quinta-feira, 21 de maio de 2026

Mário Ferreira dos Santos: o «Philosophus brasiliensis»

Escrito por Olavo de Carvalho




«Quando a obra de um único autor é mais rica e poderosa que a cultura inteira do seu país, das duas uma: ou o país consente em aprender com ele ou recusa o presente dos céus e inflige a si próprio o merecido castigo pelo pecado da soberba, condenando-se ao definhamento intelectual e a todo o cortejo de misérias morais que necessariamente o acompanham.

Mário Ferreira ocupa no Brasil uma posição similar à de Giambattista Vico na cultura napolitana do século XVIII ou de Gottfried von Leibniz na Alemanha da mesma época: um gênio universal perdido num ambiente provinciano incapaz não só de compreendê-lo, mas de enxergá-lo. Leibniz ainda teve o recurso de escrever em francês e latim, abrindo assim algum diálogo com interlocutores estrangeiros. Mário está mais próximo de Vico no seu isolamento absoluto, que faz dele uma espécie de monstro. Quem, num ambiente intelectual prisioneiro do imediatismo mais mesquinho e do materialismo mais deprimente – materialismo compreendido nem mesmo como postura filosófica, mas como vício de só crer no que tem impacto corporal –, poderia suspeitar que, num escritório modesto da Vila Olimpia, na verdade uma passagem repleta de livros entre a cozinha e a sala de visitas, um desconhecido discutia em pé de igualdade com os grandes filósofos de todas as épocas, demolia com meticulosidade cruel as escolas de pensamento mais em moda e sobre seus escombros erigia um novo padrão de inteligibilidade universal?».

Olavo de Carvalho («Mário Ferreira dos Santos e o nosso futuro», in Sapientiam Autem Non Vincit Malitia).

 

«Já o dissemos, e repetimos, que, gnoseologicamente, a unidade se dá ao lado da pluralidade, mas ontologicamente somos obrigados a aceitar a sua prioridade, que não tem nada de cronológica, porque onde há e se dá o tempo, a unidade não antecede à pluralidade, porque há contemporaneidade entre ambas.

Não se deve confundir a unidade transcendental com a unidade quantitativa, pois a primeira é de natureza metafísica, enquanto a segunda é de natureza corpórea.

Na linguagem pitagórica, a estructura geométrica de um ente, considerado onticamente, revela uma unidade quantitativa, enquanto a estructura ontológica, que é a da forma, é uma unidade transcendental.

A unidade quantitativa não pode ser predicável a seres não corpóreos. O ser, enquanto tal, o Ser Supremo, não é uma unidade quantitativa, mas uma unidade transcendental. Sua estructura não é geométrica.

Na posição henológica, a sequência dos raciocínios seria a seguinte: não há pluralidade que na base não se funde na unidade, pois se a negássemos totalmente cairíamos no nada. Portanto, a pluralidade exige a prioridade da unidade, o que, ontologicamente, não pode caber a menor dúvida.

Em “Ontologia e Cosmologia”, examinamos as várias unidades, segundo as modalidades de ser, tudo quanto é, é uma unidade, como tudo, que tem uma unidade, é. A unidade em si não tem uma definição essencial como não a tem o Ser, enquanto ser, mas apenas nominal. Não pertence ela a um gênero, nem podemos predicar-lhe uma diferença específica. E o que é perfeito em si mesmo não é definível, porque não tem finitude.



O número surge como a medida da pluralidade pela unidade. Portanto, há tantos números (tipos de números) quantas forem as modalidades da unidade. Se a modalidade for apenas a quantitativa, temos o número quantitativo (arithmós posootes de Pitágoras, que é o número da Logistikê, do cálculo, o número da aritmética, tomado abstractamente).

Se a unidade for de conjunto, teremos o número-conjunto; se tomada na sua coerência, formando um todo homogêneo, temo-la como tensão (arithmós tonós), e assim sucessivamente, como vector, fluxo, functor, relação, analogia, etc. Portanto, o campo da matemática não se restringe apenas ao das abstracções quantitativas, como se pensa comumente, mas ao campo da totalidade do ser. A matemática, no sentido pitagórico, é portanto a ciência mater, no sentido hierárquico, pois pode abranger a unidade sobre todos os aspectos. A Mathesis é a instrução, o saber supremo, e a filosofia, no sentido pitagórico, é apenas o afanar-se para alcançá-la, o “amor do saber”. E é neste sentido que se deve entender a simbolização da Divindade, como o Grande Arquitecto do Universo, ou como o Grande Matemático, que surge em certas ordens, cujo verdadeiro sentido é este. A Mónada Suprema, que é Deus (porque nele ser e conhecer se identificam), é o saber supremo, o saber absoluto e total, a mathesis superior, da qual participamos, gradativamente, através do esforço que desvela, que arranca os véus do que está oculto, e penetra no conhecimento profundo das coisas. Eis porque o itinerarium mysticum, a via symbolica é um caminho para alcançá-la, pois, graças aos símbolos, vamos apontando as perfeições de que eles participam particularmente, e que, no Ser Supremo, são em plenitude.»

Mário Ferreira dos Santos («Tratado de Simbólica»).


«Mário complementa o método com a pentadialética, uma distinção de cinco planos diferentes nos quais um ente ou fa[c]to pode ser examinado: como unidade, como parte de um todo do qual é elemento, como capítulo de uma série, como peça de um sistema (ou estrutura de tensões) e como parte do universo.

Nos dez primeiros volumes da Enciclopédia, Mário aplica esses métodos à resolução de vários problemas filosóficos divididos segundo a distinção tradicional entre as disciplinas que compõem a filosofia – lógica, ontologia, teoria do conhecimento, etc. –, compondo assim a armadura geral com que, na segunda série, se aprofundará no estudo pormenorizado de determinados temas singulares.

Aconteceu que, na elaboração dessa segunda série, ele se deteve mais demoradamente no estudo dos números em Platão e Pitágoras, o que acabou por determinar o upgrade espetacular que marca a segunda metanóia do filósofo e os dez volumes finais da Enciclopédia, tal como expliquei na introdução à Sabedoria das Leis Eternas. O livro Pitágoras e o Tema do Número, um dos mais importantes do autor, dá testemunho da mutação. O que chamou a atenção de Mário foi que, na tradição pitagórico-platônica, os números não eram encarados como meras quantidades, no sentido em que são usados nas medições, mas sim como formas, isto é, articulações lógicas de relações possíveis. O que Pitágoras queria dizer com sua famosa afirmação de que “tudo são números” não é que todas as qualidades diferenciadoras podiam se reduzir a quantidades, mas que as quantidades mesmas eram por assim dizer qualitativas: cada uma delas expressava um certo tipo de articulação de tensões cujo conjunto formava um objeto. Mas, se de fa[c]to é assim, conclui Mário, a seqüência dos números inteiros não é apenas uma contagem, mas uma série ordenada de categorias lógicas. Contar é, mesmo inconscientemente, galgar os degraus de uma compreensão progressiva da estrutura do real. Vejamos, só para exemplificar, o que acontece no trânsito do número um ao número cinco. Todo e qualquer objeto é necessariamente uma unidade. Ens et unum convertuntur, “o ser e a unidade são a mesma coisa”, dirá Duns Scot. Ao mesmo tempo, porém, esse objeto conterá em si alguma dualidade essencial. Mesmo a unidade simples, ou Deus, não escapa ao dualismo gnoseológico do conhecido e do desconhecido, já que aquilo que Ele conhece de si mesmo é desconhecido por nós. Ao mesmo tempo, os dois aspectos da dualidade têm de estar ligados entre si, o que exige a presença de um terceiro elemento, a relação. Mas a relação, ao articular os dois aspectos anteriores, estabelece entre eles uma proporção, ou quaternidade. A quaternidade, considerada como forma diferenciada do ente cuja unidade abstrata captamos no princípio, é por sua vez uma quinta forma. E assim por diante.


 

A mera contagem exprime, sinteticamente, o conjunto das determinações internas e externas que compõem qualquer objeto material ou espiritual, atual ou possível, real ou irreal. Os números são portanto “leis” que expressam a estrutura da realidade. O próprio Mário confessa não saber se essa sua versão muito pessoal do pitagorismo coincide materialmente com a filosofia do Pitágoras histórico. Seja uma descoberta ou uma redescoberta, a filosofia de Mário descerra diante dos nossos olhos, de maneira diferenciada e meticulosamente acabada, um edifício doutrinal inteiro que, em Pitágoras – e mesmo em Platão – estava apenas embutido de maneira compacta e obscura. Ao mesmo tempo, em A Sabedoria dos Princípios e demais volumes finais da Enciclopédia, ele dá ao seu próprio projeto filosófico um alcance incomparavelmente maior do que se poderia prever até mesmo pela magistral Filosofia Concreta. A esta altura, aquilo que começara como conjunto de regras metodológicas se transmuta num sistema completo de metafísica, a mathesis megiste ou “ensinamento supremo”, ultrapassando de muito a ambição originária da Enciclopédia e elevando a obra de Mário Ferreira ao estatuto de uma das mais altas realizações do gênio filosófico de todos os tempos.


 

Não tenho a menor dúvida de que, quando passar a atual fase de degradação intelectual e moral do país e for possível pensar numa reconstrução, essa obra, mais que qualquer outra, deve tornar-se o alicerce de uma nova cultura brasileira. A obra, em si, não precisa disso: ela sobreviverá muito bem quando a mera recordação da existência de algo chamado “Brasil” tiver desaparecido. O que está em jogo não é o futuro de Mário Ferreira dos Santos: é o futuro de um país que a ele não deu nada, nem mesmo um reconhecimento da boca para fora, mas ao qual ele pode dar uma nova vida no espírito.»

Olavo de Carvalho («Mário Ferreira dos Santos e o nosso futuro», in Sapientiam Autem Non Vincit Malitia).



«A Díada pitagórica não é apenas oposição. A Grande Díada, que é a Díada transcendental, é constituída do Ser Supremo como forma (na sua essência e existência), que é UM, e na sua operatio, isto é em sua acção, que tende para realizar algo.  Corresponde à dualidade Pai, o Um, com essência e existência, como vontade, para os intérpretes escolásticos, e o Filho, como Intelectualidade, Logos, como operação, que realiza a procissão ad extra, que é a da criação, que se manifesta através da segunda díada, a das procissões activas e passivas, no terreno da oposição. As procissões intrínsecas, inerentes ao Ser Supremo, as procissões in intra da escolástica, realizam-se no próprio Ser Supremo, sem delimitações. Os dois grandes papéis (daí persona, pessoa) que o Ser Supremo realiza são o da Forma e o da operatio, unidos no Ser, cujo papel de união, de infinito amor, é simbolizado pelo Espírito Santo, o que nos permite compreender porque a Trindade cristã é três hipóstases em Um só Ser. Este tema, que é objecto da Teologia, é nos livros correspondentes devidamente estudado, não só em face do pensamento cristão como em outros sectores do pensamento religioso. No campo da filosofia, podemos dizer que o Ser Supremo é a sua própria forma, pois como existente e como essente é o mesmo, pois nele se identificam existência e essência. Mas o Ser é imutável na sua essência e na sua existência, pois é tudo quanto pode ser, opera. O operar e a forma se identificam, pois é a operação infinita do Ser Supremo. Como há aqui fusão absoluta, o símbolo do amor serve para apontá-lo. Nas religiões, esse papel é indicado pelo Espírito Santo, no catolicismo; ou Brahman, no pensamento hindu.

Assim a Díada transcendental de Pitágoras não deve ser confundida com a díada imanente que se manifesta no antagonismo das oposições. A primeira é a Grande Díada, e a segunda é a simbolizada pelo 2. Compreende-se assim a série pitagórica. O 1 gera o 1 e este o 2. O Um supremo (Pai) gera o Filho, que é ainda ele, Um, e este gera o 2, a oposição da criação, porque a criatura é um ser que não é tudo quanto pode ser o ser. Nela há uma deficiência, pois a ela não podemos predicar todos os atributos predicáveis ao Ser Supremo. Ela é fundamentalmente 2.»

Mário Ferreira dos Santos («Tratado de Simbólica»).

 


«Mathesis megiste: Mário utiliza-se desta expressão pitagórica para nomear a última série da sua Enciclopédia [das Ciências Filosóficas] e a culminação do seu ensino. Para explicar de que se trata, ele começa por classificar em quatro tipos as linguagens com que se transmitem conhecimentos: pragmática, para as comunicações cotidianas; simbólica, para a  poesia e a religião; científica, para dar conceitos nítidos às coisas classificadas pelo conhecimento; e finalmente filosófica, “onde os conceitos atingem sua máxima pureza, válidos para todos os setores do conhecimento”. Realização última e plenária da linguagem filosófica, a Mathesis megiste, assim, constrói “um universo de discurso válido para todas as esferas do conhecimento”. [Cf. A Sabedoria dos Princípios, p. 15 ss.]. Quanto ao conteúdo, a Mathesis compõe-se de verdades per se nota, coligidas das obras de todos os principais filósofos (não houve um que não percebesse alguma) e ordenadas em sistema. A Mathesis é, pois, algo como uma unidade transcendente das filosofias, na qual se expressam os princípios auto-evidentes subjacentes a toda a filosofia possível; é, ao mesmo tempo, a lógica interna de todo o sistema de metafísica e ontologia, e finalmente uma suprametodologia de todas as disciplinas filosóficas [Beraldo foi particularmente feliz ao assinalar que essa síntese é “a um tempo tradicional e pessoal”, pois Mário não apresenta a Mathesis como obra original sua, e sim como uma elaboração pessoal de uma ciência já anunciada e parcialmente realizada pelos grandes filósofos do passado, particularmente Pitágoras, Platão, Aristóteles, S. Tomás de Aquino e S. Boaventura].

 

(...) Quanto ao sentido geral da Enciclopédia, a fórmula de Carlo Beraldo, se peca por incompleta – já que entram na composição do pensamento de Mário muitas outras heranças além da pitagórica e da tomista – chama no entanto a atenção para um ponto fundamental: observando a tendência geral do mundo moderno para a matematização do pensamento filosófico, Mário empenhou-se a fundo em sanear essa tendência de sua preconceituosa hereditariedade gnóstica e anticristã, e supôs, aparentemente com razão, que os males do matematismo só poderiam ser sanados, homeopaticamente, com um matematismo ainda mais aprofundado. A crítica que ele empreendeu da lógica matemática, num de seus livros, aliás dos mais prejudicados pelo descuido da edição [Grandezas e Misérias da Logística. São Paulo: Matese, 1966], mostra uma intuição quase visionária de uma das principais raízes da tragédia contemporânea: a matematização do pensamento empreendida por intelectos menores, incapazes de apreender, da matemática, senão os seus aspectos lógico-formais, e totalmente cegos para a esfera superior em que por trás do puro formalismo, aparece a realidade suprema dos princípios ontológicos, substancialmente os mesmos proclamados por Aristóteles e S. Tomás de Aquino. A ponte entre o matematismo e a ontologia, Mário julgou encontrá-la em Pitágoras. Daí o acerto essencial da fórmula de Beraldo.

Pouca importa, ademais, saber se o Pitágoras aí referido é o histórico ou se é uma pura projeção de um aspecto superior da alma do próprio Mário Ferreira dos Santos. Mário mesmo brincou com essa hipótese, auto-representando-se, num diálogo filosófico [Filosofias da Afirmação e da Negação. São Paulo: Logos, 1959], na figura de um personagem de nome Pitágoras de Mello.



Não é impossível, no entanto, que a fantasia exata do seu pitagorismo tenha acertado mais fundo, historicamente, do que ele mesmo supôs. Pois, na sua ousadia de reconstrutor ideal, ele avança sua conjetura até delinear, na base da pura dedução, o que poderia ter sido o ensinamento oral de Platão; e aqui ele acerta na mosca, como se vê pela perfeita homologia entre o seu Platão ideal e aquele revelado, duas décadas após a morte do nosso filósofo, pela exaustiva confrontação histórica dos textos, empreendida em trabalho memorável pelo historiador italiano Giovanni Reale

(Introdução de Olavo de Carvalho a Mário Ferreira dos Santos, in «A Sabedoria das Leis Eternas»).



Mário Ferreira dos Santos: o Philosophus brasiliensis

Mário [Dias] Ferreira dos Santos[1] nasceu em Tietê, Estado de São Paulo, no dia 3 de janeiro de 1907, às 13h20, filho de Francisco Dias Ferreira dos Santos e de Maria do Carmo Santos.

Seu pai, português de nascimento, descendia de uma família de advogados e juristas, mas seguiu carreira de artista e se notabilizou como um dos pioneiros do cinema, tendo produzido e dirigido dezenas de filmes, incluindo O Crime dos Banhados, reconhecido como o primeiro longa-metragem da filmografia mundial. Mário quando menino, participou como ator de alguns filmes do pai.


Mário no curta-metragem Os Óculos do Vovô (1913).

Casado com uma senhora muito católica, Francisco Santos era ateu e maçon. Mário contaria a seus filhos que o contraste entre as crenças do pai e da mãe foi um dos primeiros motivos de espanto que despertaram prematuramente sua inquietação filosófica. Apesar de suas convicções, Francisco Santos era grande admirador da educação jesuítica, motivo pelo qual, após instalar-se com a família em Pelotas, Rio Grande do Sul, matriculou o filho no Ginásio Gonzaga (hoje em dia dirigido por padres maristas).

Mário Ferreira dos Santos sempre se considerou devedor dos jesuítas, dos quais recebeu as primeiras noções de filosofia e a formação religiosa a que permaneceria fiel, apesar de crises temporárias, até o último dia. Deveu a eles algo mais: sentindo despertar em si o que supôs ser uma vocação clerical, foi orientado pelos mestres a que buscasse noutra direção o rumo da sua vida.

Em 1925, ingressou na Faculdade de Direito de Porto Alegre, estreando como advogado em 1928, com sucesso, antes mesmo de formar-se. No mesmo ano em que se bacharelou em Direito e Ciências Sociais, 1930, abandonou a profissão para trabalhar na empresa de produções cinematográficas de seu pai. Simultaneamente, dirigia o jornal gaúcho A Opinião Pública. Como jornalista, apoiou ativamente a Revolução de 1930, mas não tardou a criticar certos atos do novo governo revolucionário, sendo por isto preso e obrigado a afastar-se da direção do jornal.

Ainda em Porto Alegre, trabalhou no Diário de Notícias, no Correio do Povo e em algumas revistas. Como comentarista político, escreveu mais de uma centena de artigos sobre a II Guerra Mundial, alguns deles depois reunidos em livros.

De 1943 a 1944, fez várias traduções para a Editora Globo, entre as quais Os Pensamentos, de Blaise Pascal, Diário Íntimo, de Amiel, A Fisiologia do Casamento, de Balzac, e Vontade de Potência, de Nietzsche.



Nietzsche foi uma influência marcante na formação do nosso filósofo, que depois traduziu ainda – sempre diretamente do original alemão – Aurora, Além do Bem e do Mal e Assim Falava Zaratustra, este último acompanhado de comentários minuciosos que, analisando o simbolismo da obra, constituem até hoje um dos mais valiosos itens na bibliografia dos estudos nietzschianos. Ainda sobre Nietzsche, Mário Ferreira escreveu um longo ensaio, O Homem Que Nasceu Póstumo, no qual, tomando a palavra em nome do filósofo-poeta, o defende contra os seus detratores.

Datam desse período vários outros ensaios de tema filosófico – mas de tratamento antes literário –, em que vemos pouco a pouco delinear-se alguns dos temas básicos da preocupação do autor. Encontrando dificuldade para publicá-los, Mário Ferreira tornou-se seu próprio editor, obtendo notável sucesso de livraria com obras publicadas sob uma estonteante variedade de pseudônimos. Daí por diante, ele não deixaria mais a atividade editorial, fundando várias empresas; as principais foram a Livraria e Editora Logos S.A. e a Editora Matese Ltda., ambas de São Paulo, pelas quais publicou – imprimindo-os em gráfica própria – não apenas os seus livros, mas uma infinidade de traduções de obras clássicas, bem como enciclopédias, dicionários e antologias de toda sorte.



Na década de 1950, mudou-se para a capital paulista, onde, enquanto prosseguia sua atividade editorial, dirigia quatro cinemas, ao mesmo tempo que dava cursos e conferências, escrevia para jornais e revistas e ainda ia redigindo, em velocidade crescente com o decorrer dos anos, a sua obra filosófica. Homem de atividade vulcânica – tipo colérico da tipologia de Le Senne – e dotado de gênio empresarial, Mário foi o introdutor, no Brasil, do sistema de livros a crédito, vendidos de porta em porta. Fez enorme sucesso, ainda aumentado pela repercussão de seu Curso de Oratória e Retórica, freqüentado por políticos, empresários e intelectuais de renome, e que, publicado em livro, vendeu nada menos que onze edições. Nos intervalos, dirigia um Curso de Filosofia por Correspondência, corrigindo pessoalmente as lições enviadas por centenas de alunos e ainda encontrando tempo para atuar como conselheiro de pessoas aflitas que recorriam freqüentemente ao auxílio de sua sabedoria. Esta última atividade inspirou-lhe dois livros que ainda estão entre os mais interessantes no gênero auto-ajuda: Curso de Integração Pessoal e Convite à Psicologia Prática.

De 1952 em diante, entregou-se com paixão avassaladora à construção de sua obra filosófica magna: a Enciclopédia das Ciências Filosóficas, cinco dezenas de volumes cuja maior parte chegou a ser publicada em vida do autor, restando porém inéditos alguns textos fundamentais, dos quais o presente volume inicia a publicação ordenada.

Mário Ferreira dos Santos jamais ocupou um cargo público ou uma cátedra universitária. Nem procurou fazê-lo, ele que pautou sua vida por uma independência feroz e que mostrou sua capacidade de vencer sozinho obstáculos ante os quais tremeram gerações inteiras. Sua única passagem pelo corpo docente de uma universidade deu-se no último ano de sua vida, quando, por insistência de um admirador e amigo, o filósofo letoniano radicado no Brasil pe. Stanislau Ladusãns, s.j., Mário consentiu em dar algumas aulas na Faculdade de Filosofia N. Sra. Medianeira, dos padres jesuítas, encerrando, portanto, sua vida de estudioso, tal como a iniciara, entre os soldados de Cristo. As aulas duraram apenas umas poucas semanas. Mário já estava muito mal de saúde, com graves problemas cardíacos, agravados pelo excesso de trabalho e pela imensa tristeza do filósofo ante o avanço do poder militar que dominava o Brasil; e a direção da escola, prevendo o pior, mandou instalar, ao lado da sala de aula, um balão de oxigênio para alguma emergência.



Mário não morreu na cátedra, mas em casa, cercado de seus entes queridos – sua esposa Yolanda, suas filhas Yolanda e Nadiejda, seus genros Fernando e Wilmar: os únicos verdadeiros aliados e colaboradores que tivera numa vida de batalhas e construções. Sentindo aproximar-se o instante derradeiro, o filósofo pediu que os familiares o erguessem. Morrer deitado, afirmou, era indigno de um homem. Morreu de pé, recitando as palavras do Pai-Nosso.

(...) Se Mário Ferreira dos Santos tivesse morrido na primeira metade da década de 1950, sua biografia já teria mostrado um homem notável pela criatividade, pela multiplicidade dos talentos, pela atuação pública de jornalista, editor e educador. Mas ocorreu que, escondida sob essa variedade de ocupações, se desenrolava uma biografia interior de riqueza ainda maior.

Pouco nos dizem a respeito os documentos. O desenvolvimento intelectual e espiritual de Mário Ferreira é um mistério, pois os escritos publicados até 1952 só de maneira parcial e obscura refletem as inquietações mais graves que o agitavam por dentro e os vastos planos cuja realização já se preparava, talvez, em seu subconsciente. Sabe-se, é claro, que durante todo esse período ele não cessou de estudar as grandes obras de filosofia, de tomar notas, de mandar buscar no exterior os livros raros de que necessitava, e mesmo de encomendar cópias de velhos fólios em bibliotecas, como, por exemplo, fez com os de filósofos portugueses do Renascimento, aos quais ele foi talvez o primeiro grande pensador, depois de Leibniz, a devotar longo estudo e profunda admiração. Essa atividade interior foi gerando secretamente, por dentro do ensaísta, do tradutor-comentarista de Nietzsche, do jornalista e editor brilhante, um novo homem: um filósofo no sentido mais pleno da palavra. Na verdade, o filósofo brasileiro. Mas os escritos publicados até o princípio da década de 1950, se anunciam os temas e problemas fundamentais de que o filósofo iria ocupar-se, nem de longe deixam transparecer a profundidade, a envergadura e a solidez dos pensamentos que germinavam na alma de Mário Ferreira dos Santos. Inteiramente desproporcional com o anterior, o novo homem surge pronto, como se vindo do nada, e explode numa seqüência de dez obras originais, publicadas entre 1952 e 1957: Filosofia e Cosmovisão, Lógica e Dialética, Psicologia, Teoria do Conhecimento, Ontologia, Tratado de Simbólica, Filosofia da Crise, O Homem Perante o Infinito, Noologia Geral e sobretudo a obra maior desse período: Filosofia Concreta, em três tomos. Publicadas, não; disparadas, à razão de um volume cada quatro meses. O estado das edições reflete o improviso da produção, incapaz de acompanhar a tempestade de intuições fulgurantes que se sucediam, cada vez mais ricas e abrangentes, no interior de uma inteligência que parecia abraçar com um só olhar a totalidade do real. O inacabamento desses livros, o descuido com a revisão, os freqüentes hiatos na exposição e as súbitas mudanças de assunto podem ter repelido muitos leitores, num país onde o esnobismo das capas elegantes e das edições bem cuidadinhas ainda é uma conditio sine qua non para que um livro seja respeitado até mesmo pelos intelectuais. Mas aí está contido, sob uma forma literária descuidada e opaca, não só um pensamento maravilhosamente ordenado, mas uma filosofia total, orgânica, sistêmica – enciclopédica no sentido etimológico do termo: um ensinamento abrangente, de estrutura perfeitamente circular ou esférica. Porque é evidente que esses dez livros foram concebidos todos de uma vez, como capítulos de uma exposição seguida, destinada a abranger de maneira global e pela ordem lógica os temas básicos da indagação filosófica. Pela ordem, sim, porque a desordem ali é só do pormenor estilístico: a estrutura, tanto da série como de cada livro, é límpida.







(...) Mário Ferreira dos Santos é, de longe, o maior dos filósofos brasileiros. A Enciclopedia Filosofica do Centro di Studi Filosofici di Gallarate, reconheceu-o implicitamente, ao conceder ao nosso autor um verbete de página inteira, quando não atribuiu aos demais pensadores de língua portuguesa mais que algumas poucas linhas. Há de reconhecê-lo também qualquer leitor habilitado e honesto, após um exame criterioso deste e dos demais livros fundamentais do autor, especialmente Filosofia Concreta, Pitágoras e o Tema do Número, A Sabedoria dos Princípios, A Sabedoria da Unidade, mesmo sem conhecer os demais inéditos em que o filósofo se eleva às alturas da pura sapiência.

Apesar disso, e talvez por isso mesmo, a vasta obra de Mário Ferreira dos Santos não encontrou, da parte do nosso establishment universitário, senão uma indiferença renitente e por vezes malévola, que atesta apenas a inépcia fulgurante de muitas cabeças coroadas – coroadas pela aura cinzenta da inveja.

Mário não foi um desconhecido. Algumas de suas obras alcançaram, em vida do autor, nove, dez, quinze edições, e seus cursos tiveram como alunos muitas celebridades de “miolo mole”, que, tendo recebido ali um ensinamento de valor extraordinário, não souberam nem reconhecê-lo nem mostrar-se dignas dele, trabalhando por seu resgate e difusão após o desaparecimento do mestre. Falecido o autor, uma ominosa cortina de silêncio baixou sobre a sua obra.

Em qualquer país sério, um legado filosófico deste porte seria considerado patrimônio nacional e haveria equipes técnicas, sob estipêndio do Estado, esforçando-se para organizar os manuscritos, editá-los, estudá-los e discuti-los sob todos os aspectos. Mário Ferreira é, afinal, de pleno direito, o Philosophus brasiliensis; sua obra testemunha a eclosão, tardia mas esplêndida, de uma consciência filosófica integral neste país e marca, assim, o verdadeiro ingresso do Brasil na história espiritual do mundo, já não na condição de ouvinte, mas na de orador e mestre.

A ausência de apoio estatal, no entanto, não desculpa a incúria pessoal daqueles que, pelo contato direto com o mestre, se tornaram herdeiros de seu patrimônio filosófico e moralmente responsáveis pela sua guarda e cuidado.[2] Quanto àqueles que, sem ter sido alunos dele, tiveram por outros meios a oportunidade de conhecer algo de sua obra e nem mesmo perceberam a grandeza do que tinham por diante, atestam com isto a inépcia de uma intelectualidade que nada enxerga com os próprios olhos e só sabe reconhecer um filósofo quando ele vem com rótulo de autenticidade firmado por alguma autoridade estrangeira. Infelizmente, o meio filosófico brasileiro é ainda dominado por essa gente fútil, leviana e palavrosa.

Muitos fatores podem ter contribuído para fomentar e legitimar o descaso. O primeiro deles está, evidentemente, no tamanho descomunal da obra de Mário, na sua desordem editorial, no estilo abstruso que, aliado a erros de tipografia, leva por vezes o leitor ao desespero. Mas isto não é desculpa. As obras de Aristóteles, quando reencontradas no século I a.C., não estavam em melhores condições, e em matéria de inacabamento e confusão os textos do nosso filósofo não são mais assustadores que os de Jakob Böhme ou que os originais taquigrafados de Edmund Husserl, que nem por isto deixaram de ser publicados e estudados.




Mas um segundo fator é o preconceito antiescolástico, arraigado nos intelectuais brasileiros a ponto de torná-los cegos para a mera possibilidade de que algo de novo ou de valioso venha a emergir um dia dessa filosofia, que eles tomam, a priori, como relíquia de um passado morto ou como uma subfilosofia de manual. A priori, naturalmente, porque a desconhecem: nunca conheci neste país um antiescolástico de carteirinha que tivesse lido de S. Tomás, por exemplo – e só para ficarmos no nome de maior projeção –, algo mais que De Ente et Essentia, um curto resumo, e partes da Suma Teológica, obra que o autor classificava como elementar e introdutória. Uma tradução completa dos Comentários aquinatenses a Aristóteles, feita por meu amigo Antônio Donato Rosa, não despertou o menor interesse da cúpula uspiana nem dos editores em geral.

Um terceiro fator, mais sutil, é a propensão, fortíssima nas culturas dependentes, de cada intelectual só se interessar pelas obras que expressam idéias afins às suas ou às de seu grupo de referência. Numa atmosfera dominada pelo “intelectual coletivo” do gramscismo, só têm atrativo as obras que expressam aspirações gerais da comunidade letrada – aspirações que se resumem em tomar o poder e despedir-se o mais rápido possível das obrigações científicas em nome de supostas urgências maiores. O critério de valor das idéias é aí puramente mercadológico, e mesmo a mais profunda das verdades, se dita por um homem solitário numa linguagem que não ecoe logo no coração das multidões intelectuais, é rejeitada como de menor importância. O império da opinião majoritária nas comunidades letradas, triste herança dos clubes literários da Revolução Francesa, é a versão moderna e absolutizada do magister dixit. Ter razão sozinho é, para a mentalidade coletivista, o pior dos pecados. Sócrates ou Jesus Cristo, para essa gente, simplesmente não aconteceram.

O editor deste livro discorda profundamente de muitas opiniões de Mário Ferreira dos Santos e não se considera sob aspecto nenhum seu seguidor ou discípulo. Nunca o conheceu pessoalmente nem muito menos foi seu aluno, tendo tomado conhecimento da obra somente em 1981, graças a uma feliz casualidade que trouxe à sua presença a filha do filósofo, D. Yolanda Lhullier dos Santos, cuja amizade muito o honra e cuja confiança, ao pedir-lhe que revisasse e editasse estas páginas, o desvanece de toda a medida. Mas, antes mesmo que ela o fizesse, ele já tomara para si esse dever indeclinável, movido tão-somente pelo impacto iluminante de uma primeira leitura e pelo sentimento de inconformidade ante o desconhecimento em que jazia a única filosofia plenamente digna deste nome que se produzira em língua portuguesa e neste país. Nem por um instante lhe passou pela cabeça a idéia de franzir o nariz, com desdém afetado, movido por objeções menores, ante uma obra cuja grandeza e valor devem ser manifestos a todo leitor sério, por mais que ele divirja de um ponto ou de outro, ou mesmo do conjunto. Ele não compreende que aqueles que a conheceram antes e desfrutaram do convívio pessoal do seu autor não tenham tido sentimento igual ou que, se o tiveram, isso não os movesse a nada. Trabalhando por conta própria, sem apoio de nenhuma instituição estatal ou privada e sem remuneração de espécie alguma, ele se considera recompensado, com sobra de generosidade, pela simples oportunidade de conhecer, pelo trato direto dos manuscritos, um pensamento filosófico de tal elevação e envergadura, e de poder contribuir para lhe dar uma vestimenta editorial mais próxima de seu merecimento.

(Introdução de Olavo de Carvalho a Mário Ferreira dos Santos, A Sabedoria das Leis Eternas, É Realizações, 2001, pp. 11-18 e 36-40).




[1] Para estas notas biográficas, baseei-me amplamente em trabalho inédito de Nadiejda Santos Nunes Galvão, Mário Ferreira dos Santos: Biografia (original datilografado, 55 p.), e também em informações que me foram transmitidas por Yolanda Lhullier dos Santos.


Mário, sua esposa Yolanda e suas filhas Yolanda e Nadiejda, na Avenida São João, São Paulo.

[2] A única e meritória exceção foi o psicólogo paulista Thomaz de Aquino Ferreira, que se esforçou o quanto pôde para difundir a obra de Mário nos meios universitários, mas que circunstâncias adversas impediram de levar a cabo o trabalho começado. O editor registra aqui sua sincera homenagem a esse pioneiro.






domingo, 17 de maio de 2026

Escolástica e Pitagorismo

Escrito por Mário Ferreira dos Santos


«A doutrina dos Pitagóricos apresenta, por um lado, menos dificuldades que as anteriormente mencionadas, mas, por outro lado, contém outras que lhe são peculiares. De facto, não conceber o número com capacidade para existir em separado remove muitas das consequências impossíveis; mas que os corpos sejam compostos de números, e que este número deva ser matemático, é coisa impossível. Pois não é correcto falar de mudanças espaciais indivisíveis; e por muito que possa haver grandezas deste tipo, as unidades, pelo menos, não têm grandeza; e como é que uma grandeza por ser constituída por indivisíveis? Mas o número aritmético, pelo menos, consta de unidades abstractas, enquanto estes pensadores identificam o número com coisas reais; em qualquer caso, aplicam as suas proposições aos corpos, como se estes consistissem desses números.»

Aristóteles (Metafísica M 8, 1083 b 8).

 

«Convém saber de que modo se dá a participação do sensível nas ideias, ou, em que medida se estabelece a relação entre as coisas no palco do mundo sensível e as formas suprasensíveis teorizadas por Platão; ou, ainda, de que modo e em que medida poderão as formas transcendentes conter a essência do sensível, sendo por definição universais diante da movente pluralidade dos seres e entes individuais na ordem imanente dos sensíveis.

Ora, a forma é, para Aristóteles, a essência imanente dos entes sensíveis. Olhando, pois, à exemplaridade divina das ideias platónicas, não é de admirar que ao Filósofo coubesse ainda formular a fundamental questão por excelência: se as formas, porventura, são números, como podem elas ser as causas dos seres que têm em si próprios o princípio do movimento?

Na Metafísica, afirma o Estagirita que os pitagóricos se ocuparam dos princípios da matemática como os princípios de todas as coisas, preconizando os arkhaí como entes que, com o tempo, decaíram no progresso do cálculo enquanto progresso de abstração e extensão sobre os objectos da matemática, a começar pelos números e pelas figuras no cômputo geral da cultura moderna. Mas, seja como for, restaria ainda saber se os números, do ponto de vista pitagórico, seriam por si só, em sua imutabilidade, susceptíveis de ser identificados com as próprias coisas, e, portanto, como e em que medida a geração seria realmente possível a partir dos números.

Ora é, pois, à luz da definição aristotélica de alma que constatamos naturalmente que os seres contêm em si próprios o princípio do movimento. Logo, a alma é, em sentido universal, a forma substancial ou o acto primeiro de um corpo natural organizado, do que resulta que a alma não é separável do corpo, malgrado poderem sempre subsistir partes da alma susceptíveis de separação, porque, se algumas partes são, de facto, inseparáveis do corpo no acto constitutivo de si mesmas, partes há como a intelectiva que não são parte de nenhum corpo. Consequentemente, afirmar que a alma é o acto de um corpo não será, decerto, a mesma coisa que dizer ser uma das suas partes acto de um corpo.

Em toda a sua aptidão para conhecer, não pode o intelecto conter nenhuma natureza determinada das coisas sensíveis que conhece, mas unicamente a natureza de tudo o que é possível, pelo que não pode ser em acto nenhuma daquelas coisas, estando realmente em potência para tudo o que pensa. Numa palavra, o intelecto é sem mistura, conhecendo, pois, a natureza de todas as coisas. Não sendo, portanto, um composto das coisas existentes, o intelecto possível não é em acto mas em potência, sob pena de tudo aquilo que vai em si conhecendo ser apenas objecto de obstrução, obstando assim à compreeensão do que está fora, à semelhança de um olho em cuja sobreposição duma cor no interior da pupila não menos suscitaria a obstrução da vista relativamente às demais cores.

Porém, na medida em que a alma é a forma do corpo, e à medida que as substantes formas anímicas se vão cada vez mais subtilizando em virtude de um princípio insubstante de ordem superior, as afecções do ser ou do sujeito em que ela parece estar contida, como o desfalecer ou a perda de vigor, não afectam, na sua essência, o que há na alma de mais impassível em perfeita conformidade com sua natureza divina, cuja imperecibilidade se mantém incólume perante a extenuação própria da velhice, bem como face a toda a destruição e enfermidade possíveis. Neste sentido, o intelecto é separado, e, portanto, uma faculdade incorpórea da alma enquanto acto de um corpo. Numa palavra, o intelecto é uma certa faculdade da alma e, de modo algum, uma faculdade do corpo.»

Miguel Bruno Duarte


«O sentido da unidade do corpo e da alma é a relação de uma actualidade com uma potencialidade. A alma é, pois, uma substância; é o quid essencial do corpo. Como escreve Aristóteles: "Se o olho fosse um animal, a vista seria a sua alma, pois a vista é a substância ou forma do olho."»

José Ferrater Mora («Dicionário de Filosofia»).

 

«Uma vez mais, em sentido algum se precisou de que modo é que os números são as causas das substâncias e do ser – se (1) como limites (dado que os pontos são grandezas espaciais): era assim que Êurito fixava o número de qualquer coisa (por exemplo de um homem ou de um cavalo), imitando as figuras dos seres vivos com pequenos seixos, como fazem alguns, ao darem aos números formas de triângulo e de quadrado; ou (2) é por ser a harmonia uma relação de números que o é também o homem e tudo o mais.»

Aristóteles (Metafísica N 5, 1092 b 8).


«Filolau de Crotona, pitagórico. Foi a ele que Díon foi aconselhado, numa carta, por Platão a comprar os livros pitagóricos... Escreveu um livro. (Hermipo diz que, segundo um determinado escritor, o filósofo Platão foi para a Sicília, para a corte de Dionísio, comprou este livro aos parentes de Filolau por 40 minae alexandrinas, e que dele copiou o Timeu. Outros há que afirmam que Platão adquiriu os livros, após ter obtido de Dionísio a libertação do cárcere de um jovem que havia sido um dos discípulos de Filolau).»

Diógenes Laércio  (VIII, 84 DK 44 A 1).

 

«As formas platónicas não são objecto do conhecimento sensível, pelo que já exigem uma dialéctica nocional do espírito que abstrai gradualmente o esquema eidético (eidos, morphe) da coisa em sua corrente manifestação (phaos, luz), e em razão do qual ela é o que é e não uma outra coisa, determinando assim sua proporcionalidade intrínseca das partes em relação ao todo, entendida nos termos de uma unidade qualitativa e transcendentemente diferenciada das componentes que a constituem, embora também estas resultem não menos susceptíveis de virem a ser unilateralmente sujeitas a um ponto de vista quantitativo. Observe-se ainda que a forma, segundo Platão, não é uma coisa sensível subsistente per se, mas o que de algum modo se dá na coisa, permitindo que ela seja o que é pela forma que tem, e, nesse sentido, por uma certa esquemática na qual se fundamenta e conhece a correspondente proporcionalidade intrínseca das partes. Assim, por exemplo, a triangularidade é o esquema das proporções intrínsecas de todos os triângulos a haver, pois todos participam, com suas cambiantes, da triangularidade a que precisamente subjaz o esquema eidético do triângulo, surgindo, ao fim ao cabo, como a lei de proporcionalidade intrínseca da triangularidade. Ora, achando-se esta insubsistente na ordem da manifestação universal, embora já ontologicamente subsistente na ordem infinita do ser, não tem, em boa verdade, um onde nem um quando

Miguel Bruno Duarte


 

«Timeu – De facto, ó Sócrates, pelo menos todos quantos participam minimamente na sensatez, quando se preparam para empreender uma tarefa, seja pequena ou grande, apelam sempre, de uma maneira ou de outra, a um deus. Ora nós, que vamos produzir um discurso acerca do universo, dizendo como se gerou, ou se não é gerado, se não tivermos perdido por completo a razão, teremos necessariamente de invocar os deuses e as deusas, fazendo votos para que tudo o que dissermos esteja, em primeiro lugar, de acordo com o seu pensamento, e consequentemente com o nosso. Estejam, pois, os deuses assim invocados; naquilo que nos diz respeito, invoquemos, quanto a vós, que aprendais facilmente, quanto a mim, que exponha claramente aquilo que penso acerca do assunto que temos diante de nós.

Em minha opinião, temos de começar por distinguir o seguinte: o que é aquilo que é sempre, e não tem geração, e aquilo que se gera sempre, e nunca é? O primeiro pode ser apreendido pelo pensamento, acompanhado pelo raciocínio, uma vez que é sempre desta maneira, enquanto o segundo pode ser opinado pela opinião, acompanhada pela sensação desprovida de raciocínio. Ora, tudo aquilo que é gerado é necessariamente gerado por uma causa; pois é impossível alguma coisa obter geração sem uma causa. Assim, pois, sempre que o demiurgo, olhando para as coisas que são idênticas, das quais se serve na sua qualidade de paradigmas, produz a forma e a potência dessas coisas, tudo aquilo que completa deste modo é necessariamente belo; em contrapartida, se olhasse para o que se gera, servindo-se disso como paradigma gerador, já não completaria coisas belas.





Quanto ao conjunto do céu – ou mundo ordenado, ou outro nome que seja mais adequado dar-lhe, pois assim lhe chamaremos –, temos de investigar em primeiro lugar, relativamente a ele, aquilo que deve ser investigado no princípio relativamente a todas as coisas: se sempre existiu, sem ter tido um princípio de geração, ou se foi gerado, tendo principiado a partir de um certo princípio. Foi gerado, porque é visível e tangível e tem corpo; e todas as coisas que são desta maneira são sensoriáveis; e as coisas sensoriáveis, que são apreensíveis pela opinião, que acompanha a sensação, são geradas e, como dissemos, têm uma geração. E também dissemos que aquilo que foi gerado foi necessariamente gerado por uma causa. Mas descobrir o produtor e pai deste universo é tarefa de monta e, uma vez descoberto, é impossível falar dele a toda a gente.

Mas ainda é necessário que investiguemos o seguinte, acerca do mundo ordenado: a partir de qual dos paradigmas o produziu aquele que o fez, se foi a partir daquilo que é idêntico e igual a si mesmo, ou a partir daquilo que foi gerado. Ora, se este mundo ordenado é belo e se o demiurgo é bom, é claro que ele olhou para o que é eterno; mas se fosse o contrário, coisa que nem é permitido supor, teria olhado para o que é gerado. Mas é evidente para todos que olhou para o que é eterno; porque o mundo é a mais bela de todas as coisas que foram geradas, e o demiurgo a melhor de todas as causas. E assim, aquilo que foi gerado foi produzido pelo demiurgo, a olhar para o que é apreensível pelo raciocínio e pelo pensamento e é idêntico. 

 

Ora, estabelecidas estas coisas, é inteiramente necessário que este mundo ordenado seja uma imagem de alguma coisa. Mas em todas as coisas o mais importante é principiar pelo princípio natural. E, relativamente a uma imagem e ao seu paradigma, temos de estabelecer que os discursos explicam certas coisas, com as quais são afins. Assim, os discursos claros,  estáveis e constantes são acerca das coisas estáveis, firmes e que o pensamento acompanha – e, tanto quanto convém aos discursos serem irrefutáveis e inabaláveis, é necessário que em nada fiquem aquém disto. Quanto aos discursos acerca daquilo que copia estas coisas, e que é portanto uma imagem, serão verosímeis e análogos a estes; pois assim como a realidade está para a geração, assim a verdade está para a crença. Deste modo, ó Sócrates, se acerca de muitas coisas e em muitas questões relativas aos deuses e à geração do universo não formos capazes de apresentar argumentos em tudo coerentes e com grande exactidão, não te espantes; mas se apresentarmos argumentos cuja verosimilhança não seja inferior à de outros, devemos acolhê-lhos, recordando-nos de que eu, que falo, e vós, que me julgais, temos uma natureza humana, de tal maneira que, acerca destas coisas, nos convém acolher uma história verosímil, e não investigar ainda para além dela.

Sócrates – Excelente, ó Timeu, devemos absolutamente acolhê-lo como sugeres. Acolhemos o teu preâmbulo com admiração; completa em seguida o tema para ouvirmos...».

Platão («Timeu»).



«Independentes da mente humana são, para Platão, não somente as Idéias eternas, mas até os fenômenos do mundo físico que as ilustram diante dos nossos olhos: “Deus inventou a visão e a deu de presente a nós para que, contemplando o curso da inteligência divina no firmamento, pudéssemos transferi-lo aos movimentos do nosso próprio pensamento” [Timeu, 47-b-c. V. igualmente República, X, 530d e 617b].  O céu visível é não somente externo à mente humana, mas superior a ela ao ponto de dever servir-lhe de medida e modelo, ajudando-a a superar a sua inconstância e falibilidade mediante a contemplação de um símbolo natural das idéias eternas.

Uma boa resenha dos estudos platônicos ao longo dos tempos é Images de Platon et Lectures de Ses Oeuvres, de Ada Neschkle-Hentschke, em que vinte eruditos repassam as interpretações mais célebres do platonismo desde a Antigüidade até o século XX. Pode procurar: não encontrará uma só dessas interpretações que negue a existência do “realismo das Idéias”.

Um idealismo subjetivo, que tudo ou quase tudo reduz a projecções da mente humana e nisso vai muito além do relativismo sofístico ou do ceticismo pirrônico, esse sim é que é um fenômeno moderno, desconhecido na Grécia antiga. Este é outro ponto que os historiadores da filosofia jamais colocaram em dúvida.»

Olavo de Carvalho («Os EUA e a Nova Ordem Mundial. Um debate entre Alexandre Dugin e Olavo de Carvalho»).

 


«Para Aristóteles, a physis era considerada como uma fantasia, que exprimia através dos fenómenos da luz a visão caleidoscópica do movimento do cinético. Já desde Parménides a filosofia grega anunciava o valor originário do domínio natural da luz. Este domínio era cointensivo do próprio ser, o que sugere como possível, para não dizer impositivo o caminho da filosofia através de uma especulatio da realidade, como caminho privilegiado, sempre que o pensar humano, dependente do cinético, intencionasse um aprofundamento da realidade em comunhão com o noético. Na filosofia grega que os medievais seguiram e meditaram, temos todos os elementos necessários para nos apercebermos que a luz, para os gregos, não era só um fenómeno inteligível, mas que era também fundamento da própria inteligibilidade. Assim, não estranhamos que para os renascentistas a pintura fosse uma arte divina. O artista devia imprimir nela a imitação recriadora da realidade. Idealmente nós nunca pensamos na extensão: isso é fotografar a realidade. Nós pintamos com o sentido da transparência através dos véus do diáfano!»

Luís Furtado («Teoria da Luz e da Palavra).

 

«Conviria proceder, quanto antes ao estudo da história do aristotelismo em Portugal. Conviria mostrar, por monografias adequadas, que o nosso aristotelismo tomista se configurou diferentemente ao longo dos séculos, e que não tivemos apenas aristotelismo tomista. Conviria, enfim, demonstrar que nem só nas instituições eclesiásticas se cultivou a filosofia escolástica

Álvaro Ribeiro («Aristóteles e a Tradição Portuguesa»).


«Com excepção daqueles que seguem a linha cristã, a maioria dos estudiosos de filosofia não compulsam as obras dos escolásticos. E basta que se leiam livros de certos autores modernos, que não pertençam aos quadros da igreja, para que se veja desde logo a visão caricatural que traçam da obra das grandes escolásticas.

Nunca uma época revelou maior ignorância da obra do passado como a nossa. Praticamente pulamos dos gregos para a idade moderna, e a chamada idade medieval é apenas uma “grande noite”, trevas da ignorância, dizem muitos, onde o espírito humano caiu na mais negra obscuridade.

Tais erros são encontradiços na obra dos modernos e se pode afirmar que é uma normal do pensamento leigo, afastado da obra escolástica».

Mário Ferreira dos Santos («Tratado de Simbólica»).




ESCOLÁSTICA E PITAGORISMO

O pitagorismo não é uma filosofia sistematizada, como também não o é a Escolástica. Há uma tremenda semelhança entre a Escolástica e o pitagorismo. A Escolástica foi fecundada pelo pensamento de Aristóteles e também de Platão, e abre as portas para a análise, a polémica e até tomadas de posição díspares. O que caracteriza propriamente a Escolástica é o pensamento positivo, fundado na metodologia aristotélica, isto é, a partir da experiência realizada, ou da racionalização da experiência, o que é um ponto importante; limitada dentro do âmbito em que a fé religiosa, cristã, permite que ela se desenvolva, a Escolástica, conseqüentemente, representa um grande trabalho científico, um esforço sobre-humano, extraordinário, de homens de um valor espantoso, que levaram adiante o facho do conhecimento que os gregos haviam erguido a um ponto tão alto. Em relação ao pitagorismo, devemos dizer que também dentro da concepção pitagórica há lugar para posições as mais diversas, inclusive díspares. Encontramos pitagóricos, por exemplo, que são meramente esotéricos, que têm um pensamento mágico, outros místicos etc. Em outras palavras, existem dentro do pitagorismo possibilidades imensas. Quando se diz posição pitagórica, quer-se dizer aquela posição que segue a metodologia pitagórica. Ora a metodologia pitagórica já é distinta, porque ela é mais concreta do que a aristotélica, porque ela não quer somente uma racionalização da experiência, como quer também uma experimentação da racionalidade, pois ela não somente procura subir dos fa[c]tos às idéias, como descer das idéias aos fa[c]tos, mas não se cingindo apenas às idéias no sentido noético, isto é, de construções do espírito humano, mas às idéias buscadas na sua pureza, no seu enunciado que ultrapasse o próprio homem, porque a verdadeira posição pitagórica é uma posição genuinamente especulativa, porque há uma acentuada luta para afastar-se constantemente de todo axioantropológico. Por isto, pode-se dizer que Pitágoras iniciou propriamente a Filosofia Especulativa.



Pode-se atribuir a Tales, por exemplo, uma filosofia assertórica e fundada na experiência, mas a filosofia genuinamente especulativa deve-se a Pitágoras. Ele é o fundador da Filosofia Especulativa grega, que confirmamos porque nos consideramos herdeiros e queremos levar avante este mesmo facho do conhecimento que foi aceso por ele.



De forma que quero que fique bem clara esta posição, para evitar as naturais confusões que possa haver. O fa[c]to de um pitagórico ter dito isto ou aquilo não compromete o pitagorismo, assim como o fa[c]to de um escolástico ter tomado esta ou aquela posição não compromete a Escolástica. Em outras palavras, dentro do âmbito escolástico há campo para tomadas de posição as mais variadas, assim como dentro do campo pitagórico existe amplo terreno para a tomada de posições as mais díspares possíveis. A sistematização final ainda não coube nem a Pitágoras nem a Aristóteles, e nem caberá a nós, porque o que nós podemos fazer é uma sistematização dentro deste estágio em que nós vivemos, mas os homens de amanhã continuarão a análise, continuarão fazendo sínteses e concreções que superarão as nossas, e assim deve ser, para haver progresso humano; do contrário, este não aconteceria e desejamos que assim seja. Não devemos ter a pretensão de encerrar a História da Filosofia, o que seria um verdadeiro absurdo, como alguns filósofos pensaram que encerraram a história. Hegel, por exemplo, sentiu-se como o pináculo, como o ápice final da Filosofia; Kant também, e assim muitos julgaram que com eles se encerravam muitas possibilidades futuras. Mas não, elas estavam abertas. O nosso papel deve ser o de fecundadores do pensamento posterior, como os antigos foram os fecundadores do pensamento actual. É isto o que devemos procurar.

(In A Sabedoria das Leis Eternas, Introdução, edição de texto e notas de Olavo de Carvalho, É Realizações, 2001, pp. 111-114).