Escrito por Kenneth Henshall
«Os
japoneses, exactamente como os alemães na Europa, ajustaram negociações de paz doze meses antes da sua rendição. Como
não estavam em guerra com a URSS, serviram-se da sua embaixada em Moscovo para
enviar exploradores. Estaline, com planos ambiciosos respeitantes ao Japão,
utilizou naturalmente estes emissários para fazer avançar os seus projectos. Mais
tarde os japoneses entraram em contacto pessoal com o general MacArthur e
fizeram-lhe proposta de paz, propostas
que coincidiram exactamente com a concepção aceite entre os dois beligerantes
ao terminar a guerra em 1945. O general MacArthur, comandante-chefe das Forças Armadas
americanas no Pacífico, aceitou as promessas japonesas e tomou as disposições
necessárias para acabar com os combates o mais rapidamente possível. O que
aconteceu depois foi inconcebível, e uma pessoa tem dificuldade em acreditar
nisso, mas é, meu Deus, a estrita verdade.
Dois
dias antes da partida de Roosevelt para Ialta – e sete meses antes da
capitulação final do Japão –, o Presidente americano recebeu do general
MacAthur um memorando de quarenta páginas, contendo um documento não oficial
mas emanado de uma fonte autorizada, na qual os japoneses faziam as citadas ofertas
de paz. MacArthur pediu instantemente que as negociações se ajustassem às
propostas formuladas. Agora examinemos a situação exacta nesse momento crucial.
Roosevelt não levou com ele esse memorando. Ele jaz nos arquivos do Alto
Comando e o seu teor está na base da
redacção do ultimato enviado pelos Estados Unidos aos japoneses, exigindo a
capitulação. POR CONSEGUINTE DEPOIS DO HOLOCAUSTO DE HIROSHIMA, OKINAWA E
NAGASAKI. Assim a bomba atómica nunca deveria ter sido lançada sobre Hiroshima.
Os japoneses sabiam perfeitamente, no fim de 1944, que a guerra estava, para
eles, virtualmente perdida. Do mesmo modo, os americanos, ou melhor os “Iniciados”,
grão-mestres e cúmplices de Roosevelt, sabiam-no. Logo que recebeu o documento
o Presidente americano, pondo-o de lado, comentou desdenhosamente: “MacArthur é
o nosso melhor general mas é um pobre político...”».
Deirdre Manifold («Fátima e a Grande Conspiração»).
«“Ordena-se
ao comandante supremo [MacArthur] que ajude secretamente a popularizar e a
humanizar o imperador. O povo japonês não deve ter conhecimento deste plano”,
pode ler-se numa directiva de Julho de 1946 do Departamento de Estado, Guerra e
Marinha dos EUA. Além da imunidade na acusação por crimes de guerra, MacArthur
ajudou a moldar a imagem histórica de Hirohito que chegou aos nossos dias.
Praticamente da noite para o dia, as fardas e o cavalo branco do imperador
deixaram de ser vistos, e os seus súbditos descobriram a existência de um
governante civil estranhamente afável, para quem podiam olhar e até falar
impunemente.
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Imperador Hirohito montando Shirayuki (8 de Janeiro de 1938).
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Foram
divulgadas fotografias de Hirohito com a mulher e o filho primogénito sentados
à volta de uma mesa de jantar, a saborear uma refeição simples, a ler os jornais ou a regar as flores do jardim. A
propaganda americana brutal e por vezes racista contra Hirohito, que tinha sido
comum durante a Segunda Guerra Mundial, foi substituída por uma que exaltava o
imperador como um homem decente, amante da paz e de espírito democrático, preso
contra a sua vontade numa lamentável aventura militarista que sempre deplorou.
Tornou-se
assim um monarca constitucional com poderes meramente cerimoniais, à semelhança
do modelo britânico. No dia de Ano Novo de 1946, num discurso radiofónico, Hirohito
renunciou formalmente à sua divindade e o xintoísmo deixou de ser a religião do
Estado.»
(Hirohito. O Imperador guerreiro,
Protagonistas da Segunda Guerra Mundial, 2024).
«Com
o final da guerra, as artes marciais sofreram um declínio por algum tempo,
fazendo com que a existência do Aikido no futuro fosse duvidosa. No entanto,
Morihei tinha muita fé no novo Aikido, o que nos fez trabalhar todos juntos
para colocá-lo de volta em seu devido lugar no Japão dos pós-guerra. Quando parecia
que a confusão prevalecia em consequência dos desastres deixados pela guerra,
foi decidido mudar novamente o quartel-general do Aikido para Tóquio. No dia 9
de Fevereiro de 1948, o Ministério da Educação deu permissão para o restabelecimento
do Aikikai, com reservas. Durante esse tempo, o dojo principal em Tóquio era chamado o Dojo Ueshiba e
Quartel-General Mundial do Aikido.»
(Introdução
de Kisshomaru Ueshiba, in Morihei Ueshiba, «Budo: Ensinamentos do Fundador do
Aikido»).
A Ocupação do Japão
As
tropas aliadas começaram a chegar ao Japão no final de Agosto de 1945 e a
Ocupação começou, oficialmente, depois da rendição de 2 de Setembro. Os
Japoneses tinham receado represálias brutais dos Aliados, mas ficaram bastante
tranquilos com o discurso de aceitação da rendição do homem que iria chefiar a
ocupação, o general dos Estados Unidos Douglas MacArthur. MacArthur salientou a
importância de pôr de parte o ódio e visar um futuro de paz. Também expressou a
sua confiança no povo japonês para reconstruir o país e recuperar a sua
dignidade.
Os
seus homens não o desiludiram. Houve, inevitavelmente, alguns casos de
tratamento brutal, mas, em geral, as tropas de ocupação revelaram benevolência
em relação ao seu anterior adversário. Os Japoneses, por seu lado, foram
extremamente cooperantes. Em consequência, o número das forças ocupantes pôde,
em breve, ser reduzido de 500 000 para apenas 150 000 elementos.
Evidentemente,
para além das preocupações imediatas e graves com a alimentação e a habitação, o
povo japonês estava num estado de grande confusão e ansiedade. A sua fé na
superioridade divina e na invencibilidade do Japão, com que tinha sido
doutrinado, estava agora consideravelmente abalada. Também o estava a sua fé
nos seus líderes políticos e, sobretudo, nos líderes militares. Muitos Japoneses
sentiram cólera e desilusão face a esses líderes e também que tinham sido traídos por eles. Alguns tinham mesmo sentimentos negativos para com Hirohito, embora não tanto
em relação à própria instituição imperial.
MacArthur
tranquilizou os Japoneses, não apenas com o seu discurso, mas, sobretudo, com o
seu modo de agir. Estando então com 65 anos, era general desde os 38 (nessa
altura, foi o general mais novo de sempre da história dos Estados Unidos). Era
um homem nascido para comandar, um homem digno e autoconfiante, firme, mas
também benevolente e possuía uma convicção quase messiânica no seu destino
divino para moldar a História. Em alguns aspectos, fazia recordar os oligarcas
Meiji, com a sua mistura de democracia e autoritarismo e, decerto, com a sua
convicção de que era ele quem mais sabia o que era melhor para o povo que
governava. Para uma nação acostumada a ser dirigida, foi um novo líder
bem-vindo. Foi aclamado pelos Japoneses como um novo xógum, como o imperador
americano do Japão e mesmo como um Deus. Os seus próprios homens costumavam
dizer por graça que quem acordasse de manhã bem cedo podia vê-lo caminhar sobre
as águas do fosso do Castelo Imperial, a pouca distância do seu quartel-general.
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| O General Douglas MacArthur assina a acta de rendição do Japão, a bordo do USS Missouri. |
Em
teoria, a Ocupação era uma acção aliada e não um assunto apenas americano e
muito menos uma actuação a solo. O título oficial de MacArthur era Comandante
Supremo das Potências Aliadas (CSFA). Destas potências, a China e a União
Soviética não enviaram tropas para o Japão, mas as tropas da Comunidade
Britânica tiveram um papel efectivo, se bem que limitado, na Ocupação, ficando
confinadas sobretudo a uma zona na parte ocidental de Honshu. As
quatro potências aliadas mais importantes – os Estados Unidos, a Grã-Bretanha,
a União Soviética e a China – formaram um Conselho Aliado, no final de Dezembro
de 1945, em Tóquio, onde tinham reuniões quinzenais. Havia também uma Comissão
do Extremo Oriente com todos os 11 países vitoriosos, que se reunia em Washington
desde 1946 para decidir a política geral da Ocupação que devia ser então
retransmitida pelo Conselho Aliado.
Todavia,
na prática a Ocupação foi um assunto quase só americano e MacArthur era
manifestamente o mestre de cerimónias. Pôs de parte o Conselho Aliado como sendo um "aborrecimento" e a Comissão do Extremo Oriente por ser “pouco mais do que uma tertúlia”. Queria prosseguir o seu trabalho e, de
qualquer modo, os planos que ele e Washington tinham em mente já tinham
começado na sua maior parte a ser aplicados.
Quer
Washington, quer MacArthur tinham planos, não só para o desmantelamento do modo
de funcionamento do Japão militarista e totalitário, mas grandes perspectivas
sobre a construção de uma nova nação de natureza utópica. Washington iniciara o
seu planeamento já em meados de 1942, com um notável contributo dos New Dealers. Os
planos de MacArthur parece que foram feitos mais tarde, mas, felizmente, eram
bastante semelhantes aos do seu governo.
As
políticas de Washington eram muitas vezes elaboradas por figuras “sem rosto” do
Departamento de Estado, como Hugh Borton e George Blakeslee. Borton, em
particular, um homem voluntariamente apagado, reputado pelo seu conhecimento
sobre o Japão, mas pouco conhecido pelo seu papel na reconstrução do país,
parece ter intervido na maior parte das políticas da Ocupação. Estas políticas
foram transmitidas, na sua maior parte, através de uma directiva entregue a
MacArthur em Outubro de 1945. Era a Basic
Initial Post Surrender Directive to Supreme Commander for the Allied Powers for
the Occupation and Control of Japan [Directiva Preliminar Básica
Pós-Rendição para o Comandante Supremo das Forças Aliadas de Ocupação e
Controlo do Japão], mais propriamente conhecida como JCS1380/15 (JCS
significando Junta dos Chefes de Estado-Maior [na sua sigla inglesa]).

A
directiva planeava para o Japão uma democracia idealizada de inspiração
norte-americana. O imperador, se se mantivesse, deveria ter um papel puramente
simbólico como chefe da nação. Os direitos civis e as liberdades pessoais
deveriam ser garantidos, se necessário fosse, através de uma nova constituição.
Todos os adultos, incluindo as mulheres, teriam direito de voto. As forças
armadas e a polícia ao velho estilo deveriam ser abolidas e as zaibatsu desmanteladas. Todos os que
pertencessem às forças armadas, ao governo e às empresas que tinham contribuído
para o esforço de guerra deveriam ser afastados de qualquer cargo de
responsabilidade. Seriam encorajados os sindicatos e protegidos os direitos dos
sindicalistas.
As
ideias de MacArthur eram muito semelhantes, embora expressas num estilo mais
grandiloquente. Nas suas memórias, fez um paralelo entre as suas ideias e as de
Alexandre, o Grande, César e
Napoleão, tendo escrito:
“Tinha
de ser economista, cientista político, engenheiro, gestor industrial, professor
e até uma espécie de teólogo. Tinha de reconstruir um país que havia sido quase
completamente destruído pela guerra. [...] O Japão tinha-se tornado no maior
laboratório do mundo para realizar a experiência de libertar um povo de um
poder militar totalitário e para liberalizar o governo a partir de dentro. Era
evidente que a experiência tinha de ir muito mais longe do que o objectivo
principal dos Aliados: destruir a capacidade do Japão para desencadear outra
guerra e punir os criminosos de guerra [...].
Senti
que as reformas em que eu pensava seriam as que iriam fazer com que o Japão se
integrasse no pensamento e na acção modernos que favorecem o progresso. Em
primeiro lugar, destruir o poder militar. Punir os criminosos de guerra. Formar
a estrutura do governo representativo. Modernizar a Constituição. Realizar
eleições livres. Emancipar as mulheres. Libertar os prisioneiros de guerra.
Emancipar os camponeses. Criar um movimento sindical livre. Encorajar a
economia livre. Abolir a opressão policial. Desenvolver o poder livre e
responsável. Liberalizar a educação. Descentralizar o poder político. Separar a
religião e o Estado. [...]”.
Para
restabelecer a dignidade e o moral
japoneses, encorajou-os a não abandonarem tudo o que era japonês, mas “a
procurar uma saudável mistura entre o melhor deles e o melhor que nós tínhamos”.
O
facto de, na maioria dos casos, MacArthur estar fundamentalmente a cumprir
ordens não equivale a negar o seu papel extraordinariamente decisivo. A própria
JCS1380/15, embora lhe transmitisse ordens gerais, de algum modo,
paradoxalmente, também confirmava o seu poder pessoal. Dizia-lhe claramente
que, “para além dos poderes convencionais de um ocupante militar de território
inimigo, V. tem o poder de tomar todas as medidas por si julgadas convenientes
e apropriadas para levar a efeito [...] as disposições da Declaração de
Potsdam”. Por vezes, iria utilizar esse poder pessoal.

A
desmilitarização foi o primeiro passo do ambicioso programa “conjunto”
MacArthur-Washington de construir um novo Japão. Com esta finalidade, o
Exército e a Marinha foram desmobilizados em poucos meses. O Japão foi
despojado dos territórios que tinha ganho por meios militares, regressando, de
facto, à situação de antes da Guerra Sino-Japonesa de 1894-1895. Foram dados
passos para iniciar a repatriação dos três milhões de efectivos militares e de
um número semelhante de civis dispersos por toda a Ásia. Foram dadas ordens
para o Japão pagar indemnizações às nações que vitimara. Alguns navios
japoneses foram dados aos Aliados, mas outro equipamento de guerra e armas
foram destruídos, incluindo, como tarefa prioritária e contra os desejos do
próprio MacArthur, os seus aceleradores de partículas. Entre 1946 e 1948,
aproximadamente 700 000 indivíduos foram escrutinados e cerca de 200 000,
que se considerou terem sido, nos termos da JCS1830/15, “expoentes activos do
nacionalismo militante e da agressão”, foram “saneados” dos seus cargos. Também
estes saneamentos, pelo menos na dimensão que atingiram, parecem ter sido
feitos contra o próprio juízo pessoal de MacArthur.
Talvez a mais significativa de todas as medidas de desmilitarização tenha sido a
inclusão na nova Constituição, esboçada no início de 1946 pelo pessoal do CSFA,
da famosa cláusula de “não guerra” relativamente ao Japão. Esta foi incluída
pessoalmente por MacArthur, mas não necessariamente concebida por ele, porque a
sua origem exacta ainda é desconhecida. Na
íntegra, o artigo (o artigo IX) diz o seguinte:
“Aspirando
sinceramente a uma paz internacional baseada na justiça e na ordem, o povo
japonês renuncia para sempre à guerra como direito soberano da nação e à ameaça
e ao uso da força como meio de resolver questões internacionais.
Para
cumprir o objectivo do parágrafo precedente, nunca mais serão mantidas forças
terrestres, navais ou aéreas nem quaisquer outros meios de fazer a guerra. Não
será reconhecido o direito de beligerância por parte do Estado”.
A
punição dos criminosos de guerra fazia também parte do processo geral de
desmilitarização. No Julgamento de Crimes de Guerra de Tóquio, que decorreu
entre Maio de 1946 e Novembro de 1948, no recém-criado Tribunal Militar do
Extremo Oriente (que incluía todas as 11 nações vencedoras), foram julgados 25
homens por crimes importantes (de classe A), como os de terem planeado e levado
a efeito a guerra. Foram todos considerados culpados, em graus diversos, por
uma justiça que foi por vezes designada como “justiça do vencedor”. Sete deles,
incluindo o general Tojo e o ex-primeiro-ministro Hirota (o único civil), foram
condenados à morte e subsequentemente enforcados. Foram realizados julgamentos
noutros locais, como Singapura, Filipinas e Hong Kong. Nestes tribunais locais,
mais de 5000 Japoneses foram considerados culpados de vários crimes mais
específicos (de classes B e C), como o de grande crueldade para com
prisioneiros de guerra, tendo sido executados cerca de 900.

Desde
o início, havia a opinião generalizada, tanto no Japão como no exterior do
país, de que os indivíduos a julgar eram, em larga medida, bodes expiatórios.
Muitos dos que poderiam ser considerados mais culpados nunca foram levados a
julgamento. Entre os que escaparam ao julgamento conta-se o pessoal da Unidade
731, que tinha realizado inúmeras experiências de guerra biológica e química em
civis e prisioneiros de guerra. Toda a questão da 731 foi silenciada pelos
Americanos, que ofereceram imunidade em troca de dados científicos das
experiências, que eram proibidas quer pela sua própria ética, quer pela lei. O
mesmo se passou, segundo foi afirmado, com o caso da Operação Lírio Dourado, o
nome de código da apropriação da imensa pilhagem realizada pelas forças
japonesas da Ásia, aparentemente com a cumplicidade de membros da Casa Imperial
e, alegadamente, das autoridades americanas.

A
omissão mais controversa de efectuar um julgamento aconteceu no caso de
Hirohito. Esta omissão surpreendeu até a maioria dos Japoneses, por muito que
se tenham sentido aliviados. Na América, na Austrália e em outros países
aliados havia decerto muitos que pensavam convictamente que Hirohito devia ser
levado a tribunal, na esperança de que fosse considerado culpado e enforcado. A
posição do governo americano acerca do imperador era fundamentalmente a de
proceder com cautela. Não havia realmente desejo de dissolver a própria
instituição imperial, porque tinha uma função útil em manter a nação unida, em
manter o moral do país e em legitimar a política de ocupação. Os especialistas
do Japão no Departamento de Estado não desconheciam a importância,
profundamente enraizada, que tinha para o povo japonês o exercício do poder ser
legitimado por uma alta autoridade, para que este poder se tornasse assim
aceitável. Sem esta legitimação, podia instalar-se a anarquia e o país
tornar-se permeável ao comunismo. Para além disso, com o imperador no seu
papel, seria mais fácil manter os orgãos da Administração Central a funcionar.
Este assunto era importante, porque, em contraste com o caso da ocupação do
velho e familiar inimigo, a Alemanha, que era muito menos construtivo e muito
mais destrutivo, havia poucas pessoas nas forças de ocupação do Japão que
tivessem os conhecimentos e a confiança necessários para instalar uma máquina
administrativa de substituição adequada a este estranho povo. Os especialistas
do Japão como Borton eram muito raros.
Todavia,
no que respeita à pessoa de Hirohito, havia menos simpatia nos círculos
governamentais. Muitos gostariam de o ver afastado, fosse sendo julgado e
executado, ou abdicado e sendo substituído por um novo imperador. Este tipo de
solução poderia até tornar as coisas mais fáceis para um novo começo. Aliás,
uma nova era iniciava-se, tradicionalmente, com um novo imperador. Para além
disso, muitos Japoneses pensavam que Hirohito deveria, pelo menos, abdicar.
Porém Hirohito manteve-se. Para além do conhecidíssimo argumento de que
desconhecia as atrocidades cometidas e/ou que não tinha realmente participado
na guerra e que fora enganado pelos seus generais, afirmou como justificação
ora que os imperadores (sobretudo os divinos) não podem abandonar simplesmente
essa função, ora que tinha o dever de continuar para ajudar a reconstruir o
Japão.
O
grande salvador de Hirohito foi MacArthur. Encontraram-se em privado no fim de
Setembro e MacArthur ficou muito impressionado com ele. Parece ter havido uma
forte afinidade pessoal entre ambos. Em especial, partilhavam o ódio ao
comunismo. MacArthur pensou que manter pessoalmente Hirohito, e não apenas a
instituição imperial, constituiria a salvaguarda mais eficaz contra a anarquia
e o comunismo. Nas suas memórias, haveria de dizer que sentia que Hirohito não
era pessoalmente responsável por qualquer crime. Era uma interpretação generosa
dos acontecimentos, e talvez mesmo deliberada.
Porém, num memorando convincente à Junta dos Chefes do Estado-Maior, em Janeiro
de 1946, MacArthur fez a defesa vigorosa da manutenção do inocente Hirohito, alertando para as terríveis consequências que os planos da Ocupação sofreriam
se tal não fosse aceite. Foi. Hirohito manteve-se. Não apenas evitou o
julgamento e uma possível execução, mas, graças a MacArthur, conseguiu até
evitar ter de abdicar.

Pode
ter sido este o objectivo de MacArthur, mas haveria de deixar em muitos uma
permanente desconfiança em relação a um certo tipo de continuidade com o Japão
anterior à guerra. Esta desconfiança haveria de perdurar até aos dias de hoje,
sobretudo nos países asiáticos que sofreram sob o domínio japonês, mas também
nos Japoneses desejosos de progresso.
Hirohito
manteve-se, mas não pôde evitar uma mudança no seu papel e na sua imagem. Teve
se de tornar um símbolo para o povo e ganhar a sua aceitação e o seu respeito
sob a forma de afecto, e não como temor ignorante perante uma divindade
encarnada. Alinhando com a política de Washington e a própria concepção de
MacArthur sobre os perigos de um deus-imperador, Hirohito teve de tornar-se um
mero mortal.
Esta transformação haveria de reduzir grandemente o perigo de um ressurgimento da doutrinação do sistema do imperador, que se pode ver no Rescrito Imperial sobre a Educação e nos Kobutai no Hongi. Neste sentido, esta mudança era mais uma medida
contra a possibilidade de qualquer ressurgimento do militarismo. Como medida
relacionada, o Estado xintoísta seria desmantelado. O xintoísmo foi declarado
uma religião e a religião seria legalmente separada do Estado. Reverenciar o
seu deus-imperador deixaria de ser um dever nacional para os Japoneses.
A
Directiva sobre o Xintoísmo, que
desmantelava o Estado xintoísta, foi publicada pelo pessoal do CSFA em Dezembro
de 1945. No mesmo mês, o pessoal do CSFA elaborou também o rescrito conhecido
habitualmente como Declaração de
Humanidade (Ningen Sengen), que
Hirohito leu na rádio no dia 1 de Janeiro de 1946. A versão oficial é que foi
escrita pelo próprio Hirohito, mas isso é evidentemente duvidoso. De facto,
quando viu o texto, Hirohito ficou muito contrariado por ter de renunciar à sua
ascendência divina e, de maneira subtil mas significativa, conseguiu
transformá-la, em vez disso, em renúncia ao seu estatuto de deus vivo.
Percebendo que a democracia estava a ser imposta ao país, também conseguiu que
o rescrito começasse com a reafirmação da Carta
de Juramento de 1868, acentuando assim a continuidade entre a monarquia e a
democracia desde a Restauração. Em todo o caso, a versão final da Declaração difundida pela rádio em Janeiro
incluía algumas frases-chave como esta: “a falsa concepção de que o imperador é
divino e que o povo japonês é superior às outras raças e destinado a governar o
mundo”. MacArthur e Washington ficaram muito agradados.
A
humanização de Hirohito e o seu papel como símbolo do povo seriam também
formalmente consolidados pela Constituição, uns meses mais tarde. Esta
transformava a sua função de monarca absoluto em “símbolo do Estado e da
unidade do povo, ficando a dever a sua posição à vontade deste, no qual reside
o poder soberano”.
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| 1946 |
A
partir de então, Hirohito, agora um imperador do povo, teve de se deslocar em
viagens para se encontrar com as pessoas, apesar do seu manifesto incómodo. A
sua imagem de tio “velho e inofensivo”, usando fatos que lhe assentavam mal, foi imaginada pelo pessoal do CSFA para ajudar à sua aceitação, tanto no país como
no estrangeiro. Em breve apareceram livros e artigos populares que punham em
destaque a sua vida privada, as suas qualidades humanas e os seus sucessos
académicos como naturalista. Mostravam-no como um intelectual civilizado e amante da paz, cujos pensamentos estavam sempre com o povo, um imperador humano
que tinha sido falsamente retratado pelos militares e outros grupos
malevolentes. Salientava-se a sua coragem em se ter pronunciado para se
terminar com a guerra. O facto de não ter abdicado era transformado num ponto
de honra, porque ele mesmo tinha reconhecido as consequências “insuportáveis”
da Declaração de Potsdam, que tinha decidido pessoalmente aceitar. Por outras
palavras, foi ainda mais manipulado por especialistas de relações públicas do
que o seu avô Meiji tinha sido.
(In História do Japão, Edições 70, 2005, pp. 197-205).
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| Última imagem de Yamamoto em vida. Ver aqui |