domingo, 1 de março de 2026

O "ponto de vista tibetano" acerca da morte

Escrito por T. Lobsang Rampa




« – Houve  pessoas que afirmaram e escreveram que o senhor não tem o ar de um tibetano

– De facto? O senhor acredita que as pessoas dum dado país se assemelham sempre à ideia que deles faz a imaginação popular? Tome por exemplo um pequeno país, a Inglaterra. Existe um único inglês que seja “típico”? O pequeno galês trigueiro é mais ou menos “inglês” do que o enorme escocês louro? E reciprocamente?

Repare: na Índia, as pessoas de alta casta são muitas vezes tão brancas de pele que poderiam passar por europeus; entretanto, na imaginação das pessoas, o indiano-tipo é pequeno, escuro e vestido de andrajos.

O personagem que simboliza a Inglaterra, John Bull, devia ser o inglês-tipo. Existe na realidade? Não. E o Tio Sam? Assemelham-se os Americanos ao Tio Sam? É evidente que não. Sendo assim, quando me dizem que não tenho o ar dum tibetano, sorrio. Que posso fazer perante pessoas que dão mostras duma tal ignorância da vida e das formas da vida?

(...) – A imprensa daqui publicou uma carta do dalai-lama que diz que o senhor é um impostor. Quer responder a isso?

 – A imprensa deu um grande destaque a uma pretensa declaração do dalai-lama, segundo a qual eu não seria “autêntico”. O dalai-lama não disse nada disso. Todos sabem que as pessoas “altamente colocadas” tem um grande número de secretários. Trudeau, por exemplo, tem uma imensidão de secretários que – dentro de certos limites, bem entendido – estão autorizados a escrever o que lhes parece oportuno; isto porque Trudeau não tem evidentemente tempo para se ocupar pessoalmente de todos os seus correspondentes. No que me diz respeito, sei justamente que um dos secretários do dalai-lama não me vê com bons olhos, donde expressões como: “Nós não concedemos crédito...”, o que, de qualquer modo, é muito diferente do que a imprensa tenta insinuar. A propósito, foi o senhor mesmo que me disse que dois lamas tinham estudado o “assunto Rampa” e que um deles se me tinha oposto enquanto o outro se pronunciou inteiramente a meu favor. Como é que se explica que as pessoas estejam sempre prontas a adoptar o partido desfavorável?

Um escritor americano muito conhecido foi ver o dalai-lama, na Índia, e voltou portador duma mensagem assegurando-me que quando o Tibete fosse libertado o dalai-lama me acolheria no Potala. Não, não coloque na boca do dalai-lama palavras que ele não pronunciou. Pelo contrário, considere suspeito o que foi dito pelos seus secretários. O senhor não conhece os seus intentos. Eu creio conhecê-los.

Desejo fazer ainda uma outra observação que, até agora, ainda não apareceu nas suas perguntas. A imprensa parece perplexa acerca da minha identidade. Pergunto-me porquê. Note que me encontro neste ponto em boa companhia. Quem era Shakespeare? Quem era Bacon? Quem era Moisés? Tantos problemas sobre identidades acerca das quais ainda se discute! Por outro lado, para lhe dar uma ideia da enormidade de certas declarações de jornalistas, vou mostrar-lhe um recorte de imprensa onde se diz que Cristo viveu no Japão e que morreu lá. Acredita o senhor neste absurdo? Então porque acreditar em todas essas parvoíces que a imprensa publica a meu respeito? A propósito, espero que produza o recorte em questão. Isso há-de interessar as pessoas.





(...) – Pretendem alguns que o senhor copiou provavelmente a Sr.ª Blavatsky ou a Sr.ª Alexandra David Neel.

Cada vez mais cómico? Não, eu não copiei ninguém. Não possuo obras de referência. Nunca li nenhuma das obras da Sr.ª Blavatsky nem nenhuma das da Sr.ª David-Neel. Escrevo exclusivamente de acordo com a minha experiência pessoal e parece-me que isto é inteiramente adequado.






Pretendem alguns que o senhor foi contratado por Hitler para se deslocar ao Tibete a fim de aí seguir um certo treino, para, depois voltar para junto dele e o aconselhar.

– O senhor acredita seriamente que vou responder a uma tal pergunta? Pois bem, vou mesmo responder a essa pergunta! Ainda que o senhor dê a impressão de ter andado a percorrer os asilos de alienados para encontrar pessoas capazes de fazer perguntas tão loucas!

Não, nunca fui contratado por Hitler para ir ao Tibete. Se o senhor quer saber toda a verdade, a verdade completa e nada mais que a verdade, leia o meu décimo terceiro livro. Está já a ser impresso. Quando o tiver lido, ficará a saber tudo. [Perguntámos a Louis Pauwels (autor de Le Matin des Magiciens) o que sabia da identidade de Rampa. Segundo este célebre autor francês, não é impossível que T. Lobsang Rampa tenha feito parte do grupo de político-místicos que se deslocou ao Tibete sob a direcção pessoal de Himmler e a pedido do próprio Hitler.

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Bruno Beger. Ver aqui

Querendo obter outros esclarecimentos dirigimo-nos a Simon Wiesenthal (o “caçador de nazis” que conseguiu a captura de mais de 1000 criminosos de guerra -  entre os quais Eichman). O seu Centre de Documentation de Vienne não possui qualquer dossier preciso sobre Rampa que, não sendo um criminoso, não é procurado. Contudo, este especialista não afasta a possibilidade de Lobsang Rampa ter podido fazer parte duma certa organização sob o nome de Thulé a que Pauwels se refere longamente no Le Matin des Magiciens.


Simon Wiesenthal


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Outro pormenor que aos olhos de algumas pessoas dá peso às suspeitas de Pauwels e aos rumores que circulam a respeito de Rampa: este viveu algum tempo no Uruguai; ora, é bem sabido que no fim da guerra numerosos nazis se refugiaram precisamente na América do Sul].»

«Rampa explica-se» (in Alain Stanké, «Lobsang Rampa – O Enigma»).




 

O "ponto de vista tibetano" acerca da morte



Palácio de Potala (Lassa, Tibete).

Antes de descrever os nossos métodos para dispor dos corpos dos mortos talvez seja aconselhável explicar mais pormenorizadamente o ponto de vista tibetano acerca da morte. A nossa atitude é muito diferente da dos povos ocidentais. Para nós um corpo não é mais que uma “casca”, uma cobertura material para o espírito imortal. Para nós um corpo vale menos que um traje velho que se abandona. No caso de uma pessoa que morre de morte natural, isto é, não de forma violenta e súbita, consideramos que o processo se passa assim: o corpo está doente, falhado, e tornou-se tão desconfortável para o espírito que este é incapaz de aprender quaisquer lições mais. Chegou portanto a hora de jogar fora o corpo. Pouco a pouco, o espírito retira-se e exterioriza-se; a forma espiritual tem exactamente o mesmo contorno que o invólucro carnal e pode ser visto nitidamente por um clarividente. No momento da morte, o cordão que junta os corpos físico e espiritual (o “Cordão de Prata” da Bíblia cristã) adelgaça-se, quebra-se e o espírito afasta-se. É nessa ocasião que ocorre a morte, que não é mais que o nascimento de uma vida nova, pois esse cordão é semelhante ao cordão umbilical que é cortado para permitir ao recém-nascido uma existência independente. No momento da morte o resplendor da força vital extingue-se à volta da cabeça. Esse resplendor também pode ser visto por um clarividente.

Na nossa opinião, um corpo leva três dias a morrer; é esse o tempo necessário para a cessação de toda a actividade física e para o espírito, a alma, ou o ego, se libertar completamente do seu invólucro carnal. Acreditamos que durante a vida de um corpo se forma um duplo etéreo; esse duplo pode tornar-se um fantasma. Provavelmente toda a gente já sentiu a seguinte sensação: depois de olhar para uma luz forte virar-se e, aparentemente, continuar a ver a luz. Nós consideramos a vida um fenómeno elétrico, um campo de força, e esse duplo etéreo que fica para além da morte é semelhante à luz que se vê depois de olhar para um forte foco luminoso, ou, em termos de electricidade, como um forte campo magnético residual. Se o corpo tem razões fortes para se agarrar à vida cria uma força etérea, e esta forma um fantasma que fica a habitar os cenários familiares.


Há três corpos básicos: o carnal, por intermédio do qual o espírito aprende as árduas lições da vida; o etéreo, ou magnético, que é construído por cada um de nós com a nossa lascívia, os nossos apetites, as nossas paixões fortes; e o espiritual, a “alma imortal”. Esta é a nossa crença lamaísta, que não corresponde necessariamente à crença budista ortodoxa. Uma pessoa, ao morrer, tem de passar por três estágios: é preciso dispor do seu corpo físico; é preciso dissolver o seu etéreo; e é preciso ajudar o seu espírito a encontrar o seu caminho no seu plano de existência especial. Os antigos egípcios acreditavam também nesse duplo etéreo, nos guias dos mortos e no mundo do espírito. No Tibete ajudamos as pessoas antes de morrerem. O homem instruído não tem necessidade de tal auxílio, mas o homem comum, o trappa, tem de ser guiado através de toda a viagem. Talvez seja interessante descrever o processo. Um dia, o muito honrado mestre dos mortos mandou chamar-me. “É tempo de estudares os métodos práticos de libertar a alma, Lobsang. Hoje, irás comigo”. Caminhámos ao longo dos compridos corredores, descemos degraus escorregadios, até aos aposentos dos trappas. Ali, numa “enfermaria”, um velho monge aproximava-se daquela estrada que todos nós havemos um dia de percorrer. Tivera um ataque e estava fraquíssimo. As forças faltavam-lhe e, enquanto o observava, as suas cores aureolares esmoreciam. Tinha de ser mantido consciente a todo o custo até não haver mais vida para manter esse estado. O lama que estava comigo tomou com gentileza entre as suas as mãos do moribundo. “Aproximas-te do momento de te libertares dos sofrimentos da carne. Ouves-me bem para que possas escolher o caminho mais fácil. Os teus pés esfriam. A tua vida esvai-se. Compõe os teus pensamentos, pois nada há a temer. A vida abandona os teus membros e a tua visão torna-se indistinta. O frio vem subindo por ti, seguindo a vida que te foge. Compõe os teus pensamentos, pois nada há a temer na libertação da vida para uma realidade maior. As sombras da noite eterna começam a toldar a tua vista e a tua respiração dificilmente passa pela tua garganta. Aproxima-se o momento para a libertação do teu espírito, para que este goze dos prazeres da vida eterna. Compõe os teus pensamentos, a hora da tua libertação aproxima-se”.



Enquanto assim falava, o lama passava a mão desde a clavícula do alto da cabeça do moribundo de uma forma que se provou libertar o espírito com um mínimo de dor. O moribundo ia sendo constantemente avisado dos obstáculos que lhe surgiam no caminho e da melhor maneira de os evitar. Descrevia-se-lhe com exactidão a estrada, estrada que tinha sido determinada pelos lamas telepáticos já mortos e que continuavam a comunicar-se connosco da vida eterna.

“A tua visão desapareceu completamente e a tua respiração está a parar dentro de ti. O teu corpo se esfria e os sons desta vida já não chegam aos teus ouvidos. Compõe os teus pensamentos em paz, pois a tua morte chegou. Segue a estrada que te indicamos e encontrarás paz e alegria.”

Os movimentos da mão do lama continuavam enquanto a auréola do velho se desvanecia cada vez mais até desaparecer completamente. O lama soltou um grito súbito e explosivo, um ritual antiquíssimo que ajuda a libertar completamente o espírito. A força vital juntou-se numa massa semelhante a uma nuvem sobre o corpo imóvel agitando-se em grande confusão até formar-se uma réplica esfumada do corpo a que tinha estado ligada pelo “Cordão de Prata”. O “Cordão” adelgaçou-se lentamente e assim como um bebé renasce quando se corta o cordão umbilical, assim o velho renasceu  na vida seguinte. Lentamente, como uma nuvem no céu, ou o fumo de incenso num templo, aquela forma afastou-se. O lama continuou a dar instruções telepáticas durante a primeira fase da jornada. “Estás morto. Aqui nada mais há para ti. Cortaram-te os nós que te prendiam à carne. Estás no bardo. Segue o teu caminho e nós seguiremos o nosso. Segue o caminho prescrito. Abandona este mundo de ilusão e entra na Realidade Maior. Estás morto. Continua o teu caminho.”

As nuvens de incenso elevavam-se no ar. A distância, os tambores rufavam surdamente; dum ponto alto do telhado do mosteiro uma trombeta grave lançava sobre a paisagem a sua mensagem de morte; dos corredores, lá fora, chegavam até nós os sons de uma vida vigorosa, o arrastar de botas de feltro e o mugir cavo de um iaque. Mas ali, naquele pequeno quarto, tudo era silêncio: o silêncio da morte. Só as instruções telepáticas do lama agitavam a camada do silêncio. A morte: outro velho partira na sua roda da existência, aproveitando talvez as lições desta vida, mas destinado a continuar até atingir o estado de Buda, ao fim de longo e continuado esforço.

(In T. Lobsang Rampa, A 3ª Visão, Record, 8.ª Edição, pp. 234-237).




quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O Espectro do Umbral

Escrito por Sir Edward Bulwer-Lytton





«Bulwer Lytton, erudito genial, célebre em todo o Mundo pela sua narrativa Os Últimos Dias de Pompeia, não esperava sem dúvida que um dos seus romances, dezenas de anos mais tarde, inspirasse na Alemanha um grupo místico pré-nazi. No entanto, em obras como A Raça que nos há-de suplantar ou Zanoni, pretendia aludir às realidades do mundo espiritual, e mais especialmente do mundo infernal. Considerava-se um iniciado. Através da efabulação romanesca exprimia a certeza de que existem seres dotados de poderes sobre-humanos. Esses seres suplantar-nos-ão e conduzirão os eleitos da raça humana a caminho de uma formidável mutação.











É preciso prestar atenção a esta ideia de mutação de raça, pois viremos a encontrá-la em Hitler, e ainda se não extinguiu. É preciso também dar atenção à ideia dos “Superiores Desconhecidos”. Encontramo-la em todas as místicas negras do Oriente e do Ocidente. Habitando debaixo da terra ou vindos de outros planetas, gigantes semelhantes a esses que dormiriam sob uma carapaça de ouro nas criptas tibetanas, ou então presenças informes e terrificantes, tais como as descrevia Lovecraft, esses "Superiores Desconhecidos" evocados nos ritos pagãos e luciferinos existirão realmente? Quando Machen fala do mundo do Mal, “cheio de cavernas e de habitantes crepusculares”, é ao outro mundo, àquele onde o homem toma contacto com os “Superiores Desconhecidos”, que se refere, como discípulo da Golden Dawn. Parece-nos certo que Hitler partilhava dessa crença. Mais: que ele pretendia ter a experiência de contactos com os “Superiores”.

(...) Não temos a loucura de pretender explicar a história por meio das sociedades iniciáticas. Mas veremos, curiosamente, que tudo teve importância e que, através do nazismo, foi “o outro mundo” que exerceu autoridade sobre nós durante alguns anos. Ficou vencido. Mas não morreu, nem do outro lado do Reno, nem noutros sítios. Isso não é horroroso, a nossa ignorância é que é horrorosa.



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Samuel Liddell MacGregor Mathers

Já fizemos notar que Samuel Mathers fundara a Golden Dawn. Mathers pretendia estar em comunicação com esses “Superiores Desconhecidos” e ter estabelecido os contactos em companhia de sua mulher, irmã do filósofo Henri Bergson. Eis a seguir uma passagem do manifesto aos “Membros da segunda ordem”, que ele escreveu em 1896:

 “A respeito desses Chefes Secretos, aos quais me refiro e de que recebi as instruções da Segunda Ordem que vos comuniquei, nada vos posso dizer. Nem sequer sei os seus nomes terrenos e só muito raramente os vi com os seus corpos físicos... Eles encontram-se fisicamente no tempo e no lugar antecipadamente fixados. Na minha opinião, creio que são seres humanos que habitam a Terra, mas que possuem poderes terríveis e sobre-humanos... As minhas relações físicas com eles mostraram-me quão difícil é para um mortal, por muito evoluído que seja, suportar-lhes a presença. Não quero dizer que, durante esses raros encontros que com eles tive, o efeito em mim produzido tenha sido o de depressão física intensa que se segue à perda do magnetismo. Pelo contrário, sentia-me em contacto com uma força tão terrível que só a posso comparar ao efeito provocado numa pessoa que esteve perto de um relâmpago durante uma violenta trovoada, acompanhado por uma grande dificuldade em respirar... À prostração nervosa de que falei juntavam-se suores frios e perdas de sangue pelo nariz, boca e, por vezes, pelos ouvidos.”



Hitler conversava um dia com Rauschning, chefe do governo de Dantzig, a respeito do problema da mutação da raça humana. Rauschning, que não possuía a chave de tão estranha preocupação, interpretava as frases de Hitler como frases de um criador de gado que procurasse melhorar o sangue alemão.

“Mas não pode fazer outra coisa senão auxiliar a natureza, dizia ele, abreviando o caminho a percorrer! É preciso que a própria natureza lhe dê uma nova variedade. Até agora, só raramente o criador obteve bons resultados, em relação à espécie animal, no desenvolvimento das mutações, quer dizer, em criar ele próprio novos caracteres.

– O homem novo vive entre nós! Já chegou! – exclamou Hitler em tom triunfante. –Isto não lhe basta? Vou dizer-lhe um segredo. Eu vi o homem novo. É intrépido e cruel. Tive medo diante dele.

“Ao pronunciar estas palavras, acrescenta Rauschning, Hitler tremia num ardor extático”.


 

E Rauschning conta também esta cena estranha, a respeito da qual se interroga em vão o doutor Achille Delmas, especialista de psicologia aplicada. De facto, neste caso, a psicologia não se aplica:

“Uma pessoa da intimidade de Hitler disse-me que ele acorda durante a noite soltando gritos convulsivos. Pede socorro, sentado na beira da cama, como que paralisado. É possuído por um pânico que o faz tremer a ponto de sacudir a cama. Profere vociferações confusas e incompreensíveis. Arqueja como se estivesse a sufocar. A mesma pessoa relatou-me uma dessas crises com pormenores em que me recusaria a acreditar se a fonte não fosse de tanta confiança. Hitler estava de pé no seu quarto, cambaleante, olhando em redor com ar desvairado. “É ele! É ele! Ele esteve aqui!”, gemia. Os lábios tremiam-lhe. O suor escorria abundantemente. De súbito pronunciou números sem qualquer sentido, depois palavras, restos de frases. Era pavoroso. Empregava termos curiosamente reunidos, absolutamente extraordinários. Depois, novamente, voltara a ficar silencioso, mas continuara a mexer os lábios. Tinham-no então friccionado, e fizeram-no tomar uma bebida. Depois, subitamente, berrou: “Ali, ali no canto! Está ali!”. Batia com o pé no chão e soltava gritos. Tranquilizaram-no dizendo-lhe que nada se passava de anormal, e ele acalmou-se pouco a pouco. Em seguida, dormira várias horas e voltara a ser quase normal e suportável”.






Deixamos ao leitor o cuidado de comparar as declarações de Mathers, chefe de uma pequena sociedade neopagã do fim do século XIX, e os ditos de um homem que, no momento em que Rauschning os coligia, se preparava para lançar o mundo numa aventura que provocou vinte milhões de mortos. Pedimos-lhe que não despreze esta comparação e a sua lição, a pretexto de que a Golden Dawn e o nazismo são, aos olhos do historiador razoável, coisas completamente diferentes. O historiador é razoável, mas a história não o é. São as mesmas crenças que animam os dois homens, as suas experiências fundamentais são idênticas, a mesma força os impele. Pertencem à mesma corrente de pensamento, à mesma religião. Essa religião ainda não foi verdadeiramente estudada. Nem a Igreja, nem o racionalismo, que é outra igreja, o permitiram. Nós entramos numa época do conhecimento na qual tais estudos se tornarão possíveis porque a realidade desvendará a sua faceta fantástica e ideias ou técnicas que nos pareciam anormais, desprezíveis ou odiosas, apresentar-se-ão úteis para a compreensão de um real cada vez menos tranquilizador.»

Louis Pauwels e Jacques Bergier («O Despertar dos Mágicos»). 



O Espectro do Umbral 


“Vês que guarda está sentado no vestíbulo? Que face vigia o umbral?”

A Eneida, liv. VI, 574

 

Noite profunda. Tudo no velho castelo repousa... Um silêncio sepulcral reina sob as pálidas estrelas.

É o tempo propício. Mejnour, com a sua sabedoria austera. Mejnour, o inimigo do amor. Mejnour, cujos olhos saberão ler no seu coração, negar-lhe-á os segredos prometidos, porque o belo semblante de Filida perturba essa existência. Mejnour virá amanhã! Aproveite esta noite! Não tenha medo! Agora ou nunca! Assim, o intrépido jovem... intrépido, a despeito de todos os seus erros... Assim, com pulso firme, a sua mão abre de novo a porta vedada.

Glyndon colocou a sua lâmpada ao lado do livro, que ainda ali estava aberto. Virou uma folha e outras, mas sem poder decifrar o seu significado, até que chegou ao seguinte trecho:

“Quando, pois, o discípulo está desta maneira iniciado e preparado, deve abrir a janela, acender as lâmpadas e humedecer as suas fontes com o elixir. Mas que tenha o cuidado de não se atrever a tomar muita coisa do volátil e fogoso espírito. Prová-lo, até que, por meio de repetidas inalações, o corpo se tenha acostumado gradualmente ao estático líquido, é buscar, não a vida, mas sim a morte.”

Glyndon não pôde avançar mais nas suas instruções, pois as cifras estavam de novo mudadas. O jovem pôs-se a olhar fixa e seriamente à sua volta, dentro do quarto. Os raios da lua entraram silenciosamente através da cortina quando a sua mão abriu a janela, e assim que a sua misteriosa luz se fixou nas paredes e no solo da habitação, parecia como se tivesse entrado nela um poderoso e melancólico espírito. Depois, preparou as nove lâmpadas místicas no centro do quarto, e acendeu-as uma a uma. De cada uma delas brotou uma chama azul prateado, espalhando no aposento um resplendor tranquilo, mas ao mesmo tempo deslumbrante. Esta luz foi-se tornando, pouco a pouco, mais suave e mais pálida, enquanto uma espécie de fina nuvem parda, semelhante a uma névoa, se espalhava gradualmente pelo quarto. E, subitamente, um frio agudo e penetrante invadiu o coração do inglês e estendeu-se por todo o seu corpo, como o frio da morte. O jovem, conhecendo instintivamente o perigo que corria, quis andar, mas só o conseguiu com grande dificuldade, porque as suas pernas tinham-se tornado rígidas como se fossem de pedra. No entanto, ainda pôde chegar à prateleira onde estavam os vasos de cristal. Apressadamente inalou um pouco do maravilhoso espírito, e lavou as suas fontes com o cintilante líquido. Então, a mesma sensação de vigor, juventude, alegria e leveza etérea que tinha sentido pela manhã substituíram instantaneamente o entorpecimento mortal que um momento antes lhe invadira o organismo, pondo em perigo a sua vida. Glyndon cruzou os braços e, impávido, esperou pelo resultado.



O vapor tinha, agora, assumido a densidade e a aparente consistência de uma nuvem de neve, por entre a qual as lâmpadas luziam como estrelas. O inglês via distintamente algumas sombras que, assemelhando-se, no seu exterior, às formas humanas, moviam-se devagar e com regulares evoluções através da nuvem. Estas sombras eram corpos transparentes, evidentemente sem sangue e contraíam e dilatavam-se como as dobras de uma serpente. Enquanto se moviam vagarosamente, o jovem ouviu um som débil e baixo, porém musical, que se assemelhava a um canto de uma inexprimível e tranquila alegria. Nenhuma dessas aparições reparava nele. O veemente desejo que sentia de se aproximar delas, de ser nelas incluído, de executar um daqueles movimentos de etérea felicidade – pois assim lhe parecia que era a sensação que as acompanhava –, fez com que estendesse os seus braços, esforçando-se por chamar, com uma exclamação, a atenção desses seres, mas apenas um murmúrio inarticulado saiu dos seus lábios. O movimento e a música prosseguiam, como se não houvesse ali nenhum ser mortal. Aqueles seres etéreos, semelhantes a sombras, deslizavam tranquilamente pelo quarto, girando e voando, até que, na mesma majestosa ordem, um atrás do outro, saíam pela janela e perdiam-se na luz da lua. Foi então que, enquanto os olhos de Glyndon os seguiam, a janela se obscureceu com algum objecto, a princípio indistinto, mas que, misteriosamente, foi suficiente para transformar, por si só, em indizível horror o prazer que o jovem experimentara até então. Este objecto foi gradualmente tomando forma. Aos olhos do inglês, parecia ser uma cabeça humana, coberta com um véu preto, através do qual luziam, com brilho demoníaco, dois olhos que gelavam o sangue nas suas veias. Nada mais se distinguia no rosto da aparição, a não ser aqueles olhos terríficos. Porém, o terror que o jovem sentia e que, a princípio, parecia irresistível, aumentou mil vezes ainda quando, após uma pausa, o fantasma entrou devagar no interior do quarto. A nuvem ia-se dissipando à medida que a aparição se aproximava. As lâmpadas empalideciam e tremeluziam inquietas, como tocadas pelo sopro do fantasma. O corpo e o rosto ocultavam-se debaixo de um véu, porém, pela sua forma, adivinhava-se que era uma mulher, embora não se movesse como fazem as aparições que imitam os vivos. Parecia antes arrastar-se como um enorme réptil. Ao aproximar-se da mesa onde se encontrava o místico volume, deteve-se e agachou-se, fixando novamente o olhar, através do ténue véu, sobre o temerário invocador. O pincel mais fantástico e mais grotesco dos monges pintores medievais, ao retratar o demónio infernal, não teria sido capaz de lhe dar o aspecto tão maligno e horrível que se via nesses olhos aterrorizantes. O corpo do fantasma era tão preto, impenetrável e indistinguível, que lembrava uma monstruosa larva.

Porém, aquele olhar ardente, tão intenso, tão lívido e, não obstante, tão vivo, tinha em si algo que era quase humano na sua máxima expressão de ódio e escárnio, algo que revelava que a horripilante aparição não era um mero espírito, mas que tinha bastante matéria para, pelo menos, apresentar-se mais terrível e ameaçadora, como inimiga dos seres humanos encarnados. Glyndon, estarrecido e apavorado, parecia querer agarrar-se às paredes... Os seus cabelos eriçaram-se, os olhos pareciam querer saltar-lhe das órbitas e não se apartaram dos olhos reluzentes do fantasma. Por fim, este falou, com uma voz que falava mais à alma do que ao ouvido:

Entrou na região imensurável. Eu sou o Espectro do Umbral. O que quer de mim? Não responde? Teme-me? Não sou eu a sua amada? Acaso não tem sacrificado por mim os prazeres da sua raça? Quer ser sábio? Em possuo a sabedoria dos séculos inumeráveis. Venha, beije-me, oh querido mortal!

E enquanto o horroroso fantasma dizia estas palavras, arrastava-se cada vez mais para perto de Glyndon, até que se pôs a seu lado, tão próximo que o jovem sentiu no seu rosto o alento do espectro. Soltando um agudo grito, caiu, desmaiado, no chão, e nada mais soube do que ali se passara, pois quando, ao meio-dia do dia seguinte, voltou a si e abriu os olhos, encontrou-se na sua cama. Os raios do sol entravam-lhe no quarto através das persianas da janela e Mestre Paolo, junto ao seu leito, limpava a carabina e associava uma alegre canção calabresa.

(In Sir Edward Bulwer-Lytton, Zanoni, Zéfiro, 1.ª Edição, 2009, pp. 275-277).



domingo, 22 de fevereiro de 2026

O mostrengo

Escrito por Fernando Pessoa



 

O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?»

E o homem do leme disse, tremendo»

«El-Rei D. João Segundo!»


«De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?»

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso,

«Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:

«El-Rei D. João Segundo!»


Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

«Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!»


Mensagem



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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O último romântico

Escrito por Álvaro Ribeiro




«O positivismo, que é uma das mais rigorosas ortodoxias, entre aquelas que parecem asseguradas pela uniformidade de argumentação, não pode inteiramente anular a atitude pessoal de cada um dos seus seguidores. Diferentes atitudes foram tomadas para com a obra de Augusto Comte pelos próprios discípulos franceses, e a divergência doutrinal chegou a exprimir-se nas opostas escolas de Laffite e de Littré. Entre os positivistas das outras nacionalidades europeias a doutrina foi sofrendo interpretações diversas até gradualmente se confundir com aqueles sistemas filosóficos que mais consentâneos parecem com as tradições culturais e com os hábitos dos povos.

Não é, pois, lícito dizer de tal ou tal escritor que foi ou não positivista, apenas porque a sua obra condiz com a definição de positivismo que se encontra nos compêndios escolares. Com efeito, se definirmos o positivismo pela atitude de recusa à metafísica, conforme é corrente em livros franceses, dificilmente encontraremos discípulo de Augusto Comte que quadre perfeitamente na classificação. Com a fácil crítica de que sempre a metafísica subjaz no pensamento filosófico, poderíamos concluir que não houve verdadeiros positivistas em Portugal.

Enumerar os principais positivistas, desde Teófilo Braga a Alfredo Pimenta, deixando o leitor na convicção de que todos esses escritores deram aos mesmos problemas as mesmas soluções, seria simplificar de maneira contrária à verdade. As semelhanças interessam menos do que as diferenças quando se trata de averiguar em que medida foi autêntico e profundo o positivismo português. O historiador terá, por isso, que efectuar um trabalho difícil, minucioso e, por vezes, de resultados pouco compensadores.

Em nota a uma página da sua História das Ideias Republicanas em Portugal, publicada em 1880, já Teófilo Braga dizia serem positivistas muitos dos mais ilustres professores e escritores. Entre eles menciona nominalmente os seguintes: "Drs José Falcão, Bernardino Machado, Correia Barata, Zeferino Cândido, Emídio Garcia, na Universidade de Coimbra; Rodrigues de Freitas, Alexandre da Conceição, Consiglieri Pedroso, Alves da Veiga, Ramalho Ortigão, Bento Moreno, Júlio de Matos, Pedro Gastão Mesnier, Laborde Barata, Teixeira Bastos, Vicente Pinheiro, Dr. Alves de Sá, Bettencourt Raposo, Horácio Ferrari, Dr. Augusto Rocha, João Diogo, Moreira de Sousa, J. A. Vieira". Nem todas estas então ilustres personalidades se dedicaram, com competência e vagar, a assuntos de filosofia.

No seu trabalho tão prestimoso Para a História da Filosofia em Portugal, em que explica e justifica  o ensaio de bibliografia que tem servido a várias gerações de estudiosos, Fidelino de Figueiredo escreve: "...o sr. Teófilo Braga torna-se chefe de um grupo pertinaz que porfiará em propugnar o positivismo, não só como filosofia, mas como política e como culto cívico. A revista de Coimbra, O Instituto, é o repositório preferido para os escritos de filosofia, mas os comtistas reunindo-se fundam o seu orgão próprio, O Positivismo, que durou de 1878 a 1882. Ali colaboram Teófilo Braga, Teixeira Bastos, seu discípulo dilecto, Júlio de Matos, Consiglieri Pedroso, Augusto Rocha, Bettencourt Raposo e Cândido de Pinho. Comteana foi também a orientação de outras revistas, como a Era Nova e a Revista de Estudos Livres. O fisiologismo entra em moda como doutrina psicológica e surgem os primeiros estudos de sociologia, sob o estímulo do sistema de Comte. Albino Geraldes apresenta uma condensação do darwinismo; e o materialismo, não prudentemente como método, mas unilateral e intolerantemente como filosofia, invade os espíritos e domina o ensino secundário reformado em 1882 e 1895; não o ensino superior porque a escola de D. Pedro V, com Sousa Lobo e depois com Jaime Moniz, constituiu um reduto do espiritualismo. E de lá saiu a reacção, depois chefiada pelo Prof. Manuel Ferreira Deusdado" [Fidelino de Figueiredo – Estudos de Literatura – Quarta série – Lisboa, 1924 – Págs. 125-126].




Vê-se, pois, que grande foi o número de personalidades ilustres que deliberada ou involuntariamente acompanhavam o apostolado de Teófilo Braga. A dificuldade, para o historiador, está exactamente em arrancar do esquecimento alguns nomes dignos de sobrevivência e em escolher, entre os mais conhecidos, aqueles que devem figurar em primeiro plano. Confessamos não ter vencido essa dificuldade e limitamo-nos a desenvolver o que sobre os positivistas portugueses encontramos no livro do ilustre professor Fidelino de Figueiredo.

(...) A polémica entre o espírito teológico e o espírito jurídico, embora nem sempre apareça com a evidência desejável para elucidação dos historiadores, agrava-se notavelmente depois da Idade Média.  A filosofia de Kant, que representa a conclusão e o remate da Idade Moderna, não pode ser compreendida senão como vitória da razão iluminista sobre o pensamento especulativo, vitória depois em política representada pela legislação napoleónica. O romantismo anglo-germânico, isto é, o que de novo o pensamento filosófico exprime no século XIX, para defender e exaltar a liberdade dos homens e dos povos, recorre inevitavelmente às tradições étnicas e religiosas.

(...) Teixeira Bastos foi aluno de Teófilo Braga no Curso Superior de Letras. Grato pelo ensino do mestre, o discípulo manifestou, na vida pública, raros sentimentos de fidelidade ao pensador que seguia e admirava. Teixeira Bastos foi, por isso, o maior auxiliar de Teófilo Braga na divulgação do positivismo.

Vemos os nomes de mestre e discípulo na direcção de revistas que substituíram e continuaram O Positivismo. Mantiveram A Era Nova e a Revista de Estudos Livres como excelentes meios de propaganda do positivismo entre os espíritos de escol. De 1881 em diante, com a fundação de O Século, de que Sebastião de Magalhães Lima foi director e Teixeira Bastos redactor efectivo, o positivismo passou a ser difundido entre as classes menos cultas.

(...) Teixeira Bastos, não satisfeito com a influência do Curso Superior de Letras, pretendia que também nos liceus o ensino fosse integralmente positivista. Escreveu, por isso, algumas críticas aos compêndios de filosofia adoptados no seu tempo, utilizando sempre o argumento de que os autores não conheciam de leitura directa a obra de Augusto Comte. Mas o seu intento era mais radical, preconizava que a disciplina de filosofia fosse eliminada do plano das escolas de ensino secundário.

A disciplina de filosofia, tal como era então ministrada, parecia aos olhos dos positivistas uma sobrevivência da velha teologia e da retardatária metafísica, enfim, uma inútil e prejudicial disciplina adjacente no quadro do liceu que já era inteiramente positivista quanto ao ensino das ciências e das letras. Se consultarmos a bibliografia de Ferreira Deusdado, que neste particular é mais completa do que a de Fidelino de Figueiredo, e, também, os sucessivos programas do ensino liceal, verificaremos que, na disciplina de filosofia, nunca chegou a ser oficialmente imposta a ortodoxia de Augusto Comte. Nem sequer durante os anos em que a ideologia triunfante poderia dominar todos os serviços do Estado, conseguiram os positivistas que nos liceus a filosofia fosse eliminada, ou substituída pela sociologia, de acordo com o plano de unificação dos conhecimentos humanos.




A tradição liberal resistiu à corrente socialista. Manteve-se o preceito de que o ensino da filosofia é indispensável nas escolas que os governos liberais haviam instituído com o nome de liceus. Digno de observação é, porém, que tal ensino, indispensável aos alunos encaminhados para os cursos superiores, não foi ministrado aos estudantes das escolas técnicas e profissionais.

Teixeira Bastos, reconhecendo dificuldade de fazer valer suas opiniões de pedagogista, decidiu-se a neutralizar com este trabalho a má influência dos professores do liceu. Escreveu um livro de divulgação com o aspecto de compêndio escolar. Completava, pois, com o livro didáctico, a propaganda jornalística.

Referimo-nos, assim, à célebre obra Princípios de Filosofia Positiva –, extraídos do Curso de Filosofia Positiva de Augusto Comte, – que foi publicada em dois volumes pela Livraria Magalhães Moniz, do Porto, em 1883. O primeiro volume começa por um livro intitulado Preliminares, dividido em dois capítulos que tratam de "Considerações gerais sobre a filosofia positiva e da Hierarquia das Ciências", e contém os livros referentes às ciências matemática, astronomia, física, química e biologia. O segundo volume é quase todo dedicado à sociologia e termina por um livro de "Conclusões gerais".

Este trabalho, fundamentalmente de divulgação, aparece porém associado a intuitos políticos que o autor legitima através de longas considerações históricas. Depois de se referir a acontecimentos contemporâneos, escreve: "Sob o aspecto científico e sob o aspecto filosófico, Portugal recebe, cada vez com a maior intensidade, os raios fecundantes do saber positivo, que se desenvolve nos países estrangeiros, se pelo seu lado não contribui com trabalhos decisivos sobre qualquer ramo dos conhecimentos humanos" [Teixeira Bastos – Princípios de Philosophia Positiva – Lisboa, 1883 – 1.º volume, p. XIX].

Não satisfeito com essa luz vinda do exterior, Teixeira Bastos escreve mais adiante, para justificar o seu trabalho de divulgador: "Temos tido por vezes o desgosto de constatar que alguns dos positivistas portugueses só conhecem Augusto Comte pelos trabalhos de Littré e de outros autores franceses, citando-o em segunda mão, o que os leva a cair em contradições desastradas. Por outro lado os excelentes resumos de Miss Martineau, de De Blignières e de Jules Rig, mais espalhados do que a obra grande, são contudo pouco conhecidos em Portugal, onde o positivismo se tem propagado quase nominalmente" [Idem – Pág. XXXV].

Esta observação pessimista denuncia a falta de ortodoxia e até de disciplina partidária entre os positivistas portugueses. Quanto a nós, ela confirma o que dissemos sobre o desinteresse pela filosofia da história, e pela filosofia da política, entre aqueles que começam a opor o cientismo, criteriosamente agnóstico, ao materialismo, doutrina metafísica. Raros eram, pois, os que acompanhavam na integridade da doutrinação o pensamento de Teófilo Braga.»

Álvaro Ribeiro («Os Positivistas»).




«Nas suas conferências doutrinais de Lisboa, em 1922, e do Funchal e de Coimbra, em 1925, Oliveira Salazar sustentara que o Estado, ainda que o não quisesse, não podia deixar de ter um conteúdo ideológico, moral, doutrinário. E na sua entrevista às Novidades, de 1 de Maio de 1929, o ministro desvendara os grandes princípios que propunha à ditadura: inventariar os vícios e os erros da sociedade portuguesa, e extirpá-los; destruir a mentira, a hipocrisia e a injustiça social na vida colectiva; liquidar os decadentes que se revelassem incapazes de regeneração; retomar as grandes linhas da civilização cristã e latina; afirmar um nacionalismo extremado; e caldear nesta visão todos os materiais vivos do país, e todos os homens, sem curar se provinham das direitas, das esquerdas ou do centro. Em fórmulas singelas, e acaso herméticas, era um vasto programa. E subentendia pelo menos estes conceitos básicos: fomentar riqueza, para resolver o problema económico; nivelar as classes, mantendo-as sem privilegiar nenhuma, para resolver o problema social; abolir os partidos e cristianizar o Estado, para resolver o problema político. Sem que alguém se apercebesse, Oliveira Salazar retoma as encíclicas de Leão XIII; e, fazendo-as reverdecer e remoçar, mergulha nas raízes ideológicas que são as suas desde os tempos do Colégio da Via Sacra, do CADC, do Imparcial, e da nova escola de Coimbra, proclamada pelo Padre Gonçalves Cerejeira havia uma dúzia de anos. Fora um caminho ideológico e doutrinal para o 28 de Maio: e é uma revolução. Desejava-se esta, sem dúvida. Mas ao cabo de três anos e meio, a ditadura ainda procura como realizá-la. Num aspecto havia acordo entre os homens da nova situação: não se fizera o 28 de Maio para que, depois de esforços e sacrifícios, se regressasse ao passado. E no entanto, quando se interrogavam sobre o futuro, esbarravam no vácuo ideológico: sob o ponto de vista doutrinal, era indigente a ditadura. Oliveira Salazar indica a maneira de preencher esse vazio: e surge competente, lúcido, íntegro, severo: e impelido por uma fé, animado por certezas íntimas, servido por vontade sem quebras, sabia muito bem o que queria e para onde ia.



Porque revolucionária, é radical esta posição. Suscitava apoio, e mesmo entusiasmo, em largas camadas do país. Além da opinião pública, davam-lhe a sua adesão, antes de mais, os militantes católicos, os conservadores liberais, os republicanos moderados. Mercê da actuação de Carmona, as forças armadas mantinham-se fiéis à ditadura. E também a aceitavam muitos monárquicos. Mas avultava igualmente a oposição. Em círculos militares restritos, sobretudo entre os oficiais comprometidos na situação anterior, não deixava de se perguntar com insistência crescente para onde se ia. A alta roda económica e financeira, que receara os tumultos e a insegurança, e uma vez que julgava estarem restabelecidos a ordem e o crédito, hesitava em aplaudir um estado de coisas que vinha cercear os seus privilégios, contrariar os seus hábitos, retirar-lhe posições. E opunham-se por fim todos os saudosistas, os democráticos, os parlamentaristas, os partidários de uma revolução vinda da esquerda.

Destes últimos provinha o combate mais aguerrido. Não haviam desaparecido todos os grandes chefes do regime anterior. Mas muitos estavam inutilizados, ou exilados, ou dispersos. Manuel Teixeira Gomes, antigo Presidente da República, expatriara-se voluntariamente, minado de desgosto e frustração; vivia isolado na Argélia, na cidadezinha de Bougie; abeirava-se dos setenta anos; era um ático, um clássico, um esteta; e reeditava o seu Agosto Azul, escrevia os seus Regressos, dirigia Cartas a Columbano, elaborava as suas Novelas Eróticas. Brito Camacho, acaso o maior homem de Estado potencial do seu tempo, dobrava a esquina dos sessenta e sete, e aposentara-se politicamente: compunha volumes de memórias e dedicava-se à ficção em Gente Vária e Cenas da Vida. João Chagas, homem ardente e jornalista de nervo e turbulento, está morto há quatro anos; António José de Almeida, o grande tribuno romântico e ingénuo, encontrava-se gravemente enfermo; Álvaro de Castro falecera havia pouco; e Teófilo Braga, patriarca das letras, do socialismo, e da república, tinha morrido pelos inícios de 1924, desenganado dos homens, da vida, das instituições. Mas outros grandes nomes mantinham-se activos. Bernardino Machado, duas vezes Presidente da República, abeirava-se dos setenta e oito anos; permanecia activo, todavia; e da sua casa de Beyris, no sul de França, escrevia, conspirava, intrigava. Afonso Costa está exilado em Paris: atrás de si, em Portugal, deixara um rasto de devoção fanática nalguns e de ódio cego noutros: ainda relativamente novo, com escassos cinquenta e oito anos, exerce advocacia entre Londres, Bruxelas e Paris: e do seu quarto do Hotel Vernet, ou do seu escritório no Boulevard Malesherbes e depois no Faubourg de Saint-Honoré, desenvolve uma incansável diligência política para restauração da república parlamentar. Norton de Matos, antigo ministro da Guerra e alto-comissário em Angola, vai nos sessenta e dois anos: e está exilado em Londres. E igualmente irrequietos se encontram no estrangeiro outros vultos democráticos mais novos: José Domingues dos Santos, que fora chefe do governo entre 1924 e 1925; Jaime Cortesão, nos seus quarenta e cinco anos, poeta, deputado, intelectual de primeira grandeza; António Sérgio, apenas um ano mais velho, ensaísta, pensador, nacionalista pedagógico [Quando director da Biblioteca Nacional, Jaime Cortesão reunia habitualmente no seu gabinete um núcleo de amigos: António Sérgio, Raul Proença, Aquilino Ribeiro, entre outros. Esse grupo, que pelo alto talento dos seus membros exerceu grande influência intelectual e mental, ficou conhecido pelo grupo da biblioteca, e encontrou a sua expressão política, literária e ideológica na Seara Nova]; Jaime de Morais, médico, oficial de Marinha, antigo governador-geral da Índia, e que habitava em Madrid; e outros ainda, de menor nomeada. Mas se todos estes se encontravam dispersos pelo estrangeiro, ou em contactos a distância, ou em reuniões ocasionais, outros permaneciam em Portugal. Cunha Leal, nascido como Salazar em 1889, chefiava a União Liberal Republicana, reivindicava o retorno ao parlamentarismo sem os excessos anteriores: mas era um moderado, um homem de lei e ordem: e dirigia o Banco de Angola. E Sá Cardoso, antigo chefe do governo; Adalberto de Sousa Dias, oficial distinto; Hélder Ribeiro, que fora ministro da Guerra e da Instrução; Rego Chaves, que ocupara as Finanças: todos se viam afastados dos seus postos de oficiais, mas não abandonam a oposição. Nesta atitude eram acompanhados por outros, desde Álvaro Poppe a Prestes Salgueiro, desde João Soares a Sarmento Beires, desde Agatão Lança a Utra Machado. E todos se mantinham fiéis a convicções de que não abdicam, a uma luta em que não cedem, até a sacrifícios de que não se eximem.

Gomes da Costa no 28 de Maio de 1926. Ver aqui e aqui


Oliveira Salazar e o Marechal Gomes da Costa

Simplesmente, estes homens nada possuem agora para oferecer ao país. Propunham de novo um projecto antigo: o regresso ao regime de assembleia. Mas fora este que precisamente conduzira ao 28 de Maio. Para mais, aqueles homens não assumiam, nem o dever lho impunha, a responsabilidade pessoal por erros praticados e vícios permitidos. Todavia, não tomando essa atitude, estavam por esse modo responsabilizando as instituições e a estrutura do Estado. Tornava-se portanto inviável, porque não encontraria aceitação, dar ao país o que este repudiara havia pouco. Também não podiam apresentar-se num rumo político considerado direitista: porque justamente as direitas, desde o início, haviam chamado a si a ditadura: e portanto, se o tentassem, não teriam crédito na opinião pública ou estariam a aderir à situação ditatorial. Desta forma, e com a repugnância de muitos, das suas reuniões de exílio, e dos golpes e conspirações que procuravam concertar com elementos do interior do país, emergia um esboço de república que, se triunfante, caminharia rapidamente para a extrema-esquerda, porque apenas em forças deste matiz político encontraria decidido apoio. Este facto tornava-se patente: e daqui resultava, por outro lado, que algumas forças conservadoras e centristas, que recusavam o seu aplauso à ditadura, não o davam também ao aliciamento que de fora os homens antigos procuravam organizar. Era o caso típico dos monárquicos: uma parte estava com a ditadura, na esperança de que esta repusesse o trono: outra parte, sem essa esperança, mantinha-se alheia, ou até a hostilizava, sem no entanto enfileirar com os homens do sistema anterior. E assim, se o governo ditatorial mantivesse a sua firmeza, administrasse com competência, e formulasse um novo esquema político nacional, poderia condenar ao esgotamento e ao insucesso os adversários».

Franco Nogueira («Salazar – Os tempos áureos – 1928-1936», Vol. II).

 

O ÚLTIMO ROMÂNTICO

(1843-1924)


O Estado Português ainda não pagou a gratidão devida a Teófilo Braga. Dizemos o Estado, para que o substantivo maiusculado seja também concreto, e, portanto, vulnerável à crítica mais penetrante da inteligência definida. Não dizemos a Pátria, porque já morreram os pais dessa realidade conceitual a que os imaginários atribuíram a perfeita, mas última, acepção de República.

Sim, a verdade é que foi Teófilo Braga um dos últimos «pais da Pátria». Toda a actividade espiritual desse homem obscuro, modesto, malsinado se resume, sem receio de erro, numa série de livros que representam cinco decénios de pensamento actual e actuante, manifestado em lições, conferências e discursos. Ao proceder como historiador das principais expressões da alma nacional, Teófilo Braga teve em mão milhares de documentos sobre os quais exerceu o seu juízo analítico e reflexivo, para explicar em termos fáceis de narrativa imaginosa a luta do nosso pensamento pátrio e varonil contra as sucessivas invasões das  legiões estrangeiras.

Foi certamente Teófilo Braga o último romântico, não só na acepção dada pelos literatos em contraste com o termo clássico, mas na exactidão histórica de quem defendeu o princípio cultural das nacionalidades, inspirado na tradição do medievalismo. A sua posição retardatária, irreverente, fora de moda, conferiu às páginas dos seus melhores livros uma característica que poderemos dizer anacrónica, e que por seu tanto afasta os leitores menos pacientes e menos diligentes. Dir-se-á que Teófilo Braga pertenceu muito mais à família espiritual de Alexandre Herculano e Almeida Garrett do que à de Antero de Quental, Oliveira Martins e Eça de Queirós.

Um homem que dedicou sua vida a demonstrar a liberdade, a autonomia e a independência do pensamento português merece uma posição de relevo na história da nossa filosofia. Foi Teófilo Braga um filósofo romântico, mas, disciplinado pelo racionalismo de Augusto Comte, resistiu, como «homem de um só livro», aos ataques petulantes dos literatos seus contemporâneos. A feição historicista que imprimiu aos seus escritos de arte – produto da vontade, do sentimento e da memória – não turvou nem obscureceu a inteligência poderosa de um génio atraído pela estética do sublime, a ética do amor, a ideia do infinito.

Seria inútil dizer que as obras dos homens superiores, sem excepção histórica de Homero a José Régio, estão por vezes maculadas de erros, enganos e lapsos, se não fosse vulgar, banal, superficial apontar os deslises trémulos que Teófilo Braga deixou nos manuscritos e nos impressos. Muitos dos livros teofilinos, hoje ilegíveis, assinalam o criminoso desleixo dos editores na prática das indústrias gráficas. Certo é, porém, que sem o exemplo do Mestre muitos dos «críticos» das obras maiores e menores não teriam sido motivados por legítimo espírito de emulação e de competição, enriquecendo e complicando a bibliografia neste nosso país, onde a cultura nem sempre é inspirada pelo culto da verdade.




Desde 1872, ano em que Teófilo Braga prestou as melhores provas públicas no concurso para professor da terceira cadeira do Curso Superior de Letras, onde foi mestre de nacionalismo integral, começaram a surgir os émulos, os rivais e inimigos de alguém que conseguia subir de decénio para decénio, os graus daquele trono intelectual que culminaria na alta dignidade de presidente do governo provisório da República Portuguesa. Como explicar, se não pela força invisível do espírito, que ao doutrinador do pensamento republicano, assimilado por doutores e professores, enfim, ao promotor da República, tivesse sido concedida a justiça, rara na História Política, de ser aclamado, coroado e consagrado com aquele símbolo de soberania e de supremacia que só o génio divinamente inspirado merece? Se Teófilo Braga havia ensinado a sucessivas gerações de estudantes de letras o que é o ideal republicano – ou, melhor, em que é que o ideário republicano difere das outras ideologias políticas, convergentes ou divergentes – lógico é admitir que a propaganda e a proclamação da República foram devidas predominantemente a quem viveu pensando, falando e escrevendo sempre acerca da verdade e da realidade da Pátria.

É de assinalar que, para Teófilo Braga, o patriotismo não era apenas uma virtude militar. O seu apelo aos oficiais do exército e da armada que não tomaram parte na revolução é um notável documento de inteligência perspicaz e previdente. É a escola, e não o quartel, o verdadeiro templo do patriotismo.

Proclamada a 5 de Outubro de 1910, a República Portuguesa não foi fundamentada nem institucionalizada na essência estrutural que havia sido teorizada por José Félix Henriques Nogueira e doutrinada por Teófilo Braga. Excepção característica e notável é a série de leis, decretos, portarias e despachos que o Governo Provisório, pelo Ministério do Interior, expedia para reformar a instrução pública, porque ela foi o produto matemático da acção inteligente dos professores positivistas que haviam sido habilitados pelo Curso Superior de Letras. O indefectível republicanismo de Augusto Comte, já nitidamente firmado na legislação brasileira, assegurava a articulação coerente de um sistema de ensino público que haveria de durar até aos nossos dias.

A restante legislação do Governo Provisório contém já traços, indícios e vestígios de um progressivo afastamento doutrinal dos homens que não acatavam a lição histórica e a experiência política do Mestre e não tardaria a explodir na tripartição empírica dos deputados eleitos ou votados.

A verdade é que na Assembleia Nacional Constituinte venceu a nomenclatura jurídica da Universidade de Coimbra, com sua interpretação errónea da supremacia do poder civil, sua divisão absurda dos poderes do Estado, seu desacerto das instituições fictícias com as estruturas reais, sua formulação imaginária dos direitos dos cidadãos. A nova República assentaria na lealdade militar das forças armadas, o que abriria novamente a carreira ao messianismo dos generais, causa permanente de perturbação pública na vigência da Monarquia liberal como da República unitária. Quem ler o diário das sessões da Assembleia Nacional Constituinte verificará e admirará que os temas, as teses e os teoremas da ideologia republicana eram ignorados por uns e repudiados por outros, de modo tal que o articulado da lei fundamental da Pátria foi votado, aprovado e redigido, por assim dizer, no zigue-zague contraditório e beligerante.



Ex-libris da Renascença Portuguesa, da autoria de António Carneiro

É de aceitar e de compreender o azedume com que Teófilo Braga falava e escrevia acerca dos deputados e dos ministros que assumiam a responsabilidade de administrar uma República que apresentava «contas certas e bem documentadas», como prova admirável da honestidade dos seus servidores, mas que, pressionada pelos elementos reaccionários, ia a pouco e pouco deixando de ser solidária com a Pátria, cuja fisionomia espiritual parecia já vulnerada pela invasão das novas ideologias estrangeiras. Muitos dos «intelectuais» da Renascença Portuguesa e do Integralismo Lusitano, discordantes do regime político que os bacharéis em Direito pela Universidade de Coimbra haviam imposto à população republicana, viam ainda em Teófilo Braga o mestre admirável que bem merecia ser venerado como «pai da Pátria». Mas a República já não era uma ideia, um ideal, um ideário, uma ideologia que merecesse o respeito das instituições de ensino público, e os estudantes já não eram, a bem dizer, republicanos.

A comemoração anual do 5 de Outubro, praticada de diversos modos, mas sem interrupção pelos decénios fora, referia como «facto histórico» a eleição de Teófilo Braga; mas reservava seus louvores para os outros ministros do Governo Provisório, pelo que omitia, e portanto não explicava, a dedução sumária da doutrina que promoveu o acontecimento celebrado em artigos de jornais, conferências académicas e sessões de oratória. De notar é que os próprios historiadores, cuja deontologia cultural obriga a respeitar a relação filosófica de causa a efeito, originavam a proclamação da República na actividade secreta dos carbonários, na conspiração interna dos quartéis, ou na descida dos revolucionários civis aos tumultos da rua. Valorando ou desvalorando o acontecimento, pondo juízos morais onde deveriam estar juízos políticos, tanto os escritores monárquicos como os escritores republicanos, faltavam à investigação filosófica, ensinavam erro, fraude e mentira.

O liberalismo religioso, político e económico, brilhantemente defendido pelos nossos mais ilustres publicistas do século XIX, perdera a força doutrinária e a vigência intelectual ao fim de dez anos da legislação republicana. É que a liberdade só pode ser defendida e ensinada pela filosofia. Na falta de uma verdadeira cultura que ascenda ao supremo culto, instalam-se facilmente as heresias que limitam, mutilam ou anulam a liberdade humana.

O democratismo limita a liberdade para assegurar o predomínio ou o domínio, da «maioria esmagadora» sobre a minoria resignada. Operando pela contagem de votos, contradiz o princípio da eleição. É a tirania sem recurso nem apelo, fixada nas tábuas intangíveis da lei constitucional.

Os velhos republicanos repetiam a lamentação elegíaca de que «esta não é a República que nós sonhámos», parecendo ignorar que tal sonho havia sido a vigília de Teófilo Braga. Ouviam dizer que «o liberalismo faliu», e liam nas abreviaturas correntes da democracia orgânica, do socialismo corporativo e da heresia comunista o aviso claro de qualquer nova ideologia, bem escrita bem pensada. As novas gerações entravam no século de Lenine, Mussolini e Hitler, quando a República Portuguesa não passava já de mera fórmula administrativa ou burocrática, lugar comum de ambições, invejas e vaidades.

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Aconteceu o que os monárquicos liberais calcularam, previram e profetizaram. A República, como instituição liberal, pouco mais durou do que um decénio. Contra os princípios liberais que legitimaram a destituição das ordens, ou das classes, privilegiadas, para afirmação real da supremacia do poder civil, habituaram-se os novos políticos a consentir na presidência da República um militar de carreira, se a eleição resultasse da esmagadora maioria dos votos.

A História da República, quando escrita por homens que nasceram depois de 1920, baseia-se em documentos cuja verdade só as testemunhas puderam interpretar, e enferma de preconceitos que tornam impossível a investigação imparcial do progresso democrático, socialista e comunista que foi sendo praticado a coberto de fraseologias, aparentemente contrárias e contraditórias, ou assentes nas ficções jurídicas que durante todo o século XX foram ensinadas na Universidade de Coimbra. Uma dessas ficções é a do positivismo jurídico, a qual designa a eliminação da filosofia do direito, o que não corresponde ao Sistema de Política Positiva, elaborado pelo filósofo Augusto Comte. Sem a leitura prévia, e propedêutica, dos prestimosos livros de Teófilo Braga será impossível interpretar e entender a verdade natural e sobrenatural que pode ressaltar da certeza evidenciada nos documentos históricos.

Eis porque nos parece lícito e oportuno solicitar a quem de direito a publicação integral das obras de Teófilo Braga. Ninguém, como o último romântico, soube interpretar a História do Povo Português nos seus aspectos fonético, prosódico, versicular, ortográfico, literário, político, científico, filosófico e religioso como o Mestre admirado, venerado e respeitado do Curso Superior de Letras. Muitos escribas lhe corrigiram os erros, mas nenhum foi mais sábio, porque Teófilo Braga, além de dominar a ciência do seu tempo, possuía a qualidade de ser inteligente, que é a aptidão para mobilizar o saber.

Tem a cidade de Lisboa, no alto do parque chamado de Eduardo VII, o lugar ainda vago para a estátua catedral de alguém que mereça a gratidão da Pátria. Várias personalidades históricas foram já designadas pelos edis ou vereadores que porventura entenderam o significado excelso da palavra Capital, mas nenhum alcaide se atreveu a decidir e a executar. Hoje todos nós compreendemos que no trono das estátuas municipais, acima do discutido Marquês de Pombal, só um filósofo como Teófilo Braga merece ser lembrado em imagem a quantos admirem as últimas belezas da Lisboa esquecida, demolida ou destruída.

Bibliografia. IN MEMORIAM DE TEÓFILO BRAGA, Imprensa Nacional, Lisboa, 1934.

(In Escola Formal, revista mensal, segundo número, Julho 1977, pp. 2-4).


Teófilo Braga à saída do Palácio de Belém (1915), na excelsa qualidade de 2.º Presidente da República Portuguesa (29 de Maio de 1915 a 5 de Outubro de 1915), tendo por antecessor Manuel de Arriaga e por sucessor Bernardino Machado.