quinta-feira, 5 de março de 2026

Gautama Buda

Escrito por Agostinho da Silva


Pitagóricos. Ver aqui

«O que ele [Pitágoras] dizia aos seus companheiros, ninguém o pode referir com segurança; é que entre eles reinava um invulgar silêncio. Mesmo assim, tornou-se universalmente conhecido o seguinte: em primeiro lugar, que ele afirma que a alma é imortal; depois, que ela se muda para outras espécies de seres animados; além disso, que os acontecimentos ocorrem em determinados ciclos, e que nunca nada é absolutamente novo; e por fim, que todos os seres vivos devem ser considerados como aparentados. Segundo parece, Pitágoras foi o primeiro a introduzir estas crenças na Grécia.»

Porfírio («Vida de Pitágoras»).

 

« – Que é a transmigração? Julgava que toda a gente o sabia. Não? Pois bem, então vejamos: é a passagem duma alma para outro corpo. Existem imensos exemplos deste facto na história do mundo. Para tornar mais claro este fenómeno, imagine uma viatura. A viatura pára e o condutor sai dela. Entra um outro condutor e passa a dirigir a viatura. Os condutores podem ser comparados a almas. Da mesma forma que uma viatura pode ser sucessivamente conduzida por duas pessoas, o corpo pode ser investido sucessivamente por duas almas. Toda a complicação se resume a isto. Também se pode explicar a transmigração da seguinte forma. O senhor tem uma bateria eléctrica. A carga – neste caso a alma – esgota-se e há necessidade de recarregar a bateria de vez em quando. Dito doutra maneira, a mesma bateria é, de vez em quando, provida duma nova “alma”».

«Rampa explica-se» (in Alain Stanké, «Lobsanga Rampa – O Enigma»).


«Restabelecendo tanto quanto possível o pensamento primitivo do Buda, parece que a primeira ideia a que chegou foi a da ligação íntima que existe no universo entre causa e efeito. Não tinha que se invocar para o mundo um governo de deuses.  Tudo o que sucede tem a sua explicação suficiente em qualquer acto que o precedeu; o que nos acontece e o que acontece a todos os animais e a todos os objectos não é mais do que o resultado do que aconteceu em momentos anteriores. Um homem bastante inteligente que conhecesse a totalidade do universo num certo instante e as leis que regulam as transformações poderia predizer o que se passaria no instante seguinte. Só a nossa ignorância e a nossa limitação intelectual nos fazem aparecer os fenómenos como isolados, como surgindo por acaso, ou nos podem dar a ilusão de que algum acto se perdeu, sem efeito. Nenhuma acção boa, nenhuma acção má deixam de mover a grande máquina, deixam de se incorporar no universal fluxo, todas sendo causadas, todas causando por seu turno. A cadeia de causas e efeitos é a verdadeira natureza do universo e não há possibilidade de nenhum pensamento libertador sem que a ideia se ponha nitidamente; de contrário, só teremos o recurso de nos entregarmos nas mãos de deuses que nos dirijam à sua vontade ou de admitir que tudo sucede por acaso. Qualquer das duas hipóteses é, segundo o Buda, perfeitamente absurda.

Poderia supor-se, com uma visão superficial, que a morte quebra estes laços, que interrompe, num determinado momento, num determinado lugar, a relação de causa e efeito; é uma pura ilusão, como tantas outras em que vivemos. A morte não é mais do que um dos elos da cadeia. E verdadeiramente não há morte, como não há nascimento, senão no sentido de que nos aparece alguma coisa de novo. Uma corrente de vida percorre todo o mundo, eternamente, sem admitir falhas sem interrupções. O homem a que chamamos morto está na realidade tão vivo como nós, simplesmente com uma forma diferente de vida. Como amanhã poderá ter a de mineral ou a de árvore. É esta a interpretação que, segundo parece, convém dar à ideia de transmigração budista. Não se trata propriamente da passagem de uma alma para outro homem, ou para um animal, ou para uma planta, mas o reconhecimento de que nada suspende quanto a essa alma o fluxo de vida que constitui o próprio universo. Morrer é um aspecto diferente de ser. Vive-se por toda a eternidade, embora se mude exteriormente; mas o exterior nada é do que aparência e engano.»

Agostinho da Silva («O Budismo»).



 

Gautama Buda

(...) As primeiras palavras pronunciadas pelo Buda depois da «iluminação» chamam-se as «bem-aventuranças». São como que a indicação das qualidades que deve possuir o homem que deseja ser salvo, a lista do que cada um deve encontrar em si próprio para se assegurar de que atingiu a libertação. E bem-aventurado o que vive só, mesmo entre uma multidão, o que se sente separado dos interesses vulgares porque conhece e vê a verdade; é bem-aventurado o que, no confluir e no tumulto das doutrinas, no embate de paixões e de instintos, de loucuras e esperanças, de anseios e de desânimos, se mantém firme como um sólido rochedo sobre as águas, como torre sobre a areia dos desertos. É bem-aventurado o que viu o fim de todo o impulso e de todo o «querer ser»; é bem-aventurado o que venceu a teimosia do «eu» e o sente dissolver-se, perdendo-se, e garantindo a liberdade que, com ele, jamais encontraria.

Depois, vai em busca dos cinco monges com quem vivera e encontra-os na cidade santa de Benares. Estão na mesma disposição de hostilidade e de dureza perante o traidor, mas a atitude do sábio domina-os imediatamente; é a eles que Buda prega o que pode ser considerado como o texto fundamental do budismo, o resumo de toda a doutrina. Expõe-lhes a primeira «verdade santa», a de que a vida é instabilidade e dor, e sempre foi e sempre será instabilidade e dor para o comum do universo. Em seguida, que a origem da dor é a sede de existir, que o desejo cria o ser e o torna infeliz. A terceira «verdade» é, naturalmente, a de que a supressão da dor só se poderá conseguir com a supressão do desejo; na quarta «verdade», indica-lhes o caminho a seguir para se atingir o nirvana: pureza de fé e de vontade, de palavra e de acção. Pureza na maneira de existir, não roubando nem matando, pureza na aplicação da tarefa de libertar-se, pureza de memória, pureza de meditação.

É importante notar-se que Buda não se apresenta como o portador de um dogma a que os outros devem respeito e obediência cega. Ele quer que todos pensem e critiquem, que ninguém se deixe, até, levar pelo respeito, pela simpatia que possam ter pela sua pessoa. O caminho que o trouxe até às suas verdades foi afinal um caminho de inteligência, de raciocínio; não há motivo algum para que ele subitamente se suspenda. Além de tudo, a verdade não se toma feita do pensamento dos outros. Exige que cada um de nós a refaça, caso contrário será morta e inútil. Não é do exterior para nós que se terá de desenrolar o caminho da salvação, mas de dentro do homem para fora do homem, do seu espírito para o universo.

Quem pretende imitar o Buda não tem que acreditar nem em textos, nem em ritos, nem no prestígio dos sacerdotes. Que tudo se construa de novo, que tudo se erga a golpes de razão, que se procure no íntimo a luz salvadora, porque é em nós que a verdade reside. A palavra de fora pode despertar da ilusão; mas é a nossa alma que será o guia.

Muitos acorreram a ouvir a pregação de Buda e abandonaram logo as suas casas para melhor alcançarem o nirvana; reuniam-se em grupos e viviam de esmolas nos bosques e palácios que admiradores ricos punham à sua disposição. Na estação seca erravam pela Índia, a ensinar a doutrina. Observavam os preceitos de não matar, não roubar, não ter relações sexuais, nem vanglória de se sentirem perfeitos. Pouco depois apareceram os primeiros grupos de monjas, embora a mulher fosse considerada como um ser inferior e perigoso, muito mais perto de Mara do que do paraíso das bem-aventuranças. Fora, os laicos simpatizantes iam aumentando de número; tinham tomado da doutrina de Buda o que era compatível com a vida que continuavam a levar, mas distinguiam-se pela bondade, pela honestidade, pelo sereno comportamento em todos os actos da existência.

Não havia templos budistas, nem se adorava nenhum deus. Buda não lhes negara a existência explicitamente, mas a sua concepção do universo era formada de tal modo que dispensava a sua intervenção, quer no curso normal da vida, quer no que respeita ao acto de salvar-se. É neste sentido que a doutrina de Buda é um ateísmo e tem sido por muitos considerado não como uma religião mas como uma filosofia; os deuses, mesmo que existam, serão dispensáveis. Buda não perde tempo a esclarecer os problemas que não importam directamente ao estabelecimento de uma doutrina de salvação e de uma norma de vida e era exactamente esse caso o que se dava com os deuses.

Quanto a acto de culto, nenhum havia a praticar. Ninguém se salvava pelo acto exterior de um sacrifício ou de um rito, a prece não tinha poder mágico, o sacerdote não tinha maior conhecimento dos segredos do mundo. Não se dava com o budismo desse tempo o que acontecia com outras religiões em que se conferia todo o poder à superstição e a uma espécie de feitiçaria que apagava com os seus actos todos os pecados do fiel. Buda vai, quanto a este ponto, na linha de pensamento de contemporâneos seus, os profetas da Judeia e os taoistas da China. O que importa é que a vida seja pura, não que se cumpra o preceito exterior da reza ou da esmola indiferente. As leis escritas nos livros dos templos são mortas e secas; só valem as leis que se inscrevem nas almas e passam como que a fazer parte da sua própria estrutura. Para o budista, o importante reside nos actos da vida; é aquilo que cada um faz, não aquilo que cada um diz, o que o perde ou o salva.



Nas comunidades dos monges havia duas cerimónias que, embora, pudessem recordar certos ritos, estavam, no entanto, profundamente ligadas ao desejo de pureza na vida; chamava-se uma a «confissão», a outra o «convite». Na primeira, os monges reunidos confessavam alto, cada um por sua vez, as violações de preceitos que tinham cometido; para eles era um princípio de libertação e um tomar de consciência que lhes dava maior força para a sua tarefa de salvar-se. Para os outros, era uma ocasião de meditarem sobre os pecados idênticos que tinham cometido e de, ao mesmo tempo, se não verem como réprobos no mundo, mas como membros de uma humanidade fraca e incerta, a cada passo descendo ao caminho da ilusão e do engano. No «convite», cada monge erguia-se e declarava o que lhe tinha parecido mal na comunidade e o que tinha notado de repreensível em qualquer dos seus companheiros; reconhecia-se que só a crítica livre podia evitar à comunidade grandes males e impedia-se o gosto da maledicência e da calúnia.

Embora não fizesse parte de uma comunidade, Buda andava sempre com alguns companheiros, ou dos discípulos antigos ou dos que mais recentemente se tinham convertido. As aldeias mais humildes como as cidades mais poderosas viam-no passar com a sua pobre túnica e ir de casa a casa com a tigela das esmolas. Não fugia dos homens, antes procurava que o convidassem para ter ocasião de lhes comunicar as suas doutrinas; tratava os homens de todas as castas e de todas as raças como irmãos que muito amava sem fazer entre eles a menor distinção. E, entre os monges, apareciam, ao lado de príncipes, de mercadores e de guerreiros, discípulos que provinham das classes mais desprezadas.

Todos viam Buda não como um deus que descera dos céus a pregar-lhes a verdade, mas como um homem de superior inteligência e de perfeita moral que tinha conseguido descobrir o caminho da salvação e fora bastante generoso para o ensinar aos outros; tratavam-no com veneração, mas não o adoravam. Era o mestre cuja doutrina se ouvia e se discutia, que se não mostrava ofendido por nenhuma dúvida, nem adoptava as atitudes superiores de quem pertence de direito a planos ultraterrenos. Era, na realidade, um homem como eles, da sua mesma natureza, embora com qualidades que o distinguiam dos outros. À medida que avança em idade – e a sua pregação estende-se, segundo a cronologia mais de aceitar, por cerca de 50 anos –, maior se torna o respeito que todos sentem por ele, pela sua vida admirável de pureza e de bondade, mas não acode a ninguém o pensamento de o divinizar, de tal maneira Buda se mantinha deliberadamente na esfera do humano e do racional.

Ao contrário de outros fundadores de religiões, Buda não faz milagres; pelo menos, não existe a narrativa de nenhum nos textos que nos merecem mais confiança. O milagre era, de resto, perfeitamente absurdo num mundo determinado de que se tinha afastado a vontade arbitrária dos deuses. O facto de não aparecerem acontecimentos miraculosos não quer dizer que se não contem factos que são realmente extraordinários; são quase todos referentes à bondade de Buda e ao seu império sobre o mundo dos homens e dos irracionais.

Era natural que a imaginação ardente do hindu tivesse ido além do verdadeiro; mas também não vai muito longe do razoável acreditar que Buda tivesse amansado elefantes bravios que acorriam para o matar, ou dominado às primeiras palavras ou só com a vista os adversários que dele se aproximavam com intuitos maléficos. A sua inesgotável benevolência abatia todo o furor cego e todo o ódio.

Algumas vezes surgiram divergências entre os monges. Um primo de Buda é apresentado nos textos como tendo-se revoltado contra o próprio mestre e feito a exigência de um maior rigorismo na regra monástica. Era decerto um espírito organizador, a quem parecia um erro a inexistência de um poder central forte e a demasiada indulgência do fundador. Por um lado, devia-se obrigar os monges a um estrito ascetismo, por outro lado pôr cobro à anarquia que tudo acabaria por perder. Não teve, porém, consigo nem a opinião de Buda, nem o assentimento da maioria dos monges. Ele próprio acabou por ver que a libertação da vida, no sentido búdico, e organização de vida são incompatíveis e que o desenvolvimento livre das comunidades, apesar dos perigos inegáveis, trazia vantagens, que se não podiam eliminar sem maiores riscos, para o progresso espiritual dos discípulos.

Por volta dos 80 anos, sentiu Buda que já tinha pouco tempo para viver e, a convite de Ananda, o seu discípulo favorito, fez uma última recomendação de que ninguém se apresentasse como guia ou como chefe dos outros, cada qual traz a luz em si próprio e a ela deve recorrer. Depois, dirigiu-se a Pava e, apesar de já doente, não recusou tomar parte numa festa para que o convidaram. À mesa serviram carne de javali e Buda, para não ofender o amigo hospitaleiro, comeu da carne que lhe deram; teve uma indigestão ou uma infecção intestinal e foi morrer a Cussínara, à sombra de umas árvores, junto de Ananda e doutros monges. No dia seguinte, ao despontar do Sol, os nobres da cidade, segundo o costume, queimaram o corpo de Buda, mas com honras que só se prestavam aos reis.

Agostinho da Silva («O Budismo», in Páginas Esquecidas, Fixação do texto, selecção, introdução e notas de Helena Briosa e Mota, Quetzal, 1.ª edição, 2019, pp. 317-321).



domingo, 1 de março de 2026

O "ponto de vista tibetano" acerca da morte

Escrito por T. Lobsang Rampa




« – Houve  pessoas que afirmaram e escreveram que o senhor não tem o ar de um tibetano.

– De facto? O senhor acredita que as pessoas dum dado país se assemelham sempre à ideia que deles faz a imaginação popular? Tome por exemplo um pequeno país, a Inglaterra. Existe um único inglês que seja “típico”? O pequeno galês trigueiro é mais ou menos “inglês” do que o enorme escocês louro? E reciprocamente?

Repare: na Índia, as pessoas de alta casta são muitas vezes tão brancas de pele que poderiam passar por europeus; entretanto, na imaginação das pessoas, o indiano-tipo é pequeno, escuro e vestido de andrajos.

O personagem que simboliza a Inglaterra, John Bull, devia ser o inglês-tipo. Existe na realidade? Não. E o Tio Sam? Assemelham-se os Americanos ao Tio Sam? É evidente que não. Sendo assim, quando me dizem que não tenho o ar dum tibetano, sorrio. Que posso fazer perante pessoas que dão mostras duma tal ignorância da vida e das formas da vida?

(...) – A imprensa daqui publicou uma carta do dalai-lama que diz que o senhor é um impostor. Quer responder a isso?

 – A imprensa deu um grande destaque a uma pretensa declaração do dalai-lama, segundo a qual eu não seria “autêntico”. O dalai-lama não disse nada disso. Todos sabem que as pessoas “altamente colocadas” tem um grande número de secretários. Trudeau, por exemplo, tem uma imensidão de secretários que – dentro de certos limites, bem entendido – estão autorizados a escrever o que lhes parece oportuno; isto porque Trudeau não tem evidentemente tempo para se ocupar pessoalmente de todos os seus correspondentes. No que me diz respeito, sei justamente que um dos secretários do dalai-lama não me vê com bons olhos, donde expressões como: “Nós não concedemos crédito...”, o que, de qualquer modo, é muito diferente do que a imprensa tenta insinuar. A propósito, foi o senhor mesmo que me disse que dois lamas tinham estudado o “assunto Rampa” e que um deles se me tinha oposto enquanto o outro se pronunciou inteiramente a meu favor. Como é que se explica que as pessoas estejam sempre prontas a adoptar o partido desfavorável?

Um escritor americano muito conhecido foi ver o dalai-lama, na Índia, e voltou portador duma mensagem assegurando-me que quando o Tibete fosse libertado o dalai-lama me acolheria no Potala. Não, não coloque na boca do dalai-lama palavras que ele não pronunciou. Pelo contrário, considere suspeito o que foi dito pelos seus secretários. O senhor não conhece os seus intentos. Eu creio conhecê-los.

Desejo fazer ainda uma outra observação que, até agora, ainda não apareceu nas suas perguntas. A imprensa parece perplexa acerca da minha identidade. Pergunto-me porquê. Note que me encontro neste ponto em boa companhia. Quem era Shakespeare? Quem era Bacon? Quem era Moisés? Tantos problemas sobre identidades acerca das quais ainda se discute! Por outro lado, para lhe dar uma ideia da enormidade de certas declarações de jornalistas, vou mostrar-lhe um recorte de imprensa onde se diz que Cristo viveu no Japão e que morreu lá. Acredita o senhor neste absurdo? Então porque acreditar em todas essas parvoíces que a imprensa publica a meu respeito? A propósito, espero que produza o recorte em questão. Isso há-de interessar as pessoas.





(...) – Pretendem alguns que o senhor copiou provavelmente a Sr.ª Blavatsky ou a Sr.ª Alexandra David-Néel.

Cada vez mais cómico? Não, eu não copiei ninguém. Não possuo obras de referência. Nunca li nenhuma das obras da Sr.ª Blavatsky nem nenhuma das da Sr.ª David-Néel. Escrevo exclusivamente de acordo com a minha experiência pessoal e parece-me que isto é inteiramente adequado.






Pretendem alguns que o senhor foi contratado por Hitler para se deslocar ao Tibete a fim de aí seguir um certo treino, para, depois voltar para junto dele e o aconselhar.

– O senhor acredita seriamente que vou responder a uma tal pergunta? Pois bem, vou mesmo responder a essa pergunta! Ainda que o senhor dê a impressão de ter andado a percorrer os asilos de alienados para encontrar pessoas capazes de fazer perguntas tão loucas!

Não, nunca fui contratado por Hitler para ir ao Tibete. Se o senhor quer saber toda a verdade, a verdade completa e nada mais que a verdade, leia o meu décimo terceiro livro. Está já a ser impresso. Quando o tiver lido, ficará a saber tudo. [Perguntámos a Louis Pauwels (autor de Le Matin des Magiciens) o que sabia da identidade de Rampa. Segundo este célebre autor francês, não é impossível que T. Lobsang Rampa tenha feito parte do grupo de político-místicos que se deslocou ao Tibete sob a direcção pessoal de Himmler e a pedido do próprio Hitler.

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Bruno Beger. Ver aqui

Querendo obter outros esclarecimentos dirigimo-nos a Simon Wiesenthal (o “caçador de nazis” que conseguiu a captura de mais de 1000 criminosos de guerra -  entre os quais Eichman). O seu Centre de Documentation de Vienne não possui qualquer dossier preciso sobre Rampa que, não sendo um criminoso, não é procurado. Contudo, este especialista não afasta a possibilidade de Lobsang Rampa ter podido fazer parte duma certa organização sob o nome de Thulé a que Pauwels se refere longamente no Le Matin des Magiciens.


Simon Wiesenthal


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Outro pormenor que aos olhos de algumas pessoas dá peso às suspeitas de Pauwels e aos rumores que circulam a respeito de Rampa: este viveu algum tempo no Uruguai; ora, é bem sabido que no fim da guerra numerosos nazis se refugiaram precisamente na América do Sul].»

«Rampa explica-se» (in Alain Stanké, «Lobsang Rampa – O Enigma»).




 

O "ponto de vista tibetano" acerca da morte



Palácio de Potala (Lassa, Tibete).

Antes de descrever os nossos métodos para dispor dos corpos dos mortos talvez seja aconselhável explicar mais pormenorizadamente o ponto de vista tibetano acerca da morte. A nossa atitude é muito diferente da dos povos ocidentais. Para nós um corpo não é mais que uma “casca”, uma cobertura material para o espírito imortal. Para nós um corpo vale menos que um traje velho que se abandona. No caso de uma pessoa que morre de morte natural, isto é, não de forma violenta e súbita, consideramos que o processo se passa assim: o corpo está doente, falhado, e tornou-se tão desconfortável para o espírito que este é incapaz de aprender quaisquer lições mais. Chegou portanto a hora de jogar fora o corpo. Pouco a pouco, o espírito retira-se e exterioriza-se; a forma espiritual tem exactamente o mesmo contorno que o invólucro carnal e pode ser visto nitidamente por um clarividente. No momento da morte, o cordão que junta os corpos físico e espiritual (o “Cordão de Prata” da Bíblia cristã) adelgaça-se, quebra-se e o espírito afasta-se. É nessa ocasião que ocorre a morte, que não é mais que o nascimento de uma vida nova, pois esse cordão é semelhante ao cordão umbilical que é cortado para permitir ao recém-nascido uma existência independente. No momento da morte o resplendor da força vital extingue-se à volta da cabeça. Esse resplendor também pode ser visto por um clarividente.

Na nossa opinião, um corpo leva três dias a morrer; é esse o tempo necessário para a cessação de toda a actividade física e para o espírito, a alma, ou o ego, se libertar completamente do seu invólucro carnal. Acreditamos que durante a vida de um corpo se forma um duplo etéreo; esse duplo pode tornar-se um fantasma. Provavelmente toda a gente já sentiu a seguinte sensação: depois de olhar para uma luz forte virar-se e, aparentemente, continuar a ver a luz. Nós consideramos a vida um fenómeno elétrico, um campo de força, e esse duplo etéreo que fica para além da morte é semelhante à luz que se vê depois de olhar para um forte foco luminoso, ou, em termos de electricidade, como um forte campo magnético residual. Se o corpo tem razões fortes para se agarrar à vida cria uma força etérea, e esta forma um fantasma que fica a habitar os cenários familiares.


Há três corpos básicos: o carnal, por intermédio do qual o espírito aprende as árduas lições da vida; o etéreo, ou magnético, que é construído por cada um de nós com a nossa lascívia, os nossos apetites, as nossas paixões fortes; e o espiritual, a “alma imortal”. Esta é a nossa crença lamaísta, que não corresponde necessariamente à crença budista ortodoxa. Uma pessoa, ao morrer, tem de passar por três estágios: é preciso dispor do seu corpo físico; é preciso dissolver o seu etéreo; e é preciso ajudar o seu espírito a encontrar o seu caminho no seu plano de existência especial. Os antigos egípcios acreditavam também nesse duplo etéreo, nos guias dos mortos e no mundo do espírito. No Tibete ajudamos as pessoas antes de morrerem. O homem instruído não tem necessidade de tal auxílio, mas o homem comum, o trappa, tem de ser guiado através de toda a viagem. Talvez seja interessante descrever o processo. Um dia, o muito honrado mestre dos mortos mandou chamar-me. “É tempo de estudares os métodos práticos de libertar a alma, Lobsang. Hoje, irás comigo”. Caminhámos ao longo dos compridos corredores, descemos degraus escorregadios, até aos aposentos dos trappas. Ali, numa “enfermaria”, um velho monge aproximava-se daquela estrada que todos nós havemos um dia de percorrer. Tivera um ataque e estava fraquíssimo. As forças faltavam-lhe e, enquanto o observava, as suas cores aureolares esmoreciam. Tinha de ser mantido consciente a todo o custo até não haver mais vida para manter esse estado. O lama que estava comigo tomou com gentileza entre as suas as mãos do moribundo. “Aproximas-te do momento de te libertares dos sofrimentos da carne. Ouves-me bem para que possas escolher o caminho mais fácil. Os teus pés esfriam. A tua vida esvai-se. Compõe os teus pensamentos, pois nada há a temer. A vida abandona os teus membros e a tua visão torna-se indistinta. O frio vem subindo por ti, seguindo a vida que te foge. Compõe os teus pensamentos, pois nada há a temer na libertação da vida para uma realidade maior. As sombras da noite eterna começam a toldar a tua vista e a tua respiração dificilmente passa pela tua garganta. Aproxima-se o momento para a libertação do teu espírito, para que este goze dos prazeres da vida eterna. Compõe os teus pensamentos, a hora da tua libertação aproxima-se”.



Enquanto assim falava, o lama passava a mão desde a clavícula do alto da cabeça do moribundo de uma forma que se provou libertar o espírito com um mínimo de dor. O moribundo ia sendo constantemente avisado dos obstáculos que lhe surgiam no caminho e da melhor maneira de os evitar. Descrevia-se-lhe com exactidão a estrada, estrada que tinha sido determinada pelos lamas telepáticos já mortos e que continuavam a comunicar-se connosco da vida eterna.

“A tua visão desapareceu completamente e a tua respiração está a parar dentro de ti. O teu corpo se esfria e os sons desta vida já não chegam aos teus ouvidos. Compõe os teus pensamentos em paz, pois a tua morte chegou. Segue a estrada que te indicamos e encontrarás paz e alegria.”

Os movimentos da mão do lama continuavam enquanto a auréola do velho se desvanecia cada vez mais até desaparecer completamente. O lama soltou um grito súbito e explosivo, um ritual antiquíssimo que ajuda a libertar completamente o espírito. A força vital juntou-se numa massa semelhante a uma nuvem sobre o corpo imóvel agitando-se em grande confusão até formar-se uma réplica esfumada do corpo a que tinha estado ligada pelo “Cordão de Prata”. O “Cordão” adelgaçou-se lentamente e assim como um bebé renasce quando se corta o cordão umbilical, assim o velho renasceu  na vida seguinte. Lentamente, como uma nuvem no céu, ou o fumo de incenso num templo, aquela forma afastou-se. O lama continuou a dar instruções telepáticas durante a primeira fase da jornada. “Estás morto. Aqui nada mais há para ti. Cortaram-te os nós que te prendiam à carne. Estás no bardo. Segue o teu caminho e nós seguiremos o nosso. Segue o caminho prescrito. Abandona este mundo de ilusão e entra na Realidade Maior. Estás morto. Continua o teu caminho.”

As nuvens de incenso elevavam-se no ar. A distância, os tambores rufavam surdamente; dum ponto alto do telhado do mosteiro uma trombeta grave lançava sobre a paisagem a sua mensagem de morte; dos corredores, lá fora, chegavam até nós os sons de uma vida vigorosa, o arrastar de botas de feltro e o mugir cavo de um iaque. Mas ali, naquele pequeno quarto, tudo era silêncio: o silêncio da morte. Só as instruções telepáticas do lama agitavam a camada do silêncio. A morte: outro velho partira na sua roda da existência, aproveitando talvez as lições desta vida, mas destinado a continuar até atingir o estado de Buda, ao fim de longo e continuado esforço.

(In T. Lobsang Rampa, A 3ª Visão, Record, 8.ª Edição, pp. 234-237).




quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O Espectro do Umbral

Escrito por Sir Edward Bulwer-Lytton





«Bulwer Lytton, erudito genial, célebre em todo o Mundo pela sua narrativa Os Últimos Dias de Pompeia, não esperava sem dúvida que um dos seus romances, dezenas de anos mais tarde, inspirasse na Alemanha um grupo místico pré-nazi. No entanto, em obras como A Raça que nos há-de suplantar ou Zanoni, pretendia aludir às realidades do mundo espiritual, e mais especialmente do mundo infernal. Considerava-se um iniciado. Através da efabulação romanesca exprimia a certeza de que existem seres dotados de poderes sobre-humanos. Esses seres suplantar-nos-ão e conduzirão os eleitos da raça humana a caminho de uma formidável mutação.











É preciso prestar atenção a esta ideia de mutação de raça, pois viremos a encontrá-la em Hitler, e ainda se não extinguiu. É preciso também dar atenção à ideia dos “Superiores Desconhecidos”. Encontramo-la em todas as místicas negras do Oriente e do Ocidente. Habitando debaixo da terra ou vindos de outros planetas, gigantes semelhantes a esses que dormiriam sob uma carapaça de ouro nas criptas tibetanas, ou então presenças informes e terrificantes, tais como as descrevia Lovecraft, esses "Superiores Desconhecidos" evocados nos ritos pagãos e luciferinos existirão realmente? Quando Machen fala do mundo do Mal, “cheio de cavernas e de habitantes crepusculares”, é ao outro mundo, àquele onde o homem toma contacto com os “Superiores Desconhecidos”, que se refere, como discípulo da Golden Dawn. Parece-nos certo que Hitler partilhava dessa crença. Mais: que ele pretendia ter a experiência de contactos com os “Superiores”.

(...) Não temos a loucura de pretender explicar a história por meio das sociedades iniciáticas. Mas veremos, curiosamente, que tudo teve importância e que, através do nazismo, foi “o outro mundo” que exerceu autoridade sobre nós durante alguns anos. Ficou vencido. Mas não morreu, nem do outro lado do Reno, nem noutros sítios. Isso não é horroroso, a nossa ignorância é que é horrorosa.



Ver aqui

Samuel Liddell MacGregor Mathers

Já fizemos notar que Samuel Mathers fundara a Golden Dawn. Mathers pretendia estar em comunicação com esses “Superiores Desconhecidos” e ter estabelecido os contactos em companhia de sua mulher, irmã do filósofo Henri Bergson. Eis a seguir uma passagem do manifesto aos “Membros da segunda ordem”, que ele escreveu em 1896:

 “A respeito desses Chefes Secretos, aos quais me refiro e de que recebi as instruções da Segunda Ordem que vos comuniquei, nada vos posso dizer. Nem sequer sei os seus nomes terrenos e só muito raramente os vi com os seus corpos físicos... Eles encontram-se fisicamente no tempo e no lugar antecipadamente fixados. Na minha opinião, creio que são seres humanos que habitam a Terra, mas que possuem poderes terríveis e sobre-humanos... As minhas relações físicas com eles mostraram-me quão difícil é para um mortal, por muito evoluído que seja, suportar-lhes a presença. Não quero dizer que, durante esses raros encontros que com eles tive, o efeito em mim produzido tenha sido o de depressão física intensa que se segue à perda do magnetismo. Pelo contrário, sentia-me em contacto com uma força tão terrível que só a posso comparar ao efeito provocado numa pessoa que esteve perto de um relâmpago durante uma violenta trovoada, acompanhado por uma grande dificuldade em respirar... À prostração nervosa de que falei juntavam-se suores frios e perdas de sangue pelo nariz, boca e, por vezes, pelos ouvidos.”



Hitler conversava um dia com Rauschning, chefe do governo de Dantzig, a respeito do problema da mutação da raça humana. Rauschning, que não possuía a chave de tão estranha preocupação, interpretava as frases de Hitler como frases de um criador de gado que procurasse melhorar o sangue alemão.

“Mas não pode fazer outra coisa senão auxiliar a natureza, dizia ele, abreviando o caminho a percorrer! É preciso que a própria natureza lhe dê uma nova variedade. Até agora, só raramente o criador obteve bons resultados, em relação à espécie animal, no desenvolvimento das mutações, quer dizer, em criar ele próprio novos caracteres.

– O homem novo vive entre nós! Já chegou! – exclamou Hitler em tom triunfante. –Isto não lhe basta? Vou dizer-lhe um segredo. Eu vi o homem novo. É intrépido e cruel. Tive medo diante dele.

“Ao pronunciar estas palavras, acrescenta Rauschning, Hitler tremia num ardor extático”.


 

E Rauschning conta também esta cena estranha, a respeito da qual se interroga em vão o doutor Achille Delmas, especialista de psicologia aplicada. De facto, neste caso, a psicologia não se aplica:

“Uma pessoa da intimidade de Hitler disse-me que ele acorda durante a noite soltando gritos convulsivos. Pede socorro, sentado na beira da cama, como que paralisado. É possuído por um pânico que o faz tremer a ponto de sacudir a cama. Profere vociferações confusas e incompreensíveis. Arqueja como se estivesse a sufocar. A mesma pessoa relatou-me uma dessas crises com pormenores em que me recusaria a acreditar se a fonte não fosse de tanta confiança. Hitler estava de pé no seu quarto, cambaleante, olhando em redor com ar desvairado. “É ele! É ele! Ele esteve aqui!”, gemia. Os lábios tremiam-lhe. O suor escorria abundantemente. De súbito pronunciou números sem qualquer sentido, depois palavras, restos de frases. Era pavoroso. Empregava termos curiosamente reunidos, absolutamente extraordinários. Depois, novamente, voltara a ficar silencioso, mas continuara a mexer os lábios. Tinham-no então friccionado, e fizeram-no tomar uma bebida. Depois, subitamente, berrou: “Ali, ali no canto! Está ali!”. Batia com o pé no chão e soltava gritos. Tranquilizaram-no dizendo-lhe que nada se passava de anormal, e ele acalmou-se pouco a pouco. Em seguida, dormira várias horas e voltara a ser quase normal e suportável”.






Deixamos ao leitor o cuidado de comparar as declarações de Mathers, chefe de uma pequena sociedade neopagã do fim do século XIX, e os ditos de um homem que, no momento em que Rauschning os coligia, se preparava para lançar o mundo numa aventura que provocou vinte milhões de mortos. Pedimos-lhe que não despreze esta comparação e a sua lição, a pretexto de que a Golden Dawn e o nazismo são, aos olhos do historiador razoável, coisas completamente diferentes. O historiador é razoável, mas a história não o é. São as mesmas crenças que animam os dois homens, as suas experiências fundamentais são idênticas, a mesma força os impele. Pertencem à mesma corrente de pensamento, à mesma religião. Essa religião ainda não foi verdadeiramente estudada. Nem a Igreja, nem o racionalismo, que é outra igreja, o permitiram. Nós entramos numa época do conhecimento na qual tais estudos se tornarão possíveis porque a realidade desvendará a sua faceta fantástica e ideias ou técnicas que nos pareciam anormais, desprezíveis ou odiosas, apresentar-se-ão úteis para a compreensão de um real cada vez menos tranquilizador.»

Louis Pauwels e Jacques Bergier («O Despertar dos Mágicos»). 



O Espectro do Umbral 


“Vês que guarda está sentado no vestíbulo? Que face vigia o umbral?”

A Eneida, liv. VI, 574

 

Noite profunda. Tudo no velho castelo repousa... Um silêncio sepulcral reina sob as pálidas estrelas.

É o tempo propício. Mejnour, com a sua sabedoria austera. Mejnour, o inimigo do amor. Mejnour, cujos olhos saberão ler no seu coração, negar-lhe-á os segredos prometidos, porque o belo semblante de Filida perturba essa existência. Mejnour virá amanhã! Aproveite esta noite! Não tenha medo! Agora ou nunca! Assim, o intrépido jovem... intrépido, a despeito de todos os seus erros... Assim, com pulso firme, a sua mão abre de novo a porta vedada.

Glyndon colocou a sua lâmpada ao lado do livro, que ainda ali estava aberto. Virou uma folha e outras, mas sem poder decifrar o seu significado, até que chegou ao seguinte trecho:

“Quando, pois, o discípulo está desta maneira iniciado e preparado, deve abrir a janela, acender as lâmpadas e humedecer as suas fontes com o elixir. Mas que tenha o cuidado de não se atrever a tomar muita coisa do volátil e fogoso espírito. Prová-lo, até que, por meio de repetidas inalações, o corpo se tenha acostumado gradualmente ao estático líquido, é buscar, não a vida, mas sim a morte.”

Glyndon não pôde avançar mais nas suas instruções, pois as cifras estavam de novo mudadas. O jovem pôs-se a olhar fixa e seriamente à sua volta, dentro do quarto. Os raios da lua entraram silenciosamente através da cortina quando a sua mão abriu a janela, e assim que a sua misteriosa luz se fixou nas paredes e no solo da habitação, parecia como se tivesse entrado nela um poderoso e melancólico espírito. Depois, preparou as nove lâmpadas místicas no centro do quarto, e acendeu-as uma a uma. De cada uma delas brotou uma chama azul prateado, espalhando no aposento um resplendor tranquilo, mas ao mesmo tempo deslumbrante. Esta luz foi-se tornando, pouco a pouco, mais suave e mais pálida, enquanto uma espécie de fina nuvem parda, semelhante a uma névoa, se espalhava gradualmente pelo quarto. E, subitamente, um frio agudo e penetrante invadiu o coração do inglês e estendeu-se por todo o seu corpo, como o frio da morte. O jovem, conhecendo instintivamente o perigo que corria, quis andar, mas só o conseguiu com grande dificuldade, porque as suas pernas tinham-se tornado rígidas como se fossem de pedra. No entanto, ainda pôde chegar à prateleira onde estavam os vasos de cristal. Apressadamente inalou um pouco do maravilhoso espírito, e lavou as suas fontes com o cintilante líquido. Então, a mesma sensação de vigor, juventude, alegria e leveza etérea que tinha sentido pela manhã substituíram instantaneamente o entorpecimento mortal que um momento antes lhe invadira o organismo, pondo em perigo a sua vida. Glyndon cruzou os braços e, impávido, esperou pelo resultado.



O vapor tinha, agora, assumido a densidade e a aparente consistência de uma nuvem de neve, por entre a qual as lâmpadas luziam como estrelas. O inglês via distintamente algumas sombras que, assemelhando-se, no seu exterior, às formas humanas, moviam-se devagar e com regulares evoluções através da nuvem. Estas sombras eram corpos transparentes, evidentemente sem sangue e contraíam e dilatavam-se como as dobras de uma serpente. Enquanto se moviam vagarosamente, o jovem ouviu um som débil e baixo, porém musical, que se assemelhava a um canto de uma inexprimível e tranquila alegria. Nenhuma dessas aparições reparava nele. O veemente desejo que sentia de se aproximar delas, de ser nelas incluído, de executar um daqueles movimentos de etérea felicidade – pois assim lhe parecia que era a sensação que as acompanhava –, fez com que estendesse os seus braços, esforçando-se por chamar, com uma exclamação, a atenção desses seres, mas apenas um murmúrio inarticulado saiu dos seus lábios. O movimento e a música prosseguiam, como se não houvesse ali nenhum ser mortal. Aqueles seres etéreos, semelhantes a sombras, deslizavam tranquilamente pelo quarto, girando e voando, até que, na mesma majestosa ordem, um atrás do outro, saíam pela janela e perdiam-se na luz da lua. Foi então que, enquanto os olhos de Glyndon os seguiam, a janela se obscureceu com algum objecto, a princípio indistinto, mas que, misteriosamente, foi suficiente para transformar, por si só, em indizível horror o prazer que o jovem experimentara até então. Este objecto foi gradualmente tomando forma. Aos olhos do inglês, parecia ser uma cabeça humana, coberta com um véu preto, através do qual luziam, com brilho demoníaco, dois olhos que gelavam o sangue nas suas veias. Nada mais se distinguia no rosto da aparição, a não ser aqueles olhos terríficos. Porém, o terror que o jovem sentia e que, a princípio, parecia irresistível, aumentou mil vezes ainda quando, após uma pausa, o fantasma entrou devagar no interior do quarto. A nuvem ia-se dissipando à medida que a aparição se aproximava. As lâmpadas empalideciam e tremeluziam inquietas, como tocadas pelo sopro do fantasma. O corpo e o rosto ocultavam-se debaixo de um véu, porém, pela sua forma, adivinhava-se que era uma mulher, embora não se movesse como fazem as aparições que imitam os vivos. Parecia antes arrastar-se como um enorme réptil. Ao aproximar-se da mesa onde se encontrava o místico volume, deteve-se e agachou-se, fixando novamente o olhar, através do ténue véu, sobre o temerário invocador. O pincel mais fantástico e mais grotesco dos monges pintores medievais, ao retratar o demónio infernal, não teria sido capaz de lhe dar o aspecto tão maligno e horrível que se via nesses olhos aterrorizantes. O corpo do fantasma era tão preto, impenetrável e indistinguível, que lembrava uma monstruosa larva.

Porém, aquele olhar ardente, tão intenso, tão lívido e, não obstante, tão vivo, tinha em si algo que era quase humano na sua máxima expressão de ódio e escárnio, algo que revelava que a horripilante aparição não era um mero espírito, mas que tinha bastante matéria para, pelo menos, apresentar-se mais terrível e ameaçadora, como inimiga dos seres humanos encarnados. Glyndon, estarrecido e apavorado, parecia querer agarrar-se às paredes... Os seus cabelos eriçaram-se, os olhos pareciam querer saltar-lhe das órbitas e não se apartaram dos olhos reluzentes do fantasma. Por fim, este falou, com uma voz que falava mais à alma do que ao ouvido:

Entrou na região imensurável. Eu sou o Espectro do Umbral. O que quer de mim? Não responde? Teme-me? Não sou eu a sua amada? Acaso não tem sacrificado por mim os prazeres da sua raça? Quer ser sábio? Em possuo a sabedoria dos séculos inumeráveis. Venha, beije-me, oh querido mortal!

E enquanto o horroroso fantasma dizia estas palavras, arrastava-se cada vez mais para perto de Glyndon, até que se pôs a seu lado, tão próximo que o jovem sentiu no seu rosto o alento do espectro. Soltando um agudo grito, caiu, desmaiado, no chão, e nada mais soube do que ali se passara, pois quando, ao meio-dia do dia seguinte, voltou a si e abriu os olhos, encontrou-se na sua cama. Os raios do sol entravam-lhe no quarto através das persianas da janela e Mestre Paolo, junto ao seu leito, limpava a carabina e associava uma alegre canção calabresa.

(In Sir Edward Bulwer-Lytton, Zanoni, Zéfiro, 1.ª Edição, 2009, pp. 275-277).