Uma dissertação académica de Eudoro de Sousa
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| Culto de Dioniso |
«Escrevemos “determinar o momento”, e não “fixar o instante ou a época” em que a lenda e o culto dos heróis interfere com o mito e o culto de Dioniso – pois que de fenomenologia agora se trata, e não de cronologia ou de história. História é sempre descrição de algo originado; e o originado, doravante, não interessará o nosso estudo, senão na forma e no modo como em si traz o sinal da origem.»
Eudoro de Sousa (In Introdução à «Poética» de Aristóteles, Imprensa Nacional-Casa da
Moeda).
«Há
um verbo grego antigo arkhein que
quer dizer o sentido de chegar primeiro. Desse verbo vem a palavra arcaico que
quer dizer antigo; em grego, o que veio primeiro. Pensemos naquele dia em que,
o que hoje é antigo chegou cá a este mundo pela primeira vez. Nesse dia o
antigo era futurista. Pois em grego o sentido d’antigo é precisamente aquele
que faz hoje rir na palavra futurista.
O
mundo não é novo nem velho. Se não houvesse confusões, se houvesse a coragem
para não fazer confusões, o mundo seria apenas antigo. Ser antigo é o direito
de recordar. E saber recordar é o único que nos distingue dos outros animais.
Bem o sabe o povo que ignora a palavra inteligência
e em troca conhece a palavra memória.
Daqueles que o povo admira diz que têm muita boa memória.
Todos
sabemos o que significa actualmente a palavra arcaico: o que já não se usa. Mas
o que já não se usa é apenas o feitio que tinha da primeira vez que apareceu.
Tirando o feitio tudo o mais continua igual. Arcaico hoje significa o contrário
do que queria dizer em grego.
Arquivo: vem do grego e com a mesma raiz que deu arcaico. Arquivo em grego significa o lugar de reunião dos chefes. Refere-se aos de melhor memória, aos que chegaram primeiro.»
José de Almada Negreiros («Manifestos e Conferências»).
«Há
inícios historiáveis; mas as origens são trans-históricas. Restringimos, aqui,
o sentido de “trans-historicidade”, pelo significado corrente de “pré-historicidade”,
mas com prévio aviso acerca de um mal-entendido vulgarizado. Formalmente, “pré-histórico”
adjectiva o acontecer que precede o historiável; donde resulta que a
pré-história possa ser concebida como história virtual dos acontecimentos que antecedem
os da História propriamente dita. Daí resulta também que o historiador, ávido
de submeter o passado, mais ou menos remoto, a um presente, mais ou menos
próximo, pretenda colher todos os acontecimentos numa rede de relações, tecida
do mesmo fio temporal. Mas o fio rompe nas origens: algo resistente ao esforço pela representação histórica nos adverte de
que somos chegados aos confins do tempo, que são os umbrais da pré-história.
Por
isso, em vez de “pré-história”, melhor diríamos “sub-história”. O termo oferece
a preciosíssima vantagem de propor mais rigoroso esquema e de evocar mais
sugestiva imagem da relação que subsiste entre duas regiões heterónomas do
tempo, ou entre dois tempos heterogéneos. O historiador que não encontra à superfície
da História a origem de um processo histórico; que não apreende o princípio,
regressando ao início de uma via já virtualmente percorrida, terá de recorrer a
uma operação de aprofundamento:
aprofundamento da superfície da eventualidade e aprofundamento da superfície da
mentalidade. Porque, em suma, as origens não são “pré-liminares”, mas “subliminares”,
não são “pré-históricas”, mas “sub-históricas”; não são “pré-conscientes”, mas “subconscientes”.
Pois bem, o culto de Dioniso constitui a pré-história ou a sub-história da tragédia grega; o que quer dizer: em todo e qualquer momento do processo histórico-literário do género trágico, sob outras “letras” terá sempre de revelar-se o mesmo “espírito”.»
Eudoro de Sousa (In Introdução à «Poética» de Aristóteles, Imprensa Nacional-Casa da Moeda).
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| Dioniso com a sua corte, encontra Ariana |
«Não
há sentido meramente humano da história, não há progresso englobante das
civilizações: toda a vida do homem, quer singularmente, quer no humano ser em latitude
e devir, encontra seu pleno sentido na relação ao que incessantemente o ergue
para além de si. A imperativa urgência do existir terrestre prima o sentido da
vida cósmica e religiosa, mas é esta que nutre, move e solicita:
“Se
a vida tem uma realidade cósmica, total, se é um absoluto, é claro que não pode
haver progresso temporal do que nela é o seu significado eterno... Sob o ponto
de vista do eterno que contenham, todas as civilizações se igualam, não
participam do progresso...
“Um
progresso espiritual retilíneo demonstraria a completa evolução do Ser, um
exaustivo fenomenismo, uma integral exteriorização. E, como para lá do Ser,
nada há que o fecunde, este progresso seria o caminhar para um fim de perfeito
desentranhamento, ou para relativos fins, alcançados os quais, tudo teria de
repetir-se. É por isso que os teóricos do progresso têm dado sempre ou num
optimismo de crescente progresso, e batem as palmas ao vapor, à electricidade,
tendo um desdém piedoso pelo pobre Platão, que nunca andou de automóvel; ou dão
no retorno, nas repetições cíclicas; ou num desesperado negativismo, apelando
para o Nirvana.
“O
que é certo é que o Universo é diverso e igual; e, se a espiritualização do
planeta pode crescer e cresce, a parte de eterno, a involução nodal, é sempre
presente no próprio sentido social da vida, que é um dramático esforço de
compreensão e mérito.
“Não
quer isto dizer que nos seja dispensado o trabalho de trazer, ao quotidiano, a
maior fraternidade e as melhores virtudes; que possamos aceitar as instituições
sociais, a organização que se nos depara.
“É exactamente no esforço de mudar a face da terra, no desejo activo e eficaz de circundar de bondade e penetrar de amor todas as instituições e formas que afirmamos o divino e realizamos a involução para o absoluto, para aquele Irracional, que, enchendo todas as razões e afectos, todas as palavras e fórmulas, é agora o Inominado e o Inefável.»
José Marinho («O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra»).
«Por obscura determinação do Fado ou esclarecido desígnio da Providência, a morte não permitiu que o Ex-Mestre de Filosofia da extinta Faculdade de Letras da Universidade do Porto atingisse o termo da única indagação verdadeiramente filosófica, que possui a cultura portuguesa, da problemática que ora nos preocupa. Com a vontade dos homens e a inércia das instituições, também colaborou o Fado, ou a Providência, para que Portugal persistisse em ser o “país mais antifilosófico do Planeta”... E as palavras generosas do R. P. António de Magalhães, que prefaciam O Homem às Mãos com o Destino, não chegam a desvanecer este pressentimento doloroso e quase desesperado, de que os portugueses não querem que se juntem “em Cristo, Jerusalém e a Grécia».
Eudoro de Sousa («O homem às mãos com o destino», in Origem da Poesia e da Mitologia e Outros Ensaios Dispersos).
A GRÉCIA E A HISTÓRIA
Neste
ciclo de palestras que me coube a honra de abrir, proponho-me discorrer sobre o
que está no título: «A Grécia e a História», o que significa, evidentemente,
que terei de falar da Grécia, da História e da relação de uma com a outra. Acho conveniente antecipar conclusões,
começando por dizer que esta relação (isto é, a da Grécia com a História)
assume a forma de uma interrogação acerca do que temos a esperar da História
quanto ao conhecimento do que foi a Grécia. E, sem outros preliminares – que
talvez fossem imprescindíveis, se eu não falasse diante de uma audiência de
universitários, assim como, eventualmente, de pessoas que ascenderam a um
elevado nível de cultura – sem outros preliminares, dizia, abordo decididamente
o problema, chamando a vossa atenção para um paradoxo que parece inerente
àquela interrogação: que temos a esperar da História quanto ao conhecimento do
que foi a Grécia? Paradoxal, efectivamente, pois, maior ou menor que seja o
nosso conhecimento do que foi o mundo grego e helenizado, todo ele o devemos à
História. Isto é: sem dúvida, expressão de bom senso e de estudo bem
disciplinado: a Grécia antiga não pode ser senão objecto de investigação
histórica! Mas, ainda assim, persisto e insisto na questão: que posso eu
esperar da História quanto ao conhecimento da Grécia? E nesta insistência e
persistência, já deve insinuar-se na mente dos que me escutam uma suspeita de
que o verdadeiro objecto da questão é o alcance e a validez dos estudos
históricos, e, por conseguinte, que a pergunta incide sobre a relação entre a
Grécia, uma vez acontecida, e o acontecer da Grécia, repetidamente descrito
pela História. É esta, portanto, que está em causa; e, mais precisamente,
formulada nestes termos: de que é o que a História é História? «História»,
tomamo-la aqui, no sentido etimológico: «conhecimento», «saber». E, assim,
voltamos a perguntar: que é ou para que se dirige a investigação histórica? Ou
ainda, de que são os vestígios perseguidos pela investigação? Pois não há
dúvida de que a investigação recolhe vestígios, na intenção de conhecer o que
quer que os deixou por seu caminho.
Enveredamos
por um beco, cuja saída, ao que parece, não poderia deixar de ser a resposta mais
óbvia às interrogações acima formuladas: a História é história (isto é,
conhecimento, saber) do passado; a investigação histórica dirige-se para o
passado; os vestígios perseguidos são os do passado. Entretanto, aqui me
detenho, pensando que o mais óbvio não é necessariamente o mais verdadeiro. Não
receio assumir o risco de dizer o contrário: a História é sempre, e de cada vez
que o seja, um conhecimento, um saber da presença do presente. Repare-se: nem
oponho simplesmente passado e presente, nem ponho absurdamente o presente no
lugar do passado – falo de presença do
presente. Elegi esta fórmula breve no intento de expressar a ideia de que o
presente, qualquer presente que se fixe ao longo do eixo cronológico, para trás
ou para diante deste em que nos encontramos, não deve ser considerado como um
ponto. Um ponto não tem dimensões; mas a presença do presente – se persistimos
na imagem da recta axial do tempo histórico – é um segmento mais ou menos
extenso e, por isso, dimensionável. Só que não queremos deixar no indefinido e
no indeterminado a sua dimensão linear: a presença do presente estende-se da
«antiguidade» à «actualidade» (ou o inverso). Substituímos, portanto, a
oposição mais abstracta, que se dá em presente e passado, por outra, mais
concreta: a de actual e antigo, dentro de cada época, e entendendo «época» como
«presença de um presente». Dentro de uma época, a actualidade que a
individualiza e caracteriza atrai a si, por força retroativa, a sua própria
antiguidade. Para cada actualidade epocal há uma certa antiguidade, que é actualidade
mais ou menos instante. De modo que que também posso dizer que, em cada época
histórica (presença do presente que lhe é próprio), a sua mais remota
antiguidade é feita de actualidade posta à distância maior do que todas as
distâncias. A História está condicionada a percorrer o espaço (ou o tempo) que
medeia entre uma antiguidade e uma actualidade conexas, porque situadas, ambas,
nos extremos do segmento representativo de uma forma específica da presença do
presente. Portanto, digamos que não há actualidade que se refira a uma
antiguidade absoluta, isto é, dela separada ou separável. Qualquer actualidade
tem sua própria antiguidade; diríamos até que só tem a antiguidade que merece.
Se
alguma verosimilhança pode ser concedida às proposições anteriores, isso me
basta para que tente prosseguir, não só acrescentando mais algumas,
equivalentes, como, também, delas extraindo conclusões pertinentes. A
antiguidade, para todas as épocas da cultura que já foi «ocidental», e hoje é pouco
menos do que ecuménica, pelo menos a partir do Renascimento, é, genericamente,
uma só: a que veio a chamar-se clássica,
com suas duas componentes, Grécia e Roma. Não digo que a História não tenha
chegado mais além – o Egipto, a Mesopotâmia, as culturas pré-históricas e
proto-históricas do Mediterrâneo, lato
sensu, aí estão para testemunhá-lo. Mas é bastante significativo o facto de
que, por exemplo, a egiptologia e a assiriologia nunca tenham sido incluídas em
qualquer curriculum de estudos
clássicos. Só o grego e o latim, a civilização grega e romana, constituem, e
sempre constituíram, objecto de studium
generale, o que é bastante revelador da bem firmada consciência cultural de
que na Grécia (e em Roma) é que está a antiguidade presente a qualquer presença
epocal, isto é, a todas essas presenças de presentes, o que, para mim, é outro
modo de falar em épocas históricas de uma Idade Moderna. Mas atente-se no que eu disse há poucos
instantes: «a antiguidade, para todas as épocas... é genericamente uma só». Agora sublinho o «genericamente», no bem
deliberado propósito de chamar a vossa atenção para a especificidade da imagem
da Grécia presente à presença de cada presente. Quantas «Grécias» não há na
Grécia?! Pelo menos uma em cada época! Tivemos uma Grécia renascentista, uma
Grécia iluminista, uma Grécia romântica; e agora temos a Grécia que bem poderia
adjectivar-se de neo-humanista. Todas completas. Não falta, em cada uma delas,
traço configurativo, necessário para a erigir em forma expressiva de uma civilização
especificamente distinta de qualquer das outras que se conheça ou se julgue
conhecer. E se alguma veracidade pode ser atribuída a estas últimas
proposições, dizer se poderia, também, que a actualidade de uma época, ou a
mais próxima presença de um presente, tem a sua própria definição em sua imagem
da Grécia antiga. A actualidade lê-se
na antiguidade que ela reflecte, com a vantagem de, na distância, se esvaírem o
supérfluo e o acessório. À distância, bem nos apercebemos da floresta, sem que
as árvores próximas nos obstruam a visão.
A
História, em qualquer época, desenha os contornos da presença do presente. E
esses contornos contornam o seu horizonte. «Horizonte» quer dizer «limitante».
Posso crer que o limite não seja sempre o mesmo, isto é, de época para época, a
presença do presente se dilate e, portanto, que o horizonte histórico de hoje
circunscreva os horizontes de épocas pretéritas: mas não posso crer que o
futuro traga consigo uma época em que já não se ponha um termo à investigação
da proveniência do actual. Isto é o que significa a existência de um limite, de
um horizonte. O mover-se, a História, dentro do seu horizonte, o não poder
transpô-lo, também se diz de um modo mais sugestivo: para a presença do
presente há um «lugar» de exaustão dessa mesma presença, e o horizonte
histórico é esse «lugar». O horizonte é efectivamente um limitante, porque a
presença do presente ficou toda para o lado de cá, sem forças para excedê-lo –
exausta daquilo que finalmente se exauriu: a força retroactiva da actualidade,
atraindo para si a contrapolar antiguidade. Que, do além-horizonte, não há
história possível, é o que espero se tenha tornado evidente – por ora, só
mediante o facto dogmaticamente indicado de que esse horizonte é precisamente a
História... Talvez não haja limite
que não seja liminar. Mas o limite da História não é, certamente, o liminar de
outra, nem um prolongamento da mesma, ainda que, traçado em outro plano, pareça
respeitar a existência de uma descontinuidade ou, até, de um abismo. Não há,
nem pode haver, duas Histórias. Mas, ainda assim, pode invadir-nos e de nós se
apossar o irreprimível anseio de saber o que está para além da História. Isso
acontece fatalmente àqueles que muito de perto se achegam à linha do horizonte,
ou melhor, àqueles que nunca o perdem de vista, pois ninguém a alcançará
jamais, por muitos e tão largos passos que se dêem a seu encontro. Isso
acontece necessariamente a quem muito se ocupa da Grécia antiga, e com ela se
preocupa. Quando se esgotou tudo o que, na Grécia, é presença do presente, quer
dizer, quando se atingiu o «lugar» da exaustão dessa presença, não se estranhe
que se faça outra presença. Na verdade, creio que nesse «lugar» se interceptam,
ou, pelo menos, se tangenciam duas presenças: a presença do presente e a presença do passado. Também creio que a
essa tangência ou intercepção se deva o fascínio que promove a pertinácia com
que, através destes últimos anos da nossa cultura, sempre, e com sempre
renovado vigor, arremetamos contra a Grécia histórica, em busca do que nela é
vestígio do antes dela. Este «antes», que não é a mais antiga presença do seu
(e do nosso) presente, não no-lo desvela a História, pois esta se define
precisamente pela sua forçada resignação a deixar o passado fora de si. Isto,
que pode parecer paradoxal ou, pelo menos, bastante insólito para quem persiste
em considerar a História como conhecimento do passado, não é insólito nem
paradoxal para quem já se acomodou à ideia que ela se põe fora de si, quando
não encalça as pisadas da presença do presente.
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| Delfos |
Antes
de prosseguir, tenho de repetir-me, o que não é de mais, pensando que não
calcamos, aqui, a solidez da rotina. Dentro desta presença, ou presente a esta
presença, há um actual, que é presença próxima, e um antigo, que é presença
distante, mas ambas as presenças são-no de um presente que não é instante
pontual, mas a dilatada in-stância do
«antes» no «depois» (repare-se que «antigo» é o latino antiquus ou anticus, e
que este deriva de ante). Lastimo;
mas não posso mais dispensar-me de explicitar o que está implícito nesse
«presente», cuja presença a História persegue, cuja presença é desvelamento do
próprio ser da História.
Presente
é o Homem. Presença do presente é presença do Homem no Mundo; presente que se
denuncia pela recusa de um mundo que, miticamente falando, lhe fora dado com a
mesma gratuidade com que um mundo foi dado à àguia e à serpente, ao cervo e ao
leão. Presente é o Homem. Presente é o Homem que, sobre e contra este mundo dos
outros, vai construindo o seu, e que a si próprio se cria, enquanto e porquanto
constrói a sua ambiência própria. Presente é o Homem, esse inimigo inexorável
da vida sua e de todos os seres viventes. Presente é o Homem, que, só em
pensá-la, se faz absoluto soberano da natureza. Presente é o Homem, artífice de
todos os artifícios, não só dos artifícios de madeira natural das florestas, e
de blocos de mármore da montanha, mas também de outros bem maiores, que são os
de um espírito divorciado da natureza, que se avolumam e agigantam em poderosas
redes conceptuais. Presente é o Homem, que só se afirma, negando, que só
aceita, recusando, que só constrói, destruindo. Presente é o Homem, e a
História faz-se presença da positividade
do reverso dessa moeda corrente cujo anverso é a negação, a repulsa e a recusa
devastadoras. Carregamos nas cores sombrias que tingem a figura da rejeição
hominizante, pois, se agora nos voltamos para a presença do passado, fazemo-lo
já na convicção de que o passado se constitui desses rejeitos necessários,
necessariamente rejeitados para que se abrisse espaço e tempo ao projecto que
designamos por «homem-presente à presença do presente», isto é, presente à
presença de si mesmo, o que, no fundo, equivale a nomear o projecto da
historicidade.
Então,
sempre é certo que o passado não é objecto da História. E que, sendo a
historicidade o corpo vivo da presença do presente, a presença do passado vem a
ser aquele limite da presença do presente, de que antes falávamos, sem que
pudéssemos designá-lo, ainda, em sua inteira verdade. Também agora nos é dado
acrescentar que o limite não é apenas o «lugar» da exaustão da presença do
presente, e que a exaustão é dupla: onde a presença do presente se exaure, aí
se exaure também a presença do passado. O limite é da ordem dos confins: no
mesmo «lugar» confinam as duas presenças, extenuadas. Daí que tão fácil tivesse sido pensar-se que a História tem por objecto o conhecimento do passado: este
reside a um passo do antigo, mas esse passo nunca a História o deu, nunca
poderá dá-lo, como jamais ninguém dará o passo que transponha a distância para
a lonjura, e o agora para o outrora. Lonjura é uma distância absoluta e que,
por ser absoluta, já não é a sempre relativa distância. E outrora é o que a
mesma palavra diz: hora que é sempre outra, não a mesma que está em todos os
«agoras» («agora»: hac hora), mais ou
menos distantes. Na «antiguidade», que é sempre relativa a uma «actualidade»,
ambas situadas na presença do presente, a História e, sobretudo, os que dela
falam sem que lhe hajam penetrado o íntimo cerne, persiste, por isso mesmo, em
querer infundir nela um passado, ou um
passado confundir com ela, passado que lhe é estranho, e sempre permanecerá
estranho e alheio ao «antigo» da historicidade. Passado é o que passou, e que
tendo dobrado a esquina da longa quadra do tempo histórico, se perdeu de vista,
só atenta para o que não passa os limites da presença do presente. A História
detém-se, por necessidade intrínseca, à beira do passado, cujas
indimensionáveis dimensões são o outrora, que é outra hora, e a lonjura, que
seria, no dizer do poeta, uma «distância subitamente impossível de percorrer».
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| Monte Olimpo |
Da Grécia, que é o privilegiado «lugar» em que historicamente se defrontam, pela primeira vez, a presença do presente e a presença do passado, há uma história tão densa e extensa, que o acontecido, então, houve que reparti-lo pelas suas projecções num sistema de coordenadas, cujos planos funcionais são constituídos por todas as disciplinas em que se repartem as nossas ciências humanas e por algumas daquelas que integram o corpo das ciências da natureza. Reencalçando, às avessas, o acelerado caminhar do saber humano acerca do homem e da natureza, quase sempre nossos passos se deterão na Grécia – e isso sucede quanto a qualquer das projecções referidas, nesses planos funcionais que têm nome de «arte», «filosofia», «religião», «política», «economia» e, em geral, todas ou quase todas as disciplinas que compõem os curricula das nossas universidades. Já não é pouco verificar como tudo, ou quase tudo, começou na Grécia e, sobretudo, como os tais começos gregos tão pouco ostentam da humildade de tanto e quanto se encontre em vias de começar. «Humildade» é característica do que se põe e dispõe ao nível do húmus. Mas não conheço, por exemplo, obra de arte grega que se compare ao mais tenro broto da terra fértil. Por outro exemplo, dentro do exemplo, a epopeia homérica, que abre a majestosa pompa da literatura grega e universal, é obra que, no género, não tem igual. Para citar só mais um exemplo, a democracia ateniense germinou, cresceu e morreu no decurso de pouco mais de um século. E não posso coibir-me de lembrar que já houve quem afirmasse, com respeitável seriedade, que toda a filosofia do Ocidente poderia ser considerada como um conjunto de anotações aos textos platónicos. Por conseguinte, talvez não exagerasse, excedendo brutalmente os limites do bom senso, quem ousasse asseverar que, de certo modo, tudo o que começou na Grécia, na Grécia acabou. Por aqui se definiria uma época histórica, que foi, talvez, a mais bela forma de que revestiu a presença do presente.
Mas,
para voltar ao princípio do parágrafo precedente, quer-nos parecer que o maior
atractivo da época clássica provém desse primeiramente nela se defrontarem a
presença do passado e a presença do presente, e da brilhante vitória do
confronto da segunda com a primeira. Mas, ainda: que é o passado? Se a
linguagem do passado fosse a mesma que a do presente, isto é, a sua presença
expressa em historicidade, nenhum óbice se oporia a que directamente
respondêssemos à pergunta. Não podendo fazê-lo, procedamos a um rodeio.
Perguntemos, não pelo passado (que é absoluto), mas pela antiguidade relativa à
actualidade grega. Resposta fácil, pois, falando de actualidade e de
antiguidade, não excedemos os limites da História. E que nos diz hoje a
História acerca da antiguidade da Grécia? Aponta, com clareza deslumbrante,
primeiro, para o mundo micénico, depois, para o mundo minóico, e, por fim, para
o de uma koiné cultural,
neolítica e mediterrânea, cujo centro de irradiação deve estar situado na
Anatólia. Tudo isto, porém, é História; e, enquanto História, presença do
presente, só presença do presente. Mas o peculiar, nesta distante presença, são
os vestígios instantes da presença do passado, ou melhor, como a presença do
passado não pode comunicar-se directamente com a presença do presente, os tais
vestígios são apenas os do confronto de uma presença com a outra. Até agora,
por conseguinte, só afastamos para mais longe esse «lugar» em que se defrontam
as duas presenças. Preferível, talvez, seria o dizer que na actualidade da
Grécia clássica subsistem alguns vestígios das três épocas anteriores, mas que
esses vestígios não são integráveis naquela presença grega do presente. Temos,
algures, um resíduo irracionalizável – irracionalizável só neste sentido:
quanto para mais longe recuamos, na antiguidade da Grécia, tanto mais se turva
a sua imagem, por tão numerosas que são as estilhas provenientes de uma
verdadeira explosão da presença do passado. Também, na mais extremada e
atenuada presença do presente, que foi o da Grécia e ainda é o nosso,
espelha-se, como numa superfície rugosa, a turbulência provocada pela explosão.
A imagem do passado, seja ele qual for, é bastante difusa e confusa. Mas,
agora, responderíamos à pergunta acerca do passado, se fôssemos capazes de
acertar naquilo que explodiu, sabendo, se o soubermos, o de que as tais
estilhas são estilhas. Neste ponto também nos socorre algo que já dissemos
acerca do presente, se é certo que ao presente se opõe o passado. E ainda, em
primeiro lugar, se bem diante dos nossos olhos se mostrar o que sempre se recusou
a entrar em qualquer história que da História faz parte.
Também
podemos encarar a questão de outro modo. Uma vez concedido que a expressão
adequada à presença do presente é História, qual seria a expressão mais própria
da presença do passado? Pergunta esta que ainda permite a posição de uma
«transformada»: do que é o que, da Grécia, ainda ninguém pôde contar ou
escrever uma história? Decerto que desta palavra se abusa, tanto quanto dela se
usa. Mas se, por «história», se entende um corpo de doutrinas, em que se
determina, com a certeza permitida pelo método, o que veio antes e o que veio
depois, e se a sucessão empírica pode servir de base a uma teoria da
transformação do que se transforma sem deixar de ser o mesmo, segundo este
delineamento, não há dúvida de que não se tenham desperdiçado tempo e esforços
em escrever e publicar histórias da filosofia, da ciência, da arte (com algumas
restrições), da política, do direito, da economia, do trabalho escravo e do
trabalho livre, e muitas outras mais. Não sem lacunas da tradição, que, aliás,
no campo dessas disciplinas, não são difíceis de preencher. Tudo isto é uso, e
bom uso, da história. Mas quando se aborda o tema em que se acham, unidas ou
separadas, a religião e a mitologia, o caso muda de figura. Quanto à mitologia,
dou por bem empregados todos os esforços e o não pouco tempo que se dediquem à
redacção de dicionários de nomes próprios de deuses e de heróis, mas não à
história dos mitos gregos e helenizados (e romanizados), pois, aqui, a
lacunidade da tradição é insuperável. O «antes» e o «depois» ficam geralmente
indeterminados, porque a cronologia só pode obedecer a critérios externos, como
é, por exemplo mais notável, o da maior ou menor antiguidade das fontes de que
os mitos foram hauridos. Estou bem longe de pensar que os mitos referidos pelos
poemas homéricos (os mais antigos testemunhos da tradição) venham
necessariamente antes de todos ou alguns dos mencionados por Calímaco, cujos
poemas foram redigidos alguns séculos depois da mais baixa das datas em que se
supõe ter vivido Homero. E o mesmo se diria, quanto à religião. Aqui, o mais
que se pode fazer é distinguir uma religião popular de uma ou mais religiões
elitistas, e verificar, no fim da antiguidade, a existência desse verdadeiro
uróboro, ou a reunião do fim com o início, na circunferência de um círculo.
Efectivamente, nas chamadas religiões «mistéricas» (que não vejo como
negar-lhes o qualificativo de gregas ou latinas, pelo facto de terem a sua
origem no Oriente Próximo; para ser lógico até às últimas consequências, teria
de afirmar que o cristianismo não pode ser uma religião do Brasil, pelo facto
de sua proveniência palestina), nas chamadas religiões «mistéricas», dizia eu,
fecha-se um ciclo, do qual só uma pequena parte é ocupada por qualquer arremedo
de nacionalidade grega, historiável ou historiada.
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| Euroboros |
De
modo que estamos diante de uma alternativa: 1) da Grécia, religião e mitologia
não participam da História; 2) participam, mas não lhes foi dado o poder de
alterá-la. Preferível é, certamente, o primeiro membro da alternativa, pois
despede uma fulgurância que ilumina subitamente os nossos primeiros passos,
numa vereda que conduz ao desvelamento do próprio ser da presença do passado.
Com efeito, se a religião e a mitologia, correntes entre os Gregos são
insusceptíveis de entrar na História, isso significa, no mínimo, que elas estão
bem presentes à presença do passado. No término desta linha de considerandos,
chegamos a uma primeira conclusão: se expressão adequada à presença do presente
é História, expressão não menos adequada à presença do passado é Mito. Todavia,
esta palavra é de uma multivocidade exasperadora para todo aquele que, de cada
vez, se proponha falar de uma coisa só. Tenho de excluir, por decisão que pode
parecer arbitrária (e não me sobra tempo para justificá-la), aqueles relatos,
poéticos ou prosaicos, das acções em que os protagonistas são os conhecidos
personagens da lenda heróica, e dos contos populares que referem à astúcia
prodigiosa com que se leva de vencida trabalhos que parecem exceder todas as
capacidades e habilidades humanas. Que resta, então, para o Mito? Narrativas, o
maior número de vezes encenadas por um drama ritual, em que se representa a
co-pertinência simbólica de um homem e seu
mundo, e o factor simbolizante, que é um deus morrendo para dar a vida sua, que
se reparte por esse homem e esse mundo. Mais claramente não poderíamos aludir
ao impulso mítico, criador dos mitos que viviam nas religiões «mistéricas» da
antiguidade, e que ainda vive no cristianismo, ainda que transposto para uma
forma sui generis. A esse mito me
refiro quando falo de Mito. Então, insistamos: o Mito é expressão da presença
do passado, como História é expressão da presença do presente. Só resta
averiguar o que deva entender-se por «passado», não perdendo de vista que
expressão de sua presença é o Mito.
Tendo
em vista que a expressão da presença do passado é mítica, então não há como
fugir à ideia de que o passado se faz presença só mediante a sensibilidade
humana, aberta para a natureza sensível que, por seu turno, se abre toda para a
sensibilidade humana. Isto não acontece, nem pode acontecer, na presença do
presente. Esta presença, desde que despontou no horizonte histórico, encantou o
mito, e o encantamento do mito é a alegoria. Mas que é alegoria? É a
transposição mortificante da sensibilidade para a inteligibilidade, e, por
conseguinte, da natureza sensível para a natureza inteligível. Mas esta é tão
pouco abrangente, em extensão e profundidade, que, para emendar a mão, houve
que se inventar um «sobrenatural» que se acrescenta ao «natural», quando se
verifica que uma boa porção da natureza nunca chega à presença do presente e,
demais, se é forçada a transpor o
limiar da inteligibilidade. O passado, de cuja presença a expressão é mítica, está
pois constituído só de natureza e sensibilidade, isto é, só daquilo contra o
que se debate o homem presente à presença do presente. Lembremo-nos do que
acima ficou dito acerca deste presente: o Homem da recusa e da negação. Agora,
pomos tudo o que dissemos ao serviço de melhor definição do passado, dizendo,
na sequela de Schelling, que aí não se encontra um espírito sem natureza,
frente a uma natureza sem espírito. Ainda não soou a hora da alegoria, que é
exactamente o produto da aplicação do espírito sem natureza sobre a natureza sem
espírito ou o não-mítico, por excelência, já que, no mítico, natureza é
espírito visível (sensível), e espírito, natureza invisível. É claro que, neste
contexto, dissolve-se toda a espécie de oposição entre sensível e inteligível
e, portanto, não há que ver num mito a alegoria, isto é, o «outro dizer» (állo aoreúein), que é um dizer por
imagens que já fora dito ou pensado por conceitos. Esta é a concepção da
presença do presente, no momento em que ela se defronta com a presença do
passado; concepção de todos os filósofos e historiadores gregos, quando não
chegam ao rompimento de todas as relações possíveis e à guerra declarada do logos contra o mýthos.
E agora, para terminar, volto à pergunta inicial: que posso eu esperar da História, quanto ao conhecimento do que foi a Grécia? A resposta atravessa duas etapas. Na primeira, vemos, em toda a sua glória, uma forma, que talvez não tenha par, da presença do presente, aquela que a actualidade, ou uma multissecular sucessão de actualidades epocais, descobriu, por força retroativa, na sua ou nas suas antiguidades contrapolares. Na segunda, há que demorar-nos um pouco mais. Quer-nos parecer que nem assim tão gloriosa se nos afiguraria a antiguidade clássica, em seu componente grego, se, mesmo enquanto presença do presente, em sua aurora e em seu crepúsculo, não cintilassem essas imagens da presença do passado, que são fragmentos do Mito. A Grécia presente tinha de resistir à violência da explosão do passado, ou nunca viria a ser presente. E se nunca tivesse vindo à presença do presente, não haveria História, nem mesmo aquela, tão confrangedora, que descreve todos os actos da grande recusa da natureza e da sensibilidade. Mas, para falar, é preciso um mínimo de racionalidade. Intelecção do que se diz e vontade de dizê-lo compõem a razão, sem a qual nada diríamos. E a razão vem-se acrescendo de «razões», desde que a Grécia foi Grécia. Não estou fazendo um encómio do racionalismo; só estou dizendo que, sem razão, nem contra a razão, se pode falar. Mais uma palavra, já que «razão» é um dos possíveis significados de logos, e o logos é um dos mais secretos segredos do tão secreto pensamento heraclítico. Do fragmento 30, que se refere à «viragem» do Fogo em Mundo, já houve quem escrevesse: «Do deus, a nostalgia da morte dá origem ao Mundo» (Walter Bröker, Die Philosophie vor Sokrates, Frankfurt am Main, 1965, p. 89: Die Todessehnsucht des Gottes lässt die Welt werden«). É sumamente notável o ver como o «obscuro» filósofo de Éfeso, que, em outros fragmentos (14 e 15), mostra claramente a sua abominação pelos contemporâneos celebrantes dos «mistérios», pôde aludir ao grande mistério da presença do passado, que não se fez presente à presença do presente.
(In Mitologia, História e Mito, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2004, pp. 339-349).
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| Heraclito de Éfeso |




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