Escrito por Leonardo Coimbra
«Leonardo Coimbra foi, no nosso país, um dos mais precisos alvos da maledicência pública.
Viveu durante uma época de crise, quer dizer, de alteração de valores, e afirmou
a sua personalidade superior em oposição aos despeitados que se obstinam em
tudo rebaixar ao nível médio da vulgaridade. A Imprensa que a geração de António
Feliciano de Castilho, Almeida Garrett e Alexandre Herculano tornara livre para
facultar a discussão leal dos ideais artísticos, políticos e religiosos,
comparando evidência com evidência, razão com razão, crença com crença, fora
pela geração de Antero, Eça e Martins transformada em meio de crítica
periódica, mais ou menos panfletária, com o fim de combater as pessoas que mais
se distinguiam pelo mérito próprio ou pelo valor das instituições que representavam.
A
“filosofia positiva” – ao contrário da religião, que dignifica, eleva e exalta
o homem – esforçara-se por difundir aquela antropologia pessimista que necessariamente
aconselha os políticos a restringirem a liberdade. O positivismo é a negação do
romantismo. Declarando-se profundos conhecedores da patologia humana, os escritores
positivistas não podiam ver no amor senão uma necessidade fisiológica, na
amizade um homossexualismo disfarçado, na fraternidade espiritual uma
associação de socorros mútuos.
(...)
A teologia de Leonardo Coimbra não apresenta como principais problemas os da
demonstração da existência e dos atributos de Deus: incide de preferência sobre
as relações de Deus com as leis naturais ou com as leis científicas. O filósofo
admite como ponto de partida o ideísmo de Octávio Hamelin e repele todas as
formas de realismo, ou cousismo, que as ciências e os sistemas metafísicos,
absolutizando, opõem à livre actividade do pensamento humano. Dado que o
ideísmo só pode coerentemente terminar no misticismo, o que de material existe
entre o homem e Deus será julgado aparência, ilusão e erro.
Sem
auxílio de intermediários que o iluminem, o homem vai por suas possibilidades
cognitivas diminuindo o erro e aumentando a verdade, aproximando-se cada vez mais
de Deus. Assim se garante o optimismo gnósico do pensador. O mundo,
constituído por leis contingentes e inconstantes, se bem que verdadeiras, é
permeável à acção humana, desde que esta seja iluminada pela inteligência e
aquecida pelo amor.
A
liberdade é o poder de que o homem goza quando verifica ter produzido algo de
novo. Há, porém, oposição entre os processos artificiais e os processos
naturais, oposição nítida entre o sistema de Spencer e o sistema de Bergson. O
homo faber constrói, compreende o que
faz, mas também pode criar na medida em que puder e souber participar da
criação divina.
Tal
é o significado do criacionismo. Em oposição ao emanatismo e ao evolucionismo,
que de algum modo imaginam Deus com os atributos da Matéria, o criacionismo
afirma a confiança no futuro, na inteligência e na invenção. Todos os entes
ascendem pela escala qualitativa que culmina no Ser, e na sua ascensão nos
iludem com a aparência da infinita moção no espaço e no tempo.
A
negação de um intermediário real entre Deus e o Homem torna possível negar o
mistério e a revelação que significam graves obstáculos ao pensamento
intelectualista, mas suscita muito sérias dificuldades na suprema ordenação
dos valores. A ciência abstêm-se de afirmar a existência do mal na Natureza, mas
não pode negar o mal na consciência humana. A Natureza será, pois, admirável espectáculo
de beleza para os poetas que não ascenderam ao plano trágico, em que a dor e a morte
obrigam a reflectir sobre problemas de teodiceia.
Efectivamente, a reflexão sobre a dor e a morte irão demonstrar ao nosso filósofo que não é só ignorância que está de permeio entre o homem e Deus. A ciência, por seus princípios, meios e fins, não pode explicar a existência do mal na Natureza, e quando pretende fazê-lo recorre à História ou à Pré-história. O mal é um mistério, e a solução do mistério só pode ser dada por revelação.»
Álvaro Ribeiro («A Arte de Filosofar»).
«De
uma maneira geral, o juízo acerca do seu valor, como filósofo, estabeleceu-se
com sumária rapidez, nomeadamente entre aqueles que inteiramente lho negaram. Com
o insucesso do concurso de 1912, à Universidade de Lisboa, pode dizer-se que,
de facto, a negação do seu valor como pensador firmou-se logo, ficando, desde
esse fracasso o autor de O Criacionismo
(a tese para esse concurso, como se sabe) definido como “um espírito
estruturalmente indisciplinado e possuído da mania das grandezas” – e tão
impudente pareceu o estilo dessa obra e arrogante a sua epígrafe “esboço de um sistema filosófico”! Para o
maior número, o descrédito ficou assente: o pretenso inventor de uma nova concepção
da existência não era, evidentemente,
mais do que um espírito delirante, dotado de uma certa e específica facilidade
de elocução, munido mesmo de um notável aparato de informação da técnica e
erudição do pensamento europeu especulativo, – mas, fundamentalmente,
incapacitado para o trabalho de coordenação das ideias gerais e metódico desenvolvimento
dialéctico de qualquer problema ou aprofundamento analítico de qualquer noção;
incapacitado, em suma, para aquilo que ele se propunha, não apenas estudar, mas
criar: filosofia. – Esta impressão
colhida enquistou de tal modo que sobre toda a sua obra literária posterior
ficou como que pesando um verdadeiro tabu, escusando-se muitos homens
instruídos de a ler, uns sob o pretexto de ser impenetrável, outros de ser
insincera, outros, de ser vazia, etcetera. [Na realidade aqueles mesmo que
poderiam ter algum interesse em ler essa obra posterior pode dizer-se que não o
fizeram, sugestionados, como o vulgo, com a impressão totalmente depreciativa
que O Criacionismo havia suscitado. E
tanto assim que nunca nenhuma discussão séria pôde ser levada a efeito entre os
que nessa impressão se estabeleceram e os que a reputavam extremamente sumária.
Hoje ainda (embora sob a forma discreta de conversa – pois entre nós quase
todas as coisas intelectual ou socialmente importantes se tratam e liquidam sob a forma confortável de “conversa”),
hoje, ainda, esta impressão negativa mantém-se com a pureza de há 20 anos, – em
grande parte, deve dizer-se, como atenuante, porque os filósofos nacionais são
obrigados a absterem-se de toda a informação dos problemas e pensadores de
segunda classe para não distraírem a sua preciosa atenção e o seu preciosíssimo
espírito dos transcendentes problemas (como seja a psicologia fetal, a epistemologia
dos tests, e outros) aos quais eles
têm imprimido já um tal avanço que toda a Europa filosófica tem neles os olhos
presos de angustiada expectativa, como é notório].
A
verdade porém é que, ao lado desses negadores intransigentes de todo o valor da
obra filosófica de Leonardo Coimbra, houve sempre, desde o início, quem o
considerasse como um pensador sério, – como um espírito dotado de invulgares
dons especulativos. Raul Proença parece ter sido um deles [Na Luta pela Imortalidade há uma alusão
explícita a essa admiração de Proença e um germe de justificação da indiferença
de L. C. pela dificuldade da sua
obra]. Mas foi sobretudo nos últimos quinze anos, com a fundação da Faculdade de Letras do Porto, onde Leonardo
Coimbra teve ocasião de pôr mais à prova os seus dons de removedor de
problemas, que à sua volta, entre a desvalorização e deliberado desconhecimento
do grande número, se formou um pequeno núcleo de homens novos, tocados de uma
profunda e desinteressada amizade da cultura (em boa parte por ele mesmo
suscitada), para quem ele era tido na conta de um vulto nada menos dotado do
que muitos pensadores modernos de renome; um Gasset, um Morente, um Le Roy, um
Bertrand Russell, um Croce, um Scheler, um Meyerson, um Chestov.
Certamente,
à admiração de alguns destes, não escapava a verificação de algumas deficiências
graves de Leonardo Coimbra como pensador, e particularmente o seu mau sistema
de improvisar e compor rapidamente as suas obras de maior responsabilidade; nem
deixavam de considerar como um factor perturbador dos seus dons dialécticos,
(isto é, de desenvolvimento e aprofundamento de ideias), a sua meia natureza de
poeta; – e ainda os seus hábitos
confiantes de homem conscientemente eloquente. Apesar disso, esse núcleo
pequeno mas firme de admiradores estudiosos da obra de Leonardo Coimbra (bem ao
contrário dos que o consideravam um mistificador cuja audácia e prestígio eram
devidos à impunidade beócia do meio) consideravam-no como um homem capaz de
ser, se quisesse, ou se o meio fosse outro, um dos primeiros
pensadores de segundo plano do nosso tempo e reputavam a sua obra, com todos
os seus defeitos, a obra mais notável do pensamento que possuímos.
Finalmente, para não se falar das profundas divergências de juízos que, como homem político, como todos sabem, suscitou (assunto que por si só deve constituir um estudo crítico, rigoroso e independente), Leonardo Coimbra, como homem religioso, deu motivo (como igualmente ninguém ignora), às maiores apreensões, dúvidas e discrepâncias sobre as suas crenças, posições e tendências.»
Sant’Anna Dionísio («Leonardo Coimbra»).
«A
compreensão do pensamento de Leonardo Coimbra não depende apenas de nos
interrogarmos sobre o que é a filosofia. Só isso não seria já certamente fácil,
pois nem filosofar é dado a quantos de filosofia se ocupam, nem tão-pouco a
interrogação séria admite resposta definitiva e rígida. O conceito de filosofia
desloca-se com o mesmo filosofar na mutante série dos conceitos; por outro
lado, como Leonardo Coimbra de vários modos mostrou, aquele sério pensamento ao
qual move o amor autêntico e imperioso da verdade não pode contentar-se de
deambular na rasa planura uniforme do mundo natural, social e cultural, ou do
pensar que nasce e morre, mas ascende, pelo contrário, e necessariamente, dos
planos mais baixos da vida para os mais altos.
Assim, ler o filósofo responsável é acompanhar um espírito que sugestiva e imperiosamente interroga, ler o filósofo responsável não é apenas receber a luz útil, mas resolver um enigma e situar-se, sem ilusões, perante o Mistério. Por isto mesmo se ignorar, tantos juízos vãos têm sido proferidos sobre Leonardo Coimbra, como sobre os filósofos mais antigos e mais modernos da longa e nobre tradição europeia. E não cabe duvidar de que ler um filósofo não é apenas receber luz de útil candeia como implacável e sagrada perante a ignorância atrevida que acaba sempre por tornar-se perigosamente dominadora nas épocas de homens "diligentes e adormecidos", desatentos e incapazes de séria reflexão. Como os seus pares, Sampaio Bruno, Junqueiro e Teixeira de Pascoais, Leonardo Coimbra pagou pesado tributo às circunstâncias terríveis em que surgiu. Mas, é bem verdade, os caminhos por ele abertos e o melhor sentido da sua mensagem, as imagens inabituais, a expressão multímoda e as ideias subtis – tudo seria demasiado difícil, e até mesmo em época mais propícia e compreensiva. Ser poeta ou filósofo com alto, inquietante e original sentido religioso da vida, é coisa anómala e paga-se sempre caro.»
José Marinho («Apologia de Leonardo Coimbra»).
«Torna-se
difícil determinar, sem análise comparativa de textos, que preencheriam um volume,
em que medida o antipositivismo de Sampaio Bruno nutriu o antipositivismo de
Leonardo Coimbra. Certo é, porém, que a partir da data em que estudou a obra de
Henrique Bergson – obra decisiva na refutação do positivismo, do cientismo e do
materialismo – Leonardo Coimbra não mais carece de se reportar aos livros de
Bruno. Entre A Ideia de Deus e A Evolução Creatriz existem, aliás
surpreendentes semelhanças que Leonardo Coimbra, com admirável sagacidade, foi
o primeiro a notar [Leonardo Coimbra – Bruno-Filósofo
– In : A Águia – Porto, Dezembro de 1915 – II Série, N.º 48 (páginas 177 a 200
do vol. VIII].
Proclamada
a República, venceu a perplexidade de Leonardo Coimbra na certeza de que iria
verificar quanto lhe era difícil ser republicano, sem ser, ao mesmo tempo,
positivista, e todo o drama do homem político foi o de procurar realizar uma
dissociação a que resistem, unidos e renitentes, todos os compartidários.
Relacionar a República com as substanciais formas do Espírito Absoluto, no
dizer de Hegel, em vez de a subordinar a tropos de imaginação pagã, desde as
sementeiras às searas, em que o cultivo da terra serve de alegoria para a cultura
das almas, tal era o intuito do pensamento cristão de Leonardo Coimbra. A sua
actuação de político, tão malsinada e frustrada, vale contudo de exemplo nobilíssimo
e admirável das mais belas intenções.
Transformado
o Curso de Letras, não em Faculdade de Sociologia, como significativamente fora
pedido por Teófilo Braga, mas em Faculdade de Letras, à imitação francesa, é
aberto concurso para professor de filosofia. Leonardo Coimbra, que então ainda
não havia publicado qualquer livro de conteúdo filosófico, embora lhe fosse
reconhecido talento como estudante, escritor e orador, aceitou submeter-se aos
interrogatórios oficiais e elaborou para o concurso a tese O Criacionismo [Leonardo Coimbra – O Criacionismo (Esboço de um sistema
filosófico) – Tese de concurso para professor assistente do grupo de filosofia
da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – Porto, 1912]. A breve trecho
o candidato, contra quem se estabeleceram prevenções, reconheceu o carácter
vexatório das provas, de que desistiu, perante a resistência que a escola
opunha à admissão de um antipositivista.
Haverá,
decerto, quem não creia ter sido essa a intenção do júri, porque, como bem se
compreende, não aparece explícita no processo do concurso. Vários foram, no
entanto, os antipositivistas que não conseguiram entrar para o corpo docente do
Curso Superior de Letras e da Faculdade de Letras e, quando casos mais ou menos
semelhantes se repetem, deixa de ser lícito falar de acaso, porque chega a vez
de inferir uma lei empírica. Justificável era, aliás, que a escola defendesse a homogeneidade da
doutrina, contra o perigo de dissolução ideológica, de desagregação moral e de
ineficiência didáctica.
Apresentar
uma dissertação em que o positivismo triunfante aparecia severamente criticado,
significava, além de acto de verdadeira coragem moral, de cara descoberta, uma
audaciosa maneira de pôr à prova a liberdade de pensamento estabelecida pelas
instituições republicanas. Nada há que estranhar, pois, que o valor de Leonardo
Coimbra, já então reconhecido por outros meios, tivesse sido sacrificado em
holocausto à ortodoxia dominante. A doutrina positiva, atacada em parciais
notas de crítica ao longo de vários capítulos de O Criacionismo, permaneceu e vigorou por muitos anos na escola em
que foi propagada.
A
tese de Leonardo Coimbra pareceu obscura a quem não distinguiu a gradação
existente, no pensamento filosófico, entre os conceitos de produzir, gerar e
criar. A estrutura do livro é, segundo indicação do autor, semelhante à tese de
Hamelin que tem por título Essai sur les
éléments principaux de la représentation, tese que, composta por tríades,
demonstra a excelência ou transcendência da síntese. Em quadro tão
significativo para um pensador religioso, Leonardo Coimbra exalta a poesia, que
é criação, e confessa esperança na Pátria.
(...) O insucesso de O Criacionismo não afecta o heróico pensador que persevera, contudo, na cruzada que se lhe há-de tornar em calvário. Opondo sempre o cristianismo ao positivismo, presta colaboração ao movimento da “Renascença Portuguesa”, intervém nas lutas políticas, actua como escritor e orador. Nem sequer desistiu da acção antipositivista quando foi pela primeira vez Ministro da Instrução Pública.
Esta
iniciativa, efectuada sem as indispensáveis formalidades de respeito pela
tradição universitária e sem as mínimas precauções políticas, não foi também
muito feliz. Tornara-se incerto o êxito de um empreendimento paradoxal que
consistia em integrar uma Faculdade de Letras antipositivista na Universidade
do Porto que estava então profundamente eivada de positivismo científico e
didáctico. A Faculdade de Letras teria, assim, que trabalhar lutando para abrir
caminho independente à nova corrente de espiritualidade.
Se
é compreensível que em toda a escola haja tendência para defender a
homogeneidade de uma doutrina, sobretudo por motivos de unificação didáctica,
também é verdade evidente e sempre comprovada que a pluralidade de escolas
portadoras de doutrinas concorrentes é indispensável estímulo para a formação
de uma cultura nacional. Ainda quando o Estado julgue conveniente proteger uma
doutrina claramente formulada, cumpre não esquecer que toda a ortodoxia tem
limites para além dos quais é lícito e vantajoso controverter as questões que
deixam margem à fecunda liberdade especulativa. Mas o positivismo da
Universidade do Porto, assente em fundamentos seculares, não poderia ser senão
adverso às experiências de sinal especulativo.
A
Faculdade de Letras, que Leonardo Coimbra procurava elevar à dignidade de Faculdade de Filosofia, em grande parte contribuiu para a difusão da mais interessante
escola de antipositivismo francês, aquela que tivera por mestres Ravaisson,
Boutroux e Bergson. As obras destes pensadores que argutamente invalidaram os
conceitos de hábito, lei e ordem, sobre os quais assentava o dogmatismo positivista,
eram criteriosamente apreciadas não só pelos estudantes de filosofia, mas
também pelos de filologia e de literatura. Tal orientação do ensino deu
pretexto a que a Faculdade de Letras fosse acusada de secreta oficina de
doutrinas extremistas, já de reaccionária já de revolucionária, como então se
dizia, sem que esses apodos malevolentes e maledicentes fossem garantidos por
prova contemporânea, nem viessem mais tarde a ser justificados pela observação
imparcial do procedimento de mestres e de alunos.
A
Faculdade de Letras dirigida por Leonardo Coimbra era principalmente criticada
pelas suas manifestações de extensão universitária. Representava aquela escola
superior, pela natureza e pela forma dos estudos nela professados, um factor
de nacionalismo doutrinal, um fermento teorético e especulativo em cidade
intensamente dominada pelo trabalho industrial, corrigindo assim as representações
demasiadamente utilitárias dos interesses humanos para recordar os fins
superiores da vida da colectividade. Constituía também um foco de irradiação
da cultura portuguesa e da cultura humanista sobre as províncias do Norte de
Portugal, proporcionando um surto de intercâmbio cultural com as Universidades
espanholas de Santiago de Compostela e de Salamanca.
Durante
o período de mais entusiástica actividade docente foi Leonardo Coimbra a
Madrid, onde realizou algumas conferências que lhe deram elementos para
elaborar o livro intitulado A Razão
Experimental. Revelam-se neste livro os intensos e laboriosos estudos que o
professor da Universidade do Porto havia realizado para impor o seu alto mérito
aos colegas positivistas que, presos ainda ao passado, desatentos à profunda
transformação da ciência e da metafísica, acusavam a filosofia criacionista de
ser meramente literária e oratória, destituída, portanto, de válido fundamento.
Aceitando o combate no terreno escolhido pelos adversários, era o filósofo de
certo modo coagido a transigir com alguns aspectos formais e metodológicos do
positivismo.
Como
o título indica, Leonardo Coimbra pretende combater o cousismo da razão e
mostrar que a actividade do pensamento humano, – a actividade científica,
artística e filosófica, como então se dizia, – se aperfeiçoa e progride ao
contacto com a experiência. Não há uma razão imutável, que seja o instrumento
defensivo de quaisquer dogmatismos, mas uma razão humana cujas articulações se
transformam no decurso do tempo, como se fosse um organismo vivo. Leonardo
adopta, porém, a teoria do mobilismo das categorias de razão segundo a
interpretação positivista da escola sociológica francesa.
(...)
Novo episódio da luta contra o positivismo se travará quando Leonardo Coimbra
for pela segunda vez Ministro da Instrução Pública. A luta em defesa da
liberdade do ensino religioso nas escolas particulares alienou-lhe a simpatia
dos admiradores e a confiança dos políticos. O filósofo é novamente obrigado a
explicar, contra a incompreensão dos positivistas, o que deve ser entendido por
livre-pensamento.
Data
deste acontecimento crucial a meditação profunda do pensador sobre os aspectos
concretos da religiosidade cristã e a gradual aceitação da teologia católica.
Não será, portanto, o positivismo criticado apenas por ter cousado em baixo
nível a classificação das ciências, nem por impor entraves ao pensamento
aventuroso de metafísica, mas principalmente por se mostrar incompatível com os
mais altos exemplares do humanismo cristão. Regressa Leonardo Coimbra, já
desgostado da actividade política, à actividade anarquista de desconfiança nas
várias formas de sociologia, e reconhece que as categorias da razão humana não
dependem da contingência social.
(...)
Ao longo da obra publicada pelo pensador, muito mais do que nos inéditos,
podemos verificar se a conversão foi lenta ou subitânea, se através da mudança
de palavras vemos ou não as mesmas ideias, e se, afinal, para o filósofo, converter é traduzir. Aos homens
interessados pela apologética talvez conviesse mais investigar o que motiva a
odisseia dos livre-pensadores do que relembrar, para edificação dos crentes, a
admirável parábola do filho pródigo. A dificuldade – bem o sabemos – resulta da
falta de mediação conceitual entre o tempo e a eternidade.
O
verbo de Leonardo Coimbra, orador eloquente e escritor de estranha magia,
começara por exprimir noções sublimes e intuições transcendentes nas mais belas
imagens futuristas. Identificar esta linguagem de esperança, identificar o novo
pensamento filosófico, naturalmente cristão, com as fórmulas conservadas na “assembleia
dos fiéis”, era difícil operação de filologia que jamais seria realizada no
ambiente positivista. A fenomenologia da religião – fenomenologia no
significado de Hegel – permite, porém, situar todos os livros de Leonardo
Coimbra nos respectivos graus da escala da verdade, e, assim, resolver o
problema controvertido.
Entre
milhares de alunos que durante uma carreira de vinte e cinco anos de
professorado em várias cidades Leonardo Coimbra leccionou, alunos que depois
seguiram várias e diversas orientações, alguns discípulos ficaram fiéis ao
pensamento criacionista procurando, com todas as dificuldades do ambiente,
continuar a sua tradição. Não divulgam estes uma doutrina fixada em teses
definidas, que seriam próprias de escolares, e por isso divergem nas soluções
que propõem para os três problemas filosóficos. Todos se encontram, porém, de
acordo em verificar que a persistência do positivismo, nos chamados meios
cultos, constitui o mais sério obstáculo ao desenvolvimento autêntico do
pensamento português.
A luta contra o positivismo não terminará pela refutação doutrinal que consagre o restabelecimento da metafísica no ensino das Faculdades de Ciências e na preocupação dos pensadores portugueses. A metafísica é, como a matemática, apenas uma porta do conhecimento que tanto pode estar aberta como fechada. Três séculos de racionalismo – os séculos XVI, XVII e XVIII – demonstram bem quão erróneo é procurar resolver os problemas humanos por doutrinas que não postulam o enunciado da verdadeira relação entre a filosofia e a teologia.»
Álvaro Ribeiro («Os Positivistas»).
«O
testemunho de José Régio sobre Leonardo Coimbra merece referência por duas
razões principais: em primeiro lugar, pela comparação explícita entre Leonardo
e Sérgio, ainda para mais feita por um sergiano; em segundo lugar, pelo
reconhecimento de que foi Leonardo Coimbra um Mestre de pensamento (um
mestre-pensador, como decerto diria André Glucksmann) que deixou discípulos.
Confessa
José Régio: "Nunca fui um dos discípulos ou admiradores de Leonardo Coimbra". Bem ao contrário, Régio tendia a aproximar-se de adversários de Leonardo Coimbra. Acima de todos, de António Sérgio. “Desde bem novo – diz – tive António Sérgio
por um dos meus mestres portugueses, no meu pequeno esforço, tantas vezes
frustrado, por pensar clara e criticamente”. Régio considera-se, pois, “o mais
insuspeito dos homens” para dizer duas palavras de apreciação sobre Leonardo
Coimbra.
Régio
põe a si mesmo o problema: foi Leonardo Coimbra um “Mestre”? Responde: “Sim,
Leonardo Coimbra foi (...) um grande Mestre; um Mestre nato”. Mestre com
maiúscula – intencionalmente. Prova da sua superior qualidade de Mestre é "a
apaixonada gratidão" dos melhores daqueles que foram seus discípulos, à
data (1950) “um grupo superiormente notável no reduzido escol da
intelectualidade portuguesa”. Régio vê no facto “uma das glórias de Leonardo
Coimbra”: o “ter sabido formar discípulos capazes de o prolongarem (e em certa
medida o corrigirem), sem abdicação alguma da sua originalidade pessoal”. “O
caso pedagógico” de Leonardo Coimbra merece a Régio algumas interessantíssimas
observações. Em que consistiu, afinal, esse caso? Na superioridade intelectual
e cultural do mestre em relação ao discípulo, propiciadora do prestígio daquele
junto deste? Isso é relativamente vulgar. Outro era o segredo, ou melhor,
outros eram os segredos, porque de dois segredos se tratou. Em primeiro lugar, “aquela
sua mesma natureza de ‘se inspirar’ em contacto directo com o discípulo, o
ouvinte, o interlocutor”. Essa a raiz do seu “poder de sedução pessoal”. Em segundo
lugar, o apelo profundo de Leonardo à individualidade criadora de cada um dos
seus discípulos. Escreve Régio: “O seu poder de sedução pessoal, pô-lo Leonardo
Coimbra ao serviço, junto dos seus discípulos, tanto das suas tendências
especulativas próprias, como das virtualidades e faculdades deles”.
Parece, pois, que – aparentemente em dissonância com o juízo de Álvaro Ribeiro sobre o juízo de Régio – o grande poeta concedeu o título superior de Mestre ao grande filósofo. Mestre foi, decerto, o homem de quem José Régio disse estas palavras essenciais: “(...) ele abriu aos seus discípulos o imenso mundo do Espírito”».
Manuel Ferreira Patrício («A Pedagogia de Leonardo Coimbra»).
«Muitas vezes conversei com o estilista José Régio acerca da oratória de Leonardo Coimbra. O autor dos Poemas de Deus e do Diabo nunca negou a sugestão, a persuasão e a convicção que o autor da Visão Franciscana da Vida exercia sobre os seus ouvintes, e lealmente reconheceu a superioridade de Leonardo Coimbra sobre a mediocridade dos escritores mais afamados nas tertúlias literárias de Lisboa. Recusava-se, porém, a prestar atenção aos livros de quem nós considerávamos Mestre.
A dialéctica da mãe e do mestre foi por vezes o tema preferido dos nossos encontros em Vila do Conde. José Régio, consciente do seu talento criador, e também da inspiração divina, falava com desdém dos professores do Mondego, e declarava não acreditar na existência de um mestre humano. “Jesus teve Mãe, não há dúvida; mas quem foi o Mestre de Jesus?”».
Álvaro Ribeiro («Memórias de Um Letrado», I).
«Pela porta que Falcato deixa sempre aberta, entram visitas. O José Hermano Saraiva também foi Ministro da Educação, quando era homem de confiança de Marcello Caetano, e ainda se não popularizara como historiador da RTP. Logo se me dirige na minha qualidade de candidato presidencial, assumindo ele a de um especialista "blasé" na política e na história da política, de mãos habituadas a fazer e desfazer revoluções, ministros, reis e presidentes da República, coisas que lhe são tão familiares e sem surpresa que deixa adivinhar enfadarem-no. Com a boca traçada em arco como a das personagens trágicas, numa voz metálica que a televisão popularizou, logo me atira, de dedo apontado e a cabeça reclinada para trás, tentando olhar-me de cima: "V. propõe a extinção da Universidade. Como se a Universidade não estivesse há muito extinta... É só fechar-lhe a porta e dar a volta à chave. Lá dentro, não há nada!"».
Orlando Vitorino («O processo das PRESIDENCIAIS 86»).
PORQUE ABANDONEI O CONCURSO
Antes
de mais nada, a confissão de um erro e duma falta moral. [1] De há
muito sabia eu que o professor Cordeiro [2] é um
perseguido-perseguidor. Fui seu aluno no C. S. de L [3] e assistia
a destemperos reveladores como este:
Um
dia, Augusto Martins, hoje professor num liceu do Porto, fez um cálculo (uma
simples operação de números mistos) sem soletrar a regra. Imediatamente o
professor Cordeiro declarou, em furiosos brados, que o aluno sabia de cor e
fazia depressa para vir cá fora troçar da ignorância do professor.
Sabia
que o ilustre professor da Politécnica do Porto, Francisco Azevedo, quando
ministro, foi perseguido pelo Sr.
Silva Cordeiro com insistentes declarações de que o andavam a perseguir junto
do ministro.
Sabia
que ele dissera a um meu honrado amigo, vulto eminente do antigo Partido Regenerador,
ter feito de propósito para o seu
concurso (que supomos nunca ter feito) uma tese
errada, porque não tomava a sério o professorado da Faculdade.
E
conhecia muitas mais coisas, que não escrevo porque são desgraças lastimáveis.
E, sabendo tudo isto, fui ao concurso.
É este o meu erro que só tem como parcial justificação o meu desconhecimento de
que a Faculdade tinha muito graciosamente dado o exclusivo do torneio ao Sr.
Cordeiro.
Isto
não calculava eu, sendo certo que a alguns professores ouvira, há pouco tempo,
falar da mania da perseguição do Sr. Cordeiro. Era de supor que a Faculdade
onde há homens sãos, de valor intelectual e moral, não fosse passiva até ao
momento das favas brancas ou pretas.
Mas
isto só justifica pessoalmente o meu procedimento, porque, ainda, eu não iria
ao concurso se não fosse (e é esta uma falta de honra, que ofereço aos meus
inimigos para seu demorado gáudio) saber que o Sr. Cordeiro lhe dera para me distinguir, chegando a
falar de mim nos seus cursos com simpatia admirativa.
Fui
ao concurso e, enquanto vamos prestando provas escritas, corre o negócio sem
colaboração maluca que irrite. Há apenas a maluqueira da dar pontos, para duas horas de trabalho, vindos desde
os Gregos até Schopenhauer! Belas corridas de velocidade para filósofos
quadrúpedes! Chega a defesa da tese, e aqui aparece a mais disparatada e
irritante maluqueira, que jamais vi em semelhante homem. O Sr. Cordeiro, que
costuma ser desleal mas vivo, foi francamente burro. Achou a minha tese
reveladora de raras qualidades estéticas com prejuízo das faculdades lógicas.
Donde
se conclui que ou as qualidades estéticas vivem de raízes no ar em absoluto
isolamento, ou o erro lhes dá eficácia e vigor – e viva o X. de Montepin. A
seguir acha que uso uma técnica nova – terrível crime para quem pretende dar um
novo pensamento!
–
E que essa técnica se contradiz.
–
Que não.
–
Que sim. Que digo não haver sensação pura e que digo depois «partidos da
sensação pura».
É
certo, é. Mas também digo antes: «Partiremos, como nas outras ciências, dum
intuitivo já racionalizado pelo pensamento vulgar. Para o pensamento vulgar, a
primeira realidade psicológica é a sensação. Partiremos, portanto, da
sensação...».
Quis confundir por lealdade, que é a essência da alma.
Depois
foi generoso, não me quis interrogar em matemática; ainda assim, que dissesse o
que era um logaritmo e aplaudiu o meu grande
conhecimento.
Quis
fazer a crítica da crítica de Tanvery à lei de Feschner-Weber, mas só disse que
a sensação tem um limite mínimo e máximo, o que Tanvery sabia, e nada tem com a
sua crítica a essa quantidade, que só o é entre limites, mudando de qualidade
extra-muros.
Quis-me
bater por ter citado o filósofo Gourd; que me não fazia a ofensa de me supor inferior
a tal filósofo..., que o Irracional não era meu, já o Schopenhauer disse que o
ser é irracional, etc.
Citei
Gourd por honestidade literária.
E.
Boutroux tem palavras do mais alto louvor para Gourd, cujo único defeito é a
ignorância do Sr. Cordeiro.
O
irracional do meu livro é meu e não de Schopenhauer. O meu irracional é
diferente do de Schopenhauer. Para este era o irracional porque distinguia o
ser e a representação; para mim é irracional, porque o pensamento tem de ser e
é criador.
Assim
o percebeu o notável crítico francês do Mercure.
Afirmou
o Sr. Cordeiro que eu, dizendo ter Kant cindido o mundo na aparência e no que
aparece, errei, pois o que aparece é
a aparência.
Admirável
exemplo da sua bela alma de confiança e
lealdade.
Por
último, o Sr. Cordeiro interpreta o meu ponto de partida «e pensamento
elaborando as oposições ou resistências do sensível desconexo...» – como a
afirmação de que o pensamento tem por missão fazer antinomias, contradições...
E
o filósofo veloz e gritante termina «viva o pensamento que faz a guerra, o caos,
as lutas da sociedade portuguesa (ele supõe-se perseguido pelos carbonários, que, diz ele, lhe prometem pendurá-lo
nos candeeiros), viva o dinamite!...».
Com
isto me vim embora, deixando escrito um documento autenticado por Costa Carregal,
tipógrafo do Porto, e António Correia, proprietário em Alijó, que não poderia
ter confiança nas resoluções do Sr. Cordeiro, atendendo à sua atitude de
absoluta incompreensão e irritante ataque, e que me restava a única esperança
duma reconsideração do conselho escolar chamando-o a uma atitude decente.
Tal
não acontecera, e o Sr. Cordeiro repetiu-se na estupidez, na má-criação e na deslealdade quando da primeira prova oral. Aí disse ao Sr. Cordeiro que fazia
apenas um jogo de palavras sem sentido e ao Presidente do júri que, não
entendendo tal atitude como decente, me vinha embora.
Eis os factos para quem por eles se interesse.
(In Leonardo Coimbra, DISPERSOS, III, FILOSOFIA E METAFÍSICA, Editorial Verbo, pp. 245-248).
[1] Neste artigo, de teor ético bem
diverso do habitual, Leonardo diz o que o levou a desistir do concurso para
catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ao qual
apresentara a tese O Criacionismo, em
1912 (N. C.).
[2] Silva Cordeiro, catedrático da
Faculdade de Letras, notável autor positivista da obra A Crise em Seus Aspectos Morais, Coimbra, 1896, e adversário de
Leonardo Coimbra. (N. C.)



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