quarta-feira, 17 de junho de 2026

As duas escolas filosóficas – a itálica e a jónica – e os seus fundadores

Escrito por Santo Agostinho



 

«O espírito de Orfeu circula em toda a parte onde palpita a Grécia imortal. Encontramo-lo na poesia e na ginástica, nos jogos de Delfos e de Olímpia, felizes instituições idealizadas pelos sucessores do mestre para aproximar e unir as doze tribos gregas. Sentimos o seu espírito no tribunal dos Anfictiões, assembleia de grandes iniciados, corte suprema e arbitral reunida em Delfos, grande poder judiciário e conciliador, no qual a Grécia encontrava a sua unidade nas horas de heroísmo e de abnegação [O juramento anfictiónico daqueles povos associados pela ideia da grandeza e força social daquela instituição: “juramos jamais destruir as cidades anfictiónicas e, seja na paz seja na guerra, não desviar as nascentes de água que lhes forem necessárias. Se alguma potência ousar tal marcharemos contra ela e destruiremos as suas cidades. Se os ímpios ousarem roubar as oferendas no templo de Apolo, juramos usar os nossos pés, os nossos braços, a nossa voz, todas as nossas forças contra eles e os seus cúmplices”].




Mas a Grécia de Orfeu, com a sua doutrina guardada nos templos, uma alta corte judiciária em Delfos, começava a periclitar já no sétimo século. Não se respeitavam mais as ordens de Delfos, violavam-se os territórios sagrados. Desaparecera a geração dos grandes iniciados. Baixara o nível intelectual e moral. Os sacerdotes vendiam-se aos poderes públicos. Os próprios Mistérios corrompiam-se. Mudara o aspecto geral da Grécia. A antiga realeza sacerdotal e agrícola estava a ser substituída pela tirania, pura e simples, pela aristocracia anárquica. Os templos não podiam impedir a dissolução ameaçadora. Necessitavam de um novo auxílio. Tornara-se necessária a divulgação das doutrinas esotéricas. Para o pensamento de Orfeu continuar vivo, expandindo-se em todo o seu brilho, a ciência dos templos teria de transferir-se para as ordens leigas. E assim se fez, sob diversos disfarces, nas escolas dos poetas, nos pórticos dos filósofos. Estes sentiram, como Orfeu, que se impunha uma doutrina secreta e outra pública, ambas apoiadas na mesma verdade. Essa evolução proporcionou à Grécia, três séculos de criação artística e de esplendor intelectual. Permitiu ao pensamento órfico irradiar sobre o mundo inteiro, antes de a nação ser atingida pelos golpes da Macedónia e, no final, ficar subjugada pela mão de ferro de Roma.



 

Nessa evolução, surgem físicos do vulto de Tales, legisladores do porte de Sólon, heróis como Epaminondas e, também, Pitágoras, inteligência soberana, criadora e ordenadora. Ele é o mestre da Grécia laica como Orfeu o tinha sido da Grécia sacerdotal. Traduz e continua o pensamento religioso do seu predecessor, aplicando-o aos tempos modernos. Embora apareça à luz da História, Pitágoras permaneceu uma personagem quase lendária. Explica-se isso pela perseguição encarniçada de que foi vítima na Sicília, durante a qual morreram muitos pitagóricos. Com dificuldade e por um grande preço, Platão obteve de Arquitas um manuscrito do mestre. Este sempre redigira os seus trabalhos em signos secretos e sob a forma simbólica. A sua influência exercia-se através do ensino oral. Mas a essência do sistema está nos Versos Áureos de LISIS, no comentário de HIÉROCLES, nos fragmentos de Filolau e de Arquitas, no Timeu de Platão, em que se apresenta a cosmogonia de PITÁGORAS. Os escritos da Antiguidade estão cheios do pensamento do filósofo de Crotona. Citam-nos como autoridade os neoplatónicos de Alexandria, os gnósticos, e até os primeiros padres da Igreja. Vista do alto, aberta com as chaves do esoterismo comparado, a sua doutrina é um magnífico conjunto, um todo solidário, cujas partes estão unidas por uma concepção fundamental. Nela encontramos a reprodução racional da doutrina esotérica da Índia e do Egipto, às quais Pitágoras deu a clareza e a simplicidade helénicas, acrescentando-lhes um sentimento mais enérgico, uma ideia mais nítida da liberdade humana.



(...) Antes de dizer a sua palavra à Grécia, Pitágoras viajou por todo o mundo antigo. Esteve na África, na Ásia, em Mênfis, na Babilónia, onde observou a política e participou em ritos iniciáticos. A sua vida agitada assemelha-se à travessia de um barco no mar, em plena tempestade. Soltas as velas, prossegue na rota, sem se desviar, até ao porto, apesar da fúria dos elementos desencadeados. A sua doutrina causa-nos a impressão de uma noite fresca, depois do calor causticante de um dia de Verão. Faz pensar na beleza do firmamento com seus arquipélagos cintilantes e as suas harmonias etéreas.»

Eduardo Schuré («Os Grandes Iniciados. Esboço da História Secreta das Religiões»).




«Mas se não foi na vida pública que Homero alcançou fama, não é voz corrente que, durante a sua vida, ele foi o guia pessoal e o educador de alguns, que o estimavam pela sua companhia e que transmitiram às gerações que se lhes seguiram um estilo de vida homérico, como o próprio Pitágoras, que foi particularmente apreciado por esse mesmo motivo, e até os seus seguidores ainda hoje chamam pitagórico a esse regime de vida e por ele se distinguem no meio dos outros homens?».

Platão («República»).

 

«Segundo ouvi dizer aos Gregos que vivem no Helesponto e no Mar Negro, este Salmoxis era um homem, escravo em Samos, de facto escravo de Pitágoras, filho de Mnesarco ... Os Trácios levavam uma vida miserável e não eram lá muito inteligentes, ao passo que Salmoxis conheceu o modo de viver da Jónia e mentalidades mais profundas do que a dos Trácios, visto ter tido contactos com os Gregos e, entre estes, com Pitágoras, não o mais débil dos seus sábios. Deste modo, mandou construir uma grande sala, onde recebia os mais destacados cidadãos e lhes oferecia banquetes, e lhes ensinava que nem ele mesmo nem os seus hóspedes nem qualquer dos seus descendentes morreriam, mas que haviam de ir para um lugar, onde sobreviveriam para sempre e possuiriam tudo quanto há de bom.»

Heralito de Éfeso

 

«É sabido, disse eu, que, assim como os olhos foram moldados para a astronomia, assim também os ouvidos foram formados para a harmonia, e que estas ciências são irmãs, tal como afirmam os Pitagóricos e nós, ó Gláucon, com eles concordamos.»

Platão («República»).

 

«Íon de Quios refere nos Triagmoi que também Pitágoras atribuiu certos escritos a Orfeu. Mas Epígenes, na sua obra sobre a poesia atribuída a Orfeu, diz que a Descida ao Hades e a História Sagrada são obra do pitagórico Cercops, e que o Peplos e a Física são de Brontino.»

Clemente

 

«Contudo, artigos de lã nunca são levados para o interior dos templos, nem com eles são sepultados, por ser um sacrilégio. Estas práticas concordam com as chamadas órficas e báquicas, mas, na realidade, são egípcias e pitagóricas. Pois é um sacrilégio para quem participa nestes ritos ser sepultado com roupas de lã. Há uma história sagrada que se conta sobre este assunto.»

Heródoto

 

«Aristóxeno diz que ele [Pitágoras], com a idade de quarenta aos, ao ver que a tirania de Polícrates era demasiado opressiva para um homem livre poder suportar um tal domínio e despotismo, partiu, por esse motivo, para Itália.»

Aristóxeno, fr. 16, Porfírio Vida de Pitágoras 9 (DK 14. 8).

 


«Cílon, membro de uma das mais antigas famílias de Crotona, era o seu cidadão mais destacado pelo nascimento, reputação e riqueza; mas, por outro lado, era uma pessoa de trato difícil, violento, turbulento e de um carácter tirânico. Manifestou todo o empenho em partilhar do estilo de vida dos Pitagóricos e acercou-se do próprio Pitágoras, que era já um ancião, mas foi rejeitado como indigno pelos motivos acima referidos. Quando tal aconteceu, ele e os amigos declararam uma guerra feroz contra o próprio Pitágoras e seus companheiros, e tão excessiva e descomedida se tornou a rivalidade do próprio Cílon e dos seus partidários, que perdurou até ao tempo dos últimos Pitagóricos. Foi por este motivo que Pitágoras se retirou para o Metaponto e aí morreu, segundo consta.»

Aristóxeno, fr. 18, Iâmblico Vita Pythagorae 248-9 (DK 14, 16).

 

«Os Cilónios (conforme eles eram conhecidos) prosseguiram com as suas intrigas contra os Pitagóricos e a demonstrar-lhes toda a espécie de inimizade. Contudo, durante algum tempo prevaleceu o nobre carácter dos Pitagóricos, juntamente com o desejo das próprias cidades em terem os seus negócios administrados por eles. Mas eventualmente os Cilónios levaram as insídias contra eles a um tal extremo, que, quando os Pitagóricos estavam reunidos em conselho em casa de Milão, em Crotona, e deliberavam sobre matéria política, deitaram fogo à casa e queimaram-nos a todos eles, com excepção de dois, Arquipo e Lísis. Como eram os mais jovens e os mais fortes de entre eles, estes dois conseguiram de uma ou de outra forma escapar. Quando isto aconteceu e dado que as cidades não se importaram com a calamidade que tinha ocorrido, os Pitagóricos abandonaram o seu envolvimento na política ... Dos dois (ambos tarentinos) que sobreviveram, Arquipo regressou a Tarento, mas Lísis partiu para a Grécia, magoado com a indiferença das cidades, e viveu algum tempo na Acaia, no Peloponeso, mas depois mudou-se para Tebas, onde se tinha gerado um certo interesse pela sua pessoa. Aí, Epaminondas tornou-se seu pupilo e chamou-o de “pai”. Foi aí também que morreu. Os demais Pitagóricos reuniram-se em Régio e aí passaram algum tempo, em convívio com os outros. Porém, com o decorrer do tempo e como a situação política se tivesse deteriorado, abandonaram a Itália, com excepção de Arquitas de Tarento.»

Aristóxeno fr. 18 (continuação), Iâmblico Vita Pythagorae 249-51 (Dk 14, 16).

 

«Após estes acontecimentos [sc. A batalha de Sagras] os Crotoniatas abandonaram a prática das virtudes varonis e o exercício das armas. Começaram a odiar o que tinham empreendido com tão mau sucesso, e ter-se-iam entregado a uma vida de sensualidade, se não tivesse sido o filósofo Pitágoras ... Equipado com toda esta experiência [sc. a sabedoria oriental e as leis de Creta e Esparta], veio para Crotona; e ao deparar-se com a população entregue a hábitos sensuais, atraiu-a, com a sua autoridade, para a busca da simplicidade. Todos os dias exaltava a virtude, e enumerava os males da sensualidade e o destino das cidades arruinadas por essa peste. Provocou no homem comum um tal entusiasmo pela simplicidade de vida, que parecia impossível acreditar que alguns deles se tivessem entregue à sensualidade. Ministrou, com frequência, ensinamentos a mulheres casadas, sem a presença dos maridos, e a rapazes, separadamente dos pais.»

Iustinus ap. Pomp. Trog. Hist. Phil. Epit. XX, 4, 1-2 e 5-8.

 

«Dicearco diz que, quando ele [Pitágoras] desembarcou em Itália e chegou a Crotona, foi recebido como homem de notáveis poderes e experiência, devido às suas muitas viagens, e como pessoa bem dotada pela fortuna, no tocante às suas características pessoais. É que a sua aparência era imponente e própria de um homem livre, e na sua voz, no seu carácter e em tudo o mais da sua pessoa havia graça e harmonia em profusão. Por consequência, foi capaz de organizar a cidade de Crotona, por tal forma que, depois de ter persuadido o conselho governativo dos anciãos com a nobreza de numerosos discursos, por ordem do governo fez aos jovens adequadas exortações, após o que se dirigiu às crianças, trazidas das escolas, e por fim às mulheres, pois também tinha convocado uma reunião delas.»

Dicearco fr. 33 Wehrli, Porfírio Vida de Pitágoras 18 (DK 14, 8 a).

 

«Aristóteles diz que Pitágoras foi chamado Apolo Hiperbóreo pelo povo de Crotona. O filho de Nicómaco [i.e. Aristóteles] acrescenta que Pitágoras foi visto certa vez por muita gente, no mesmo dia e à mesma hora, tanto no Metaponto como em Crotona; e que em Olímpia, durante os jogos, ele se pôs de pé em pleno teatro e mostrou que uma das suas coxas era de ouro. O mesmo escritor diz que Pitágoras, ao atravessar o rio Cosas, foi saudado por este, e que muita gente ouviu essa saudação.»

Aristóteles fr. 191 Rose, Eliano V. H. II, 26 (DK 14, 7).

 


«Novamente em Caulónia, segundo afirma Aristóteles, profetizou o advento de uma ursa branca; e é ainda Aristóteles que, em aditamento a muitas outras informações a seu respeito, diz que na Tuscânia matou à dentada uma serpente, cuja mordedura era fatal. Refere ainda que Pitágoras predisse aos Pitagóricos o próximo conflito político; foi essa a razão que o levou a partir para o Metaponto sem que ninguém se tivesse dado conta disso.»

Aristóteles fr. 191, Apolónio Hist. Mir. 6 (DK 14, 7). 


«Afirma Aristóteles, na sua obra Sobre os Pitagóricos, que Pitágoras prescrevia a abstenção de favas, tanto por elas se assemelharem às partes pudendas, como por se parecerem com os portões do Hades (é que esta planta é a única que não tem nós), como por serem destrutivas, ou por serem semelhantes à natureza do universo, ou por serem oligárquicas (pois é por meio delas que os governantes são tirados à sorte). Vedado lhes era apanhar o que tombava das mesas – para os habituar a comer com moderação, ou porque isso indicava a morte de alguém. E também Aristófanes diz que o que cai pertence aos heróis, quando nos seus Heróis adverte: “Não provem o que cai no meio da mesa.” Não devem tocar num galo branco, em virtude deste animal ser consagrado ao Mês e ser um suplicante, e a súplica ser uma boa coisa. O galo era consagrado ao Mês, porque anuncia as horas; além disso, a cor branca é da natureza do que é bom, a preta, da natureza do mal. Não deviam tocar em qualquer peixe que fosse sagrado, por não ser justo que os mesmos alimentos fossem servidos aos deuses e aos homens, do mesmo modo que se procedia entre os homens livres e os escravos. Não deviam partir o pão (por ser à volta de um único pão que os amigos antigamente se reuniam, como ainda hoje fazem os bárbaros), nem deviam dividir o pão que os reunia. Outros há que explicam esta norma como uma referência ao julgamento no Hades; dizem outros que a divisão do pão dava origem à cobardia na guerra; outros ainda explicam que é pelo pão que começa o universo.»

Aristóteles fr. 195, Diógenes Laércio VIII, 34-5 (DK 58 c 3).

 

«Havia também outra espécie de símbolos, ilustrados pelo que se segue: “Não passes por cima de uma balança”, i.e. não sejas ambicioso; “Não atices o lume com uma espada”, i.e. não humilhes com duras palavras um homem a rebentar de cólera; “Não desfolhes a coroa”, i.e. não violes as leis, que são as coroas das cidades. Ou ainda, “Não comas o coração”, i.e. não vivas na ociosidade; “Quando viajares, não voltes para trás”, i.e. quando estiveres para morrer, não te apegues à vida.»

Aristóteles fr. 197, Porfírio Vida de Pitágoras 42 (DK 58 c 6).

 

«Todos os chamados acusmata se dividem em três categorias: uns indicam o que uma coisa é, outros o que é o mais importante, outros o que se deve ou não fazer. Exemplos da categoria “o que é?” são: O que são as Ilhas dos Bem-Aventurados? O Sol e a Lua. O que é o oráculo de Delfos? A tetractys: que é a harmonia em que cantam as Sereias. Exemplos da categoria “O que é o mais..?” são: Qual é a coisa mais justa? Fazer um sacrifício. O que é mais sábio? O número; mas, em segundo lugar, o homem que deu nomes às coisas. Entre nós, qual é a coisa mais sábia? A medicina. Qual é a mais bela? A harmonia. Qual é a mais poderosa? O conhecimento. Qual a melhor? A felicidade. Que de mais verdadeiro há no que se diz? Que os homens são perversos.»

Iâmblico Vita Pythagorae 82 (DK 58 c 4).

 

«Dois são os tipos de filosofia itálica, chamada pitagórica. Pois duas foram também as categorias dos seus praticantes, os acusmatici e os mathematici. Destes, os acusmatici eram aceites como pitagóricos pelo outro grupo, mas não admitiam que os mathematici fossem pitagóricos, ao sustentarem que as suas actividades intelectuais derivavam, não de Pitágoras, mas de Hipaso. Uns dizem que Hipaso era natural de Crotona, outros do Metaponto. Mas os Pitagóricos que se ocuparam das ciências concordam que os acusmatici são pitagóricos, e afirmam que eles próprios o são numa escala ainda maior, e que o que dizem é a verdade.»

Iâmblico Comm. Math. sc. pp. 76, 16-77, 2 Festa.

 


«Pitágoras fez certas afirmações de um modo místico e simbólico, e Aristóteles recolheu a maior parte delas; por exemplo, que ele chamava ao mar lágrimas de Cronos, às Ursas, mãos de Reia, às Plêiades, lira das Musas, aos planetas, cães de Perséfone; o som produzido pelo bronze, quando percutido, era, dizia ele, a voz de um ser divino (dáimon) aprisionado no bronze.»

Aristóteles fr. 196, Porfírio Vida de Pitágoras 41 (DK 58 c 2).

 

«A origem dos tremores de terra, no dizer de Pitágoras, não era outra coisa senão um encontro de mortos; o arco-íris, o brilho do Sol, e o eco, que frequentemente fere os nossos ouvidos, a voz de seres mais poderosos.»

Aristóteles fr. 196, Eliano V. H. IV, 17 (DK 58 c 2).

 

«Se troveja, então – se é verdade o que afirmam os Pitagóricos – isso é para ameaçar os que se encontram no Tártaro, por forma a amedrontá-los.»

Aristóteles An. Post. 94 b 32-4 (DK 58 c 1).

 

«O que ele dizia aos seus companheiros, ninguém o pode referir com segurança; é que entre eles reinava um invulgar silêncio. Mesmo assim, tornou-se universalmente conhecido o seguinte: em primeiro lugar, que ele afirma que a alma é imortal; depois, que ela se muda para outras espécies de seres animados; além disso, que os acontecimentos ocorrem em determinados ciclos, e que nunca nada é absolutamente novo; e por fim, que todos os seres vivos devem ser considerados como aparentados. Segundo parece, Pitágoras foi o primeiro a introduzir estas crenças na Grécia.»

Porfírio, Vida de Pitágoras 19 (DK 14, 8 a).


«Diz-se que ele [Anaxágoras] tinha vinte anos por ocasião da travessia de Xerxes, que viveu até aos setenta e dois. Apolodoro diz nas suas Crónicas que ele nasceu na septuagégima Olimpíada (500-497 a. C.) e que morreu no primeiro ano da octogésima oitava (428/7). Iniciou a sua actividade de filósofo em Atenas, no arcontado de Cálias (456/5), com a idade de vinte anos, segundo as palavras de Demétrio de Faléron no seu Registo dos Arcontes, e dizem que lá passou trinta anos ... Diversas são as versões do seu julgamento. Sócion, na sua Sucessão de Filósofos, refere que ele foi acusado de impiedade por Cléon, por sustentar que o Sol era uma massa de metal em brasa, e que, depois de Péricles, seu discípulo, ter proferido um discurso em sua defesa, foi multado em cinco talentos e exilado. Por outro lado, Sátiro, nas suas Vidas, diz que a acusação foi feita por Tucídides na sua campanha política contra Péricles; e acrescenta que a acusação foi não apenas por impiedade, mas também por Medismo; e que foi condenado à morte, à revelia ... Por fim, retirou-se para Lâmpsaco, e lá morreu. Diz-se que, quando os governantes da cidade lhe perguntaram qual o privilégio que desejava lhe fosse conferido, ele respondeu que dessem feriado às crianças, todos os anos, no mês da sua morte, costume que se tem mantido até hoje. Quando morreu, os habitantes de Lâmpsaco sepultaram-no com todas as honras.»

Diógenes Laércio

 

«Anaxágoras de Clazómenas, que, apesar de mais velho que Empédocles, lhe foi posterior [ou: inferior] na actividade filosófica...».

Aristóteles («Metafísica»).

 


«Estes dois, porém, diferem entre si, no que Empédocles imagina ser um ciclo de tais mudanças, e Anaxágoras uma única série. Além disso, Anaxágoras postulava uma infinidade de princípios, nomeadamente, as substâncias homeómeres e, conjuntamente, os contrários, ao passo que Empédocles postula apenas os chamados “elementos”. A teoria de Anaxágoras, de que os princípios são em número infinito, foi provavelmente devida à sua aceitação da opinião comum dos físicos de que nada nasce do não-ser. Pois esta é a razão pela qual eles usam a frase “todas as coisas estavam juntas”, e porque o nascimento desta ou daquela espécie de coisas se reduz a uma mudança de qualidade, ao passo que, outros falam de combinação e separação. Além disso, o facto de os contrários provirem uns dos outros levou-os à mesma conclusão. Um, racionavam eles, deve ter já existido no outro; pois uma vez que tudo o que nasce deve surgir quer do que é quer do que não é, e que lhe é impossível surgir do que não é (neste ponto todos os físicos estão de acordo), eles pensavam que se seguia necessariamente a verdade da alternativa, nomeadamente, que as coisas nascem a partir de coisas que existem, i.e., de coisas já presentes, mas imperceptíveis para os nossos sentidos em virtude da pequenez do seu tamanho. Assim, afirmam eles que todas as coisas estão misturadas em tudo, porque viam que tudo procedia de tudo. Mas as coisas, como eles dizem, parecem diferentes umas das outras e recebem nomes diferentes, consoante a natureza da coisa que é numericamente predominante entre os inúmeros constituintes da mistura. Pois nada, afirmam eles, é pura e inteiramente branco ou preto ou doce ou carne ou osso, mas consideravam que a natureza de uma coisa é a daquilo que ela contém em maior quantidade.»

Aristóteles («Física»).



«O pensamento [de Empédocles de Agrigento] gera-se à volta do problema da unidade do ser em face da multiplicidade. O ser para Empédocles é uno e assume em si próprio o segredo insondável da harmonia. O ser é o Spherus.

Como é que esta unidade se corresponde com a multiplicidade? Esta unidade é insondável e, como tal, só poderemos compreender o uno a partir do múltiplo em que nos encontramos. O problema será, pois, como é que a multiplicidade se vai convertendo em unidade.

Para Empédocles, há duas forças no universo: o Amor e a Discórdia. É o Amor que atrai a si ou que vai unindo todas as partes que a Discórdia separa. Como tal, há um período intermédio que é este em que vivemos, em que o que é positivo e o que é negativo, o que une e o que separa, lutam em si. É através desta luta que tudo o que existe tenta regressar à unidade.

Todo o pensamento de Empédocles gira à volta desta relação que, aliás, é semelhante ao pensamento de Heraclito. Assim, ele vê na natureza quatro elementos fundamentais: a terra, a água, o ar e o fogo. “Todas estas coisas são iguais e coeternas, porém cada uma tem o seu valor e carácter distinto no valer do tempo” (Fr. 17).   

“Exporei um duplo discurso. Em certo momento cresceu de muitas coisas um só todo em unidade. Em outro momento, ao contrário, separaram-se as coisas do mundo, o fogo, a água, a terra e a propícia altura o ar. É a funesta Discórdia pensando igualmente em derredor. E o Amor no meio das mesmas, igualmente em comprimento e em largura”... “E também ele ( Amor) está nos homens e, por isso, pensam coisas amáveis e realizam obras de paz, chamando-as pelos nomes de Alegria e Afrodite”.

A filosofia de Empédocles é uma filosofia de eterno retorno, ou seja, cíclica, em que a vitória do Amor sucede e alterna-se com a vitória da Discórdia.»

Luís Furtado («Cadernos de Filosofia»).

 

«Os Gregos laboram num erro ao admitir o nascimento e a morte; pois coisa alguma se cria ou perde, mas tudo se une ou separa das coisas que existem. Por isso, andariam melhor em chamar ao criar-se, unir-se, e, ao perder-se, separar-se.»

Simplício

 

«Péricles adquiriu elevação de espírito a juntar aos seus dons naturais; pois ele encontrou, creio eu, Anaxágoras, que já possuía essa qualidade, e, embrenhando-se em especulações naturais e apreendendo a verdadeira natureza do espírito e da loucura (que eram os temas da maior parte das discussões de Anaxágoras), retirou dessa fonte tudo o que podia contribuir para a arte do debate.»

Platão («Fedro»).






«Dos que escreveram um único livro, fazem parte Melisso, Parménides e Anaxágoras.»

Diógenes Laércio

 

«(...) explica-nos, Meleto, como é que, em tua opinião, corrompo a juventude? Será, como disseste na tua acusação, ensinando-lhes a não crer nos deuses em que a cidade crê, mas em outros, em novos deuses?

– É precisamente o que digo.

– Então, Meleto, em nome desses mesmos deuses acerca dos quais ora falamos, fala ainda mais claramente para mim e para este auditório. Não consigo compreender se admites que eu ensino que há outros deuses, e nesse caso acredito haver deuses, pelo que não sou ateu não sendo, por conseguinte, um malfeitor, mas que os deuses por mim admitidos não são os deuses reconhecidos pela cidade, sendo este o crime pelo qual me acusas; ou, ainda, se deveras afirmas que não creio que há deuses, e que ensino a descrença aos outros.

– É isso o que afirmo, tu não crês nos deuses.

– Fazes-me rir, Meleto, porque dizes isso? Então eu não creio, como todos os cidadãos, que o sol e a lua são deuses?

– Não, juízes, por Zeus, uma vez que ele sustenta que o sol é uma pedra e que a lua é uma terra.

– Mas quem estás a acusar é a Anaxágoras, meu caro Meleto, e fazes essa acusação depreciando estes cidadãos, julgando-os tão iletrados que não sabem que os livros de Anaxágoras de Clazómenas estão repletos de análogas expressões? Ora esta, então porque haviam os jovens de aprender comigo essas doutrinas que podem adquirir frequentemente (se o preço for elevado) por um dracma na orquestra, ficando a rir-se de Sócrates, se este ousasse fazê-las passar por suas, especialmente sendo tão absurdas? Por Zeus, mas tu pensas isso de mim, que eu não creio em nenhum deus?

– Não, por Zeus, tu não crês em nenhum.

– Ninguém pode acreditar em ti, Meleto, nem mesmo tu. Este homem, cidadãos de Atenas, parece-me de uma arrogância e de uma desfaçatez tais, que se decidiu a mover este processo impelido apenas pela violência, desfaçatez e temeridade da sua própria idade. Dá a impressão de ter querido forjar um enigma para me pôr à prova, como quem diz: “vamos a ver se o sábio que é Sócrates compreende que brinco com ele e me contradigo, ou se consigo iludi-lo, a ele e aos outros”. De facto, parece-me contradizer-se, no seu discurso, como se dissesse: “Sócrates é um malfeitor porque não crê em deuses, mas deveras crê em deuses. Ora isto é próprio de um chalaceador.»

Platão («Apologia de Sócrates»).

 

«Anaxágoras de Clazómenas, filho de Hegesibulo, sustentava que os primeiros princípios das coisas eram as homeomerias. Pois parecia-lhe completamente impossível que alguma coisa se originasse a partir do não-existente ou nele se dissolvesse. De qualquer forma, nós tomamos alimentos que são simples e homogéneos, tais como pão ou água, e com estes se alimentam os cabelos, as veias, as artérias, a carne, os tendões, os ossos e todas as outras partes do corpo. Sendo assim, temos que concordar que tudo o que existe está nos alimentos que tomamos, e que tudo deriva o seu crescimento das coisas que existem. Deve haver nesses alimentos algumas partes que produzem o sangue, outras os tendões, outras os ossos, etc. – partes que só a razão pode apreender. Pois não há necessidade de referir à percepção dos sentidos o facto de o pão e a água produzirem todas estas coisas; antes, existem no pão e na água partes que só a razão pode apreender.»

Écio


Vale do Nilo

«A Terra [segundo Anaxágoras] é de forma plana e mantém-se suspensa onde está, devido ao seu tamanho, porque não há vazio e porque o ar, que é muito forte, mantém a Terra a flutuar nele. Da humidade da terra, o mar veio das águas nela existentes, cuja evaporação deu origem a tudo o que emergiu, e dos rios que correm para ele. Os rios devem sua origem, em parte, à chuva, em parte, às águas da terra; pois a Terra é oca, e nas suas partes ocas contém água. O Nilo aumenta de caudal no Verão graças às águas que para ele correm, procedentes das neves do Sul. O Sol, a Lua e todos os astros são pedras incandescentes que a rotação do aither faz girar consigo. Por baixo dos astros encontram-se certos corpos, invisíveis para nós, que giram com o Sol e a Lua. Nós não sentimos o calor dos astros, porque eles estão muito longe da Terra; além disso, eles não são tão quentes como o Sol, porque ocupam uma região mais fria. A Lua está por baixo do Sol e mais perto de nós. O Sol excede o Peloponeso em tamanho. A Lua não tem nenhuma luz própria, mas recebe-a do Sol. Os astros, na sua revolução, passam por baixo da Terra. Os eclipses da Lua são devidos ao facto de ela ser ocultada pela Terra, ou às vezes pelos corpos que se encontram por baixo da Lua; os do Sol, à interposição da Lua, na fase de lua-nova ... Ele sustentava que a Lua era feita de terra e tinha planícies e ravinas.»

Hipólito

 

«Anaxágoras, quando diz que o ar contém as sementes de todas as coisas e que são estas sementes que, quando arrastadas para baixo com a chuva, dão origem às plantas ...».

Teofrasto

 

«Anaxágoras pensa que a percepção se obtém por obra dos contrários, pois o semelhante não é afectado pelo semelhante ... Uma coisa que está quente ou tão fria como nós nem nos aquece nem nos arrefece, quando se aproxima, nem podemos reconhecer o doce ou o amargo pelos seus semelhantes; nós conhecemos, isso sim, o frio pelo quente, o insonso pelo salgado e o doce pelo amargo, proporcionalmente à nossa deficiência de cada um. Pois todas as coisas, diz ele, existem já em nós ... Todas as percepções são acompanhadas de dor, uma consequência que pareceria advir da sua hipótese; pois tudo o que não é semelhante produz dor pelo contacto; e a presença desta dor torna-se clara, tanto por uma duração demasiado longa ou por um excesso de sensação.»

Teofrasto

 

«Arquelau de Atenas ou de Mileto, filho de Apolodoro ou, segundo referem alguns, de Mídon, foi discípulo de Anaxágoras e professor de Sócrates; foi ele quem primeiro transferiu a filosofia física da Jónia para Atenas, e foi chamado físico. Além disso, a filosofia física terminou com ele devido à introdução da ética de Sócrates. Arquelau parece ter também abordado questões éticas, pois filosofou igualmente sobre as leis, a bondade e a justiça.»

Diógenes Laércio

 

«Arquelau de Atenas, discípulo de Anaxágoras, com quem se diz que Sócrates se associou, tenta introduzir algo de original, e de seu, na cosmogonia e noutros assuntos, mas ainda conserva os mesmos princípios de Anaxágoras. Ambos sustentam que os primeiros princípios são em número infinito e diferentes em espécie, e postulam as homeomerias como princípios...».

Simplício

Anaxágoras de Clazómenas

«Arquelau era, por nascimento, um ateniense, filho de Apolodoro. Ele acreditava numa mistura material como a de Anaxágoras, e os seus primeiros princípios foram os mesmos; mas sustentava que desde o princípio havia uma certa mistura imanente no Espírito. A origem do movimento foi a mútua separação do quente e do frio, o primeiro dos quais se move e o segundo fica parado. Quando a água está liquefeita corre para o centro, e lá arde e se transforma em ar e terra, destes, o primeiro é levado para cima, ao passo que a terra ocupa uma posição em baixo. Assim, por estas razões, a terra nasceu, e permanece imóvel no centro, sem constituir uma fracção apreciável de todo o universo. <O ar> produzido pela conflagração <tem poder sobre o universo> e da sua combustão original surge a substância dos corpos celestes. Destes, o Sol é o maior, a Lua o segundo, e dos restantes alguns são mais pequenos, outros maiores. Diz ele que os céus estão inclinados, sendo por isso que o Sol deu luz à Terra, fez o ar transparente e a Terra seca. Pois, originariamente, esta era um pântano, muito alta nos bordos e côncava no meio. Ele apresenta como prova da concavidade da Terra o facto de o Sol não nascer nem se pôr ao mesmo tempo para todos os homens, como inevitavelmente aconteceria, se fosse plana. Sobre os animais, ele sustenta que, quando a Terra estava originariamente a aquecer na região mais baixa, onde o quente e o frio estavam misturados, começaram a aparecer muitos animais, incluindo os homens, todos com a mesma espécie de vida e todos extraindo o seu sustento do limo. Estes viviam pouco tempo; mas mais tarde, começaram a nascer uns dos outros. Os homens distinguiram-se dos animais, e estabeleceram governantes, leis, ofícios, cidades, etc. O Espírito, diz ele, é, de igual modo, inato em todos os animais; pois cada um dos animais, tal como o homem, faz uso do Espírito, se bem que alguns mais rapidamente que outros.»

Hipólito 


As duas escolas filosóficas – a itálica e a jónica – e os seus fundadores

No que respeita às letras gregas, cuja língua é considerada como a de maior lustre entre as nações, a tradição dá-nos a conhecer duas escolas de filósofos: uma, denominada itálica, desta parte da Itália a que outrora se dava o nome de Grande Grécia, e a outra, a jónica, da parte a que ainda se dá o nome de Grécia.

A escola itálica teve por fundador Pitágoras de Samos de quem provém também, segundo se conta, o nome da filosofia. Efectivamente antes dele chamavam-se sábios aqueles que de certo modo sobressaíam dos demais por uma conduta digna de louvor; mas ele, interrogado acerca da sua profissão, respondeu que era um filósofo, isto é, um estudante ou amigo da sabedoria. É que lhe parecia demasiado pretensioso chamar-se sábio a si próprio.

A escola jónica teve por chefe Tales de Mileto, um dos chamados sete sábios. Os outros seis distinguiram-se pelo seu género de vida e por certas regras próprias para assegurarem uma boa conduta. Tales, na mira de suscitar sucessores, elevou-se acima de todos aprofundando a natureza das coisas e reduzindo as suas pesquisas a escrito. O que lhe valeu maior admiração foi ter conseguido captar as leis da astronomia e predizer os eclipses do Sol e da Lua. Pensou que a água é o princípio das coisas donde provêm todos os elementos do mundo, o próprio mundo e o que nele se produz. Mas a esta actividade que a consideração do mundo nos faz ver tão admirável, não prepôs ele qualquer princípio proveniente da inteligência divina.


Θαλῆς ὁ Μιλήσιος (Tales de Mileto).

Anaximandro, um dos seus auditores, sucedeu-lhe e modificou a sua concepção da natureza. Para este não é duma só coisa, – como a água para Tales –, que tudo provém; mas cada coisa nasce dos seus princípios próprios. Estes princípios próprios de cada coisa são, crê ele, em número infinito e geram inúmeros mundos com tudo o que nele aparece. Ainda segundo a sua opinião, estes mundos ora se dissolvem ora renascem, conforme o tempo que cada um pode durar. Também ele não reconhece à inteligência divina nenhuma interferência nas actividades da natureza.

Deixou como sucessor Anaxímenes que atribuiu ao ar infinito todas as causas dos seres. Não negou os deuses, nem deixou de a eles se referir; todavia não julgou que tivessem feito o ar, mas, antes, eles é que provêm do ar.

Pelo contrário Anaxágoras, auditor de Anaxímenes, julgou que todos os seres que vemos tiveram por autor um espírito divino e afirmou que ele os tirou de uma matéria infinita, constituída por partículas semelhantes entre si. Cada um dos seres era feito das suas partículas próprias, mas sob a acção do espírito divino.

Diógenes, outro auditor de Anaximandro, afirmou, também ele, que o ar era a matéria de que todos os seres eram feitos; mas que o ar era dotado duma inteligência divina sem a qual dele nada se pode fazer.

A Anaxágoras sucede seu auditor Arquelau. Também este pensou que todas as coisas são constituídas por partículas semelhantes entre si, mas entendia que todas elas se mantinham coesas graças a uma inteligência que movia os corpos eternos, isto é, as referidas partículas, unindo-as e separando-as.

Diz-se que teve por discípulo Sócrates, mestre de Platão; foi em consideração a este mestre que resumi todas estas doutrinas.

           (In A Cidade de Deus, Fundação Calouste Gulbenkian, Volume I, 1991, pp. 705-706).              




sexta-feira, 12 de junho de 2026

Escola de Mileto

Escrito por Beltrão Russell



Stoa jónica (Mileto)

«A ordem através da qual o Universo se gera tem expressão máxima na Inteligência Divina. Quais são os elementos que compõem o universo? Estes elementos são os tradicionais adoptados pela filosofia dos Milésios.»

Luís Furtado («Cadernos de Filosofia»).


«Ora Tales, conforme afirmam Heródoto e Dúris e Demócrito, era filho de Exâmias e de Cleobulina, da família de Teleu, que sendo da mais alta nobreza fenícia, fazem remontar a sua origem a Cadmo e Agenor... e ele [Agenor] foi inscrito como cidadão de Mileto, quando veio com Nileu, que fora desterrado da Fenícia. Mas a maior parte da gente diz que Tales era um verdadeiro milésio e de uma família ilustre.»

Diógenes Laércio

 

«Útil foi também o parecer emitido, antes da destruição da Jónia, por Tales de Mileto, que quanto à origem era fenício: aconselhava ele os Jónios a que tivessem uma única assembleia deliberativa, com assento em Teos, visto esta localidade se encontrar no centro da Jónia; as outras cidades continuariam a ser habitadas, mas deviam ser consideradas como se fossem demos.»

Heródoto

 

«Tales..., depois de se ter dedicado à filosofia no Egipto, veio para Mileto numa idade bastante avançada.»

Écio

 

«Tales, tendo ido primeiro para o Egipto, transferiu este estudo [a geometria] para a Grécia...».

Proclo

 

«Quando Creso chegou ao rio Hális, então, segundo a minha versão, fez passar o exército pelas pontes que aí havia; mas, segundo a versão corrente entre os Gregos, foi graças a Tales de Mileto que o exército passou para a outra margem. É que dizem que Creso estava em apuros sobre o modo como o exército havia de atravessar o rio, porquanto as referidas pontes ainda não existiam nessa época; e que Tales, que se encontrava entre as suas tropas, fez com que o rio, que corria à esquerda do exército, corresse também à direita. Eis como ele procedeu: começando a montante do acampamento, fez abrir um profundo canal, com a forma de crescente, de modo a que o rio, desviado assim do seu antigo leito, envolvesse pela retaguarda o local onde o exército estava acampado e, depois de ultrapassar o acampamento, se lançasse de novo no seu antigo leito. O resultado foi que, mal o rio foi dividido, se tornou vadeável em ambos os braços.»

Heródoto

 

«... precisamente como, Teodoro, se diz que uma ladina e graciosa escrava trácia troçou de Tales por este ter caído a um poço, enquanto observava os astros e olhava para o céu. Dizia ela que Tales, ansioso por conhecer as coisas do céu, não se dava conta do que estava atrás dele e mesmo a seus pés.»

Platão («Teeteto»).


 

«Pois quando o censuraram por causa da sua pobreza, com o argumento de que a filosofia para nada servia, diz-se que, tendo previsto pelo estudo dos corpos celestes que ia haver uma abundante colheita de azeitona, juntou um pequeno capital, ainda durante o Inverno, e pagou sinal por todos os lagares de Mileto e de Quios, arrendando-os por baixo preço, porque ninguém licitou contra ele. Quando chegou a ocasião própria, houve uma súbita afluência de pedidos de lagares; então ele sublocou-os pelo preço que quis, e deste modo obteve um lucro avultado, demonstrando assim que é fácil aos filósofos enriquecer, se o desejarem, mas que não é isso o que lhes interessa.»

Aristóteles («Política»).

 

«No sexto ano da guerra, que eles [Medos e Lídios] vinham travando entre si com igual fortuna, deu-se um recontro durante o qual sucedeu que, estando a luta em curso, o dia se fez subitamente noite. Esta alteração do dia tinha sido predita aos Jónios por Tales de Mileto, que havia fixado como seu limite o ano em que o fenómeno efectivamente se verificou.»

Heródoto

 

«Pensam alguns que ele [Tales] foi o primeiro a estudar os corpos celestes e a predizer eclipses do Sol e os solstícios, como afirma Eudemo na sua história da astronomia; é por este motivo que tanto Xenófanes como Heródoto o admiram; e não só Heraclito como Demócrito testemunham a seu favor.»

Diógenes Laércio

 

«Eudemo refere na Astronomia que Enópides foi o primeiro a descobrir a obliquidade do Zodíaco e o ciclo do Grande Ano, e Tales, o eclipse do Sol e o período variável dos solstícios.»

Dercílides


«Jerónimo [de Rodes] afirma que ele [Tales] mediu efectivamente as pirâmides por intermédio da sua sombra, após ter observado o momento em que a nossa própria sombra é igual à nossa altura.»

Diógenes Laércio


«Tales foi, segundo a tradição, o primeiro a ter revelado aos Gregos a investigação da natureza; teve muitos predecessores, conforme pensa também Teofrasto, mas ultrapassou-os de longe, a ponto de obscurecer todos os que existiram antes dele. Diz-se que nada deixou escrito, salvo o chamado Guia Náutico pelos Astros

Simplício

 

«E, segundo alguns, não deixou nenhuma obra escrita; pois o Guia Náutico pelos Astros, que lhe é atribuído, pertence, segundo se diz, a Foco de Samos. Calímaco reconheceu-o como descobridor da Ursa Menor, e escreveu nos seus Iambos o seguinte ... pois a vitória pertencia a Tales, que era hábil nos seus pareceres, e porque dele se dizia que tinha medido as pequenas estrelas do Carro, pelo qual navegam os Fenícios; ao passo que, segundo outros, escreveu só duas obras, Sobre o Solstício e Sobre o Equinócio, por considerar os demais problemas incompreensíveis.»

Diógenes Laércio

 

«Outros dizem que a terra repousa sobre a água. Com efeito, é esta a versão mais antiga que recebemos, dada, segundo dizem, por Tales de Mileto, a saber: ela mantém-se no devido lugar pelo facto de flutuar como um madeiro ou algo de semelhante (pois nenhum destes corpos se mantêm, por natureza, no ar, mas na água) – como se o mesmo argumento se não aplicasse tanto à água que suporta a terra como à própria terra.»

Aristóteles («De Caelo»).

 

«Na sua maior parte, os primeiros filósofos pensaram que os princípios, sob a forma de matéria, foram os únicos princípios de todas as coisas: pois a fonte original de todas as coisas que existem, aquela a partir da qual uma coisa é primeiro originada e na qual por fim é destruída, a substância que persiste, mas se modifica nas suas qualidades, essa, afirmam eles, é o elemento e o primeiro princípio das coisas existentes, e por essa razão consideram que não há geração ou morte absolutas, com base no facto de uma tal natureza ser sempre preservada ... pois deve haver alguma substância natural, uma ou mais do que uma, de que provêm as outras coisas, enquanto ela é preservada. Contudo, sobre o número e a forma desta espécie de princípio nem todos estão de acordo; mas Tales, o fundador deste tipo de filosofia, diz que a água (e por consequência declarou que a terra está sobre a água), tendo talvez formulado esta suposição por ver que o alimento de todas as coisas é húmido, e que o próprio calor dele provém e vive graças a ele (aquilo de que provêm é o princípio de todas as coisas) – formulou a hipótese não só a partir disto, como ainda do facto de os embriões de todas as coisas terem uma natureza húmida, sendo a água o princípio natural das coisas húmidas.»

Aristóteles («Metafísica»).

 

«Parece que também Tales, a avaliar pelo que se conta, considerava a alma como algo de cinético, se é que ele disse que a pedra [de Magnésia] possui alma pelo facto de deslocar o ferro.»

Aristóteles («De Anima»).


Vaso milésio

«Aristóteles e Hípias afirmam que ele partilhou a alma até pelos objectos inanimados, servindo-se da pedra de Magnésio e do âmbar como indício desse conceito.»

Diógenes Laércio

 

«E alguns afirmam que ela [a alma] está misturada no universo: foi, talvez, por essa razão que Tales também pensou que tudo está cheio de deuses.»

Aristóteles («De Anima»).

 

«Anaximandro de Mileto, filho de Praxíades: afirmava que o princípio e elemento é o Indefinido, sem distinguir o ar ou a água ou qualquer outra coisa... Foi o primeiro a inventar um gnómon, e colocou um dos relógios do Sol em Esparta, segundo Favorino na sua História Universal, para assinalar os solstícios e equinócios; e construiu também indicadores de horas. Foi o primeiro a traçar um contorno da terra e do mar, mas construiu também uma esfera [celeste]. Fez uma exposição sumária das suas opiniões, que, suponho eu, Apolodoro, o Ateniense, também encontrou. Diz Apolodoro nas suas Crónicas que Anaximandro tinha sessenta e quatro anos no segundo ano da quinquagésima oitava Olimpíada (547/6 a. C.), e que morreu pouco depois (tendo atingido a sua plenitude aproximadamente durante a época de Polícrates, tirano de Siracusa).»

Diógenes Laércio

 

«O filósofo Anaximandro de Mileto, filho de Praxíades foi parente, discípulo e sucessor de Tales. Foi o primeiro a descobrir o equinócio e os solstícios e os indicadores das horas, e que a terra se encontra no centro. Introduziu o gnómon e, em geral, deu a conhecer um esboço de geometria. Escreveu Da Natureza, Circuito da Terra e Sobre as Estrelas Fixas e um Globo Celeste e algumas outras obras.»

Suda

 

«Os Gregos adquiriram com os Babilónios o conhecimento da esfera celeste e do gnómon e a divisão do dia em doze partes.

Heródoto

Gnómon

«Anaximandro de Mileto, discípulo de Tales, foi o primeiro que ousou desenhar o mundo habitado numa tábua; depois dele, Hecateu de Mileto, homem muito viajado, aperfeiçoou o mapa, por forma que a obra se tornou uma fonte de admiração.»

Agatémero

 

« ... Eratóstenes diz que os primeiros a seguir Homero foram dois, Anaximandro, que era conhecido e concidadão de Tales, e Hecateu de Mileto. Anaximandro foi o primeiro a publicar um mapa geográfico, ao passo que Hecateu deixou após si um desenho que se crê ser seu pelo resto das suas obras.»

Estrabão


«Sorrio ao ver que, até agora, muitos foram os que desenharam circuitos da terra, sem que nenhum deles tenha dado do assunto uma explicação razoável: representam eles Okeanos a correr em redor da terra, que é desenhada como que a compasso, e fazem a Ásia igual à Europa.»

Heródoto

 

«Todos os físicos fazem do infinito uma propriedade de uma outra natureza inerente aos chamados elementos, tais como a água ou o ar ou o seu intermédio.»

Aristóteles («Física»).


« ... Não há um só destes elementos [fogo, ar, água, terra] de que derivem todas as coisas; e não há certamente nenhuma outra coisa além destes, algo de intermediário entre o ar e a água, ou entre o ar e o fogo, que seja mais densa do que o ar e o fogo, e mais subtil que os demais: pois isso será, simplesmente, ar e fogo com oposição dos contrários; mas um dos dois contrários é uma privação – de modo que é impossível o elemento intermédio existir alguma vez isolado, como pretendem alguns a respeito do infinito [apeiron] e do circundante.»

Aristóteles («Da Geração e da Corrupção»).

 

«Dois tipos de explicação são dados pelos físicos. Os que fizeram uno o corpo subsistente, quer seja um dos três elementos ou uma outra coisa que é mais densa do que o fogo e mais subtil do que o ar, geram tudo o mais por condensação e rarefacção, fazendo assim a pluralidade dos seres... Mas os outros dizem que os contrários se separaram do Uno, estando nele presentes, como afirmam Anaximandro e todos os que admitem a unidade e a multiplicidade, como Empédocles e Anaxágoras: pois também estes separam tudo o mais da mistura.»

Aristóteles («Física»).

 

«Contudo, nem o corpo infinito pode ser uno e simples, quer ele seja, como afirmam alguns, aquilo que existe à margem dos elementos, e donde os fazem nascer, quer ele seja expresso simplesmente. Pois, alguns há que fazem infinito o que existe à margem dos elementos, e não o ar ou a água, por forma a que o resto não seja destruído pela substância infinita destes; é que os elementos opõem-se entre si (por exemplo, o ar é frio, a água, húmida, e o fogo, quente), e se algum destes fosse infinito, o resto já teria sido destruído. Mas, nestas condições, eles dizem que o infinito é diferente desses elementos e que estes provêm dele.»

Aristóteles («Física»).



«Para os que se ocupam do assunto, a crença na existência do infinito resultaria, na maioria dos casos, de cinco factores ... demais, porque só assim a geração e a destruição não deixariam de se verificar, se houvesse uma fonte infinita de que provém o que é gerado.»

Aristóteles («Física»).


«Nem, para que a geração não deixe de se verificar, é necessário a um corpo perceptível ser efectivamente infinito; pois é possível que, sendo limitado o total das coisas, a destruição de uma seja a geração da outra.»

Aristóteles («Física»).

 

«... o infinito não tem princípio ... mas é este que parece ser o princípio das outras coisas, e abarcá-las e dirigi-las a todas elas, como afirmam todos os que não admitem outras causas, como o espírito ou a amizade, acima e para além do infinito. E é isto o divino, por ser imortal e indestrutível, como dizem Anaximandro e a maioria dos fisiólogos.»

Aristóteles («Física»).

 

«De facto, alguns supõem que existe uma única substância, e essa substância supõem uns que é a água, outros o ar, outros o fogo, outros algo mais subtil do que a água e mais denso do que o ar; é ela, no seu dizer, que circunda todos os céus, por ser infinita.»

Aristóteles («De Caelo»).

 


«... uma outra natureza apeiron, de que provêm todos os céus e mundos neles contidos. E a fonte da geração das coisas que existem é aquela em que a destruição também se verifica “segundo a necessidade”; pois pagam castigo e retribuição umas às outras, pela sua injustiça, de acordo com o decreto do Tempo”, sendo assim que ele se exprime, em termos assaz poéticos.»

Simplício

 

«... é que por se não esgotarem no nosso pensamento, não só o número parece ser infinito, como ainda as grandezas matemáticas e o que se encontra fora do firmamento. Mas se o que está fora é infinito, também o corpo parece ser infinito, e bem assim os mundos: pois por que motivo haviam eles de existir mais numa parte do que noutra?»

Aristóteles («Física»).

 

«Pois os que supuseram que os mundos eram em número infinito, como os seguidores de Anaximandro e de Leucipo e Demócrito e, posteriormente, os de Epicuro, supuseram-nos a nascer e a perecer por um tempo indefinido, com alguns deles sempre a nascer e outros a perecer; e diziam que o movimento era eterno.»

Simplício


«É que ele [Anaximandro] pensou que as coisas nasciam não de uma única substância, como Tales pensou que nasciam da água, mas cada uma dos seus princípios particulares. Estes princípios das coisas individuais, acreditou ele, eram infinitos, e geravam mundos inumeráveis e o que quer que nasce neles; e pensou que esses mundos ora são dissolvidos, ora novamente gerados, segundo a idade a que cada um é capaz de sobreviver.»

Santo Agostinho («A Cidade de Deus»).

 

«Acaso o movimento foi alguma vez gerado ... ou nem foi gerado nem é destruído, mas sempre existiu e continuará a existir eternamente, e é imortal e incessante para as coisas que existem, sendo como que uma espécie de vida para todos os objectos naturais? ... Mas todos os que afirmam que há mundos infinitos, e que alguns deles são gerados e outros destruídos, afirmam também que o movimento existe sempre ..., ao passo que todos os dizem que há um só mundo, eterno ou não, formulam uma hipótese análoga acerca do movimento

Aristóteles («Física»).


«Contudo, se existe de facto alguma espécie de movimento natural, não haveria apenas movimento ou repouso forçados; de modo que, se a terra está agora parada à força, também se reuniu no centro devido a ser levada para lá por causa do vórtice. (Pois é esta a causa que todos apresentam, deduzindo-a do que acontece na água e no ar: é que nestes elementos, os objectos maiores e mais pesados são sempre levados para o centro do vórtice). Por isso, todos os que dizem que o céu foi gerado, afirmam que a terra se reuniu ao centro.»

Aristóteles («De Caelo»).

 

«Mas os outros dizem que do Uno se separaram os contrários, que estão presentes nele, como afirmam Anaximandro e todos os que admitem a unidade e a multiplicidade, como Empédocles e Anaxágoras; pois também estes separam tudo o mais da mistura.»

Aristóteles («Física»).

 

«É evidente que ele [Anaximandro], ao ver a mudança recíproca dos quatro elementos, achou bem não fazer de nenhum deles o substrato, mas uma outra coisa à margem deles; e produz a geração não por intermédio da alteração do elemento, mas pela separação dos contrários através do movimento eterno.»

Simplício

 

«Ele diz que o que produz, a partir do eterno, o calor e o frio, se separou, quando da geração deste mundo, e que a partir dele uma espécie de esfera de chamas se formou em volta do ar que circunda a Terra, como a casca em redor de uma árvore. Quando esta esfera estalou e se encerrou em determinados círculos, foi então que se formaram o Sol e a Lua e os astros.»

Pseudoplutarco

 

«Alguns há, como Anaximandro entre os antigos, que afirmam que ela [a Terra] se mantém imóvel devido ao seu equilíbrio. Pois força é que aquilo que está colocado ao centro, e está a igual distância dos extremos, é-lhe impossível mover-se simultaneamente em direcções opostas, pelo que se mantém fixa, por necessidade.»

Aristóteles («De Caelo»).

 

«A Terra está suspensa no ar, sem que nada a segure, mas mantém-se firme pelo facto de estar a igual distância de todas as coisas.»

Hipólito

 

«Os corpos celestes nascem como círculos separados do fogo do mundo, e cercados de ar. Há respiradouros, determinadas aberturas como as da flauta, aos quais aparecem os corpos celestes; consequentemente, os eclipses dão-se, quando os respiradouros são obstruídos. A Lua é vista ora a aumentar, ora a diminuir consoante a obstrução ou abertura dos canais. O círculo do Sol é 27 vezes maior do que <a terra, o da> Lua <18 vezes>; o Sol é o mais alto, e os círculos das estrelas fixas são os mais baixos.»

Hipólito

«Anaximandro [diz que o Sol] é um círculo 28 vezes maior do que a Terra, como a roda de um carro com o aro oco e cheio de fogo, e que deixa ver o fogo num dado ponto, através de uma abertura, como se fosse através da tubuladura de um fole.»

Écio

 

«Anaximandro [diz] que o Sol é igual à Terra, mas que o seu círculo, no qual tem o seu respiradouro e pelo qual é levado em redor, é 27 vezes maior do que a da Terra.»

Écio

 

«Anaximandro [diz que os corpos celestes] são transportados pelos círculos e esferas em que cada um deles se desloca.»

Écio

 

«É que, em primeiro lugar, toda a área em redor da Terra é húmida, mas ao ser enxuta pelo Sol, a parte que é exalada produz os ventos e as revoluções do Sol e da Lua, segundo dizem, ao passo que a que fica é mar; por isso, pensam eles que o mar está efectivamente a diminuir devido ao facto de estar a secar, e que um dia acabará por ficar completamente seco ... desta opinião foram Anaximandro e Diógenes, conforme o relato de Teofrasto.»

Aristóteles («Meteoros»).

 

«Anaximandro disse que os primeiros seres vivos nasceram da humidade, envoltos em cascas espinhosas; e que, com o avanço da idade, se mudaram para a parte mais seca e que, depois de a casca ter estalado, levaram, por um curto espaço de tempo, um género de vida diferente.»

Écio

 

«Demais, ele [Anaximandro] diz que no começo o homem nasceu de seres de uma espécie diferente; porquanto os outros seres em breve se sustentam a si próprios, ao passo que só o homem carece de amamentação prolongada. Por esta razão, ele não teria sobrevivido, se tivesse sido esta a sua forma original.»

Pseudoplutarco

 

«Anaximandro de Mileto pensou que da água e da terra aquecidas surgiram ou peixes ou seres muito semelhantes aos peixes; entre estes se formou o homem, sob a forma de embrião retido dentro deles até à puberdade; quando, por fim, os seres semelhantes a peixes se romperam, deles saíram os homens e mulheres já capazes de se alimentarem.»

Censorino

 

«Os seres vivos geraram-se da humidade evaporada pelo Sol. Inicialmente, o homem era semelhante a um outro animal – isto é, ao peixe.»

Hipólito


«Por isso, eles [os Sírios] adoram também os peixes por serem de uma raça semelhante à sua e com a mesma alimentação. A este respeito filosofam de forma mais adequada do que Anaximandro; porquanto este declara, não que os peixes e os homens foram gerados dentro dos mesmos progenitores, mas que inicialmente os homens foram gerados no interior de peixes, e que depois de aí terem sido criados – como os tubarões – e de se terem tornado capazes de cuidar de si próprios, então saíram deles e ocuparam a terra.»

Plutarco

 

«Anaxímenes de Mileto, filho de Eurístrato, foi discípulo de Anaximandro; alguns há que afirmam que foi também discípulo de Parménides. Disse ele que o princípio material era o ar e o infinito; e que os astros se movem, não por baixo da Terra, mas em redor dela. Empregou a língua iónica, por forma simples e concisa. Segundo afirma Apolodoro, encontrava-se em actividade por ocasião da tomada de Sardes, e morreu na 63.ª Olimpíada.»

Diógenes Laércio

 

«Anaxímenes e Diógenes fazem do ar, e não da água, o princípio material entre os demais corpos simples.»

Aristóteles («Metafísica»).

 

«Anaxímenes de Mileto, filho de Eurístrato, que foi companheiro de Anaximandro, diz ainda, tal como este, que a natureza subjacente é una e infinita, mas não indefinida, como afirmou Anaximandro, mas definida, porquanto a identifica com o ar; e que ela difere na sua natureza substancial pelo grau de rarefacção e de densidade. Ao tornar-se mais subtil transforma-se em fogo, ao tornar-se mais densa transforma-se em vento, depois em nuvem, depois (quando ainda mais densa) em água, depois em terra, depois em pedras; e tudo o mais provém destas substâncias. Ele admite também o movimento perpétuo, e que é também através dele que se verifica a mudança.»

Teofrasto

 

«Anaxímenes ... disse que o ar infinito era o princípio, do qual provêm todas as coisas que estão a gerar-se, e que existem, e que hão-de existir, e os deuses e as coisas divinas, e o resto proveniente dos seres por ele produzidos. A forma do ar é a seguinte: quando ele é muito igual, é invisível à vista, mas é revelado pelo frio e pelo calor e pela humidade e pelo movimento. O ar está sempre em movimento: é que as coisas não mudam, não mudam a menos que haja movimento. Com o aumento da densidade ou da rarefacção, o ar toma diferentes aspectos; pois, quando se dissolve no que é mais subtil, torna-se fogo, ao passo que os ventos são, por sua vez, ar condensado, e a nuvem é produzida a partir do ar por compressão. Quando se condensa ainda mais, produz-se a água; com um maior grau de condensação produz-se a terra, e quando condensado ao mais alto grau, as pedras. Donde resulta que os componentes com maior influência na geração são contrários, a saber, o calor e o frio.»

Hipólito


Representação do universo por Leibniz, segundo a concepção aristotélica dos 4 elementos.

« ... ou como o velho Anaxímenes pensava, não deixemos nem o frio nem o quente como pertencentes à substância, mas como disposições comuns da matéria que sobrevêm às mudanças; é que ele afirma que a matéria, que é comprimida e condensada, é fria, ao passo que a que é rara e “frouxa” (ele emprega precisamente esta palavra), é quente. Por consequência, disse ele, não é despropositado o dito de que o homem exala da boca calor e frio: pois o hálito é arrefecido ao ser comprimido e condensado pelos lábios, mas, quando a boca é afrouxada, o hálito escapa-se e torna-se quente devido à rarefacção. Aristóteles atribui esta teoria à ignorância do nosso homem...».

Plutarco

 

«Depois, Anaxímenes considerou que o ar é um deus, e que é gerado e imenso e infinito e que está sempre em movimento, como se o ar sem forma pudesse ser um deus ... ou a mortalidade não acompanhasse tudo o que nasceu.»

Cícero

 

«Anaxímenes [diz que] o ar [é um deus]: importa entender, no caso de tais descrições, as forças que penetram inteiramente os elementos ou corpos.»

Écio

 

«Ele [Anaximandro] deixou Anaxímenes por seu discípulo e sucessor, o qual atribuiu todas as causas das coisas ao ar infinito, e não negou a existência dos deuses, ou passou sobre eles em silêncio; contudo, acreditou, não que o ar fosse feito por eles, mas que foram eles que surgiram do ar.»

Santo Agostinho («A Cidade de Deus»).

 

« ... e todas as coisas são produzidas por uma espécie de condensação, e depois por rarefacção, dele [do ar]. O movimento existe, de facto, desde todo o sempre; ele diz que, quando o ar se comprime, logo se gera a Terra, a primeira de todas as coisas, completamente plana – por isso, e consequentemente, ela é levada pelo ar; e o Sol e a Lua e os demais corpos celestes têm na terra a origem do seu nascimento. Pelo menos, ele declara que o Sol é terra, mas que, devido à rapidez do seu movimento, obtém calor bastante.»

Pseudoplutarco

 

«Os corpos celestes foram gerados a partir da terra pela exalação que dela se ergue; quando a exalação se rarefaz, origina-se o fogo, e é do fogo, elevado até às alturas, que se compõem as estrelas.»

Hipólito

 

«Anaxímenes e Anaxágoras e Demócrito dizem que a forma plana [da Terra] é responsável pela sua estabilidade: é que ela não corta o ar que está por baixo dela, mas cobre-o como uma tampa. É esse evidentemente o comportamento dos corpos achatados; pois são difíceis de mover, até mesmo pelos ventos, devido à sua resistência.»

Aristóteles («De Caelo»).

 


«A Terra, sendo plana, é transportada pelo ar, e semelhantemente o Sol, a Lua e os outros corpos celestes, todos eles ígneos, são levados sobre o ar graças à sua configuração plana.»

Hipólito


«Anaxímenes diz que os corpos celestes são de natureza ígnea, e que têm entre eles alguns corpos térreos, invisíveis, que giram juntamente com eles.»

Écio

 

«Anaxímenes diz que os corpos celestes efectuam as suas revoluções sob o impulso do ar condensado e que a eles se opõe.»

Écio

 

«Anaxímenes diz que os astros estão implantados, como pregos, no cristalino; mas alguns há que afirmam serem eles folhas ígneas como pinturas.»

Écio

«Anaxímenes diz que o Sol é plano como uma folha.»

Écio

 

«Diz ele que os corpos celestes não se movem por baixo da Terra, como outros supuseram, mas em redor dela, precisamente como um gorro de feltro roda à volta da nossa cabeça; e que o Sol se esconde, não por estar debaixo da Terra e pelo aumento da distância que dele nos separa.»

Hipólito


«Muitos dos antigos astrónomos estavam convencidos de que o Sol não é levado por baixo da Terra, mas em redor dela e desta região; e que ele obscurece e dá origem à noite, devido ao facto de a Terra se elevar em direcção ao norte.»

Aristóteles  («Meteoros»).

«Dizia (...) Hegel que “a filosofia é filha do tempo”, mas com a condição de ultrapassar os limites do seu tempo ou de neles encerrar todos os tempos passados e futuros. O que Heidegger nos afirma é, porém, que, sistema da vontade, o hegelianismo é bem a filosofia de um tempo que não ultrapassou e nele encontra seus bem demarcados limites. E propõe que o filósofo, em vez de hegelianamente assumir todo o pensamento até ele pelos homens pensado, antes se despoje de tudo o que foi pensado ao longo dos tempos e reverta àquela origem – de que parece ver mais próximos os pré-socráticos – onde o saber da verdade, ou a mesma verdade, terá tido porventura uma expressão imediata.»

Orlando Vitorino  («Refutação da Filosofia Triunfante»).

«A lógica foi tradicionalmente considerada como arte de pontificar do mundo sensível para o mundo inteligível; mais tarde decaiu em discussão pública da verdade e falsidade nas proposições humanas; por fim foi considerada como ciência das leis do pensamento ou, mais restritamente, como deontologia do pensamento científico. Esta decadência do logos e da lógica, desde o alto significado que ostenta nas palavras de Heraclito, até à insignificância em que é tida pelas mais novas escolas positivistas, comprova a parte de verdade que existe na lei dos três estados. Se a lógica foi perdendo a significação e diminuindo de valor na sucessão das escolas filosóficas, não nos devemos admirar de que não apareça mencionada na classificação das ciências de Augusto Comte ou que reapareça na qualidade de capítulo da sociologia.

Esquecida a intenção metafísica dos estudos lógicos, chegaram alguns pedagogistas a crer que ensinar as leis da lógica ao estudante que escreve e pensa seria tão inútil como ensinar as leis da gramática ao homem que fala correctamente a sua língua. Argumenta-se que o adolescente cultivará a lógica no estudo das diversas ciências a que aplicar o seu pensamento, na grande escola das matemáticas, sem ter que passar pela aprendizagem estéril dos modos e das figuras do silogismo. Diz-se, por fim, que a lógica de Aristóteles, outrora ensinada pelos escolásticos, não é hoje mais do que um capítulo, ou caso particular, da lógica moderna, – tal como se encontra exposta nas obras de Bertrand Russell, dos seus continuadores e admiradores.»

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).

 

«Foi na “Ciência da Lógica”, de Hegel, que culminou a tentativa iniciada por Kant para a formação de uma lógica adequada às ciências modernas. Mas os cientistas já estavam possessos do orgulho que lhes suscitaram os êxitos obtidos no domínio das forças das natureza e “ignoraram” a genial façanha de Hegel. Quando, mais tarde, esse orgulho começou a ver-se abalado pela previsão das finalidades a que tais êxitos unicamente conduziam e, num certo esforço de reflexão, reconheceram o que hoje designam por “crise dos fundamentos da ciência”, os pensadores científicos esboçaram um “regresso a Kant” mas nunca apelaram para a lógica de Hegel. O mesmo “regresso a Kant” depressa foi abandonado. Onde a ciência moderna sempre depositou as suas esperanças foi na matemática, em vão confiando que ela lhes forneceria a fundamentação que a lógica aristotélica assegura à ciência clássica. Isso explica as sucessivas tentativas para fazer da matemática uma lógica: a dos positivistas do Círculo de Viena, a de Bertrand Russell e Alfredo N. Whitehead, com os famosos “Principia Mathematica”, e, mais recentemente, as de T. Kuhn e de Karl Popper, este com a sua “Lógica da Descoberta Científica”. Dentre os responsáveis por estas vãs tentativas, apenas Whitehead abandonou a via de nenhures em que todas elas inevitavelmente se perdem, não hesitando em reconhecer, nessa obra-prima do pensamento científico que é “A Ciência e o Mundo Moderno”, que a ciência ainda não conseguiu dar resposta à crítica de David Hume. Quem mais claramente enunciou a questão a que todas essas tentativas tentam dar resposta foi Karl Popper: “Qual o critério a aplicar para avaliar a cientificidade de uma qualquer proposição?” O leitor encontra, no texto que está lendo, o que esta questão pode logicamente significar.

Ao longo deste processo, há uma constante: o ataque à lógica aristotélica. Mas é impressionante como esses valentes combatentes ignoram aquilo que combatem. Um exemplo de tal ignorância é o insulto galhofeiro, mas muito apreciado, de William James quando, depois de reduzir a teoria do silogismo a um jogo de palavras, julga poder anatematizá-la dizendo que “a palavra cão não morde”. Outro exemplo é a frequente repetição de determinações aristotélicas traduzidas em vazia linguagem matemática como acontece quando Bertrand Russell, a propósito da quadratura do círculo, não faz mais do que anunciar, mas como sendo uma original descoberta sua ou só possível à sua lógica matemática, o princípio de não-contradição, dizendo: “não existe um x tal que seja ao mesmo tempo quadrado e redondo”».

Orlando Vitorino («Exaltação da Filosofia Derrotada»).


«Beltrão Russell chegou a afirmar que os gregos inventaram a matemática além da ciência e da filosofia, não obstante reconhecer que a aritmética e a geometria já existiam entre os egípcios e babilónios, pese embora com regras práticas, ficando assim o raciocínio dedutivo, extraído de premissas gerais, como algo resultante duma inovação grega. O logicista e matemata inglês afirmara ainda, curiosamente, que a "matemática, no sentido de demonstração dedutiva, começa com [Pitágoras] e nele se liga intimamente com uma forma peculiar de misticismo", de modo que a “influência da matemática na filosofia, que em parte se lhe deve, foi desde então ao mesmo tempo profunda e pouco feliz” [in História da Filosofia Ocidental]. Contudo, já a demonstração em Aristóteles tivera uma procedência filosófica em virtude do silogismo no descobrimento das causas e dos princípios das coisas como sendo o que são independentemente da sua simples definição.

Supõem os princípios, na arte silogística, uma consonância com o demonstrado, não somente em termos duma estrita e necessária coerência formal do raciocínio, que o mesmo é dizer do silogismo formalmente correcto no domínio das inferências ou regras de dedução válida, mas também, e, sobretudo, nos termos imprescindíveis duma ciência arreigada em premissas primeiras e verdadeiras que permitam distinguir o silogismo científico do silogismo dialéctico caracterizado por um tipo de argumentação provável, posto que fundada em opiniões que parecem mais aceitáveis a todos, ou à maioria, ou aos mais conhecedores dos homens conceituados [numa palavra: endoxa (ἔνδοξα)]. Daí, pois, se compreende que, não obstante a preexistência de vários discursos retóricos e antigos tratados afins, o Estagirita viesse a ser o descobridor, além do primeiro sistematizador do silogismo em torno do qual gravitam todos os elementos de lógica aristotélica, podendo ainda levantar-se a questão de saber se a componente matemática de alguma forma veio a influir na terminologia usada no estabelecimento das figuras (schemata) e modos silogísticos, sem, no entanto, aqui esquecermos como os tratados clássicos de lógica, ou ainda alguns dos mais recentes manuais sobre as leis lógicas do pensamento, resultaram, em boa medida, de reelaborações posteriores, sobretudo medievais, de alguns elementos colhidos na analítica ou resolução silogística de Aristóteles.

Sabemos, entretanto, como no actual sistema de ensino público predomina, de harmonia com o método neopositivista, o cálculo lógico operatório enquanto instrumento normativo, senão mesmo valorativo do que mais convém às várias áreas ou disciplinas científicas do nosso tempo. Importante é, aliás, relembrar que o chamado cálculo lógico, que deu lugar à lógica matemática, ou mais particularmente à logística, fora inicialmente potenciado a partir da silogística com base na ampliação e tecnificação de uma parte da lógica escolástica, para depois se vir a desenvolver, com a quantificação dos termos e a redução da estrutura lógicaoperações constituídas por símbolos e não por palavras, numa disciplina estritamente formal delineada pelos trabalhos de Gottlob Frege (1848-1925) e Bertrand Russell (1872-1970). Deste modo, uma vez formulada a intenção de afastar qualquer possibilidade, por mais remota que fosse, de um retorno à verdadeira lógica de Aristóteles, em virtude de ser, inclusive, uma lógica mais geral e simples do que a dos escolásticos medievais e modernos, eis, então, que à logistificação das ciências, operada segundo o ideal prático da modernidade, sucedera, alfim, a matematização das ciências, assim se estabelecendo a semelhança superficial da lógica moderna com a matemática moderna.




Se bem que a semelhança da matemática com a lógica tenha já sido relativamente estabelecida pelo Estagirita, a verdade é que a ilusão de que a matemática possa servir de modelo à filosofia propriamente dita, proveio, em grande medida, do catalão Raimundo Lúlio e do germânico Gottfried Leibniz. Não é, pois, de estranhar que os actuais manuais da disciplina escolar que alegadamente se ocupa da filosofia como uma actividade crítica, rigorosa e imparcial, se encontrem praticamente destituídos de noções para o gradual domínio da lógica formal tradicionalmente dividida em três partes, a saber: lógica do conceito, do logismo e do raciocínio. Ora, à partida simplificando a lógica em argumentos dedutivos e não-dedutivos com vista a avaliar, respectivamente, ora a sua validade / invalidade, ora a sua provável ou implausível veracidade, aqueles manuais já só permitem incutir no jovem estudante um movimento analítico que levou ao extremo a redução do discurso à expressão mais simples, eliminando a gramática, a retórica e a dialéctica propriamente ditas, para por fim abrir campo ao domínio da chamada lógica proposicional, cuja extreme formalização já de si elimina, ao esvaziar de conteúdo verbal proposições e argumentos por meio de operações de simbolização unívocatodo um articulado sistema de letras, palavras e conceitos que, classicamente atreito à reunião ou à aproximação de dois ou mais logismos – numa palavra, o silogismo –, decaiu fundamentalmente com os medievais num sistema de mecânicas combinações e permutações, como o já preconizado pela escolástica no tratamento dado aos modosfiguras do silogismo.

Contudo, assaz significativa foi a afirmação alvarina, ainda hoje sobranceiramente desprezada no meio académico, de que em "Portugal vigorou, durante séculos, a lógica aristotélica". E quanto ao mais, conclui ainda Álvaro Ribeiro:

"Depois de o nome de Aristóteles haver sido proscrito do ensino público, nunca mais se desenvolveram entre nós os estudos lógicos. A lógica continuou a ser uma parte da filosofia, e como tal ensinada nos compêndios vários que foram sucessivamente aprovados e reprovados pelas entidades que exercem administração sobre os assuntos de ensino. Não se publicou obra notável de conjunto sobre a gramática, a retórica e a dialéctica, e reduzido é o número de monografias sobre quaisquer problemas de menor interesse escolar. Nos últimos tempos, por motivos alheios à actividade filosófica, dedicaram-se alguns publicistas a divulgar a álgebra lógica e a logística sem grande influência sobre os meios mais interessantes da cultura" (cf. Álvaro Ribeiro, Dispersos e Inéditos, III (1961-1981), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005, p. 324)».

Miguel Bruno Duarte

 


Escola de Mileto 

Em todos os compêndios de história da filosofia o que primeiro se diz é que ela começou com Tales, que dizia ser tudo feito de água. Isto desanima o principiante, que se esforça – talvez sem grande energia – por sentir pela filosofia aquele respeito que o curriculum parece esperar. Há no entanto ampla razão de respeitar Tales, embora talvez mais como homem de ciência do que como filósofo, no sentido moderno da palavra.

Tales nasceu em Mileto, na Ásia Menor, florescente cidade comercial com grande população escrava e uma dura luta de classes entre pobres e ricos da população livre. «Em Mileto o povo, primeiro vitorioso, matou as mulheres e os filhos dos aristocratas; depois os aristocratas venceram e queimaram vivos os adversários, iluminando espaços livres da cidade com tochas vivas»[1]. Assim era na maior parte das cidades da Ásia Menor no tempo de Tales.

Mileto, como outras cidades comerciais da Jónia, desenvolveu-se muito económica e politicamente nos séculos VII e VI. De começo o poder político pertencia a uma aristocracia terratenente, gradualmente substituída por uma oligarquia de mercadores. Estes, por sua vez, foram substituídos por um tirano, elevado ao poder (como é costume) pelo apoio do partido democrático. O reino da Lídia ficava a leste das cidades costeiras gregas, com quem manteve relações de amizade até à queda de Nínive (606 a. C.). Isto deu liberdade à Lídia para voltar as atenções para oeste mas Mileto conseguiu manter as boas relações com Creso, último rei da Lídia, conquistada por Ciro em 546 a. C. Houve também importantes relações com o Egipto, onde o rei dependia de mercenários gregos e abrira algumas cidades ao tráfico grego. A primeira instalação grega no Egipto foi a guarnição milésia de um forte; mas a mais importante foi Daphnae. Ali se refugiaram Nebuchadrezzar Jeremias e muitos outros judeus fugitivos (Jeremias, XLIII 5 e seg.); mas ao passo que o Egipto indubitavelmente influenciou os gregos, os judeus não, nem podemos supor que Jeremias sentisse senão horror perante os cépticos jónios.

Quanto à data de Tales, o melhor testemunho, como vimos, é ele ter sido famoso por anunciar um eclipse que segundo os astrónomos deve ter-se dado em 585 a. C. Outros testemunhos concordam com este. A predição não é prova de génio extraordinário. Mileto era aliada da Lídia, que tinha relações culturais com a Babilónia, e os astrónomos babilónios tinham descoberto a volta dos eclipses num ciclo de cerca de dezanove anos. Podiam predizer eclipses da Lua com êxito completo mas quanto aos do Sol havia a dificuldade de um eclipse poder ser visível num lugar e não em outro. Portanto podiam apenas dizer que em tal ou tal data era de esperar um eclipse e isto é provavelmente o que Tales sabia. Nem ele nem eles sabiam porque era este o ciclo.

Diz-se que Tales viajara no Egipto e de lá trouxera aos gregos a ciência da geometria. O que os egípcios sabiam de geometria eram apenas regras práticas e não há razão para supor que Tales tivesse chegado a provas dedutivas, como os gregos mais tarde descobriram. Parece ter descoberto como calcular a distância de um navio no mar, por observação desde dois pontos da terra, e como avaliar a altura de uma pirâmide pelo comprimento da sombra. Atribuem-se-lhe muitos outros teoremas, provavelmente sem fundamento.

Foi um dos sete sábios da Grécia; cada um deles ficou conhecido por uma sentença sábia; a sua, que deve ser um erro, foi «a água é o melhor».

Segundo Aristóteles ele pensava que a água era a substância original de onde todas as outras provinham, e mantinha que a Terra repousa sobre a água. Aristóteles diz também que ele atribuía uma alma ao magnete porque move o ferro; além disso, que todas as coisas estão cheias de deuses[2].

A afirmação de que tudo é feito de água deve considerar-se uma hipótese científica e de modo nenhum louca. Há vinte anos admitia-se que tudo é feito de hidrogénio, que é dois terços de água. Os gregos eram audaciosos nas hipóteses, mas a escola de Mileto pelo menos estava preparada para verificá-las empiricamente. Sabe-se muito pouco de Tales para poder reconstituí-lo satisfatoriamente, mas sabe-se muito mais dos seus sucessores em Mileto, e é razoável supor que algumas coisas provêm dele. A sua ciência e a sua filosofia eram imperfeitas mas estimulavam tanto o pensamento como a observação.

Há muitas lendas a respeito dele mas não creio que se conheça mais do que os poucos factos mencionados. Algumas são divertidas como a referida por Aristóteles na Política (1259, a). «Era censurado pela sua pobreza, que parecia mostrar a inutilidade da filosofia. Conta-se que ele soube ainda no inverno, pelo seu conhecimento dos astros, que haveria no verão seguinte grande colheita de azeitonas. Então alugou por baixo preço todos os lugares de Quios e de Mileto, porque ninguém licitou contra ele. Chegada a colheita, todos os queriam e com pressa, de modo que os cedeu ao preço que quis e ganhou muito dinheiro. Assim mostrou que os filósofos podem enriquecer facilmente se quiserem, mas que têm outras ambições.»

Anaximandro, o segundo filósofo milésio, é muito mais interessante do que Tales. Diz-se que tinha sessenta e quatro anos em 546 a. C. e há razões para supor a data bastante aproximada. Considerava todas as coisas provenientes de uma substância prima, mas não a água, como pensara Tales ou qualquer outra substância conhecida. É infinita, eterna e intemporal e «encerra todos os mundos», porque ele pensava ser o nosso mundo um entre muitos. A substância prima transformou-se nas várias que conhecemos e estas transformam-se umas nas outras. A este respeito formulou uma proposição notável e importante:

«Dentro daquilo de onde as coisas provêm, dissipam-se mais uma vez, como está ordenado, porque dão reparação e satisfação umas às outras pela sua injustiça, de acordo com a disposição do tempo.»

A ideia de justiça, simultaneamente cósmica e humana, tomava uma parte hoje difícil de compreender na religião e na filosofia gregas; a nossa palavra «justiça» dificilmente exprime esta ideia, mas não se encontra outra preferível. O pensamento expresso por Anaximandro parece ser este: deve haver certa proporção de terra, fogo e água no mundo, mas cada elemento (concebido como um deus) tenta constantemente alargar o seu império. Mas há uma necessidade ou lei natural que permanentemente restabelece o equilíbrio; onde houve fogo, por exemplo, há cinzas que são terra. Esta concepção de justiça – de não ultrapassar limites eternamente fixados – é uma das mais profundas crenças gregas. Os deuses estavam sujeitos à justiça como os homens, mas este supremo poder não era pessoal e não era um deus supremo.

Anaximandro tinha um argumento para demonstrar que a substância prima não podia ser a água ou qualquer elemento conhecido. Se algum o fosse conquistaria os outros. Aristóteles refere que ele considerava os elementos conhecidos em oposição uns com os outros. O ar é frio, a água é húmida, o fogo é quente. «Portanto, se um deles fosse infinito, o resto já teria deixado de existir». A substância prima deve portanto ser neutral na luta cósmica.



Houve um movimento eterno a que se deve a origem dos mundos; os mundos não foram criados como na teologia judaica ou cristã, mas evolveram. Houve evolução até no reino animal; os seres vivos provieram de elemento húmido, quando evaporado pelo Sol. O homem, como outros animais, descende dos peixes. Provém de animais de espécie diferente, porque, dada a sua longa infância, não teria sobrevivido tal qual é.

Anaximandro era cheio de curiosidade científica. Diz-se ter sido o primeiro homem que fez um mapa. Considerava a Terra de forma cilíndrica. Refere-se que julgava o Sol, segundo uns do tamanho da Terra, segundo outros vinte e sete ou vinte e oito vezes maior.

Onde é original é científico e racionalista.

Anaxímenes, último da tríade milésia, não é tão interessante como Anaximandro mas trouxe algumas ideias importantes. A data é incerta. Ulterior a Anaximandro, viveu antes de 494 a. C. Pois nesse ano Mileto foi destruída pelos persas na repressão da revolta jónica.

A substância prima, segundo ele, é o ar. A alma é ar; o fogo, ar rarefeito; condensado, torna-se primeiro água, depois terra, finalmente pedra. Esta teoria tem o mérito de considerar quantitativas todas as diferenças e dependentes inteiramente do grau de condensação.

Atribuiu à Terra a forma de disco, cercado pelo ar. «Assim como a nossa alma, que é ar, nos mantém constantemente, assim a respiração e o ar envolvem todo o mundo.» Crê que o mundo respira.

Anaxímenes foi mais admirado na antiguidade do que Anaximandro, embora modernamente a apreciação seja oposta. Influiu muito em Pitágoras e na especulação ulterior. Os pitagóricos descobriram que a Terra é esférica, mas os atomistas aderiram à concepção de Anaxímenes, da forma de disco.

A escola de Mileto é importante não pelo que conseguiu mas pelo que tentou. Proveio do contacto do espírito grego com Babilónia e o Egipto. Mileto era uma rica cidade comercial, onde as superstições e os prejuízos primitivos se atenuavam pelo contacto com muitas nações. A Jónia até ser subjugada por Dario, no começo do século V, era a parte culturalmente mais importante do mundo helénico. Quase indemne ao movimento religioso ligado com Diónisos e Orfeu, a sua religião era olímpica mas não parece ter sido tomada muito a sério. As especulações de Tales, Anaximandro e Anaxímenes devem considerar-se hipóteses científicas e raro mostraram intrusão de desejos antropomórficos e ideias morais. As questões postas eram justas e o seu vigor inspirou investigadores subsequentes.

A fase imediata da filosofia grega ligada às cidades gregas do Sul da Itália é a mais religiosa e em particular mais órfica – em alguns aspectos mais interessante, admirável na realização, mas em espírito menos científica do que a dos milésios.

(In História da Filosofia Ocidental, Relógio d’Água, 2017, pp. 44-47).



Brasão de armas de Beltrão Russell



[1] Rostovseff, History of the Ancient World, Vol. I, p. 204.

[2] Burnet (Early Greek Philosophy, p. 51) discute esta afirmação.