quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Pombal, o “Filosofismo” e a degradação do povo português

Escrito por Teófilo Braga 





«Teófilo Braga é, certamente, o mais poderoso obreiro da literatura portuguesa na segunda metade do século XIX. Este juízo, que à primeira vista parece exagerado, poderá sem receio ser subscrito por quem se lembrar de quanto o fecundo escritor foi admirado, discutido e injuriado, quer em palavras perdidas nas maledicentes tertúlias literárias quer em documentos que permanecem a fixar os aspectos anedóticos e caducos da pequena história. A obra realizada por Teófilo Braga que parece falecer de valor quando comparada às dos seus mais célebres contemporâneos, reclui méritos que a tornam digna de ser lida e revalorizada quando se der uma mutação no critério de apreciar a actividade dos homens de cultura.

Este homem singular, de quem tanto bem e tanto mal se disse, ainda não foi estudado à luz da caracterologia. Tudo quanto os memorialistas testemunham e os historiadores certificam tem de ser revisto para que se distinga dos aspectos superficiais e dos reflexos circunstanciais a autêntica figura de Teófilo Braga. A explicação de um carácter há-de resultar do estudo das camadas constitutivas de uma personalidade, que, de uma maneira simplista, podemos dizer serem: a vontade, os sentimentos e as ideias.

Teófilo Braga através dos actos de escolher, deliberar e decidir, mantinha firme uma vontade que lhe mereceu o qualificativo de intransigente e de sectário. Entre os seus sentimentos se distinguem o amor da Família, da Pátria e da Humanidade, (alimentado por uma imaginação de poeta e robustecido pela observação de estudioso) e a admiração pelo talento de três filósofos da história que foram Vico, Hegel e Comte. Quanto às ideias, mais recebidas de cultura alheia do que elaboradas por mente própria, cobrem elas a camada mais superficial de tão notável personalidade.

Desenvolvido da exterior vestidura que são as palavras e as frases peculiares das escolas filosóficas e dos partidos políticos, o pensamento de Teófilo Braga, tão mal estudado, surge na configuração propícia de um precursor da filosofia portuguesa. Teófilo Braga soube, como bem poucos dos seus contemporâneos, situar a relação da filosofia com as formas de cultura, enunciando a problematização da política nacional. Não lhe foi dado o mérito de demonstrar a independência do nosso pensamento filosófico, embora alguma vez a pressentisse, por virtude do seu profundo, ardente e elevado patriotismo.»

Álvaro Ribeiro («Os Positivistas»).



«(...) ao mesmo tempo que proibia a posse e leitura de obras adversas ao Santo Ofício, o marquês de Pombal fazia atacar as crenças católicas, negando a supremacia do Papa, chasqueando-lhe a pretendida infalibilidade, escarnecendo-lhe os seus santos. O espírito agressivo de António Pereira de Figueiredo, um dos dóceis instrumentos dos seus planos, com um conto de réis por ano, não era mais suave para Roma que as invectivas dos grandes heresiarcas dos séculos XV e XVI. À sua custa mandava imprimir o marquês de Pombal o famoso livro do bispo dissidente de Miriófita, que, sob o pseudónimo de Justinus Febronius, escreveu – Do estado da igreja e poder legítimo do pontífice romano – uma diatribe contra a religião católica, vertida a expensas do marquês pelo coronel Miguel Tibério Pedegache. Leituras desta natureza indispensavelmente fomentavam o protestantismo no reino, a heresia que se identificava com Calvin e com Luther. Muitos leitores desses livros, desligados mentalmente da igreja romana, caíram na imprudência de manifestar a sua aversão ao Santo Ofício. Pois, senhores, esses desgraçados, embaídos pelos livros que lhes facilitava o marquês, se se deixavam desvairar, iam malhar com os ossos na polé da Santa Inquisição.

Quando nos dará a história um homem semelhante, uma tão impenetrável, tão absurda depravação? Quem me explicará a sinistra ideia do ministro-filósofo que permitia os tratos espertos nos heresiarcas, proibia com severidades acerbas a leitura e posse de obras hostis ao Santo Ofício, mandava ao mesmo tempo publicar livros eivados de jansenismo e do racionalismo de Voltaire, e fazia queimar os livros ortodoxos que alimentavam a piedade boçal dos seus contemporâneos?

Convinha, antes do centenário, trazer à luz a tenebrosa monstruosidade deste carácter incoercível e único na história!

(...) O duque de Choiseul em França, o conde de Aranda em Espanha, e Sebastião de Carvalho cooperaram de comum acordo na expulsão dos jesuítas. Sebastião de Carvalho veio da Áustria abeberado nas doutrinas de Hontheim contra o primado da jurisdição pontifícia. Justinus Febronius foi o seu mestre; e, discípulo grato, mandou-o traduzir e vulgarizar, como eu já disse, à custa do erário. Guerra, pois, sem armistício à autoridade eclesiástica e nomeadamente à Companhia de Jesus, que mais proeminente representava o partido da igreja! D’Alembert escrevia a Chatolais: “Dou-lhe os parabéns por ter visto filosoficamente que o espírito monástico é o flagelo dos Estados, e que era preciso começar pelos jesuítas como mais valentes.” Voltaire dizia a Helvécio em 1761: "Destruídos os jesuítas, venceremos a infame." [Schoell, Curso de História dos Estudos Europeus].

Sebastião de Carvalho não era homem para discussões serenas, nem achava a lógica e o sarcasmo dos enciclopedistas à altura da questão. As lutas da Universidade de Paris com a Companhia, a acção dissolvente mas vagarosa das Lettres provinciales, não condiziam com a sua índole impetuosa e brutal. Em França, onde havia as tradições sanguinárias dos Châtel e dos Ravaillac, a luta com os jesuítas digladiava-se nos parlamentos. Em Portugal não havia parlamentares nem inteligências que combatessem em lides incruentas os padres dominantes pela superioridade da instrução. E não era muita, comparativamente à do jesuíta estrangeiro, que possuía a ciência universal, aceitava os reptos da filosofia, raras vezes vacilava nas refregas, sabia as línguas de todo o mundo, e tinha vastos armazéns duns livros enormes de sabedoria estéril. O jesuíta português dava crónicas bem fraseadas, muito vernáculas, sermões culteranistas, apostilas de filosofia cediça e novenas. Sebastião de Carvalho e os da sua falange, auxiliados pelos frades carmelitas e oratorianos, não tinham ainda assim que fazer com os Oliveiras e com os Matos. Mas a questão não era reformar – era destruir.

O ministro de D. José foi quem primeiro vingou a empresa em que estava confederado, porque associou à conspiração dos fidalgos a cumplicidade dos jesuítas. Mentiu, mas triunfou. Se as testemunhas falsas ou verdadeiras do processo inconfidencial tivessem provado que os jesuítas conspiraram com os Távoras e Mascarenhas, Sebastião de Carvalho tê-los-ia feito rodar, macetar e queimar no patíbulo de Belém. Quem o impediria? O respeito ao hábito? As puas do remorso?

O ministro não encontrou reagentes impeditivos nem na opinião geral, nem nas classes poderosas, nem na clerezia. Era um país pequeno, desonrado, esmagado e covarde. Estava tudo amordaçado pelo terror e enervado pela corrupção; genuflectiam todos aos pés do tirano; e os desembargadores, tartufos de ferocidade, encheram-se de um rancor postiço para granjearem a simpatia do valido. Nem ainda em livros clandestinos havia quem protestasse contra as párvoas calúnias de Sebastião de Carvalho estampadas na Dedução Cronológica. Ele escreveu que Châtel era da Companhia de Jesus. Châtel que tentara contra a vida de Henrique IV apenas tinha dos jesuítas a ciência rudimentar dos seus colégios. Escreveu que era jesuíta o regicida Ravaillac – um pobre diabo de mestre-escola místico e mendigo.

O duque de Choiseul vingou prostrar morta a instituição odiada; mas não se foi contra o cadáver às punhaladas, não encarcerou nem queimou os padres; pelo contrário, deu casa e pão aos que ficaram em penúria. E o espanhol conde de Aranda mandava sustentar em Roma os jesuítas desterrados.»

Camilo Castelo Branco («Perfil do Marquês de Pombal»).


«A decadência dos estudos filosóficos no período do liberalismo religioso, político e económico que sucedeu ao “reinado” do Marquês de Pombal, explica perfeitamente que os estudiosos mais sérios vissem no sistema de Augusto Comte um plano aceitável para a reforma da educação portuguesa. A tal apostolado se dedicou Teófilo Braga, que tendo sido primeiramente atraído por Hegel e Vico, assimilou, ensinou e divulgou o sistema positivista, logo que para tal obteve cadeira no Curso Superior de Letras de Lisboa (1872). Entendia o ilustre professor que a reforma filosófica deve preceder a reforma política, já que tal era a motivação do Partido Republicano Português, mas os revolucionários impacientes e apressados desrespeitaram a ordem normal, impuseram ao País instituições determinadas pela fraseologia mitológica e metafísica, e precipitaram os acontecimentos para o abismo retrógrado que tem sido julgado pelos historiadores esclarecidos.

A filosofia portuguesa, disciplinada durante quatro séculos pelos textos de Aristóteles, traduzidos em latim, segundo os comentários de Santo Tomás, não poderia crescer, florescer e frutificar perante a literatura romântica e realista do liberalismo religioso, político e económico. A Universidade não aceitou a lição de Jorge Hegel ou de Augusto Comte, dois escolásticos, na construção da enciclopédia das ciências filosóficas. O século XIX foi, por isso, um século de decadência nos estudos liceais e universitários, e caracterizado por reduzida produção de escritos originais de estudos especulativos.»

Álvaro Ribeiro («Memórias de Um Letrado», II).



«Todos os sinais e todas as provas indicam que já não existe o povo português...».

Orlando Vitorino



Pombal, o “Filosofismo” e a degradação do povo português

Nunca povo algum da terra foi mais estupidamente governado do que Espanha e Portugal; a desmembração odiosa dos dois países, e ao mesmo tempo a unificação administrativa e material dos diversos estados peninsulares que possuíam condições essenciais de autonomia, revelam a acção violenta e contraditória de dinastias, que exploraram estes dois povos em vista de um interesse egoísta, e o embrutecimento sistemático exercido em benefício da realeza pelo catolicismo, que em paga dos serviços de polícia das consciências recebeu o exclusivo poder espiritual até à crueldade canibalesca. Os ministros que usavam e abusavam da autoridade eram favoritos sem inteligência, que só procuravam imobilizar em si o poder; de ordinário eram cardeais astutos, como Alberoni, ou mentecaptos, como os que cercavam D. João V, que servia a causa pública mandando dizer missas por alma dos seus súbditos. Quando um dia algumas ideias de administração puderam penetrar no cérebro de um ministro, como Aranda em Espanha, ou Carvalho em Portugal, essas ideias, apesar do conflito de mil preconceitos seculares, e da incompleta compreensão dessas noções transplantadas de repente e à força, frutificaram de súbito e de um modo pasmoso, de sorte que esses ministros se acharam inconscientemente inauguradores de uma nova época de civilização. Desde o casamento de Afonso VI e Pedro II com uma princesa francesa, mesmo já do tempo de D. João V e da regência da sua viúva, alargaram-se as nossas relações políticas com a França, de um modo fecundo para a conquista e manutenção da nossa liberdade nacional. Era um meio de ferir a Espanha, e Richelieu usou-o em nosso favor. Porém, a monarquia e a aristocracia não viram na França senão os hábitos da elegância e do bom tom, usavam as modas, os estilos, os produtos industriais desse povo, mas entregavam-nos por tratados ruinosos e cheios de perfídia à exploração comercial da Inglaterra. O governo de Pombal assinala-se por um espírito de reacção contra a exploração dos ingleses, e pela adesão aos princípios económicos e administrativos de Sully; hoje consideram-se como grandes monstruosidades económicas as companhias privilegiadas como a de Grão-Pará, como as dos Vinhos do Alto Douro, violências que custaram a ruína de muitas fortunas individuais e ondas de sangue pelo castigo desumano de todas as reclamações colectivas. No entanto Pombal infundiu pela energia e regulamentação administrativa um vigor novo à nação que definhava. Possuía o ministro de D. José o génio da acção, mas o seu verdadeiro motor foram as ideias francesas. O que significam estas palavras as ideias francesas já se compreende bem pela influência das teorias económicas de Sully; porém, uma das suas fases mais brilhantes é essa que em Portugal era conhecida pelo nome de Filosofismo, que levou o Marquês de Pombal a estabelecer a separação entre a causa da monarquia e o interesse do clericalismo. Se o espírito de Pombal não estivesse orientado segundo o critério dos enciclopedistas, se não conhecesse a aspiração dos reis-filósofos, como José II, Frederico da Prússia ou Catarina da Rússia, ele nunca teria tido a coragem de imitar a obra de Choiseul e de Aranda, executando corajosamente a destituição dos jesuítas de Portugal, pela lei de 3 de Setembro de 1759. Só um acto desses é que pode resgatá-lo da torpeza de mandar sepultar na enxovia o jurisconsulto que redigiu a representação de alguns negociantes contra a Companhia do Grão-Pará. No seu excesso de zelo pela monarquia, que ele procurava desafrontar da absorção do clericalismo, Pombal colaborou inconscientemente no caminho para a liberdade, dividindo esses dois poderes deprimentes, que desde o século XVI estavam ligados, apesar da mútua má fé com que se tratavam, má fé bem expressa pela moral de ambos resumida nas palavras Maquiavelismo e Jesuitismo. Depois que Pombal vibrou o golpe contra os jesuítas, precedendo a actividade papelística do regime constitucional, mandou fazer longos relatórios, como a Dedução cronológica e analítica, o Compêndio histórico, para demonstrar perante a Europa a pravidade jesuítica como causa da ruína de todas as instituições portuguesas. Pombal considerava a realeza acima dos povos como uma guarda providencial do turpe pecus; para ele toda a barbaridade refinada pela tortura não bastava para castigar os crimes de lesa-majestade, cuja ciência certa e vontade soberana eram os fundamentos de todas as leis. Quem procurasse outros fundamentos era criminoso de alta traição: foi assim que Pombal desenterrou das bibliotecas o ignorado livro da Justa Aclamação, por que ali se proclamava o princípio da soberania nacional. Mandou submeter o livro ao exame de cinco lentes da Universidade de Coimbra para decidirem que um tal livro era evidentemente obra apócrifa, sem autoridade jurídica e sem a força da opinião do célebre Velasco de Gouveia. Reuniram-se os cinco obscuros doutores da Universidade e em assento datado da Ajuda, de 10 de Abril de 1767, concluíram que esse livro da Justa Aclamação era obra dos jesuítas, inspirada pelos livros «de Belarmino, Soares, Mendonça, Molina, Azor, Valença e outros semelhantes sequazes dos sectários do Buchanano, Rosses, Hotmano, Bucherio, e outros libertinos, que haviam pretendido, que não houvesse no mundo um supremo poder, que coibisse as suas sediciosas e mal-entendidas liberdades...»[1]. Às doutrinas tão lucidamente expressas por Velasco de Gouveia chama-lhes «cinco absurdos contrários a todo o direito divino e natural, formalizados pela Sagrada Escritura nos Testamentos Velho e Novo e entendidos pelas doutrinas dos apóstolos, autores eclesiásticos e concílios, sem admitirem dúvida em contrário, que não seja ímpia e temerária...»[2]



Não contente de opor ao grande facto natural da soberania da nação as opiniões caducas de instituições e documentos que exploraram as sociedades humanas, entendeu também torná-lo odioso como instrumento de ambição da Companhia de Jesus. Era um golpe com a espada de dois gumes, contra o clericalismo e contra os gérmens da democracia, que bem cedo agitaram a sociedade exausta do fim do século XVIII: «É enfim, o quinto e último fundamento para se concluir que o referido livro intitulado Justa Aclamação não foi escrito por Francisco Velasco de Gouveia, mas sim pelos ditos regulares (jesuítas) porque assim o manifesta com igual evidência a inspecção das mesmas quatro abomináveis proposições, que oferece para assuntos da Parte I do referido tratado, fazendo-se por elas evidente, que não foram escritas para com elas se sustentar o direito da casa sereníssima de Bragança, mas sim para arruinar e destruir o supremo poder da coroa, que era o principal objectivo dos ditos regulares».[3]

Podia com toda a sua autoridade discricionária Pombal declarar o livro da Justa Aclamação como maquinação jesuítica, mas o que ele não podia era tornar apócrifas as cortes de 1641, que reconheceram a soberania nacional. Com a queda de Pombal as ideias francesas, na sua parte administrativa, foram repelidas bruscamente, e o governo da nação confiado ao arcebispo-confessor, que bestializou a rainha D. Maria I com uma irreparável alucinação religiosa; o príncipe herdeiro D. José, por isso que tinha relações com José II, e queria na administração do reino seguir os planos de Pombal, morreu repentinamente, crê-se que envenenado. As ideias francesas, na sua parte crítica, ou o filosofismo, foram combatidas por um sistema de reacção e perseguições do Santo Ofício, e a essa época de negrura chama-se na nossa história o intolerantismo; uma das vítimas mais gloriosas desta época foi o insigne matemático José Anastásio da Cunha, e o poeta repentista Bocage também sofreu violência policial acarretada pelo ciúme da sua popularidade. Os homens de verdadeira ciência, como Félix de Avelar Brotero e o abade Correia da Serra, refugiavam-se no estrangeiro, e para França fugiu também Filinto Elísio, pelo crime de lhe atribuírem algumas frases de um denodado criticismo. A perseguição contra os homens exercia-se também contra os livros, que eram examinados na alfândega, e os que falavam em liberdade eram queimados pela mão do carrasco no Terreiro do Paço. A Mesa Censória graduava a liberdade dos que pensavam, examinando previamente os seus escritos, destruindo-os, truncando-os, ou emendando-os segundo o seu modo de ver.

À medida que as ideias francesas tendiam para as formas do jacobinismo da grande época da Revolução, assim a polícia e o Santo Ofício redobraram de cuidado contra a entrada dos livros dos enciclopedistas; e nas contas secretas da Intendência para os ministros acusa-se o duque de Lafões por mandar vir desses livros perversos, delatam-se os estudantes da Universidade de Coimbra que liam Bayle, Voltaire, Rousseau, Reyal, Helvetius e Holbach. Todo o homem dotado de uma inteligência acima do vulgo era suspeito e espionado, davam-se buscas aos seus livros, faziam-lhe carga das suas conversas, tomavam como aliciação as suas relações pessoais. Foi preciso o grande favoritismo do duque de Lafões, e as suas relações com os sábios europeus, para ousar instituir a Academia Real das Ciências de Lisboa, que contou entre os seus sócios correspondentes d’Alembert. É este o período glorioso da Academia das Ciências, o único foco de luz nessa época do intolerantismo; glorioso não só pelo seu espírito revolucionário, mas pelas provas sérias de uma fecunda actividade. Alguns refugiados franceses, como o convencional Bretonnau, viveram à sombra do duque de Lafões em Portugal e as cantigas francesas da revolução popularizaram entre nós o espírito do jacobismo.

Em 1773, em conferência de 29 de Abril, a mesa censória, denegando licença para a impressão das teses de filosofia racional e moral do padre Fr. Joaquim de Santa Clara, que veio a ser mais tarde arcebispo de Évora, ordenava ao reitor da Universidade de Coimbra «que o advertisse e admoestasse para reformar e melhorar de sistema, informando-se dos livros de que usa o dito religioso, por constar que tem algumas obras inglesas, que podem ser de mau carácter e que o conduzam a precipício, e que destas, quando as haja, mandará fazer apreensão, e remetê-las à secretaria da mesa, e determinadamente o livro em duodécimo De la primauté du Pape». O reitor da universidade mandou dar a competente busca aos livros de estudo de Fr. Joaquim de Santa Clara, e nada achou condenável; escrevendo para a mesa censória, diz: «Mandei igualmente chamar o dito religioso, e o admoestei para que se deixasse dos seus entusiasmos e virasse toda a sua aplicação para o estudo da língua hebraica e das Escrituras, cujas aulas frequenta nesta universidade.»[4]

Depois deste assombroso documento devia seguir-se o processo inquisitorial contra o insigne matemático José Anastácio da Cunha, mas esse documento extraordinário só por si reclama um livro. Outros homens de letras eram envolvidos nas suspeitas de filosofismo, e depois de 1789 em perseguições e espionagens como jacobinos; assim entre as contas secretas da intendência da polícia, cita-se «o colegial do colégio dos militares de Coimbra, opositor às cadeiras de leis, Joaquim José Ferreira Gordo, sócio da Academia das Ciências e... amigo do abade Correia».[5] O abade Correia da Serra acha-se com a carga de ter relações com o convencional Brussonet: «Todos declaram ser perigoso o dito Brussonet, que era do partido de Robespierre e havia sido secretário de Neccar. É conhecido a todos hoje em Lisboa estar aqui este pedreiro livre Brussonet, que olham com horror, em ter sido apoiado e andar com o abade Correia na carruagem em algumas partes onde não deveria entrar e estar hospedado na Academia das Ciências de Portugal...». O padre Teodoro de Almeida é também espiado pela polícia como jacobinista, e por dar agasalho na casa do Espírito Santo ao referido convencional.[6] A adesão ao espírito revolucionário dava-se em Portugal, ao inverso de todos os países, nas classes conservadoras, entre a aristocracia, como o duque de Lafões e António de Araújo, e o clero e homens de ciência autoritária, como os que acabamos de citar; tal era a degradação do povo bestializado pelo intolerantismo, e segundo os gritos que lhe ouvia o intendente da polícia era ele o reaccionário: Leve o diabo os franceses!, gritavam os fanatizados, e as mulheres da Praça da Palha tinham pena de não serem homens para espancarem os emigrados franceses que encontravam. De repente as cantigas revolucionárias entoaram-se nos cafés, o Cá ira repetiu-se, e os muros desta Jericó do absolutismo e do queimadeiro não se sentiram seguros. Manique fala da tripulação de um navio surto defronte do cais de Belém «e as palavras que proferiam, cantando pelas ruas daquele lugar, eram: Viva a liberdade e morram os aristocráticos, e ponham-se todos à lanterna, e irá sempre avante o que se acha principiado».[7] O terror do Manique, o Briareu a quem estava confiada incondicionalmente a segurança de Portugal, subiu de ponto, quando constou que «andam por aquele sítio com uma gaitinha, dizendo em francês, Viva a liberdade e morra a nobreza, e que têm ido cantar defronte do Paço da Ajuda, na presença da Guarda».



As cantigas espalham-se vertiginosamente, e o intendente avisa o ministro de que «em uma casa de pasto na Rua Formosa, se juntam inumeráveis gentes e entre eles muitos estrangeiros, particularmente franceses, e que também há um jogo da bola; domingo passado, 3 do presente (Agosto de 1794) houve um grande ajuntamento e o seu entretenimento foi cantarem-se em português as cantigas revolucionárias, proferiram-se quantas liberdades daquelas que se proferem na infeliz França contra os reis, e em uma palavra, até dizerem que era melhor que na Praça do Comércio se levantasse a árvore da liberdade em lugar da estátua de sua majestade...».[8] Após as cantigas vinham as conversas, e Manique fala dos «que andavam espalhados por esta corte, entrando pelos cafés e bilhares a referir os factos da liberdade que haviam praticado os franceses para se tirarem da escravidão em que se achavam sujeitos ao poder de um homem, que era o rei que os governava e os tinha como que em escravidão, contando para abonar o sossego e tranquilidade em que estava a França, as festas de alegria que o povo de um e outro sexo tinham feito por terem conseguido a sua liberdade, e que até duzentas donzelas em Bayona fizeram a sua festa, levantando dois mastros, um com a bandeira inglesa, outro com a bandeira dos americanos, e por baixo de uma e outra bandeira se viam as palavras – Viva a liberdade e morram aqueles que a impedirem! – V. Ex.ª conhecerá quanto são perigosas estas gentes, e que se espalhem pelo povo rústico, e se entretenham  em ouvirem estes contos».[9]

O intendente da polícia lançou as suas Moscas, ou espiões secretos, pelos botequins, e os cocares da liberdade, as alegorias das caixas do rapé, os livreiros e os livros chegados à alfândega, os inocentes versos neoarcádicos, tudo era pretexto para ser posto fora de Portugal, e sendo português desaparecer misteriosamente, indo morrer sem processo, ignorado, nas Pedras Negras! Era assim que procedia contra os «que pretenderam espalhar no público aquelas liberdades que têm adoptado os tais chamados filósofos modernos». No livro Vida de Bocage e Sua Época Literária, já deixámos esboçado este período, em que ao terror das execuções pombalinas, como a de António Pele, e das procissões canibais ou autos de fé, se seguiu o terror policial, que acabou de amoldar este desgraçado povo português para aceitar todas as ignomínias. Foi por estes meios que o povo português chegou ao estado de conhecer que o exploram sem contudo sair da sua apatia, conservando uma extraordinária antinomia entre a consciência e a vontade. Um tal estado acha-se explicado num pensamento do moralista francês Vauvernagues: «A servidão rebaixa os homens até ao ponto de se fazer amada.» Quando se chega a este estado, nem invasão francesa, nem protectorado inglês, nem forças miguelistas, nem violências cabralinas farão mover os fiéis vassalos.

(In Teófilo Braga, História das Ideias Republicanas em Portugal, Vega, 3.ª edição, 2010, pp. 25-32).





[1] Ap. Dedução cronológica, part. I, divis. X, §. 657.

[2] Ibidem.

[3] Ibid. Part. I, div. XII, § 662.

[4] Na biografia, por J. Hel. da Cunha Rivara. Panorama. III, 335.

[5] Contas, t. IV, fl. 220 (Arquivo da Intendência.)

[6] Ibid., fl. 235 (17 de Dezembro de 1794).

[7] Contas, liv. III, fl. 281 (9 de Novembro de 1792).

[8] Contas, t. IV, fl. 163.

[9] Ibid., t. III, fl. 232.


domingo, 8 de fevereiro de 2026

A religião reformada

Escrito por Agostinho da Silva



Selo de Martinho Lutero


«A religião de Lutero é uma religião individualista, com uma Igreja invisível de almas puras voltadas a Deus; mais que uma reforma, é uma dissolução de tudo o que existia. Para coroar este anarquismo religioso, Lutero declara que prega uma acção não violenta, que nenhum cristão pode usar a violência para fazer triunfar as suas ideias.

Lutero já sofrera várias tentações diabólicas, mas faltava-lhe passar a pior, a de querer salvar a sua obra e firmá-la no futuro imediato; e, desta vez, o Diabo venceu. Os nobres apoderaram-se de Lutero e deram-lhe o apoio político, os discípulos levaram-no a formar uma nova Igreja, com cerimónias e ritos; a fidelidade ao pensamento inicial teria levado Lutero ou a ser posto de lado pelos partidários ou a assistir à derrota do movimento, como Erasmo e Lefèbre.

Circunstância de temperamento e de ambiente fizeram-no tomar o outro caminho, contra vontade, possivelmente; organizou-se uma Igreja, usou-se da violência contra os adversários e, dentro em pouco, contra os discípulos que pretendiam levar a revolução até o fim. No Verão de 1524, os camponeses alemães reclamaram reformas sociais, de acordo com o Evangelho, e agruparam-se em bandos armados para fazer vencer o seu direito. Lutero respondeu que para os cristãos só tem interesse a liberdade interior: a servidão externa não importa. Ao mesmo tempo, exortava os príncipes a abater os camponeses: “Apunhalai, castigai, matai os que puderdes.” Os nobres acudiram ao apelo e a revolta terminou num mar de sangue.

(...) O ideal para Calvino seria que se reunisse numa só pessoa, governando como ditador, o poder religioso e o poder temporal. Foi o que, favorecido pelas circunstâncias, pôde fazer ele próprio, em Genebra, de 1555 até 1564, ano da sua morte. O seu domínio da cidade é absoluto e consegue-o pela expulsão ou pela morte dos que lhe são contrários, pela polícia secreta, pela inquisição mais subtil que tem havido no mundo.

As vítimas são às centenas, algumas ilustres, como o médico e teólogo espanhol Miguel Servet; mas Calvino alcança dar à cidade uma feição que perdurará durante séculos, ao mesmo tempo que a sua doutrina tem uma larga expressão. Genebra é aos olhos de todos a realização de uma sociedade nova, nela todos se apoiam para dar a sua batalha e a vencer. O luteranismo aparece como um fenómeno local, o calvinismo como doutrina de exportação possível; mas é fora de dúvida que o autoritarismo, o dogmatismo, a estreiteza de espírito de Calvino impediram, durante muito tempo, todo o progresso, toda a evolução da religião reformada.»

Agostinho da Silva («A Reforma», in «Páginas Esquecidas»).


João Calvino

«[...] A abolição da propriedade é o que sempre definiu o antiquíssimo comunismo. Poderão os comunistas falar de meios de produção, de lutas de classes, de proletariado escravizado, de burgueses e de mais-valia. Poderão até recorrer a metáforas de origem homossexual como a da "exploração do homem pelo homem". Do que exclusivamente se trata é de abolir a propriedade. Abolida a propriedade, o comunismo atinge a única finalidade que lhe é própria, e que é também, simultaneamente, o seu ponto de partida. Ponto de partida para quê, para onde, ninguém sabe. O seu patrono moderno, Karl Marx, encolerizava-se quando lhe perguntavam o que se iria fazer depois de abolida a propriedade. Não sabia. Encolerizava-se e respondia: "Eu não faço receitas de cozinha".

É fácil organizar o combate pela abolição da propriedade. Ao longo da história, muitas vezes o combate se travou e muitas vezes, até, saiu vitorioso: na Esparta de Licurgo, na Morávia dos anabaptistas, no Paraguai dos Jesuítas, na Rússia dos bolchevistas... Mas, abolida a propriedade, os homens continuam a estar no mundo; continua a haver, de um lado, os homens e, de outro lado, as coisas de que é feito o mundo. Os homens não podem viver sem o mundo e a existência no mundo é uma existência de relação com as coisas. A propriedade é, precisamente, esta relação. Abolida a propriedade, que acontece? Deixa de haver homens? Impossível. Passam os homens a viver separados do mundo? Não podem. Qual a receita que Marx se recusava a fazer? A única que os diversos cozinheiros conseguiram fazer - e a única que os comunistas, antes e depois de Marx conseguiram fazer - foi a de passarem para o Estado a posse (com a qual confundem a propriedade) das coisas. Ora o próprio Marx já havia prevenido que essa não era a solução, e claramente afirmou que transferir a propriedade para o Estado seria um mal pior do que manter a propriedade nos indivíduos. Com efeito, os resultados da estatização sempre estiveram longe de ser risonhos: massacre de milhões de homens, escravidão generalizada e até instituída, etc. E se não se pode dizer que, em rigor, tenham sido uma "estatização da propriedade" todos os diversos regimes comunistas que houve ao longo da história - alguns deles bem mais duradouros do que os marxistas actuais - também de nenhum deles se pode dizer que foi risonho: o dos espartanos foi a vergonha do "milagre grego"; o dos anabaptistas evanesceu-se no caos; o de Münster evanesceu-se na sangueira; o do Paraguai, levou, em duzentos anos, um pobre povo à idiotia...».

Orlando Vitorino («Manual de Teoria Política Aplicada»).



«(...) o Concílio de Trento determina as políticas culturais da Contra-Reforma: criação dos seminários diocesanos, novos institutos religiosos (Companhia de Jesus), reforma do Santo Ofício, aprofundamento das fontes doutrinais da Escritura, da Tradição e do Magistério. A Hispânia soergue-se a baluarte geográfico da Contra-Reforma em todo o mundo: pela disputa anti-reformista na Europa, pela missionação no resto do mundo. É um século de ouro que se inicia (1540-1640) e que começará por ser o da fundação ou renovação das escolas. O Colégio das Artes é fundado em 1547 num meio universitário onde, desde 1540, já tinham sido criados vários colégios universitários das ordens religiosas. Os jesuítas tomam conta do Colégio das Artes (1555) e a breve trecho o esquema topográfico da Segunda Escolástica está definido: Salamanca, Alcalá, Coimbra, Évora. De 1540 a 1640 é um tempo de ascensão, de 1640 em diante é um tempo de enfraquecimento.»

Pinharanda Gomes («Escolástica», in «Dicionário de Filosofia Portuguesa»).


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«A vida religiosa, como a entende o cristianismo, a redenção do pecado original, é missão que interessa de direito, se não de facto, a toda a humanidade. Dentro deste quadro, porém, vemos que as nações historicamente existentes se diferenciam nos processos de activar essa missão sobrenatural. A missão da França, por exemplo, não parece ter sido a mesma que a Divina Providência confiou à Espanha e a Portugal.

Neste ponto de filosofia da história, muito controvertido por iluministas e socialistas, convém corrigir as expressões infelizes e insuficientes com a assaz banalizada “dilatação da fé”. O subentendido não se afigura ao ouvinte ou ao leitor que, positivamente, desdenhe da teologia. A dilatação da fé passa, assim, a ser minorada em divulgação social do catecismo entre gentios, pagãos e infiéis, obra de ministério comparável ao ensino primário e secundário, com o mero intuito de estabelecer hábitos, costumes e instituições.

Torna-se indispensável sem ambages o pensamento cristão, e dizer completamente: dilatação da fé, da esperança e da caridade. Assim se legitima de sobrenatural sentido a intenção justificativa da epopeia dos descobrimentos, e só premissa esta doutrina podem então ser discutidos os argumentos anti-teológicos dos iluministas e dos socialistas. A fórmula completa de referência às três virtudes esclarecerá, por fim, o aspecto diferenciado do que se chamou “colonização portuguesa”».

Álvaro Ribeiro («Os Positivistas»).



A RELIGIÃO REFORMADA

(...) As doutrinas novas espalharam-se rapidamente por toda a Europa, dependendo o número de conversões do estado de alma da população, da atitude dos governantes e da maior ou menor força de que dispunham os católicos. Na Alemanha e nos países escandinavos fixou-se o luteranismo, demasiado preso a características nacionais para conquistar o estrangeiro; em França, por exemplo, havia uma só Igreja Luterana.

O calvinismo penetra na Europa Oriental e Central, onde o caminho lhe estava preparado por todos os movimentos heréticos anteriores, e na Inglaterra, onde tomou aspectos especiais, com Eduardo VI, depois da separação levada a cabo, por motivos pessoais, pelo rei anterior, Henrique VIII. Nos Países Baixos, o calvinismo une-se estreitamente aos sentimentos de independência política e constitui uma das forças que habilitam os holandeses a bater a dominação dos espanhóis. Em França, o calvinismo toma também carácter de um partido político, o que leva, como noutros pontos da Europa, a guerras longas e mortíferas. O Sul da Europa, Itália, Portugal e Espanha, não conheceu, devido à acção dos inquisidores, dos jesuítas e do poder temporal, a devastação das lutas religiosas; mas a repressão exercida sobre erasmistas, luteranos e calvinistas, e até sobre os católicos que iam para além de uma ortodoxia incompreensiva, está sem dúvida entre as causas que determinaram, para muito tempo, uma quase paralisia de espírito.

Apesar do temperamento pessoal dos reformadores e de o ambiente do tempo os ter levado a fórmulas estreitas que não correspondiam aos princípios sobre que se tinha baseado a revolução e possivelmente agravaram em muitos pontos os erros que se pretendiam combater, certo é que a religião reformada tinha em si um germe de liberdade que não podia morrer.

O princípio do livre exame dos textos, da opinião pessoal ante as doutrinas, as cerimónias e a organização eclesiástica, daria, logo que se pudesse restabelecer a vida normal, logo que terminasse a atitude da guerra que em parte impunha a reacção católica, toda a possibilidade de formação de religiões individuais, em que o indivíduo comunica directamente com Deus e se desprende das questões teológicas e do formalismo dos cultos para aplicar o seu espírito ao melhoramento moral próprio e ao estabelecimento no mundo de um reino de Deus, isto é, de um reino de bondade, de justiça e de amor.


O Doutor Agostinho da Silva, Porto, 1929.

Só enquanto tiveram por si a força do Estado lograram as Igrejas protestantes evitar a heresia e a formação de seitas: a ortodoxia exige, para que se mantenha, a coacção; e foi de certo modo esta liberdade protestante que levou ao grande combate do século XVIII contra a intolerância, o fanatismo religioso, e preparou os caminhos de um futuro em que a religião seja considerada como do domínio particular de cada homem e ninguém e nenhum agrupamento ouse exercer qualquer pressão neste sentido.

Por outro lado, o mesmo livre exame revelou que em muitos pontos era difícil conciliar razão e crença: ao passo que uma parecia chamada a desempenhar no mundo papel cada vez mais importante, pela racionalização progressiva de inúmeras actividades, a outra revelava-se estranha, cheia de ilogismos, pelo menos aparentes, em todo o caso de espinhosa defesa. No conflito, a fé perdeu e hoje há numerosos agrupamentos de reformados que são pouco mais do que sociedades de filosofia e de acção moral. Como os domínios humanos comunicam todos entre si, não foi duradouro o aborto político e social que se incluía na Reforma: o gosto da liberdade estendeu-se a outros campos e seria fácil traçar a história de muitos movimentos revolucionários mostrando o seu acordo com doutrinas protestantes e até a sua filiação nos rebeldes do século XVI.

E, se a humanidade não tivesse ganho mais nada com a Reforma, bastaria o que se conseguiu nos domínios da pedagogia para que se pudesse verificar progresso: a afirmação de que a todo o fiel devia ser possível ler os textos sagrados levou à criação de escolas populares com métodos e ambientes novos. Fundam-se ginásios (escolas secundárias), academias e faculdades; escrevem-se numerosos tratados de pedagogia, dá-se o primeiro impulso para a obra de Coménio, de Basedow, de Froebel; e é aos colégios protestantes que vão buscar o seu modelo, pelo que respeita a organização, os jesuítas, que, no fim do século XVI, iniciam a sua actividade pedagógica.

(Agostinho da Silva, «A Reforma», in Páginas Esquecidas, Quetzal, Fixação do texto, selecção, introdução e notas de Helena Briosa e Mota, 2019, pp. 370-372).


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A Atlântida

Escrito por Júlio Verne


«Quem foi o primeiro a ver as ilhas encantadas do Oceano? A história dos seus primeiros tempos poderia escrever-se na névoa marinha. Tais fragmentos da perdida Atlântida, luminosos como país das fadas, que se erguem perante a visão dos mareantes como miragem acima das vagas ou desaparecem na névoa azul para lá dum rasto de espuma, têm andado nas lendas europeias desde os tempos mais remotos. As Hespérides, as ilhas dos Bem-Aventurados, a ilha das Aves de S. Brandão, as ilhas Afortunadas – parece que se perderam e acharam e tornaram a perder de espaço a espaço, durante mais de dois mil anos. Tão próximas da Europa ou da África do Norte, que um navio costeiro levado pela tormenta poderia facilmente ser impelido para as suas costas, e tão pequenas, não obstante, e tão isoladas por léguas de mar desconhecido, que um marinheiro pouco hábil que desse com elas uma vez por acaso poderia nunca mais conseguir lá voltar.

Estas ilhas pairaram assim durante séculos na orla dos conhecimentos europeus, até que o grupo das Canárias, que estavam relativamente perto do continente, foi o primeiro a surgir da lenda para a luz. Exactamente quando ou como isto se deu é vago, mas ao tempo de D. Henrique haviam já sido conhecidas de várias gerações – quase tão bem como nós hoje conhecemos os arquipélagos mais isolados do oceano Pacífico» 

Elaine Sanceau («D. Henrique, o Navegador»).  









A ATLÂNTIDA



No meio dos dédalos pedregosos que fendiam o fundo do Atlântico, não havia obstáculos para o capitão Nemo, que avançava sem hesitação. Não só conhecia de sobejo aquele caminho, mas até o haveria percorrido por mais de uma vez, e não podia perder-se. Seguia-o com inabalável confiança. Aquele homem parecia um génio do mar, e quando caminhava na minha frente, admirava-lhe a estatura avantajada, que se destacava no fundo luminoso do horizonte.

Era uma hora da madrugada. Havíamos alcançado as primeiras rampas da montanha, e para lá chegar foi preciso abrirmos o caminho pelos atalhos de uma moita.

Moita de árvores secas, sem seiva, árvores mineralizadas sob a acção das águas, e dominada aqui e além por pinheiros gigantescos. Era como uma mina de carvão de pedra ainda de pé, aferrada pelas raízes ao solo surribado, e cujos ramos, à maneira dos finos recortes do papel negro, se desenhavam claramente na abóbada das águas. Imagine-se uma floresta de Hortz, pendurada dos flancos de uma montanha, mas uma floresta submergida.

Os atalhos estavam obstruídos por algas e bodelhas, entre as quais pululava um mundo de crustáceos. Eu caminhava, trepando rochas, saltando por cima dos troncos deitados, despedaçando os cipós do mar, que se balouçavam de uma árvore a outra, enxotando os peixes, que voavam de ramo em ramo. Já não sentia o cansaço, tanto mais que seguia um homem que se não cansava.

Que espectáculo! Como descrevê-lo? Como pintar o aspecto daqueles bosques e seus rochedos naquele meio líquido, com as bases sombrias e selvagens, e os cumes coloridos de vermelho sob aquela claridade duplicada pela poderosa reverberação das águas?

Espécie de molusco do género Nautilus



Trepámos rochedos, que em seguida se esboroavam aos pedaços com o baque surdo da avalanche. À direita, à esquerda, abriam-se tenebrosas galerias extensíssimas. Aqui rasgavam-se vastas clareiras, que a mão do homem parecia ter separado, e mais de uma vez perguntei a mim mesmo se não me apareceria de súbito algum habitante daquelas regiões submarinas.

Mas o capitão Nemo continuava a subir, e eu não queria ficar atrás. Seguia-o, pois, ousadamente, valendo-me do pau ferrado. Um passo em falso teria sido perigoso por aqueles estreitos passadiços vazados nos flancos dos abismos; mas caminhava com passo firme e sem sentir a embriaguez da vertigem. Umas vezes saltava uma fenda que me faria recuar em terra; outras vingava o tronco vacilante das árvores lançadas de abismo a abismo, sem olhar onde punha os pés; não tinha olhos senão para admirar os sítios selvagens daquela região. Ali parecia estar, desafiando as leis do equilíbrio, rochedos monumentais, inclinados sobre as bases cortadas regularmente. Árvores havia que quase se podia dizer rebentavam sob a força de uma pressão formidável, e sustentavam aquelas que a seu turno as sustentavam também. Além disso, torres naturais, lanços talhados a pique como cortinas, pendiam em ângulo, que as leis da gravitação não haveriam autorizado à superfície das regiões terrestres.

Valha a verdade que eu também sentia aquela diferença devido à densidade da água, quando, não obstante o meu pesado vestuário, a cápsula de cobre, os sapatos de metal, me guindava por pendores de uma aspereza impraticável, vencendo-os por assim dizer com a ligeireza de uma camurça ou de um cabrito.

Pela narração que faço desta excursão por debaixo de água, bem sei que não posso deixar de ser inverosímil! Historio coisas aparentemente impossíveis que, no entanto, são reais, incontestáveis. Não sonhei; vi e senti.


Rota do Nautilus



Duas horas depois de havermos deixado o Nautilus, tínhamos ultrapassado a linha das árvores, e a cem pés por cima da nossa cabeça erguia-se o pico da montanha, cuja projecção fazia sombra na brilhante irradiação da vertente oposta. Por aqui e por ali corriam em ziguezagues de forma acentuada alguns arbustos petrificados. Os peixes levantavam-se aos bandos debaixo dos nossos pés como aves surpreendidas.

A massa rochosa estava cavada por anfractuosidades impenetráveis, grutas profundas, buracos insondáveis, no fundo dos quais iam rumores formidáveis. O sangue refluía-me ao coração, quando eu avistava uma antena enorme, que me embaraçava a passagem, ou alguma pinça medonha, que se escondia com estrondo na sombra das cavidades! Milhares de pontos luminosos brilhavam no meio das trevas. Eram os olhos de crustáceos gigantes, caranguejolas enormes, que se endireitavam como alabardeiros, e tilintavam com as patas como se estas fossem de ferro, caranguejos titânicos, assestados com canhões nas carretas, e polvos horripilantes, que entrelaçavam os tentáculos, como uma sarça viva de serpentes.

Que era aquele mundo exorbitante que eu não conhecia ainda? A que ordem pertenciam estes articulados, aos quais a rocha formava como que uma segunda concha? Onde havia a natureza encontrado o segredo da sua existência vegetativa, e há quantos séculos viviam assim nas últimas camadas do oceano?

Mas não podia parar. O capitão Nemo, familiarizado com aqueles temíveis animais, não lhes ligava importância. Havíamos chegado a um primeiro platô, onde me esperavam ainda novas surpresas. Desenhavam-se ali pitorescas ruínas, que atraiçoavam a mão do homem, e não a do Criador. Eram vastos montões de pedras, onde se distinguiam as formas vagas de castelos, templos revestidos de um mundo de zoófitos em flor, e aos quais, em lugar de hera, as algas e os funchos faziam um espesso manto vegetal.




Mas que era aquela porção do globo engolida pelos cataclismos? Quem havia disposto aquelas rochas e aquelas pedras como dólmenes dos tempos pré-históricos? Onde estava eu? Para onde me havia arrastado a fantasia do capitão Nemo?

De boa vontade o haveria interrogado, e como não podia fazê-lo, fui obrigado a parar. Travei-lhe o braço, e ele, abanando a cabeça e mostrando-me com o dedo o último cume da montanha, pareceu dizer-me:

– Vamos, vamos para diante!

Segui-o num último esforço, e dentro de poucos minutos subi o pico que dominava por dez metros toda aquela massa rochosa.

Olhei para o lado que acabávamos de percorrer. A montanha não só se elevava de sete a oitocentos pés acima da planície, senão que pela vertente oposta tinha dobrada altura sobre o fundo em contraposição àquela parte do Atlântico. Estendi a vista ao largo e abracei um vasto espaço iluminado por uma fulguração violenta. De facto, aquela montanha era um vulcão. A cinquenta pés abaixo do pico, no meio de uma chuva de pedras e de escórias, uma larga cratera vomitava torrentes de lava, que se espargiam em cascatas de fogo no seio da massa líquida. Aquele vulcão, assim colocado como um facho luminoso, alumiava o plano inferior até aos últimos limites do horizonte.

Disse eu que a cratera submarina arrojava lavas, mas não chamas. A estas é preciso o oxigénio do ar, e por conseguinte não poderiam desenvolver-se sob as águas; mas as torrentes de lava, que têm em si próprias o princípio da sua incandescência, podem subir até ao rubro branco e lactar vantajosamente contra o elemento líquido, vaporizando-se ao seu contacto. Rápidas correntes arrastavam todos aqueles gases em difusão, e as torrentes lávicas deslizavam até ao sopé da montanha, como as do Vesúvio sobre a Torre del Greco.

Com efeito, ali, à minha vista, arruinada, abismada, demolida, aparecia uma cidade destruída, com as casas derrubadas, os templos abatidos, os arcos deslocados, as colunas tombadas, notando-se em tudo isto as sábias proporções da arquitectura toscana; mais além, os restos de um aqueduto gigantesco; aqui, a saliência empastada de uma acrópole, com as formas flutuantes de um Pártenon; ali, vestígios de cais como se algum porto antigo houvesse abrigado outrora, nas praias de um oceano que desapareceu, navios mercantes e naus de guerra; mais longe ainda, estiradas linhas de muralhas derrocadas, largas mas desertas. Uma Pompeia inteira sepultada sob as águas, que o capitão Nemo ressuscitava à minha vista.

Onde estava eu! Quis sabê-lo a todo o custo, queria falar, queria arrancar a esfera de cobre que me pesava na cabeça.

Mas o capitão Nemo veio até mim e conteve-me com um gesto. Depois, apanhando um pedaço de pedra calcária, dirigiu-se a um rochedo de basalto negro e traçou esta palavra

ATLÂNTIDA


Que clarão me atravessou o espírito! A Atlântida, a Metrópole de Teopompo, a Atlântida de Platão, esse continente negado por Orígenes, Porfírio, Jamblique, D’Anville, Malte Brun, Humboldt, que atribuíam a sua desaparição a uma lenda, admitido por Possidónio, Plínio, Ammien, Marcellin, Tertuliano, Engel, Sherer, Tournefort, Buffon, d’Avezac, esse continente tinha-o eu à vista, manifestando ainda as provas irrecusáveis da sua catástrofe! Era, pois, essa região submergida que existia fora da Europa, da Ásia, da Líbia, para além das colunas de Hércules, onde vivia esse povo poderoso dos atlantes, contra os quais se fizeram as primeiras guerras da antiga Grécia.

O historiador que consignou nos seus escritos os altos feitos daqueles tempos heróicos foi o próprio Platão. O seu diálogo de Timeu e de Crítias foi, por assim dizer, traçado sob a inspiração de Sólon, poeta e legislador.

Um dia, Sólon conversava com alguns sábios velhos de Sais, cidade que já contava oitocentos anos, como o atestavam os anais gravados no muro sagrado dos templos. Um daqueles anciãos contou a história de uma outra cidade mil anos mais antiga. Esta primeira cidade ateniense, com mais de novecentos séculos, tinha sido invadida e em parte destruída pelos Atlantes. Esses povos, dizia ele, ocupavam um continente imenso, maior que a África e a Ásia juntas, que cobria uma superfície compreendida do duodécimo grau de latitude até ao quadragésimo grau norte. O seu domínio estendia-se até ao Egipto. Quiseram impor-se à Grécia, mas tiveram de retirar-se ante a indomável resistência dos Helenos. Passaram-se séculos. Houve um cataclismo, inundações, terramotos. Uma noite e um dia bastaram para o aniquilamento daquela Atlântida, cujos vértices mais altos, a Madeira, os Açores, as Canárias e as ilhas de Cabo Verde, estão ainda a descoberto.

Açores

Eram estas as recordações históricas que a inscrição do capitão Nemo me trazia ao espírito! Assim, pois, conduzido pelo maior dos acasos, calcava com o pé uma das montanhas daquele continente! Tocava com a mão aquelas ruínas mil vezes seculares e de antigas épocas geológicas! Trilhava o mesmo caminho por onde tinham andado os coevos do primeiro homem! Esmagava sob os meus pesados sapatos esqueletos de animais dos tempos fabulosos, que estas árvores, agora mineralizadas, cobriam com as suas sombras.

Se não me faltasse o tempo, queria descer os declives abruptos daquela montanha, percorrer todo aquele continente imenso, que sem dúvida ligava a África à América, e visitar aquelas grandes cidades  antediluvianas. Talvez que ali, à minha vista, se estendessem Makhimos, a guerreira, Eusebes, a piedosa, cujos habitantes de estatura gigantesca viviam séculos inteiros, e aos quais não minguara força para amontoarem aquela penedia, que resistia ainda à acção das águas. Bem pode ser que um dia algum fenómeno eruptivo traga ao lume de água aquelas ruínas engolidas! Apontam-se numerosos vulcões submarinos naquela parte do oceano, e muitos navios sentiram abalos extraordinários ao passarem por alturas tão tormentosas. Uns ouviram ruídos surdos, que anunciavam a luta profunda dos elementos; outros apanharam cinzas vulcânicas pelo mar. Todo este solo até ao Equador continua a ser trabalhado pelas forças plutonianas. E quem sabe se em época remota não virão à superfície do Atlântico cumes de montanhas ignívomas, avolumados pelas torrentes vulcânicas e por camadas sucessivas de lavas!

(In Vinte Mil Léguas Submarinas, Edição Hetzel, 2025, pp. 365-371).