturais por uma cadeia ininterrupta de circuitos de consumo. Neste sentido, e para manter uma operatividade constante, o maquinismo e a indústria ambicionam resolver o problema do movimento pela conquista integral de uma mecânica sem lacunas. Isto significa que tem de utilizar em seu benefício o mundo das leis inorgânicas que regem os fenómenos, e transformar em energia os movimentos livres da natureza.

A civilização tecnológica, no rigor científico dos seus métodos, na indústria racional e necessária dos seus produtos, já se presume vitoriosa e triunfante... A sua sobrevivência depende pois de consumar dentro de si, pela imitação das leis da física a imagem realizada do movimento perpétuo. Ela considera-se a única na história, que detém possibilidades autênticas de escapar ao determinismo das leis naturais que sentenciaram com a morte as outras civilizações anteriores. É aceitando esta esperança aliás sempre longínqua, que as sociedades confiam que a técnica as pode defender com eficácia da instabilidade que sempre acompanhou o homem sobre a terra.

As diversas culturas realizaram modificações de tal modo profundas nos seus ritmos tradicionais de existência que agora dependentes num processo de desafio e rivalidade tecnológica, definitivamente recusam um retorno às cadências mais originais da vida. No mundo de hoje, tal pretensão de regresso, seria considerada retrógrada e merecedora do público desdém que o comum consenso costuma atribuir a todas as razões que não compartilha ou compreende.

Verificamos no entanto que a crescente procura de fontes energéticas que se esgotam, substitui os planeamentos, altera os ritmos de produção e submete os sistemas mecânicos a adaptações novas de estratégia e de eficácia. Os circuitos da indústria, sujeitos a várias dependências, de modo algum garantem para os humanos o definitivo usufruto de uma existência estável. Por isso são constantes as disputas e as angústias que a era tecnológica vem trazer a todos os povos do mundo. Não interessa referir ao leitor esses factos, que pela análise dos tempos presentes, nos fazem temer os tempos futuros. De certo modo estes resultam sem sentido, já que o senso comum só com dificuldade aceita discutir problemas que coloquem em causa a placidez burguesa dos habituais sistemas de vida. Prefere entender esses acontecimentos como resultantes necessárias de crises de crescimento de uma civilização em irrefutável progresso. Defendem com efeito que a era industrial em que vivemos, mais cedo ou mais tarde encontrará a sua meta de triunfo, na base de qualquer novo tipo de energia, cuja descoberta se prevê dentro das possibilidades de uma ciência que sem descanso investiga os mistérios da natureza.

Os perigos que ameaçam a cultura fáustica podem assim ser superados sem renúncia da linha de destino laboriosamente construída. Neste caso a teoria de Spengler é julgada apenas naqueles aspectos intuitivos que resultam da análise entre os símbolos vivos das sociedades antigas, e os sinais mortos das sociedades modernas. O discurso do mundo julga que no caminho vitorioso desta civilização deverá apenas ter em conta o possível diálogo esclarecedor que faculte consensos tendentes a corrigir o abismo entre a alma originária do homem e as formas artificiais de existência por ele criadas. A resolução deste problema dependeria apenas de se encontrar um entendimento possível nestes dois mundos de diversa natureza. É evidente que deste modo a perspectiva de Spengler se anula mediante sucessivas intervenções em que a técnica e a cultura poderiam estabelecer possíveis sistemas de harmoniosa coexistência. Tudo se resolveria numa política de ambientes, numa estratégia ecológica, numa análise profícua de sociologia aplicada.

Mas este raciocínio tão plausível, não teria sido por este pensador prudentemente considerado, de modo a não comprometer a sua teoria em tão categórico juízo de decadência?

Convém notar que neste tipo de determinismo essencialmente comprometido com os ritmos biológicos do tempo, cumprem-se as estações da cultura, mediante um ciclo análogo ao das estações do ano. Este calendário natural explica como as formas orgânicas e fluentes das culturas, petrificam o seu ritmo criador em formas inorgânicas e destituídas de vida.

Devemos pois ter em conta que o fundamento essencial desta decisão irredutível, se relaciona com factores intrínsecos ao devir da natureza, de certo modo até indiferentes a toda a responsabilidade da intervenção humana. Não podemos com efeito aceitar a intransigência de Spengler na génese de uma atitude meramente metafísica. As razões profundas que a determinam, não podem ser apenas consideradas na base de um idealismo neflibata, elaborado nas cadeias fascinantes de uma simbólica intuitiva. Esse conteúdo determinista, não se circunscreve aos aspectos formais de uma filosofia que se assume e explica para além do sensível, ao reconhecer a realidade de um devir, que dissolve no tempo as efémeras obras humanas. Esta análise suficientemente persuasiva num entendimento entre filósofos, não se explicaria contudo na pública opinião, como susceptível de assumir as determinações extremas de um irremediável finalismo. Além disso, o pensamento simbólico, quando frequenta o discurso do homem comum, vive mais nas formas emotivas da sensibilidade do que no sentido necessário de qualquer conclusão teleológica. Neste contexto o símbolo quando é assumido nos seus conteúdos subjectivos, não costuma vincular o sujeito às consequências últimas daquilo que implica, dado que os seus modos poéticos de entendimento aparecem como antagónicos das exigências racionais de uma teoria científica.

Para este século de realizações objectivas, só a ciência dispõe do privilégio de se constituir como explicação última do mundo e da vida. Vemos que a sociedade está sempre mais inclinada a defender preconceitos científicos que estimulem o seu desejo de progresso... O horizonte simbólico e abstracto de Spengler se isolado de qualquer outra fundamentação mais realista, nunca poderia ser compreendido pela nossa época, tão inclinada a pragmáticas positividades. Por isso mesmo, o declínio das culturas no devir da natureza só pode ser realçado como problema importante no universo lógico das sociedades humanas, se for entendido mediante os postulados da própria física moderna.





O certo é que se o pensamento de Spengler manifesta uma verdade em ideias afins da filosofia especulativa, também se fundamenta dentro do consenso das ciências exactas. Convém neste aspecto referir A Decadência do Ocidente. É neste livro que Spengler nos fala da famosa lei da entropia pela qual nos apercebemos das consequências do segundo princípio da termodinâmica no destino desta civilização tecnológica. Esta lei que teve origem no estudo de Carnot sobre o rendimento das máquinas cuja energia se perde e se degrada em calor, veio mais tarde a ter uma valência universal, pelas fórmulas matemáticas introduzidas por Clausius. Aí é demonstrado, que no plano natural e cósmico, todos os sistemas energéticos dotados de heterogeneidade se submetem no seio deste imenso sistema que é o nosso universo. Isto quer dizer que todos os sistemas físicos trocam as energias que os singularizam em plurais manifestações fenoménicas, numa energia degradada ou seja em calor ou agitação molecular desordenada. Conclui-se que todas as leis da física se tendem a tornar cada vez mais indiferenciadas e homogéneas à medida que decorre este processo inelutável. As energias cinética, eléctrica ou química perdem pois as tendências específicas e finalistas que as diferenciam e exteriorizam como acontecimentos ou fenómenos naturais, susceptíveis de serem apropriados pelo homem, regressando assim, no ciclo do tempo, a uma espécie de «aperon», onde todas as suas leis e formas se dissolvem numa espécie de incandescência térmica, em que transparece a presença mais elementar de toda a energética universal. Esta lei, segundo Bergson indica-nos a “direcção da marcha do mundo” afirmando ainda que “ela diz que as alterações visíveis e heterogéneas se diluirão umas às outras em alterações invisíveis e homogéneas, e que esta instabilidade à qual devemos a riqueza e a variedade dessas alterações, ao consumar-se no nosso sistema solar, dará pouco a pouco ocasião à estabilidade relativa de estremecimentos elementares, que indefinidamente se reflectirão uns aos outros. Tal como um homem que conservasse as suas forças, mas consagrando-as cada vez menos aos seus actos, acabasse por empregá-las totalmente a fazer respirar os pulmões e palpitar o seu coração”[2].






Este segundo princípio da termodinâmica descreve por si mesmo, o vasto cenário de um espaço energético e descontínuo, que tal como o reconhece a física moderna, lentamente se evanesce na desintegração de sistemas nucleares, atómicos, moleculares e finalmente astrofísicos, que se nos revelam em energia luminosa ou fotónica. É assim manifestada a tendência geral do nosso universo em transformar-se em radiação, em luz...

Deste modo concluiremos que o processo que estrutura a solidez desta extensão sensível, transita em sentido contrário a esta mesma extensa exterioridade, e que este espaço caminha inelutavelmente para uma imaterial evanescência. Ela, a extensão, constitui os objectos numa tensão exterior (ex+tensão) que se polariza nas formas materiais que convivem com os dados dos sentidos. Por isso perguntamos se a geometria euclidiana que suporta os conceitos da física clássica não será um abstracto muito conveniente e pragmático...

Sabemos, como o reconhecera Einstein, que as descobertas da física recente repudiam e anulam a mecânica à medida que o espaço deixa de ser concebido como um contínuo em três dimensões. Com efeito, as leis da mecânica resultam da coordenação de um sistema de forças em pontos determinados de um sistema espacial que não podem dispensar a rigidez de uma geometria estática. Mas como se isto não fosse bastante, também há ainda a considerar que a energia inesgotável e infinita não tem sentido dentro de um sistema finito, pelo que de acordo com Carnot-Clausius não se pode resolver o problema do movimento perpétuo dentro de uma civilização de máquinas.

Porém, os métodos da ciência física têm que corresponder com eficácia concreta aos factos observados, e estes decorrem logicamente do nosso conceito de realidade que tem de permanecer o mesmo. Deste modo, por razões óbvias, o problema da energia não pode ser considerado extra-espacial já que é em sentido físico e objectivo que se investiga. Tal facto possibilita que a civilização tecnológica e maquinista na sua operatividade constante consiga disfarçar estes novos postulados da física moderna. Como o consegue?

Submete a sua estratégia de sobrevivência à extensão do mundo na qual se realiza e constitui, e supõe como princípio teórico, que a energia recebida é igual à energia dispensada, e que esta não fará mais do que transitar na sua quantidade exacta entre os vários sistemas fechados. Parte pois do princípio já refutado da conservação dessa mesma energia, dado que o fluxo que se transmite pode ser medido pelos cálculos matemáticos, com a correspondente noção de quantidade constante.

Vai assim a civilização maquinista constituindo o seu império, à custa de um esforço em que explora e actualiza o carácter mais ou menos fugaz de vários episódios energéticos, em concordância, com a possível eficácia concreta das leis da física. Aqui se avaliam os fundamentos em que assenta o poderio tecnológico que presentemente acciona o destino da história.

A pujança e a versatilidade desta civilização devem-se pois a pontuais fontes heterogéneas que pouco a pouco se irão extinguindo. Isto quer dizer que mais cedo ou mais tarde, todos os complexos sistemas humanos devem ceder a uma monotonia uniformizadora de acções repetitivas e elementares, indispensáveis a uma precária sobrevivência. Aliás a mecânica e a indústria denunciam prematuramente as tendências uniformizantes das suas capacidades funcionais, nas séries exaustivas e monótonas dos seus produtos. Desde logo nos apercebemos que se instaura sobre o mundo uma imagem do homogéneo, contrária às possibilidades anímicas e naturais que as culturas consigo transportam.





Se a técnica e a mecânica ambicionam controlar realmente os fenómenos da natureza, deveriam pelo que fica exposto, ironicamente o dizemos, suster a marcha do devir. Só assim alcançariam o pleno triunfo dos seus propósitos. No entanto, tal não acontecerá!... Limitam-se pois a instaurar na vida das sociedades o controlo de situações pragmáticas, possibilitando também utensílios necessários a uma eficaz intervenção do homem sobre o mundo. O certo é que o desenvolvimento tecnológico vem mostrar à humanidade o problema universal da energia, assim como revela ainda, a nudez desenvolvida dos limites e do destino da própria física. À medida que o maquinismo e a técnica esgotam as possibilidades, mais a física moderna patenteia em teoremas matemáticos as forças vectoras que suportam e explicam um espaço inorgânico numa esfera pura de causas e números funcionais. O que vemos em todo esse abstracto axiomatismo? Um formulário algébrico de pensamentos e ideias que têm necessariamente de tomar expressões viáveis nas correspondentes dimensionais do extenso.

A física de hoje, tem de explicar todos os fenómenos encontrando nas leis dos campos energéticos estruturas universalmente válidas, que não podem falhar neste «campo» da natureza, nesta reunião em que a matéria como energia altamente concentrada se apresenta ao espaço da vivência humana.

Ao contrário da física clássica que se inspirava na realidade dimensional da natureza organizando o espaço do homem em confiantes representações, o caminho da física moderna tem sentido inverso. Parte de abstracções que devem ser comprovadas nesta zona do real, traduzindo possibilidades muito concretas. Isto tem como consequência o declínio de toda a actividade representativa, e corresponde à descoberta da estrutura cada vez menos sensível e cada vez mais transparente da matéria, nos limites já invisíveis do próprio átomo. É sabido que este elemento postula e representa uma fonte inesgotável de energia. Aqui a alma fáustica no extremo umbral entre o denso e o diáfano poderia talvez garantir o predomínio da civilização tecnológica, se o uso dessa energia não tivesse como moeda de troca a dissolução do próprio espaço... O poder da alma fáustica sobre a natureza só será consumado pela morte.

“Fausto na segunda parte da tragédia morre porque acaba de alcançar a sua meta. O fim do mundo como conclusão do desenvolvimento íntimo e necessário. Eis o crepúsculo dos deuses”[3]. Isto desabafa Spengler para quem o sentido da história acompanha de modo evidente os conceitos do espaço e tempo que decorrem da evolução das ciências físicas. A História manifesta-se mediatizada por um conjunto de processos reversíveis ou irreversíveis, de acordo com a lei da entropia. Daqui derivam no seu estatuto as consequentes alterações que se transmitem à dinâmica das sociedades e à fisionomia das várias culturas.


Esta análise de ordem científica liberta a teoria de Spengler de qualquer profético misticismo e torna possível a descoberta dos sinais morfológicos da decadência que dão sentido a seculares unidades de tempo. A História, dentro dos conteúdos lógicos que a explicam, intimamente se relaciona com uma perspectiva física do real, já que define os acontecimentos dentro de um espaço, em limites concretos de existência. Os factos significantes que descrevem uma cronologia, não podem fugir à noção de um espaço contínuo ou descontínuo que contrapõe da física clássica à concepção da física moderna. Uma e outra solicitam duas diferentes perspectivas na análise dos acontecimentos, assim como inspiram diferentes análises conjunturais e disciplinares da realidade.

A teoria euclidiana, permite a vigência de uma história em que o tempo é aliado cíclico natural de um espaço contínuo, onde os factos se sucedem como representações singulares e definidas. Estes factos, por si mesmos são conteúdos que podem responder na sua autonomia pela dinâmica do grande todo que os rodeia. Correspondem a uma sólida estrutura geométrica do real, a pontos firmes que suportam todo um sistema de tensões e forças, que é correlativa com o discurso de uma História cujos centros dinâmicos se definem em povos singulares ou singulares homens de génio, que respondem pelos acontecimentos que determinam a marcha temporal da humanidade.

Com o desenvolvimento da técnica progressivamente se consolida uma fusão plena entre a continuidade do espaço e uma concepção mecanista da natureza e da vida. Por isso, dentro dos postulados de uma física triunfante de que a História pretende imitar o rigor das leis, o devir e a causalidade começam a confundir os elementos históricos e os elementos naturais. Dentro deste contexto, o mundo abstracto das causas inorgânicas, está autorizado a exigir na sucessividade do tempo a teoria explicativa de um destino. É que se todo o espaço físico tende através dos sistemas mecânicos a ser traduzido em energia dirigida, também o caminho da existência humana deve ser encarado em sistemas racionais que definam a direcção de um futuro.

Daqui resulta a natureza intelectualista das teorias históricas que disciplinam a interpretação dos acontecimentos.

O certo é que se a continuidade do extenso tinha na física antiga a valia inquestionável de estabelecer acordos harmoniosos entre a dinâmica e a estática, também nas ideias que explicam a História, este acordo possibilita o conhecimento eficaz entre a visão teórica do espaço e as representações definidas dos factos. Com efeito todas as suposições lógicas que derivam da geometria de Euclides, podem ser confirmadas pela experiência em substantivos próprios que designam no mundo animado da natureza o contorno preciso de representações objectivas.

Euclides, Escola de Atenas, por Raffaello Sanzio 

Mas quando o conceito de espaço contínuo foi abandonado pela física moderna, a nitidez geométrica do extenso distende-se numa indefinida evanescência, e a razão humana terá agora que encontrar unidades discursivas mais genéricas, como condições válidas do conhecimento.

Convém referir os pressupostos científicos desta nova física, para relacionarmos as correspondentes perpectivas que condicionam a interpretação dos acontecimentos que se sucedem no espaço e no tempo.

Assim a ciência moderna aceita a realidade de matéria e a realidade de campo que não designam de modo algum duas regiões espaciais distintas dentro de um critério físico. Matéria e campo são apenas conceitos derivados de uma intensidade maior ou menor de energia.

Mas como é que estas duas realidades se distinguem uma da outra?

Diz-se apenas que matéria tem massa e que o campo não a tem. Ser matéria e ter massa, apenas supõe uma concentração de energia quantitativamente mais intensa em relação à energia mais fraca e diáfana de que o campo pode dispor. No vazio entre as massas, na distância entre os corpos, também existe matéria que só pode ser conhecida em valores quantificados. Resulta pois evidente que este conhecimento e esta distinção em termos de espaço só pode efectivar-se pela categoria da quantidade ou quantum energético. Ora sendo o quantum constituído por partículas elementares é impossível determinar na singularidade de cada um dos seus elementos o comportamento de todos os componentes desse grupo. Deste modo a física moderna abandona o elemento em si próprio e tenta determinar os valores típicos médios de um agregado. As leis do quantum têm pois um carácter estatístico e como tal não são verificáveis pela mediação de um facto singular, mas por séries de mediações de factos. Além de indiferentes a qualquer conceito qualitativo só valem quando aplicados a grandes agregados, não declarando conteúdos lógicos, revelam apenas tendências e probabilidades no tempo.

A perspectiva do real que esta nova física anuncia, logo nos aponta o papel anónimo do sujeito em face dos grandes agregados das sociedades modernas, controlados pela estatística e pelo critério uniformizante da quantidade. Este processo que determinou o anonimato da pessoa humana tem raízes antigas... Ele foi-se lentamente consumando pela falta de confiança nas possibilidades lógicas que respondem pelo acordo entre a percepção e o conhecimento. Entre o perceber e o conhecer, há uma distância lógica a ser percorrida pelo indivíduo. Por isso no relacionamento imediato com a natureza a percepção que nos aponta o sensível, supõe em Aristóteles uma lógica do conceito. Isto significa que tudo o que o sujeito pode conhecer no objecto, vai sendo mediatizado e assumido por um lento desenvolver conceptual, que ao partir da designação substantiva se enriquece por graus sucessivos em conteúdos universais e abstractos. Mas o certo é que dentro da eficaz jurisdição do pensamento científico, estes conteúdos abstractos residem por si mesmos nos próprios objectos. Queremos dizer, que são as próprias coisas que detêm e explicam in nuce, em si e por si, as causas das leis que regem os fenómenos. Neste consenso epistemológico a realidade de todo o humano conceber derivaria mais de certas tendências subjectivas do que dos reais conteúdos que fundamentam a exacta ciência. A lógica será assim nas suas formais conclusões apenas uma tradução do real condicionada nos modos como o sujeito se compromete com o sensível. Dentro deste espírito, as demonstrações lógicas não podem prevalecer sobre as demonstrações científicas. A natureza da própria demonstração desloca o eixo que fundamenta ab origine o princípio da irrefutável autoridade. A resposta não reside no sujeito quando este a partir de si mesmo a constitui numa lógica conceptual possível. Ela legitima-se nos conteúdos naturais ou seja nos elementos componentes dos fenómenos. Agora cabe à ciência o testemunho decisivo do que existe de real na percepção do mundo. O seu veredicto põe em causa a valia do pensamento, sempre que este singulariza na pessoa humana, aquilo que esta última sabe por si da natureza. À medida que a ciência avança no seu trabalho de integração da realidade, também declina no homem a autonomia reflexiva, desaparecendo por isso as diferenças qualitativas mediante um critério uniforme que quantifica e empobrece a visão concreta do universo e da vida. Tal facto que agora relacionamos com a física moderna, mais evidente se torna se tivermos em conta que o espaço descontínuo, além de estabelecer critérios únicos de quantidade, também nega à percepção do sensível toda a confiança necessária à vida intelectual. Não pode o pensamento no extenso descontínuo constituir-se em qualquer fixidez substantiva. O substantivo é a pedra de toque e toda a arquitectura lógica, é como um núcleo inercial que relaciona e suporta toda a dinâmica do visível. Se indeciso da sua própria realidade, não pode traduzir esses movimentos nos verbos que potenciam o pleno pensamento discursivo. Aqui se esgotam as forças intelectuais, assim como desaparece a voz responsável do sujeito no indeterminado informe das grandes massas humanas.

Tal como no quantum físico formulam-se leis de multidões não de indivíduos, onde as tendências dos grandes agregados obedecem à estatística, e ao planeamento programado das probabilidades. Agora o discurso histórico sofre de inúmeras rupturas e é elaborado de acordo com enunciados que atendem tão somente a uma narrativa de superfície. O enunciado também é um «campo» de elementos que se situam em complexas relações dependentes de compromissos temporais. São pois esses campos enunciativos presenças descontínuas, espaços de memórias que encerram não um horizonte proveniente do fundo do tempo, mas sim um conjunto de estratégias de apropriação eficaz da realidade. Em si mesmos eles interpretam uma coexistência de acontecimentos que se oferecem por um lado ao nível do tratamento científico e por outro ao nível da manipulação ideológica. A História visa agora um complexo de grandezas morfologicamente singulares que exprimem uma profunda crise de identidade dos povos. Estes parecem condenados a viver uma existência sem ontologia. O saber no qual constituem a precária consciência que os anima extrai os seus próprios fundamentos do exercício prático que se adquire na luta por um progresso programado e materialista.

A história de cada nação europeia é hoje uma história de renúncia. A Europa perdida do seu destino, já não fala dos heróis necessários. Renunciando a si própria, ela aponta-nos os fantasmas dos seus mártires supérfluos.

(Prefácio de Luís Furtado in Oswald Spengler, O Homem e a Técnica, Guimarães Editores, Lisboa, Segunda Edição, 1993).


[1] Cap. V.

[2] Bergson - "Evolução criador", cap. III.

[3] Decadência do Ocidente – Ed. Gallimard, 1.º vol., pág. 406.