Escrito por Eudoro de Sousa
«Julga
o vulgo – e este juízo do vulgo é acolhido até por teorizadores da reforma do
ensino universitário – que a filologia consiste no mero estudo das línguas,
mortas ou vivas, segundo uma tendência predominantemente analítica que se detém
perante os inertes elementos gramaticais. As respeitáveis figuras do jornalista
Cândido de Figueiredo e do professor Epifânio da Silva Dias ilustram o tipo do
filólogo português que continua a apresentar semelhantes exemplares ao mundo
contemporâneo. É claro que o escritor autêntico, aquele que de algum modo é
criador de nova expressão e de novo estilo pela virtude secreta da
originalidade pensante, marcará uma atitude quase hostil para com o filólogo
que se mantém na classificação torturante e dissolvente do idioma registado
pela escrita. As Faculdades de Letras oficializam e estabelecem esta posição:
admitem que ao lado de cadeiras de filologia haja cadeiras de literatura, para
que numas e noutras se possam sentar os representantes de tendências
antagónicas. Subtis expressões de ironia ocultam uma discórdia latente.
A
conciliadora verdade é que a filologia não se define no estudo analítico da
língua. A filologia percorre todas as expressões orais, escritas, ou de outro
modo figuradas, em que se afirma o espírito de cada povo. O filólogo estuda a
arqueologia, as artes plásticas, o culto, as instituições políticas, as
ciências, a filosofia; o filólogo pretende compreender o logos, caminha do particular para o total, ou, melhor, para o
universal.
Há, efectivamente, o preconceito de que pelo estudo da língua se encontra a chave da civilização; mas este preconceito não justifica que o filólogo fique sempre à porta, ou na fronteira, por moroso e difícil que seja o estudo gramatical.»
Álvaro Ribeiro («Faculdade de Filologia», in Dispersos
e Inéditos, I, 1921-1953).
«Congratula-se
o autor por o destino o haver dado a esta tão deslumbrante língua portuguesa.
Foi ela uma língua singular na história da civilização que ainda predomina no
mundo. Porque só aprendem a significação de seus termos e combinações os que
têm o saber imediato de os referir aos étimos e paradigmas latinos, o português
é, mais do que uma língua românica ou derivada, um dialecto do latim, como o
castelhano, o italiano e o francês. Contém, todavia, expressões sintácticas,
morfológicas e fonéticas que permitem ligá-lo directamente ao grego, ao hebreu
e ao árabe, e até, numa concepção que faça derivar as línguas umas das outras,
defender a tese de que sua origem não está no latim. Foi, entre todas as
línguas europeias modernas, a que primeiro alcançou uma perfeita capacidade
descritiva (Fernão Lopes é anterior a Froissart) e a mais difícil capacidade
conceptiva (D. Duarte é o primeiro filósofo que escreve em vernáculo); só na
expressão poética foi precedida pelo italiano, com Dante e Petrarca antes de Camões.
Contém, ao mesmo tempo, a maior riqueza de vocábulos entre todas as línguas, e
os fonologistas observam que só o inglês se lhe pode comparar na variedade de
sons e articulações. Primeira língua, portanto, a atingir na Europa moderna a
plenitude da expressão, vai também ser a primeira a extinguir-se. Ao
aproximar-se agora o seu fim, reúne nestes últimos breves decénios – como
aconteceu na Grécia e porque “a ave de Minerva levanta voo ao anoitecer” – os
seus mais poderosos filósofos e poetas: Bruno, Leonardo e José Marinho,
Pascoaes, Pessoa e Régio. Com a recente morte do último filósofo e do último
poeta, os portugueses perdem também a última guerra que travaram, vêem as suas possibilidades de sobrevivência desfeitas às mãos dos movimentos colectivistas internos e internacionais, e a demência social e política é a consequência
imediata da perversão da linguagem. As palavras, adulterado o sentido que
tinham, já apenas servem para designar objectos materiais, coisas, sentimentos
negativos e apelos ao ódio. Deixam, dia após dia, de ser palavras, para serem
apenas sinais e estandartes. E acabando por ficar impotente para exprimir
estados de espírito e estados de alma, pensamentos e sentimentos, o português
já é, de facto, uma língua morta. Como o latim e como o grego. O que dela ainda
irá perdurando durante algum tempo será apenas o vozear babélico de uma
multidão que, tendo perdido a variedade que mantém vivos os povos, ainda vai
precisando de recorrer aos vocábulos utilitários e comunicativos enquanto se não
dissolve de todo na uniformidade e na informidade a que irreversivelmente se
dirige.
Escrever e falar uma língua que, ainda usada como viva já é de facto uma língua morta, constitui, para o dramaturgo e para o actor, a oportunidade, jamais tida por outros homens com a consciência de a terem, de escreverem e falarem como clássicos. O que significa e vale isso de falar a língua morta dos clássicos, souberam-no durante mais de mil anos os sacerdotes que acreditaram na revelação de Deus em palavras sagradas que todos os dias repetiam celebrando o culto em latim; e sabia-o também o autor do “Leviathan” que abolia das escolas o ensino dos clássicos por instilarem eles nos homens o espírito de liberdade.»
Orlando Vitorino («Tongatabu e Nem Amantes Nem Amigos»).
«A
missão sedentária da filologia é completamente falsa. Estranho é, porém, que o
escol português não conceba de outro modo a actividade filológica. Nos séculos
em que a Europa Central aperfeiçoou o método analítico de que abusou até às
consequências dissolventes, o povo português voltava a sua atenção para os
povos distantes que procurou compreender, operando segundo os desígnios do
espírito universal. Como se explica, senão pelo estranho que é, o retrocesso
agora projectado na dimensão espiritual.
A
actividade filológica mobiliza simultaneamente uma série de disciplinas
auxiliares e exerce-se num plano inclinado de difícil ascensão. Tanto basta
para considerar os estudos filológicos de classe universitária e para
justificar a constituição de uma faculdade autónoma.
A
Faculdade de Letras não pode ministrar satisfatoriamente o ensino da filologia,
da filosofia, da pedagogia, da história e da geografia. Conveniências de
administração interna e de finalidade externa sacrificam todos os cursos a
determinações que, por comuns, alteram as directrizes particulares. Na medida
em que, por esclarecimento dos problemas, for o escol compreendendo que
necessita de renovada cultura portuguesa, esta afirmação, que por agora parece
de difícil demonstrabilidade, será confirmada pelas próprias exigências do
ensino.
A
transformação da complexa Faculdade de Letras em simples e perfeita Faculdade
de Filologia parece o acto mais indicado pela economia de esforços
administrativos. Ganhará imediatamente com nova denominação, tão prestigiante
como significativa, aquela escola que – não sem motivo – o vulgo considera de
duvidosa utilidade. Libertar-se-á de funções que essencialmente não lhe
competem, mas a que se tem encontrado ligada por uma tradição contingente.
A Faculdade de Filologia, despertando nos estudiosos portugueses a compreensão dos outros povos e do espírito universal a que todos, por vários modos, têm obedecido, será um factor de cultura cujos benefícios a imaginação moderna dificilmente pode avaliar.»
Álvaro Ribeiro («Faculdade de Filologia», in Dispersos e Inéditos, I, 1921-1953).
«Se
escutou as minhas palavras, o estudante que hoje inicia o seu curso na Faculdade
de Filosofia, perguntará, naturalmente: “Para
que serve todo esse discorrer?” “Que utilidade poderei extrair de semelhante
conhecimento?”
A
mesma pergunta, sem dúvida, formularão outros, que venham escutar as aulas de
um professor que rompe, em momentos de entusiasmo, a disciplina do programa,
para expor os seus princípios originais e renovadores, acerca da interpretação
dos nomes de pessoas; ou as daquele que abre com palavra exacta e pensamento
rigoroso, larga brecha na tremenda muralha do já dito e já escrito, e propõe a sua hipótese acerca de Camões ou Fernão
Lopes; ou as daquele que, a golpes de engenho exercido e disciplinada fantasia,
arranca novas ideias acerca da origem das nossas instituições, ao tenebroso
passado dos povos antigos e ao imóvel presente dos povos atrasados ou ainda,
dos que se esforçam por demonstrar a perene validez e a eterna veracidade de certo
sistema filosófico, ou por reconstituir, passo a passo, a vida política,
literária e artística de todos os povos e nações das cinco partes do mundo, ou,
enfim, dos que revolvem e removem a superfície e âmago do nosso planeta, em busca
da solução de problemas que são fundamentais (“fundamentais” no étimo sentido
da palavra) para o renunciado e resolução de outros problemas que surgem nos
demais sectores do saber.
Mas,
tal pergunta não se fará, quanto às outras Faculdades; e não se fará, porque a
finalidade, a utilidade imediata dos respectivos cursos está claramente
definida: Direito serve, Medicina serve, Farmácia serve, Ondologia serve,
Ciências Económicas servem – todas servem
para alguma coisa, cuja natureza não se exprime em termos vagos, mas em
conceitos bem determinados por “notas” afectadas de alto coeficiente
valorativo.
A
pergunta faz-se em Filosofia. E, em resposta, não seria impossível, nem sequer
difícil, reunir argumentos a favor do serviço que prestam as disciplinas que
professamos, esmaltá-los de floreada retórica, confiando à arte da palavra o
mister que cumpre ao rigor do pensamento. Só que, estou certo, nenhum desses
argumentos poderia ganhar acordo unânime: a qualquer um, outro se oporia, de
tanto ou maior valor comprobatório e persuasivo, em contra a tese da
utilidade, relativamente à utilidade dos cursos ministrados nas outras Escolas.
Com efeito na categoria do útil, na perspectiva da utilidade, quando não se
entende bem o que seja filosofia e o que seja ciência, os filósofos sairão
sempre vencidos, em competição com os cientistas.
Não
será possível desatar este nó?
Quando
um nó é difícil, ou parece impossível de desatar, sempre haverá o histórico ou
anedótico expediente de Alexandre: cortá-lo de um só golpe. Por conseguinte, se
me perguntassem para que servem os cursos da Faculdade de Filosofia, eu
responderia resolutamente, decididamente: “Não
servem para nada!” Mas, logo acrescentaria: “precisamente em ‘NÃO SERVIREM’, é que reside o seu valor, valor que,
desta vez, é absoluto, porque incomparado.”
Tal é, Senhoras e Senhores, Colegas e Alunos, a conclusão desta aula, que também poderia intitular-se “Elogio do saber inútil”».
Eudoro de Sousa («Relações pré-históricas e proto-históricas entre a Grécia e o
Oriente à luz das últimas descobertas arqueológicas», in Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos).
«”Letras são tretas”, diz-se vulgarmente; e este dito teve já a consagração do escol, quando alguns escritores, ou letrados, compreendendo bem a anomalia universitária, se opuseram à multiplicação excessiva dessas escolas heterogéneas.»
Álvaro Ribeiro («Faculdade de Filologia», in Dispersos e Inéditos, I, 1921-1953).
«A
solução imediata, e há muito estabelecida como imediata no que, de pragmático,
as expressas críticas ao ensino implicam, é a extinção das instituições escolares, como são as escolas primárias, os liceus e as universidades clássicas,
que se dedicam à formação daquela consciência que relaciona o indivíduo com o
Estado ou a sociedade no plano das finalidades universais: na escola primária, a
relação do ensino da língua com a existência da pátria e do povo; no liceu, a
relação do ensino das ciências naturais e históricas com a evolução do homem;
na universidade, a relação entre a liberdade, a propriedade e o direito, ou
entre o conhecimento científico e a civilização, ou entre a cultura e a
filosofia. Formular-se-iam, depois, a doutrinação e a ideologia referentes à
sociedade e à pátria, isto é, determinar-se-iam, em termos universais e
concretos, os fins do Estado para, finalmente, se entregar a substituição das
instituições extintas à abertura e individual iniciativa dos homens cultos, se
não dos sábios, dos filósofos e dos santos.
Nada,
porém, se poderá realizar enquanto o Estado, e com ele a sociedade, estiver a ser
dilacerado por uma contradição mortal: por um lado, abandonam-se completamente
à iniciativa e ao arbítrio dos indivíduos (que, no calão jurídico, recebem o
nome, em nenhum outro caso tão acertado, de particulares),
alimentando e até expressamente estimulando os interesses pessoais e os
instintos egoístas, abandonam-se-lhes os meios de realização da justiça, os
instrumentos da produção da riqueza, da aplicação do esforço, que são o domínio
na necessária igualdade social, dos uniformes direitos do trabalhador e da produção, da imanente comunhão de interesses e exigências vitais. Por outro
lado, o Estado, mediante o autoritarismo de instituições – as de ensino, de
censura, de subvenção às artes, etc. –, regula, limita e uniformiza os meios de
desenvolvimento da liberdade, de comunicação dos princípios universais, de
pensamento da realidade, que são o domínio onde é indispensável reconhecer,
admitir e defender a singular autonomia de cada individualidade em todos os
seus momentos e fases, mesmos os de contradição, de dialéctica e até de
oposição, com isso criando um mecanismo do ensino, da opinião e da educação
que, além de ser um obstáculo à universal consciência de si, personaliza os
indivíduos nas máscaras mais fictícias, repudia os pensadores e os mestres,
funcionaliza os escritores e os leitores, burocratiza os professores e os alunos, os jovens, os adolescentes e as crianças.
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Em
virtude de certas condições ancestrais e atávicas (que muitos confundem com
tradicionalismo), em virtude de certa índole, ou trabalhada conformação com a
dor e o sofrimento (que muitos confundem com o destino), ou em virtude de um
esquecimento de si na acção irreflectida (que muitos confundem com aventura) –
o Português só em nossos dias parece começar a substituir a natural exigência
ou o simples anseio de liberdade pelo efectivo pensamento dela, pensamento de que
espera futura expressão política de onde promane, para cada indivíduo, não
tanto a liberdade como a libertação.
A
liberdade é algo de positivo e de uma infinitude sem a qual não é ou nada é.
Ora os doutrinadores que aos Portugueses têm falado de liberdade ou que para
eles têm lutado e até morrido pela liberdade, como aconteceu durante quase todo
o século que passou, desde as guerras liberais até à I República, fazem-no de
uma liberdade que, ao ser afirmada positivamente, logo aparece limitada pelas
instituições, pelas exigências do governo, pelas carências sociais, pela
relação de cada um a cada um. Quer dizer: a efectividade ou a razão aparece
como algo que, de fora, limita a liberdade no mesmo processo de a assegurar na
existência de cada um e de todos dentro da vida social, estatal ou política.
Foi e é comum afirmarem tais liberalistas que a liberdade de cada indivíduo tem
de respeitar, aí se quedando a liberdade de cada outro; e como cada outro se
multiplica infinitamente, a liberdade de cada um vê-se infinitamente limitada e,
portanto, praticamente impossível de efectivar. O Português, então, deixa de
atribuir sentido à liberdade.
Ao
que atribui sentido é à libertação. O Português quer-se livre de algo que o
oprime e constrange. A liberdade transfere-se assim, depois de se ver inviável
a sua orientação positiva, para uma força exclusivamente negativa, embora justa
nesse negativismo. E como, entretanto, o Português tende sempre para valorar ou
apreciar o pensamento do ponto de vista da acção, o pensamento não lhe aparece
como o domínio inviolável da liberdade mas apenas como o instrumento da
libertação. O homem pensa para se libertar, pensa nos obstáculos que se lhe
levantam ou nas dificuldades e obstáculos. O pensamento e a liberdade serão as
armas com que o homem vence os seus inimigos, serão os amigos do homem.
Pode
residir nesta transferência para a libertação um ponto de partida deveras
importante e valioso para o pensamento político da liberdade, se não para a
filosofia da liberdade. Esse ponto de partida é o de que a liberdade efectiva
diz respeito ao indivíduo, não à sociedade nem ao Estado, ou de que a liberdade
não é dada de fora ao indivíduo, mas constitui um atributo seu, uma sua
propriedade inalienável. Tal como o pensamento só é vivo enquanto alguém o
pensa, assim a liberdade só existe enquanto alguém a usa e nela e por ela actua.
Amplos
motivos nos permitem declarar que, perante esta situação actual do Português em
face da liberdade, os nossos doutrinadores políticos de todos os matizes se limitaram
a extrair dela consequências imediatas de governação e se não empenharam, como
era dever que assumiram ao proporem-se políticos, em desenvolver a doutrina da
liberdade imanente a essa situação. Os pensadores que o tentaram fazer ou em
grande parte o realizaram, como Sampaio Bruno, Guerra Junqueiro, Leonardo Coimbra ou Basílio Teles, viram-se alvo de incompreensões e hostilidades que, à
direita e à esquerda, produziram os frutos podres que hoje se continuam a
servir.
Não
se pode dizer que alguém, uma vez posto à consciência portuguesa o problema da
liberdade, se tenha atrevido a negá-la. Afirmou-se ele, porém, em sofismas e
demagogias nos quais se não consegue esconder uma triste incapacidade de a pensar
e efectivar. Perante tais sofismas e demagogias, o Português continuou a pensar
e desejar a libertação. A demagogia foi mais acentuada à esquerda; o sofisma mais
utilizado à direita. Ambos se fundaram no que só concebiam de efectivo à
liberdade: a limitação dela. Mas uma insistia e insiste no carácter total, “absoluto”
da liberdade dentro dos limites impostos a cada um pela multiplicidade infinita
de cada outro. À direita insistiu-se nisso de, sobre essa mesma limitação, ser
conveniente abandonar a liberdade impossível, substituindo-a pelas liberdades
possíveis.
Nos nossos dias, prolonga-se o espectáculo que é essa ora divertida ora triste discussão de dois surdos que estão a dizer a mesma coisa.»
Orlando Vitorino («Filosofia, Ciência e Religião»).
LETRAS CLÁSSICAS: PONTOS DE REFERÊNCIA PARA UMA RENOVAÇÃO METODOLÓGICA
1. O
ensino universitário trai a sua verdadeira finalidade na medida em que se
suponha exclusivamente destinado a formar professores de ginásio e de colégio.
O estudo que visa apenas um saber transmissível ao nível médio, não pode deixar de ser mediano,
ou medíocre. Por uma das
consequências de o haver seguido, e não porque seja essa finalidade do seu
curso, ao jovem licenciado em Letras Clássicas se deve reservar o direito de
ensinar grego e latim nos ginásios e nos colégios.
2. Em
obediência a uma rotina mais ou menos justificável, o ensino médio do latim e
do grego consiste principalmente de lições gramaticais, gradualmente aplicadas
à leitura de alguns textos literários. Não nos compete, porém, advertir de que
ao prolongá-lo até à Faculdade, resultará no prejuízo acima mencionado:
confundir na mediania, ensino superior
com ensino secundário.
3. Quem
sabe gramática, encontra-se em condições de abordar a tradução de um texto
literário; não quer dizer que efectivamente o traduza: poderá fazê-lo, se
exercer faculdades e adquirir conhecimentos que não se desenvolvem apenas
através dos estudos gramaticais. Quem sabe traduzir um texto literário,
encontra-se em condições de entender o pensamento do autor; não quer dizer que
realmente o entenda: poderá entendê-lo, se exercer faculdades e ganhar
conhecimentos, que o acto de traduzir não implica necessariamente. Certo é,
todavia, que só bem traduz uma página quem compreenda o pensamento que a ditou.
4. A aquisição completa, a assimilação perfeita, de formas e normas gramaticais, é um pressuposto – o primeiro ou o último – do aprendizado de uma língua, sobretudo quando ela já não é falada do modo como é escrita. Mas é um pressuposto, nada mais. E ainda assim, não se confunda a relativa «condição de necessidade» com uma «condição de anterioridade» absoluta: pelo menos tão facilmente decorrem as noções gramaticais, da leitura de um texto, cujo sentido de algum modo se vai descobrindo, como se descobrirá o sentido do mesmo texto, a partir de conhecimentos gramaticais precedentemente adquiridos. Do texto para a gramática, não da gramática para o texto – eis o princípio de aplicação às línguas clássicas, de um método mais fecundo, porque mais adequado às exigências mentais do estudante hodierno.
5. Se
o transmitir aos estudantes as noções imprescindíveis para a correcta leitura e
plena inteligência dos documentos literários de Roma e da Grécia constitui o
escopo imediato de um curso superior de Letras Clássicas – esse não é o único.
Compreender-se-ia que o fosse, se pudéssemos considerar a literatura como uma
singularidade independente. Mas, ainda que seja a obra do grande poeta e do
grande prosador, um dos elementos que conferem à cultura do seu povo e do seu
tempo a fisionomia espiritual que a caracteriza, a verdade é que ele próprio
escreveu a sua obra em termos de uma dependência de outros elementos da mesma
cultura. Concretizando e exemplificando: Cícero e Demóstenes, ou qualquer das
páginas destes escritores só se nos deparam em condições de perfeita
inteligibilidade, na perspectiva de Roma ou de Atenas.
6. Mas
tão-pouco, independentes singularidades são Roma e Atenas. Um documento
literário, um monumento arquitectónico ou plástico, não importa qual, dos que
subsistem entre as ruínas da tradição, fala através do que nos diz de Roma e
Atenas, acerca de uma ideia que as
culturas grega e latina realizaram completamente, cada uma de acordo com o seu
génio próprio. Pedagogia evasiva e decepcionante seria, pois, aquela que se
resignasse a prescrever o estudo de uma só, das duas parcelas que integram a
Cultura Clássica.
7. A ideia que parcelada se realiza na cultura romana e na cultura helénica é a que, pelo menos a partir da Renascença, o Ocidente se esforça por compreender, mediante suas múltiplas e sucessivas concepções de «Antiguidade Clássica». De certo modo, dir-se-ia que os estágios do desenvolvimento da chamada Cultural Ocidental (Renascença, Ilustração, Romantismo...) têm como uma das suas expressões características e individualizantes um peculiar conceito do «Clássico». E o que se afirma aqui, quanto a épocas universais, vale quanto a momentos nacionais da mesma evolução cultural do Ocidente. Há, por exemplo, um conceito de Grécia e Roma, que é francês, e outro, que é germânico; e acrescente-se: um e outro, definem o perfil espiritual das nações que os conceberam. Assim, também a nossa efectiva participação no concerto das nações ocidentais há-de revestir-se do mesmo carácter que assuma um conceito «nosso», do que é Antiguidade Clássica.
8. O
caminho para uma particular ou universal concepção do mundo greco-latino,
pressupõe necessariamente o haver aprendido a ler os testemunhos da tradição,
nos textos originais. Supõe, por conseguinte, a persistência do mesmo esforço
que tem sido exigido ao estudante por todos os legisladores do ensino. Convém
lembrar, todavia, que uma cultura não se exprime só pela linguagem escrita. No
todo ou em parte, aquilo que um povo ou uma época quer dizer, di-lo, por vezes, mais distinta e claramente na
linguagem do monumento figurado, do que na linguagem do monumento escrito. O estudante de letras clássicas tem de se
formar tanto na estilística das formas e das instituições, como na gramática da
prosa e do verso.
9. Ousemos
mais um passo. O que há de verdadeiramente inédito e inaudito, na mensagem
original de um povo, de uma época, de um indivíduo, não se diria
indiferentemente em qualquer forma de expressão. Por outros termos: o
conhecimento da vida dos povos antigos, nas suas várias manifestações –
religiosas, artísticas, políticas, etc. – não constitui, como se crê, um
simples comentário lançado à margem
do texto poético ou prosaico, pois, no género ou na espécie, cada uma dessas
manifestações é, ela própria, um texto bem
legível e inteligível, ao qual, a prosa ou o verso também poderia servir de
comentário marginal. Para compreender Atenas ou Roma, podemos partir de uma
tragédia de Eurípides ou de um discurso de Cícero; mas, semelhante resultado
obteríamos, sob outro aspecto,
partindo do Pártenon ou do Panteon...
10. A
ciência do «escrito» e a ciência do «artefacto» (entendam-se estas palavras no
mais amplo sentido) percorrem duas vias convergentes, mas distintas em toda a
sua extensão. A primeira denomina-se Filologia,
e a segunda, Arqueologia; ou, no
respectivo ponto culminante, História da
Literatura e História da Arte. A
arte não «ilustra» a literatura, como a literatura não «explica» a arte,
porque, uma e outra são expressões autónomas, e demais heterogéneas. Isto não
significa, evidentemente, que nada tenham a ver uma com a outra. Pelo
contrário, «expressão plástica» e «expressão poética», ex. gr., têm de comum, precisamente, o facto de serem expressão. O
que ambas exprimem, cada qual a seu modo e segundo as suas leis próprias,
reside, provisoriamente oculto, no ponto de convergência da filologia e da
arqueologia, ciências ou grupos de ciências, que, digamo-lo mais uma vez,
percorrem distintas vias metódicas.
11. Ao
Século em que vivemos estava reservado o começo de uma tímida extracção de
novíssimos corolários pedagógicos a audaciosos teoremas científicos, que já não
são novos. E o principal é este: não há comentário «real», por mais hábil e
minucioso que seja, capaz de esclarecer totalmente, por fora, alguma obscuridade inerente à expressão «verbal», ou
socorrer eficazmente qualquer deficiência da nossa compreensão; porém, uma vez
apreendida a ideia que constituiria, por assim dizer, o núcleo vivente da
cultura clássica – a qual, como dissemos, há-de surgir no ponto de convergência
dos métodos filológico e arqueológico –, todas as dificuldades se encontram
virtualmente superadas, posto que, então, nos apercebemos da natureza daquelas
forças que, por dentro, deram origem à multiplicidade e à variedade dos seus testemunhos
autênticos.
12. A
enorme dificuldade, mas também o poderosíssimo atractivo, de semelhante
pedagogia, consiste em avançar, concertando os passos andados ao longo de duas
vias, cujos sentidos parecem contrários e até contraditórios. Efectivamente, se
é certo que a ideia unitária de «cultura clássica» esclarecerá a significação
dos seus múltiplos aspectos realizados na história (literária, artística,
política, religiosa...), tão certo é que não atingiremos a mesma ideia, senão
analisando, em linha de máxima complexidade, os estágios da sua exteriorização
no tempo e no espaço. Admita-se, todavia, que, longínqua na sua
transitoriedade, a ideia de cultura clássica está sempre próxima, na sua
historicidade, aderindo intimamente a cada um dos seus aspectos.
13. De
algum modo residir o todo em cada uma das suas partes, é o que aparta e
distingue o orgânico e o vivente, do inorgânico e do não vivente. Procurar a
ideia de cultura clássica, de certa forma realizada em qualquer texto que nos
proponhamos estudar – eis a finalidade que não se representa claramente aos
olhos do estudante. Onde falta a
finalidade, sobra o desinteresse. Por isso, lamentar a decadência da
cultura humanista, deplorar reformas ineptas e vituperar reformadores ignaros,
que intentam banir as disciplinas clássicas dos programas do ensino médio, não
basta para assinalar positivamente o amor pelas humanidades. Que o prestígio do
latim e do grego declinaram vertiginosamente no horizonte dos interesses do
estudante – é o facto; mas se quisermos averiguar o factor, temos de admitir
que, na maior parte, a responsabilidade do desinteresse não cabe a quem
aprende, mas a quem ensina. Se o helenista-aprendiz, se o latinista-aprendiz, não se interessa pelo grego e pelo latim, é porque o grego e o latim não são interessantes; e se o grego e o latim não são interessantes, é porque o
mestre não pôde ou não soube despertar a paixão do aprendizado, mediante a
acção do ensino.
14. A
cultura do Mundo Antigo, em si mesma, e depois, na sua relação à cultura do
Mundo Moderno – tal é o objecto próprio do ensino superior das Letras
Clássicas. Eis porque não é possível imaginar espectáculo mais desolador, mais
confrangedor, que o da multidão de estudantes que só têm à mercê da sua
curiosidade natural, um compêndio de literatura, uma gramática, um dicionário,
uma selecta, ou poucos textos profusamente anotados com observações gramaticais
e estilísticas mais ou menos importunas. É certo que o exercício da erudição,
pelo gosto da erudição, queremos dizer, pelo gosto de acumular desordenadamente
noções esparsas e desconexas, insusceptíveis de concretizar-se em uma
totalidade organizada, deve ser banido de todos os sectores do ensino
universitário. Mas certo é, todavia, que a vituperada erudição não deve ser confundida com a indispensável informação
acerca da vida e perenidade da ciência ou das ciências que professamos. Quem
passou os quatro anos da licenciatura, agrilhoado a uma gramática, um
dicionário, uma selecta, forçosamente julgará que nada mudou, nada muda, nada
mudará ali, onde jaz inerte, esperando que o professor (?) lhe entregue nas
mãos um saber já feito, acabado, inalterado e inalterável na rigidez da morte.
A verdade é que o mais vigoroso incentivo ao trabalho e investigação pessoal – que é o único testemunho fidedigno, do
interesse pela disciplina científica, resulta do sentimento de que não estamos
sós, isolados, segregados, daqueles que, sempre e por toda a parte, vivem e
viveram a vida de uma ciência que evolui e progride interessantemente.
15. Em
resumo e conclusão:
«Língua», no âmbito das Letras Clássicas, é coisa que não existe... senão em gramáticas e dicionários. Talvez por isso ainda haja mestres de coisa nenhuma, fossilizados professores de humanidade, que tanto se estribam na lição gramatical, pesando e medindo conhecimento ou desconhecimento de «grego» ou «latim», pela maior ou menor capacidade de rememorar elementos formais da linguagem. A língua é uma abstracção da cultura: grega, da cultura grega, latina, da cultura romana. Por muito importante que seja – e de modo nenhum intentamos negar-lhe a importância que merece –, o ensino da língua deve ser encarado como um meio para atingir um fim. Só que esse fim tem de ser vislumbrado, se não atingido, enquanto é tempo; e tempo é, enquanto o licenciado estuda sob a direcção de quem possa mostrar-lhe o caminho a percorrer. Não se desperdicem os anos de Faculdade, repetindo a lição que devia ter sido aprendida no Ginásio e no Colégio. Ainda que, efectivamente, o não tenha sido, há maneiras de recomeçar, sem grave prejuízo para o ensino do que mais importa.
(In Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2000, pp. 175-179).






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