Escrito por José Marinho
«A liberdade é o próprio espírito, por nós com renovado intento e nome designado
insubstancial substante quando este se conhece e reconhece na plenitude
cumulativa da cisão e da visão unívoca.
É
a liberdade, primeiro, para todo o ser e toda a verdade, mas na aceitação da
necessidade e de todo o necessário. Esta poderia dizer-se da liberdade secreta
e oculta ainda na primeira idade do homem, e no primeiro grande ciclo da
cumulativa implicação e explicitação do ser, se todo o para nós manifestado,
enquanto ser de tempo, história e evolução, fosse em si e por si verdade. Como
é difícil, porém, no indeterminar do discurso, ali onde a mais funda
interrogação nos levou, manter e ao mesmo tempo transmutar a relação do que foi
enquanto foi, do que é e do que será.
Tal, entretanto, o aludido primeiro estádio de todo o ser para o homem e do homem para si quando a visão unívoca desponta, com seu limite, do pressuroso ser. Então, dizemos, a liberdade é logo no único necessário, no que a nega, ou no por que se nega todo o outro. Eu, que verdadeiramente não sou, só enquanto me nego, e enquanto o meu ser se nega em seu limite, assumo a liberdade.»
José Marinho («Teoria do Ser e da Verdade»).
«A
especulação ainda é uma herança do platonismo. Surge da percepção do mundo
sensível como espelho do mundo inteligível, situando-se, portanto, num plano
superior ao da contemplação científica que vê na natureza, não a imagem mas os sinais
ou vestígios das ideias. A especulação está assim ligada à luz, à visão e
portanto à teoria que é "o que se vê e cumulativamente se pensa", segundo a
expressão de José Marinho. Na imagem que vê, o pensamento intui a ideia
especulada.
A
intuição sobrepõe-se agora, e absorve-a, à imaginação que, no pensamento
analógico, conduzira o excesso num plano do real às formas de outro plano do
real. Aí o pensamento procedia por conceitos que cada inteligência individual
dava às formas que a imaginação, também individual, oferecia ao seu excesso no
plano de realidade que saturava. Com os conceitos formava logismos, e com os
logismos silogismos, que são já a transposição de um a outro plano da realidade
multívoca.
Sobrepondo-se-lhe
e absorvendo-a, a intuição poderá dizer-se uma imaginação ontológica. Leonardo
descreve-a como dando ao pensamento a ideia de que ele forma o conceito, assim
a restituindo ao platonismo e despindo-a do que os modernos fizeram dela: "Não
é, em Leonardo Coimbra, a moderna intuição limitada, condicionada e mundanal –
como diz J. Marinho – mas se abre desde início ao mais profundo", isto é, ao
mundo do universal, do infinito e do absoluto, o mundo da especulação.
Espelha
ele as suas ideias em imagens do mundo sensível, e o que a sensação é para a
natureza é a intuição para o inteligível.
Na
intuição assim entendida tem o seu ponto de partida o pensamento especulativo.
Leonardo
aceita, como Kant, que a intuição não forma conhecimento. O pensamento é que o
forma nos conceitos que guardam as intuições anteriores e são, diz Leonardo,
reminiscências das ideias que, transpostas para o real e consideradas do ponto
de vista da realidade, constituem a memória, desde a implícita na matéria
inorgânica até à criadora que “aparece na vida e lhe traz uma verdadeira
herança, uma unificação luxuosa” [Leonardo Coimbra, A Morte].
A
teoria da memória de Leonardo adquire assim uma dimensão que não possui a de
Heidegger. Esta destina-se a possibilitar o recurso do percurso metafísico do platonismo, por conservar presente o princípio parmenidiano da identidade de ser e
pensar de que o platonismo separou o pensamento. A de Leonardo põe a memória
presente em todos os planos da realidade, afirma: “O princípio de conservação
da memória é a condição absoluta do ser” [Idem].
![]() |
| Leonardo Coimbra e Teixeira de Pascoaes |
A
mesma diferença se detecta na relação de cada pensador com o seu poeta, “guardião
do ser”. No poeta de Heidegger, Hölderlin, o que a memória guarda é a germinal
antiguidade que é, segundo alguns intérpretes, metáfora da originária pátria
germânica. No poeta de Leonardo, Pascoaes, a memória, entendida como saudade,
isto é, como o poder de tornar presente o que lembra, guarda o paraíso, a
virtualidade infinita.
A
memória, no real, a intuição, no pensamento, são pois a substância da especulação.
Mas os conceitos que o pensamento forma com as intuições das ideias já aqui se
não organizam, se não racionalizam em logismos e silogismos como no pensamento
analógico.
Aqui,
a analogia dilui-se no imenso mar da especulação e, com ela, as grandes noções
que tinha por últimos fins de que tudo dependia.
O
universal se dilui porque o longínquo ser de que estava suspenso se encontrava
ali próximo e presente. O infinito não tem ali fronteira alguma com o finito,
não o nega nem está além dele, mas é em si mesmo o sem-limite, a liberdade. E “o
mais secreto absoluto”, abstracção que o todo faz de si próprio como todo, também
esse se dilui porque o todo abstraído de si só pode ser o uno e está ali
presente na sua unidade.
O
pensamento já não é ali a actividade do espírito, mas repousa no espírito. Nem
a realidade o imenso conjunto de todas as formas existentes, mas a
virtualidade infinita de todas as formas possíveis ali repousando na unidade
que contém todos os predicados possíveis. Deus é, ali, o Ser da Verdade.
A verdade e o espírito estão ali frente a frente.»
Orlando Vitorino («A Desolação do Mundo – Leonardo Coimbra e Martinho Heidegger»).
«A
filosofia de Leonardo Coimbra surge originalmente sob forma dialéctica.
Orienta-a, porém, não um sentido de identidade entre o espírito e a natureza,
entre a razão e o real, mas um sentido de relação harmoniosa; não um princípio
de total racionalização, mas um "princípio de máxima racionalização", princípio,
como vimos, rigorosamente determinado pelo pensador desde o seu primeiro
livro. Por este modo, dialecticamente – e é desde O Criacionismo a ideia da qual tudo no pensamento que estudamos
dependerá – não pode a razão deixar de reconhecer um irracional, algo que ora a
transcende, ora se lhe contrapõe. Tal é a condição de renovar-se a grande
empresa de Hegel e de coroar-se por uma metafísica substantiva, pela ontologia
plena que todo o pensamento moderno necessita.
Em
Deus, o real é claramente racional e mais e melhor que isso: nele, não há a
disjunção sempre posta no conhecer do homem. Nele, um e o mesmo são ser e
verdade, nenhuma distância separa o ser do ser, a verdade de si. No homem,
porém, aquele ser, uno em Deus, aparece cindido, a verdade surge na conciliação
harmoniosa dos dois processos na primordial cisão originados. A razão
– mostrou-nos Leonardo Coimbra – representa o eterno no homem, mas um eterno,
por si só, sem vida; a intuição é concreta e plena, mas, só por si, confusa e
insubsistente. Assim, levando a harmoniosa implicitação as duas teses extremas,
excessivas e contrastantes na moderna e actual filosofia europeia, o pensador
assinala à intuição, como também à razão, origem transcendente e divina. Elas
são ambas incompletas e só na sua relação surgem o saber e o conhecimento.
Eis
como a razão, mais esquecida no mundo moderno das suas implicações
transcendentais, tem perante si uma intuição “inesgotável”. Só pela intuição
pode ela adquirir substância, autenticidade, e isso Leonardo Coimbra
desenvolvidamente o explica, como vimos, no seu primeiro livro. Quer no plano
do senso comum, já relação embora oculta, quer na ciência, quer na arte, quer
na religião, nunca a razão é forma absorvente do absoluto, mas relação harmoniosa,
o explícito sentido do uno que em si não absorve e subsume a pluralidade, do
mesmo que, a si, a si próprio sendo e compreendendo, no seu ser é o outro, no
seu compreender ao outro, a si compreende.
Tal é o fundo sentido das admiráveis páginas terminais de O Pensamento Criacionista, tal o sentido
de A Alegria, a Dor e a Graça, tal a
mais autêntica ideia posta e retomada sob diferentes formas em toda a obra
escrita do pensador, como também dada exemplarmente no seu magistério.
Assim
tende o pensador a conciliar sistematicamente as duas mais fortes tendências do
pensamento moderno, a restabelecer a filosofia na sua tradicional e harmoniosa
forma. Num artigo relevador que comentámos, mostra a inviabilidade da
dialéctica de tipo hegeliano e expressamente critica e invalida a fórmula célebre
em que o autor da Fenomenologia do Espírito afirma, ou postula, a identidade do real e do racional. Com a
influência de Hegel, se defronta, conflitua, e afinal concilia a influência de
Bergson – de quem o filósofo português não foi vulgar discípulo, mas, por
certo, o mais justo crítico e o intérprete mais profundo. Ora as razões desse
juízo justo, como da interpretação, devem ver-se na situação específica,
originária, do pensamento português e peninsular, ligado à nobre e luminosa
tradição filosófica, embora ensombrado ainda nas expressões culturais pelo
naturalismo e o antropologismo europeus. Assim, a razão é, em Leonardo Coimbra,
movente e humana forma da Verdade infinita, assim a intuição não é, em Leonardo
Coimbra, a moderna intuição limitada, condicionada e mundanal, mas se abre desde
início ao mais profundo; e, tal, como é de sua natureza, incessantemente se
cinde e reata à Verdade divina.
Este
irracional intuitivo, esta contraposição incessantemente renovada que a razão,
na primeira fase, esperava progressivamente integrar, sem falha ou perda, em
sua dialéctica ascendente, acaba por destroçar a mesma razão dialéctica
impossibilitando o conhecimento como extrínseca forma sistemática.
Consiste
o significado de A Alegria, a Dor e a
Graça, livro central e único, o mais sistemático no mesmo assistematismo,
em assinalar do modo mais imprevisto e original, mas rigorosamente adequado, a
crise dialéctica, e em nos apresentar os renovados caminhos do ser e do saber.
A
razão procura desde aqui conciliar-se com uma realidade multímoda, não apenas
natural e humana mas transnatural e transhumana, sulcada de imprevisibilidade,
prenhe de diferenças, contrastes e singularidades, só parcialmente redutíveis;
com uma verdade suprema, mais inacessível e difícil, que se tornou o “inominado
e o inefável”, aquele mesmo “místico ser” (não podemos dizer substância) “intraduzível e sem nome”,
que na dialéctica da primeira fase supusera superado, ou, como tal, sem
sentido. Tal é o significado da “razão cósmica”, pela qual se amplia e supera a
razão dialéctica, então vista e julgada como ainda excessivamente
antropológica, cerrada e inviável também.
Como
traduzir, porém, as multíplices formas da “razão cósmica” em adequado e acessível
conceber? É esta dificuldade muito séria, advertimos, em toda a filosofia clássica
e agudamente sentida e vivida no melhor pensamento contemporâneo. Como traduzir
as relações permanentes de Deus, do Universo e do homem, como traduzir
primordiais símbolos, originárias imagens, na lógica conexão discursiva e
demonstrativa? Na medida em que Leonardo Coimbra o tenta, abre-se o caminho
para uma razão mais humilde e mais acessível ao culto entendimento, mas consideravelmente
mais pobre, a “razão experimental”, forma na qual não poderia manifestamente
deter-se um pensamento de tão amplas, sérias e fundas implicações.
Em
tudo quanto a razão dialéctica não considera ainda, em tudo quanto a razão
experimental não apreende nem já poderia sistematicamente compreender, está o
mais vivo da vida, o profundamente significativo, o mais autenticamente lógico.
E a partir daqui a filosofia de Leonardo Coimbra joga seu simbólico destino.
A
maioria pensa ainda que o pensamento português e peninsular é imaginal, poético
ou místico, pragmático, ético ou religioso, por ser mais fácil. Tal é o precipitado
e incompreensivo pressuposto da crítica negativa que há longos, longos anos,
perturba ou suspende a nossa forma tão séria, tão responsável e funda de filosofar.
O que no pensador motiva as intrínsecas implicações poéticas e religiosas, o
que suscitou o seu interesse pela acção e pela política, entendidas na mais
original e excepcional forma, o que finalmente determinou a conversão
necessária, foi o sentido de que toda a verídica filosofia tem de exprimir o
homem e o ser na plenitude das relações e não pode satisfazer-se com
extrínseca e funcional manipulação de conceitos. O que de Leonardo Coimbra
dissemos demonstrar-se-á, segundo bem parece, progressivamente válido para todo
o pensamento português e peninsular, pois válido em todo o tempo foi, e será
para toda a autêntica filosofia. É fácil, demasiado fácil, e por isso mesmo
vão, criticar a barroca desmesura: a harmonia terá de implicar, como elementos,
ou momentos imprescritíveis, aquilo mesmo que, olhado exteriormente, se
afigurara impróprio, excessivo e inadequado.
É
assim, pela atenção ao mais difícil, ao mais obscuro, ao mais diferente, que a
razão aparentemente se perde. Esse é, no entanto, o único caminho sério e digno
dela, o único que a si própria impôs em toda a verídica filosofia.
Vimos
como o pensamento de Leonardo Coimbra cede gradualmente da sua exigência de íntima
e racional evidência, ou correlata experiência, e se compatibiliza, cada vez
mais e melhor, com uma sede de ontologia. O irracional que é já, no menos ser, a
presença obscura da plenitude, que é, na razão, a presença misteriosa da verdade
ao mesmo tempo presente e alheia, próxima e remota, parece em certos momentos
alargar-se desmesuradamente, dar o primado exclusivo à fé e ao acto. Pelo
conceito de metafísica “acabada” em religião, pela referência à “boa razão”
pascaliana, nos termos em que no último livro a propõe, vê-se entretanto como
para além de uma razão construtivista, temporal, relativista, experimental, o
filósofo se orienta para uma razão renovada, entendida não já no sentido de uma
razão iluminante, dialéctica e antropológica, que é progressiva e confiante liberdade
e pela qual todo o conhecimento e toda a acção inicialmente se garantiam, mas
entendida no sentido de uma razão iluminada em que a liberdade supõe, com a
graça, o supremo dom que lhe vem de fora, encontrando sua infinita e
transcendente completude no fundo, sério e responsável sentido dos seus
limites.
A
esta luz do alto, o pensamento de Leonardo Coimbra não simboliza apenas, na
mais alta e responsável forma e expressão, o caminho muitas vezes seguido pelos
pensadores peninsulares – em que a razão parece mover somente seus melhores
dons para melhor se limitar perante o paradoxal mistério do Nada, ou se transmutar
em Deus, o supremo Inefável e Inominado – ele representa também, e de alto modo
exemplar, o pensamento que estamos pensando e, em nome do qual, uns e outros
agimos. Leonardo Coimbra mostra e exemplifica como, abandonada a exigência de
máxima racionalização, a exigência dialéctica e sistemática, o pensamento ou de
algum modo se imobiliza intelectualística ou pragmaticamente, ou se dissolve
num mero e inviável intento – e contra a sua funda natureza – de limitar
síntese e explicação a mera positividade, ou, finalmente, se transmuda em um
pensamento que a fé ilumina.
No
desenvolvimento do nosso estudo, ao descerrarem-se-nos muitos pontos longo
tempo difíceis de interpretar, por aquela síntese altiva, tão característica do
pensador, tão desesperante para o intérprete – todo o significado simbólico do pensamento de Leonardo Coimbra na longa e nobre linha do pensamento português se
foi a nossos olhos iluminando.
A
filosofia moderna realizou-se na linha de exclusão da teologia cristã e a forma
que assumiu foi menormente cosmológica e antropológica. Mas enquanto o homem
supunha poder encontrar, liberto das implicações responsáveis, um mais
autêntico caminho da verdade e uma liberdade infinita, minorou-se o saber e a
vida, o cosmos restringiu-se gradualmente à grande ou pequena cidade onde tudo
se altera, conflitua, confunde e vai abortando.
Não pode o homem atingir seguro saber nem vida confiante, separado daquilo que lhe dá o ser. Aceitar, com a relação originária, a liberdade responsável e o vivificante amor, tal é a conclusão simples que Leonardo Coimbra aponta. Todo o seu pensamento, desde a fase dialéctica à fase final de conversão, por vários modos o diz.»
José Marinho («O Pensamento de Leonardo Coimbra»).
«Já não se justifica hoje identificar a filosofia de Leonardo Coimbra com a de Henri Bergson. Depois da breve análise do problema por Eudoro de Sousa essa identificação deixou, definitivamente, de poder ser feita pelos estudiosos e comentadores honestos e informados [Eudoro de Sousa, "O pensamento eloquente e romântico de Leonardo Coimbra", in Leonardo Coimbra. Testemunhos dos seus contemporâneos, Livraria Tavares Martins, Porto, 1950, pp. 117-126]. A verdade é que a simples e cuidada leitura de O Criacionismo teria desde sempre impedido tal identificação. Com efeito, Bergson é um dos filósofos que Leonardo aí critica pelo seu “cousismo” – dele, por conseguinte, se demarcando explicitamente. Apesar disso, a identificação foi sendo reiteradamente feita em vida do próprio Leonardo Coimbra. Após a sua morte, a arremetida antibergsoniana de António Sérgio é, em grande parte, uma arremetida antileonardina. Coisa evidente na polémica com Sant’Anna Dionísio travada nas páginas de O Diabo, em 1936, e nos escritos antibergsonianos do pensador da Travessa do Moinho de Vento [Essa polémica desenrolou-se entre 16 de Agosto de 1936 (O Diabo, n.º 112) e 13 de Dezembro do mesmo ano (O Diabo, n.º 129). Os escritos antibergsonianos de António Sérgio são numerosos. Vasco de Magalhães-Vilhena apresenta uma relação dos que considera mais importantes na sua conhecida obra António Sérgio – o idealismo crítico e a crise da ideologia burguesa, Edições Cosmos, Lisboa, 1975, reimpressão da 1.ª edição, pp. 16-17, nota n.º 12]. Álvaro Ribeiro dedicou a Bergson largas e penetrantes páginas, no seu livro Escritores Doutrinados. O discípulo de Leonardo Coimbra, sempre rigoroso intérprete do venerado mestre, de modo nenhum identifica ou aceita a identificação da filosofia deste com a de Bergson. Os estudos monográficos do pensamento de Leonardo Coimbra concluem todos pela existência no filósofo português de um pensamento próprio, ainda que diversamente o analisem, caracterizem e valorizem. Refiro como os mais dignos de nota: José Marinho, O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra e Verdade, Condição e Destino no Pensamento Português Contemporâneo; de Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar e Memórias de um Letrado; de Ângelo Alves, O Sistema Filosófico de Leonardo Coimbra – Idealismo Criacionista; de Miguel Spinelli, A Filosofia de Leonardo Coimbra. Seja-me permitido mencionar também o meu estudo A Pedagogia de Leonardo Coimbra – Teoria e Prática, o qual inclui uma nova análise e interpretação do pensamento filosófico de Leonardo Coimbra. Apesar de tudo – apesar de, em 1934, Leonardo ter publicado um livro, A Filosofia de Henri Bergson, que impede, mais uma vez, qualquer desvalorizadora identificação – continua a faltar uma análise comparativa suficientemente vasta e pormenorizada para esclarecer de vez os confusos, os confundidos e os confusionistas. O presente estudo é o início de uma contribuição para alcançar esse objectivo.»
Manuel Ferreira Patrício («Leonardo Coimbra e Henri Bergson: Semelhanças e Diferenças»).
«O
pensamento bergsónico é dos mais originais, subtis e profundos; a compreensão
deste pensamento exige um grande esforço de inteligência, uma abertura de alma,
incompatíveis com todas as parcialidades e fanatismos.
Tem
sido classificado de monismo panteísta, de dualismo maniqueísta, de sincretismo
alexandrinista, de romantismo utilitário, de vitalismo romântico e até de
teosofismo disfarçado.
Com
excepção de qualquer disfarce, pois ele é a sinceridade
pura, a inocência readquirida, de
tudo isto se pode, com efeito, encontrar no pensamento de Bergson – pois todas
estas classificações se podem referir aos contactos das tangentes com que o
pensamento do filósofo vai tentando desenhar a curva da vida, até que, depois do
assédio insidioso destas osculações, penetra no próprio movimento gerador da
curva, revivendo-a no ritmo do seu ímpeto gerador.
Filosofia
da continuidade ou filosofia da descontinuidade?
Eis
uma primeira disjunção em que os críticos superficiais têm perdido anos de
estéril labor.
Continuidade e descontinuidade envolvem-se, sem se repelirem, no pensamento do filósofo, como no próprio movimento da vida.»
Leonardo Coimbra («A Filosofia de Henri Bergson»).
«Para
admitir a noção de criação é indispensável haver reflectido sobre a noção de síntese, que é o aparecimento de novas
qualidades, e sobre a noção de número,
que é a relação lógica entre a continuidade e a descontinuidade, o infinito e o
finito. O problema consiste, então, em saber qual é real e qual é aparente, se
a continuidade se a descontinuidade, para estabelecer a correlação. Negar o
número, conjecturar que ao fim de certo tempo, ou no fim do tempo, a
efectividade do múltiplo se anula na eternidade do uno, equivale a considerar
ilusória a maravilha da criação.
A
relação entre a continuidade e a descontinuidade é-nos sensível no ritmo, e
distinguimos os ritmos uns dos outros pela quantificação. A verdade da vida
humana é a descontinuidade, não só no ritmo , como também na metamorfose. Só o
homem que evolui está em condições de entender o preceito divino da descontinuidade
e de admitir sem dúvida o milagre da criação.
Todas as discussões tendentes a negar a criação, e consequentemente, a criação divina, postulam a existência do nada, ou de nada, antes do tempo e depois do tempo. O nada existencialista é, porém, um mero erro de sintaxe. A semântica reduz o nada a uma palavra que pouco mais vale do que de advérbio de negação [Sobre o Creare ex nihilo ver: Bruno, A Ideia de Deus, Porto, 1902, pp. 336-342, e Dr. Denys Gorce, Pour Comprendre la Théologie, Paris, 1948, p. 81]».
Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).
«Mandei vir a edição francesa com alguns trechos de Heidegger. Confesso-lhe, porém, que a filosofia desse tipo, a de Heidegger como a de Marcel, me interessa pouco. Pensei já que para nós, peninsulares, aquilo é quase senso comum. É uma filosofia de drama, quando a verdadeira filosofia é uma filosofia de enigma. Suponho aquela demasiado filha do tempo e do homem aflito. É para além do que eles filosofam que se começa verdadeiramente a filosofar. Vê você assim quanto me separo neste ponto de si ao valorizar a filosofia romântica - se por filosofia romântica se entende uma filosofia do aludido tipo, as de Nietzsche e Kierkeggard»
José Marinho (Carta a Álvaro Ribeiro de 24 de Maio de 1938).
«Um aristotelismo romântico – passe a expressão – parece-me ser a melhor directriz para a futura filosofia portuguesa.»
Álvaro
Ribeiro («Dispersos e Inéditos»).
«É
verdade, querido amigo. Sinto-me decididamente um ético metafísico cada vez
mais, e logo que ponho em público o livro em que estou trabalhando, os
aforismos e os ensaios, vou fazer uma exposição desta ideia essencial (eu agora
chamo a isso visão conceptante). Já é tempo de escrever a minha Ética com um
título mais modesto, menos aparelhagem e mais brevidade. Vai ser o maior dos escândalos!
Uma metafísica que se não reclama da ciência e que se fundamentará no que
poderia chamar-se uma volta ao ovo do conhecimento e do ser! Uma metafísica que
muito longe de ser científica começa por denunciar o perigo moderno da ciência!
É
claro que uma metafísica como eu a entendo, que se reclama dos hiperbóreos, dos
afirmativos, dos dogmáticos – Platão, Espinoza, Hegel – resulta de algo mais
que um conceito explicitante. É um conceito de duas pontas: uma de penumbra,
outra de luz. Aqui intervém uma nova teoria do conceito em que se concilia o
ver as árvores e o visionar a Deus.
Reacção implacável e certeira contra a metafísica moderna pusilânime que passa o tempo a discutir se Deus existe ou não existe e acaba em epistemologia pela epistemologia. Epistemologia pela epistemologia: um resultado do cientismo. O pensamento só se conhece quando se realiza: é um acto de ser ou não é. Quando eu me ponho a considerar os meus músculos, depressa descubro que pouco valem, Que admira se os não exercitei! Todo o pensamento que se estude em repouso e antes ou depois do exercício é como um músculo atrofiado. O pensamento autoconhece-se conhecendo. Por esta maneira se reduz o mistério tenebroso e a pétrea e severa Esfinge se torna vivo, animado e sorridente ser que descerra os lábios.»
José Marinho (Carta a José Régio de 16 de Junho de 1937).
A EXIGÊNCIA DA RAZÃO E O IRRACIONAL IRREDUTÍVEL
O
pensamento de Leonardo Coimbra apresenta-se desde O Criacionismo com iniludível
exigência de racionalidade. Em primeiro lugar, quanto ao critério, pois que o
«princípio de máxima racionalização é o princípio de realidade e verdade» [1]. Em
segundo lugar, quanto à intenção que o anima e quanto à forma que o
caracteriza, pois que a si mesmo se concebe, e repetidamente, como «dialéctico»
e «sistemático».
Temos
de ver atentamente o que pode entender-se por «princípio de máxima
racionalização», pois que nada mais fácil que ler num filósofo, por afinidade
ou contraste, aquilo que temos, de algum modo, no nosso próprio espírito.
Distingamos, por consequência, princípio de total
racionalização e princípio de máxima
racionalização. O primeiro, mais ambicioso, diríamos, postula uma exigência de
racionalização ilimitada para que o conhecimento atinja plenamente os seus
fins; pretende o segundo que a exigência da razão é valiosa na medida em que
visa todo o possível, a racionalização maximamente possível, mas só ela. É este
segundo o pressuposto do pensamento de Leonardo Coimbra.
A
concepção do autor de O Criacionismo
é uma dialéctica de mais remota afinidade hegeliana e de mais próxima
afinidade hameliniana. O ser é, para o filósofo português, pensável, e só no
pensamento e pelo pensamento adquire pleno sentido: o pensamento não nos
aparece como divergente do ser ou oposto ao ser, ele é, por si só, real, e
«realidade a mais indubitável e profunda» [2]. Quer
isso dizer que o pensamento seja realidade única? De modo algum. Basta
reflectir um pouco para o ver. Considerar o pensamento «a realidade mais
indubitável e profunda», implica aceitar a existência de outra ou outras
realidades. É, aliás, o que o pensador nos mostra na simples realidade
psicológica quando adverte: «O próprio pensamento diz a sua relatividade, coloca
a sua realidade psicológica no meio de uma realidade mais vasta e activa. Não é
o pensamento de puras ideias, nascidas de uma absoluta espontaneidade, é o
pensamento de actividades em recíproca dependência...» [3].
Ao
dizer-nos o que a sua tentativa dialéctica deve a Hamelin, o autor tem o
cuidado de mostrar o que a distingue. «Em que difere a nossa tentativa da tese
realista de Hamelin? Nós admitimos, porque a achamos desde o princípio, uma
actividade estranha que já após uma parcial síntese elaboradora nos aparece
como intuição sensual. Essa intuição põe-se ao espírito, que a elabora em
noções» [4]. Daí
o específico carácter da sua «dialéctica nocional», repetidamente acentuado ao
longo do livro primeiro: dialéctica na qual a íntima afinidade do espírito e da
natureza é claramente afirmada, mas em que a identidade do real e do racional
não é posta: porque se «o princípio de máxima racionalização é o princípio de
realidade e de verdade», não é menos certo que o «dado intuitivo é insondável
dum golpe» e que «o trabalho de racionalização é, sem descanso, em frente duma
intuição inesgotável» [5].
Temos
de deter-nos neste ponto decisivo para a compreensão da gnoseologia que estamos
expondo. Eis, perante a exigência da razão, um dado inesgotável e só
gradualmente redutível. Não se trata, sem dúvida, de irredutibilidade total, de
outro modo não seria viável a ciência. Mas a ciência, como já vimos no estudo
especial O Criacionismo, opera
sensatamente pela racionalização do restrito possível, e não considera tudo
quanto lhe escapa.
A
filosofia, por seu turno, não tem como fim a racionalização do restrito
possível: nasce de uma exigência de máxima racionalização e, quando mais não
possa, terá, pelo menos, como no cepticismo, de exprimir com lucidez a sua
derrota. Não existe, porém, a única e irrevogável solução de cepticismo.
Se,
considerando a intuição irredutível meramente acidental e transitiva,
persistimos na racionalização, tendemos para uma dialéctica de tipo hegeliano;
se vemos a intuição como forma exclusivamente sensível de nos representarmos o
real e cedemos na exigência de racionalização, teremos o empirismo sob qualquer
das suas formas ingénuas ou sábias; se considerarmos a intuição como de
natureza espiritual e minoramos, no possível, aquela exigência, inclinamo-nos
para uma filosofia como aquela de que Bergson deu o tipo.
As
considerações desenvolvidas no parágrafo anterior resumem, na parte de maior
interesse, um dos escritos dispersos mais significativos para a compreensão do
pensamento de Leonardo Coimbra nesta fase [6].
O
pensador, admitindo como complementares as teses primeira e terceira, com
predomínio da primeira – dizendo que o real, embora nunca completamente, é
sempre aberto à razão, dizendo que a intuição é de ordem espiritual, mas
incompleta na sua virtualidade de conhecimento – vai tentar conciliá-las [7].
Já
sabemos o que dessa tentativa de conciliação resulta: uma dialéctica que se não
contenta da integração da ciência, mas procura determinar o mais alto e fundo
significado da arte e da religião. O filósofo mostra, dessa maneira, que se o
pensamento não é realidade única, é, no entanto, realidade essencial da qual
todas as outras dependem. «O pensamento é a realidade mais indubitável e
profunda» escreve, como já repetidamente citámos; e isto significa que, permeando
todo o ser e existência, ele alcança mais luminosa, mais iniludivelmente, pela
reflexão de si e harmonia de tudo em si, as origens e os fins.
O
pensamento de Leonardo Coimbra não é, entretanto, aquele dinâmico ser do
espírito que visa à quietude do absoluto. Nenhuma síntese definitiva o espera,
a nenhum conhecimento pode atingir que semelhe o lago de águas plácidas onde se
remirasse o céu imóvel. Por isso o pensamento permanece indefinidamente aberto,
«avançando na síntese progressiva que é a sua vida e encerrando-se, não no
sistema estático do conhecimento, mas nas próprias fecundas entranhas, para se
apreender como infinito, eterno e criador» [8].
A
reflexão atenta deste outro passo fundamental mostra bem como não há para o
pensamento nenhuma ideia na qual ele possa conclusivamente repousar. A
categoria correspondente a um absoluto substancial é alheia ao pensamento:
procede este abrindo-se cada vez mais, em vez de se fechar sobre si próprio, ou
sobre uma originária substância. Mas se o sentido de um idêntico absoluto é,
segundo Leonardo Coimbra, alheio ao pensamento quando o consideramos em toda a
amplitude do seu processo, a sedução do absoluto por identidade o caracteriza
em cada um dos seus momentos.
O
que no pensamento infinito é, como já vimos, «eterno e criador», aparece
dialogicamente no espírito humano sob a forma de razão e de intuição. A razão
representa o eterno no homem, mas um eterno, por si só, sem vida; a intuição
representa o directo e originário da criação, mas representa-o, por si só, de
forma «confusa e insubsistente». O esforço de incessante ajustamento harmonioso
do intuitivo ao racional, do racional ao intuitivo, é característico de toda a
dialéctica e da realidade que por ela se compreende e exprime: assim na ciência
e no correspondente momento positivo da filosofia, na arte, na moral, na
religião, e, finalmente, na metafísica, que a todas integre e de todas dê
explícito significado.
O
processo de conhecimento consiste, pois, na «racionalização das intuições»,
como viramos já, embora com menor aprofundamento, no estudo de O Criacionismo. A racionalização das
intuições deve ser, por seu turno, entendida como «racionalização das
oposições», visto ser a intuição essencial e activamente o que se contrapõe à
tendência imobilizante da razão em cada momento do seu processo. A esta
tendência absolutizante chamou o filósofo «cousismo» ou «cousificação» [9]. Por
ela se encontra o pensamento minorado das possibilidades da intuição. Sem ela,
porém, o pensamento, e, com o pensamento, a realidade em que ele é e que é
nele, dissolver-se-iam em desconexos possíveis.
O
erro acidental é, pois, o preço da verdade, como o mal acidental, e vê-lo-emos
mais detidamente no lugar próprio, é o preço do bem. Os limites de ser e pensar
têm, aliás, no pensamento, solução. Ante o que já vimos existir de inesgotável
na intuição, a razão se vê forçada a renovar incessantemente a sua empresa e a
superar gradualmente todos os limites. Assim, na razão, é a verdade, assim, com
a razão, é a liberdade.
Podemos
agora perguntar-nos como nos aparece a intuição, quais as suas profundas
origens, quais o momento ou momentos em que surge. Responde-nos o pensador,
mostrando-nos a intuição inesgotável na base do processo dialéctico e ainda também
no seu vértice. Na base do processo dialéctico, a multíplice intuição é a
própria garantia do processo da razão, do seu dinamismo e fecundidade; no
vértice aparece como a finalidade unitiva ao mesmo tempo patente e oculta de
todo o ser e saber. O filósofo, como tal, tem de dar nome. Leonardo Coimbra
escolhe muito compreensivelmente aquele já no seu tempo, e tantas vezes depois,
usado nas mesmas ou similares condições: chama-lhe portanto «O Irracional».
Em
Deus aparece, pois, o Irracional supremo. O pensamento dá-se, entretanto,
pressa em acrescentar que não devemos entender «Irracional» como «mística
substância intraduzível e sem nome» [10]. Adverte
intencionalmente que o Irracional não é «intraduzível» pela razão, não é intraduzível, digamos, na linguagem
desta. O Irracional não é estranho à razão. Ele é o sinal de indefinidas
possibilidades da razão não actualizadas. Ele é completamente aberto a toda a
acção humana em cujo âmago pulse o sentido do infinito amor ou da ilimitada
liberdade [11].
Desta
concepção advém, como era de esperar, a forma extrema do idealismo de Leonardo
Coimbra. Mas, com ela, alguma coisa de inesperado surge.
A
primeira exprimiu-a o filósofo na ideia do «Ser como pensamento integral» [12]. A
relação desta ideia com tudo quanto expusemos, embora nítida, não é fácil; por
isso recomendamos ao leitor demorada reflexão neste ponto. Admitir que Deus
aparece ao homem como Irracional supremo e que esse irracional não se opõe à
razão nem se vela perante a razão, é admitir que esta o exprime gradual mas
adequadamente no plano do ser em que existimos. Ele é o pleno acordo daquilo
que ao homem se revela sob forma de intuição momentânea ou de instantâneo amor
ou liberdade, com aquela razão, aquele devir convergente do ser e do saber pelo
qual o momentâneo ou o instantâneo buscam e alcançam, de algum modo, subsistir.
«O Ser» é assim «pensamento integral», nele se unindo plenamente os separados:
Irracional não o é ele em si, mas para a nossa compreensão.
Alguma
coisa de diferente se insinua quando o autor nos fala do «ar de todo-poderoso
mistério que flutua à superfície dos seres» [13].
Antes de mais, notemos como o termo «mistério» se substituiu a «irracional».
Será isto uma forma de pudor da razão, ao querer, de algum modo, velar o
irremediável?
«De
todo-poderoso mistério» escreve o pensador. Eis o que não pode deixar de
surpreender-nos. Se, com efeito, se lhe depara um «mistério todo-poderoso»,
como se pode compreender a segurança com a qual nos apresenta a forma
«dialéctica» da sua filosofia? Como pode sequer admitir «um centro ideal de
Pensamento»? [14]
Nós
podemos compreender dialecticamente um mistério (embora este termo de
significado religioso seja, por si só, inquietante), nós compreendemos ainda o
termo «mistério» para designar o actualmente tácito no pensamento que vamos
realizando. Mas um mistério «todo poderoso» bem pode tornar-se poderoso até ao
ponto de alterar todo o labor da razão e revelar uma inquietação estética, ética,
ou religiosa que à mesma especulação desvie o sentido.
Eis
se nos depara a antítese funda e perene da filosofia no pensamento de Leonardo
Coimbra: por um lado, a exigência da razão, com a sua concepção dialéctica,
tendo como íntimo ser um Pensamento pleno que «tudo sustenta e efectiva»; por
outro, uma irracionalidade, que já não está apenas na base ou no vértice do
processo do conhecimento, mas começa a despontar em todos os seus momentos. Com
O Pensamento Criacionista mais
claramente se põe o enigma que ao idealismo dialéctico dilacera: «O Mistério
existe porque o Ser é insondável, pois, pela profundidade, toca o infinito» [15].
Esse
mistério que a razão encontra no profundo ser, esse mistério que começa a
pôr-se imperativamente no âmago dela própria, está vedado ao homem, ou está
simplesmente vedado à concepção dialéctica e sistemática como é a do pensador
na primeira fase? Será negativo perante a razão ou será antes sinal de que a
razão terá de pesquisar novo caminho?
O
debate entre a exigência da razão e o irracional que, de gradualmente
redutível, se vai tornando, grau a grau, irredutível, será insolúvel como
tantos pensam? Não poderá julgá-lo o pensador que considera aquela exigência
substancial ao espírito e vê o irracional não como irracional opaco, mas como
sinal de mais alta e harmoniosa razão de tudo.
Que fará, entretanto, perante tão grave dificuldade? Empreender, muito simplesmente, o caminho antes e depois dele seguido pelos pensadores a quem se revela, analogamente, a crise da razão perante a multímoda e irresolúvel experiência de ser. Regressar lucidamente às origens do conhecimento e refazer, a partir daí, novo exercício e nova teoria. Este regresso às origens do conhecimento, esta pesquisa de nova forma de conceber, realiza-se no período que chamámos de transição. Encontramos neste período uma teoria da razão «cósmica, plural e criadora», cujo fundo sentido [há que certamente considerar].
(In José Marinho, O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra,
Porto, Livraria Figueirinhas, 1945, pp. 123-130).
[1] O Criacionismo, p. 297.
[2] O Criacionismo, p. 212.
[3] Obra citada, p. 1 e 2.
[4] Obra citada, p. 11.
[5] Obra citada, p. 64.
[6] Excerto. «A Águia», 2.ª série,
n.º 2. Fevereiro de 1912. Este escrito destinara-se a fazer parte de O Criacionismo, onde não foi, afinal,
incluído.
[8] O Criacionismo, p. 3.
[9] Dos dois termos, Leonardo
Coimbra preferiu o primeiro. O segundo aparece com A Luta pela Imortalidade. Será recordada com vantagem, para claro
entendimento do que estamos interpretando, a exposição de O Criacionismo feita na 2.ª parte, p. 69-75.
[10] O Criacionismo, p. 301.
[11] Obra citada, p. 301 e seguintes.
[12] A Morte, p. 70.
[13] A Morte, p. 109.
[14] Obra citada, p. 72.
-002.jpg)






.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)



%20(1).jpg)



.jpg)

.png)
.jpg)
.jpg)