Escrito por Paul Ulrich
«O
“milagre grego”, que, de certo modo, é o milagre do Ocidente, teria nascido
talvez, desse único e maravilhoso encontro de um anseio pela ideal transparência
das formas intemporais, que é indo-europeu, e de uma transbordante criação de
imagens, todas impregnadas da seiva e do sangue da vida, repetindo-se
ciclicamente, na temporalidade. O milagre grego consistiu sobretudo, em
encorporar, em encarnar o espírito em uma imaginação de tal maneira exuberante
de vida, que jamais consentiu, por exemplo, que a lógica dos conceitos
degenerasse em estéril conceptualismo, e portanto, que a escolaridade de uma
filosofia do concreto algum dia se dissolvesse em palavroso e abstracto
escolasticismo.
Milagre grego seria, por conseguinte, o milagre de uma perfeita reintegração.»
Eudoro de Sousa («Relações pré-históricas e proto-históricas entre a Grécia e o Oriente à luz das últimas descobertas arqueológicas», in Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos).
«Ante uma tradição perdida, inteiramente perdida, não há outro recurso senão adivinhá-la. Infelizmente, se os homens vulgares não são educados para o dinamismo mental, muito menos os filólogos têm sido agraciados pela inteligência que permite a adivinhação.»
Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).
«Ao
que parece, duas causas, e ambas naturais, geraram a poesia. O imitar é
congénito no homem (e nisso difere dos outros viventes, pois, de todos, é ele
o mais imitador e, por imitação, apreende as primeiras noções), e os homens se
comprazem no imitado.
Sinal
disto é o que acontece na experiência: nós contemplamos com prazer as imagens
mais exactas daquelas mesmas coisas que olhamos com repugnância, por exemplo,
[as representações de] animais ferozes e [de] cadáveres. Causa é que o aprender
não só muito apraz aos filósofos, mas também, igualmente, aos demais homens, se
bem que menos participem dele. Efectivamente, tal é o motivo por que se
deleitam perante as imagens: olhando-as, aprendem e discorrem sobre o que seja
cada uma delas [e dirão], por exemplo, “este é tal”. Porque, se suceder que
alguém não tenha visto o original, nenhum prazer lhe advirá da imagem, como
imitada, mas tão-somente da execução, da cor ou qualquer outra causa da mesma
espécie.
Sendo,
pois, a imitação própria da nossa natureza (e a harmonia e o ritmo, porque é
evidente que os metros são partes do ritmo), os que ao princípio foram mais
naturalmente propensos para tais coisas, pouco a pouco, deram origem à poesia,
procedendo desde os mais toscos improvisos.
A
poesia tomou diferentes formas, segundo a diversa índole particular [dos
poetas]. Os de mais alto ânimo imitaram as acções nobres e dos mais nobres
personagens; e os de mais baixas inclinações voltaram-se para as acções
ignóbeis, compondo, estes, vitupérios, e aqueles, hinos e encómios. Não
podemos, é certo, citar poemas deste género [poetas que viveram] antes de
Homero, se bem que, verosimilmente, muitos tenham existido; mas, a começar em
Homero, temos o Margites e outros
poemas semelhantes, nos quais, por mais apto, se introduziu o metro jâmbico
(que ainda hoje assim se denomina porque nesse metro se injuriavam [iámbizon]). De modo que, entre os
antigos, uns foram poetas em verso heróico, outros o foram em verso jâmbico.
![]() |
| Ὅμηρος (Homero) |
Mas Homero, tal como foi supremo poeta no género sério, pois se distingue não só pela sua excelência como pela feição dramática das suas imitações, assim também foi o primeiro que traçou as linhas fundamentais da comédia, dramatizando, não o vitupério, mas o ridículo. Na verdade, o Margites tem a mesma analogia com a comédia, que têm a Ilíada e a Odisseia com a tragédia.»
«Liberto
por educação, o poeta elaborará depois o seu orgão próprio de intuição
sobrenatural. Ele há-de meditar sobre a sequência dos heróis representativos do
seu povo, aqueles que, por atingirem o ponto de tangência entre a humanidade e
a divindade, “se vão da lei da morte libertando” [Luís de Camões, Os Lusíadas, canto I, estância II].
Transformar a série histórica em série simbólica, mais verdadeira porque
universal, é acto de imaginação que se propicia apenas aos poetas inspirados.
O
essencial da poesia está, quanto a nós, no pensamento expresso pelos tropos,
quer dizer, na possibilidade de ascensão ao plano espiritual. Em consequência
dizemos que a poesia é análoga da profecia e da teologia. Convém, todavia, para
bom entendimento desta doutrina, que ninguém confunda a profecia com qualquer
forma de mântica ou de adivinhação.
A
asserção sobre os eventos possíveis ou futuríveis depende do conhecimento que o
poeta haja obtido acerca das leis divinas, quer dizer, das essências divinas.
Na concordância ou na discordância das leis divinas com as leis naturais e as
leis sociais situa o poeta a acção humana sobre que se pronuncia em palavras
proféticas. A poesia está para a profecia como a ciência para a metafísica.
Há poetas que não se contentando já com este exercício lúdico das imagens, talvez por verem esgotados os recursos de determinada mitologia, substituem os tropos desinteressados por argumentos de interessada finalidade. A elevação do pensamento, admirável nos poetas mais cultos, é movimento contemporâneo dos interesses em jogo, e não assegura comunicação duradoura para além dos períodos de crise. A posteridade não será grata para aqueles que substituem, dentro de perfeitas composições literárias, a poética pela retórica.»
Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).
«(...) a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta, o particular.»
Aristóteles («Poética»).
![]() |
| O Triunfo de Aquiles por Franz von Matsch |
«A pátria de Homero não foi a Grécia propriamente dita, mas sim a região situada para além do mar Egeu, na faixa jónio-eólica da Ásia Menor, ou seja, na zona situada um pouco ao sul daquela que serviu outrora de palco à guerra de Tróia. Parece ter nascido em Esmirna no nono século antes de Cristo. Um historiador pouco conhecido, de nome Heródoto, escreveu acerca de duzentos anos mais tarde uma “vita Homeri”. Nessa biografia relatava, entre outros factos, que os habitantes da localidade de Neon Teichos lhe haviam mostrado o lugar onde Homero costumava sentar-se recitando os seus versos. Este local era objecto de uma grande veneração, aí existindo um choupo “que crescera a partir da época em que Melesígenes parece ter sido o nome primitivo de Homero, significando “aquele que provém do rio Meles” – o rio que corria próximo de Esmirna. A mãe ter-se-á denominado Creteis. As informações acerca do pai são menos precisas, havendo-lhe sido atribuídos diversos nomes. Plutarco asseverava até tratar-se de um demónio, de um ser sobrenatural. Inúmeras cidades jónias ainda apresentavam vestígios da passagem de Homero muitas centenas de anos mais tarde. Era particularmente estreita a sua ligação com a ilha de Quios, onde, decorridas muitas gerações, os Homéridas (membros de uma escola de poetas e trovadores) continuavam a escrever e recitar poemas no estilo por ele criado. Um dos hinos refere-se a um bardo oriundo dessa ilha rochosa, cujo canto ficaria para sempre imortal – esse homem outro não podia ser senão Homero. Aí se descreve também a figura de um cego, o que coincide com a afirmação de Heródoto segundo a qual a cegueira o ameaçava durante longos anos impedindo-o finalmente de ver. O “poeta cego” morreu em Ios, nas ilhas Cíclades, no século oitavo antes de Cristo. Pensa-se que foi sepultado num promontório rochoso. O local teria sido assinalado por uma lápide com a seguinte inscrição: “Aqui jaz o corpo sagrado do divino Homero, herói entre os heróis”».
Roland
Göök («Homens que transformaram o Mundo»).
«Hoje
podemos provar no livro Ver que, até
ao começo do século XVI, não era um enigma por decifrar a identidade de Homero
na Europa!
Foi
desde os primeiros dias do século XVI, ao desfazer-se o Todo europeu, que a
Europa perdeu os seus olhos Gregos da Idade-Média e da Renascença. E as nações
Europeias repartiram entre si os sentidos da Arte, dividindo os povos da Europa
em visuais e auditivos, tornando desta maneira impossível o equilíbrio entre os
dois sentidos nobres do Homem, o equilíbrio divino, e o qual como ides ver, se
chama Homero!
Homero é velho e cego porque já viu tudo. Quem já viu tudo precisou de muita idade para isso: e quem já viu tudo não necessita de olhos para mais nada.»
José de Almada Negreiros («Descobri a personalidade de Homero»).
«Os
primeiros tempos da cultura intelectual da Grécia foram caracterizados pela poesia religiosa e mística, da qual
restam apenas tradições mitológicas e os nomes dalguns poetas legendários, como
Orfeu, os quais cantaram os deuses e
as suas relações com os heróis.
À
poesia religiosa sucedeu a poesia épica,
tratada nas obras que se atribuem a Homero (900?).
Segundo
uma tradição antiquíssima, Homero foi autor de duas grandes epopeias, a Ilíada e a Odisseia, onde se encontram descritos os costumes, a religião e
toda a civilização dos tempos heróicos. A Ilíada
tem por objecto o cerco de Tróia; a Odisseia
canta os errores de Ulisses antes do seu regresso a Ítaca.
Em tempos posteriores à idade homérica apareceu a poesia didáctica, cultivada por Hesíodo, cuja existência é tão duvidosa como a de Homero. Das obras que lhe foram atribuídas restam três: Os trabalhos e os dias, a Teogonia e o fragmento épico intitulado Escudo de Héracles.»
Fortunato de Almeida («Curso de História Universal», Vol. I).
![]() |
| Hércules e Nesso |
«A
alma de Orfeu atravessara como divino meteoro o céu tempestuoso da Grécia que
nascia. Desaparecido ele, as trevas acumularam-se novamente. Depois de várias
revoluções, os tiranos da Trácia queimaram os seus livros, destruíram os seus
templos, expulsaram os seus discípulos. Imitaram-nos os reis gregos e muitas
cidades, mais ciosas da sua desenfreada licenciosidade do que de justiça.
Pretenderam apagar a sua memória, destruir os seus últimos vestígios. E agiram
com tanta eficiência que, alguns séculos após a sua morte, uma parte da Grécia
duvidou da sua existência. Em vão os iniciados conservaram a sua tradição
durante mais de mil anos. Em vão Pitágoras e Platão se referiram a ele como um
homem divino. Para os sofistas e reitores, ele apenas personificava uma lenda
sobre a origem da música. Ainda hoje, os cientistas negam, sem tergiversar, a existência de Orfeu. Apoiam-se sobretudo no facto de nem Homero nem
Hesíodo o terem referido. Mas o silêncio desses poetas explica-se, amplamente,
pela proibição estabelecida pelos governos locais a respeito de Orfeu. Os seus
discípulos não perdiam nenhuma ocasião de exigir todos os poderes para a
autoridade suprema do templo de Delfos. Não cessavam de repetir que as diversas
questões entre os vários Estados da Grécia deviam ser submetidas à decisão do
Conselho dos Anfictiões. Ora isso não convinha nem aos demagogos nem aos
tiranos.
![]() |
| Oρφεύς |
Quanto a Homero, talvez tenha sido iniciado no santuário de Tiro, cuja mitologia é a tradução da teologia de Sanconiaton. Homero, o jónio, podia muito bem ignorar o dórico Orfeu, cuja tradição era tanto mais secreta quanto mais perseguida. Hesíodo, nascido perto de Parnaso, devia conhecer o seu nome e a sua doutrina, através do santuário de Delfos. Mas talvez lhe tenha sido imposto silêncio a seu respeito pelos sacerdotes que o iniciaram no templo.»
Eduardo Schuré («Os Grandes Iniciados. Esboço da História Secreta das Religiões»).
«Quando
Arthur Evans e os demais arqueólogos ingleses, italianos, franceses e
norte-americanos publicaram os primeiros relatórios das escavações na ilha de
Creta, que foram iniciadas no princípio deste Século [XX], pode dizer-se sem receio
de errar por excesso que o deslumbramento foi a sensação predominante no mundo
das ciências da Antiguidade. A “filologia de pá e enxada” colhera os louros de
uma vitória que não seria fácil igualar. Cnosso e Haghia Tríada, Gurnia e Petsofa,
Festo, Palaikastro, as grutas de Camarés e de Psychro, e todas as estações
arqueológicas da ilha do rei Minos davam à luz da publicidade as ruínas de uma
cultura em que os tempos de apogeu só poderia equiparar-se à do Egipto
Faraónico, pelas dimensões dos monumentos arquitectónicos e que certamente a
sobrepujava pela delicadíssima cerâmica e a suprema arte decorativa dos
interiores palacianos. A história antiga e a filologia clássica trataram de
reunir e reinterpretar as fontes à nova luz que brotava a jorros dos escombros
da civilização “minóica”, e os resultados não tardaram a formular-se em teses
extremas. Não hesitaram estudiosos de reconhecida autoridade e invulgar responsabilidade,
em asseverar que, na Grécia Antiga, o que fora propriamente criador, provinha
do elemento pré-grego da primitiva população. É claro que a tais assertos só as
ruínas de Creta podiam conferir alguns visos de probabilidade.
![]() |
| Parte da reconstrução feita por Evans do palácio minóico de Cnossos (Bastião A da Entrada Norte, denominado Afresco do Touro). |
A
bibliografia cresceu e avultou desmedidamente até à Segunda Guerra Mundial. No
fim do primeiro quartel do presente Século já não saía a lume compêndio de
história grega que não abrisse a exposição com um escorço da pré-história
micénica. Um após outro alinhavam nas bibliotecas os livros de Evans, Glotz,
Dussaud, Nilsson, Mosso, Picard, Karo, Persson, Chapouthier, Pendlebury, e
todas as pessoas cultas se habituavam a considerar a cultura minóica como o
último substrato da Cultura Ocidental, tanto mais que pari passu, glotólogos e
comparativistas estabeleciam os princípios de uma estratigrafia linguística que prolongava a história da língua grega até ao
fundo desse passado em que os navios de Creta cruzavam o Mediterrâneo Oriental
para desembarcar em todas as costas a preciosa indústria de seus inspirados
artistas.
Porém, graves motivos subsistiam para que esmorecesse o entusiasmo dos corifeus. E todos se resumiriam nesta breve sentença de Martin P. Nilsson: Creta é um livro de imagens sem texto. É verdade que não faltavam entre as ruínas dos monumentos exumados por Evans e os arqueólogos que lhe sucederam exemplares de escrita. Não uma só, mas três diversas escritas, inventaram ou adaptaram os povos de Creta: uma pictórica ou hieroglífica, e duas silábicas, que Evans designou respectivamente por “Linear A” e “Linear B”. Mas nenhuma das três, até à genial descoberta de Ventris, revelou o segredo da língua ou das línguas que figurava; e não à míngua de esforços e de engenho aplicados à tarefa ingrata.»
Eudoro
de Sousa («Escrita cretense, língua micénica e grego homérico», in Origem da Poesia e da Mitologia e outros
ensaios dispersos).
![]() |
| O arqueólogo Arthur Evans retratado em 1907, por William Richmond |
«Arqueologia, e não metafísica, deveria intitular-se a doutrina aristotélica dos princípios, que Kant pretendeu refutar na Dialéctica Transcendental. Foi efectivamente da palavra arche, parente de arcano, arco ou arca, que se formou o termo arqueólogo. Os arqueólogos da Antiguidade olhavam para o Céu, os arqueólogos da Modernidade escavam a Terra.
A ontologia, doutrina do ente, que por singular está sujeito ao tempo, é menos do que arqueologia. Ela assume, porém, na obra de Santo Anselmo o significado excelente de transição do tempo para a eternidade. A Hegel devemos a doutrina religiosa de subordinação da ontologia à arqueologia».
Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).
«A
arqueologia, tanto pelas descobertas mais recentes como por novas
interpretações de descobertas já esquecidas, entrou há pouco de reenunciar um
problema que, neste tempo, apaixonou a opinião científica, na segunda metade do
século XIX – refiro-me ao movimento que se designou de “panbabilonismo” ao qual
sucedeu, já neste século, a “fenício-mania”. Panbabilonismo e fenício-mania
indicam, de per si, a tensão dessas correntes. Não faltou, nas referidas
épocas, quem defendesse a tese de uma total dependência da cultura grega, em
relação a culturas orientais, de Babilónia ou da Fenícia. É claro que o
problema era simplesmente o do papel desempenhado pelos “adstratos”. Pois bem;
as escavações de Ugarit, onde, há pouco mais de vinte anos, foi exumada uma
biblioteca, que continha numerosos escritos datados do II Milénio, e a decifração
de outros textos, que pertenciam à biblioteca de Hattush, capital do Império
Hitita, aproximadamente da mesma época, renovam a velha questão de saber o
quanto devem os gregos às culturas do Oriente. Mas agora, que os dados são
incomparavelmente mais copiosos e a crítica sobre eles se exerce com mais
inabalável rigor – agora apercebemo-nos, sem sombra de dúvida, que na poesia
religiosa e profana do Oriente, procediam os poetas gregos, tal como procederam
os artistas da cerâmica. A diferença continua sendo a que separa e distingue o
cósmico do caótico, ou, talvez com menos injustiça para com a beleza, a
diferença que vai do que é só vida impetuosa, ao que é, essa mesma vida elevada
à tranquila e cristalina transparência da ideia.
Mas,
com tudo isto, igual vem a ser o papel dos substratos egeo-asiânicos, e dos
adstratos orientais, na formação da cultura grega?
Ao que se me afigura, responder a tal pergunta, equivaleria a justificar, por meio de renovado discurso, o que repetidamente se tem querido dizer através daquela fórmula celebrizada como “Milagre Grego”».
Eudoro de Sousa («Relações pré-históricas e proto-históricas entre a Grécia e o Oriente à luz das últimas descobertas arqueológicas», in Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos).
«(...) a Grécia e Roma apresentam-se-nos com carácter absolutamente inimitável: Nada na história dos tempos modernos com a sua história se parece. Nada no futuro poderá assemelhar-se-lhes. Tentaremos mostrar por que regras eram regidas estas sociedades e deste modo mais facilmente verificaremos por quais razões essas mesmas sociedades jamais poderão voltar a reger a humanidade.»
Fustel de Coulanges («A Cidade Antiga»).
«A boa leitura é uma arte difícil; exige demorada iniciação. Iniciar o leitor, consiste em aproximá-lo, tanto quanto possível, do escritor: a contemporaneidade seria a perfeição. No limiar da História da Filosofia, o estudante tem que se desvestir dos prejuízos culturais do seu tempo, se quiser compreender a lição autêntica dos grandes pensadores de todos os tempos. A não ser que só pretenda julgar os sistemas antigos e advogar a causa dos modernos... Mas, nem a Filosofia é a advocacia do presente, nem a História o tribunal do passado.»
Eudoro de Sousa («Sejamos contemporâneos de Aristóteles», in Origem da Poesia e da Mitologia e outros ensaios dispersos)
O ENIGMA HOMÉRICO
A
arqueologia inspirada por Homero não cessou de procurar, na noite do passado,
traços de passagem desse poeta épico cujos anacronismos surpreenderam por vezes
os seus mais fiéis admiradores. De início, era-lhe concedido um génio puramente
imaginativo. As suas obras, a Ilíada,
que relata a cólera de Aquiles sob as muralhas de Tróia, e a Odisseia, que narra o regresso de
Ulisses a Ítaca, pertencem mais à ficção do que à realidade: a alegoria
impõe-se ao real. Depois o caso é reconsiderado. Os Arcaicos, assim designa
Homero os Gregos, são exactadamente Arcaicos: o nome não é inventado; existe
nos escritos hititas. E depois, Tróia, Micenas, Tirinto e os seus castelos
fortificados não são criações da fantasia. Schliemann arrancou-os às trevas. As
pedras ciclópicas, as esculturas, as cerâmicas aí estão para testemunhar a
boa-fé de Homero. Passaremos por cima do «palácio de Príamo», do «tesouro de
Astreia», do túmulo de Clytemnestre», produtos de um excesso de romantismo dos
arqueólogos micénicos. Sem a mínima dúvida, tomaram os seus desejos por
realidades.
E
chegamos a este paradoxo: os relatos de Homero inspiraram os investigadores
(Schliemann) e, em troca, as descobertas por eles feitas depõem em favor dos
acontecimentos relatados por Homero. O génio de Homero é pois ao mesmo tempo
imaginativo e construtivo. Basta aprender a separar os enredos dos factos
históricos. As pesquisas arqueológicas permitem legitimar certas descrições de
locais, de casas ou de palácios e reter em bloco todos os elementos que compõem
a arte de viver. Este trabalho de grande fôlego está longe de encontrar-se
terminado e fará ainda correr muita tinta.
A
Ilíada e a Odisseia põem problemas aos historiadores, aos filólogos, aos
geógrafos. E também aos arqueólogos, desde que se trate de identificar um
achado segundo os textos homéricos e inscrevê-lo no tempo, no seu lugar
cronológico. Isto porque ninguém, até ao momento, conseguiu ainda situar o
próprio Homero na cadeia dos séculos.
Heródoto
faz viver o poeta na primeira metade do século IX antes de Cristo. Eric Bethe,
mestre da escola analítica alemã, implanta-o no início do século VI. O francês
Paul Mazon aproxima-se da tese de Heródoto. Para ele, a Ilíada pode ter sido escrita em fins do século IX, princípios do
século VIII a. C. Quanto à Odisseia,
muito mais tarde. Sessenta a oitenta anos separam os dois poemas. Homero teria
vivido entre o início do século VII e o início do século VI.
Supondo
que isto é exacto, ficamos intrigados pelo tempo que separa a «aparição» das
duas obras; mais de meio século. Homero teria facilmente sido centenário, o que
não aparece em qualquer texto. A sua existência é, de resto, um mistério. Sete cidades gregas da Ásia Menor usurparam a honra de contá-lo entre os seus homens
ilustres. Nenhuma é capaz de nos dar dele uma biografia séria. É questão de
perguntar se não terá havido dois Homeros, sendo o segundo neto do primeiro e
usando o seu nome, como era costume. Entre as hipóteses mais audaciosas, aquela
que nega a sua existência não é de rejeitar de olhos fechados.
Interrogamo-nos
sobre a própria obra, reveladora de um muito grande talento. O talento
encontra-se nas duas epopeias, o que tende a garantir-nos a existência de um
autor, ou pelo menos de autores pertencentes à mesma escola, a uma mesma
filiação espiritual e literária. Avança-se o nome dos Homérides de Chios, aedos especializados na recitação dos
versos de Homero.
Em
todo o caso, as hipóteses não contradizem as que rodeiam as fontes das duas
epopeias. Parece como provável que tenham nascido na adição de vários poemas
cantados durante séculos pelos aedos. Há mais do que uma simples adição, há
fusão, há criação. O toque do mestre sente-se em cada verso. Seria pois injusto
considerar o autor, ou os autores, como simples compiladores.
Tais
considerações tornam inevitáveis os anacronismos que se detectam nas
descrições, nos tempos, nos costumes, nas artes. Pouca coisa, é verdade, mas o
suficiente para perturbar um espírito lógico. Homero fala de ferro quando
deveria falar de bronze. O ferro não tinha ainda feito a sua aparição em 1230
(?), na altura da guerra de Tróia. Descreve uma incineração numa altura em que
os micénicos inumavam os seus mortos. Quando descreve um porto, uma cidade, um
palácio, é um porto, uma cidade ou um palácio do ano 700 antes da nossa era que
descreve, não forçosamente os do fim do segundo milénio.
Homero
relata aventuras da época micénica numa altura em que a Grécia escapa já à
influência austera dos Dórios e começa a sua ascensão para uma renascença
esplendorosa. Para ser verosímil, por exemplo, fia-se nos relatos dos
marinheiros do seu tempo. A Odisseia é
a obra de um navegador. O conhecimento dos ventos e da construção naval que
Homero demonstra levam-nos a pensar ter sido ele próprio um marinheiro. Esta
hipótese nunca foi sustida. Que objecções se lhe opõem? Não é necessário que o
autor tenha vivido o périplo de Ulisses para lhe retirar toda a hipótese de
veracidade. Que se censurem a Homero imprecisões nas descrições das costas ao
longo das quais navega não é admissível. Os levantamentos geográficos da sua
época eram muito imprecisos em relação aos nossos. E fazemos mal em tentar
reconstituir a epopeia de Ulisses num mapa do século XX da nossa era.
![]() |
| Ulisses e o cântico das sereias |
Que
a arqueologia se sente pouco à vontade neste domínio, a ninguém espanta. Tira a
sua contrapartida da comparação das imagens transmitidas pelas cerâmicas ou
pelos frescos com os textos homéricos. Circe, certo dia, aconselha Ulisses a
interrogar a alma de Tirésias sobre as suas possibilidades de regresso a Ítaca.
Uma consulta tão grave só poderá resultar se for santificada por um sacrifício.
O poeta faz reviver a cerimónia com todo o pormenor. O seu texto poderia
perfeitamente servir de comentário à procissão fúnebre que se desenrola nos
flancos de um sarcófago descoberto em Haghia Tirada, em Creta.
Tudo
começa pelo sacrifício do touro, que será seguido pelo das duas cabras. Três
mulheres, vestindo longas túnicas apertadas na cintura, com os braços
carregados de oferendas, avançam para o altar. Este é flanqueado por dois
grossos mastros que suportam no topo achas de dois gumes. Num deles está
pousada uma ave de asas escuras. Eis que é derramado numa cratera o vinho
ritual, enquanto um músico toca cítara. O morto, de pé junto do seu túmulo,
observa. Nenhum dos gestos dos que o rodeiam lhe escapa. Três oficiantes
aproximam-se dele. Um deles leva uma barca, os outros um jovem veado. A partida
para as ilhas da bem-aventurança está próxima. A viagem pelas trevas será
longa.
A
viagem dos mortos nem sempre é feita de barco. Segundo os ritos ou as épocas, o
desaparecido cavalga um golfinho. Este benfazejo cetáceo é venerado em Creta,
onde inspira pintores e poetas. Certos golfinhos têm direito ao reconhecimento
dos vivos: os que teriam trazido das profundezas do mar o corpo do poeta
Hesíodo. Este salvamento lendário permitiu dar ao contemporâneo de Homero uma
sepultura condigna.
As
descobertas arqueológicas corroboram os nossos conhecimentos, revelam os
escritos sobre o costume de oferecer provisões de boca aos viajantes do além.
Numa tumba de Mallia, Evans encontra uma tábua cavada no meio, para receber as
libações, e orlada por uma dupla cintura de trinta e seis pequenas cúpulas,
destinadas a receber os alimentos. Esta necessidade de alimentar os mortos é
levada a tal extremo que os Cretenses deixam por vezes orifícios nos túmulos,
para lá deitarem os vinhos fúnebres.
![]() |
| Apolo |
Os
sacerdotes cretenses só honram os seus deuses junto dos túmulos, derramando
lágrimas. A phorminx (cítara) e a
flauta, nos dias de festa, abandonam os seus ritmos chorosos para acompanhar os
bailarinos e os coristas em torno dos altares de Apolo. Os monumentos minoenos,
pelo pincel ou pelo cinzel, representam frequentemente grupos de bailarinas. No
seu hino a Apolo, Homero põe em cena os sacerdotes de Cnossos. É em ritmo de
dança que se desdobra a procissão.
«O
senhor Apolo, filho de Zeus – escreve o poeta – abria a marcha tocando
deliciosamente a phorminx que tinha na
mão, e avançava com um belo passo levantado. Os Cretenses seguiam-no e cantavam
o primeiro Paian...».
As bailarinas e os cantores, interpretando péans em honra de Apolo e ditirambos em honra de Dionísios, estão na origem da tragédia. Não é preciso sair da Grécia para encontrar a origem do teatro. Um pequeno teatro onde se celebrava o culto dos deuses. A raiz do teatro grego é religiosa e assim permanece até ao século de Péricles. O de Asclépios, em Epidauro, o de Apolo, em Delfos, o de Dionísios, em Atenas, são verdadeiros templos.
(In Os Grandes Enigmas das Civilizações Desaparecidas, Amigos do Livro, Tomo 1, pp. 36-40, com a colaboração de Jean Renald, Lucien Vieville e Brigitte Friang).
![]() |
| Teatro de Dionísio em Atenas |
![]() |
| Antigo teatro em Epidauro |
![]() |
Στοιβαδείον (Stoibadeion): ruínas do Templo de Dionísio na ilha grega de Delos. |
.webp)







,_1907,_by_William_Richmond,_Ashmolean_Museum,_Oxford.jpg)
.jpg)












,_50-30_B.C.E.,_71.12.jpg)




















