quinta-feira, 9 de julho de 2026

Letras clássicas: pontos de referência para uma renovação metodológica

Escrito por Eudoro de Sousa


«Julga o vulgo – e este juízo do vulgo é acolhido até por teorizadores da reforma do ensino universitário – que a filologia consiste no mero estudo das línguas, mortas ou vivas, segundo uma tendência predominantemente analítica que se detém perante os inertes elementos gramaticais. As respeitáveis figuras do jornalista Cândido de Figueiredo e do professor Epifânio da Silva Dias ilustram o tipo do filólogo português que continua a apresentar semelhantes exemplares ao mundo contemporâneo. É claro que o escritor autêntico, aquele que de algum modo é criador de nova expressão e de novo estilo pela virtude secreta da originalidade pensante, marcará uma atitude quase hostil para com o filólogo que se mantém na classificação torturante e dissolvente do idioma registado pela escrita. As Faculdades de Letras oficializam e estabelecem esta posição: admitem que ao lado de cadeiras de filologia haja cadeiras de literatura, para que numas e noutras se possam sentar os representantes de tendências antagónicas. Subtis expressões de ironia ocultam uma discórdia latente. 

A conciliadora verdade é que a filologia não se define no estudo analítico da língua. A filologia percorre todas as expressões orais, escritas, ou de outro modo figuradas, em que se afirma o espírito de cada povo. O filólogo estuda a arqueologia, as artes plásticas, o culto, as instituições políticas, as ciências, a filosofia; o filólogo pretende compreender o logos, caminha do particular para o total, ou, melhor, para o universal.

Há, efectivamente, o preconceito de que pelo estudo da língua se encontra a chave da civilização; mas este preconceito não justifica que o filólogo fique sempre à porta, ou na fronteira, por moroso e difícil que seja o estudo gramatical.»

Álvaro Ribeiro («Faculdade de Filologia», in Dispersos e Inéditos, I, 1921-1953).

 


«Congratula-se o autor por o destino o haver dado a esta tão deslumbrante língua portuguesa. Foi ela uma língua singular na história da civilização que ainda predomina no mundo. Porque só aprendem a significação de seus termos e combinações os que têm o saber imediato de os referir aos étimos e paradigmas latinos, o português é, mais do que uma língua românica ou derivada, um dialecto do latim, como o castelhano, o italiano e o francês. Contém, todavia, expressões sintácticas, morfológicas e fonéticas que permitem ligá-lo directamente ao grego, ao hebreu e ao árabe, e até, numa concepção que faça derivar as línguas umas das outras, defender a tese de que sua origem não está no latim. Foi, entre todas as línguas europeias modernas, a que primeiro alcançou uma perfeita capacidade descritiva (Fernão Lopes é anterior a Froissart) e a mais difícil capacidade conceptiva (D. Duarte é o primeiro filósofo que escreve em vernáculo); só na expressão poética foi precedida pelo italiano, com Dante e Petrarca antes de Camões. Contém, ao mesmo tempo, a maior riqueza de vocábulos entre todas as línguas, e os fonologistas observam que só o inglês se lhe pode comparar na variedade de sons e articulações. Primeira língua, portanto, a atingir na Europa moderna a plenitude da expressão, vai também ser a primeira a extinguir-se. Ao aproximar-se agora o seu fim, reúne nestes últimos breves decénios – como aconteceu na Grécia e porque “a ave de Minerva levanta voo ao anoitecer” – os seus mais poderosos filósofos e poetas: Bruno, Leonardo e José Marinho, Pascoaes, Pessoa e Régio. Com a recente morte do último filósofo e do último poeta, os portugueses perdem também a última guerra que travaram, vêem as suas possibilidades de sobrevivência desfeitas às mãos dos movimentos colectivistas internos e internacionais, e a demência social e política é a consequência imediata da perversão da linguagem. As palavras, adulterado o sentido que tinham, já apenas servem para designar objectos materiais, coisas, sentimentos negativos e apelos ao ódio. Deixam, dia após dia, de ser palavras, para serem apenas sinais e estandartes. E acabando por ficar impotente para exprimir estados de espírito e estados de alma, pensamentos e sentimentos, o português já é, de facto, uma língua morta. Como o latim e como o grego. O que dela ainda irá perdurando durante algum tempo será apenas o vozear babélico de uma multidão que, tendo perdido a variedade que mantém vivos os povos, ainda vai precisando de recorrer aos vocábulos utilitários e comunicativos enquanto se não dissolve de todo na uniformidade e na informidade a que irreversivelmente se dirige.

Escrever e falar uma língua que, ainda usada como viva já é de facto uma língua morta, constitui, para o dramaturgo e para o actor, a oportunidade, jamais tida por outros homens com a consciência de a terem, de escreverem e falarem como clássicos. O que significa e vale isso de falar a língua morta dos clássicos, souberam-no durante mais de mil anos os sacerdotes que acreditaram na revelação de Deus em palavras sagradas que todos os dias repetiam celebrando o culto em latim; e sabia-o também o autor do “Leviathan” que abolia das escolas o ensino dos clássicos por instilarem eles nos homens o espírito de liberdade.»

Orlando Vitorino («Tongatabu e Nem Amantes Nem Amigos»).



«A missão sedentária da filologia é completamente falsa. Estranho é, porém, que o escol português não conceba de outro modo a actividade filológica. Nos séculos em que a Europa Central aperfeiçoou o método analítico de que abusou até às consequências dissolventes, o povo português voltava a sua atenção para os povos distantes que procurou compreender, operando segundo os desígnios do espírito universal. Como se explica, senão pelo estranho que é, o retrocesso agora projectado na dimensão espiritual.

A actividade filológica mobiliza simultaneamente uma série de disciplinas auxiliares e exerce-se num plano inclinado de difícil ascensão. Tanto basta para considerar os estudos filológicos de classe universitária e para justificar a constituição de uma faculdade autónoma.

A Faculdade de Letras não pode ministrar satisfatoriamente o ensino da filologia, da filosofia, da pedagogia, da história e da geografia. Conveniências de administração interna e de finalidade externa sacrificam todos os cursos a determinações que, por comuns, alteram as directrizes particulares. Na medida em que, por esclarecimento dos problemas, for o escol compreendendo que necessita de renovada cultura portuguesa, esta afirmação, que por agora parece de difícil demonstrabilidade, será confirmada pelas próprias exigências do ensino.

A transformação da complexa Faculdade de Letras em simples e perfeita Faculdade de Filologia parece o acto mais indicado pela economia de esforços administrativos. Ganhará imediatamente com nova denominação, tão prestigiante como significativa, aquela escola que – não sem motivo – o vulgo considera de duvidosa utilidade. Libertar-se-á de funções que essencialmente não lhe competem, mas a que se tem encontrado ligada por uma tradição contingente.

A Faculdade de Filologia, despertando nos estudiosos portugueses a compreensão dos outros povos e do espírito universal a que todos, por vários modos, têm obedecido, será um factor de cultura cujos benefícios a imaginação moderna dificilmente pode avaliar.»

Álvaro Ribeiro («Faculdade de Filologia», in Dispersos e Inéditos, I, 1921-1953).

 


«Se escutou as minhas palavras, o estudante que hoje inicia o seu curso na Faculdade de Filosofia, perguntará, naturalmente: “Para que serve todo esse discorrer?” “Que utilidade poderei extrair de semelhante conhecimento?”

A mesma pergunta, sem dúvida, formularão outros, que venham escutar as aulas de um professor que rompe, em momentos de entusiasmo, a disciplina do programa, para expor os seus princípios originais e renovadores, acerca da interpretação dos nomes de pessoas; ou as daquele que abre com palavra exacta e pensamento rigoroso, larga brecha na tremenda muralha do já dito e já escrito, e propõe a sua hipótese acerca de Camões ou Fernão Lopes; ou as daquele que, a golpes de engenho exercido e disciplinada fantasia, arranca novas ideias acerca da origem das nossas instituições, ao tenebroso passado dos povos antigos e ao imóvel presente dos povos atrasados ou ainda, dos que se esforçam por demonstrar a perene validez e a eterna veracidade de certo sistema filosófico, ou por reconstituir, passo a passo, a vida política, literária e artística de todos os povos e nações das cinco partes do mundo, ou, enfim, dos que revolvem e removem a superfície e âmago do nosso planeta, em busca da solução de problemas que são fundamentais (“fundamentais” no étimo sentido da palavra) para o renunciado e resolução de outros problemas que surgem nos demais sectores do saber.

Mas, tal pergunta não se fará, quanto às outras Faculdades; e não se fará, porque a finalidade, a utilidade imediata dos respectivos cursos está claramente definida: Direito serve, Medicina serve, Farmácia serve, Ondologia serve, Ciências Económicas servem – todas servem para alguma coisa, cuja natureza não se exprime em termos vagos, mas em conceitos bem determinados por “notas” afectadas de alto coeficiente valorativo.

A pergunta faz-se em Filosofia. E, em resposta, não seria impossível, nem sequer difícil, reunir argumentos a favor do serviço que prestam as disciplinas que professamos, esmaltá-los de floreada retórica, confiando à arte da palavra o mister que cumpre ao rigor do pensamento. Só que, estou certo, nenhum desses argumentos poderia ganhar acordo unânime: a qualquer um, outro se oporia, de tanto ou maior valor comprobatório e persuasivo, em contra a tese da utilidade, relativamente à utilidade dos cursos ministrados nas outras Escolas. Com efeito na categoria do útil, na perspectiva da utilidade, quando não se entende bem o que seja filosofia e o que seja ciência, os filósofos sairão sempre vencidos, em competição com os cientistas.



Não será possível desatar este nó?

Quando um nó é difícil, ou parece impossível de desatar, sempre haverá o histórico ou anedótico expediente de Alexandre: cortá-lo de um só golpe. Por conseguinte, se me perguntassem para que servem os cursos da Faculdade de Filosofia, eu responderia resolutamente, decididamente: “Não servem para nada!” Mas, logo acrescentaria: “precisamente em ‘NÃO SERVIREM’, é que reside o seu valor, valor que, desta vez, é absoluto, porque incomparado.”

Tal é, Senhoras e Senhores, Colegas e Alunos, a conclusão desta aula, que também poderia intitular-se “Elogio do saber inútil”».

Eudoro de Sousa («Relações pré-históricas e proto-históricas entre a Grécia e o Oriente à luz das últimas descobertas arqueológicas», in Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos).

 

«”Letras são tretas”, diz-se vulgarmente; e este dito teve já a consagração do escol, quando alguns escritores, ou letrados, compreendendo bem a anomalia universitária, se opuseram à multiplicação excessiva dessas escolas heterogéneas.»

Álvaro Ribeiro («Faculdade de Filologia», in Dispersos e Inéditos, I, 1921-1953).







«A solução imediata, e há muito estabelecida como imediata no que, de pragmático, as expressas críticas ao ensino implicam, é a extinção das instituições escolares, como são as escolas primárias, os liceus e as universidades clássicas, que se dedicam à formação daquela consciência que relaciona o indivíduo com o Estado ou a sociedade no plano das finalidades universais: na escola primária, a relação do ensino da língua com a existência da pátria e do povo; no liceu, a relação do ensino das ciências naturais e históricas com a evolução do homem; na universidade, a relação entre a liberdade, a propriedade e o direito, ou entre o conhecimento científico e a civilização, ou entre a cultura e a filosofia. Formular-se-iam, depois, a doutrinação e a ideologia referentes à sociedade e à pátria, isto é, determinar-se-iam, em termos universais e concretos, os fins do Estado para, finalmente, se entregar a substituição das instituições extintas à abertura e individual iniciativa dos homens cultos, se não dos sábios, dos filósofos e dos santos.

Nada, porém, se poderá realizar enquanto o Estado, e com ele a sociedade, estiver a ser dilacerado por uma contradição mortal: por um lado, abandonam-se completamente à iniciativa e ao arbítrio dos indivíduos (que, no calão jurídico, recebem o nome, em nenhum outro caso tão acertado, de particulares), alimentando e até expressamente estimulando os interesses pessoais e os instintos egoístas, abandonam-se-lhes os meios de realização da justiça, os instrumentos da produção da riqueza, da aplicação do esforço, que são o domínio na necessária igualdade social, dos uniformes direitos do trabalhador e da produção, da imanente comunhão de interesses e exigências vitais. Por outro lado, o Estado, mediante o autoritarismo de instituições – as de ensino, de censura, de subvenção às artes, etc. –, regula, limita e uniformiza os meios de desenvolvimento da liberdade, de comunicação dos princípios universais, de pensamento da realidade, que são o domínio onde é indispensável reconhecer, admitir e defender a singular autonomia de cada individualidade em todos os seus momentos e fases, mesmos os de contradição, de dialéctica e até de oposição, com isso criando um mecanismo do ensino, da opinião e da educação que, além de ser um obstáculo à universal consciência de si, personaliza os indivíduos nas máscaras mais fictícias, repudia os pensadores e os mestres, funcionaliza os escritores e os leitores, burocratiza os professores e os alunos, os jovens, os adolescentes e as crianças.


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Em virtude de certas condições ancestrais e atávicas (que muitos confundem com tradicionalismo), em virtude de certa índole, ou trabalhada conformação com a dor e o sofrimento (que muitos confundem com o destino), ou em virtude de um esquecimento de si na acção irreflectida (que muitos confundem com aventura) – o Português só em nossos dias parece começar a substituir a natural exigência ou o simples anseio de liberdade pelo efectivo pensamento dela, pensamento de que espera futura expressão política de onde promane, para cada indivíduo, não tanto a liberdade como a libertação.

A liberdade é algo de positivo e de uma infinitude sem a qual não é ou nada é. Ora os doutrinadores que aos Portugueses têm falado de liberdade ou que para eles têm lutado e até morrido pela liberdade, como aconteceu durante quase todo o século que passou, desde as guerras liberais até à I República, fazem-no de uma liberdade que, ao ser afirmada positivamente, logo aparece limitada pelas instituições, pelas exigências do governo, pelas carências sociais, pela relação de cada um a cada um. Quer dizer: a efectividade ou a razão aparece como algo que, de fora, limita a liberdade no mesmo processo de a assegurar na existência de cada um e de todos dentro da vida social, estatal ou política. Foi e é comum afirmarem tais liberalistas que a liberdade de cada indivíduo tem de respeitar, aí se quedando a liberdade de cada outro; e como cada outro se multiplica infinitamente, a liberdade de cada um vê-se infinitamente limitada e, portanto, praticamente impossível de efectivar. O Português, então, deixa de atribuir sentido à liberdade.

Ao que atribui sentido é à libertação. O Português quer-se livre de algo que o oprime e constrange. A liberdade transfere-se assim, depois de se ver inviável a sua orientação positiva, para uma força exclusivamente negativa, embora justa nesse negativismo. E como, entretanto, o Português tende sempre para valorar ou apreciar o pensamento do ponto de vista da acção, o pensamento não lhe aparece como o domínio inviolável da liberdade mas apenas como o instrumento da libertação. O homem pensa para se libertar, pensa nos obstáculos que se lhe levantam ou nas dificuldades e obstáculos. O pensamento e a liberdade serão as armas com que o homem vence os seus inimigos, serão os amigos do homem.

Pode residir nesta transferência para a libertação um ponto de partida deveras importante e valioso para o pensamento político da liberdade, se não para a filosofia da liberdade. Esse ponto de partida é o de que a liberdade efectiva diz respeito ao indivíduo, não à sociedade nem ao Estado, ou de que a liberdade não é dada de fora ao indivíduo, mas constitui um atributo seu, uma sua propriedade inalienável. Tal como o pensamento só é vivo enquanto alguém o pensa, assim a liberdade só existe enquanto alguém a usa e nela e por ela actua.

Amplos motivos nos permitem declarar que, perante esta situação actual do Português em face da liberdade, os nossos doutrinadores políticos de todos os matizes se limitaram a extrair dela consequências imediatas de governação e se não empenharam, como era dever que assumiram ao proporem-se políticos, em desenvolver a doutrina da liberdade imanente a essa situação. Os pensadores que o tentaram fazer ou em grande parte o realizaram, como Sampaio Bruno, Guerra Junqueiro, Leonardo Coimbra ou Basílio Teles, viram-se alvo de incompreensões e hostilidades que, à direita e à esquerda, produziram os frutos podres que hoje se continuam a servir.

Não se pode dizer que alguém, uma vez posto à consciência portuguesa o problema da liberdade, se tenha atrevido a negá-la. Afirmou-se ele, porém, em sofismas e demagogias nos quais se não consegue esconder uma triste incapacidade de a pensar e efectivar. Perante tais sofismas e demagogias, o Português continuou a pensar e desejar a libertação. A demagogia foi mais acentuada à esquerda; o sofisma mais utilizado à direita. Ambos se fundaram no que só concebiam de efectivo à liberdade: a limitação dela. Mas uma insistia e insiste no carácter total, “absoluto” da liberdade dentro dos limites impostos a cada um pela multiplicidade infinita de cada outro. À direita insistiu-se nisso de, sobre essa mesma limitação, ser conveniente abandonar a liberdade impossível, substituindo-a pelas liberdades possíveis.

Nos nossos dias, prolonga-se o espectáculo que é essa ora divertida ora triste discussão de dois surdos que estão a dizer a mesma coisa.»

Orlando Vitorino («Filosofia, Ciência e Religião»).



LETRAS CLÁSSICAS: PONTOS DE REFERÊNCIA PARA UMA RENOVAÇÃO METODOLÓGICA

1. O ensino universitário trai a sua verdadeira finalidade na medida em que se suponha exclusivamente destinado a formar professores de ginásio e de colégio. O estudo que visa apenas um saber transmissível ao nível médio, não pode deixar de ser mediano, ou medíocre. Por uma das consequências de o haver seguido, e não porque seja essa finalidade do seu curso, ao jovem licenciado em Letras Clássicas se deve reservar o direito de ensinar grego e latim nos ginásios e nos colégios.

2. Em obediência a uma rotina mais ou menos justificável, o ensino médio do latim e do grego consiste principalmente de lições gramaticais, gradualmente aplicadas à leitura de alguns textos literários. Não nos compete, porém, advertir de que ao prolongá-lo até à Faculdade, resultará no prejuízo acima mencionado: confundir na mediania, ensino superior com ensino secundário.

3. Quem sabe gramática, encontra-se em condições de abordar a tradução de um texto literário; não quer dizer que efectivamente o traduza: poderá fazê-lo, se exercer faculdades e adquirir conhecimentos que não se desenvolvem apenas através dos estudos gramaticais. Quem sabe traduzir um texto literário, encontra-se em condições de entender o pensamento do autor; não quer dizer que realmente o entenda: poderá entendê-lo, se exercer faculdades e ganhar conhecimentos, que o acto de traduzir não implica necessariamente. Certo é, todavia, que só bem traduz uma página quem compreenda o pensamento que a ditou.

4. A aquisição completa, a assimilação perfeita, de formas e normas gramaticais, é um pressuposto – o primeiro ou o último – do aprendizado de uma língua, sobretudo quando ela já não é falada do modo como é escrita. Mas é um pressuposto, nada mais. E ainda assim, não se confunda a relativa «condição de necessidade» com uma «condição de anterioridade» absoluta: pelo menos tão facilmente decorrem as noções gramaticais, da leitura de um texto, cujo sentido de algum modo se vai descobrindo, como se descobrirá o sentido do mesmo texto, a partir de conhecimentos gramaticais precedentemente adquiridos. Do texto para a gramática, não da gramática para o texto – eis o princípio de aplicação às línguas clássicas, de um método mais fecundo, porque mais adequado às exigências mentais do estudante hodierno.



5. Se o transmitir aos estudantes as noções imprescindíveis para a correcta leitura e plena inteligência dos documentos literários de Roma e da Grécia constitui o escopo imediato de um curso superior de Letras Clássicas – esse não é o único. Compreender-se-ia que o fosse, se pudéssemos considerar a literatura como uma singularidade independente. Mas, ainda que seja a obra do grande poeta e do grande prosador, um dos elementos que conferem à cultura do seu povo e do seu tempo a fisionomia espiritual que a caracteriza, a verdade é que ele próprio escreveu a sua obra em termos de uma dependência de outros elementos da mesma cultura. Concretizando e exemplificando: Cícero e Demóstenes, ou qualquer das páginas destes escritores só se nos deparam em condições de perfeita inteligibilidade, na perspectiva de Roma ou de Atenas.

6. Mas tão-pouco, independentes singularidades são Roma e Atenas. Um documento literário, um monumento arquitectónico ou plástico, não importa qual, dos que subsistem entre as ruínas da tradição, fala através do que nos diz de Roma e Atenas, acerca de uma ideia que as culturas grega e latina realizaram completamente, cada uma de acordo com o seu génio próprio. Pedagogia evasiva e decepcionante seria, pois, aquela que se resignasse a prescrever o estudo de uma só, das duas parcelas que integram a Cultura Clássica.

7. A ideia que parcelada se realiza na cultura romana e na cultura helénica é a que, pelo menos a partir da Renascença, o Ocidente se esforça por compreender, mediante suas múltiplas e sucessivas concepções de «Antiguidade Clássica». De certo modo, dir-se-ia que os estágios do desenvolvimento da chamada Cultural Ocidental (Renascença, Ilustração, Romantismo...) têm como uma das suas expressões características e individualizantes um peculiar conceito do «Clássico». E o que se afirma aqui, quanto a épocas universais, vale quanto a momentos nacionais da mesma evolução cultural do Ocidente. Há, por exemplo, um conceito de Grécia e Roma, que é francês, e outro, que é germânico; e acrescente-se: um e outro, definem o perfil espiritual das nações que os conceberam. Assim, também a nossa efectiva participação no concerto das nações ocidentais há-de revestir-se do mesmo carácter que assuma um conceito «nosso», do que é Antiguidade Clássica.

8. O caminho para uma particular ou universal concepção do mundo greco-latino, pressupõe necessariamente o haver aprendido a ler os testemunhos da tradição, nos textos originais. Supõe, por conseguinte, a persistência do mesmo esforço que tem sido exigido ao estudante por todos os legisladores do ensino. Convém lembrar, todavia, que uma cultura não se exprime só pela linguagem escrita. No todo ou em parte, aquilo que um povo ou uma época quer dizer, di-lo, por vezes, mais distinta e claramente na linguagem do monumento figurado, do que na linguagem do monumento escrito. O estudante de letras clássicas tem de se formar tanto na estilística das formas e das instituições, como na gramática da prosa e do verso.



9. Ousemos mais um passo. O que há de verdadeiramente inédito e inaudito, na mensagem original de um povo, de uma época, de um indivíduo, não se diria indiferentemente em qualquer forma de expressão. Por outros termos: o conhecimento da vida dos povos antigos, nas suas várias manifestações – religiosas, artísticas, políticas, etc. – não constitui, como se crê, um simples comentário lançado à margem do texto poético ou prosaico, pois, no género ou na espécie, cada uma dessas manifestações é, ela própria, um texto bem legível e inteligível, ao qual, a prosa ou o verso também poderia servir de comentário marginal. Para compreender Atenas ou Roma, podemos partir de uma tragédia de Eurípides ou de um discurso de Cícero; mas, semelhante resultado obteríamos, sob outro aspecto, partindo do Pártenon ou do Panteon...

10. A ciência do «escrito» e a ciência do «artefacto» (entendam-se estas palavras no mais amplo sentido) percorrem duas vias convergentes, mas distintas em toda a sua extensão. A primeira denomina-se Filologia, e a segunda, Arqueologia; ou, no respectivo ponto culminante, História da Literatura e História da Arte. A arte não «ilustra» a literatura, como a literatura não «explica» a arte, porque, uma e outra são expressões autónomas, e demais heterogéneas. Isto não significa, evidentemente, que nada tenham a ver uma com a outra. Pelo contrário, «expressão plástica» e «expressão poética», ex. gr., têm de comum, precisamente, o facto de serem expressão. O que ambas exprimem, cada qual a seu modo e segundo as suas leis próprias, reside, provisoriamente oculto, no ponto de convergência da filologia e da arqueologia, ciências ou grupos de ciências, que, digamo-lo mais uma vez, percorrem distintas vias metódicas.

11. Ao Século em que vivemos estava reservado o começo de uma tímida extracção de novíssimos corolários pedagógicos a audaciosos teoremas científicos, que já não são novos. E o principal é este: não há comentário «real», por mais hábil e minucioso que seja, capaz de esclarecer totalmente, por fora, alguma obscuridade inerente à expressão «verbal», ou socorrer eficazmente qualquer deficiência da nossa compreensão; porém, uma vez apreendida a ideia que constituiria, por assim dizer, o núcleo vivente da cultura clássica – a qual, como dissemos, há-de surgir no ponto de convergência dos métodos filológico e arqueológico –, todas as dificuldades se encontram virtualmente superadas, posto que, então, nos apercebemos da natureza daquelas forças que, por dentro, deram origem à multiplicidade e à variedade dos seus testemunhos autênticos.

12. A enorme dificuldade, mas também o poderosíssimo atractivo, de semelhante pedagogia, consiste em avançar, concertando os passos andados ao longo de duas vias, cujos sentidos parecem contrários e até contraditórios. Efectivamente, se é certo que a ideia unitária de «cultura clássica» esclarecerá a significação dos seus múltiplos aspectos realizados na história (literária, artística, política, religiosa...), tão certo é que não atingiremos a mesma ideia, senão analisando, em linha de máxima complexidade, os estágios da sua exteriorização no tempo e no espaço. Admita-se, todavia, que, longínqua na sua transitoriedade, a ideia de cultura clássica está sempre próxima, na sua historicidade, aderindo intimamente a cada um dos seus aspectos.



13. De algum modo residir o todo em cada uma das suas partes, é o que aparta e distingue o orgânico e o vivente, do inorgânico e do não vivente. Procurar a ideia de cultura clássica, de certa forma realizada em qualquer texto que nos proponhamos estudar – eis a finalidade que não se representa claramente aos olhos do estudante. Onde falta a finalidade, sobra o desinteresse. Por isso, lamentar a decadência da cultura humanista, deplorar reformas ineptas e vituperar reformadores ignaros, que intentam banir as disciplinas clássicas dos programas do ensino médio, não basta para assinalar positivamente o amor pelas humanidades. Que o prestígio do latim e do grego declinaram vertiginosamente no horizonte dos interesses do estudante – é o facto; mas se quisermos averiguar o factor, temos de admitir que, na maior parte, a responsabilidade do desinteresse não cabe a quem aprende, mas a quem ensina. Se o helenista-aprendiz, se o latinista-aprendiz, não se interessa pelo grego e pelo latim, é porque o grego e o latim não são interessantes; e se o grego e o latim não são interessantes, é porque o mestre não pôde ou não soube despertar a paixão do aprendizado, mediante a acção do ensino.

14. A cultura do Mundo Antigo, em si mesma, e depois, na sua relação à cultura do Mundo Moderno – tal é o objecto próprio do ensino superior das Letras Clássicas. Eis porque não é possível imaginar espectáculo mais desolador, mais confrangedor, que o da multidão de estudantes que só têm à mercê da sua curiosidade natural, um compêndio de literatura, uma gramática, um dicionário, uma selecta, ou poucos textos profusamente anotados com observações gramaticais e estilísticas mais ou menos importunas. É certo que o exercício da erudição, pelo gosto da erudição, queremos dizer, pelo gosto de acumular desordenadamente noções esparsas e desconexas, insusceptíveis de concretizar-se em uma totalidade organizada, deve ser banido de todos os sectores do ensino universitário. Mas certo é, todavia, que a vituperada erudição não deve ser confundida com a indispensável informação acerca da vida e perenidade da ciência ou das ciências que professamos. Quem passou os quatro anos da licenciatura, agrilhoado a uma gramática, um dicionário, uma selecta, forçosamente julgará que nada mudou, nada muda, nada mudará ali, onde jaz inerte, esperando que o professor (?) lhe entregue nas mãos um saber já feito, acabado, inalterado e inalterável na rigidez da morte. A verdade é que o mais vigoroso incentivo ao trabalho e investigação pessoal – que é o único testemunho fidedigno, do interesse pela disciplina científica, resulta do sentimento de que não estamos sós, isolados, segregados, daqueles que, sempre e por toda a parte, vivem e viveram a vida de uma ciência que evolui e progride interessantemente.


15. Em resumo e conclusão:

«Língua», no âmbito das Letras Clássicas, é coisa que não existe... senão em gramáticas e dicionários. Talvez por isso ainda haja mestres de coisa nenhuma, fossilizados professores de humanidade, que tanto se estribam na lição gramatical, pesando e medindo conhecimento ou desconhecimento de «grego» ou «latim», pela maior ou menor capacidade de rememorar elementos formais da linguagem. A língua é uma abstracção da cultura: grega, da cultura grega, latina, da cultura romana. Por muito importante que seja – e de modo nenhum intentamos negar-lhe a importância que merece –, o ensino da língua deve ser encarado como um meio para atingir um fim. Só que esse fim tem de ser vislumbrado, se não atingido, enquanto é tempo; e tempo é, enquanto o licenciado estuda sob a direcção de quem possa mostrar-lhe o caminho a percorrer. Não se desperdicem os anos de Faculdade, repetindo a lição que devia ter sido aprendida no Ginásio e no Colégio. Ainda que, efectivamente, o não tenha sido, há maneiras de recomeçar, sem grave prejuízo para o ensino do que mais importa.

(In Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2000, pp. 175-179).




sábado, 4 de julho de 2026

O enigma homérico

Escrito por Paul Ulrich



«O “milagre grego”, que, de certo modo, é o milagre do Ocidente, teria nascido talvez, desse único e maravilhoso encontro de um anseio pela ideal transparência das formas intemporais, que é indo-europeu, e de uma transbordante criação de imagens, todas impregnadas da seiva e do sangue da vida, repetindo-se ciclicamente, na temporalidade. O milagre grego consistiu sobretudo, em encorporar, em encarnar o espírito em uma imaginação de tal maneira exuberante de vida, que jamais consentiu, por exemplo, que a lógica dos conceitos degenerasse em estéril conceptualismo, e portanto, que a escolaridade de uma filosofia do concreto algum dia se dissolvesse em palavroso e abstracto escolasticismo.

Milagre grego seria, por conseguinte, o milagre de uma perfeita reintegração

Eudoro de Sousa («Relações pré-históricas e proto-históricas entre a Grécia e o Oriente à luz das últimas descobertas arqueológicas», in Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos).

 

«Ante uma tradição perdida, inteiramente perdida, não há outro recurso senão adivinhá-la. Infelizmente, se os homens vulgares não são educados para o dinamismo mental, muito menos os filólogos têm sido agraciados pela inteligência que permite a adivinhação.»

Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).

 

«Ao que parece, duas causas, e ambas naturais, geraram a poesia. O imitar é congénito no homem (e nisso difere dos outros viventes, pois, de todos, é ele o mais imitador e, por imitação, apreende as primeiras noções), e os homens se comprazem no imitado.

Sinal disto é o que acontece na experiência: nós contemplamos com prazer as imagens mais exactas daquelas mesmas coisas que olhamos com repugnância, por exemplo, [as representações de] animais ferozes e [de] cadáveres. Causa é que o aprender não só muito apraz aos filósofos, mas também, igualmente, aos demais homens, se bem que menos participem dele. Efectivamente, tal é o motivo por que se deleitam perante as imagens: olhando-as, aprendem e discorrem sobre o que seja cada uma delas [e dirão], por exemplo, “este é tal”. Porque, se suceder que alguém não tenha visto o original, nenhum prazer lhe advirá da imagem, como imitada, mas tão-somente da execução, da cor ou qualquer outra causa da mesma espécie.

Sendo, pois, a imitação própria da nossa natureza (e a harmonia e o ritmo, porque é evidente que os metros são partes do ritmo), os que ao princípio foram mais naturalmente propensos para tais coisas, pouco a pouco, deram origem à poesia, procedendo desde os mais toscos improvisos.

A poesia tomou diferentes formas, segundo a diversa índole particular [dos poetas]. Os de mais alto ânimo imitaram as acções nobres e dos mais nobres personagens; e os de mais baixas inclinações voltaram-se para as acções ignóbeis, compondo, estes, vitupérios, e aqueles, hinos e encómios. Não podemos, é certo, citar poemas deste género [poetas que viveram] antes de Homero, se bem que, verosimilmente, muitos tenham existido; mas, a começar em Homero, temos o Margites e outros poemas semelhantes, nos quais, por mais apto, se introduziu o metro jâmbico (que ainda hoje assim se denomina porque nesse metro se injuriavam [iámbizon]). De modo que, entre os antigos, uns foram poetas em verso heróico, outros o foram em verso jâmbico.

Ὅμηρος (Homero)

Mas Homero, tal como foi supremo poeta no género sério, pois se distingue não só pela sua excelência como pela feição dramática das suas imitações, assim também foi o primeiro que traçou as linhas fundamentais da comédia, dramatizando, não o vitupério, mas o ridículo. Na verdade, o Margites tem a mesma analogia com a comédia, que têm a Ilíada e a Odisseia com a tragédia.»

Aristóteles («Poética»).

 

«Liberto por educação, o poeta elaborará depois o seu orgão próprio de intuição sobrenatural. Ele há-de meditar sobre a sequência dos heróis representativos do seu povo, aqueles que, por atingirem o ponto de tangência entre a humanidade e a divindade, “se vão da lei da morte libertando” [Luís de Camões, Os Lusíadas, canto I, estância II]. Transformar a série histórica em série simbólica, mais verdadeira porque universal, é acto de imaginação que se propicia apenas aos poetas inspirados.

O essencial da poesia está, quanto a nós, no pensamento expresso pelos tropos, quer dizer, na possibilidade de ascensão ao plano espiritual. Em consequência dizemos que a poesia é análoga da profecia e da teologia. Convém, todavia, para bom entendimento desta doutrina, que ninguém confunda a profecia com qualquer forma de mântica ou de adivinhação.

A asserção sobre os eventos possíveis ou futuríveis depende do conhecimento que o poeta haja obtido acerca das leis divinas, quer dizer, das essências divinas. Na concordância ou na discordância das leis divinas com as leis naturais e as leis sociais situa o poeta a acção humana sobre que se pronuncia em palavras proféticas. A poesia está para a profecia como a ciência para a metafísica.

Há poetas que não se contentando já com este exercício lúdico das imagens, talvez por verem esgotados os recursos de determinada mitologia, substituem os tropos desinteressados por argumentos de interessada finalidade. A elevação do pensamento, admirável nos poetas mais cultos, é movimento contemporâneo dos interesses em jogo, e não assegura comunicação duradoura para além dos períodos de crise. A posteridade não será grata para aqueles que substituem, dentro de perfeitas composições literárias, a poética pela retórica.»

Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).


«(...) a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta, o particular.»

Aristóteles («Poética»). 



O Triunfo de Aquiles por Franz von Matsch

«A pátria de Homero não foi a Grécia propriamente dita, mas sim a região situada para além do mar Egeu, na faixa jónio-eólica da Ásia Menor, ou seja, na zona situada um pouco ao sul daquela que serviu outrora de palco à guerra de Tróia. Parece ter nascido em Esmirna no nono século antes de Cristo. Um historiador pouco conhecido, de nome Heródoto, escreveu acerca de duzentos anos mais tarde uma “vita Homeri”. Nessa biografia relatava, entre outros factos, que os habitantes da localidade de Neon Teichos lhe haviam mostrado o lugar onde Homero costumava sentar-se recitando os seus versos. Este local era objecto de uma grande veneração, aí existindo um choupo “que crescera a partir da época em que Melesígenes parece ter sido o nome primitivo de Homero, significando “aquele que provém do rio Meles” –  o rio que corria próximo de Esmirna. A mãe ter-se-á denominado Creteis. As informações acerca do pai são menos precisas, havendo-lhe sido atribuídos diversos nomes. Plutarco asseverava até tratar-se de um demónio, de um ser sobrenatural. Inúmeras cidades jónias ainda apresentavam vestígios da passagem de Homero muitas centenas de anos mais tarde. Era particularmente estreita a sua ligação com a ilha de Quios, onde, decorridas muitas gerações, os Homéridas (membros de uma escola de poetas e trovadores) continuavam a escrever e recitar poemas no estilo por ele criado. Um dos hinos refere-se a um bardo oriundo dessa ilha rochosa, cujo canto ficaria para sempre imortal – esse homem outro não podia ser senão Homero. Aí se descreve também a figura de um cego, o que coincide com a afirmação de Heródoto segundo a qual a cegueira o ameaçava durante longos anos impedindo-o finalmente de ver. O “poeta cego” morreu em Ios, nas ilhas Cíclades, no século oitavo antes de Cristo. Pensa-se que foi sepultado num promontório rochoso. O local teria sido assinalado por uma lápide com a seguinte inscrição: “Aqui jaz o corpo sagrado do divino Homero, herói entre os heróis”».

Roland Göök («Homens que transformaram o Mundo»).

 

«Hoje podemos provar no livro Ver que, até ao começo do século XVI, não era um enigma por decifrar a identidade de Homero na Europa!

Foi desde os primeiros dias do século XVI, ao desfazer-se o Todo europeu, que a Europa perdeu os seus olhos Gregos da Idade-Média e da Renascença. E as nações Europeias repartiram entre si os sentidos da Arte, dividindo os povos da Europa em visuais e auditivos, tornando desta maneira impossível o equilíbrio entre os dois sentidos nobres do Homem, o equilíbrio divino, e o qual como ides ver, se chama Homero!

Homero é velho e cego porque já viu tudo. Quem já viu tudo precisou de muita idade para isso: e quem já viu tudo não necessita de olhos para mais nada.»

José de Almada Negreiros («Descobri a personalidade de Homero»).

 

«Os primeiros tempos da cultura intelectual da Grécia foram caracterizados pela poesia religiosa e mística, da qual restam apenas tradições mitológicas e os nomes dalguns poetas legendários, como Orfeu, os quais cantaram os deuses e as suas relações com os heróis.

À poesia religiosa sucedeu a poesia épica, tratada nas obras que se atribuem a Homero (900?).

Segundo uma tradição antiquíssima, Homero foi autor de duas grandes epopeias, a Ilíada e a Odisseia, onde se encontram descritos os costumes, a religião e toda a civilização dos tempos heróicos. A Ilíada tem por objecto o cerco de Tróia; a Odisseia canta os errores de Ulisses antes do seu regresso a Ítaca.


 
 Ἡρακλῆς (Héracles em bronze)

Em tempos posteriores à idade homérica apareceu a poesia didáctica, cultivada por Hesíodo, cuja existência é tão duvidosa como a de Homero. Das obras que lhe foram atribuídas restam três: Os trabalhos e os dias, a Teogonia e o fragmento épico intitulado Escudo de Héracles

Fortunato de Almeida («Curso de História Universal», Vol. I).


Hércules e Nesso

«A alma de Orfeu atravessara como divino meteoro o céu tempestuoso da Grécia que nascia. Desaparecido ele, as trevas acumularam-se novamente. Depois de várias revoluções, os tiranos da Trácia queimaram os seus livros, destruíram os seus templos, expulsaram os seus discípulos. Imitaram-nos os reis gregos e muitas cidades, mais ciosas da sua desenfreada licenciosidade do que de justiça. Pretenderam apagar a sua memória, destruir os seus últimos vestígios. E agiram com tanta eficiência que, alguns séculos após a sua morte, uma parte da Grécia duvidou da sua existência. Em vão os iniciados conservaram a sua tradição durante mais de mil anos. Em vão Pitágoras e Platão se referiram a ele como um homem divino. Para os sofistas e reitores, ele apenas personificava uma lenda sobre a origem da música. Ainda hoje, os cientistas negam, sem tergiversar, a existência de Orfeu. Apoiam-se sobretudo no facto de nem Homero nem Hesíodo o terem referido. Mas o silêncio desses poetas explica-se, amplamente, pela proibição estabelecida pelos governos locais a respeito de Orfeu. Os seus discípulos não perdiam nenhuma ocasião de exigir todos os poderes para a autoridade suprema do templo de Delfos. Não cessavam de repetir que as diversas questões entre os vários Estados da Grécia deviam ser submetidas à decisão do Conselho dos Anfictiões. Ora isso não convinha nem aos demagogos nem aos tiranos.

Oρφεύς

Quanto a Homero, talvez tenha sido iniciado no santuário de Tiro, cuja mitologia é a tradução da teologia de Sanconiaton. Homero, o jónio, podia muito bem ignorar o dórico Orfeu, cuja tradição era tanto mais secreta quanto mais perseguida. Hesíodo, nascido perto de Parnaso, devia conhecer o seu nome e a sua doutrina, através do santuário de Delfos. Mas talvez lhe tenha sido imposto silêncio a seu respeito pelos sacerdotes que o iniciaram no templo.»

Eduardo Schuré («Os Grandes Iniciados. Esboço da História Secreta das Religiões»).

 

«Quando Arthur Evans e os demais arqueólogos ingleses, italianos, franceses e norte-americanos publicaram os primeiros relatórios das escavações na ilha de Creta, que foram iniciadas no princípio deste Século [XX], pode dizer-se sem receio de errar por excesso que o deslumbramento foi a sensação predominante no mundo das ciências da Antiguidade. A “filologia de pá e enxada” colhera os louros de uma vitória que não seria fácil igualar. Cnosso e Haghia Tríada, Gurnia e Petsofa, Festo, Palaikastro, as grutas de Camarés e de Psychro, e todas as estações arqueológicas da ilha do rei Minos davam à luz da publicidade as ruínas de uma cultura em que os tempos de apogeu só poderia equiparar-se à do Egipto Faraónico, pelas dimensões dos monumentos arquitectónicos e que certamente a sobrepujava pela delicadíssima cerâmica e a suprema arte decorativa dos interiores palacianos. A história antiga e a filologia clássica trataram de reunir e reinterpretar as fontes à nova luz que brotava a jorros dos escombros da civilização “minóica”, e os resultados não tardaram a formular-se em teses extremas. Não hesitaram estudiosos de reconhecida autoridade e invulgar responsabilidade, em asseverar que, na Grécia Antiga, o que fora propriamente criador, provinha do elemento pré-grego da primitiva população. É claro que a tais assertos só as ruínas de Creta podiam conferir alguns visos de probabilidade.




Parte da reconstrução feita por Evans do palácio minóico de Cnossos (Bastião A da Entrada Norte, denominado Afresco do Touro).


A bibliografia cresceu e avultou desmedidamente até à Segunda Guerra Mundial. No fim do primeiro quartel do presente Século já não saía a lume compêndio de história grega que não abrisse a exposição com um escorço da pré-história micénica. Um após outro alinhavam nas bibliotecas os livros de Evans, Glotz, Dussaud, Nilsson, Mosso, Picard, Karo, Persson, Chapouthier, Pendlebury, e todas as pessoas cultas se habituavam a considerar a cultura minóica como o último substrato da Cultura Ocidental, tanto mais que pari passu, glotólogos e comparativistas estabeleciam os princípios de uma estratigrafia linguística que prolongava a história da língua grega até ao fundo desse passado em que os navios de Creta cruzavam o Mediterrâneo Oriental para desembarcar em todas as costas a preciosa indústria de seus inspirados artistas.

Porém, graves motivos subsistiam para que esmorecesse o entusiasmo dos corifeus. E todos se resumiriam nesta breve sentença de Martin P. Nilsson: Creta é um livro de imagens sem texto. É verdade que não faltavam entre as ruínas dos monumentos exumados por Evans e os arqueólogos que lhe sucederam exemplares de escrita. Não uma só, mas três diversas escritas, inventaram ou adaptaram os povos de Creta: uma pictórica ou hieroglífica, e duas silábicas, que Evans designou respectivamente por “Linear A” e “Linear B”. Mas nenhuma das três, até à genial descoberta de Ventris, revelou o segredo da língua ou das línguas que figurava; e não à míngua de esforços e de engenho aplicados à tarefa ingrata.»

Eudoro de Sousa («Escrita cretense, língua micénica e grego homérico», in Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos).


O arqueólogo Arthur Evans retratado em 1907, por William Richmond

«Arqueologia, e não metafísica, deveria intitular-se a doutrina aristotélica dos princípios, que Kant pretendeu refutar na Dialéctica Transcendental. Foi efectivamente da palavra arche, parente de arcano, arco ou arca, que se formou o termo arqueólogo. Os arqueólogos da Antiguidade olhavam para o Céu, os arqueólogos da Modernidade escavam a Terra.

A ontologia, doutrina do ente, que por singular está sujeito ao tempo, é menos do que arqueologia. Ela assume, porém, na obra de Santo Anselmo o significado excelente de transição do tempo para a eternidade. A Hegel devemos a doutrina religiosa de subordinação da ontologia à arqueologia».

Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).

 

«A arqueologia, tanto pelas descobertas mais recentes como por novas interpretações de descobertas já esquecidas, entrou há pouco de reenunciar um problema que, neste tempo, apaixonou a opinião científica, na segunda metade do século XIX – refiro-me ao movimento que se designou de “panbabilonismo” ao qual sucedeu, já neste século, a “fenício-mania”. Panbabilonismo e fenício-mania indicam, de per si, a tensão dessas correntes. Não faltou, nas referidas épocas, quem defendesse a tese de uma total dependência da cultura grega, em relação a culturas orientais, de Babilónia ou da Fenícia. É claro que o problema era simplesmente o do papel desempenhado pelos “adstratos”. Pois bem; as escavações de Ugarit, onde, há pouco mais de vinte anos, foi exumada uma biblioteca, que continha numerosos escritos datados do II Milénio, e a decifração de outros textos, que pertenciam à biblioteca de Hattush, capital do Império Hitita, aproximadamente da mesma época, renovam a velha questão de saber o quanto devem os gregos às culturas do Oriente. Mas agora, que os dados são incomparavelmente mais copiosos e a crítica sobre eles se exerce com mais inabalável rigor – agora apercebemo-nos, sem sombra de dúvida, que na poesia religiosa e profana do Oriente, procediam os poetas gregos, tal como procederam os artistas da cerâmica. A diferença continua sendo a que separa e distingue o cósmico do caótico, ou, talvez com menos injustiça para com a beleza, a diferença que vai do que é só vida impetuosa, ao que é, essa mesma vida elevada à tranquila e cristalina transparência da ideia.

Mas, com tudo isto, igual vem a ser o papel dos substratos egeo-asiânicos, e dos adstratos orientais, na formação da cultura grega?

Ao que se me afigura, responder a tal pergunta, equivaleria a justificar, por meio de renovado discurso, o que repetidamente se tem querido dizer através daquela fórmula celebrizada como “Milagre Grego”».

Eudoro de Sousa («Relações pré-históricas e proto-históricas entre a Grécia e o Oriente à luz das últimas descobertas arqueológicas», in Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos).

 

«(...) a Grécia e Roma apresentam-se-nos com carácter absolutamente inimitável: Nada na história dos tempos modernos com a sua história se parece. Nada no futuro poderá assemelhar-se-lhes. Tentaremos mostrar por que regras eram regidas estas sociedades e deste modo mais facilmente verificaremos por quais razões essas mesmas sociedades jamais poderão voltar a reger a humanidade.»

Fustel de Coulanges («A Cidade Antiga»).

 


«A boa leitura é uma arte difícil; exige demorada iniciação. Iniciar o leitor, consiste em aproximá-lo, tanto quanto possível, do escritor: a contemporaneidade seria a perfeição. No limiar da História da Filosofia, o estudante tem que se desvestir dos prejuízos culturais do seu tempo, se quiser compreender a lição autêntica dos grandes pensadores de todos os tempos. A não ser que só pretenda julgar os sistemas antigos e advogar a causa dos modernos... Mas, nem a Filosofia é a advocacia do presente, nem a História o tribunal do passado.»

Eudoro de Sousa («Sejamos contemporâneos de Aristóteles», in Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos)



O ENIGMA HOMÉRICO

A arqueologia inspirada por Homero não cessou de procurar, na noite do passado, traços de passagem desse poeta épico cujos anacronismos surpreenderam por vezes os seus mais fiéis admiradores. De início, era-lhe concedido um génio puramente imaginativo. As suas obras, a Ilíada, que relata a cólera de Aquiles sob as muralhas de Tróia, e a Odisseia, que narra o regresso de Ulisses a Ítaca, pertencem mais à ficção do que à realidade: a alegoria impõe-se ao real. Depois o caso é reconsiderado. Os Arcaicos, assim designa Homero os Gregos, são exactadamente Arcaicos: o nome não é inventado; existe nos escritos hititas. E depois, Tróia, Micenas, Tirinto e os seus castelos fortificados não são criações da fantasia. Schliemann arrancou-os às trevas. As pedras ciclópicas, as esculturas, as cerâmicas aí estão para testemunhar a boa-fé de Homero. Passaremos por cima do «palácio de Príamo», do «tesouro de Astreia», do túmulo de Clytemnestre», produtos de um excesso de romantismo dos arqueólogos micénicos. Sem a mínima dúvida, tomaram os seus desejos por realidades.

E chegamos a este paradoxo: os relatos de Homero inspiraram os investigadores (Schliemann) e, em troca, as descobertas por eles feitas depõem em favor dos acontecimentos relatados por Homero. O génio de Homero é pois ao mesmo tempo imaginativo e construtivo. Basta aprender a separar os enredos dos factos históricos. As pesquisas arqueológicas permitem legitimar certas descrições de locais, de casas ou de palácios e reter em bloco todos os elementos que compõem a arte de viver. Este trabalho de grande fôlego está longe de encontrar-se terminado e fará ainda correr muita tinta.

A Ilíada e a Odisseia põem problemas aos historiadores, aos filólogos, aos geógrafos. E também aos arqueólogos, desde que se trate de identificar um achado segundo os textos homéricos e inscrevê-lo no tempo, no seu lugar cronológico. Isto porque ninguém, até ao momento, conseguiu ainda situar o próprio Homero na cadeia dos séculos.

Heródoto faz viver o poeta na primeira metade do século IX antes de Cristo. Eric Bethe, mestre da escola analítica alemã, implanta-o no início do século VI. O francês Paul Mazon aproxima-se da tese de Heródoto. Para ele, a Ilíada pode ter sido escrita em fins do século IX, princípios do século VIII a. C. Quanto à Odisseia, muito mais tarde. Sessenta a oitenta anos separam os dois poemas. Homero teria vivido entre o início do século VII e o início do século VI.



Supondo que isto é exacto, ficamos intrigados pelo tempo que separa a «aparição» das duas obras; mais de meio século. Homero teria facilmente sido centenário, o que não aparece em qualquer texto. A sua existência é, de resto, um mistério. Sete cidades gregas da Ásia Menor usurparam a honra de contá-lo entre os seus homens ilustres. Nenhuma é capaz de nos dar dele uma biografia séria. É questão de perguntar se não terá havido dois Homeros, sendo o segundo neto do primeiro e usando o seu nome, como era costume. Entre as hipóteses mais audaciosas, aquela que nega a sua existência não é de rejeitar de olhos fechados.

Interrogamo-nos sobre a própria obra, reveladora de um muito grande talento. O talento encontra-se nas duas epopeias, o que tende a garantir-nos a existência de um autor, ou pelo menos de autores pertencentes à mesma escola, a uma mesma filiação espiritual e literária. Avança-se o nome dos Homérides de Chios, aedos especializados na recitação dos versos de Homero.

Em todo o caso, as hipóteses não contradizem as que rodeiam as fontes das duas epopeias. Parece como provável que tenham nascido na adição de vários poemas cantados durante séculos pelos aedos. Há mais do que uma simples adição, há fusão, há criação. O toque do mestre sente-se em cada verso. Seria pois injusto considerar o autor, ou os autores, como simples compiladores.

Tais considerações tornam inevitáveis os anacronismos que se detectam nas descrições, nos tempos, nos costumes, nas artes. Pouca coisa, é verdade, mas o suficiente para perturbar um espírito lógico. Homero fala de ferro quando deveria falar de bronze. O ferro não tinha ainda feito a sua aparição em 1230 (?), na altura da guerra de Tróia. Descreve uma incineração numa altura em que os micénicos inumavam os seus mortos. Quando descreve um porto, uma cidade, um palácio, é um porto, uma cidade ou um palácio do ano 700 antes da nossa era que descreve, não forçosamente os do fim do segundo milénio.

Homero relata aventuras da época micénica numa altura em que a Grécia escapa já à influência austera dos Dórios e começa a sua ascensão para uma renascença esplendorosa. Para ser verosímil, por exemplo, fia-se nos relatos dos marinheiros do seu tempo. A Odisseia é a obra de um navegador. O conhecimento dos ventos e da construção naval que Homero demonstra levam-nos a pensar ter sido ele próprio um marinheiro. Esta hipótese nunca foi sustida. Que objecções se lhe opõem? Não é necessário que o autor tenha vivido o périplo de Ulisses para lhe retirar toda a hipótese de veracidade. Que se censurem a Homero imprecisões nas descrições das costas ao longo das quais navega não é admissível. Os levantamentos geográficos da sua época eram muito imprecisos em relação aos nossos. E fazemos mal em tentar reconstituir a epopeia de Ulisses num mapa do século XX da nossa era.

Ulisses e o cântico das sereias

Que a arqueologia se sente pouco à vontade neste domínio, a ninguém espanta. Tira a sua contrapartida da comparação das imagens transmitidas pelas cerâmicas ou pelos frescos com os textos homéricos. Circe, certo dia, aconselha Ulisses a interrogar a alma de Tirésias sobre as suas possibilidades de regresso a Ítaca. Uma consulta tão grave só poderá resultar se for santificada por um sacrifício. O poeta faz reviver a cerimónia com todo o pormenor. O seu texto poderia perfeitamente servir de comentário à procissão fúnebre que se desenrola nos flancos de um sarcófago descoberto em Haghia Tirada, em Creta.

Tudo começa pelo sacrifício do touro, que será seguido pelo das duas cabras. Três mulheres, vestindo longas túnicas apertadas na cintura, com os braços carregados de oferendas, avançam para o altar. Este é flanqueado por dois grossos mastros que suportam no topo achas de dois gumes. Num deles está pousada uma ave de asas escuras. Eis que é derramado numa cratera o vinho ritual, enquanto um músico toca cítara. O morto, de pé junto do seu túmulo, observa. Nenhum dos gestos dos que o rodeiam lhe escapa. Três oficiantes aproximam-se dele. Um deles leva uma barca, os outros um jovem veado. A partida para as ilhas da bem-aventurança está próxima. A viagem pelas trevas será longa.



A viagem dos mortos nem sempre é feita de barco. Segundo os ritos ou as épocas, o desaparecido cavalga um golfinho. Este benfazejo cetáceo é venerado em Creta, onde inspira pintores e poetas. Certos golfinhos têm direito ao reconhecimento dos vivos: os que teriam trazido das profundezas do mar o corpo do poeta Hesíodo. Este salvamento lendário permitiu dar ao contemporâneo de Homero uma sepultura condigna.

As descobertas arqueológicas corroboram os nossos conhecimentos, revelam os escritos sobre o costume de oferecer provisões de boca aos viajantes do além. Numa tumba de Mallia, Evans encontra uma tábua cavada no meio, para receber as libações, e orlada por uma dupla cintura de trinta e seis pequenas cúpulas, destinadas a receber os alimentos. Esta necessidade de alimentar os mortos é levada a tal extremo que os Cretenses deixam por vezes orifícios nos túmulos, para lá deitarem os vinhos fúnebres.

Apolo

Os sacerdotes cretenses só honram os seus deuses junto dos túmulos, derramando lágrimas. A phorminx (cítara) e a flauta, nos dias de festa, abandonam os seus ritmos chorosos para acompanhar os bailarinos e os coristas em torno dos altares de Apolo. Os monumentos minoenos, pelo pincel ou pelo cinzel, representam frequentemente grupos de bailarinas. No seu hino a Apolo, Homero põe em cena os sacerdotes de Cnossos. É em ritmo de dança que se desdobra a procissão.

«O senhor Apolo, filho de Zeus – escreve o poeta – abria a marcha tocando deliciosamente a phorminx que tinha na mão, e avançava com um belo passo levantado. Os Cretenses seguiam-no e cantavam o primeiro Paian...».

As bailarinas e os cantores, interpretando péans em honra de Apolo e ditirambos em honra de Dionísios, estão na origem da tragédia. Não é preciso sair da Grécia para encontrar a origem do teatro. Um pequeno teatro onde se celebrava o culto dos deuses. A raiz do teatro grego é religiosa e assim permanece até ao século de Péricles. O de Asclépios, em Epidauro, o de Apolo, em Delfos, o de Dionísios, em Atenas, são verdadeiros templos.

(In Os Grandes Enigmas das Civilizações Desaparecidas, Amigos do Livro, Tomo 1, pp. 36-40, com a colaboração de Jean Renald, Lucien Vieville e Brigitte Friang).


Teatro de Dionísio em Atenas

Antigo teatro em Epidauro



Στοιβαδείον (Stoibadeion): ruínas do Templo de Dionísio na ilha grega de Delos.