segunda-feira, 9 de março de 2026

Os mensageiros da Morte

Fragmento extraído d'O Livro Tibetano dos Mortos




«Há que acreditar em Rampa?

A edição especial de The Third Eye traz um aviso prudente dos editores ingleses. O texto foi repetido em Troisième Oeil, mas já se não encontra na reedição popular. Notamos curiosamente a prudência com que os editores Secker e Warburg apresentavam o seu autor: como prova eis o seu texto:

O relato autobiográfico das experiências dum lama tibetano é um documento tão excepcional que é difícil estabelecer a sua autenticidade. Procurámos obter a confrontação do que o autor diz submetendo o manuscrito a uma vintena de leitores, escolhidos pela sua inteligência e pela sua cultura, alguns dos quais possuíam um conhecimento profundo do assunto. As suas opiniões foram de tal modo contraditórias que não se conseguiu obter qualquer resultado positivo. Nem sempre foram as mesmas passagens que viram contestada a sua exactidão e o que parecia duvidoso a um perito era aceite sem qualquer reserva por outro. Mas, perguntámo-nos então, encontrar-se-ia no mundo um só especialista que tivesse o treino dum lama até às suas formas mais extremas? Encontrar-se-ia um só que tivesse sido criado numa família tibetana?

Verifica-se pelos documentos fornecidos por Lobsang Rampa que é diplomado pela Universidade de Medicina de Tchong-k’ing e que tem o título de lama do mosteiro de Potala em Lassa.

Podemos verificar através de numerosas conversas o carácter excepcional das suas faculdades e dos seus conhecimentos. Em numerosos pontos da sua vida pessoal mostrou-se duma discrição por vezes desconcertante. Mas todos têm o direito de ter uma vida privada e Lobsang Rampa assegura que, estando o Tibete ocupado pelos comunistas, é obrigado a uma certa discrição para não comprometer a segurança da sua família. É por esta razão que alguns pormenores, tais como a verdadeira posição ocupada pelo seu pai na hierarquia tibetana, são apresentados duma maneira deliberadamente inexacta.

Tudo isto explica que o autor deve tomar a completa responsabilidade das suas declarações, o que aliás faz de boa vontade. Pensar-se-ia talvez que ultrapassa por vezes os limites da credulidade ocidental, ainda que os nossos conhecimentos na matéria não possam ser considerados definitivos. Os editores estão apesar de tudo persuadidos de que Le Troisième Oeil constitui na sua essência um testemunho autêntico acerca da educação e da formação dum jovem tibetano no seio da sua família e numa lamaseria. É por esta razão, e unicamente por ela, que publicamos este livro. Acreditamos que aqueles que o irão julgar duma maneira diferente estarão pelo menos de acordo em reconhecer ao autor um raro talento de contador e o poder de evocar com felicidade cenas e personagens tão excepcionais como cativantes.



(...) Lobasang Rampa não é o seu nome!

Em 1960 Rampa fazia aparecer no seu livro The Rampa Story a declaração seguinte, que é um elemento importante para todo aquele que quiser descobrir a evolução deste homem. Dela damos a respectiva tradução.

Declaração do autor

Admite-se geralmente no Oriente que um espírito pode tomar posse dum corpo, se é mais forte que o espírito que antes habitava esse corpo. Numerosos exemplos deste facto existem igualmente no Ocidente, como parecem provar o caso de Bridie Murphy e o que se encontra relatado em Trois Visages d’Eve.

No final do ano de 1947, Cyril Hoskins experimentou estranhas impressões e sentiu-se na obrigação de adoptar um modo de vida oriental. No dia 9 de Fevereiro do ano seguinte, chegou mesmo a pedir a mudança do seu nome. Conseguiu, por acto declarativo legal, chamar-se KuanSuo.

Durante vários meses, Cyril Hoskins (presentemente Carl KuanSuo) foi atingido por uma estranha confusão mental. Teve de renunciar à profissão que exercia e instalou-se numa região afastada. Sofria do que pareciam ser alucinações e duma espécie de desdobramento da personalidade. As recordações da sua existência de inglês apagavam-se, substituídas pelas recordações dum oriental.






 

Teve de mudar de domicílio por várias vezes, para confundir as pistas. No dia 13 de Junho de 1949, foi vítima dum pequeno acidente no seu jardim. Segundo parece, uma espécie de comoção cerebral. Durante este ataque perdeu toda a recordação da sua vida passada e, em substituição, veio-lhe a memória completa dum tibetano, desde a mais recuada infância. Durante vários dias, na sequência do que se passara, ficou num estado de insensibilidade que inquietou a sua mulher mas que ela atribuiu às preocupações, ao desemprego e talvez a esquizofrenia. Ela encontrava-se em condições de o informar acerca da sua vida passada, porque a fim de poder continuar a viver num país ocidental, era preciso que KuanSuo desse a impressão de continuar a ser o inglês que tinha sido.

Devo insistir no facto de que os Orientais são capazes de recordar toda a sua vida desde a mais tenra infância e que admitem com facilidade que uma entidade forte pode tomar posse dum corpo antes habitado por uma outra alma.



Durante esse tempo eu tinha – porque fora eu que tinha tomado posse deste corpo –, tinha, como digo, adquirido uma grande força de visão e era capaz de ver muito para além do alcance normal do olhar. Falei aliás de tudo isto em Le Troisième Oeil.

Durante muito tempo procurei encontrar um emprego em Inglaterra. Por diversas razões não o consegui e tive de viver de algumas economias. Finalmente, munido duma carta de recomendação dum amigo, fui visitar o Sr. Cyrus Brooks, das Edições A. M. Heath e Cº. Estava disposto a aceitar qualquer trabalho de escritório, a aceitar mesmo servir de nègre [escritor desconhecido do público que redige obras que depois são publicadas sob o nome dum autor já célebre] para qualquer escritor. Por acaso, durante uma conversa, abordei o assunto do Oriente. O Sr. Brooks aconselhou-me a escrever um livro sobre isso e, durante muito tempo, recusei-me a fazê-lo. Depois, como continuava sem encontrar trabalho, resolvi-me a escrever este livro. É preciso notar que sabia, graças à memória que tinha da minha vida oriental passada, onde se encontravam os papéis que provam a minha identidade. Fi-los procurar e fiz com que mos enviassem. Depois, mandei devolver esses documentos ao seu lugar de origem, porque queria evitar vê-los sujos pelas dúvidas que se levantaram a meu respeito.



O meu objectivo, ao escrever este livro, como também esse outro livro que intitulei Doctor from Lhasa, era ajudar a construir um instrumento que permitisse a todos ver a aura humana. Já foi fotografado por várias pessoas, assim como o etéreo. O Dr. Kilner, por exemplo, consagrou-lhe uma obra e apresentou dele numerosas ilustrações. O coronel Powell, na Califórnia, escreveu igualmente um livro sobre a aura humana. Precisava de meios para empreender as minhas investigações. Foi esta a única razão pela qual escrevi o meu livro Le Troisième Oeil e declaro solenemente que ele é absolutamente verídico. Foi redigido com toda a presa, como pode testemunhar o Sr. Brooks. Não fiz qualquer investigação para me documentar e nada do que contém esse livro foi tirado de qualquer outra obra. Não existem dois “peritos” que se tenham podido pôr de acordo acerca dum único erro que ele pudesse conter. Os “peritos”, na realidade não conseguiram mais do que contradizer-se uns aos outros, e isto deveria bastar para provar a autenticidade do meu livro. Aliás, nenhum destes “peritos” viveu alguma vez a existência dum lama no Tibete nem alguma vez entrou numa lamaseria com a idade de sete anos, como foi o meu caso.



Existem na literatura teosófica numerosos casos de “possessão” dum indivíduo por uma outra entidade. Annie Besant, uma das sumidades do Movimento Teosófico, testemunha alguns casos destes na sua obra, assim como Alice Bailey. Abundante bibliografia se encontra consagrada a este assunto. Acrescento que um swami escreveu uma carta cuja cópia se encontra nas mãos do Sr. Brooks e dos Srs. Secker e Warburg. Nela insiste no facto de que a “possessão” é uma coisa perfeitamente corrente no Oriente.






Declaro categoricamente que os meus livros Le Troisième Oeil e Doctor from Lhasa são verídicos. A minha mulher testemunha aqui que se deu conta, na época em que isto se produziu, que o meu corpo tinha sido investido por uma outra entidade.

Nada mais tenho a acrescentar.

T. Lobsang Rampa (C. Ku’an).».

(In Alain Stanké, Lobsang Rampa – O Enigma»).

 

«Publicado pela primeira vez em inglês em 1927, O Livro Tibetano dos Mortos vendeu mais de meio milhão de cópias, e a sua tradução para muitas outras línguas europeias levou a que se tornasse o texto tibetano mais lido no Ocidente. O manuscrito desta grande obra foi descoberto por W. Y. Evans-Wentz em 1919, imediatamente a seguir à Primeira Guerra Mundial, numa altura de ressurgimento do interesse pelo espiritualismo e pelo destino dos recentemente falecidos. Oito anos mais tarde, publicou-o.







Walter Yeeling Wentz nasceu em Trenton, Nova Jérsia, em 1878. Desenvolveu muito cedo um interesse pelo espiritualismo, a partir da leitura de livros da biblioteca do pai, e ainda adolescente leu Ísis Sem Véu e a A Doutrina Secreta, de Madame Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica. Depois de se mudar para a Califórnia, Wentz tornou-se membro da Sociedade Teosófica, em 1901, e matriculou-se na Universidade de Stanford onde estudou mitologia e folclore célticos no Jesus College, em Oxford. Adoptou também o nome Evans-Wentz, juntando ao seu apelido um nome da família do lado da mãe. Embarcou depois numa volta ao mundo, visitando o México, a Europa e o Extremo Oriente, antes de passar a maior parte da Primeira Guerra Mundial no Egipto, de onde viajou depois para a Índia, chegando a Darjeeling em 1919. Nesse mesmo ano, adquiriu um exemplar do Bardo Thödol, que foi publicado com os seus comentários e anotações em 1927, como o Livro Tibetano dos Mortos. Seguiu-se a tradução de outros textos tibetanos, incluindo A Yonga Tibetana e As Doutrinas Secretas (1935) e Milarepa, História de Um Yogi Tibetano (1951). Evans-Wentz regressou aos EUA durante a Segunda Guerra Mundial e passou os derradeiros anos em San Diego, onde morreu em 1965.»

John Baldock (In Introdução ao Livro Tibetano dos Mortos, Marcador, 1.ª edição, Lisboa, 2024).

 



OS MENSAGEIROS DA MORTE


Os que são irreflectidos, e não prestam atenção,

Quando chegam os mensageiros da Morte,

Sentirão longamente as dores do sofrimento

Habitando um qualquer corpo básico.

Mas todos os homens bons e santos,

Quando vêem os mensageiros da Morte,

Não são irreflectidos e prestam atenção

Ao que diz a Nobre doutrina;

E no apego amedrontados vêem

A fértil fonte do nascimento e da morte,

 E do apego se libertam,

Assim extinguindo o nascimento e a morte.

Seguros e felizes estão eles,

Libertos de todo este circo efémero;

Livres de todo o pecado e medo,

Superaram todos os tormentos.


Anguttara Nikaya



quinta-feira, 5 de março de 2026

Gautama Buda

Escrito por Agostinho da Silva


Pitagóricos. Ver aqui

«O que ele [Pitágoras] dizia aos seus companheiros, ninguém o pode referir com segurança; é que entre eles reinava um invulgar silêncio. Mesmo assim, tornou-se universalmente conhecido o seguinte: em primeiro lugar, que ele afirma que a alma é imortal; depois, que ela se muda para outras espécies de seres animados; além disso, que os acontecimentos ocorrem em determinados ciclos, e que nunca nada é absolutamente novo; e por fim, que todos os seres vivos devem ser considerados como aparentados. Segundo parece, Pitágoras foi o primeiro a introduzir estas crenças na Grécia.»

Porfírio («Vida de Pitágoras»).

 

« – Que é a transmigração? Julgava que toda a gente o sabia. Não? Pois bem, então vejamos: é a passagem duma alma para outro corpo. Existem imensos exemplos deste facto na história do mundo. Para tornar mais claro este fenómeno, imagine uma viatura. A viatura pára e o condutor sai dela. Entra um outro condutor e passa a dirigir a viatura. Os condutores podem ser comparados a almas. Da mesma forma que uma viatura pode ser sucessivamente conduzida por duas pessoas, o corpo pode ser investido sucessivamente por duas almas. Toda a complicação se resume a isto. Também se pode explicar a transmigração da seguinte forma. O senhor tem uma bateria eléctrica. A carga – neste caso a alma – esgota-se e há necessidade de recarregar a bateria de vez em quando. Dito doutra maneira, a mesma bateria é, de vez em quando, provida duma nova “alma”».

«Rampa explica-se» (in Alain Stanké, «Lobsanga Rampa – O Enigma»).


«Restabelecendo tanto quanto possível o pensamento primitivo do Buda, parece que a primeira ideia a que chegou foi a da ligação íntima que existe no universo entre causa e efeito. Não tinha que se invocar para o mundo um governo de deuses.  Tudo o que sucede tem a sua explicação suficiente em qualquer acto que o precedeu; o que nos acontece e o que acontece a todos os animais e a todos os objectos não é mais do que o resultado do que aconteceu em momentos anteriores. Um homem bastante inteligente que conhecesse a totalidade do universo num certo instante e as leis que regulam as transformações poderia predizer o que se passaria no instante seguinte. Só a nossa ignorância e a nossa limitação intelectual nos fazem aparecer os fenómenos como isolados, como surgindo por acaso, ou nos podem dar a ilusão de que algum acto se perdeu, sem efeito. Nenhuma acção boa, nenhuma acção má deixam de mover a grande máquina, deixam de se incorporar no universal fluxo, todas sendo causadas, todas causando por seu turno. A cadeia de causas e efeitos é a verdadeira natureza do universo e não há possibilidade de nenhum pensamento libertador sem que a ideia se ponha nitidamente; de contrário, só teremos o recurso de nos entregarmos nas mãos de deuses que nos dirijam à sua vontade ou de admitir que tudo sucede por acaso. Qualquer das duas hipóteses é, segundo o Buda, perfeitamente absurda.

Poderia supor-se, com uma visão superficial, que a morte quebra estes laços, que interrompe, num determinado momento, num determinado lugar, a relação de causa e efeito; é uma pura ilusão, como tantas outras em que vivemos. A morte não é mais do que um dos elos da cadeia. E verdadeiramente não há morte, como não há nascimento, senão no sentido de que nos aparece alguma coisa de novo. Uma corrente de vida percorre todo o mundo, eternamente, sem admitir falhas sem interrupções. O homem a que chamamos morto está na realidade tão vivo como nós, simplesmente com uma forma diferente de vida. Como amanhã poderá ter a de mineral ou a de árvore. É esta a interpretação que, segundo parece, convém dar à ideia de transmigração budista. Não se trata propriamente da passagem de uma alma para outro homem, ou para um animal, ou para uma planta, mas o reconhecimento de que nada suspende quanto a essa alma o fluxo de vida que constitui o próprio universo. Morrer é um aspecto diferente de ser. Vive-se por toda a eternidade, embora se mude exteriormente; mas o exterior nada é do que aparência e engano.»

Agostinho da Silva («O Budismo»).



 

Gautama Buda

(...) As primeiras palavras pronunciadas pelo Buda depois da «iluminação» chamam-se as «bem-aventuranças». São como que a indicação das qualidades que deve possuir o homem que deseja ser salvo, a lista do que cada um deve encontrar em si próprio para se assegurar de que atingiu a libertação. E bem-aventurado o que vive só, mesmo entre uma multidão, o que se sente separado dos interesses vulgares porque conhece e vê a verdade; é bem-aventurado o que, no confluir e no tumulto das doutrinas, no embate de paixões e de instintos, de loucuras e esperanças, de anseios e de desânimos, se mantém firme como um sólido rochedo sobre as águas, como torre sobre a areia dos desertos. É bem-aventurado o que viu o fim de todo o impulso e de todo o «querer ser»; é bem-aventurado o que venceu a teimosia do «eu» e o sente dissolver-se, perdendo-se, e garantindo a liberdade que, com ele, jamais encontraria.

Depois, vai em busca dos cinco monges com quem vivera e encontra-os na cidade santa de Benares. Estão na mesma disposição de hostilidade e de dureza perante o traidor, mas a atitude do sábio domina-os imediatamente; é a eles que Buda prega o que pode ser considerado como o texto fundamental do budismo, o resumo de toda a doutrina. Expõe-lhes a primeira «verdade santa», a de que a vida é instabilidade e dor, e sempre foi e sempre será instabilidade e dor para o comum do universo. Em seguida, que a origem da dor é a sede de existir, que o desejo cria o ser e o torna infeliz. A terceira «verdade» é, naturalmente, a de que a supressão da dor só se poderá conseguir com a supressão do desejo; na quarta «verdade», indica-lhes o caminho a seguir para se atingir o nirvana: pureza de fé e de vontade, de palavra e de acção. Pureza na maneira de existir, não roubando nem matando, pureza na aplicação da tarefa de libertar-se, pureza de memória, pureza de meditação.

É importante notar-se que Buda não se apresenta como o portador de um dogma a que os outros devem respeito e obediência cega. Ele quer que todos pensem e critiquem, que ninguém se deixe, até, levar pelo respeito, pela simpatia que possam ter pela sua pessoa. O caminho que o trouxe até às suas verdades foi afinal um caminho de inteligência, de raciocínio; não há motivo algum para que ele subitamente se suspenda. Além de tudo, a verdade não se toma feita do pensamento dos outros. Exige que cada um de nós a refaça, caso contrário será morta e inútil. Não é do exterior para nós que se terá de desenrolar o caminho da salvação, mas de dentro do homem para fora do homem, do seu espírito para o universo.

Quem pretende imitar o Buda não tem que acreditar nem em textos, nem em ritos, nem no prestígio dos sacerdotes. Que tudo se construa de novo, que tudo se erga a golpes de razão, que se procure no íntimo a luz salvadora, porque é em nós que a verdade reside. A palavra de fora pode despertar da ilusão; mas é a nossa alma que será o guia.

Muitos acorreram a ouvir a pregação de Buda e abandonaram logo as suas casas para melhor alcançarem o nirvana; reuniam-se em grupos e viviam de esmolas nos bosques e palácios que admiradores ricos punham à sua disposição. Na estação seca erravam pela Índia, a ensinar a doutrina. Observavam os preceitos de não matar, não roubar, não ter relações sexuais, nem vanglória de se sentirem perfeitos. Pouco depois apareceram os primeiros grupos de monjas, embora a mulher fosse considerada como um ser inferior e perigoso, muito mais perto de Mara do que do paraíso das bem-aventuranças. Fora, os laicos simpatizantes iam aumentando de número; tinham tomado da doutrina de Buda o que era compatível com a vida que continuavam a levar, mas distinguiam-se pela bondade, pela honestidade, pelo sereno comportamento em todos os actos da existência.

Não havia templos budistas, nem se adorava nenhum deus. Buda não lhes negara a existência explicitamente, mas a sua concepção do universo era formada de tal modo que dispensava a sua intervenção, quer no curso normal da vida, quer no que respeita ao acto de salvar-se. É neste sentido que a doutrina de Buda é um ateísmo e tem sido por muitos considerado não como uma religião mas como uma filosofia; os deuses, mesmo que existam, serão dispensáveis. Buda não perde tempo a esclarecer os problemas que não importam directamente ao estabelecimento de uma doutrina de salvação e de uma norma de vida e era exactamente esse caso o que se dava com os deuses.

Quanto a acto de culto, nenhum havia a praticar. Ninguém se salvava pelo acto exterior de um sacrifício ou de um rito, a prece não tinha poder mágico, o sacerdote não tinha maior conhecimento dos segredos do mundo. Não se dava com o budismo desse tempo o que acontecia com outras religiões em que se conferia todo o poder à superstição e a uma espécie de feitiçaria que apagava com os seus actos todos os pecados do fiel. Buda vai, quanto a este ponto, na linha de pensamento de contemporâneos seus, os profetas da Judeia e os taoistas da China. O que importa é que a vida seja pura, não que se cumpra o preceito exterior da reza ou da esmola indiferente. As leis escritas nos livros dos templos são mortas e secas; só valem as leis que se inscrevem nas almas e passam como que a fazer parte da sua própria estrutura. Para o budista, o importante reside nos actos da vida; é aquilo que cada um faz, não aquilo que cada um diz, o que o perde ou o salva.



Nas comunidades dos monges havia duas cerimónias que, embora, pudessem recordar certos ritos, estavam, no entanto, profundamente ligadas ao desejo de pureza na vida; chamava-se uma a «confissão», a outra o «convite». Na primeira, os monges reunidos confessavam alto, cada um por sua vez, as violações de preceitos que tinham cometido; para eles era um princípio de libertação e um tomar de consciência que lhes dava maior força para a sua tarefa de salvar-se. Para os outros, era uma ocasião de meditarem sobre os pecados idênticos que tinham cometido e de, ao mesmo tempo, se não verem como réprobos no mundo, mas como membros de uma humanidade fraca e incerta, a cada passo descendo ao caminho da ilusão e do engano. No «convite», cada monge erguia-se e declarava o que lhe tinha parecido mal na comunidade e o que tinha notado de repreensível em qualquer dos seus companheiros; reconhecia-se que só a crítica livre podia evitar à comunidade grandes males e impedia-se o gosto da maledicência e da calúnia.

Embora não fizesse parte de uma comunidade, Buda andava sempre com alguns companheiros, ou dos discípulos antigos ou dos que mais recentemente se tinham convertido. As aldeias mais humildes como as cidades mais poderosas viam-no passar com a sua pobre túnica e ir de casa a casa com a tigela das esmolas. Não fugia dos homens, antes procurava que o convidassem para ter ocasião de lhes comunicar as suas doutrinas; tratava os homens de todas as castas e de todas as raças como irmãos que muito amava sem fazer entre eles a menor distinção. E, entre os monges, apareciam, ao lado de príncipes, de mercadores e de guerreiros, discípulos que provinham das classes mais desprezadas.

Todos viam Buda não como um deus que descera dos céus a pregar-lhes a verdade, mas como um homem de superior inteligência e de perfeita moral que tinha conseguido descobrir o caminho da salvação e fora bastante generoso para o ensinar aos outros; tratavam-no com veneração, mas não o adoravam. Era o mestre cuja doutrina se ouvia e se discutia, que se não mostrava ofendido por nenhuma dúvida, nem adoptava as atitudes superiores de quem pertence de direito a planos ultraterrenos. Era, na realidade, um homem como eles, da sua mesma natureza, embora com qualidades que o distinguiam dos outros. À medida que avança em idade – e a sua pregação estende-se, segundo a cronologia mais de aceitar, por cerca de 50 anos –, maior se torna o respeito que todos sentem por ele, pela sua vida admirável de pureza e de bondade, mas não acode a ninguém o pensamento de o divinizar, de tal maneira Buda se mantinha deliberadamente na esfera do humano e do racional.

Ao contrário de outros fundadores de religiões, Buda não faz milagres; pelo menos, não existe a narrativa de nenhum nos textos que nos merecem mais confiança. O milagre era, de resto, perfeitamente absurdo num mundo determinado de que se tinha afastado a vontade arbitrária dos deuses. O facto de não aparecerem acontecimentos miraculosos não quer dizer que se não contem factos que são realmente extraordinários; são quase todos referentes à bondade de Buda e ao seu império sobre o mundo dos homens e dos irracionais.

Era natural que a imaginação ardente do hindu tivesse ido além do verdadeiro; mas também não vai muito longe do razoável acreditar que Buda tivesse amansado elefantes bravios que acorriam para o matar, ou dominado às primeiras palavras ou só com a vista os adversários que dele se aproximavam com intuitos maléficos. A sua inesgotável benevolência abatia todo o furor cego e todo o ódio.

Algumas vezes surgiram divergências entre os monges. Um primo de Buda é apresentado nos textos como tendo-se revoltado contra o próprio mestre e feito a exigência de um maior rigorismo na regra monástica. Era decerto um espírito organizador, a quem parecia um erro a inexistência de um poder central forte e a demasiada indulgência do fundador. Por um lado, devia-se obrigar os monges a um estrito ascetismo, por outro lado pôr cobro à anarquia que tudo acabaria por perder. Não teve, porém, consigo nem a opinião de Buda, nem o assentimento da maioria dos monges. Ele próprio acabou por ver que a libertação da vida, no sentido búdico, e organização de vida são incompatíveis e que o desenvolvimento livre das comunidades, apesar dos perigos inegáveis, trazia vantagens, que se não podiam eliminar sem maiores riscos, para o progresso espiritual dos discípulos.

Por volta dos 80 anos, sentiu Buda que já tinha pouco tempo para viver e, a convite de Ananda, o seu discípulo favorito, fez uma última recomendação de que ninguém se apresentasse como guia ou como chefe dos outros, cada qual traz a luz em si próprio e a ela deve recorrer. Depois, dirigiu-se a Pava e, apesar de já doente, não recusou tomar parte numa festa para que o convidaram. À mesa serviram carne de javali e Buda, para não ofender o amigo hospitaleiro, comeu da carne que lhe deram; teve uma indigestão ou uma infecção intestinal e foi morrer a Cussínara, à sombra de umas árvores, junto de Ananda e doutros monges. No dia seguinte, ao despontar do Sol, os nobres da cidade, segundo o costume, queimaram o corpo de Buda, mas com honras que só se prestavam aos reis.

Agostinho da Silva («O Budismo», in Páginas Esquecidas, Fixação do texto, selecção, introdução e notas de Helena Briosa e Mota, Quetzal, 1.ª edição, 2019, pp. 317-321).



domingo, 1 de março de 2026

O "ponto de vista tibetano" acerca da morte

Escrito por T. Lobsang Rampa




« – Houve  pessoas que afirmaram e escreveram que o senhor não tem o ar de um tibetano.

– De facto? O senhor acredita que as pessoas dum dado país se assemelham sempre à ideia que deles faz a imaginação popular? Tome por exemplo um pequeno país, a Inglaterra. Existe um único inglês que seja “típico”? O pequeno galês trigueiro é mais ou menos “inglês” do que o enorme escocês louro? E reciprocamente?

Repare: na Índia, as pessoas de alta casta são muitas vezes tão brancas de pele que poderiam passar por europeus; entretanto, na imaginação das pessoas, o indiano-tipo é pequeno, escuro e vestido de andrajos.

O personagem que simboliza a Inglaterra, John Bull, devia ser o inglês-tipo. Existe na realidade? Não. E o Tio Sam? Assemelham-se os Americanos ao Tio Sam? É evidente que não. Sendo assim, quando me dizem que não tenho o ar dum tibetano, sorrio. Que posso fazer perante pessoas que dão mostras duma tal ignorância da vida e das formas da vida?

(...) – A imprensa daqui publicou uma carta do dalai-lama que diz que o senhor é um impostor. Quer responder a isso?

 – A imprensa deu um grande destaque a uma pretensa declaração do dalai-lama, segundo a qual eu não seria “autêntico”. O dalai-lama não disse nada disso. Todos sabem que as pessoas “altamente colocadas” tem um grande número de secretários. Trudeau, por exemplo, tem uma imensidão de secretários que – dentro de certos limites, bem entendido – estão autorizados a escrever o que lhes parece oportuno; isto porque Trudeau não tem evidentemente tempo para se ocupar pessoalmente de todos os seus correspondentes. No que me diz respeito, sei justamente que um dos secretários do dalai-lama não me vê com bons olhos, donde expressões como: “Nós não concedemos crédito...”, o que, de qualquer modo, é muito diferente do que a imprensa tenta insinuar. A propósito, foi o senhor mesmo que me disse que dois lamas tinham estudado o “assunto Rampa” e que um deles se me tinha oposto enquanto o outro se pronunciou inteiramente a meu favor. Como é que se explica que as pessoas estejam sempre prontas a adoptar o partido desfavorável?

Um escritor americano muito conhecido foi ver o dalai-lama, na Índia, e voltou portador duma mensagem assegurando-me que quando o Tibete fosse libertado o dalai-lama me acolheria no Potala. Não, não coloque na boca do dalai-lama palavras que ele não pronunciou. Pelo contrário, considere suspeito o que foi dito pelos seus secretários. O senhor não conhece os seus intentos. Eu creio conhecê-los.

Desejo fazer ainda uma outra observação que, até agora, ainda não apareceu nas suas perguntas. A imprensa parece perplexa acerca da minha identidade. Pergunto-me porquê. Note que me encontro neste ponto em boa companhia. Quem era Shakespeare? Quem era Bacon? Quem era Moisés? Tantos problemas sobre identidades acerca das quais ainda se discute! Por outro lado, para lhe dar uma ideia da enormidade de certas declarações de jornalistas, vou mostrar-lhe um recorte de imprensa onde se diz que Cristo viveu no Japão e que morreu lá. Acredita o senhor neste absurdo? Então porque acreditar em todas essas parvoíces que a imprensa publica a meu respeito? A propósito, espero que produza o recorte em questão. Isso há-de interessar as pessoas.





(...) – Pretendem alguns que o senhor copiou provavelmente a Sr.ª Blavatsky ou a Sr.ª Alexandra David-Néel.

Cada vez mais cómico? Não, eu não copiei ninguém. Não possuo obras de referência. Nunca li nenhuma das obras da Sr.ª Blavatsky nem nenhuma das da Sr.ª David-Néel. Escrevo exclusivamente de acordo com a minha experiência pessoal e parece-me que isto é inteiramente adequado.






Pretendem alguns que o senhor foi contratado por Hitler para se deslocar ao Tibete a fim de aí seguir um certo treino, para, depois voltar para junto dele e o aconselhar.

– O senhor acredita seriamente que vou responder a uma tal pergunta? Pois bem, vou mesmo responder a essa pergunta! Ainda que o senhor dê a impressão de ter andado a percorrer os asilos de alienados para encontrar pessoas capazes de fazer perguntas tão loucas!

Não, nunca fui contratado por Hitler para ir ao Tibete. Se o senhor quer saber toda a verdade, a verdade completa e nada mais que a verdade, leia o meu décimo terceiro livro. Está já a ser impresso. Quando o tiver lido, ficará a saber tudo. [Perguntámos a Louis Pauwels (autor de Le Matin des Magiciens) o que sabia da identidade de Rampa. Segundo este célebre autor francês, não é impossível que T. Lobsang Rampa tenha feito parte do grupo de político-místicos que se deslocou ao Tibete sob a direcção pessoal de Himmler e a pedido do próprio Hitler.

Ver aqui







Bruno Beger. Ver aqui

Querendo obter outros esclarecimentos dirigimo-nos a Simon Wiesenthal (o “caçador de nazis” que conseguiu a captura de mais de 1000 criminosos de guerra -  entre os quais Eichman). O seu Centre de Documentation de Vienne não possui qualquer dossier preciso sobre Rampa que, não sendo um criminoso, não é procurado. Contudo, este especialista não afasta a possibilidade de Lobsang Rampa ter podido fazer parte duma certa organização sob o nome de Thulé a que Pauwels se refere longamente no Le Matin des Magiciens.


Simon Wiesenthal


Ver aqui

Outro pormenor que aos olhos de algumas pessoas dá peso às suspeitas de Pauwels e aos rumores que circulam a respeito de Rampa: este viveu algum tempo no Uruguai; ora, é bem sabido que no fim da guerra numerosos nazis se refugiaram precisamente na América do Sul].»

«Rampa explica-se» (in Alain Stanké, «Lobsang Rampa – O Enigma»).




 

O "ponto de vista tibetano" acerca da morte



Palácio de Potala (Lassa, Tibete).

Antes de descrever os nossos métodos para dispor dos corpos dos mortos talvez seja aconselhável explicar mais pormenorizadamente o ponto de vista tibetano acerca da morte. A nossa atitude é muito diferente da dos povos ocidentais. Para nós um corpo não é mais que uma “casca”, uma cobertura material para o espírito imortal. Para nós um corpo vale menos que um traje velho que se abandona. No caso de uma pessoa que morre de morte natural, isto é, não de forma violenta e súbita, consideramos que o processo se passa assim: o corpo está doente, falhado, e tornou-se tão desconfortável para o espírito que este é incapaz de aprender quaisquer lições mais. Chegou portanto a hora de jogar fora o corpo. Pouco a pouco, o espírito retira-se e exterioriza-se; a forma espiritual tem exactamente o mesmo contorno que o invólucro carnal e pode ser visto nitidamente por um clarividente. No momento da morte, o cordão que junta os corpos físico e espiritual (o “Cordão de Prata” da Bíblia cristã) adelgaça-se, quebra-se e o espírito afasta-se. É nessa ocasião que ocorre a morte, que não é mais que o nascimento de uma vida nova, pois esse cordão é semelhante ao cordão umbilical que é cortado para permitir ao recém-nascido uma existência independente. No momento da morte o resplendor da força vital extingue-se à volta da cabeça. Esse resplendor também pode ser visto por um clarividente.

Na nossa opinião, um corpo leva três dias a morrer; é esse o tempo necessário para a cessação de toda a actividade física e para o espírito, a alma, ou o ego, se libertar completamente do seu invólucro carnal. Acreditamos que durante a vida de um corpo se forma um duplo etéreo; esse duplo pode tornar-se um fantasma. Provavelmente toda a gente já sentiu a seguinte sensação: depois de olhar para uma luz forte virar-se e, aparentemente, continuar a ver a luz. Nós consideramos a vida um fenómeno elétrico, um campo de força, e esse duplo etéreo que fica para além da morte é semelhante à luz que se vê depois de olhar para um forte foco luminoso, ou, em termos de electricidade, como um forte campo magnético residual. Se o corpo tem razões fortes para se agarrar à vida cria uma força etérea, e esta forma um fantasma que fica a habitar os cenários familiares.


Há três corpos básicos: o carnal, por intermédio do qual o espírito aprende as árduas lições da vida; o etéreo, ou magnético, que é construído por cada um de nós com a nossa lascívia, os nossos apetites, as nossas paixões fortes; e o espiritual, a “alma imortal”. Esta é a nossa crença lamaísta, que não corresponde necessariamente à crença budista ortodoxa. Uma pessoa, ao morrer, tem de passar por três estágios: é preciso dispor do seu corpo físico; é preciso dissolver o seu etéreo; e é preciso ajudar o seu espírito a encontrar o seu caminho no seu plano de existência especial. Os antigos egípcios acreditavam também nesse duplo etéreo, nos guias dos mortos e no mundo do espírito. No Tibete ajudamos as pessoas antes de morrerem. O homem instruído não tem necessidade de tal auxílio, mas o homem comum, o trappa, tem de ser guiado através de toda a viagem. Talvez seja interessante descrever o processo. Um dia, o muito honrado mestre dos mortos mandou chamar-me. “É tempo de estudares os métodos práticos de libertar a alma, Lobsang. Hoje, irás comigo”. Caminhámos ao longo dos compridos corredores, descemos degraus escorregadios, até aos aposentos dos trappas. Ali, numa “enfermaria”, um velho monge aproximava-se daquela estrada que todos nós havemos um dia de percorrer. Tivera um ataque e estava fraquíssimo. As forças faltavam-lhe e, enquanto o observava, as suas cores aureolares esmoreciam. Tinha de ser mantido consciente a todo o custo até não haver mais vida para manter esse estado. O lama que estava comigo tomou com gentileza entre as suas as mãos do moribundo. “Aproximas-te do momento de te libertares dos sofrimentos da carne. Ouves-me bem para que possas escolher o caminho mais fácil. Os teus pés esfriam. A tua vida esvai-se. Compõe os teus pensamentos, pois nada há a temer. A vida abandona os teus membros e a tua visão torna-se indistinta. O frio vem subindo por ti, seguindo a vida que te foge. Compõe os teus pensamentos, pois nada há a temer na libertação da vida para uma realidade maior. As sombras da noite eterna começam a toldar a tua vista e a tua respiração dificilmente passa pela tua garganta. Aproxima-se o momento para a libertação do teu espírito, para que este goze dos prazeres da vida eterna. Compõe os teus pensamentos, a hora da tua libertação aproxima-se”.



Enquanto assim falava, o lama passava a mão desde a clavícula do alto da cabeça do moribundo de uma forma que se provou libertar o espírito com um mínimo de dor. O moribundo ia sendo constantemente avisado dos obstáculos que lhe surgiam no caminho e da melhor maneira de os evitar. Descrevia-se-lhe com exactidão a estrada, estrada que tinha sido determinada pelos lamas telepáticos já mortos e que continuavam a comunicar-se connosco da vida eterna.

“A tua visão desapareceu completamente e a tua respiração está a parar dentro de ti. O teu corpo se esfria e os sons desta vida já não chegam aos teus ouvidos. Compõe os teus pensamentos em paz, pois a tua morte chegou. Segue a estrada que te indicamos e encontrarás paz e alegria.”

Os movimentos da mão do lama continuavam enquanto a auréola do velho se desvanecia cada vez mais até desaparecer completamente. O lama soltou um grito súbito e explosivo, um ritual antiquíssimo que ajuda a libertar completamente o espírito. A força vital juntou-se numa massa semelhante a uma nuvem sobre o corpo imóvel agitando-se em grande confusão até formar-se uma réplica esfumada do corpo a que tinha estado ligada pelo “Cordão de Prata”. O “Cordão” adelgaçou-se lentamente e assim como um bebé renasce quando se corta o cordão umbilical, assim o velho renasceu  na vida seguinte. Lentamente, como uma nuvem no céu, ou o fumo de incenso num templo, aquela forma afastou-se. O lama continuou a dar instruções telepáticas durante a primeira fase da jornada. “Estás morto. Aqui nada mais há para ti. Cortaram-te os nós que te prendiam à carne. Estás no bardo. Segue o teu caminho e nós seguiremos o nosso. Segue o caminho prescrito. Abandona este mundo de ilusão e entra na Realidade Maior. Estás morto. Continua o teu caminho.”

As nuvens de incenso elevavam-se no ar. A distância, os tambores rufavam surdamente; dum ponto alto do telhado do mosteiro uma trombeta grave lançava sobre a paisagem a sua mensagem de morte; dos corredores, lá fora, chegavam até nós os sons de uma vida vigorosa, o arrastar de botas de feltro e o mugir cavo de um iaque. Mas ali, naquele pequeno quarto, tudo era silêncio: o silêncio da morte. Só as instruções telepáticas do lama agitavam a camada do silêncio. A morte: outro velho partira na sua roda da existência, aproveitando talvez as lições desta vida, mas destinado a continuar até atingir o estado de Buda, ao fim de longo e continuado esforço.

(In T. Lobsang Rampa, A 3ª Visão, Record, 8.ª Edição, pp. 234-237).