Escrito por António Quadros
«É
verdade muita certa
Este sonho que sonhei.»
Bandarra
«Sonhava,
anónimo e disperso
O
Império por Deus mesmo visto,
Confuso
como o Universo
E plebeu como Jesus Cristo.
Não
foi nem santo nem herói,
Mas
Deus sagrou com Seu sinal
Este,
cujo coração foi
Não português mas Portugal.
«O Bandarra»
«Em linhas gerais, tudo se passa como se os nossos sonhos fossem os anúncios das nossas futuras realidades e representassem assim uma espécie de memória antecipada das coisas do porvir; como se o homem estivesse em potência de tudo quanto pode imaginar; como se a verdade devesse tornar-se um dia no que sonhamos que ela é. O homem é definido pelos seus sonhos, os quais, muito mais que a acção, modelam o real.»
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«É
significativo que, antes de partir para Alcácer Quibir, D. Sebastião se tenha
armado a si próprio Cavaleiro de Cristo, insistindo em levar para África alguns
freires remanescentes da semi-destruída Ordem.
O
que o povo espera do seu Desejado, o que continua a esperar do Encoberto, é que
venha chefiar o movimento de restauração de uma cruzada, de uma missão
histórica, de uma presença heróica e gloriosa no mundo, de um sentido de acção
universal e de futuro sem limites.
Mais
ainda, contudo: na figura cada vez mais luminosa e, no entanto, de contornos
cada vez mais indefinidos, do Encoberto, o povo português projecta toda a sua
ansiedade psicológica e social, toda a sua dimensão de sonho, toda a sua
aspiração religiosa e mítica a uma plenitude de ser, a algo que transcenda o
querer e o ter, um desejo profundo e inominável de mais ser, irredutível, ainda
hoje, à aproximação positiva ou materialista dos que apenas podem ver no
fenómeno humano em geral e no fenómeno português em especial um catálogo de
apetites, de emoções egoístas e de sentimentos mesquinhos. É o que Agostinho da Silva precisamente diz, ao anunciar que Portugal “dará ao mundo”... “o seu
reino de alma humana continuamente sendo e continuamente ansiosa de mais ser...”
[Um Fernando Pessoa].
E
é o que José Marinho exactamente significa, ao escrever que “no sebastianismo
subsiste alguma coisa de mais profundo”, “um sebastianismo fundamental”, “um
sonho permanente de redenção”, “uma das formas de revelação do ser do homem, do
homem nunca vencido, nunca desmentido em sua grandeza, em seus diversos fins,
mesmo na extrema decadência aparente”.
Mas
observemos que o sebastianismo só nalgumas facetas pode ser conotado com o
messianismo, no sentido judaico. O sebastianismo não foi nunca ou não é de modo
algum a expectativa da vinda do Messias, do Salvador, como na tradição judaica,
visto que é um mito surgido e desenvolvido no contexto de uma religião e de uma
sociedade cristãs para as quais Jesus Cristo foi o verdadeiro Messias.
Mais: o sebastianismo não é compreensível sem a tutelar imagem de um Jesus martirizado, morto e ressuscitado, pois a “história sagrada” do Encoberto o apresenta como mártir da causa nacional e ao mesmo tempo como o salvador que regressará da morte numa manhã de nevoeiro – e aqui surgem também as conotações céltico-bretãs e arturianas que nada têm a ver com a tradição judaica. Razão tinha, do seu ponto de vista, Menassé Ben-Israel.
Uma
outra nota nos parece fundamental: a relação do saudosismo com o sebastianismo.
Há neste mito, efectivamente, toda a força psicológica do sentimento saudoso
galaico-português. Tal a visão correcta de Teixeira de Pascoaes, que interpreta
a saudade como a síntese da lembrança e do desejo, do sentimento de perda e da
esperança duma regeneração, da tradição e do futurismo. O que foi muito
Desejado, continua a sê-lo pela saudade, até que se desencubra do seu exílio.
No
entanto, do messianismo puro, o sebastianismo guardou um sentido de
historicidade, de futurabilidade e de redenção pela vinda de um restaurador que
lançará uma ponte sobre a grande brecha do ser dividido dos humanos.
O
padre António Vieira exprimiu melhor do que nenhum outro, na sua História do Futuro, todo este lado
regenerativo e ôntico do psiquismo português, consubstanciado na sua visão do
Quinto Império: “Hão-de ler nesta História, para exaltação da Fé, para triunfo
da Igreja, para glória de Cristo, para felicidade e paz universal do Mundo,
altos conselhos, animosas resoluções, religiosas empresas, heróicas façanhas,
maravilhosas vitórias, portentosas conquistas, estranhas e espantosas mudanças
de estados, de tempos, de gentes, de costumes, de governos, de leis; mas de
leis novas, governos novos, costumes novos, gentes novas, tempos novos, estados
novos, conselhos e resoluções novas, empresas e façanhas novas, conquistas,
vitórias, paz, triunfos e felicidades novas; e não só novas porque serão
futuras, mas porque não terão semelhança com elas nenhumas das passadas. Ouvirá
o Mundo o que nunca viu, lerá o que nunca ouviu, admirará o que nunca leu e
pasmará, assombrado, do que nunca imaginou”.
Eis
quanto António Vieira oferece a Portugal, cabeça do “Quinto Império do Mundo”,
chefiado pelo imperador ainda encoberto, mas que será um infante português...
Escreve
Vieira, efectivamente: “Mas perguntar-me-á porventura alguma emulação
estrangeira (que às naturais não respondo): se o império esperado, como se diz
no mesmo título, é do Mundo, as esperanças porque não serão também do Mundo,
senão só de Portugal? A razão (perdoe o mesmo Mundo) é esta: porque a melhor
parte dos venturosos futuros que se esperam, e a mais gloriosa deles, será não
só própria da Nação portuguesa senão única e singularmente sua. Portugal será o
assunto, Portugal o centro, Portugal o teatro, Portugal o princípio e o fim
destas maravilhas; e os instrumentos prodigiosos deles, os Portugueses”.
E
mais adiante, exortando à leitura do seu livro de revelações e de futurologia: “Portentosas
foram antigamente aquelas façanhas, ó Portugueses, com que descobristes novos
mares e novas terras, e destes a conhecer o Mundo ao mesmo Mundo. Assim como
líeis então aquelas vossas histórias, lede agora esta minha, que também é toda
vossa. Vós descobristes ao Mundo o que ele era, e eu vos descubro a vós o que
haveis de ser. Em nada é segundo e menor este meu descobrimento, senão maior em
tudo. Maior cabo, maior esperança, maior império...”.
E algumas linhas depois exprime Vieira, em síntese lapidar, o seu telos mítico e ideal: “Tal é a História, Portugueses, que vos presento, e por isso na língua vossa. Se se há de restituir o Mundo à sua primitiva inteireza e natural formosura, não se poderá consertar um corpo tão grande, sem dor nem sentimento dos seus membros, que estão fora do seu lugar. Alguns gemidos se hão-de ouvir entre vossos aplausos, mas também estes fazem harmonia”.»
António Quadros («Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista»).
«(...)
mas aos homens que sentem sobre os ombros o peso da direcção dos povos
ensinou-lhes a história, quando não a observação própria, coincidir a
decadência com certas manifestações mórbidas das inteligências e das vontades,
com a pretensa emancipação do jugo de regras superiores, impostas ao homem e
derivadas da sua natureza e dos seus fins. Para elevar, robustecer, engrandecer
as nações é preciso alimentar na alma colectiva as grandes certezas e contrapor
às tendências de dissolução propósitos fortes, nobres exemplos, costumes
morigerados.
É impossível nesta concepção da vida e da sociedade a indiferença pela formação mental e moral do escritor ou do artista e pelo carácter da sua obra; é impossível valer socialmente tanto o que edifica como o que destrói, o que educa como o que desmoraliza, os criadores de energias cívicas e morais e os sonhadores nostálgicos do abatimento e da decadência.»
Oliveira Salazar («Para servir de prefácio», in Discursos, 1928-1934).
«Não
há outros pensadores que, como estes dois [Leonardo Coimbra e Martinho Heidegger], tão intensamente vissem e sofressem a desolação do mundo, tão
completamente a descrevessem e, dando-lhe as razões, com tão igual profundidade
ou firmeza escutassem as vozes do pensamento e dissessem o que elas dizem ora convergindo,
quase sempre divergindo, cruzando-se e alongando-se, a partir, um do centro da
Europa em horas de catástrofe, outro da finisterra atlântica em horas de
apatia. Ignorando-se um ao outro, travaram e continuam a travar entre si,
falando a mesma linguagem do pensamento, um diálogo onde se ouve, na voz de um
deles, toda a esperança, na do outro todo o desespero deste tempo e deste mundo em que vivemos.
(...)
Menciono a teoria da memória a Heidegger porque explica ele a desolação do mundo pelo esquecimento do ser no percurso da metafísica. O regresso ao
princípio, à origem, o recurso do percurso, apagando o esquecimento, só a memória
o faz. Pensar é memorar.
Leonardo
dá à memória mais amplo desenvolvimento.
Assim como Heidegger escolhe Hölderlin entre os poetas, os que guardam a palavra “morada do ser”, Leonardo escolhe Pascoaes, o poeta da saudade, uma espécie de sublimação da memória com o poder de tornar presente o que lembra. Enquanto Hölderlin lembra a antiga Grécia, com seus deuses e heróis, Pascoaes lembra o Paraíso, habitado de imagens, cujas sombras a saudade faz regressar das cavernas infernais. Heidegger põe na Grécia de Hölderlin, que é a Germânia espiritual ou a Pátria, o esquecido ser, Leonardo tem já, com pequenas alterações na linguagem de Pascoaes – as ideias em vez da imagem, as sombras, a caverna –, a linguagem do platonismo e, na proximidade da saudade com a reminiscência, o que irá dizer da memória: “o princípio de conservação da memória é a condição absoluta do ser (...)».
Orlando Vitorino («A Desolação do Mundo – Leonardo Coimbra e Martinho Heidegger»).
«Lembremo-nos de que as discussões sobre o valor da memória, da anamnésia e da reminiscência constituíam o centro do inatismo platónico. Saber é recordar-se, diziam os platónicos, reconduzindo assim todo o conhecimento ao passado. Aristóteles observa, porém, que a fluência da sensitividade animal não assegura a memória, e que só a audição da palavra articulada nos oferece o ponto de referência para a vida intelectual. Tal doutrina está nos livros de Metafísica e surge na crítica às teses de Heraclito. A predilecção aristotélica pelos esquemas pitagóricos, com seus tópicos e suas figuras, nos mostra e demonstra quanto o novo ensino trivial ou exotérico era estruturalmente de tipo mnemónico. De aí o apelo de Aristóteles à firmeza dos princípios, tanto dos princípios próprios de cada ciência, como dos princípios gerais do discurso. Assim tendia Aristóteles a valorizar a doutrina do velho mestre Parménides.»
Álvaro Ribeiro («Liceu Aristotélico»).
«Entretanto,
e para além da magistral lição filosófico-científico-teológica de Leonardo
Coimbra, também os poetas se não escusarão a propor teoria da história. Guerra Junqueiro, sobretudo em “A Pátria”, é o precursor do grupo dos que, na
exaltação criadora dos começos da República, tentam por várias vias ligar à
doutrinação pedagógico-cultural da Renascença Portuguesa, uma nova épica.
Teixeira de Pascoaes forjará a teoria saudosista, que pode sob certo ponto de
vista ser considerada uma interpretação psicológica do dinamismo reintegrativo
de Bruno: a saudade portuguesa, a saudade humana, que é efectivamente, senão a
aspiração sentimental do regresso ao Homogéneo inicial, ao Paraíso perdido? Mas
Pascoaes, muito atraído pelo mito da Atlântida e pela doutrinação de Steiner e
Eduardo Schuré, que em “Os Grandes Iniciados” visionava uma História movida
pelos homens superiores, revaloriza o mito sebastianista, sempre em sentido
psicológico, considerando-o "a espiritualização da Aventura, a sua incidência
religiosa no Infinito, o móbil humano divinizado e individualizado
superiormente".
Fernando Pessoa voltará francamente a uma mitogenia adunante à do Pe. António Vieira,
muito embora de tipo heterodoxo ou esotérico e não-cristão. Também ele entende
que a história revela a marcha para “uma humanidade superior”. As suas teses
são todavia mais aristocrático-iniciáticas do que antropológicas, como
prenunciavam o pensamento de Bruno. A sua interpretação profética dos grandes
homens da história portuguesa como sinais e símbolos da peregrinação do homem
para uma meta supra-humana que ele próprio vai realizando em etapas sucessivas
(da Índia geográfica para a Índia que não vem nos mapas), religa-se a um
alquimismo faústico da conversão de matéria que é uma das constantes da sua
obra.
Mas Pascoaes e Pessoa foram mais poetas do que teóricos da história. As suas intuições influenciaram no entanto profundamente os pensadores que, mais recentemente, procuraram representar o escopo anunciado, mas ainda não realizado por Sampaio Bruno: a colocação da antropologia, mas de uma antropologia escatológica, no próprio centro da teoria da história. São eles, numa linha onto-teológica, José Marinho. Numa linha sócio-religiosa, Agostinho da Silva. E numa linha pedagógico-psicológica, Álvaro Ribeiro.»
António Quadros («A Teoria da História em Portugal, II, A Dinâmica da História»).
«O
génio lusíada é mais emotivo que intelectual. Afirma e não discute. Quando uma
ideia se comove, despreza a dialéctica; e é sendo
e não racionando que ela prova a
sua verdade.
A
emoção afoga a inteligência, ultrapassando-a como força criadora. E assim,
corresponde à nossa superioridade poética, uma grande inferioridade filosófica.
O português não é nada filósofo; a luz do seu olhar alumia mais do que vê; não
abrange, num golpe de vista, os conhecimentos humanos, subordinando-os a uma
lógica perfeita e nova que os interprete num todo harmonioso.
O
português não quer interpretar o mundo nem a vida, contenta-se em vivê-la exteriormente;
e tem, por isso, um verdadeiro horror à Filosofia, imaginando encontrá-la em
tudo o que não entende.
Daí
a sua incapacidade construtiva de novas verdades que representam o móbil
superior do Progresso.
Mas
haverá um pensamento português? Ou antes, a alma pátria, que nós conhecemos na
sua ingénua expressão sentimental e poética, tornou-se já consciente,
formulando a sua ideia da Vida e do Universo? Podemos responder que tal ideia
começa a desenhar-se em Oliveira Martins e Antero de Quental, extraída do nosso
originário misticismo naturalista (lirismo camoniano e popular).
Antero
vislumbrou o casamento do Helenismo com o Cristianismo nos seus trabalhos
filosóficos; e Oliveira Martins, de acordo com o sublime poeta dos Sonetos, nos seus trabalhos sobre Antropologia e as Raças Humanas, genialmente lança a teoria da evolução
criadora, atribuindo ao homem uma qualidade moral específica, sui generis, que a evolução lamarckiana
ou a mecanista dos seres não explica.
E
neste critério existe um idealismo naturalista (porque admite, como resultante
das forças vitais, um fenómeno supranatural) que é a fonte de algumas modernas
tentativas filosóficas, entre as quais se destaca o Criacionismo, de Leonardo Coimbra.
Já nitidamente se vê a aurora de um pensamento português, o qual representa a cristalização luminosa da penumbra sentimental e originária do ingénito lirismo religioso e saudoso dos lusíadas.»
Teixeira de Pascoaes («Arte de Ser Português»).
«Justamente
porque os portugueses não fizeram a partição corajosa e séria do que do passado
é morto e do que é vivo ainda, justamente porque o passado nos limita os passos
e junge a mente, por isso cumpre rever, compreender e explicar. Em relação a
Oliveira Martins, de um modo muito especial cumpre fazê-lo: pois foi ele o
primeiro que com maior constância se pôs o problema das relações entre o
Portugal velho e o Portugal contemporâneo.
Como
quase todos os seus livros, Elementos de
Antropologia impõe-se não apenas pelo estilo admirável, como também pelo
conteúdo intuitivo e problemas actuais que mais ou menos directamente suscita.
Para
suscitarmos este breve tentame interpretativo, cabe lembrar uma relação à
primeira vista inesperada. Cabe lembrar que Teixeira de Pascoais, em Arte de Ser Português e Os Poetas Lusíadas, cita o nosso
historiador em termos muito significativos. No primeiro dos livros mencionados
é expressa a referência à obra de que nos ocupamos. Correlacionando a visão de
Oliveira Martins com a de Antero, depois de se perguntar se “haverá um
pensamento português”, escreve:
“...
Oliveira Martins, de acordo com o sublime poeta dos sonetos, nos seus trabalhos
sobre Antropologia e Raças Humanas, genialmente esboça a
teoria da evolução criadora, atribuindo ao homem uma qualidade moral
específica, sui generis, que a evolução lamarckiana dos seres, ou a mecanista,
não explica”. (Arte de Ser Português,
1.ª ed. – pág. 115-116).
Considerando
o trecho com rigor crítico, poderia perguntar-se-nos se é bem certo que na obra
que vamos interpretar através dos passos cruciais, se esboça, como nos diz o
Poeta, a teoria da evolução criadora, ou poderia inquirir-se do sentido de uma
expressão tal como “qualidade moral específica”.
Qualquer
que seja, porém, a exigência da crítica de análise rigorosa, uma observação
cabe notar. Pascoais entendeu o que leu e até ao fundo.
Nos
dois escritores do séc. XIX e XX, a confiança tradicional no criacionismo
teológico adoeceu. Há talvez outro criacionismo, mais fundo, mais autêntico,
esse, porém, não corrente. E corrente decerto não pode ser, pois não consiste
em fórmulas. Não demanda dom aleatório, mas dom certo, e do alto. Exige, com
isso, esforçado labor.
Por
certo não identificamos a visão terráquea e humanística do evolucionismo em
Oliveira Martins com a visão cósmica e aberta de Pascoais. Não as
identificamos: nosso propósito é sugerir as diferenças para os cristãos da hora
e os não-cristãos da hora. Em Oliveira Martins a visão restringe-se, detém-se,
como em estado nascente. Nem seria lícito pedir-lhe outra. Não é dado ao
historiador, enquanto tal, ultrapassar os limites do homem, compreender génese
e processo a mais alta luz e em mais amplo cenário.
Digno
de nota é, porém, que aquele que se chamou já com boas razões “vulgaridade de
génio”, não sendo filósofo, tenha visto o que logrou ver no seio do debate
significativo em torno do grande enigma da evolução. Ao problema do sentido da
vida e da origem do homem, tal como trata aqui, se vêm, aliás, ligar
posteriormente as considerações desenvolvidas na abertura de O Helenismo e a Civilização Cristã. Um
historiador para o qual a história depende de uma visão do mundo, da vida e do
homem, um historiador que, com os elementos e recursos disponíveis de
informação da época, pretende preencher essa deficiência radical da
historiografia portuguesa do seu tempo, e diríamos não só do seu tempo – é, por
extraordinário, digno de atender.
O
interesse que Oliveira Martins teve para Teixeira de Pascoais radica na
indicada conformidade de situação entre o dessorado sentido do criacionismo
tradicional e um evolucionismo de carácter meramente determinista que não
satisfaz a exigência de razão suficiente.
Esta nossa tentativa de interpretação terá, pois, duplo propósito: mostrar como há no autor dos Elementos de Antropologia uma séria atenção àqueles problemas cruciais de que depende a teoria e a concepção da história; sugerir qual a atitude que ante o problema da vida, da evolução e da origem do homem o nosso historiador assumiu. É certo, e cabe não esquecer, que em Oliveira Martins, ao contrário por exemplo de Antero e dos espíritos de feição teórica e de tendência especulativa, há sempre o escritor de intenção prática, o escritor que quer influir, que pretende preparar os caminhos da justiça, tornar mais harmoniosa e mais feliz a existência dramática e abortiva ou difícil do povo de que faz parte. Isso, porém, aparece nele com uma exigência de pensamento e orientação intelectual. Pensar, para Oliveira Martins, não é tudo, nem, por certo, o mais importante. Tudo, porém, depende do pensar e do saber que ao pensamento seja dado.»
José Marinho «(Estudos sobre o Pensamento Português Contemporâneo»).
«O
primeiro nome que Fernando Pessoa pensou dar ao seu livro foi Portugal. Abandonou esse nome, quando
verificou que ele tinha sido atribuído a uma marca de sapatos. O nome que veio
a ficar foi Mensagem. Não sabemos
como chegou o poeta a esse nome, ainda que algo a isso ele se refira. A nosso
ver, o poeta acertou em cheio, tendo em conta o conteúdo do livro e a
intencionalidade que de uma ponta à outra o habita.
Mensagem
quer dizer Evangelho, Boa Nova. O prefixo eu
significa que o que se segue é da ordem do bem. O mensageiro é o anjo, ággelos, ou. O anjo é o portador da
mensagem, da novidade, da boa nova. O anjo é o enviado. Aquele que alguém,
superior ao destinatário, envia. Eis-nos desde logo instalados no domínio do
sagrado. O discurso que nos é dado em Mensagem
é um discurso sagrado. É a Pessoa Suprema que no-lo envia. Chamemos-lhe Deus.
Jesus chamou-lhe O Pai. Uso esta linguagem para propositadamente desde o início
nos situarmos no elemento do judeo-cristianismo português. Conscientes, embora,
de que o elemento do sagrado é de uma amplitude maior. Aprendi-o cedo, com
Rudolf Otto, pela mão do Padre Manuel Antunes.
Ao
deixar-nos Mensagem, Fernando Pessoa
quis, encobertamente, deixar-nos o Evangelho. Que Evangelho? Como a leitura do
primeiro poema desde logo luminosamente deixa evidente, quis deixar-nos o
Evangelho de Portugal e da portugalidade; o Evangelho da Nova Humanidade, pela
mediação de Portugal. Nova, porque a futura. Nesse poema auroral, o Poeta-Vate
não cinde Portugal e a Humanidade, o Passado e o Futuro aparecem ligados
intimamente desde a primeira letra, que curiosamente é o A (“A Europa jaz...”).
Como, sempre curiosamente, será a última (“É a Hora.”). A portugalidade, que
interpreto como a qualidade ontológica de Portugal, como a marca do ser de
Portugal era para Pessoa o futuro, o destino, a redenção da humanidade. O mundo
vieirino do Quinto Império nimba desde o primeiro poema de Mensagem a fronte
inspirada do poeta, paira como transparente nuvem sagrada sobre a sua cabeça de
vidente.
A
identificação da portugalidade com a humanidade – da qualidade ontológica de
português com a de humano – não deve levar a sorrir, com desdém ou ironia, pelo
facto de Portugal ser um país fisicamente pequeno, economicamente pobre e
politicamente pouco relevante. Pequena foi a Hélade e a Grécia pôde ser o
destino do mundo ocidental. Pequeno foi Israel e Israel pôde ser o destino do
mundo cristão.
Mas avancemos para o labirinto sagrado pessoano. O Quinto Império é o que se há-de seguir ao Quarto. Os Quatro Impérios são os seguintes: Grécia, Roma, Cristandade, Europa. O Quinto Império aparecerá prefigurado logo no primeiro poema de Mensagem. Este poema é sobre a Europa. Ou seja, sobre o Quarto Império. Diz o poeta: “A Europa jaz [...].” Está morta? Não, porque olha, vê, fita. Olha, vê, fita – o quê? “O Ocidente, futuro do passado.” “O rosto com que fita é Portugal.” É com esse rosto, é com Portugal, que a Europa fita e vê o futuro. Portugal é, foi, desde logo, o visionário do Quinto Império. O gajeiro que, instalado na gávea da Europa, como se nau dos Descobrimentos esta fosse, é o que primeiro vê e anuncia o continente da Nova Humanidade. É ele o visionário do Quinto Império.»
Manuel Ferreira Patrício («No Labirinto Messiânico de Fernando Pessoa»).
«O mito é o nada que é tudo.»
Fernando Pessoa («Mensagem»).
«O
mitósofo diferencia-se do filomitista em não fazer do mito um absoluto, em
considerá-lo matéria experiencial, modo de revelação do ser do homem e canal de
expressão de valores através do qual uma comunicação transcendente se
estabeleceu ou estabelece. Atendendo ao mito, não se detém, porém, na sua
realidade exclusiva, ultrapassa-o e integra-o numa visão mais vasta. O mito
representa zonas psicológicas e antropológicas de indispensável relevância para
o conhecimento do homem. O mito exprime, de forma narrativa e simbólica, o
enigma de existir e ser, subjacente às próprias interpretações mais
afirmativamente antimíticas. O mito é consubstancial aos comportamentos humanos
– e negá-lo tem apenas como consequência, as mais das vezes, conferir-lhe uma
primazia vital, tanto mais imperiosa quanto é inconsciente. Enfim, o mito
integra-se na esfera numinosa e religiosa, exprimindo, por certo de modo
defeituoso e carecente, a relação do homem com Deus, mas recolhendo, não
obstante, no seu destino temporal, valores, iluminações, verdades, que cabe aos
mitósofos (filósofos, antropólogos, sociólogos, etnólogos e até teólogos)
desenvolver em contextos mais dinâmicos e realistas.
Escreveu
José Marinho, como já vimos, que “todo o poeta verdadeiro, todo o artista
autêntico é filómito, e é-o necessariamente”. Todavia, “quem ame
apaixonadamente mito ou poema, por eles só, é o menos apto a penetrar e
descerrar suas secretas e misteriosas significações”. Ao filósofo (ao mitósofo)
cabe interpretar o mundo mítico “na sua forma própria ou na mais apaixonada
visão simbólica” [Do prefácio ao Sistema dos Mitos Religiosos de Oliveira Martins, p. XXI].
Sob
a perspectiva das suas carências, compreende-se que os pensadores e teóricos da
história mais exigentemente racionalistas tivessem escolhido a oposição radical
ao mito, negando-lhe toda e qualquer tangência com a verdade. É porventura uma
das necessidades da evolução das sociedades. Quando a absolutização de um mito
se transforma em utopia ameaçando circunscrever-se a uma esperança no fim de
contas passiva, impõe-se afirmar teorias da razão e da acção que devolvam ao
homem a iniciativa, que afirmem a sua liberdade e confiram valor ao seu
trabalho, ao seu sacrifício, à sua luta quotidiana para se elevar acima da
situação de crise ou retrocesso dentro da qual estiola sem outro consolo do que a expectativa sempre adiada do regresso de D.
Sebastião e a promessa obscura do apocalipse mítico do Quinto Império. Ascender
da utopia a um movimento teleológico que a compreenda na sua raiz mítica mas a
transcenda, é uma nobre tarefa, jamais concluída, da filosofia da história.
Não
esqueçamos, porém, que os movimentos ideológicos não poucas vezes reflectem
uma secreta mitologia e, sob a capa do progressismo, na realidade apetecem um
certo estatismo utópico ou ucrónico. Como certeiramente compreendeu Jung, o
inconsciente colectivo é um incessante fabricador de mitos. Já vimos como
Mircea Eliade, (...) interpretou o comunismo como o revivalismo de um dos mais
antigos mitos da humanidade, o mito da Idade de Oiro. O que é “a corrente da
história”, de que tantos ideólogos se reclamam para anunciar a predestinação de
um evolucionismo de sentido único, senão uma das formas de necessitarismo
mítico, tal como o era a doutrinação do Quinto Império, na História do Futuro do padre António Vieira?
No
movimento ascensional do homem, o mito tem lugar dialéctico irrecusável. Se
ontem o sebastianismo uniu e identificou os Portugueses num ideal patriótico
de resistência à absorção castelhana e à decadência, ao religar-nos
directamente a um mandato divino e a um Príncipe Salvador, também hoje um novo
e difuso sebastianismo, sob diversas formas, algumas, aliás, antagónicas entre
si, paira na atmosfera do país.
Mas
não podem os Portugueses esquecer que a teleologia escatológica é superior à
teleologia mitológica, que aceita e compreende, mas que sublima e transcende.
![]() |
| Natália Correia com Dominique de Roux. Ver aqui |
A
descoberta, por alguns pensadores estrangeiros, do carácter original do nosso
messianismo sebastianista, ligado ao mito do Quinto Império, de signo
paracletista, abriu-lhes perspectivas culturais e até políticas inéditas.
Sublinhava, por exemplo, Jean Subirats, com certo espanto, num livro escrito em
1968, que, “sob o ponto de vista da duração, o interminável messianismo
português coloca-se imediatamente a seguir ao do povo judeu” [Les séquelles du sébastianisme portugais aux
XIX et XX siècles, Rennes, 1968, p. 33, Cit. por Sales Loureiro]. E Raymond
Abellio escrevia em 1976 estas palavras perturbantes: “Aparentada às concepções
milenaristas do monge calabrês Joaquim de Flora, que, neste mesmo século XII,
dividia a história em três reinos sucessivos, e anunciava, depois dos do Pai e
do Filho, o reino do Espírito Santo, a ideia do Quinto Império ultrapassa-as de
longe, no sentido de que implica uma completa inversão da história, e de que
este Império não é apenas o do Fim, mas de um fim de depois do fim, consumidas
e consumadas todas as coisas humanas, só sendo, portanto, concebível depois de
um apocalipse”. E, citando Catarina de Ataíde, a heroína do romance O Quinto Império, de Dominique de Roux,
ao comentar a revolução de 25 de Abril: «Todo este escândalo para voltar a nada!”,
e ainda: “Quanto maior for o desastre, e mais irremediável, tanto mais próximo
estará o Quinto Império, o tempo do Espírito Santo” – o pensador francês
reflectia: “Em nenhuma parte melhor que em Portugal, a existência aparece assim
como o exílio do ser. Em nenhuma
parte melhor se sente que a história tem que acabar, e, para tanto, arrastar o
homem até o mais baixo e, quando ele aí chegar e acabar com ela, dar lugar a um
estado do homem, que, não só não decorre dela, mas também a reenvia ao nada que
constantemente testemunha.”
![]() |
| Kaúlza de Arriaga e Dominique de Roux. Ver aqui, aqui, aqui, aqui e aqui |
O
ubedo do Quinto Império virá assim
depois das fases alquímicas de putrefactio
e de nigredo; a luz do Espírito
Santo, após a putrefacção de a morte ritual de todo um povo. A terra
portuguesa, queimada, gasta, desperdiçada, a waste land de Eliot, povoada de hollow
men, de homens vazios, é um Calvário, onde um povo-Messias, um povo-D.
Sebastião, um povo-Cristo, é crucificado para ressuscitar em glória e salvar a
humanidade. Este é, para Abellio, o mais subtil sentido dos mitos do
sebastianismo e do Quinto Império. Não a conservação de um império terrestre,
sob a chefia de um chefe carismático e sebástico, mas a putrefactio e a nigredo,
para um ressurgimento todo ígneo e espiritual. Então, só então, pode Portugal
combater e talvez vencer a grande infâmia materialista e aviltante do mundo
contemporâneo. “Em Portugal, fim da terra e terra do fim, diz Abellio como já
vimos, o combate só será realmente derradeiro se opuser os dois universalismos
radicais, o marxismo e o Quinto Império.”
Não
podem os Portugueses esquecer, dissemos, que a teleologia escatológica é superior à
teleologia mitológica. Se é certo que o mito, “o que está antes do tempo e além
do tempo”, “o sinal do que estava implícito ao saber”, alimenta o homem
sedento, perdido no deserto; e se não o é menos que o sebastianismo exprime “um
sentido permanente de redenção” – não cremos que a batalha final se trave entre
duas mitologias antagónicas, a do materialismo e a do espiritualismo, porque
qualquer delas se encontra em transe de superação e transcensão.
Só
uma teleonomia de raiz filosófica e ética, alimentada por fontes espirituais,
sem dúvida, mas baseada no esforço humano de intelecção, de educação, de
liberdade, de movimento, pode a nosso ver “salvar” o homem e as sociedades
humanas da queda na uniformidade, na exterioridade e no vazio angustioso da
insignificação. Nem a “corrente da história” a submeter a humanidade à corrida
para a “sociedade-termiteira” em que se exilaria de si própria, nem a metanóia
mágica do negrume a fazer-se ouro e luz, no apocalipse visionado por Abellio,
de que a destruição-ressurreição de Portugal seria o símbolo.
Tudo
dependerá, ao contrário, da sua possibilidade de a política, entre nós, se
subordinar à escatologia cristã-paraclética, a nosso ver a mais rica de todas
as escatologias possíveis, mas por mediação ético-filosófica e pedagógica, e de
acordo com os valores próprios da nossa estrutura cultural e com a nossa
capacidade de pensar com autonomia e liberdade. Então, tudo quanto é português
será repensado e reassumido, os mitos como as formas de pensamento, de arte ou
de direito, em ordem a uma nova dinâmica, exemplar e luminosa.
Só
acederemos à idade do Espírito quando a merecermos, a descobrirmos ou a
conquistarmos. As provas da nossa crucificação e da nossa putrefacção só
poderão ser fecundas à luz da reconversão intelectual e ética a partir de
dentro. A liberdade do homem exige o risco de uma permanente opção entre a
verdade e o erro, a inspiração e a obstinação, o esforço e o repouso, o bem e o
mal. É contrária ao necessitarismo cíclico do mito utopizado, embora não o seja
ao que de profundo, verdadeiro e até incitante o mito guarda e transmite.
Beneficiados que sejam os homens e os povos com a lição de uma fecunda
experiência, com a força de uma mitologia nacional e com a revelação de um
divino eschaton, a recusa é sempre o seu direito e por isso se pode morrer sem
esperança e desaparecer do mapa sem glória.
O que não será, se Deus quiser, o caso português!».
António Quadros («Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista»).
O IMPÉRIO DO ESPÍRITO
A
Pátria de Fernando Pessoa, objecto (...) de toda a sua vida, é uma Pátria
ideal. Mais: é uma Pátria mítica, não no sentido positivista do mito como uma
mentira poética, mas no sentido transcendental do mito como uma narrativa teleológica, em que os fins últimos estão no princípio, assim como o princípio
contém já os fins últimos.
O
que funda uma nacionalidade não é, nesta acepção pessoana, um complexo de
causas vindas de trás, sociais, económicas, políticas, aquilo a que Aristóteles
chamou a «causa eficiente», mas um telos
ou uma finalidade dada desde logo no mito, na profecia ou na revelação, isto é,
aquilo a que o mesmo filósofo chamou a «causa final».
É
precisamente o sentido da profecia lendária de Cristo a D. Afonso Henriques:
«... porque eu sou o fundador e distribuidor dos impérios do mundo, e em ti, e
no teu sémen quero fundar para mim um Reino, por cuja indústria será o meu nome
notificado a gentes estranhas».[1]
Portugal é criado, sancionado do alto em Ourique para ser o Reino de Deus, o
Reino que levará o nome de Jesus Cristo a gentes estranhas.
Com
o mito-profecia de Ourique cruzam-se as profecias do Terceiro Reino, o Reino do
Espírito Santo, de Joaquim de Flora, afeiçoadas ao ritual laico da Coroação do
Imperador do Espírito Santo, instituída por D. Dinis e Santa Isabel; da Sétima
Idade do Mundo que, segundo Fernão Lopes, teria sido inaugurada com o advento
da dinastia de Avis; e do Quinto Império, segundo a interpretação que o profeta
Daniel fez do sonho de Nabucodonosor: «depois dos quatro Impérios materiais,
tradicionalmente interpretados como sendo os dos Assírios, Persas, Gregos e
Romanos (e assim os ordenaram também Camões e o Padre António Vieira, afectos
ao mesmo mito), virá um reino que jamais será destruído e cuja soberania nunca
passará a outro povo.»[2]
Se
para os israelitas será um Quinto Império Judaico, para os portugueses, numa
tradição anterior a Camões (encontramo-la já expressa nos Lusíadas), este Quinto
Império será cristão e português (Camões, Vieira).
Também
para Fernando Pessoa, absorvendo toda esta elaboração mitológica e todo este
profetismo, principalmente através das profecias de Bandarra e dos livros e
sermões de Vieira, Portugal será a cabeça do Quinto Império, mas de um Quinto
Império intelectualmente repensado. O poeta vê-o como um Império da Cultura, um
Império do Espírito, um Império que não necessita de um grande território de
apoio, nem de um povo-potência mundial, porque é essencialmente um Império da
Paz e da Sabedoria, ou, como escreveu, um Império onde «haverá a reunião das
duas forças separadas há muito, mas de há muito aproximando-se: o lado esquerdo
da sabedoria – ou seja a ciência, o raciocínio, a especulação intelectual; e o
seu lado direito – ou seja o conhecimento oculto, a intuição, a especulação
mística e cabalística. A Sabedoria, a Sageza, fonte da Paz, surgirá com a
conquista da inteligência material pela espiritual e da espiritual pela
material»[3]: é
uma síntese e um ideal unitivo – um telos
mítico, mas dotado de uma energia divina primordial, ficando, no entanto,
dependente do homem em sua liberdade e capacidade superativa.
Podemos
dizer, por outro lado, que Pessoa concebe um Quinto Império iniciático e
gnóstico, se nos lembrarmos de que, para ele, Portugal se formou com uma Ordem
do Templo e uma Ordem de Cristo expressoras do pensamento, depois assumido
pelos Rosa-Cruzes e pelos Cristãos Gnósticos em geral, e só poderá perdurar com
o ressurgimento e sublimação destas Ordens numa Terceira Ordem, a Ordem
Sebastianista, criação do seu espírito e base do seu projecto de
Portugal-Quinto Império.
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Non nobis, Domine, non nobis: sed Nomis Tuo da gloriam |
![]() |
| Bandeira do Leal Senado de Macau |
Este
mito não poderia deixar de ter equivalência pragmática e política. Ele está sempre
presente, embora implícito, em todas as páginas do pensamento político que
juntamos neste livro. E por outro lado estas páginas jamais serão entendidas se
forem lidas no sentido usual da politologia moderna.
O
que Fernando Pessoa almeja não é apenas uma nação socio-economicamente
desenvolvida, não é propriamente uma nação «progressiva», «europeia», porque
quer mais, muito mais: quer uma nação – Quinto Império, uma nação-Espírito,
uma nação hierarquizada segundo a «oligarquia dos melhores», sendo os melhores
os poetas-filósofos, os sages, os iniciados. Tudo o resto, que em vão se
procura numa política de acumulação ou de distribuição de riqueza, virá por
acréscimo, porque dos sages e dos iniciados se pode esperar o óptimo, enquanto
dos medíocres só se pode esperar o péssimo. Escreveu: «Toda a política deve
assentar essencialmente numa mística. E com maior razão terá de fazê-lo aquela
política que não vise interesses ou problemas imediatos no tempo ou limitados
no espaço.»[4]
E noutra página acrescenta que tal é «o dever português», comentando: «O prazer
é para os Cães, o bem-estar material é para os escravos – o homem tem a honra e
o domínio.»
«Honra»
de um dever cumprido, da ordem do sagrado. «Domínio» fundamentalmente sobre o
seu eu, transviado em zonas psicológicas inferiores.
Não
admira pois que, nos seus escritos políticos, Fernando Pessoa tenha batido
obsessivamente as mesmas teclas: é preciso não deixar que se destrua a
personalidade nacional pelo estrangeirismo e pelo provincianismo mental dele
resultante, pois temos que guardar a convicção de sermos uma pátria de destino,
uma pátria eleita; afirmar a independência pátria perante a Igreja ou as
Igrejas (Portugal tem fins espirituais próprios) e perante as outras nações e
blocos, com as excepções da Espanha e dos países de língua portuguesa e
espanhola, com as quais admite formas de aliança e de associação; combater a
igualização ou a uniformização sociocráticas, porque abafam e diminuem o poder
criativo do indivíduo, do qual depende a emergência de uma aristocracia dos
melhores, que eles e só eles poderão conduzir a nau lusíada ao seu porto
mítico; defender o liberalismo intelectual e económico, um liberalismo congénito
conciliável com a sua afeição às personalidades carismáticas, às
personalidades-símbolo (como Sidónio Pais), representantes de proa do espírito
nacional e do mito sebastianista português com todas as suas implicações
regeneradoras; exprimir uma exigência ética, intelectual e espiritual que se
oponha intransigentemente às águas turvas, às ambiguidades, às demagogias, às
ambições, às intrigas e às mentiras das classes políticas e intelectuais que
sucessivamente viu chegarem ao poder.
Face
ao mito, como empalidece a realidade! O mito é o «ser-aqui», que demanda a
plenitude de Ser e, dentro do seu círculo sagrado, o poder, de origem
demoníaca, tentação de Fausto, não é senão um factor de secundária importância.
Mas o que o poeta vê em sua volta é ao contrário a vontade de poder, devorando
insaciavelmente o que ainda subsiste nas almas do mito ou do ideal, é o
pragmatismo desviado dos verdadeiros fins últimos do homem.
Compreenderemos
agora melhor o percurso político de Fernando Pessoa. Entre 1906 e 1910, um período que analisa no projectado livro Da Ditadura à República, o poeta critica
João Franco e os últimos anos do regime monárquico, saudando a jovem República
nascente como uma esperança. Logo a seguir, nas Considerações Pós-Revolucionárias, sente-se partilhado entre esta
esperança e a dúvida que já se lhe insinua quanto à bondade e à verdade da
República instituída. Ao escrever, por volta de 1915, o livro ou opúsculo A Oligarquia das Bestas, já está
totalmente desiludido com o regime e com os seus políticos. Aplaude então a mãos ambas o intermédio da República Nova, de Sidónio Pais; é o período em que
se dedica a compor a obra, como as outras incompletas, O Sentido do Sidonismo.
Talvez
porque Sidónio Pais foi assassinado menos de um ano depois de ter iniciado a
sua experiência presidencialista e não teve, pois, tempo para mostrar o que
valia, ele como estadista, o seu projecto político como solução válida para o
país, Pessoa permaneceu nos anos subsequentes afecto ao ideal sidonista,
colaborando, embora como franco-atirador, com o Núcleo de Acção Nacional. Foi
esta associação que lhe publicou, em 1928, O
Interregno que defendia o regime de ditadura militar nascido de 28 de Maio,
embora de uma ditadura militar que via como estado de excepção ou de
interregno, mediador para o regime que verdadeiramente almejava.
Mas
também não durou muito esta sua posição, visto que logo em 1932, ao escrever o
referido segundo opúsculo, O Interregno e
as Suas Consequências, vemo-lo criticar a ideologia do Estado Novo e
nomeadamente o seu conceito de Civilização Cristã, o seu lema de «Tudo pela
Nação, nada contra a Nação» ou a censura ao trabalho intelectual; a este
respeito, escrevendo a Adolfo Casais Monteiro um mês antes de morrer,
comentaria asperamente um discurso de Salazar, dizendo: «Desde o discurso que o
Salazar fez em 21 de Fevereiro deste ano, na distribuição de prémios no
Secretariado de Propaganda Nacional (ele próprio, embora sem comparecer à
cerimónia, recebeu então o seu prémio pela Mensagem),
ficámos sabendo, todos nós que escrevemos, que estava substituída a regra
restritiva da Censura, “não se pode dizer isto ou aquilo”, pela regra soviética
do Poder, “tem que se dizer isto ou aquilo”. Em palavras mais claras, tudo
quanto escrevemos, não só não tem de contrariar os princípios (cuja natureza
ignoro) do Estado Novo (cuja definição desconheço), mas tem que ser subordinado
às directrizes traçadas pelos orientadores do citado Estado Novo. Isto quer
dizer, suponho, que não poderá haver legitimamente manifestação literária em
Portugal que não inclua qualquer referência ao equilíbrio orçamental, à
composição corporativa (também não sei o que seja) da sociedade portuguesa e a
outras engrenagens da mesma espécie.»[5]
Oito
dias depois, em 8 e 9 de Novembro, escrevia a poesia satírica Poemas de Amor em Estado Novo, que é a
tradução poética daquelas palavras...
Face
ao mito, como empalidece a realidade! Mas este eterno desiludido do mundo,
desiludido da Monarquia que tínhamos, desiludido da República que passámos a
ter, desiludido do Estado Novo que depois sobreveio, não desistiu de formular o
seu regime ideal. Como dissemos, é pela positiva que escreverá (embora desse
intento pouco tenha chegado a ter tempo para realizar) algumas páginas para a sua
Teoria da República Aristocrática e
que provará definir o seu nacionalismo liberal, que nunca devemos confundir,
esses e os seus anteriores conceitos (como tem sido, por vezes, a tentação de
alguns) com a ideologia fascista em maré crescente nos últimos anos da sua
vida. São bem explícitas, como se verá, as críticas de Fernando Pessoa a todo o
totalitarismo, ao «Tudo pelo Estado, nada contra o Estado» de Mussolini e à
própria figura deste político que satiriza por exemplo no texto intitulado Profecia Italiana.
Pessoa é, na verdade, contrário ao intervencionismo
estatal em todos os campos. Neste aspecto, têm o maior interesse os escritos sobre
economia, (...) onde baseado na sua larga experiência de correspondente
comercial em numerosas firmas lisboetas de importação e exportação, fundado nos
seus conhecimentos práticos acerca dos mecanismos do comércio e da indústria,
defende e teoriza o liberalismo económico, condenando toda a legislação que lhe
seja restritiva e as algemas (título de um dos seus artigos) que o Estado
coloca ao desenvolvimento económico, com as suas medidas intervencionistas.
Como se sabe, não só os comunismos e os socialismos são fortemente
intervencionistas na economia e em geral na vida de um país, igualmente o são
os fascismos, uns e outros postulando o predomínio mais ou menos absoluto
(conforme as tonalidades da gama de cores, desde o vermelho ao rosado e ao
negro) do Estado sobre o indivíduo. Ferrenho individualista, Pessoa nunca
aceitaria o «Tudo pelo Estado, nada contra o Estado» como teve dificuldade a
aceitar o «Tudo pela Nação, nada contra a Nação» do Estado Novo, por lhe
parecer ambiguamente derivado, confusamente derivado do preceito mussoliniano.
Daí os termos da Nota Biográfica que escreveu em 30 de Março de 1935. A Nota resume perfeitamente o pensamento político-mítico de Fernando Pessoa, tal como aliás se pode deduzir do conjunto dos seus escritos atrás citados.
Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação» [fórmula que se opõe às, citadas, de Mussolini e de Salazar], anticomunista e antissocialista, Templário e Cristão gnóstico [(Posições patriótica, social, iniciática e religiosa), o poeta assim define claramente, nessa Nota, a sua ideologia política:] Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente antirreacionário.
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| Jacques de Molay |
Em resumo desta Nota, propunha-se o poeta, tendo na
memória o martírio do templário Jacques de Molay, «combater, sempre e em toda a
parte, os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania».
Decerto o pensamento político de Fernando Pessoa, inspirado muito mais pelo horizonte profético e escatológico do mito do que pelas ideologias triunfantes no seu tempo, oferecerá dificuldades a quem, não tendo outras referências do que os conceitos hoje vigentes e dominantes, tenderá naturalmente a enquadrá-lo e limitá-lo sob tais perspectivas. Decerto haverá muito a opor, mesmo em nome de um pensamento político lúcido, maduro e superior, aos caminhos seguidos pelo poeta na sua paixão patriótica, no seu ardente idealismo e mesmo nas atitudes provocatórias, na contradição por vezes levada ao extremo ou nos paradoxos a que por vezes se deixa levar. Mas também é verdade, julgamos, que Fernando Pessoa, mesmo em domínios que não são os seus de raiz (ele foi acima de tudo poeta), em muito nos interpela, em muito nos desafia, em muito nos faz vacilar e pensar, nestes escritos, com a sua inteligência poderosa e com a sua visão subtil. Se eles não constituem o núcleo essencial da sua obra, ajudam-nos sem dúvida a compreendê-la melhor e à época que foi a sua e que se prolonga, afinal, nos nossos dias. Além de que, mesmo agora, ainda hoje, nos consegue desbravar novos caminhos e abrir inéditos horizontes...
Cascais, Setembro de 1989
(António Quadros, Introdução in Fernando Pessoa, Páginas de Pensamento Político – 1910-1935, Clássica Editora, 2024, pp. 67-75).







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