sábado, 4 de julho de 2026

O enigma homérico

Escrito por Paul Ulrich



«O “milagre grego”, que, de certo modo, é o milagre do Ocidente, teria nascido talvez, desse único e maravilhoso encontro de um anseio pela ideal transparência das formas intemporais, que é indo-europeu, e de uma transbordante criação de imagens, todas impregnadas da seiva e do sangue da vida, repetindo-se ciclicamente, na temporalidade. O milagre grego consistiu sobretudo, em encorporar, em encarnar o espírito em uma imaginação de tal maneira exuberante de vida, que jamais consentiu, por exemplo, que a lógica dos conceitos degenerasse em estéril conceptualismo, e portanto, que a escolaridade de uma filosofia do concreto algum dia se dissolvesse em palavroso e abstracto escolasticismo.

Milagre grego seria, por conseguinte, o milagre de uma perfeita reintegração

Eudoro de Sousa («Relações pré-históricas e proto-históricas entre a Grécia e o Oriente à luz das últimas descobertas arqueológicas», in Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos).

 

«Ante uma tradição perdida, inteiramente perdida, não há outro recurso senão adivinhá-la. Infelizmente, se os homens vulgares não são educados para o dinamismo mental, muito menos os filólogos têm sido agraciados pela inteligência que permite a adivinhação.»

Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).

 

«Ao que parece, duas causas, e ambas naturais, geraram a poesia. O imitar é congénito no homem (e nisso difere dos outros viventes, pois, de todos, é ele o mais imitador e, por imitação, apreende as primeiras noções), e os homens se comprazem no imitado.

Sinal disto é o que acontece na experiência: nós contemplamos com prazer as imagens mais exactas daquelas mesmas coisas que olhamos com repugnância, por exemplo, [as representações de] animais ferozes e [de] cadáveres. Causa é que o aprender não só muito apraz aos filósofos, mas também, igualmente, aos demais homens, se bem que menos participem dele. Efectivamente, tal é o motivo por que se deleitam perante as imagens: olhando-as, aprendem e discorrem sobre o que seja cada uma delas [e dirão], por exemplo, “este é tal”. Porque, se suceder que alguém não tenha visto o original, nenhum prazer lhe advirá da imagem, como imitada, mas tão-somente da execução, da cor ou qualquer outra causa da mesma espécie.

Sendo, pois, a imitação própria da nossa natureza (e a harmonia e o ritmo, porque é evidente que os metros são partes do ritmo), os que ao princípio foram mais naturalmente propensos para tais coisas, pouco a pouco, deram origem à poesia, procedendo desde os mais toscos improvisos.

A poesia tomou diferentes formas, segundo a diversa índole particular [dos poetas]. Os de mais alto ânimo imitaram as acções nobres e dos mais nobres personagens; e os de mais baixas inclinações voltaram-se para as acções ignóbeis, compondo, estes, vitupérios, e aqueles, hinos e encómios. Não podemos, é certo, citar poemas deste género [poetas que viveram] antes de Homero, se bem que, verosimilmente, muitos tenham existido; mas, a começar em Homero, temos o Margites e outros poemas semelhantes, nos quais, por mais apto, se introduziu o metro jâmbico (que ainda hoje assim se denomina porque nesse metro se injuriavam [iámbizon]). De modo que, entre os antigos, uns foram poetas em verso heróico, outros o foram em verso jâmbico.

Ὅμηρος (Homero)

Mas Homero, tal como foi supremo poeta no género sério, pois se distingue não só pela sua excelência como pela feição dramática das suas imitações, assim também foi o primeiro que traçou as linhas fundamentais da comédia, dramatizando, não o vitupério, mas o ridículo. Na verdade, o Margites tem a mesma analogia com a comédia, que têm a Ilíada e a Odisseia com a tragédia.»

Aristóteles («Poética»).

 

«Liberto por educação, o poeta elaborará depois o seu orgão próprio de intuição sobrenatural. Ele há-de meditar sobre a sequência dos heróis representativos do seu povo, aqueles que, por atingirem o ponto de tangência entre a humanidade e a divindade, “se vão da lei da morte libertando” [Luís de Camões, Os Lusíadas, canto I, estância II]. Transformar a série histórica em série simbólica, mais verdadeira porque universal, é acto de imaginação que se propicia apenas aos poetas inspirados.

O essencial da poesia está, quanto a nós, no pensamento expresso pelos tropos, quer dizer, na possibilidade de ascensão ao plano espiritual. Em consequência dizemos que a poesia é análoga da profecia e da teologia. Convém, todavia, para bom entendimento desta doutrina, que ninguém confunda a profecia com qualquer forma de mântica ou de adivinhação.

A asserção sobre os eventos possíveis ou futuríveis depende do conhecimento que o poeta haja obtido acerca das leis divinas, quer dizer, das essências divinas. Na concordância ou na discordância das leis divinas com as leis naturais e as leis sociais situa o poeta a acção humana sobre que se pronuncia em palavras proféticas. A poesia está para a profecia como a ciência para a metafísica.

Há poetas que não se contentando já com este exercício lúdico das imagens, talvez por verem esgotados os recursos de determinada mitologia, substituem os tropos desinteressados por argumentos de interessada finalidade. A elevação do pensamento, admirável nos poetas mais cultos, é movimento contemporâneo dos interesses em jogo, e não assegura comunicação duradoura para além dos períodos de crise. A posteridade não será grata para aqueles que substituem, dentro de perfeitas composições literárias, a poética pela retórica.»

Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).


«(...) a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta, o particular.»

Aristóteles («Poética»). 



O Triunfo de Aquiles por Franz von Matsch

«A pátria de Homero não foi a Grécia propriamente dita, mas sim a região situada para além do mar Egeu, na faixa jónio-eólica da Ásia Menor, ou seja, na zona situada um pouco ao sul daquela que serviu outrora de palco à guerra de Tróia. Parece ter nascido em Esmirna no nono século antes de Cristo. Um historiador pouco conhecido, de nome Heródoto, escreveu acerca de duzentos anos mais tarde uma “vita Homeri”. Nessa biografia relatava, entre outros factos, que os habitantes da localidade de Neon Teichos lhe haviam mostrado o lugar onde Homero costumava sentar-se recitando os seus versos. Este local era objecto de uma grande veneração, aí existindo um choupo “que crescera a partir da época em que Melesígenes parece ter sido o nome primitivo de Homero, significando “aquele que provém do rio Meles” –  o rio que corria próximo de Esmirna. A mãe ter-se-á denominado Creteis. As informações acerca do pai são menos precisas, havendo-lhe sido atribuídos diversos nomes. Plutarco asseverava até tratar-se de um demónio, de um ser sobrenatural. Inúmeras cidades jónias ainda apresentavam vestígios da passagem de Homero muitas centenas de anos mais tarde. Era particularmente estreita a sua ligação com a ilha de Quios, onde, decorridas muitas gerações, os Homéridas (membros de uma escola de poetas e trovadores) continuavam a escrever e recitar poemas no estilo por ele criado. Um dos hinos refere-se a um bardo oriundo dessa ilha rochosa, cujo canto ficaria para sempre imortal – esse homem outro não podia ser senão Homero. Aí se descreve também a figura de um cego, o que coincide com a afirmação de Heródoto segundo a qual a cegueira o ameaçava durante longos anos impedindo-o finalmente de ver. O “poeta cego” morreu em Ios, nas ilhas Cíclades, no século oitavo antes de Cristo. Pensa-se que foi sepultado num promontório rochoso. O local teria sido assinalado por uma lápide com a seguinte inscrição: “Aqui jaz o corpo sagrado do divino Homero, herói entre os heróis”».

Roland Göök («Homens que transformaram o Mundo»).

 

«Hoje podemos provar no livro Ver que, até ao começo do século XVI, não era um enigma por decifrar a identidade de Homero na Europa!

Foi desde os primeiros dias do século XVI, ao desfazer-se o Todo europeu, que a Europa perdeu os seus olhos Gregos da Idade-Média e da Renascença. E as nações Europeias repartiram entre si os sentidos da Arte, dividindo os povos da Europa em visuais e auditivos, tornando desta maneira impossível o equilíbrio entre os dois sentidos nobres do Homem, o equilíbrio divino, e o qual como ides ver, se chama Homero!

Homero é velho e cego porque já viu tudo. Quem já viu tudo precisou de muita idade para isso: e quem já viu tudo não necessita de olhos para mais nada.»

José de Almada Negreiros («Descobri a personalidade de Homero»).

 

«Os primeiros tempos da cultura intelectual da Grécia foram caracterizados pela poesia religiosa e mística, da qual restam apenas tradições mitológicas e os nomes dalguns poetas legendários, como Orfeu, os quais cantaram os deuses e as suas relações com os heróis.

À poesia religiosa sucedeu a poesia épica, tratada nas obras que se atribuem a Homero (900?).

Segundo uma tradição antiquíssima, Homero foi autor de duas grandes epopeias, a Ilíada e a Odisseia, onde se encontram descritos os costumes, a religião e toda a civilização dos tempos heróicos. A Ilíada tem por objecto o cerco de Tróia; a Odisseia canta os errores de Ulisses antes do seu regresso a Ítaca.


 
 Ἡρακλῆς (Héracles em bronze)

Em tempos posteriores à idade homérica apareceu a poesia didáctica, cultivada por Hesíodo, cuja existência é tão duvidosa como a de Homero. Das obras que lhe foram atribuídas restam três: Os trabalhos e os dias, a Teogonia e o fragmento épico intitulado Escudo de Héracles

Fortunato de Almeida («Curso de História Universal», Vol. I).


Hércules e Nesso

«A alma de Orfeu atravessara como divino meteoro o céu tempestuoso da Grécia que nascia. Desaparecido ele, as trevas acumularam-se novamente. Depois de várias revoluções, os tiranos da Trácia queimaram os seus livros, destruíram os seus templos, expulsaram os seus discípulos. Imitaram-nos os reis gregos e muitas cidades, mais ciosas da sua desenfreada licenciosidade do que de justiça. Pretenderam apagar a sua memória, destruir os seus últimos vestígios. E agiram com tanta eficiência que, alguns séculos após a sua morte, uma parte da Grécia duvidou da sua existência. Em vão os iniciados conservaram a sua tradição durante mais de mil anos. Em vão Pitágoras e Platão se referiram a ele como um homem divino. Para os sofistas e reitores, ele apenas personificava uma lenda sobre a origem da música. Ainda hoje, os cientistas negam, sem tergiversar, a existência de Orfeu. Apoiam-se sobretudo no facto de nem Homero nem Hesíodo o terem referido. Mas o silêncio desses poetas explica-se, amplamente, pela proibição estabelecida pelos governos locais a respeito de Orfeu. Os seus discípulos não perdiam nenhuma ocasião de exigir todos os poderes para a autoridade suprema do templo de Delfos. Não cessavam de repetir que as diversas questões entre os vários Estados da Grécia deviam ser submetidas à decisão do Conselho dos Anfictiões. Ora isso não convinha nem aos demagogos nem aos tiranos.

Oρφεύς

Quanto a Homero, talvez tenha sido iniciado no santuário de Tiro, cuja mitologia é a tradução da teologia de Sanconiaton. Homero, o jónio, podia muito bem ignorar o dórico Orfeu, cuja tradição era tanto mais secreta quanto mais perseguida. Hesíodo, nascido perto de Parnaso, devia conhecer o seu nome e a sua doutrina, através do santuário de Delfos. Mas talvez lhe tenha sido imposto silêncio a seu respeito pelos sacerdotes que o iniciaram no templo.»

Eduardo Schuré («Os Grandes Iniciados. Esboço da História Secreta das Religiões»).

 

«Quando Arthur Evans e os demais arqueólogos ingleses, italianos, franceses e norte-americanos publicaram os primeiros relatórios das escavações na ilha de Creta, que foram iniciadas no princípio deste Século [XX], pode dizer-se sem receio de errar por excesso que o deslumbramento foi a sensação predominante no mundo das ciências da Antiguidade. A “filologia de pá e enxada” colhera os louros de uma vitória que não seria fácil igualar. Cnosso e Haghia Tríada, Gurnia e Petsofa, Festo, Palaikastro, as grutas de Camarés e de Psychro, e todas as estações arqueológicas da ilha do rei Minos davam à luz da publicidade as ruínas de uma cultura em que os tempos de apogeu só poderia equiparar-se à do Egipto Faraónico, pelas dimensões dos monumentos arquitectónicos e que certamente a sobrepujava pela delicadíssima cerâmica e a suprema arte decorativa dos interiores palacianos. A história antiga e a filologia clássica trataram de reunir e reinterpretar as fontes à nova luz que brotava a jorros dos escombros da civilização “minóica”, e os resultados não tardaram a formular-se em teses extremas. Não hesitaram estudiosos de reconhecida autoridade e invulgar responsabilidade, em asseverar que, na Grécia Antiga, o que fora propriamente criador, provinha do elemento pré-grego da primitiva população. É claro que a tais assertos só as ruínas de Creta podiam conferir alguns visos de probabilidade.




Parte da reconstrução feita por Evans do palácio minóico de Cnossos (Bastião A da Entrada Norte, denominado Afresco do Touro).


A bibliografia cresceu e avultou desmedidamente até à Segunda Guerra Mundial. No fim do primeiro quartel do presente Século já não saía a lume compêndio de história grega que não abrisse a exposição com um escorço da pré-história micénica. Um após outro alinhavam nas bibliotecas os livros de Evans, Glotz, Dussaud, Nilsson, Mosso, Picard, Karo, Persson, Chapouthier, Pendlebury, e todas as pessoas cultas se habituavam a considerar a cultura minóica como o último substrato da Cultura Ocidental, tanto mais que pari passu, glotólogos e comparativistas estabeleciam os princípios de uma estratigrafia linguística que prolongava a história da língua grega até ao fundo desse passado em que os navios de Creta cruzavam o Mediterrâneo Oriental para desembarcar em todas as costas a preciosa indústria de seus inspirados artistas.

Porém, graves motivos subsistiam para que esmorecesse o entusiasmo dos corifeus. E todos se resumiriam nesta breve sentença de Martin P. Nilsson: Creta é um livro de imagens sem texto. É verdade que não faltavam entre as ruínas dos monumentos exumados por Evans e os arqueólogos que lhe sucederam exemplares de escrita. Não uma só, mas três diversas escritas, inventaram ou adaptaram os povos de Creta: uma pictórica ou hieroglífica, e duas silábicas, que Evans designou respectivamente por “Linear A” e “Linear B”. Mas nenhuma das três, até à genial descoberta de Ventris, revelou o segredo da língua ou das línguas que figurava; e não à míngua de esforços e de engenho aplicados à tarefa ingrata.»

Eudoro de Sousa («Escrita cretense, língua micénica e grego homérico», in Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos).


O arqueólogo Arthur Evans retratado em 1907, por William Richmond

«Arqueologia, e não metafísica, deveria intitular-se a doutrina aristotélica dos princípios, que Kant pretendeu refutar na Dialéctica Transcendental. Foi efectivamente da palavra arche, parente de arcano, arco ou arca, que se formou o termo arqueólogo. Os arqueólogos da Antiguidade olhavam para o Céu, os arqueólogos da Modernidade escavam a Terra.

A ontologia, doutrina do ente, que por singular está sujeito ao tempo, é menos do que arqueologia. Ela assume, porém, na obra de Santo Anselmo o significado excelente de transição do tempo para a eternidade. A Hegel devemos a doutrina religiosa de subordinação da ontologia à arqueologia».

Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).

 

«A arqueologia, tanto pelas descobertas mais recentes como por novas interpretações de descobertas já esquecidas, entrou há pouco de reenunciar um problema que, neste tempo, apaixonou a opinião científica, na segunda metade do século XIX – refiro-me ao movimento que se designou de “panbabilonismo” ao qual sucedeu, já neste século, a “fenício-mania”. Panbabilonismo e fenício-mania indicam, de per si, a tensão dessas correntes. Não faltou, nas referidas épocas, quem defendesse a tese de uma total dependência da cultura grega, em relação a culturas orientais, de Babilónia ou da Fenícia. É claro que o problema era simplesmente o do papel desempenhado pelos “adstratos”. Pois bem; as escavações de Ugarit, onde, há pouco mais de vinte anos, foi exumada uma biblioteca, que continha numerosos escritos datados do II Milénio, e a decifração de outros textos, que pertenciam à biblioteca de Hattush, capital do Império Hitita, aproximadamente da mesma época, renovam a velha questão de saber o quanto devem os gregos às culturas do Oriente. Mas agora, que os dados são incomparavelmente mais copiosos e a crítica sobre eles se exerce com mais inabalável rigor – agora apercebemo-nos, sem sombra de dúvida, que na poesia religiosa e profana do Oriente, procediam os poetas gregos, tal como procederam os artistas da cerâmica. A diferença continua sendo a que separa e distingue o cósmico do caótico, ou, talvez com menos injustiça para com a beleza, a diferença que vai do que é só vida impetuosa, ao que é, essa mesma vida elevada à tranquila e cristalina transparência da ideia.

Mas, com tudo isto, igual vem a ser o papel dos substratos egeo-asiânicos, e dos adstratos orientais, na formação da cultura grega?

Ao que se me afigura, responder a tal pergunta, equivaleria a justificar, por meio de renovado discurso, o que repetidamente se tem querido dizer através daquela fórmula celebrizada como “Milagre Grego”».

Eudoro de Sousa («Relações pré-históricas e proto-históricas entre a Grécia e o Oriente à luz das últimas descobertas arqueológicas», in Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos).

 

«(...) a Grécia e Roma apresentam-se-nos com carácter absolutamente inimitável: Nada na história dos tempos modernos com a sua história se parece. Nada no futuro poderá assemelhar-se-lhes. Tentaremos mostrar por que regras eram regidas estas sociedades e deste modo mais facilmente verificaremos por quais razões essas mesmas sociedades jamais poderão voltar a reger a humanidade.»

Fustel de Coulanges («A Cidade Antiga»).

 


«A boa leitura é uma arte difícil; exige demorada iniciação. Iniciar o leitor, consiste em aproximá-lo, tanto quanto possível, do escritor: a contemporaneidade seria a perfeição. No limiar da História da Filosofia, o estudante tem que se desvestir dos prejuízos culturais do seu tempo, se quiser compreender a lição autêntica dos grandes pensadores de todos os tempos. A não ser que só pretenda julgar os sistemas antigos e advogar a causa dos modernos... Mas, nem a Filosofia é a advocacia do presente, nem a História o tribunal do passado.»

Eudoro de Sousa («Sejamos contemporâneos de Aristóteles», in Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos)



O ENIGMA HOMÉRICO

A arqueologia inspirada por Homero não cessou de procurar, na noite do passado, traços de passagem desse poeta épico cujos anacronismos surpreenderam por vezes os seus mais fiéis admiradores. De início, era-lhe concedido um génio puramente imaginativo. As suas obras, a Ilíada, que relata a cólera de Aquiles sob as muralhas de Tróia, e a Odisseia, que narra o regresso de Ulisses a Ítaca, pertencem mais à ficção do que à realidade: a alegoria impõe-se ao real. Depois o caso é reconsiderado. Os Arcaicos, assim designa Homero os Gregos, são exactadamente Arcaicos: o nome não é inventado; existe nos escritos hititas. E depois, Tróia, Micenas, Tirinto e os seus castelos fortificados não são criações da fantasia. Schliemann arrancou-os às trevas. As pedras ciclópicas, as esculturas, as cerâmicas aí estão para testemunhar a boa-fé de Homero. Passaremos por cima do «palácio de Príamo», do «tesouro de Astreia», do túmulo de Clytemnestre», produtos de um excesso de romantismo dos arqueólogos micénicos. Sem a mínima dúvida, tomaram os seus desejos por realidades.

E chegamos a este paradoxo: os relatos de Homero inspiraram os investigadores (Schliemann) e, em troca, as descobertas por eles feitas depõem em favor dos acontecimentos relatados por Homero. O génio de Homero é pois ao mesmo tempo imaginativo e construtivo. Basta aprender a separar os enredos dos factos históricos. As pesquisas arqueológicas permitem legitimar certas descrições de locais, de casas ou de palácios e reter em bloco todos os elementos que compõem a arte de viver. Este trabalho de grande fôlego está longe de encontrar-se terminado e fará ainda correr muita tinta.

A Ilíada e a Odisseia põem problemas aos historiadores, aos filólogos, aos geógrafos. E também aos arqueólogos, desde que se trate de identificar um achado segundo os textos homéricos e inscrevê-lo no tempo, no seu lugar cronológico. Isto porque ninguém, até ao momento, conseguiu ainda situar o próprio Homero na cadeia dos séculos.

Heródoto faz viver o poeta na primeira metade do século IX antes de Cristo. Eric Bethe, mestre da escola analítica alemã, implanta-o no início do século VI. O francês Paul Mazon aproxima-se da tese de Heródoto. Para ele, a Ilíada pode ter sido escrita em fins do século IX, princípios do século VIII a. C. Quanto à Odisseia, muito mais tarde. Sessenta a oitenta anos separam os dois poemas. Homero teria vivido entre o início do século VII e o início do século VI.



Supondo que isto é exacto, ficamos intrigados pelo tempo que separa a «aparição» das duas obras; mais de meio século. Homero teria facilmente sido centenário, o que não aparece em qualquer texto. A sua existência é, de resto, um mistério. Sete cidades gregas da Ásia Menor usurparam a honra de contá-lo entre os seus homens ilustres. Nenhuma é capaz de nos dar dele uma biografia séria. É questão de perguntar se não terá havido dois Homeros, sendo o segundo neto do primeiro e usando o seu nome, como era costume. Entre as hipóteses mais audaciosas, aquela que nega a sua existência não é de rejeitar de olhos fechados.

Interrogamo-nos sobre a própria obra, reveladora de um muito grande talento. O talento encontra-se nas duas epopeias, o que tende a garantir-nos a existência de um autor, ou pelo menos de autores pertencentes à mesma escola, a uma mesma filiação espiritual e literária. Avança-se o nome dos Homérides de Chios, aedos especializados na recitação dos versos de Homero.

Em todo o caso, as hipóteses não contradizem as que rodeiam as fontes das duas epopeias. Parece como provável que tenham nascido na adição de vários poemas cantados durante séculos pelos aedos. Há mais do que uma simples adição, há fusão, há criação. O toque do mestre sente-se em cada verso. Seria pois injusto considerar o autor, ou os autores, como simples compiladores.

Tais considerações tornam inevitáveis os anacronismos que se detectam nas descrições, nos tempos, nos costumes, nas artes. Pouca coisa, é verdade, mas o suficiente para perturbar um espírito lógico. Homero fala de ferro quando deveria falar de bronze. O ferro não tinha ainda feito a sua aparição em 1230 (?), na altura da guerra de Tróia. Descreve uma incineração numa altura em que os micénicos inumavam os seus mortos. Quando descreve um porto, uma cidade, um palácio, é um porto, uma cidade ou um palácio do ano 700 antes da nossa era que descreve, não forçosamente os do fim do segundo milénio.

Homero relata aventuras da época micénica numa altura em que a Grécia escapa já à influência austera dos Dórios e começa a sua ascensão para uma renascença esplendorosa. Para ser verosímil, por exemplo, fia-se nos relatos dos marinheiros do seu tempo. A Odisseia é a obra de um navegador. O conhecimento dos ventos e da construção naval que Homero demonstra levam-nos a pensar ter sido ele próprio um marinheiro. Esta hipótese nunca foi sustida. Que objecções se lhe opõem? Não é necessário que o autor tenha vivido o périplo de Ulisses para lhe retirar toda a hipótese de veracidade. Que se censurem a Homero imprecisões nas descrições das costas ao longo das quais navega não é admissível. Os levantamentos geográficos da sua época eram muito imprecisos em relação aos nossos. E fazemos mal em tentar reconstituir a epopeia de Ulisses num mapa do século XX da nossa era.

Ulisses e o cântico das sereias

Que a arqueologia se sente pouco à vontade neste domínio, a ninguém espanta. Tira a sua contrapartida da comparação das imagens transmitidas pelas cerâmicas ou pelos frescos com os textos homéricos. Circe, certo dia, aconselha Ulisses a interrogar a alma de Tirésias sobre as suas possibilidades de regresso a Ítaca. Uma consulta tão grave só poderá resultar se for santificada por um sacrifício. O poeta faz reviver a cerimónia com todo o pormenor. O seu texto poderia perfeitamente servir de comentário à procissão fúnebre que se desenrola nos flancos de um sarcófago descoberto em Haghia Tirada, em Creta.

Tudo começa pelo sacrifício do touro, que será seguido pelo das duas cabras. Três mulheres, vestindo longas túnicas apertadas na cintura, com os braços carregados de oferendas, avançam para o altar. Este é flanqueado por dois grossos mastros que suportam no topo achas de dois gumes. Num deles está pousada uma ave de asas escuras. Eis que é derramado numa cratera o vinho ritual, enquanto um músico toca cítara. O morto, de pé junto do seu túmulo, observa. Nenhum dos gestos dos que o rodeiam lhe escapa. Três oficiantes aproximam-se dele. Um deles leva uma barca, os outros um jovem veado. A partida para as ilhas da bem-aventurança está próxima. A viagem pelas trevas será longa.



A viagem dos mortos nem sempre é feita de barco. Segundo os ritos ou as épocas, o desaparecido cavalga um golfinho. Este benfazejo cetáceo é venerado em Creta, onde inspira pintores e poetas. Certos golfinhos têm direito ao reconhecimento dos vivos: os que teriam trazido das profundezas do mar o corpo do poeta Hesíodo. Este salvamento lendário permitiu dar ao contemporâneo de Homero uma sepultura condigna.

As descobertas arqueológicas corroboram os nossos conhecimentos, revelam os escritos sobre o costume de oferecer provisões de boca aos viajantes do além. Numa tumba de Mallia, Evans encontra uma tábua cavada no meio, para receber as libações, e orlada por uma dupla cintura de trinta e seis pequenas cúpulas, destinadas a receber os alimentos. Esta necessidade de alimentar os mortos é levada a tal extremo que os Cretenses deixam por vezes orifícios nos túmulos, para lá deitarem os vinhos fúnebres.

Apolo

Os sacerdotes cretenses só honram os seus deuses junto dos túmulos, derramando lágrimas. A phorminx (cítara) e a flauta, nos dias de festa, abandonam os seus ritmos chorosos para acompanhar os bailarinos e os coristas em torno dos altares de Apolo. Os monumentos minoenos, pelo pincel ou pelo cinzel, representam frequentemente grupos de bailarinas. No seu hino a Apolo, Homero põe em cena os sacerdotes de Cnossos. É em ritmo de dança que se desdobra a procissão.

«O senhor Apolo, filho de Zeus – escreve o poeta – abria a marcha tocando deliciosamente a phorminx que tinha na mão, e avançava com um belo passo levantado. Os Cretenses seguiam-no e cantavam o primeiro Paian...».

As bailarinas e os cantores, interpretando péans em honra de Apolo e ditirambos em honra de Dionísios, estão na origem da tragédia. Não é preciso sair da Grécia para encontrar a origem do teatro. Um pequeno teatro onde se celebrava o culto dos deuses. A raiz do teatro grego é religiosa e assim permanece até ao século de Péricles. O de Asclépios, em Epidauro, o de Apolo, em Delfos, o de Dionísios, em Atenas, são verdadeiros templos.

(In Os Grandes Enigmas das Civilizações Desaparecidas, Amigos do Livro, Tomo 1, pp. 36-40, com a colaboração de Jean Renald, Lucien Vieville e Brigitte Friang).


Teatro de Dionísio em Atenas

Antigo teatro em Epidauro



Στοιβαδείον (Stoibadeion): ruínas do Templo de Dionísio na ilha grega de Delos.

terça-feira, 30 de junho de 2026

O rapto da «bela Helena»

Escrito por Bettany Hughes


«Ele [Aristóteles] declarou que a beleza era uma recomendação maior do que qualquer carta de apresentação».

Diógenes Laércio («Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres»).


«[Helena] era (...) a mulher mais bela do mundo e Afrodite prometera a Páris que lha daria se ele lhe atribuísse o prémio de beleza. Seguindo-lhe os conselhos, ele embarcou e foi para Amiclas, onde foi hóspede dos Tindáridas. Depois, em Esparta, foi recebido em casa de Menelau. Todavia, quando este teve de partir para Creta, para os funerais de Catreu, foi Helena quem substituiu o marido nos deveres para com os hóspedes. Desse modo, encontrou Páris e, pouco depois, ele raptou-a. A maior parte dos autores posteriores a Homero considera que Helena estava de pleno acordo quanto a esse rapto. Alguns tentam justificar a sua conduta e garantem que apenas cedeu à força. Outros, por fim, dizem que foi o próprio Tíndaro quem, na ausência de Menelau, concedeu a Páris a mão de Helena. Chegou mesmo a dizer-se que Afrodite dera a Páris a forma e a figura de Menelau para lhe permitir seduzir Helena. A maior parte das vezes, porém, atribui-se à beleza de Páris e à sua riqueza o papel decisivo nesse rapto.»

Pierre Grimal («Dicionário da Mitologia Grega e Romana»).


Páris contemplando Afrodite, in O Juízo de Páris, por Enrique Simonet (1904).

«Foi numa competição de beleza, segundo a mitosofia grega, que as deusas Hera, Atena e Afrodite reclamaram um pomo doirado com a inscrição “Para a mais bela”, tendo-as Zeus remetido ao pastor Páris para ajuizar qual delas seria a eleita. Ao pastor, entretanto, tentaram as três belas deusas influenciar com presentes mundanos, prometendo-lhe Hera, caso o pomo lhe fosse atribuído, o governo de todos os reinos da Ásia, garantindo-lhe Atena a bravura invencível na guerra, enquanto Afrodite, pestanejando e acariciando as coxas, prometera-lhe a rainha de Esparta, orea Eleni, a “bela Helena”. Páris, sem hesitar, declarou então Afrodite a mais bela, dando-lhe o pomo de oiro com duas consequências de maior: a primeira seria o ódio eterno de Hera e Atena contra o filho mais novo de Príamo e Hécuba, a segunda a guerra entre Gregos e Troianos com a inevitável destruição da cidadela de Tróia.

Helena é, na sua ambivalente potência, muito mais do que um rosto deslumbrantemente belo. Na sua doce quão incomparável mas perturbante beleza, Helena surge como um inominável paradoxo espalhando sofrimento e conflito, como ainda suscitando instinto, fragilidade e poder. Numa palavra, ela, embora fisicamente perfeita, é uma periculosa fonte de desgraça perante a qual os homens, heróis e deuses em confronto não conseguem deixar de amar.


Busto egípcio de uma rainha ptolemaica, possivelmente Cleópatra, c. 50-30 a. C., no Brooklyn Museum.


Cleópatra, a última governante do reino ptolemaico do Egipto, foi também, a par de Helena, ironicamente caracterizada por sua perigosa beleza exterminadora. Desta forma, nas duas divas os terríveis encantos custaram caro quer a Roma quer a Argos e à cidade de Tróia, como que personificando duas fúrias que violentamente ofuscaram e arrebataram corações e mentes mercê do mais fascinante e irresistível poder de sedução. Dir-se-ia, inclusive, que no caso da Guerra de Tróia, tratou-se de uma aventura épica que deu início a todas as guerras, sem qualquer fim à vista.


Elisabeth Taylor em Cleópatra, filme épico de 1963.






Se, entretanto, tivermos bem presente que para os gregos antigos os deuses, os daimons e os espíritos não pairavam olimpicamente no éter mas habitavam os lares revestindo a religião dos antepassados, não será então difícil imaginar a vívida presença de Helena nas mentes e nos corações de espartanos arcaicos e clássicos, levando mesmo a adivinhar o que muitos gregos teriam, decerto, sentido ao encontrar Zeus a residir em Olímpia ou Atena na monumental Acrópole de Atenas. Desta feita, imbuído da primeira ideia do divino, o homem dos primeiros tempos inclinara-se para a inteligência invisível prenunciadora do mundo espiritual da alma, pelo que é, alfim, possível reconhecer que o culto dos antepassados e o culto dos deuses do Olimpo perfaziam já duas religiões mais ou menos distintas, até porque, na interpretação positivista do historiador francês Fustel de Coulanges, nunca tiveram entre si alguma coisa em comum, salvo a época longínqua a que tanto uma e outra religião particularmente remontam, sem embargo de se cruzarem com seus dogmas muitas vezes contraditórios e suas cerimónias e práticas específicas. Deve, pois, dizer-se que para os gregos antigos a crença nos deuses tivera por berço a família, estando assim religiosamente abrigados sob a protecção do lar doméstico, o qual, já por longo tempo perpetuado segundo linhas de demarcação entre famílias, se desenvolveu numa mais ampla, nova e engrandecida religiosidade em que ao antigo santuário doméstico sobreviria o público alevantamento dos templos onde moraria cada divindade majestosa em sua ornamentada e monumental estátua.»

Miguel Bruno Duarte

  

«De que fonte, então, brotou a beleza de Helena, por quem os homens lutaram, ou de todas as mulheres semelhantes a Afrodite em beleza?»

Plotino («Enéadas»).

 

«Para os que contemplavam, em atónita admiração, a singular pulcritude de Helena, mister seria adivinhar se, no acto da percepção visual, a imagem confinar-se-ia à forma corpórea fornecida pela beleza percebida, ou se o acto perceptivo já não reflectiria, à semelhança do tempo como imagem da eternidade, um eidolon do ser profundamente anímico de Helena como imagem reflexa transfigurada do transmundo inteligível. Daí, pois, a beleza platónica no que à génese primordial e divina importa sobretudo intuir em sua mais profunda e autêntica transcensão eidética. Não é, portanto, por acaso que o neoplatonismo houvesse igualmente consagrado a beleza arrebatadora e sublime de Helena à luz representativa da beleza cósmica, qual eikon ou processão reflexa do universo inteligível.»

Miguel Bruno Duarte



Museu Heinrich Schliemann

A "Máscara de Agamémnon", descoberta por Schliemann em 1876 em Micenas.

Espadas e vasos micénios

«Um golpe de picareta nas lajes do Palácio de Príamo produz o milagre há tanto esperado. O coração de Heinrich Schliemann dá um salto. A emoção é demasiado violenta para que possa gritar a sua alegria. Sophie, sua mulher, que trabalha a vinte passos dele, estremece. Tomada por um súbito pressentimento, ergue a cabeça. Lê o seu nome nos lábios de Heinrich. Corre para ele, olha...

A ponta da picareta traçou no solo coberto de poeira um traço amarelo, uma vírgula cheia de sol metálico, pontuação sublime da arqueologia, traço de união que liga, subitamente, o passado ao presente, os homens da guerra de Tróia aos pesquisadores de 1873.

Começam a libertar o objecto, capturado numa massa de terra avermelhada e calcinada. Não pronunciam uma palavra. Sophie com as mãos, Heinrich com a sua faca, cavam, raspam, avaliam a descoberta. Descobrem-lhe as formas: é um cofre forrado de couro. Vivem, a cem pulsações por minuto, um verdadeiro romance de aventuras. Hissarlik, a antiga Tróia, transforma-se subitamente na ilha do tesouro. O acontecimento é incrível.

(...) O que sentem à vista do monte de objectos preciosos não se poderia exprimir. Já não pertencem àquele dia do século XIX, àquele 17 de Junho de 1873. Foram projectados para o ano 1230 antes de Cristo, para a véspera da queda de Tróia; vivem o assalto final, o massacre dos habitantes, o incêndio, os minutos de pânico durante os quais uma mão precipitada atira aqueles milhares de jóias para dentro de um cofre de madeira e couro. A mão de Helena? A mão de uma serva? Os arqueólogos, como os detectives, fazem perguntas a si mesmos. São detectives aos quais falta sempre uma prova, um testemunho, uma evidência, para poderem tirar conclusões.

Heinrich e Sophie, no entanto, não têm o rigor do detective, nem o seu frio raciocínio. São demasiado sensíveis, estão demasiado envolvidos. Os versos da Ilíada acodem-lhes à memória. A alma de Homero habita-os. Não conseguem separar a empresa do grande poema épico grego. O tesouro que resplandece de ouro, mesmo na penumbra da sala, só pode ser o tesouro de Príamo.

E, por um instante, eles são os únicos no mundo a possuí-lo, a vê-lo, a tocá-lo, a enumerar-lhe as maravilhas.

Eis um escudo de cobre tal como o descreveu Homero: é o escudo de Ajax. Este vaso de ouro puro, esta taça de “electrum” (liga natural de ouro e prata), levaram vinho aos lábios de Helena. Estas lâminas de faca em prata, este prato de prata, estes punhais de dois gumes, este elmo de bronze, este vaso para onde foram lançadas à pressa as melhores peças... A mão trémula de Sophie mergulha do interior. Tira dele dois diademas, brincos para as orelhas, pulseiras de ouro (pelo menos sessenta), botões, broches, alfinetes. Ao todo, oito mil e setecentas peças de fino metal. Estas jóias não terão pertencido à bela Helena?».

Paul Ulrich («Os Grandes Enigmas das Civilizações Desaparecidas»).




O RAPTO DA «BELA HELENA» 


Sentei a beleza no meu regaço
Achei-a amarga
E Insultei-a.

RIMBAUD, Uma Temporada no Inferno (1873)

 

Quando contaram a vida de Helena em jovem a crescer em Esparta, os autores da antiguidade não imaginavam que tivesse sido fácil. Para além do seu famosíssimo rapto, perpetrado por Páris, príncipe de Tróia, recordaram que Helena – ainda uma criança – fora violada nas margens do rio Eurotas pelo velho rei de Atenas, Teseu. [1] Teseu tinha cinquenta anos; algumas fontes dizem que Helena tinha doze [2], outras dez [3], outras ainda dizem que tinha apenas sete [4] - já «excedendo todas as mulheres em beleza». A princesa estivera a fazer exercício e a dançar nua com outras jovens virgens, quando Teseu, tendo enviuvado havia pouco tempo, a vislumbrou. Sem olhos para mais ninguém, não resistindo ao desejo, atacou a princesa espartana.

Isócrates, escrevendo no século IV a. C. [5], descreve a forma como, apesar do poder e da posição do rei, Helena se tornou na soma de todos os desejos terrenos: [Teseu] foi de tal forma cativado pela sua beleza, que, acostumado como estava a submeter outros, e embora possuidor de uma pátria grandiosa e de um reino assaz sólido, pensou que não podia viver entre as bênçãos de que já dispunha, a não ser que gozasse de intimidade com ela[6]


Teseu matando o Minotauro

Descobrindo, no início de um Verão, a localização daqueles campos de dança em Esparta, ao longo das margens do Eurotas, perdi-me. [7] Os juncos têm aqui três metros de altura – o perfeito esconderijo para Teseu, enquanto rondava as raparigas. Virando e tornando a virar, dei comigo num dos laranjais que orlam agora o rio às centenas e que cobrem a planície do Eurotas como uma carpete. No campo ao lado, havia mulheres a desbastar oliveiras para permitirem aos ramos superiores disporem de toda a força de que precisavam. À medida que queimavam os ramos, o fumo misturava-se com o cheiro do jasmim que se enrolava em volta dos galhos maduros. Eu estava a investigar a cena de um crime, mas a carga sensual do local era doce e irresistível. Píndaro, poeta do século V a. C., escreveu o seguinte sobre o equivalente subterrâneo grego do céu, Elysium, e poderia ter estado a descrever Esparta naquela calma tarde:

Para eles o Sol brilha com toda a intensidade.

As planícies em volta da sua cidade são vermelhas de rosas

E sombreadas por árvores de incenso, carregadas de frutos dourados.

E alguns divertem-se montando a cavalo, em combates de luta livre, em jogos de mesa e com a lira,

E perto deles desabrocham flores de alegria perfeita.

Há sempre perfumes a pairarem sobre a terra

Provenientes do franquincenso espalhado sobre o fogo do brilho

Profundo dos altares do deuses[8]

Um local pungente para uma violação. [9]


Άρτεμις ("Ártemis das terras selvagens, Senhora dos Animais", segundo Homero).

Há quem diga que Helena estava a dançar num santuário dedicado à deusa Ártemis Órtia, quando Teseu a atacou. Ártemis Órtia era uma divindade híbrida – uma potente mistura de Ártemis, a caçadora virgem e protectora das mães e das crianças, e de Órtia, uma deusa dórica [10] associada à juventude, aos ritos de fertilidade e ao amanhecer. A partir, pelo menos, de 700 a. C. [11], este era um local muito frequentado por mulheres: um número enorme de oferendas votivas, incluindo mais de 100 000 pequenas estatuetas de chumbo, muitas delas de raparigas a dançarem ou a montarem a cavalo, foram aqui descobertas em escavações; pensa-se que algumas representam a própria Helena. [12]


Ruínas do Templo de Ártemis Órtia em Esparta

Hoje o santuário tem sido negligenciado e é feio. Vêem-se velhos sacos de plástico a moverem-se em círculos em volta das ruínas do altar arcaico ou presos na cerca de rede de capoeira que circunda o local. O complexo religioso fica próximo do rio Eurotas e foi construído em solo pantanoso: há melgas a zumbirem de um lado para o outro, por cima das pedras quebradas. Um carreiro acidentado e poeirento leva aos vestígios arqueológicos. Em todas as visitas que aqui fiz, tive sempre companhia inesperada: o acampamento cigano ao fundo da estrada transborda de crianças curiosas e imundas, ansiosas por verem quem é que está a visitar as suas ruínas.

Mas a atmosfera bafienta do local sagrado é estranhamente adequada. Uma das razões que levavam as raparigas da Esparta clássica – primeiro grega e depois romana – a visitarem o local era para celebrarem o início da puberdade. Os rapazes também vinham, para se submeterem a um brutal ritual de passagem. Deparados com um desafio para chegar ao altar da deusa e roubar beijos de lá, tinham de enfrentar com bravura duas filas de chicotes empunhados por adolescentes mais velhos. Enfrentando as chicotadas, os rapazes tinham duas opções: atingir o seu objectivo, ou morrer, esfolados vivos em nome da educação e do desenvolvimento social. O santuário de Ártemis Órtia é um local sórdido, desde há muito banhado em sangue. [13]

E Teseu, como seria de esperar, precipitou o catálogo de carnificina quando aqui veio para levar Helena à força. Este era um herói que vivia com o cheiro do medo dos outros nas narinas. Os antigos contaram uns aos outros histórias sobre a forma como, além de violar jovens virgens, Teseu ficou famoso por ter matado o Minotauro de Creta, por ter tentado raptar Perséfone do submundo e por ter feito amor com a rainha das Amazonas. [14] Mesmo depois da sua morte, o seu fantasma apareceu no século V a. C., uma aparição gigante a correr à frente das tropas atenienses na Batalha de Maratona, incitando-as a avançar até à vitória. Teseu era o género de campeão que Atenas aprovava – a mascote de uma cidade-estado tão famosa pelo seu expansionismo agressivo e implacável, como pela sua arte, filosofia e política.

Diz a história que, após tê-la violado, Teseu encerrou Helena na colina-fortaleza de Afidna, perto de Deceleia. [15]. Enquanto o violador se ausentou para perseguir outra mulher (desta vez, Perséfone) [16], os irmãos de Helena, Castor e Pólux, atacaram a prisão. O rapto da princesa espartana pelo rei ateniense atirara a luva ao clã Lacedemónio. A libertação de Helena foi usada pelos seus nobres irmãos como pretexto para invadirem a Ática: «destruíram o país inteiro» [17], escravizando depois a mãe de Teseu, Etra. [18] A violação da castidade de Helena por parte de Teseu foi lendária, mas o ultraje queimava na mente dos espartanos – transformando-se numa desculpa para mais agressão. Entre 431 e 425 a. C., durante a guerra do Peloponeso, Esparta invadiu a Ática todos os anos. [19] A única região que deixaram incólume foi a Deceleia - em sinal de gratidão para com os homens idosos de Deceleia que, dizia-se, tinham conduzido Castor e Pólux ao esconderijo de Teseu em Afidna. [20]





Batalha de Potideia (432 a. C.): Sócrates salvando Alcibíades

A violação de mulheres de outro grupo social era um acto de desafio que exigia retaliação. [21] A violação de Helena foi uma ofensa tripla: uma incursão em território alheio, a interrupção de um ritual de importância capital (a exibição de dança de raparigas num local sagrado) e, é claro, um ataque a um elemento menor de idade da família real. [22] Os raptos de que Helena foi vítima transformaram-se em contas que era preciso acertar. Na mente dos gregos, Helena, numa tenra idade, começara já a sua carreira como geradora de conflitos.

Os raptos de Helena – tanto por parte de Teseu como de Páris – foram de eterna relevância política para a cidade de Esparta. Os espartanos que dominavam a paisagem clássica eram, de facto, intrusos – dórios que tinham invadido a região em 1050 a. C. Enquanto os rivais de Esparta, os atenienses, afirmavam ser autóctones (nasceram do solo, espontaneamente), uma tribo nascida e criada para governar o território ateniense, os espartanos eram vistos como recém-chegados: um facto histórico a que eram extremamente sensíveis. Promoveram vigorosamente a sua herança antiga – e justificavam a sua reivindicação à posse das terras espartanas por direito, afirmando que eram descendentes directos da bela Helena.

Nos espartanos, Helena encontrou uma base de apoio idiossincrática. Os epítetos «espartano» (austero, resistente, rigoroso) e lacónico [23] (breve, usando poucas palavras) fizeram o seu caminho até à língua dos nossos dias. São mementos próprios de uma sociedade que era, de facto, extrema, rígida e taciturna. Acima de tudo, os espartanos acreditavam no dever e no auto-sacrifício. Tendo ido buscar inspiração a uma figura sombria – possivelmente mítica – chamada Licurgo, o Legislador, baniram o dinheiro, as prostitutas e o perfume e evitavam os enfeites do vestuário muito amados por outras cidades-estado gregas; o verdadeiro espartano vivia descalço e usava a mesma túnica fina e esfarrapada de Verão e de Inverno. Os espartanos desencorajavam a visita de intrusos: numa política codificada conhecida por xenelesia (literalmente «a evitação de estranhos»), proibiam o comércio além-mar. Toda a estrutura social e política era concebida para preservar a «pureza» e a força da cidade-estado espartana.

Embora Esparta fosse totalitária e reservada, os rígidos sistemas político e social dos espartanos eram atractivos para uma parte dos gregos – parecendo garantir a eunomia, a boa ordem. Os «laconófilos» - amantes da Lacónia – incluíam o filósofo Sócrates e o historiador Xenofonte. A eunomia foi em grande parte mantida graças a uma rígida engenharia social. Aos sete anos, os rapazes eram tirados às mães e eram criados na agoge – um campo de treino masculino: o único objectivo da sua instrução consistia em produzir soldados leais e invencíveis. Os homens espartanos não tinham de se preocupar com as mais variadas exigências da vida – o Estado espartano era suportado pelos hilotas, uma população escrava, e pelos perioiko, artífices que viviam «nas redondezas». Os cidadãos espartanos viviam apenas para serem soldados profissionais; um homem só era honrado com uma pedra tumular se tivesse perecido em batalha, e uma mulher se tivesse morrido de parto. Não havia interacção entre as camadas sociais. As mulheres espartanas (em teoria) procriavam exclusivamente com cidadãos espartanos maduros. [24] Uma vez que todos os homens espartanos com idades compreendidas entre os sete e os trinta anos passavam os dias nos acampamentos do exército, e as noites juntos no syssition (a caserna), a gestão do lar e, ocasionalmente, assuntos correntes de Estado recaíam sobre as mulheres espartanas. [25]





Ao contrário dos atenienses, os espartanos desprezavam a busca de riqueza visível e a pompa de monumentos grandiosos. Os espartanos não se preocupavam com o patrocínio artístico em larga escala – nunca construíram um Pártenon. Tucídides, o lúcido e conciso historiador do século V a. C., assinalou que, se Esparta tivesse sido abandonada (e se só tivessem ficado de pé as fundações dos seus edifícios sagrados e seculares), ninguém teria feito ideia, a julgar pela sua magra arquitectura, do quanto era uma cidade importante. [26] Os vestígios da antiga polis são, de facto, escassos, e, porque prometia pouco, Esparta foi um dos últimos locais a ser escavado na corrida que existiu no século XIX entre os Estados europeus para reclamar monumentos antigos. Só em 1906 é que as primeiras pás cortaram o solo da acrópole espartana.

Os britânicos lideraram as escavações em Esparta. As condições eram exigentes, o progresso era lento; Sparti, a cidade neo-clássica de meados do século XIX, fora construída directamente por cima da cidade antiga.[27] Foi então que começaram a surgir da terra intrigantes artefactos. Havia as esperadas estatuetas de soldados hoplitas [28], inscrições que celebram feitos gloriosos em brutais competições de combate corpo-a-corpo e esculturas do Ideal Espartano, o guerreiro perfeito. Mas havia também objectos mais sensuais: belos pentes em marfim, frascos de perfume, delineadores para os olhos de kolhl, espelhos trabalhados e estatuetas em terracota e bronze – raparigas a tocarem instrumentos musicais, raparigas a dançarem, mulheres a cavalo – algumas sentadas de lado, à amazona –, muitos dos quais dedicados a Helena em locais onde esta era venerada. Mas as estatuetas femininas foram colocadas de lado em caixas de cartão e escondidas no fundo de arquivos – e muitas aí permanecem ainda hoje, sem serem perturbadas. Tal desrespeito para com os vestígios dos cultos femininos, incluindo o culto de Helena, seria considerado inconsciente pelos espartanos antigos.

Todos os homens, mulheres e crianças da Esparta antiga viviam com mementos vívidos e tangíveis da sua celebrada antepassada. Em forma de esculturas, inscrições e estatuetas, Helena esteve presente em toda a cidade até ao final da dominação romana. Para além dos locais de culto a ela dedicados no Meneláion e no Platanistas, Helena tinha um altar no centro da cidade, junto aos túmulos do poeta Álcman e de Héracles. [29] Estelas em pedra representando Helena – criadas para serem expostas ao público – foram esculpidas por geração após geração. Uma dessas estelas, do século VI a. C., mostra Helena com o ovo de que nasceu. [30] Noutra, do século II a. C., Helena encontra-se ladeada pelos irmãos, os Dióscoros; ela está impressionante, a cabeça coroada de longos raios de luz – uma representação da esfera celeste. [31] Das mãos pendem-lhe curiosas faixas – para o olho moderno e inexperiente, estes parecem cabos de alhos, mas para os gregos antigos, que sabiam que estas faixas de tecido ou corda entrelaçadas possuíam uma natureza sacra, terão significado o poder ritual de Helena. [32]

A partir do período helenístico [33], as sociedades exclusivas – cujos membros tinham os nomes inscritos em lajes de pedra – organizavam banquetes e sacrifícios dedicados a Helena e aos seus irmãos gémeos. [34] Só aqueles que faziam parte dessas sociedades podiam adorar os filhos de Leda desta maneira. Havia rígidos códigos de comportamento. Um dos funcionários do clube era um gynaikonomos: um indivíduo que garantia que as mulheres na sociedade religiosa se vestiam e se comportavam adequadamente. No período romano, o sacerdócio hereditário – sacerdotes e sacerdotisas – reclamava Helena e os Dióscoros como seus antepassados; os videntes de Helena inspeccionavam as entranhas de animais sacrificados à procura de mensagens divinas. [35] As raparigas espartanas preparavam-se todos os anos para os extravagantes e orgiásticos festivais da Primavera, celebrações das danças juvenis de Helena no santuário de Ártemis Órtia e nas margens do rio Eurotas. O nome de Helena era cantado, a sua memória louvada em ocasiões cívicas formais. Quer o «objecto de desejo do mundo» tenha desfrutado de uma vida mortal quer não, não há dúvida de que ela viveu, com intensidade e nitidez, na mente dos espartanos antigos. Chamamos-lhe Helena de Tróia – para os gregos ela foi, indiscutivelmente, Helena de Esparta. [36]




[1] Higino, Fábulas 79.                                                       

[2] Apolodoro, Epítome 1.23.

[3] Diodoro da Sicília, 4.63.1-4.

[4] Helânico FrGrH 4, 323a: F19 (168b). Helânico (c. 480-395 a.C) foi um proeminente mitógrafo e cronologista, mas hoje sobrevivem apenas fragmentos da sua obra. Autores posteriores certamente consideraram excitante este episódio pedófilo. Um escritor isabeliano – John Trussel, na sua obra First Rape of Fair Hellen (1595) – insiste em que Helena tinha apenas oito anos quando foi violada. Trussel descreve Teseu ofegante e a resfolegar antes de renovar os seus avanços. Outra tradição literária afirma que Teseu sodomizou Helena de forma a preservar-lhe a virgindade: ver Thornton (1997), 85 e n. 45.

[5] Isócrates foi um educacionista ateniense e um panfletista de ideias conservadoras que viveu de 436 a 338 a.C.

[6] Isócrates, Encómio de Helena 10.19. Tradução inglesa de L. van Hook.

[7] Visita ao sítio arqueológico realizada em Maio de 2001.

[8] Tradução inglesa de W. Barnstone (1962), citado em Freeman (1999), 142.

[9] A palavra «rape» (rapto/violação) vem do vocábulo latino rapio, «agarrar». Na antiguidade, não significa necessariamente uma violação sexual, mas encerra a implicação de um rapto pela força.

[10] Rose (1929), 401.

[11] E provavelmente mais cedo. Ver Cartledge (2002), 310.

[12] Thompson (1908-09), 124 e 127.

[13] O chicoteamento até à morte era quase de certeza um acrescento romano.

[14] Plutarco, Teseu 26.

[15] Outras variantes do mito dizem que, na altura, Helena estava grávida de Teseu e deu à luz uma filha – Ifigénia, que depois deixou com a sua irmã Clitemnestra. Pausânias 2.22.6 resume a tradição literária afirmando que Ifigénia era filha de Teseu e Helena: por exemplo, Estesícoro (PMGF 191). Ifigénia cresce para tomar o seu próprio lugar na lenda, como vítima de sacrifício humano (ver Capítulo 27). O destino da menina foi uma história no centro de três das mais poderosas tragédias gregas: Eurípides, Ifigénia em Áulis, Eurípides, Ifigénia em Táuris, e Ésquilo, Agamémnon.

[16] Helânico FrGrH 4, 323a: F20 (134).

[17] Plutarco, Teseu 32.3. Tradução inglesa de B. Perrin. Ver também fragmento 11 da Cípia (comentário sobre Homero, Ilíada 3.242): «os Dióscoros, não conseguindo encontrar Teseu [em Afidna], saquearam Atenas». Tradução inglesa de H.G Evelyn-White.

[18] Diodoro da Sicília dá-nos uma versão desta história: 4.63.1-4. Trata-se de uma parte da sua Biblioteca, de doze volumes, uma história universal dos tempos mitológicos até 60 a.C., escrita no Egipto e em Roma de 60 a 30 a.C.

Guerra do Peloponeso

[19] Em 432 a.C., os espartanos tinham declarado guerra a Atenas. O seu plano consistia em incendiar os campos de cereais atenienses e forçar os atenienses a saírem e a defrontá-los numa batalha em que adoptariam uma posição fixa. Para uma cidade-estado de soldados profissionais, a vitória, imaginavam os espartanos, seria rápida. Mas os atenienses eram demasiado astutos para morderem o isco. Bem ligados a abastecimentos externos de comida através do seu porto do Pireu, os atenienses não se apressaram a defrontar os espartanos. Em vez disso, esperaram para montar uma acção militar defensiva em larga escala nos seus próprios termos – o êxito de Esparta não seria fácil. Durante os vinte e sete anos seguintes, haveria vitórias e derrotas, à medida que cada potência testava os pontos fortes e as fraquezas da outra. Só quando os espartanos pegaram no ouro persa e usaram a sua riqueza acabada de encontrar para se tornarem uma potência marítima e também uma potência terrestre  é que o pêndulo começou a inclinar-se para o seu lado. Os aliados de Atenas – à excepção de Samos – pressentiram a derrota e a vulnerabilidade do seu senhor e, um por um, desertaram para a causa espartana. Para uma visão geral da história de Esparta, ver Cartledge (2002).

[20] Heródoto 9.73 e Tucídides 7.19.1.

[21] Os casos de violação parecem ter estado mais relacionados com afrontas à honra da cidade ou oikos do que com questões de consensualidade. Violações lendárias eram muitas vezes citadas como catalisadores históricos e políticos; cf. A violação de Lucrécia e a violação das mulheres sabinas. Ver R. Omitowoju (1997), «Regulating rape: Soap operas and self-interest in the Athenian courts», in S. Deacy e K.F Pierce (eds), Rape in Antiquity (Londres, Dukworth), e R. Omitowoju (2002), Rape and the Politics of Consent in Classical Athens (Cambridge, Cambridge University Press).

[22] O rapto de Helena por Páris foi criado por líderes militares no período clássico. Por exemplo, no seu discurso fúnebre de 322 a.C., o orador Hipérides diagnostica as acções do general grego Leóstenes no final do primeiro ano da Guerra Lamiana como um meio de defender todas as mulheres gregas da ofensa de hubris. Uma ofensa duas vezes sofrida por Helena.

[23] Palavra derivada do interior de Esparta, a Lacónia.

[24] Aos raros descendentes de sangue misto dava-se o nome de mothakes.

[25] Dado que a todos os cidadãos adultos do sexo masculino, «esparciatas», era permitida apenas uma profissão – a de soldado – os espartanos constituíam uma força a ter em conta. Não admira, pois, que tenham mantido uma briga do género ora-agora-empurras-tu-ora-agora-puxo-eu com a outra cidade-estado mais importante do período, Atenas. Por vezes, estas duas cidades eram aliadas chegadas, outra vezes eram as mais cruéis das inimigas. O conflito foi inevitável, à medida que cada uma delas se entrincheirava nos seus próprios ideais sociais e políticos – finalmente, em 404 a.C., após uma guerra longa, cruel, sangrenta e insatisfatória, Esparta triunfou, decisivamente, sobre Atenas. E os guerreiros espartanos derrubaram as muralhas da polis ateniense. Flautistas atenienses (prostitutas que viviam fora das muralhas da cidade) rapidamente mudaram de lado e, dançando entre as chamas, sobre os corpos dos atenienses mortos, celebraram o fim de um império. Xenofonte, Hellenica 2.2.23. Esparta passou os trinta e cinco anos seguintes a dominar grande parte do mundo grego.

[26] Tucídides 1.10.2

[27] Com excepção da acrópole, do teatro e do Meneláion, quase todas as escavações em Esparta estão agora classificadas como «arqueologia de resgaste» – os trabalhos só podem começar quando um lote de terreno é limpo para fins de desenvolvimento urbano ou quando o anexo de alguém cai, revelando, ao cair um passado antigo nas suas fundações.


Hoplita espartano

[28] Os hoplitas constituíam a maior parte do exército espartano. Todos os cidadãos espartanos de sexo masculino ou «esparciatas» que tivesse concluído o sistema da agoge tinham de servir como hoplitas.

[29] Pausânias 3.15.3.

[30] Cartledge (2001), 150 e 161; ver também L.H. Jeffrey (1961), The Local Scripts of Archaic Greece: a study of the origins of the Greek alphabet and its development from the eighth to the fifth centuries BC (Oxford), 200, n. 24; M.N. Tod e A.J.B Wace (1906), A Catalogue of the Sparta Museum (Oxford, Clarendon Press), 178, n.º 447.

[31] Este toucado ritual chama-se polos e poderia talvez estar relacionado com o polos usado pelas mulheres micénicas em circunstâncias rituais.

[32] Para uma interpretação astrológica desta imagem, ver Richer (1994).

[33] Os cultos podiam ter sido estabelecidos mais cedo, mas os primeiros vestígios existentes são helenísticos.

[34] É fácil compreender por que motivo Helena e os irmãos terão sido adorados tão entusiasticamente em Esparta – afinal, Castor e Pólux eram considerados os protectores da cidade, e Helena o seu emblema de feminilidade perfeita, mas é interessante que a popularidade do culto se tenha espalhado. Imagens de Helena e dos irmãos em moedas da Ásia Menor quase de certeza que são testemunhos da disseminação do culto muito para além do continente grego. Ver Larson (1995), passim.

[35] Para uma discussão mais alargada do assunto, ver Spawforth (1992), passim.

[36] Helena era também conhecida por Helena Argiva.



«Na epopeia homérica, a sua genealogia é ainda clara: filha de Zeus e de Leda, seu pai “humano” é Tíndaro e seus irmãos são os Dioscuros, Castor e Pólux. Sua irmã é Clitemnestra. Muito cedo, porém, Helena foi considerada filha de Zeus e Némesis. Némesis, fugindo de Zeus, teria percorrido o mundo inteiro, assumindo toda a espécie de formas. Por fim transformou-se em gansa. Zeus por seu lado transformou-se em cisne e sob esse disfarce uniu-se-lhe em Ramnunte, na Ática. Em consequência dessa união, Némesis pôs um ovo que abandonou num bosque sagrado. Um pastor encontrou-o e levou-a a Leda que o pôs num cesto; na altura devida, o ovo abriu-se e dele nasceu Helena, que Leda criou como se fosse sua filha. A tradição que faz de Leda mãe de Helena contava, de forma semelhante, que Zeus se lhe unira sob a forma de cisne e que ela pusera um ovo donde saíra sua filha. Ou então pusera dois ovos de onde haviam saído, de um Helena e Pólux, de outro Clitemnestra e Castor. A menos que Helena, Castor e Pólux tenham saído do mesmo ovo, enquanto Clitemnestra, filha de Tíndaro, nascia de modo natural.»

Pierre Grimal («Dicionário da Mitologia Grega e Romana»).


Nascimento de Helena de Tróia