terça-feira, 14 de julho de 2026

O ensino da teologia e a filosofia portuguesa

Escrito por Álvaro Ribeiro



 

«Um professor pergunta a um aluno se ele reza. Este diz que sim; então o primário manda-o ajoelhar-se e pedir-lhe pão. Depois da pobre criança pedir pão a Deus, o primário pergunta – Deus deu-te pão?

Não, responde a criança. Então pede-o ao camarada comunista. O pequeno obedece...  este louco, este deus primário entrega-lhe um pouco de pão... demonstrando assim a não existência de Deus (!!).»

Leonardo Coimbra («A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre»).

 

«O ateísmo é, filosoficamente, um caso de analfabetismo, sem que da comparação com o analfabeto resulte depreciação injusta das virtudes e das razões do ateu. Nenhum homem culto pedirá que lhe mostrem a existência de Deus pelos processos das ciências de observação e de experimentação, nem solicitará que lhe demonstrem a essência de Deus por subtilezas da razão discursiva. O homem culto ou letrado conhece o que obsta a que se torne imediata e patente aos nossos olhos a divindade; o homem culto ou letrado não toma o ateísmo por conclusão necessária do agnosticismo.»

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


«Cabe ser extremamente cauteloso e prudente quando se fala de agnosticismo e ateísmo. Pois assim como os crentes, no passado mais distante, e ainda também em nossos dias, simplisticamente desatendem a funda indicação de S. Paulo segundo a qual “há muitas moradas na casa do Pai”, assim também, no século passado e no presente, ensaístas, filósofos até, desatendem com frequência que designações como agnóstico ou ateu correspondem a diversíssimas situações reais perante o mistério do Ser ou perante o que seriamente caiba admitir como Deus ou divino, e ainda também perante o que valorativa ou desvalorativamente se designe por transcendente, ignoto ou incompreensível. Em relação com o que estamos tratando cabe notar que, em Portugal e na Europa, uma parte dos filósofos ou dos homens cultos se obstinam em não atender toda a importância da noção kantiana, ou já husserliana, de transcendental. É tão obstinado o sentido da “imanência desorbitada”, tão absorvente em pensadores lógicos e dialécticos a confusão entre noções mais restritamente lógicas e noções onto-teológicas ou onto-fenomenológicas, que se vai de geração para geração dificultando o possível esclarecimento ou o mínimo acordo possível quanto aos termos, para ser simplesmente viável algum diálogo autêntico entre filósofos ou homens com responsabilidades de pensamento.»

José Marinho («Verdade, Condição e Destino no Pensamento Português Contemporâneo»).

 


«Lembrando os nomes de Carlos Darwin, Herbert Spencer e Henrique Bergson, entre os pensadores que mais contribuíram para o desaparecimento da antropologia fixista, e que encerraram a era da filosofia mediterrânea para abrirem a da filosofia atlântica, não podemos deixar de evocar os estudos geográficos dos Portugueses e as consequentes navegações em busca das ilhas afortunadas no Oriente, – dando a esta palavra o significado mais alto, que não é o do ponto cardeal onde nasce o sol, mas o de luminosa e divina origem do Ser. Doutrina evolucionista é somente a que se refere à antropologia, à evolução da humanidade, pelo que não convém usar da palavra evolução no estudo das várias doutrinas transformistas das espécies biológicas. A antropologia evolucionista, que pode ser expressa sem contradição das verdades tradicionais, demonstrando que o homem primitivo era diferente do homem decaído, mortal e ocidental, permitirá talvez resolver alguns problemas de teologia bíblica e de apologética religiosa que por enquanto atormentam as consciências piedosas.

A verdade criacionista de que Deus moldou o homem à sua imagem e semelhança, não oferece dificuldade a quem pensar no tempo imenso, no tempo imensurável, que mediou entre o nascimento de Adão e o primeiro pecado a que todas as tradições se referem e a cuja obscuridade relacionam um cataclismo cósmico. Talvez nos seja lícito até representar esse período adâmico, idílico e edénico antes do que contamos hoje como tempo, antes da periodicidade, antes da história. Assim revistas, as nossas ciências positivas, como a paleontologia, a anatomia comparada e a embriologia, que estudam a Natureza já alterada pelo sofrimento e pela morte, não fornecem aos descrentes argumentos que necessariamente refutem e invalidem a tradição que fez doutrina entre povos de diferentes civilizações.

Impiedosas pareceram sempre, aos olhos dos filósofos, todas as tentativas de aplicar aos acontecimentos pré-históricos a gnosiologia positivista, e, portanto, de ver na letra dos livros inspirados e sagrados a confirmação dos raciocínios conjecturais das ciências de observação e de experimentação. O pensamento gnósico não poderá fazer mais do comparar o presente com o passado, comparar o corpo humano com a matéria orgânica existente antes de Adão, violentar por conjectura intelectualista um segredo natural, se não um mistério divino. Ao pensamento sófico repugnará a representação minorada nos quadros empíricos do espaço e do tempo, e ao pensamento pístico nunca as fórmulas da razão discursiva hão-de parecer suficientes para descrever o processo por que a humanidade foi criada por Deus.

A dignidade que o corpo humano reveste na configuração apolínea e a beleza que ele assume no ambiente natural, por muito que signifiquem esteticamente, não são atributos que nos obriguem a ver nessa imagem o tipo mais elevado, ou arquétipo, da antropologia. O formalismo estético não nos parece muito compatível com a mobilidade indispensável ao conceito de encarnação. O aprofundamento dos problemas humanos conduz-nos aos segredos naturais, e estes, por sua vez, nos remetem para os mistérios divinos.


Expulsão de Adão e Eva, por Alexandre Cabanel.

Toda a maravilha da infância se nos apresenta mais lúcida quando relacionada com o conceito de evolução, porque se o infante é aquele que tem dentro de si o verbo, mas ainda não fala, de sempre a humanidade superou a animalidade. A criança inocente, que há-de falar, tem dentro de si o sinal da origem divina. Eis o que explica a analogia entre a evolução e a educação, eis o que justifica a educação religiosa, na variedade e liberdade de cultos.

Quem medite na significação do sacramento do nome, que é o baptismo, não terá dificuldade em a relacionar com a tríade Letra-Verbo-Espírito. A própria liturgia cristã, com a água e o sal, com a água salgada, parece querer dar ao infante a possibilidade da fala, e, portanto, a possibilidade da oração. Os outros sacramentos, mais filosóficos, promovem a educação, e, com a educação, a evolução integral da humanidade.

Se relacionarmos a teologia com a eternidade, a antropologia com o tempo e a cosmologia com o espaço, para acertarmos a nossa terminologia, compreenderemos que o conceito de evolução só no bergsonismo atinge pleno sentido. A antropologia existencialista, descrevendo embora a situação do homem no tempo, abstém-se de recorrer àquele conceito que em si contém implicações cosmológicas e teológicas.  A afinidade entre o tempo bergsonista e o movimento aristotélico, aliás cedo apontada pelos críticos, refuta a possibilidade de contagem do tempo pelo movimento de deslocação, ou movimento mecânico.»

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).

 

«O homem foi criado por Deus, mas a criação não cessou com a queda do homem na história, depois do pecado original. A razão imagina pelo estudo científico do homem actual a antropologia revelada pelo texto sagrado, mas porque seria impiedade alterar uma letra deste texto tem de considerar pseudo-científicas as conclusões do evolucionismo darwinista.

Observando o homem existente, verificamos pela figura que o corpo ostenta – a posição vertical – e pela liberdade de movimentos, harmónicos com a autonomia da cabeça; pelas expressões da sua imaginação significando uma certa iniciativa; pelo dom da palavra e relativo exercício do raciocínio verificamos que ainda conserva os vestígios da primitiva realeza adâmica, hoje perdida. Tudo se passa, porém, como se ele fosse, de facto, um animal inteligente e munido de vontade somente: Também os outros animais são munidos de vontade e de inteligência; sempre que querem alimentar-se ou reproduzir-se têm aptidão para relacionar os meios com os fins e é essa aptidão que caracteriza a inteligência. No homem a relação dos meios com os fins é mais complexa, a sua inteligência animal exprime-se superiormente nas várias ciências económicas e financeiras. É este um modo de dizer irónico que Álvaro Ribeiro utiliza para chamar o homem para mais nobres e altos fins, aqueles a que, segundo a sua natureza, há-de aspirar se tomar consciência de que é um artista, isto é, uma pessoa dotada de razão e de imaginação. Como é que é possível que só alguns homens tomem consciência disso? É que, na maioria dos homens, a imaginação, presa à carne que de si criou, arrastou consigo a razão para formas de perversão em que as palavras ou significam sentidos, isto é, as imagens do mundo sensível ou se articulam por abstracções entre a técnica e a metafísica.


A mulher, o homem e a serpente, por Byam Shaw (1911).

O pecado original é um pecado de imaginação ou, se preferirdes por ser mais claro, um pecado de magia. Álvaro Ribeiro insurge-se contra as explicações do pecado original que nele vêem a relação carnal entre o homem e a mulher. Já Adão tinha conhecido Eva quando se deu o pecado de que temos notícia pelo Génesis.

Há uma degeneração na carne que serviu de carro ou de veículo ao amor de Adão por Eva quando ele a conheceu. Os cinco sentidos ou sensos, como prefere dizer Álvaro Ribeiro, puras irradiações do sentido interno, o sensorium communis dos escolásticos, pelo pecado original emergiram na carne e a imaginação passou a confundir-se com a sensação. Com efeito, sem a imaginação não seríamos capazes de reconhecer uma rosa. Sem a imaginação nunca a sensação seria percepção.

Deixemos, porém, este assunto que é o mais difícil e misterioso da obra de Álvaro Ribeiro, mas retenhamos a ideia de que o homem é uma tríade vivente composta de corpo, alma e espírito. A alma é mediadora entre o corpo e o espírito em analogia ou correspondência da imaginação entre a sensação e a razão.»

António Telmo («Teoria da Imaginação em Álvaro Ribeiro», in Álvaro Ribeiro e a Filosofia Portuguesa, Ciclo de Palestras).

 

«A antropologia fixista é desesperante para quem considere a actual situação do homem no mundo. A doutrina evolucionista, pelo contrário, abre a porta à esperança que se nutre de especulações filosóficas. Tal é o significado da afirmação, já divulgada, de que o homem é ser que vive no tempo.

Compreende-se, por isso, que todos os pensadores cristãos tivessem reagido contra a interpretação darwinista da antropologia evolucionista. Situar o homem no mais alto grau da escala zoológica, e, distingui-lo dos outros animais por certos predicados e epítetos, para depois conjecturar que ele ocupa esse posto em consequência de obscuras forças biológicas ou químicas, é reduzir a criação e sua admirável enteléquia a uma interpretação progressivista de obscuridade entre o ponto inicial e o ponto final. Se o corpo é a substância e a alma o acidente, ou se o corpo é mera forma que naturalmente está sujeita a transformação, geração e corrupção, – não há lugar para o princípio de semelhança ou de analogia entre o homem e Deus, não é sequer possível a religião.

Graves responsabilidades são as dos teólogos que por métodos positivistas pretendem fazer a apologia do Génesis. O erro de considerar a paleontologia como pré-história obriga a explicar positivamente o aparecimento tardio do corpo humano no plano da criação e a aceitar princípios que não se integram na doutrina religiosa. Estabelecer a compatibilidade dos livros sagrados com os livros científicos não é suficiente nem eloquente afirmação das verdades tradicionais.

God Judging Adam by William Blake, 1795.

A dúvida não se resolve pelo dualismo. O que importa é interpretar o pecado original e a queda de Adão, substituindo os conceitos positivistas por outros mais depurados, para que numa gnosiologia transcendente seja dado mais perfeito significado a termos discutíveis como carne, terra e matéria. Saber que o mundo sentido não é todo o mundo sensível – é saber que facilita a intelecção da ontologia do mal.

Qualquer concessão às hipóteses sobre as quais assenta o transformismo impede-nos de ter sentimento de admiração pela Natureza, retira fundamentação e legitimidade à Ética, dá-nos a triste visão calvinista e moderna, tão genialmente sumariada nos pecados contra o Espírito Santo. Esse calvinismo, de que o senso-comum está por demais infectado, leva a ver sempre no jogo, na arte e no divertimento apenas veículos do mal, que é preciso proibir, reprimir ou fiscalizar, a ver, enfim, em todas as formas de júbilo, de alegria e de prazer, incessante perigo para a moral. A insistência nas palavras penitência, expiação, sacrifício enegrece o entendimento do culto, pelo que tira à vida religiosa o aspecto superior de gratidão para com os benefícios presentes no reino da Natureza e de esperança na vinda do reino de Deus.

Explica-se, por isso, a preferência dos filósofos pela “visão franciscana da vida”. Explica-se, também, a presença da tradição franciscana na Terra de Santo António. Entre um povo para o qual a santidade não está necessariamente relacionada com a ascética e a mística, e muito menos com a austeridade voluntariosa e a seriedade sombria, não é de estranhar que seja grande a devoção por S. Francisco de Assis, o santo jogral ou trovador de Deus, para quem não foi escândalo transmutar a Folia em Sofia.

O pensamento indutivo, que pela transparência dos mitos sóficos se habitua a ver a luz da fé, rejubila ao reconhecer também a possibilidade sacramental de educação da humanidade. O que hoje se chama sacramento foi outrora chamado mistério. A mediação verbal, que é apreendida na linguística, na estilística e na lógica, têm o seu complemento religioso no estudo estético da Natureza.

Eliminando a queda ou o pecado original, a antropologia darwinista de certo modo renova ou restabelece a heresia pelagianista, contrária à educação e à evolução. Mas a verdade tradicional nunca desaparece da consciência humana, que sempre manifesta ou exprime repugnância pelas doutrinas que a prendem à escala zoológica e assim negam a possibilidade da vida religiosa e a esperança de libertação. A natural aversão do homem pelo trabalho, especialmente pelo trabalho sem arte e sem jogo, a sua difícil resignação perante a lei da morte, a sua perplexidade interrogativa pelo destino de além-túmulo, significam muito mais para a antropologia do que todas as impiedosas conjecturas sobre a origem da terra, da carne e da matéria.




Na firmeza com que o homem defende as opiniões, as crenças e as preferências que o singularizam e separam dos seus conterrâneos e contemporâneos, na identificação do seu pensamento com o seu próprio ser, reside o estímulo que o leva a filosofar. Há um obscuro heroísmo na luta pela expressão adequada ao íntimo pensamento que, por considerar valioso, o estudante quer comunicar, sem escândalo para os seus conviventes. Se ao artista inspirado, que em suas obras revele demasiada liberdade de concepção, o senso-comum não perdoa e logo apela pela interpretação do psiquiatra, do carcereiro ou do preceptor, para que não mais se repita o escândalo de a arte contradizer o que se observa no mundo sensível, – contra o escritor mais ousado podem surgir as acusações infamantes que outrora entravam em processo judiciário e levavam às consequentes sanções da lei.

Nem a todos os homens é dado atingir aquele grau de nobreza em que se respeita e protege a liberdade de pensamento conceitual e imaginal. Por isso vemos tantas obras de filosofia apresentadas, no tribunal da crítica, como livros de apologia. Muitos pensadores escrevem, não como pensam, mas como se tivessem chegado a formular os seus filosofemas pelos métodos usados nas ciências, ou, melhor, pelos processos de análise, observação, experimentação e cálculo.»

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).

 

«“No silêncio e na solidão é que preferimos servir por fidelidade a uma vocação espiritual”. Álvaro está maduríssimo, na plenitude da idade da razão. O estudo dos pensadores, principalmente de Bruno e de Leonardo convence-o de uma continuidade filosófica na vida portuguesa, através dos acidentes e, até, das omissões. Dedicado a Francisco da Cunha Leão (em evidente agradecimento por ter criado as condições para a “Colecção Filosofia e Ensaios”, uma vez que o autor de O Enigma Português era administrador, com sua mulher, D. Leonor, da Livraria Guimarães), o livro Apologia e Filosofia, escrito em 1952, e aparecido em 1953, parece um solilóquio, mas é um diálogo oculto. Nele, em dezoito capítulos, Álvaro aborda aqueles problemas que maior debate suscitavam no grupo, desde as questões mais simples da história da filosofia (aliás, o primeiro capítulo é uma admirável síntese dos tópicos e dos tropos da transição do mais antigo aristotelismo para o mais moderno positivismo) às mais complexas da Metafísica, da Psicologia Racional e, por concomitância, da Teodiceia. Na maior parte dos capítulos, o autor trata as questões aos pares, num itinerário em escadaria, subindo do facto para a ideia, da história para a filosofia e, enfim, do natural para o sobrenatural, ou da Palavra para o Verbo. Este livro, epístola, ou diálogo sob a forma de solilóquio, poderá descrever-se como uma introdução filosófica à compreensão da filosofia, com uma deriva para a compreensão filosófica dos característicos típicos do que ele entendia por Filosofia Portuguesa. Processa a dedução lógica aos seus livros anteriores, na ordem das teses, uma vez aduzidos alguns preliminares históricos. Aqui, e pela primeira vez com juízo afirmativo, Álvaro propõe a existência de uma filosofia portuguesa, que logo pôs em contraste com a filosofia alemã, nas admiráveis e pouco atendidas páginas do prefácio a A Origem da Tragédia de Nietzsche (1954), em que afirma que a filosofia portuguesa, por suas verdades cifradas, é superior à alemã. Afirmação gratuita? É melhor deixar o enigma parabolar permanecer.



Solicitava-se de Álvaro o compêndio iniciático. Veio ele na forma de um livro de ensaios. A Arte de Filosofar (1955) que abre com a famosa distinção entre os conceitos de filósofo e escritor, ou de filósofo e autor de livros e a valorização soberana do “secreto pensamento”. É o texto mais difícil de Álvaro, e, no entanto, poderá ser entendido como a segunda parte do chamado Apologia e Filosofia.



Aduzidos os princípios, propõe-se a razão universal e a sua incarnação na razão portuguesa. É por isso que Álvaro dedica o livro “A José Régio, Poeta do Mistério da Encarnação”, e esta dedicatória é uma epístola a Régio, para lhe dizer que, afinal, o secreto pensamento incarna, e que a razão universal não deixa de ser razão situada. Eis o método, contemplativo: “ascender da palavra escrita à palavra ouvida, como quem transita do sólido para o fluido, não se contentar com ouvir mas tentar imaginar, para que a razão mais subtil atinja o grau de inteligência”. Caminhar da cultura para o culto, do evidente para o oculto. Do natural para o sobrenatural. Da palavra para a ideia.»

Pinharanda Gomes («A “Escola Portuense”).

 

«Cabe também não esquecer, quanto ao problema da crise da metafísica, a obra de Álvaro Ribeiro, particularmente Apologia e Filosofia e Arte de Filosofar

José Marinho («Verdade, Condição e Destino no Pensamento Português Contemporâneo»).

 

«A ideia de Deus, - e dizer a ideia de Deus é afirmar a realidade de Deus – havia sido o princípio e a origem da filosofia portuguesa. Foi Sampaio Bruno quem a expôs e, por isso, Álvaro Ribeiro o reconhece, a ele e não a Leonardo, “o fundador da filosofia portuguesa”.

A ideia de Deus, em Bruno, não é, como na filosofia alemã, a de um Deus morto, mas a de um Deus diminuído e prisioneiro, o que explicará a existência do mal e do erro. Do mal, na natureza. Do erro, no homem.

Duas vias divergentes aí se abriram: a que, perante o Deus prisioneiro, orienta o espírito para a sua libertação, e foi essa a filosofia de José Marinho; e a que, desviando os olhos e a mente de qualquer diminuição de Deus, atribui a existência do mal aos erros dos homens que, a esses sim, se impõe redimir do mal libertando-os do erro, e foi essa a filosofia de Álvaro Ribeiro

Orlando Vitorino («As Teses da Filosofia de Álvaro Ribeiro»).






O ENSINO DA TEOLOGIA E A FILOSOFIA PORTUGUESA

A escola portuguesa de filosofia que Leonardo Coimbra fundou em reacção contra o positivismo no primeiro quartel deste século, tem de comum com a escola, também portuguesa, de Sampaio Bruno a reivindicação do primado da teologia sobre as ciências especulativas. Ninguém deverá estranhar, portanto, que entre os discípulos de Leonardo Coimbra haja quem defenda o restabelecimento da Faculdade de Teologia na Universidade Portuguesa e, mais ainda, o ensino da teologia católica em alguns dos nossos cursos superiores.

Uma sistematização tradicional do saber humano reduz a três as disciplinas filosóficas: teologia, antropologia e cosmologia. Quaisquer outras disciplinas, teóricas ou práticas, não podem estar senão subordinadas a esta tríade. A Teologia tem, evidentemente, o primado porque só dentro dela é lícito falar de verdades eternas. A antropologia, pelo contrário, tendo como objecto de estudo um ente sujeito ao tempo, é disciplina passiva de devir existente, quer se adopte o conceito naturalista de evolução, quer se aceite o conceito tradicionalista de redenção, no estudo das vicissitudes do homo viator. A cosmologia, como sabemos, é elaborada com certezas provisórias ou instantes, ou, quando muito, assentes em hipóteses e em teorias que os investigadores não receiam substituir na melhor oportunidade.

Esta sistematização do saber humano não condiz com a classificação das ciências que enciclopedistas e positivistas trouxeram no século passado para o nosso País, classificação que transparece na ordenação actual das faculdades universitárias. Há ainda quem fale nas «conquistas definitivas da ciência», referindo-se à matemática e à física, para classificar o saber humano segundo uma escala ascendente ou descendente de utilidade. São os pensadores que, abstendo-se de meditar sobre o tempo e sobre a história, fatalmente se equivocam quando falam de cosmologia, antropologia e teologia.

Pretendemos, assim, eliminar a objecção de que o ensino da teologia nos cursos superiores, longe de obedecer a fins de educação pública, corresponderia a intentos de propagação da fé ou da política retrógrada. Contra essa objecção intempestiva, julgamos ser para os estudos humanistas o conhecimento da teologia católica tão indispensável como o da história pátria. Ora ninguém dirá que a disciplina de História de Portugal foi instituída para justificar a acção dos nossos reis e governantes, ou para despertar nos estudiosos maior paixão nacionalista.




A teoria da verdade que fundamenta a teologia dogmática não está condicionada pelo tempo. Diríamos, porém, que ela atrai o nosso pensamento muito mais para o futuro do que para o passado, e que, esclarecendo-nos, não tanto nos necessita como nos liberta. Habilitado o estudante a separar os dogmas, e também os artigos de fé, de tudo quanto se lhe afigure mera doutrina susceptível de controvérsia, em breve compreenderá que no estudo da teologia está exercendo aquela liberdade de pensamento que a Igreja Católica nunca deixou de defender.

Liberta-se também o descrente de atribuir à teologia católica alguns pensamentos que abusivamente se encontram em livros inferiores, e habitua-se a um rigor de expressão que lhe dará vantagens na arte de discutir. Quem falar, como iluminista, em nome da razão, deixará de confundir, no mesmo campo de irracionalidade, os mais vulgares absurdos com os augustos mistérios da fé. Referimo-nos em especial ao Mistério da Santíssima Trindade, cuja meditação obriga a esclarecer superiormente os conceitos de pessoa e de liberdade, tão importantes para a ética implícita na filosofia portuguesa.

Várias sistematizações teológicas existem entre as quais poderá o estudante escolher a que convier à sua vocação espiritual. A possibilidade de escolha não é suficiente, porém, para definir a liberdade. Livre é o homem que pode com certeza julgar-se autor.

Nutrimos, de há muitos anos, a convicção de que aos teólogos portugueses não seria muito difícil constituir uma síntese dogmática que perfeitamente se harmonize com a religiosidade peculiar do nosso povo. Não nos cumpre dizer em que sentido e com que critério. Limitamo-nos, modestamente, a observar que sem a prévia referência a uma determinada sistematização teológica deixa de ter precisão suficiente o que se disser a respeito da filosofia escolástica.



Acontece, por isso, que entre as pessoas que estão a ver com simpatia o movimento de renovação dos estudos escolásticos no nosso País, algumas se perturbam com o receio, talvez não fundamentado, de que uma vez mais fiquemos em filosofia subordinados a uma escola francesa. A maioria de referências a autores franceses e belgas de certo modo justifica a prevenção dos observadores. Convém, por isso, ter sempre presente que nem tudo quanto se discutiu na Europa Central, desde a Reforma ao Romantismo, merece ser transplantado para os domínios da nossa cultura, mediante recensões, refutações ou adaptações que não condizem com a linha de evolução do pensamento português.

Constituída por professores de nacionalidade portuguesa a Faculdade de Teologia, logo o ensino da ciência divina adquiriria forma que servisse de modelo para outras escolas universitárias. Nas Faculdades de Letras o ensino da teologia deveria ser ministrado no primeiro ano de cada curso. Os estudantes de filologia românica e de filologia germânica ficariam assim habilitados a interpretar obras literárias que não podem ser perfeitamente compreendidas senão pelas directas ou indirectas, mas quase sempre subtis, relações com a teologia católica; os estudantes de filologia clássica ficariam habilitados a situar adequadamente os cultos pagãos na escala fenomenológica para a religião absoluta.

A universalidade da teologia tem sido compatível com as filosofias nacionais. Não o é porém, com a lei dos três estados, nem com a divisão da história da filosofia em antiga, medieval, moderna e contemporânea. A teologia é, pois, digna de ocupar no ensino superior o lugar que lhe é atribuído pelas escolas portuguesas de filosofia.

(In A Semana, ano 1.º, n.º 47, Lisboa, 2 de Fevereiro de 1952, supl. «Das Artes e Das Letras», n.º 2, pp. 1-2).




quinta-feira, 9 de julho de 2026

Letras clássicas: pontos de referência para uma renovação metodológica

Escrito por Eudoro de Sousa


«Julga o vulgo – e este juízo do vulgo é acolhido até por teorizadores da reforma do ensino universitário – que a filologia consiste no mero estudo das línguas, mortas ou vivas, segundo uma tendência predominantemente analítica que se detém perante os inertes elementos gramaticais. As respeitáveis figuras do jornalista Cândido de Figueiredo e do professor Epifânio da Silva Dias ilustram o tipo do filólogo português que continua a apresentar semelhantes exemplares ao mundo contemporâneo. É claro que o escritor autêntico, aquele que de algum modo é criador de nova expressão e de novo estilo pela virtude secreta da originalidade pensante, marcará uma atitude quase hostil para com o filólogo que se mantém na classificação torturante e dissolvente do idioma registado pela escrita. As Faculdades de Letras oficializam e estabelecem esta posição: admitem que ao lado de cadeiras de filologia haja cadeiras de literatura, para que numas e noutras se possam sentar os representantes de tendências antagónicas. Subtis expressões de ironia ocultam uma discórdia latente. 

A conciliadora verdade é que a filologia não se define no estudo analítico da língua. A filologia percorre todas as expressões orais, escritas, ou de outro modo figuradas, em que se afirma o espírito de cada povo. O filólogo estuda a arqueologia, as artes plásticas, o culto, as instituições políticas, as ciências, a filosofia; o filólogo pretende compreender o logos, caminha do particular para o total, ou, melhor, para o universal.

Há, efectivamente, o preconceito de que pelo estudo da língua se encontra a chave da civilização; mas este preconceito não justifica que o filólogo fique sempre à porta, ou na fronteira, por moroso e difícil que seja o estudo gramatical.»

Álvaro Ribeiro («Faculdade de Filologia», in Dispersos e Inéditos, I, 1921-1953).

 


«Congratula-se o autor por o destino o haver dado a esta tão deslumbrante língua portuguesa. Foi ela uma língua singular na história da civilização que ainda predomina no mundo. Porque só aprendem a significação de seus termos e combinações os que têm o saber imediato de os referir aos étimos e paradigmas latinos, o português é, mais do que uma língua românica ou derivada, um dialecto do latim, como o castelhano, o italiano e o francês. Contém, todavia, expressões sintácticas, morfológicas e fonéticas que permitem ligá-lo directamente ao grego, ao hebreu e ao árabe, e até, numa concepção que faça derivar as línguas umas das outras, defender a tese de que sua origem não está no latim. Foi, entre todas as línguas europeias modernas, a que primeiro alcançou uma perfeita capacidade descritiva (Fernão Lopes é anterior a Froissart) e a mais difícil capacidade conceptiva (D. Duarte é o primeiro filósofo que escreve em vernáculo); só na expressão poética foi precedida pelo italiano, com Dante e Petrarca antes de Camões. Contém, ao mesmo tempo, a maior riqueza de vocábulos entre todas as línguas, e os fonologistas observam que só o inglês se lhe pode comparar na variedade de sons e articulações. Primeira língua, portanto, a atingir na Europa moderna a plenitude da expressão, vai também ser a primeira a extinguir-se. Ao aproximar-se agora o seu fim, reúne nestes últimos breves decénios – como aconteceu na Grécia e porque “a ave de Minerva levanta voo ao anoitecer” – os seus mais poderosos filósofos e poetas: Bruno, Leonardo e José Marinho, Pascoaes, Pessoa e Régio. Com a recente morte do último filósofo e do último poeta, os portugueses perdem também a última guerra que travaram, vêem as suas possibilidades de sobrevivência desfeitas às mãos dos movimentos colectivistas internos e internacionais, e a demência social e política é a consequência imediata da perversão da linguagem. As palavras, adulterado o sentido que tinham, já apenas servem para designar objectos materiais, coisas, sentimentos negativos e apelos ao ódio. Deixam, dia após dia, de ser palavras, para serem apenas sinais e estandartes. E acabando por ficar impotente para exprimir estados de espírito e estados de alma, pensamentos e sentimentos, o português já é, de facto, uma língua morta. Como o latim e como o grego. O que dela ainda irá perdurando durante algum tempo será apenas o vozear babélico de uma multidão que, tendo perdido a variedade que mantém vivos os povos, ainda vai precisando de recorrer aos vocábulos utilitários e comunicativos enquanto se não dissolve de todo na uniformidade e na informidade a que irreversivelmente se dirige.

Escrever e falar uma língua que, ainda usada como viva já é de facto uma língua morta, constitui, para o dramaturgo e para o actor, a oportunidade, jamais tida por outros homens com a consciência de a terem, de escreverem e falarem como clássicos. O que significa e vale isso de falar a língua morta dos clássicos, souberam-no durante mais de mil anos os sacerdotes que acreditaram na revelação de Deus em palavras sagradas que todos os dias repetiam celebrando o culto em latim; e sabia-o também o autor do “Leviathan” que abolia das escolas o ensino dos clássicos por instilarem eles nos homens o espírito de liberdade.»

Orlando Vitorino («Tongatabu e Nem Amantes Nem Amigos»).



«A missão sedentária da filologia é completamente falsa. Estranho é, porém, que o escol português não conceba de outro modo a actividade filológica. Nos séculos em que a Europa Central aperfeiçoou o método analítico de que abusou até às consequências dissolventes, o povo português voltava a sua atenção para os povos distantes que procurou compreender, operando segundo os desígnios do espírito universal. Como se explica, senão pelo estranho que é, o retrocesso agora projectado na dimensão espiritual.

A actividade filológica mobiliza simultaneamente uma série de disciplinas auxiliares e exerce-se num plano inclinado de difícil ascensão. Tanto basta para considerar os estudos filológicos de classe universitária e para justificar a constituição de uma faculdade autónoma.

A Faculdade de Letras não pode ministrar satisfatoriamente o ensino da filologia, da filosofia, da pedagogia, da história e da geografia. Conveniências de administração interna e de finalidade externa sacrificam todos os cursos a determinações que, por comuns, alteram as directrizes particulares. Na medida em que, por esclarecimento dos problemas, for o escol compreendendo que necessita de renovada cultura portuguesa, esta afirmação, que por agora parece de difícil demonstrabilidade, será confirmada pelas próprias exigências do ensino.

A transformação da complexa Faculdade de Letras em simples e perfeita Faculdade de Filologia parece o acto mais indicado pela economia de esforços administrativos. Ganhará imediatamente com nova denominação, tão prestigiante como significativa, aquela escola que – não sem motivo – o vulgo considera de duvidosa utilidade. Libertar-se-á de funções que essencialmente não lhe competem, mas a que se tem encontrado ligada por uma tradição contingente.

A Faculdade de Filologia, despertando nos estudiosos portugueses a compreensão dos outros povos e do espírito universal a que todos, por vários modos, têm obedecido, será um factor de cultura cujos benefícios a imaginação moderna dificilmente pode avaliar.»

Álvaro Ribeiro («Faculdade de Filologia», in Dispersos e Inéditos, I, 1921-1953).

 


«Se escutou as minhas palavras, o estudante que hoje inicia o seu curso na Faculdade de Filosofia, perguntará, naturalmente: “Para que serve todo esse discorrer?” “Que utilidade poderei extrair de semelhante conhecimento?”

A mesma pergunta, sem dúvida, formularão outros, que venham escutar as aulas de um professor que rompe, em momentos de entusiasmo, a disciplina do programa, para expor os seus princípios originais e renovadores, acerca da interpretação dos nomes de pessoas; ou as daquele que abre com palavra exacta e pensamento rigoroso, larga brecha na tremenda muralha do já dito e já escrito, e propõe a sua hipótese acerca de Camões ou Fernão Lopes; ou as daquele que, a golpes de engenho exercido e disciplinada fantasia, arranca novas ideias acerca da origem das nossas instituições, ao tenebroso passado dos povos antigos e ao imóvel presente dos povos atrasados ou ainda, dos que se esforçam por demonstrar a perene validez e a eterna veracidade de certo sistema filosófico, ou por reconstituir, passo a passo, a vida política, literária e artística de todos os povos e nações das cinco partes do mundo, ou, enfim, dos que revolvem e removem a superfície e âmago do nosso planeta, em busca da solução de problemas que são fundamentais (“fundamentais” no étimo sentido da palavra) para o renunciado e resolução de outros problemas que surgem nos demais sectores do saber.

Mas, tal pergunta não se fará, quanto às outras Faculdades; e não se fará, porque a finalidade, a utilidade imediata dos respectivos cursos está claramente definida: Direito serve, Medicina serve, Farmácia serve, Ondologia serve, Ciências Económicas servem – todas servem para alguma coisa, cuja natureza não se exprime em termos vagos, mas em conceitos bem determinados por “notas” afectadas de alto coeficiente valorativo.

A pergunta faz-se em Filosofia. E, em resposta, não seria impossível, nem sequer difícil, reunir argumentos a favor do serviço que prestam as disciplinas que professamos, esmaltá-los de floreada retórica, confiando à arte da palavra o mister que cumpre ao rigor do pensamento. Só que, estou certo, nenhum desses argumentos poderia ganhar acordo unânime: a qualquer um, outro se oporia, de tanto ou maior valor comprobatório e persuasivo, em contra a tese da utilidade, relativamente à utilidade dos cursos ministrados nas outras Escolas. Com efeito na categoria do útil, na perspectiva da utilidade, quando não se entende bem o que seja filosofia e o que seja ciência, os filósofos sairão sempre vencidos, em competição com os cientistas.



Não será possível desatar este nó?

Quando um nó é difícil, ou parece impossível de desatar, sempre haverá o histórico ou anedótico expediente de Alexandre: cortá-lo de um só golpe. Por conseguinte, se me perguntassem para que servem os cursos da Faculdade de Filosofia, eu responderia resolutamente, decididamente: “Não servem para nada!” Mas, logo acrescentaria: “precisamente em ‘NÃO SERVIREM’, é que reside o seu valor, valor que, desta vez, é absoluto, porque incomparado.”

Tal é, Senhoras e Senhores, Colegas e Alunos, a conclusão desta aula, que também poderia intitular-se “Elogio do saber inútil”».

Eudoro de Sousa («Relações pré-históricas e proto-históricas entre a Grécia e o Oriente à luz das últimas descobertas arqueológicas», in Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos).

 

«”Letras são tretas”, diz-se vulgarmente; e este dito teve já a consagração do escol, quando alguns escritores, ou letrados, compreendendo bem a anomalia universitária, se opuseram à multiplicação excessiva dessas escolas heterogéneas.»

Álvaro Ribeiro («Faculdade de Filologia», in Dispersos e Inéditos, I, 1921-1953).







«A solução imediata, e há muito estabelecida como imediata no que, de pragmático, as expressas críticas ao ensino implicam, é a extinção das instituições escolares, como são as escolas primárias, os liceus e as universidades clássicas, que se dedicam à formação daquela consciência que relaciona o indivíduo com o Estado ou a sociedade no plano das finalidades universais: na escola primária, a relação do ensino da língua com a existência da pátria e do povo; no liceu, a relação do ensino das ciências naturais e históricas com a evolução do homem; na universidade, a relação entre a liberdade, a propriedade e o direito, ou entre o conhecimento científico e a civilização, ou entre a cultura e a filosofia. Formular-se-iam, depois, a doutrinação e a ideologia referentes à sociedade e à pátria, isto é, determinar-se-iam, em termos universais e concretos, os fins do Estado para, finalmente, se entregar a substituição das instituições extintas à abertura e individual iniciativa dos homens cultos, se não dos sábios, dos filósofos e dos santos.

Nada, porém, se poderá realizar enquanto o Estado, e com ele a sociedade, estiver a ser dilacerado por uma contradição mortal: por um lado, abandonam-se completamente à iniciativa e ao arbítrio dos indivíduos (que, no calão jurídico, recebem o nome, em nenhum outro caso tão acertado, de particulares), alimentando e até expressamente estimulando os interesses pessoais e os instintos egoístas, abandonam-se-lhes os meios de realização da justiça, os instrumentos da produção da riqueza, da aplicação do esforço, que são o domínio na necessária igualdade social, dos uniformes direitos do trabalhador e da produção, da imanente comunhão de interesses e exigências vitais. Por outro lado, o Estado, mediante o autoritarismo de instituições – as de ensino, de censura, de subvenção às artes, etc. –, regula, limita e uniformiza os meios de desenvolvimento da liberdade, de comunicação dos princípios universais, de pensamento da realidade, que são o domínio onde é indispensável reconhecer, admitir e defender a singular autonomia de cada individualidade em todos os seus momentos e fases, mesmos os de contradição, de dialéctica e até de oposição, com isso criando um mecanismo do ensino, da opinião e da educação que, além de ser um obstáculo à universal consciência de si, personaliza os indivíduos nas máscaras mais fictícias, repudia os pensadores e os mestres, funcionaliza os escritores e os leitores, burocratiza os professores e os alunos, os jovens, os adolescentes e as crianças.


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Em virtude de certas condições ancestrais e atávicas (que muitos confundem com tradicionalismo), em virtude de certa índole, ou trabalhada conformação com a dor e o sofrimento (que muitos confundem com o destino), ou em virtude de um esquecimento de si na acção irreflectida (que muitos confundem com aventura) – o Português só em nossos dias parece começar a substituir a natural exigência ou o simples anseio de liberdade pelo efectivo pensamento dela, pensamento de que espera futura expressão política de onde promane, para cada indivíduo, não tanto a liberdade como a libertação.

A liberdade é algo de positivo e de uma infinitude sem a qual não é ou nada é. Ora os doutrinadores que aos Portugueses têm falado de liberdade ou que para eles têm lutado e até morrido pela liberdade, como aconteceu durante quase todo o século que passou, desde as guerras liberais até à I República, fazem-no de uma liberdade que, ao ser afirmada positivamente, logo aparece limitada pelas instituições, pelas exigências do governo, pelas carências sociais, pela relação de cada um a cada um. Quer dizer: a efectividade ou a razão aparece como algo que, de fora, limita a liberdade no mesmo processo de a assegurar na existência de cada um e de todos dentro da vida social, estatal ou política. Foi e é comum afirmarem tais liberalistas que a liberdade de cada indivíduo tem de respeitar, aí se quedando a liberdade de cada outro; e como cada outro se multiplica infinitamente, a liberdade de cada um vê-se infinitamente limitada e, portanto, praticamente impossível de efectivar. O Português, então, deixa de atribuir sentido à liberdade.

Ao que atribui sentido é à libertação. O Português quer-se livre de algo que o oprime e constrange. A liberdade transfere-se assim, depois de se ver inviável a sua orientação positiva, para uma força exclusivamente negativa, embora justa nesse negativismo. E como, entretanto, o Português tende sempre para valorar ou apreciar o pensamento do ponto de vista da acção, o pensamento não lhe aparece como o domínio inviolável da liberdade mas apenas como o instrumento da libertação. O homem pensa para se libertar, pensa nos obstáculos que se lhe levantam ou nas dificuldades e obstáculos. O pensamento e a liberdade serão as armas com que o homem vence os seus inimigos, serão os amigos do homem.

Pode residir nesta transferência para a libertação um ponto de partida deveras importante e valioso para o pensamento político da liberdade, se não para a filosofia da liberdade. Esse ponto de partida é o de que a liberdade efectiva diz respeito ao indivíduo, não à sociedade nem ao Estado, ou de que a liberdade não é dada de fora ao indivíduo, mas constitui um atributo seu, uma sua propriedade inalienável. Tal como o pensamento só é vivo enquanto alguém o pensa, assim a liberdade só existe enquanto alguém a usa e nela e por ela actua.

Amplos motivos nos permitem declarar que, perante esta situação actual do Português em face da liberdade, os nossos doutrinadores políticos de todos os matizes se limitaram a extrair dela consequências imediatas de governação e se não empenharam, como era dever que assumiram ao proporem-se políticos, em desenvolver a doutrina da liberdade imanente a essa situação. Os pensadores que o tentaram fazer ou em grande parte o realizaram, como Sampaio Bruno, Guerra Junqueiro, Leonardo Coimbra ou Basílio Teles, viram-se alvo de incompreensões e hostilidades que, à direita e à esquerda, produziram os frutos podres que hoje se continuam a servir.

Não se pode dizer que alguém, uma vez posto à consciência portuguesa o problema da liberdade, se tenha atrevido a negá-la. Afirmou-se ele, porém, em sofismas e demagogias nos quais se não consegue esconder uma triste incapacidade de a pensar e efectivar. Perante tais sofismas e demagogias, o Português continuou a pensar e desejar a libertação. A demagogia foi mais acentuada à esquerda; o sofisma mais utilizado à direita. Ambos se fundaram no que só concebiam de efectivo à liberdade: a limitação dela. Mas uma insistia e insiste no carácter total, “absoluto” da liberdade dentro dos limites impostos a cada um pela multiplicidade infinita de cada outro. À direita insistiu-se nisso de, sobre essa mesma limitação, ser conveniente abandonar a liberdade impossível, substituindo-a pelas liberdades possíveis.

Nos nossos dias, prolonga-se o espectáculo que é essa ora divertida ora triste discussão de dois surdos que estão a dizer a mesma coisa.»

Orlando Vitorino («Filosofia, Ciência e Religião»).



LETRAS CLÁSSICAS: PONTOS DE REFERÊNCIA PARA UMA RENOVAÇÃO METODOLÓGICA

1. O ensino universitário trai a sua verdadeira finalidade na medida em que se suponha exclusivamente destinado a formar professores de ginásio e de colégio. O estudo que visa apenas um saber transmissível ao nível médio, não pode deixar de ser mediano, ou medíocre. Por uma das consequências de o haver seguido, e não porque seja essa finalidade do seu curso, ao jovem licenciado em Letras Clássicas se deve reservar o direito de ensinar grego e latim nos ginásios e nos colégios.

2. Em obediência a uma rotina mais ou menos justificável, o ensino médio do latim e do grego consiste principalmente de lições gramaticais, gradualmente aplicadas à leitura de alguns textos literários. Não nos compete, porém, advertir de que ao prolongá-lo até à Faculdade, resultará no prejuízo acima mencionado: confundir na mediania, ensino superior com ensino secundário.

3. Quem sabe gramática, encontra-se em condições de abordar a tradução de um texto literário; não quer dizer que efectivamente o traduza: poderá fazê-lo, se exercer faculdades e adquirir conhecimentos que não se desenvolvem apenas através dos estudos gramaticais. Quem sabe traduzir um texto literário, encontra-se em condições de entender o pensamento do autor; não quer dizer que realmente o entenda: poderá entendê-lo, se exercer faculdades e ganhar conhecimentos, que o acto de traduzir não implica necessariamente. Certo é, todavia, que só bem traduz uma página quem compreenda o pensamento que a ditou.

4. A aquisição completa, a assimilação perfeita, de formas e normas gramaticais, é um pressuposto – o primeiro ou o último – do aprendizado de uma língua, sobretudo quando ela já não é falada do modo como é escrita. Mas é um pressuposto, nada mais. E ainda assim, não se confunda a relativa «condição de necessidade» com uma «condição de anterioridade» absoluta: pelo menos tão facilmente decorrem as noções gramaticais, da leitura de um texto, cujo sentido de algum modo se vai descobrindo, como se descobrirá o sentido do mesmo texto, a partir de conhecimentos gramaticais precedentemente adquiridos. Do texto para a gramática, não da gramática para o texto – eis o princípio de aplicação às línguas clássicas, de um método mais fecundo, porque mais adequado às exigências mentais do estudante hodierno.



5. Se o transmitir aos estudantes as noções imprescindíveis para a correcta leitura e plena inteligência dos documentos literários de Roma e da Grécia constitui o escopo imediato de um curso superior de Letras Clássicas – esse não é o único. Compreender-se-ia que o fosse, se pudéssemos considerar a literatura como uma singularidade independente. Mas, ainda que seja a obra do grande poeta e do grande prosador, um dos elementos que conferem à cultura do seu povo e do seu tempo a fisionomia espiritual que a caracteriza, a verdade é que ele próprio escreveu a sua obra em termos de uma dependência de outros elementos da mesma cultura. Concretizando e exemplificando: Cícero e Demóstenes, ou qualquer das páginas destes escritores só se nos deparam em condições de perfeita inteligibilidade, na perspectiva de Roma ou de Atenas.

6. Mas tão-pouco, independentes singularidades são Roma e Atenas. Um documento literário, um monumento arquitectónico ou plástico, não importa qual, dos que subsistem entre as ruínas da tradição, fala através do que nos diz de Roma e Atenas, acerca de uma ideia que as culturas grega e latina realizaram completamente, cada uma de acordo com o seu génio próprio. Pedagogia evasiva e decepcionante seria, pois, aquela que se resignasse a prescrever o estudo de uma só, das duas parcelas que integram a Cultura Clássica.

7. A ideia que parcelada se realiza na cultura romana e na cultura helénica é a que, pelo menos a partir da Renascença, o Ocidente se esforça por compreender, mediante suas múltiplas e sucessivas concepções de «Antiguidade Clássica». De certo modo, dir-se-ia que os estágios do desenvolvimento da chamada Cultural Ocidental (Renascença, Ilustração, Romantismo...) têm como uma das suas expressões características e individualizantes um peculiar conceito do «Clássico». E o que se afirma aqui, quanto a épocas universais, vale quanto a momentos nacionais da mesma evolução cultural do Ocidente. Há, por exemplo, um conceito de Grécia e Roma, que é francês, e outro, que é germânico; e acrescente-se: um e outro, definem o perfil espiritual das nações que os conceberam. Assim, também a nossa efectiva participação no concerto das nações ocidentais há-de revestir-se do mesmo carácter que assuma um conceito «nosso», do que é Antiguidade Clássica.

8. O caminho para uma particular ou universal concepção do mundo greco-latino, pressupõe necessariamente o haver aprendido a ler os testemunhos da tradição, nos textos originais. Supõe, por conseguinte, a persistência do mesmo esforço que tem sido exigido ao estudante por todos os legisladores do ensino. Convém lembrar, todavia, que uma cultura não se exprime só pela linguagem escrita. No todo ou em parte, aquilo que um povo ou uma época quer dizer, di-lo, por vezes, mais distinta e claramente na linguagem do monumento figurado, do que na linguagem do monumento escrito. O estudante de letras clássicas tem de se formar tanto na estilística das formas e das instituições, como na gramática da prosa e do verso.



9. Ousemos mais um passo. O que há de verdadeiramente inédito e inaudito, na mensagem original de um povo, de uma época, de um indivíduo, não se diria indiferentemente em qualquer forma de expressão. Por outros termos: o conhecimento da vida dos povos antigos, nas suas várias manifestações – religiosas, artísticas, políticas, etc. – não constitui, como se crê, um simples comentário lançado à margem do texto poético ou prosaico, pois, no género ou na espécie, cada uma dessas manifestações é, ela própria, um texto bem legível e inteligível, ao qual, a prosa ou o verso também poderia servir de comentário marginal. Para compreender Atenas ou Roma, podemos partir de uma tragédia de Eurípides ou de um discurso de Cícero; mas, semelhante resultado obteríamos, sob outro aspecto, partindo do Pártenon ou do Panteon...

10. A ciência do «escrito» e a ciência do «artefacto» (entendam-se estas palavras no mais amplo sentido) percorrem duas vias convergentes, mas distintas em toda a sua extensão. A primeira denomina-se Filologia, e a segunda, Arqueologia; ou, no respectivo ponto culminante, História da Literatura e História da Arte. A arte não «ilustra» a literatura, como a literatura não «explica» a arte, porque, uma e outra são expressões autónomas, e demais heterogéneas. Isto não significa, evidentemente, que nada tenham a ver uma com a outra. Pelo contrário, «expressão plástica» e «expressão poética», ex. gr., têm de comum, precisamente, o facto de serem expressão. O que ambas exprimem, cada qual a seu modo e segundo as suas leis próprias, reside, provisoriamente oculto, no ponto de convergência da filologia e da arqueologia, ciências ou grupos de ciências, que, digamo-lo mais uma vez, percorrem distintas vias metódicas.

11. Ao Século em que vivemos estava reservado o começo de uma tímida extracção de novíssimos corolários pedagógicos a audaciosos teoremas científicos, que já não são novos. E o principal é este: não há comentário «real», por mais hábil e minucioso que seja, capaz de esclarecer totalmente, por fora, alguma obscuridade inerente à expressão «verbal», ou socorrer eficazmente qualquer deficiência da nossa compreensão; porém, uma vez apreendida a ideia que constituiria, por assim dizer, o núcleo vivente da cultura clássica – a qual, como dissemos, há-de surgir no ponto de convergência dos métodos filológico e arqueológico –, todas as dificuldades se encontram virtualmente superadas, posto que, então, nos apercebemos da natureza daquelas forças que, por dentro, deram origem à multiplicidade e à variedade dos seus testemunhos autênticos.

12. A enorme dificuldade, mas também o poderosíssimo atractivo, de semelhante pedagogia, consiste em avançar, concertando os passos andados ao longo de duas vias, cujos sentidos parecem contrários e até contraditórios. Efectivamente, se é certo que a ideia unitária de «cultura clássica» esclarecerá a significação dos seus múltiplos aspectos realizados na história (literária, artística, política, religiosa...), tão certo é que não atingiremos a mesma ideia, senão analisando, em linha de máxima complexidade, os estágios da sua exteriorização no tempo e no espaço. Admita-se, todavia, que, longínqua na sua transitoriedade, a ideia de cultura clássica está sempre próxima, na sua historicidade, aderindo intimamente a cada um dos seus aspectos.



13. De algum modo residir o todo em cada uma das suas partes, é o que aparta e distingue o orgânico e o vivente, do inorgânico e do não vivente. Procurar a ideia de cultura clássica, de certa forma realizada em qualquer texto que nos proponhamos estudar – eis a finalidade que não se representa claramente aos olhos do estudante. Onde falta a finalidade, sobra o desinteresse. Por isso, lamentar a decadência da cultura humanista, deplorar reformas ineptas e vituperar reformadores ignaros, que intentam banir as disciplinas clássicas dos programas do ensino médio, não basta para assinalar positivamente o amor pelas humanidades. Que o prestígio do latim e do grego declinaram vertiginosamente no horizonte dos interesses do estudante – é o facto; mas se quisermos averiguar o factor, temos de admitir que, na maior parte, a responsabilidade do desinteresse não cabe a quem aprende, mas a quem ensina. Se o helenista-aprendiz, se o latinista-aprendiz, não se interessa pelo grego e pelo latim, é porque o grego e o latim não são interessantes; e se o grego e o latim não são interessantes, é porque o mestre não pôde ou não soube despertar a paixão do aprendizado, mediante a acção do ensino.

14. A cultura do Mundo Antigo, em si mesma, e depois, na sua relação à cultura do Mundo Moderno – tal é o objecto próprio do ensino superior das Letras Clássicas. Eis porque não é possível imaginar espectáculo mais desolador, mais confrangedor, que o da multidão de estudantes que só têm à mercê da sua curiosidade natural, um compêndio de literatura, uma gramática, um dicionário, uma selecta, ou poucos textos profusamente anotados com observações gramaticais e estilísticas mais ou menos importunas. É certo que o exercício da erudição, pelo gosto da erudição, queremos dizer, pelo gosto de acumular desordenadamente noções esparsas e desconexas, insusceptíveis de concretizar-se em uma totalidade organizada, deve ser banido de todos os sectores do ensino universitário. Mas certo é, todavia, que a vituperada erudição não deve ser confundida com a indispensável informação acerca da vida e perenidade da ciência ou das ciências que professamos. Quem passou os quatro anos da licenciatura, agrilhoado a uma gramática, um dicionário, uma selecta, forçosamente julgará que nada mudou, nada muda, nada mudará ali, onde jaz inerte, esperando que o professor (?) lhe entregue nas mãos um saber já feito, acabado, inalterado e inalterável na rigidez da morte. A verdade é que o mais vigoroso incentivo ao trabalho e investigação pessoal – que é o único testemunho fidedigno, do interesse pela disciplina científica, resulta do sentimento de que não estamos sós, isolados, segregados, daqueles que, sempre e por toda a parte, vivem e viveram a vida de uma ciência que evolui e progride interessantemente.


15. Em resumo e conclusão:

«Língua», no âmbito das Letras Clássicas, é coisa que não existe... senão em gramáticas e dicionários. Talvez por isso ainda haja mestres de coisa nenhuma, fossilizados professores de humanidade, que tanto se estribam na lição gramatical, pesando e medindo conhecimento ou desconhecimento de «grego» ou «latim», pela maior ou menor capacidade de rememorar elementos formais da linguagem. A língua é uma abstracção da cultura: grega, da cultura grega, latina, da cultura romana. Por muito importante que seja – e de modo nenhum intentamos negar-lhe a importância que merece –, o ensino da língua deve ser encarado como um meio para atingir um fim. Só que esse fim tem de ser vislumbrado, se não atingido, enquanto é tempo; e tempo é, enquanto o licenciado estuda sob a direcção de quem possa mostrar-lhe o caminho a percorrer. Não se desperdicem os anos de Faculdade, repetindo a lição que devia ter sido aprendida no Ginásio e no Colégio. Ainda que, efectivamente, o não tenha sido, há maneiras de recomeçar, sem grave prejuízo para o ensino do que mais importa.

(In Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2000, pp. 175-179).