quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A Atlântida

Escrito por Júlio Verne


«Quem foi o primeiro a ver as ilhas encantadas do Oceano? A história dos seus primeiros tempos poderia escrever-se na névoa marinha. Tais fragmentos da perdida Atlântida, luminosos como país das fadas, que se erguem perante a visão dos mareantes como miragem acima das vagas ou desaparecem na névoa azul para lá dum rasto de espuma, têm andado nas lendas europeias desde os tempos mais remotos. As Hespérides, as ilhas dos Bem-Aventurados, a ilha das Aves de S. Brandão, as ilhas Afortunadas – parece que se perderam e acharam e tornaram a perder de espaço a espaço, durante mais de dois mil anos. Tão próximas da Europa ou da África do Norte, que um navio costeiro levado pela tormenta poderia facilmente ser impelido para as suas costas, e tão pequenas, não obstante, e tão isoladas por léguas de mar desconhecido, que um marinheiro pouco hábil que desse com elas uma vez por acaso poderia nunca mais conseguir lá voltar.

Estas ilhas pairaram assim durante séculos na orla dos conhecimentos europeus, até que o grupo das Canárias, que estavam relativamente perto do continente, foi o primeiro a surgir da lenda para a luz. Exactamente quando ou como isto se deu é vago, mas ao tempo de D. Henrique haviam já sido conhecidas de várias gerações – quase tão bem como nós hoje conhecemos os arquipélagos mais isolados do oceano Pacífico» 

Elaine Sanceau («D. Henrique, o Navegador»).  









A ATLÂNTIDA



No meio dos dédalos pedregosos que fendiam o fundo do Atlântico, não havia obstáculos para o capitão Nemo, que avançava sem hesitação. Não só conhecia de sobejo aquele caminho, mas até o haveria percorrido por mais de uma vez, e não podia perder-se. Seguia-o com inabalável confiança. Aquele homem parecia um génio do mar, e quando caminhava na minha frente, admirava-lhe a estatura avantajada, que se destacava no fundo luminoso do horizonte.

Era uma hora da madrugada. Havíamos alcançado as primeiras rampas da montanha, e para lá chegar foi preciso abrirmos o caminho pelos atalhos de uma moita.

Moita de árvores secas, sem seiva, árvores mineralizadas sob a acção das águas, e dominada aqui e além por pinheiros gigantescos. Era como uma mina de carvão de pedra ainda de pé, aferrada pelas raízes ao solo surribado, e cujos ramos, à maneira dos finos recortes do papel negro, se desenhavam claramente na abóbada das águas. Imagine-se uma floresta de Hortz, pendurada dos flancos de uma montanha, mas uma floresta submergida.

Os atalhos estavam obstruídos por algas e bodelhas, entre as quais pululava um mundo de crustáceos. Eu caminhava, trepando rochas, saltando por cima dos troncos deitados, despedaçando os cipós do mar, que se balouçavam de uma árvore a outra, enxotando os peixes, que voavam de ramo em ramo. Já não sentia o cansaço, tanto mais que seguia um homem que se não cansava.

Que espectáculo! Como descrevê-lo? Como pintar o aspecto daqueles bosques e seus rochedos naquele meio líquido, com as bases sombrias e selvagens, e os cumes coloridos de vermelho sob aquela claridade duplicada pela poderosa reverberação das águas?

Espécie de molusco do género Nautilus



Trepámos rochedos, que em seguida se esboroavam aos pedaços com o baque surdo da avalanche. À direita, à esquerda, abriam-se tenebrosas galerias extensíssimas. Aqui rasgavam-se vastas clareiras, que a mão do homem parecia ter separado, e mais de uma vez perguntei a mim mesmo se não me apareceria de súbito algum habitante daquelas regiões submarinas.

Mas o capitão Nemo continuava a subir, e eu não queria ficar atrás. Seguia-o, pois, ousadamente, valendo-me do pau ferrado. Um passo em falso teria sido perigoso por aqueles estreitos passadiços vazados nos flancos dos abismos; mas caminhava com passo firme e sem sentir a embriaguez da vertigem. Umas vezes saltava uma fenda que me faria recuar em terra; outras vingava o tronco vacilante das árvores lançadas de abismo a abismo, sem olhar onde punha os pés; não tinha olhos senão para admirar os sítios selvagens daquela região. Ali parecia estar, desafiando as leis do equilíbrio, rochedos monumentais, inclinados sobre as bases cortadas regularmente. Árvores havia que quase se podia dizer rebentavam sob a força de uma pressão formidável, e sustentavam aquelas que a seu turno as sustentavam também. Além disso, torres naturais, lanços talhados a pique como cortinas, pendiam em ângulo, que as leis da gravitação não haveriam autorizado à superfície das regiões terrestres.

Valha a verdade que eu também sentia aquela diferença devido à densidade da água, quando, não obstante o meu pesado vestuário, a cápsula de cobre, os sapatos de metal, me guindava por pendores de uma aspereza impraticável, vencendo-os por assim dizer com a ligeireza de uma camurça ou de um cabrito.

Pela narração que faço desta excursão por debaixo de água, bem sei que não posso deixar de ser inverosímil! Historio coisas aparentemente impossíveis que, no entanto, são reais, incontestáveis. Não sonhei; vi e senti.


Rota do Nautilus



Duas horas depois de havermos deixado o Nautilus, tínhamos ultrapassado a linha das árvores, e a cem pés por cima da nossa cabeça erguia-se o pico da montanha, cuja projecção fazia sombra na brilhante irradiação da vertente oposta. Por aqui e por ali corriam em ziguezagues de forma acentuada alguns arbustos petrificados. Os peixes levantavam-se aos bandos debaixo dos nossos pés como aves surpreendidas.

A massa rochosa estava cavada por anfractuosidades impenetráveis, grutas profundas, buracos insondáveis, no fundo dos quais iam rumores formidáveis. O sangue refluía-me ao coração, quando eu avistava uma antena enorme, que me embaraçava a passagem, ou alguma pinça medonha, que se escondia com estrondo na sombra das cavidades! Milhares de pontos luminosos brilhavam no meio das trevas. Eram os olhos de crustáceos gigantes, caranguejolas enormes, que se endireitavam como alabardeiros, e tilintavam com as patas como se estas fossem de ferro, caranguejos titânicos, assestados com canhões nas carretas, e polvos horripilantes, que entrelaçavam os tentáculos, como uma sarça viva de serpentes.

Que era aquele mundo exorbitante que eu não conhecia ainda? A que ordem pertenciam estes articulados, aos quais a rocha formava como que uma segunda concha? Onde havia a natureza encontrado o segredo da sua existência vegetativa, e há quantos séculos viviam assim nas últimas camadas do oceano?

Mas não podia parar. O capitão Nemo, familiarizado com aqueles temíveis animais, não lhes ligava importância. Havíamos chegado a um primeiro platô, onde me esperavam ainda novas surpresas. Desenhavam-se ali pitorescas ruínas, que atraiçoavam a mão do homem, e não a do Criador. Eram vastos montões de pedras, onde se distinguiam as formas vagas de castelos, templos revestidos de um mundo de zoófitos em flor, e aos quais, em lugar de hera, as algas e os funchos faziam um espesso manto vegetal.




Mas que era aquela porção do globo engolida pelos cataclismos? Quem havia disposto aquelas rochas e aquelas pedras como dólmenes dos tempos pré-históricos? Onde estava eu? Para onde me havia arrastado a fantasia do capitão Nemo?

De boa vontade o haveria interrogado, e como não podia fazê-lo, fui obrigado a parar. Travei-lhe o braço, e ele, abanando a cabeça e mostrando-me com o dedo o último cume da montanha, pareceu dizer-me:

– Vamos, vamos para diante!

Segui-o num último esforço, e dentro de poucos minutos subi o pico que dominava por dez metros toda aquela massa rochosa.

Olhei para o lado que acabávamos de percorrer. A montanha não só se elevava de sete a oitocentos pés acima da planície, senão que pela vertente oposta tinha dobrada altura sobre o fundo em contraposição àquela parte do Atlântico. Estendi a vista ao largo e abracei um vasto espaço iluminado por uma fulguração violenta. De facto, aquela montanha era um vulcão. A cinquenta pés abaixo do pico, no meio de uma chuva de pedras e de escórias, uma larga cratera vomitava torrentes de lava, que se espargiam em cascatas de fogo no seio da massa líquida. Aquele vulcão, assim colocado como um facho luminoso, alumiava o plano inferior até aos últimos limites do horizonte.

Disse eu que a cratera submarina arrojava lavas, mas não chamas. A estas é preciso o oxigénio do ar, e por conseguinte não poderiam desenvolver-se sob as águas; mas as torrentes de lava, que têm em si próprias o princípio da sua incandescência, podem subir até ao rubro branco e lactar vantajosamente contra o elemento líquido, vaporizando-se ao seu contacto. Rápidas correntes arrastavam todos aqueles gases em difusão, e as torrentes lávicas deslizavam até ao sopé da montanha, como as do Vesúvio sobre a Torre del Greco.

Com efeito, ali, à minha vista, arruinada, abismada, demolida, aparecia uma cidade destruída, com as casas derrubadas, os templos abatidos, os arcos deslocados, as colunas tombadas, notando-se em tudo isto as sábias proporções da arquitectura toscana; mais além, os restos de um aqueduto gigantesco; aqui, a saliência empastada de uma acrópole, com as formas flutuantes de um Pártenon; ali, vestígios de cais como se algum porto antigo houvesse abrigado outrora, nas praias de um oceano que desapareceu, navios mercantes e naus de guerra; mais longe ainda, estiradas linhas de muralhas derrocadas, largas mas desertas. Uma Pompeia inteira sepultada sob as águas, que o capitão Nemo ressuscitava à minha vista.

Onde estava eu! Quis sabê-lo a todo o custo, queria falar, queria arrancar a esfera de cobre que me pesava na cabeça.

Mas o capitão Nemo veio até mim e conteve-me com um gesto. Depois, apanhando um pedaço de pedra calcária, dirigiu-se a um rochedo de basalto negro e traçou esta palavra

ATLÂNTIDA


Que clarão me atravessou o espírito! A Atlântida, a Metrópole de Teopompo, a Atlântida de Platão, esse continente negado por Orígenes, Porfírio, Jamblique, D’Anville, Malte Brun, Humboldt, que atribuíam a sua desaparição a uma lenda, admitido por Possidónio, Plínio, Ammien, Marcellin, Tertuliano, Engel, Sherer, Tournefort, Buffon, d’Avezac, esse continente tinha-o eu à vista, manifestando ainda as provas irrecusáveis da sua catástrofe! Era, pois, essa região submergida que existia fora da Europa, da Ásia, da Líbia, para além das colunas de Hércules, onde vivia esse povo poderoso dos atlantes, contra os quais se fizeram as primeiras guerras da antiga Grécia.

O historiador que consignou nos seus escritos os altos feitos daqueles tempos heróicos foi o próprio Platão. O seu diálogo de Timeu e de Crítias foi, por assim dizer, traçado sob a inspiração de Sólon, poeta e legislador.

Um dia, Sólon conversava com alguns sábios velhos de Sais, cidade que já contava oitocentos anos, como o atestavam os anais gravados no muro sagrado dos templos. Um daqueles anciãos contou a história de uma outra cidade mil anos mais antiga. Esta primeira cidade ateniense, com mais de novecentos séculos, tinha sido invadida e em parte destruída pelos Atlantes. Esses povos, dizia ele, ocupavam um continente imenso, maior que a África e a Ásia juntas, que cobria uma superfície compreendida do duodécimo grau de latitude até ao quadragésimo grau norte. O seu domínio estendia-se até ao Egipto. Quiseram impor-se à Grécia, mas tiveram de retirar-se ante a indomável resistência dos Helenos. Passaram-se séculos. Houve um cataclismo, inundações, terramotos. Uma noite e um dia bastaram para o aniquilamento daquela Atlântida, cujos vértices mais altos, a Madeira, os Açores, as Canárias e as ilhas de Cabo Verde, estão ainda a descoberto.

Açores

Eram estas as recordações históricas que a inscrição do capitão Nemo me trazia ao espírito! Assim, pois, conduzido pelo maior dos acasos, calcava com o pé uma das montanhas daquele continente! Tocava com a mão aquelas ruínas mil vezes seculares e de antigas épocas geológicas! Trilhava o mesmo caminho por onde tinham andado os coevos do primeiro homem! Esmagava sob os meus pesados sapatos esqueletos de animais dos tempos fabulosos, que estas árvores, agora mineralizadas, cobriam com as suas sombras.

Se não me faltasse o tempo, queria descer os declives abruptos daquela montanha, percorrer todo aquele continente imenso, que sem dúvida ligava a África à América, e visitar aquelas grandes cidades  antediluvianas. Talvez que ali, à minha vista, se estendessem Makhimos, a guerreira, Eusebes, a piedosa, cujos habitantes de estatura gigantesca viviam séculos inteiros, e aos quais não minguara força para amontoarem aquela penedia, que resistia ainda à acção das águas. Bem pode ser que um dia algum fenómeno eruptivo traga ao lume de água aquelas ruínas engolidas! Apontam-se numerosos vulcões submarinos naquela parte do oceano, e muitos navios sentiram abalos extraordinários ao passarem por alturas tão tormentosas. Uns ouviram ruídos surdos, que anunciavam a luta profunda dos elementos; outros apanharam cinzas vulcânicas pelo mar. Todo este solo até ao Equador continua a ser trabalhado pelas forças plutonianas. E quem sabe se em época remota não virão à superfície do Atlântico cumes de montanhas ignívomas, avolumados pelas torrentes vulcânicas e por camadas sucessivas de lavas!

(In Vinte Mil Léguas Submarinas, Edição Hetzel, 2025, pp. 365-371).







domingo, 1 de fevereiro de 2026

Eco da própria palavra

Escrito por António Correia de Oliveira


Tecto do Baptistério de São João, em Florença, figurando as hierarquias angélicas.


Rumor há, perpétuo e uníssono,

Em que o silêncio amadorna,

E não cabe em nosso ouvido,

Qual água em copo, onde entorna:

 

Seja o dos Anjos, cantando;

Seja o do Inferno em cachão;

Seja o dos astros, no encontro

E raspar da escuridão.

 

Mas, o que a Deus dá mais gosto,

– Eco da própria palavra, –

Será o do grão, tombando

Sobre a terra, ao fim da lavra.


Redondilhas


Os Portões do Paraíso

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O povo português já não existe

Escrito por Orlando Vitorino




«Descritos os meios de que a planificação da cultura dispõe, Ernesto Palma passa a descrever os seus fins, que são a eliminação do pensamento. Mas lembra previamente, que, ao realizar a planificação, o socialismo é um instrumento do igualitarismo. Abona-se na demonstração que um dos epígonos de Leonardo Coimbra faz de como o igualitarismo é o grande obstáculo à actividade do espírito ou, o que é o mesmo, tem no pensamento o obstáculo que lhe é necessário vencer. Enquanto o pensamento distingue, e separa para unir, as singularidades de que é feito o real, se move do conhecido para o desconhecido e a todo o momento transcende a realidade de que formou o conceito para a superior realidade a conceptualizar, o igualitarismo equaciona todos os singulares e diferentes, reduz o superior ao inferior negando o que não é redutível, até arrasar todo o real num único plano, necessariamente o mais inferior, do qual já formou o conceito, e aí se imobiliza.

Integrando-a no igualitarismo, Ernesto Palma faz-nos compreender que a planificação da cultura vai mais fundo do que a massificação das populações, do que a uniformização política, institucional, exterior, a que o socialismo procede, o que explica a surpresa dos socialistas ao verem-se ultrapassados pela cultura unificada. Faz-nos compreender que a eliminação do pensamento filosófico, artístico e científico obedece a um processo interior, talvez irreversível, movido pelo igualitarismo. Faz-nos compreender, enfim, como a cultura planificada realiza essa eliminação.

Para eliminar o pensamento filosófico, a planificação dá, por ele, o cientismo, isto é, a convicção de que a tecnologia trará remédio a todas as carências da existência social, e o pragmatismo, isto é, a concentração de todos os meios e esforços, não no alcance de uma finalidade, mas na resolução dos problemas de cada momento. Com isso, a planificação abafa e apaga a substância da mesma cultura, aquela imagem ou concepção metafísica, que o idealismo alemão designou por Bildung, que a cultura se destina a transmitir para consciencializar o povo, cada povo, da sua singularidade, sua identidade e seu destino. Sem esta imagem metafísica, sem a filosofia que eliminou, a cultura planificada é uma formação artificial, arbitrária e vazia.»

Ernesto Palma («O Plutocrata»).

1. Vivemos, felizes, a época da desolação do mundo. Quem primeiro empregou a expressão foi Leonardo Coimbra. Mais tarde, também Heidegger a veio a empregar e, depois, viu-se ela frequentemente repetida.

Por «desolação do mundo» entende-se a ausência de princípios, uma vez abandonados e esquecidos os que havia, e a transmutação de valores e sua ausência enquanto a transmutação perdura. Não se trata, porém, de uma ausência deixada pelo que se ausentou mas há-de voltar, trata-se de uma não-presença, portanto de um vazio ou, em expressão mais própria e recente, de um nihilismo.

A existência, contudo, persiste neste vazio, o que se deve, decerto, a que alguma coisa o preenche. O que o preenche, envolvendo e penetrando a existência, é a técnica, com seu império e seus triunfos, que nenhuma metafísica ensombra, e é o cálculo, que tudo operaliza, conformiza e totalitariza pois «a primeira regra do cálculo é tudo calcular»[1].

Vivemos a época da desolação do mundo sujeitos ao império planetário da técnica e uniformizados em unidades totalitárias. E vivemos felizes porque não há princípios nem valores que nos inquietem, porque o totalitarismo nos assegura a igualdade sem lugar para singularidade, ambições e invejas, porque o império da técnica nos oferece os triunfos que nunca sonhámos poder a natureza prometer-nos.

Vivemos felizes e contentes uma existência boiando, ordenada e segura à superfície do vazio, toda ela um espectáculo em que só velhas aves agoirentas, remexendo o cadáver apodrecido e nauseabundo de metafísicas mortas, poderão ver o espectáculo da desolação numa ténue película sempre prestes a quebrar-se mergulhando no vazio sem fundo que cobre a existência que vai conseguindo resguardar.

2. Essas aves das mortas metafísicas andam, decerto, por aí cortando com seus pios sinistros o espectáculo do mundo. Mas nada alcançando contra o inabalável totalitarismo e a impassível técnica, seus agoiros são absorvidos no espectáculo onde, como aos antigos bobos nas cortes medievais, seus agoiros, denúncias e avisos se permitem e aplaudem por representarem, em irónico contraste com a euforia geral, medos lúgubres enterrados com as metafísicas.


Ver aqui, aqui e aqui
 

É assim que são lidas, editadas em todas as línguas, transpostas para o cinema, difundidas pela cibernética, aplaudidas por todas as populações e até ensinadas nas escolas, descrições da desolação do mundo, em especial da existência em sociedades totalitárias controladas ou calculadas pela técnica, que os próprios autores, temerosos, se deram ao cuidado de apresentar como imaginárias utopias. E sendo elas universalmente aplaudidas, louvadas e admiradas, até exaltadas pelos menos acomodados e instalados na desolação, ninguém reconhece nelas a sua própria existência. Nem no império da técnica a que está sujeito no Eumeswill, de E. Jünger, ou no Admirável Mundo Novo, de A. Huxley. Nem no «Big Brother is watching you», «imaginado» por G. Orwell, o führer do fundamentalismo democrático que, em figura própria ou por interpostas figuras, a todo o momento tem perante si.

Ninguém aí se reconhece porque se trata de utopias. E pode-se, em boa consciência, aplaudir a comicidade desses intermezzos sanguinolentos e melodramáticos do grande espectáculo do mundo porque a utopia é coisa imaginada, por definição sem lugar no mundo, e as imaginações não são para pensar, não quebram a regra de ouro da desolação do mundo, que é «não pensar».

3. Há, porém, quem persista em pensar. E quem faça, da desolação do mundo, descrições que se não escondem na linguagem da utopia perante as quais se corre o risco de pensar.

(In A Desolação do Mundo - Leonardo Coimbra e Martinho Heidegger, Bookbuilders, 1.ª edição, 2025, pp. 17-20).


[1] Martin Heidegger, «Science et Méditation», in Essais et Conférences. Éditions Gallimard, nrf, 1966, p. 65. (NdA).





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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Álvaro Ribeiro. A Filosofia e a Política

Escrito por Amorim de Carvalho


A tertúlia das tardes de Sábado em casa de António Sérgio, em 1939; da esquerda para a direita: Álvaro Salema, Agostinho da Silva, Castelo Branco Chaves, Pedro Nascimento, António Sérgio e Fernando Rau.

«António Sérgio observava que as correntes anti-intelectualistas que iam surgindo na doutrinação cultural da Europa em pleno século XX traziam consigo uma terrível ameaça política, pois iriam conceder ao sentimento e à vontade o poder de conduzir os povos, o que resultava na exaltação expressiva dos pedagogos e na invocação inoportuna aos demagogos. O pensador previa que, de invocar o sentimento ou a vontade, o povo legitimaria o uso grosseiro da força ou o abuso terrível da violência, seria ludibriado pelos seus mentores improvisados, exaltaria o poder forte e executivo que de tudo abusaria perante a paralisação do poder judicial, representante político da inteligência cartesiana. Coerente com o seu intelectualismo, defendia a representação parlamentar dos conflitos sociais, o respeito pelas liberdades fundamentais que estavam prescritas na constituição política, preconizava a formação de um escol na governação pública, tinha por ideal a Monarquia.

A formação de um escol, ou de uma aristocracia, era para António Sérgio o primeiro problema ou, seja, o problema da Pátria. Tão certo é que, onde não há um escol nacional domina necessariamente um escol estrangeiro, por eleições astuciosamente falsificadas ou por ostensiva ditadura internacional. Nas condições contemporâneas de recrutamento do escol, António Sérgio foi considerado um teorizador da razão burguesa, ou do racionalismo burguês.

Efectivamente, nunca António Sérgio se mostrou defensor do ímpeto popular ou plebeu que movimentou a Revolução Francesa. A sua colaboração efémera no grupo dos Homens Livres foi a prova do seu idealismo. Sobre o ensaísta recaía a dúvida se era um aristocrata ou um democrata, um individualista ou um socialista, um ateu ou um cristão, pois esquivava a resposta às perguntas directas, e assim o seu democratismo e o seu cristianismo apareciam como prudentemente depurados pela razão judiciosa, como que desligados das raízes sentimentais, instintivas e inconscientes a que os doutrinadores românticos os ligavam.

(...) Havia, na atitude de António Sérgio, no raciocinar a partir de ideias claras, distintas e separadas, como que a tendência voluntarista para tudo submeter a esquemas prévios; mas assim manifestava a obstinada incompreensão do movimento psicológico que procede sempre da Natureza para a Arte, da noite para o dia, do obscuro para o luminoso e consequentemente a incompreensão do descobrimento histórico, o que o levou a desvalorizar a maioria dos heróis portugueses. Foram os reis de Portugal, desfigurados e vilipendiados em obras de Oliveira Martins, Teófilo Braga e Júlio Dantas, que davam consentimento a escritos menores de diversos panfletários, mas o mesmo ataque estendia-se aos príncipes e a todos os titulares da nobreza, do que resultaria necessariamente a indignação reaccionária dos seus representantes na actualidade, os homens da batina, da capa e da espada. Essa atitude tornou-se evidente quando no justo combate a uma revivência do sebastianismo, António Sérgio se excedeu a julgar a política de D. Sebastião, o que provocou a réplica e a tréplica de quantos académicos estavam interessados na apologia dos reis e consequentemente da realeza, mas suscitou também a antipatia de outras individualidades nacionalistas não subordinadas a determinados tipos de instituições pretéritas. Habilitado, porém, com aquela propedêutica trivial que antecede os estudos filosóficos, quer dizer, habilitado pela gramática, dialéctica e retórica a discernir os paralogismos escritos pelos seus adversários, António Sérgio era o vencedor de quantas polémicas conduzia segundo o racionalismo francês do século XVIII.

Batalha de Alcácer Quibir





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A literatura historicista que António Sérgio criticou na revista Lusitânia representava, todavia, a perplexidade de um povo que havia esquecido a sua razão de ser, a sua origem e a sua independência. José Leite de Vasconcelos, Mendes Correia e Damião Peres procuravam em vão, esclarecer e resolver positivamente um problema teológico-político, segundo a expressão de Benedito Espinosa. A historiografia, sendo a expressão do anacronismo, ao inserir a tradição nas fórmulas linguísticas e nos modos de pensamento de novos leitores, adultera inevitavelmente a verdade.

Na gradual desvalorização das figuras nacionais, que realizou nos sucessivos volumes dos seus Ensaios, segundo um critério anti-romântico de desmistificação integral, António Sérgio foi desenhando uma interpretação economista da História de Portugal, alicerçada aliás em documentação fidedigna, mas, incorrendo no anacronismo de atribuir pragmática inteligência a um povo que se movia por fanatismo obstinado, transmitiu aos seus leitores o consentimento para o materialismo histórico. Apoiando-se na doutrinação de António Sérgio, alguns escritores consideravam como obstáculos ao progresso cultural, político e social muito de quanto a tradição histórica e a diferenciação regionalista continuavam a manter entre nós, e de aí concluírem ser indispensável, antes de mais, destruir quanto nos torna diferentes dos outros povos peninsulares, europeus e americanos. A unificação internacional dos meios de cultura facilitaria essa demolição, depois da qual se pensaria então em construir a sério a nova sociedade ou o novo mundo, adiamento cómodo que dispensa de pensar o que conviria para já fazer.

Assistiu António Sérgio ao sucessivo aparecimento de vários escritores marxistas que se dedicaram à chamada tarefa de revisão histórica e à divulgação dos respectivos resultados em termos de ensino liceal. O novo escol doutrinado a contradizer o velho critério do ensaísta, libertar-se-ia de preconceitos nacionalistas, mas seria, afinal, por sua vez guiado por mentores ou monitores ultrapireneicos, tanto aqueles que de longe nos enviam os livros e os ofícios, como aqueles que chegam até nós para exibirem a sua luzida e polida mediocridade. A pedagogia de António Sérgio, pela reforma de mentalidade, não lograva libertar os Portugueses de outra modalidade de demagogia.

Deve-se, portanto, a António Sérgio a tendência para depreciar os valores nacionais, não só os históricos mas também os presentes, analisados à luz de uma crítica fria. Este juízo sobre a existência ou a situação, facilitou aos discípulos a formação de tropos severos e adversos à Pátria. Assim qualquer plumitivo pôde passar a dizer que os Portugueses eram incapazes de se governar bem, de promover as técnicas industriais e as técnicas educativas, de formar uma cultura própria, incapazes, como eram, de cultivar certos géneros literários, como o romance, o teatro e o ensaio, enfim, adversários ou inimigos do Espírito.

Pensador profundamente sério, culto e ágil, António Sérgio realizou uma útil crítica filosófica às doutrinas que a moda trouxera do estrangeiro ao nosso país, e fundamentou-se na dialéctica dos princípios firmes, fortes e tradicionais. No nosso ambiente literário, artístico e político, António Sérgio é ainda hoje invocado e citado pelas felizes observações de crítico, compositor, divulgador, e letrados há que o julgam o primeiro nosso pensador original. Neste aspecto, a valorização de António Sérgio como único mestre de filosofia transgride os limites do razoável, porque além do mais significa ignorância da História de Portugal.



Temos de enfrentar sem receio a verdade de que, no século XX, Portugal assistiu ao aparecimento de filósofos vários que pretenderam renovar todos os ramos da cultura. Jornalistas, historiadores, literatos, políticos e eclesiásticos uniram-se como adversários de quantos pensadores ilustres ousaram abrir caminhos novos ao advento do Espírito, e a derrota oficial da filosofia portuguesa caracteriza o drama intelectual da nossa centúria. A posição de António Sérgio ficará, na determinação deste movimento, a ser um marco talvez tão notável como a profecia de Fernando Pessoa, o qual, ao anunciar o advento do Super-Camões, não fazia mais do que exaltar a sua original interpretação do transcendentalismo panteísta.»

Álvaro Ribeiro («A Literatura de José Régio»).

 

«A glória da reforma da instrução que a energia fera do Marquês tornou possível, não se deve atribuir ao pensamento, no fundo negativo, desse déspota monstruoso: honremos sim a memória dos Vernei, Ribeiro Sanches, Azeredo Coutinho, D. Francisco Lemos, Monteiro da Rocha, Frei Manuel do Cenáculo, Padre  Figueiredo, Jacob de Castro e semelhantes».

António Sérgio («O Problema da Cultura e o Isolamento dos Povos Peninsulares»).

 

«Têm mau agoiro as consagrações oficiais. Destinam-se, quase sem excepção, a exaltar homens de relativo e circunstancial valor ao suscitarem a reflexão e o balanço da obra que eles fizeram, levam a denunciar-lhes a efemeridade e marcam-lhes em geral o fim. Receio bem que seja isso o que está acontecendo com António Sérgio.

Digo que o receio porque me habituei, nos anos de juventude, a ver nele uma espécie de contraponto da vida espiritual portuguesa, qualquer coisa como o negativo de que o positivo carece ou, para empregar uma metáfora de que ele gostaria, uma espécie de mantissa no logaritmo; e também porque se me afigura muito provável que essa função contrapontística passe a ser desempenhada por gente muito inferior ao que António Sérgio foi, gente incapaz de respeitar as verdades e as realidades cujo saber ele, no mesmo acto de se lhe opor, ainda respeitava, admirava e invejava. A negatividade de António Sérgio muito nos ajudou, aos homens da minha geração, a valorizar isso mesmo que negava. Quando, por exemplo, Sérgio nos incitava a preferir a matemática à poesia, tentando iludir-nos dizendo que na matemática residia a mais íntima e alta poesia, ao que nos levava era a fortalecer o nosso culto pelos grandes poetas que ele detestava, por Nobre, por Junqueiro, sobretudo por Pascoaes e, depois, por Fernando Pessoa e José Régio, até tendo em conta que este último nunca deixou de nos recomendar o magistério de Sérgio. Quando, noutro exemplo, ensaiava desviar-nos dos caminhos abertos por Leonardo Coimbra e polemizava com Santana Dionísio e José Marinho, o que conseguia era levar-nos a descobrir como esses caminhos são os do verdadeiro pensamento e autêntica filosofia, caminhos muito mais fecundos e libertadores do que os dos seus ruminantes exercícios de “razão raciocinante”. Quando, num último dos muitos exemplos que temos à mão, se desesperava em persuadir-nos de que uma nação não é mais do que uma sociedade e de que uma sociedade nacional não é mais do que uma empresa económica, o que obtinha era fazer-nos pensar a realidade espiritual das pátrias.




Foi no domínio da opinião, da opinião pública e vulgar por definição e, por redundância, opiniosa, que os exercícios raciocinantes de Sérgio encontraram fácil audiência e recrutaram dóceis e obedientes prosélitos. Devemos contudo fazer justiça a Sérgio reconhecendo que não era essa audiência e esse proselitismo que o satisfaziam. Tão depressa os via manifestarem-se logo exprimia o seu descontentamento que chegava a levar até à polémica com esses mesmos que, no fervor da obediência, correntemente a desenvolviam na adopção de uma ideologia, geralmente a marxista. Foi o caso de António José Saraiva que viu, estupefacto, como o tão falado “rigor racionalista” do seu mestre não era mais do que um “caprichismo polémico”».

Orlando Vitorino («António Sérgio acaba às mãos de António Quadros»).

 

«Não é possível conceber uma política independente da ética, nem uma ética independente de um sistema de filosofia. É certo que muitas vezes os escritores políticos não confessam o sistema filosófico a que se encontram necessariamente submetidos, mas o facto não vale de argumento. George Orwell apresenta-nos a caricatura da filosofia alemã na medida em que eleva ao exagero de 1984 as consequências terríveis do comunismo e do nazismo. Convém, pois, não esquecer que a filosofia alemã, através dos seus intérpretes nacionais e estrangeiros, conseguiu dominar o pensamento europeu dos séculos XIX e XX. Em Kant vemos subordinada a razão teórica à razão estética e a razão estética à razão prática, o que tem por corolário inevitável o predomínio social dos técnicos. A vontade, com o seu dualismo de potência e resistência, assume em Fichte a representação dialéctica. Karl Marx propõe o mito da luta de duas classes (mito no qual será possível converter todas as representações dinâmicas da sociedade), para descrever a evolução em termos de materialismo histórico.»

Álvaro Ribeiro («George Orwell: 1984 ou a verdade ao alcance das mãos»).

 

ÁLVARO RIBEIRO. A FILOSOFIA E A POLÍTICA




Os que, não há muito tempo, promoveram uma justa homenagem ao filósofo José Marinho, promovem agora, com a mesma justiça, uma homenagem ao filósofo Álvaro Ribeiro. A ambos admiro e por ambos tenho aquela já longa amizade que se cimentou no persistente convívio dialogal de sentimentos, emoções e ideias. Porque se trata hoje de uma homenagem a Álvaro Ribeiro, é de Álvaro Ribeiro e a pretexto de Álvaro Ribeiro que vou falar.

Parece que um dos temas indicados seria, precisamente, o de comentar o seu pensamento filosófico. Desse pensamento me ocupei em estudo incluído num dos meus livros; e, por isso, e à guisa de abertura deste artigo, me limito a condensá-lo nestes pontos essenciais: a validez da crença; a autenticidade duma tradição portuguesa, isto é, duma realidade portuguesa no mundo e na história; e o valor da palavra portuguesa, isto é, do pensamento que se exprime na língua portuguesa. Tudo isto seria sintetizável na seguinte fórmula ou filosofema: Portugal tem no mundo uma missão humana que se exprime no estilo da sua cultura.

A cultura portuguesa estará infusa, mesmo quando não consciencializada, na maneira de ser, de pensar e de sentir dos portugueses, mas é a filosofia, a «arte de filosofar», na terminologia de Álvaro Ribeiro, que explicita e consciencializa essa cultura, que a explica nos seus valores, que a conduz, a desvia dos equívocos e enganos. Tudo isto se envolve duma teologia, porque Álvaro Ribeiro encontra relações sobrenaturais entre cultura e culto, entre o Homem e Deus. Há pois uma revelação portuguesa. Posto este princípio religioso de crença, que nada deve ou quase nada deve à racionalização das inferências e provas, a filosofia de Álvaro Ribeiro passa a ser uma cadeia discursiva e lógica dum cerrado racionalismo.

Abstraindo do pensamento de Álvaro Ribeiro a fundamentação metafísico-religiosa (que debati no meu estudo acima referido), uma relação quero estabelecer – por mais surpreendente ou impossível que pareça a certos espíritos superficiais – entre Álvaro Ribeiro e António Sérgio, dois pensadores tão diferentes e tão opostos. Mas a verdade é que a «reforma da mentalidade» sergiana, como condição redentora do nosso país, na linha duma característica portuguesa permanente de universalidade testemunhada pela história, é, mutatis mutandis, a arte (filosófica), em Álvaro Ribeiro, de conduzir a nação portuguesa no seu próprio «movimento» – para se empregar a palavra aristotélica no profundo sentido que ela tem em Aristóteles e no aristotelismo de Álvaro Ribeiro. Não interessam os diferentes pontos de partida nem, se se quer, os diferentes pontos próximos ou longínquos de chegada, nas duas visões filosóficas da história e do destino de Portugal, em Ribeiro e Sérgio; o que interessa é saber que em ambos o problema cultural da nação é o esclarecimento desta pelas suas elites. E não há autênticas elites sem um pensamento filosófico. Esta conclusão é crucial em Álvaro Ribeiro, para quem não há alta e segura política num país onde a filosofia não exista ou onde a filosofia não seja devidamente considerada. Marx vira isto claramente, forjando o materialismo dialéctico (teses, antíteses e sínteses em que assenta o seu comunismo) e forjando o materialismo histórico (primado dos valores económicos e biológicos sobre os valores espirituais e as elites). 

O totalitarismo fascista foi, historicamente, uma consequência reaccional do comunismo; quer dizer: apareceu como, sobretudo, uma resposta defensiva à subversão comunista. Hoje, ambos são de resposta reciprocamente reaccional, de um em relação ao outro. Digo «reaccional», falando de ambos, e não reaccionário, como os comunistas dizem referindo-se ao fascismo, porque reaccionários são os dois – fascismo e comunismo – em relação à democracia com suas liberdades individuais e direitos de cidadania, que há-de assentar também numa filosofia. O problema mais importante da nossa época, no plano político-social (tese que tenho sustentado) é o da reformulação da democracia e liberdade e direitos políticos em termos que a defendam (defendendo-se ela automaticamente) dos atentados do comunismo e do fascismo. Sem democracia, ou com uma democracia incapaz de se defender institucionalmente, comunismo e fascismo, por serem reciprocamente reaccionais, condenariam ou condenam as nações a viverem num processo de alternância pendular – comunismo-fascismo-comunismo-fascismo... –, portanto numa permanente ditadura, num permanente reaccionarismo. Mas, com esta distinção a fazer: uma ditadura comunista é imensamente mais difícil de ser combatida (se não impossível) do que uma ditadura fascista, como o provam os factos, pelo que a alternância pendular das duas ditaduras ou dos dois reaccionarismos só se efectua entre um pré-comunismo que ainda procura instaurar-se em pleno, mas já ditando a sua lei, e um fascismo já instaurado que simetricamente se lhe opõe. A razão explicativa deste facto parece-me estar no seguinte: O regime fascista está ainda preso a vários princípios e condições sociais que persistiram, afirmando, apesar de tudo, o indivíduo humano (com certos direitos e, sem dúvida, também nos seus privilégios que cumpre abolir), de modo que o próprio Estado, por mais dominador e tirânico que seja, é assumido por indivíduos humanos que se sentem na presença ineludível de outros indivíduos e de elites, cuja oposição combatem, mas com os quais não deixam, e necessariamente não deixam, de sentir relações de humanização, pelo menos potenciais, e por aí se infiltram as críticas e as doutrinas anti-fascistas. (É claro que estou a fazer uma distinção entre o fascismo mussoliniano e o nazismo de Hitler com o qual o comunismo de Staline fez pacto de amizade, de partilha e de auxílio que ajudou Hitler na guerra contra as democracias, pacto quebrado só depois da invasão da Rússia pelos alemães). Ora, nos regimes comunistas, o indivíduo é, desde logo, e definitivamente, considerado uma peça económica (o trabalhador), pelo facto mesmo da colectivização, não havendo entre os indivíduos-trabalhadores outra relação que não seja a de peças de uma grande máquina económica, com um só patrão sem apelo, que é o Estado, de modo que o Estado é sentido, pelos indivíduos privilegiados que o representam (burocracia, forças armadas, polícia) como uma peça privilegiada da mesma máquina; eis por que só indivíduos excepcionais, verdadeiros heróis, podem libertar-se moralmente da desumanização deste condicionalismo económico-social imposto, e representam verdadeiras elites portadoras da humanidade, mas elites que, ou são imediatamente esmagadas ou têm de fugir, levando consigo a desesperança política. Isto explica porque um homem como Soljenitsyne, prémio Nobel russo expulso da Rússia, formulou a revolução anti-comunista a fazer, não em termos políticos, mas em termos morais: «O meu programa não é político, é moral (...). É preciso apenas recusar as mentiras (...) No dia em que algumas dezenas de milhares de pessoas, depois algumas centenas de milhares recusarem a mentira, o sistema soviético desmoronar-se-á rapidamente» (L’Express, 25-11-1974). A esperança da paz seria maior no mundo.

É nos momentos de queda de uma das ideologias reaccionárias, que a ideologia da democracia e da liberdade (representadas conscientemente pelos intelectuais das suas elites) tenta quebrar o processo de alternância fascismo-comunismo-fascismo..., mas, aqui mesmo, a ideologia democrática tem de combater o reaccionarismo triunfante (comunista ou fascista) em condições particularmente difíceis, porque: 1.º, se triunfou o reaccionarismo fascista, os democratas são apodados de comunistas, pelos intelectuais das falsas elites fascistas, e como tais são perseguidos; 2.º, se triunfou o reaccionarismo comunista, os intelectuais das suas falsas elites apropriam a terminologia da democracia e chamam fascistas aos autênticos democratas, com o que é fácil convencer as massas que não têm uma compreensão cívica e humana da política e da sociedade. Neste caso trágico das massas facilmente conduzíveis, o reaccionarismo triunfante beneficia da herança do reaccionarismo deposto.



Não basta, pois, uma filosofia política. Têm-na o fascismo e o comunismo. É preciso que a filosofia política, qualquer que ela seja, e qualquer expressão nacional que represente, contenha uma concepção humana do homem e da vida social. Fora desta humanidade todas as soluções de problemas sociais são falsas e trágicas soluções; as sociedades humanas não podem ser, se humanas, concebidas segundo os modelos de colectivização das sociedades animais. Está aqui a ilusão do socialismo em liberdade, de que não há exemplo na história; porque, ou resvala no comunismo, caindo-lhe nas malhas, ou se integra na própria democracia que pretendeu substituir, reduzido à condição fecunda de uma ideologia reformista. Exemplo, entre vários: a Suécia, onde o sector privado detém 95% da economia. Chamar a isto socialismo é, positivamente, abusar das palavras, e então tudo é socialismo. Chamemos-lhe, pois, social-democracia, o centro em relação aos dois totalitarismos – o fascismo e o comunismo. Esse centro detém o mais humano pensamento filosófico em política. Entende-se um pensamento de discussão, porque aberto à pluralidade das ideias e das particularidades étnicas e nacionais. Aberto mesmo à discussão com comunistas e fascistas, o que ambos estes não podem suportar – por mais inteligentes que sejam como intelectuais – e por isso, ou também por isso, comunismo e fascismo têm de ser ditaduras permanentes de um só partido e de pensamento filosófico único.

Após este longo parêntesis, voltemos a Álvaro Ribeiro e ao que está implícito e explícito na sua tese: não há política séria sem uma filosofia, e não há filosofia séria que não assente na liberdade de pensar. Atenção a este ponto, que talvez eu não tenha debatido suficientemente ou não tenha feito compreender suficientemente no meu referido estudo sobre Álvaro Ribeiro: quando ele diz que é contra o livre pensamento «autodidáctico», di-lo no sentido – muito comtiano, por sinal – de ser contra o livre pensamento dos ignorantes, quer dizer, em política, contra o livre pensamento actuante dos actuantes (o que em política é perigoso), o que, em toda a amplitude da filosofia de Álvaro Ribeiro, se refere aos que ignoram a autenticidade duma «tradição» portuguesa, duma «cultura» portuguesa a esclarecer e a conduzir no próprio «movimento» que a caracteriza. Isto compete às elites e, superiormente, às elites de pensar filosófico.

«... Seja de prever, diz Álvaro Ribeiro, a reintegração das raças, dos povos e das nações no plano da fraternidade universal, certo é que, enquanto durarem os processos da existência no mundo, teremos de reconhecer nas sociedades étnicas e historicamente diferenciadas uma resistência anímica aos prematuros, ainda que subtis, processos de absorção. Um espírito autónomo inspira ao povo o desejo de perviver em estado de independência política, porque só nessa liberdade lhe será possível acertar e assinar compromissos de carácter internacional... A história prova assim a existência de um Espírito que convém educar, para que se manifeste gloriosamente em actos de culto, cultura e civilização. Dar vida a esse espírito é mais do que um ministério, é verdadeiramente um magistério, porque só um mestre sabe, pode e quer realizar verdadeiramente a obra de educação nacional» (Escola Formal, p. 181).





«Ao assumir de qualquer modo a responsabilidade docente, diz ainda Álvaro Ribeiro, o Estado torna-se também responsável pelo destino da cultura, pela realização de fins espirituais. Cumpre-lhe, pois, assegurar a protecção devida aos artistas, aos escritores e aos pensadores, que são os verdadeiros criadores da cultura, evitar que eles desistam de exercer as actividades a que haviam sido chamados por vocação, assegurar a continuidade na produção de valores nacionais. A História julga o Estado, não só pela boa ou má administração das escolas, mas também pela situação social em cada época atribuída à ciência, à literatura e à filosofia... A educação política, nitidamente delineada em fórmulas masculinas, varonis e viris, pressupõe (...) o arquétipo inegável do homem superior... Através das variantes [do homem superior, dos cultos, das culturas e das civilizações] permanece constante o ideal para que tende o processo admirável que podemos dizer de evolução, libertação ou redenção. Educar não é ensinar as novas gerações a adaptarem-se à presente organização social, o que teria por consequência um anacronismo, nem à futura organização social, o que teria por consequência um utopismo; – educar é despertar em todos os educandos as possíveis virtualidades de superação idealista.» (A Razão Animada, pp. 170-1).

E mais esta citação que tem o seu valor de síntese: «Veremos que, ao longo dos últimos séculos, a liberdade humana exaltada pelo humanismo, por um humanismo sem garantia divina [não esqueçamos a base teológica do pensamento de Álvaro Ribeiro], foi decaindo à medida que surgiram o iluminismo, o positivismo e o socialismo (ibid., p. 293).

Não discutamos sobre o que parece ser, em Álvaro Ribeiro, uma alusão ao despotismo iluminado, fenómeno complexo que se liga ao iluminismo filosófico, com seus contraditórios aspectos; nem tão pouco sobre o positivismo que chega também a um despotismo iluminado (não foi o ditador, que Comte condenou em Napoleão, sim o «retrógrado» – É. Bréhier); mas fixemos, pela sua particular aplicação ao momento político internacional, a referência de Álvaro Ribeiro ao socialismo (evidentemente que na acepção geral desta palavra, que engloba o comunismo), contendo, a meu ver, a parte incontestavelmente válida da passagem transcrita que leva necessariamente não só à deterioração do sentimento da pátria (como também pensava Basílio Teles), mas ainda à perda da liberdade humana e à decadência da cultura pela separação de cultura e elite, ou subordinação do conceito de elite ao de massa. Álvaro Ribeiro não citou o fascismo que eu tenho considerado num jogo reaccional e reaccionário com o comunismo. Na verdade, tanto os comunistas como os fascistas, uns e outros igualmente e contrapolarmente reaccionários, combatem frequentemente o conceito elítico da cultura (os comunistas por detestarem a discussão livre das ideias, chamando «agressão ideológica» ao pensamento que se lhes oponha, e ainda para adularem as massas; os fascistas pela primeira razão indicada), mas a verdade é que toda a cultura, até a cultura ao simples nível etnográfico, é elítica. Cultura ao serviço do povo, no sentido de cultura para as massas no seu estado permanente de massificação, é uma demagogia obscurantista que só serve a ditadura sobre as massas orientadas por um pensamento único. 


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A cultura, em verdadeira democracia, há-de ser desmassificadora, elevando as massas à consciência de pessoas que pensam por elas mesmas, que votam por sua livre escolha. Numa sociedade de cultura-massa, duma máquina que o Estado patrão domina; numa sociedade de cultura livre e democrática, necessariamente esclarecida pelas suas elites, contam as pessoas acima das massas, ou pessoas a libertar da condição massa, cujos problemas sociais (das pessoas como trabalhadores) têm solução humana no primado espiritual dos homens livres (das pessoas como cidadãos). Na época que atravessamos, em que só os países de segura educação democrática podem fazer face aos perigos de desumanização fascista ou comunista (mais grave a comunista), é fundamental a necessidade duma democracia formulada ou reformulada pelas elites, no sentido que tenho dado a «elites», para quebrar a alternância pendular reaccional dos dois reaccionarismos: fascismo-comunismo-fascismo-comunismo...




Isto, que era fundamental, não foi tomado em conta – e desastrosamente o não foi – no passado português removido; e não vemos que disso se tome conta no presente, em que os que menos têm ideias são os que mais impõem ideias.

Esta é a lição que me parece dever-se tirar da obra filosófica de Álvaro Ribeiro. Os que conhecem essa obra e a minha crítica em livro, a essa obra, sabem que nem sempre estou de acordo, ou até que muitas vezes o não estou. Mas isso é no conjunto de um pensamento que oferece inúmeros caminhos de direcção filosófica. No entanto, sempre rendi ao filósofo notável que é Álvaro Ribeiro a homenagem que é devida ao seu alto espírito. No que estou absolutamente de acordo com Álvaro Ribeiro é no que ficou sintetizado neste artigo: toda a política séria há-de ser uma filosofia, toda a filosofia política séria há-de aceitar a discussão de ideias.

Noutra conjuntura portuguesa, a minha homenagem a Álvaro Ribeiro seria prestada trazendo outros temas ao primeiro plano. Por exemplo, este: que devemos a Álvaro Ribeiro, a ele mais do que a nenhum outro, nas últimas décadas, o interesse em Portugal pela filosofia, animando, estimulando vocações filosóficas, sistematizando ele próprio o seu pensamento filosófico e reunindo à sua volta numerosos e valiosos discípulos. Não quero dizer que outros não tenham participado vigorosamente nesta promoção da filosofia em Portugal – e lembro o querido José Marinho, por exemplo, – a estabelecer a discussão duma «filosofia portuguesa», na qual o próprio autor destas linhas polemicamente entrou; mas Álvaro Ribeiro fez pela promoção ou re-promoção, se querem, da filosofia em Portugal o que uma História da Filosofia Portuguesa tem de assinalar, necessariamente, se escrita com honestidade.

O querido Álvaro Ribeiro foi assim, no ingrato e difícil clima intelectual do nosso país, um verdadeiro herói do pensamento. Muito lhe deve a nossa pátria, pelo muito que ele deu à sua cultura.

(Amorim de Carvalho in Álvaro Ribeiro, As Portas do Conhecimento – Dispersos Escolhidos, Instituto Amaro da Costa, Lisboa, 1987, pp. 371-377).






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