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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Arte de Ser Português (iii)

Escrito por Teixeira de Pascoaes




Serra do Marão



NA LINGUAGEM POPULAR


A linguagem popular é uma florescência espontânea da alma em casamento com o próprio sentir e a paisagem. E é tão animada, que certas palavras, já mortas no Dicionário, ainda vivem, cheias de infância, nos seus dizeres.

Por isso, a linguagem popular é mais irmã do Verbo divino que a linguagem dos letrados. É a voz do sangue e da terra.

E as suas pitorescas expressões tão cheias das próprias coisas que traduzem! Como tudo vive nas suas frases! Como as videiras choram, quando as ferem; como as flores riem no mês de Abril; como as névoas avoam da barra, pelo Dezembro!

Emprega mais a palavra remoto que a palavra distante; ignora a palavra solidão, mas conhece a palavra ermo. A sua extrema sensibilidade ao Mistério, criadora de uma verdadeira Mitologia nocturna que tem como Júpiter, o Medo, prefere os vocábulos nublosos, porque a ideia de ermo é a ideia de solidão obscurecida, e a ideia de distância é a ideia mais clara de remoto.

O pego do rio, o boco dos vales, as horas mortas da noite, o nevoeiro da manhã, são frases populares, de um misterioso e dramático sentido, e é fácil perceber-lhes a essência da legenda sebastianista (13).

As horas mortas da noite têm figura; são lívidos vultos silenciosos, passando por nós, vestidos de sombra. Fazem medo!

E assim pego e boco desenham imediatamente a alma escura e lúgubre dos rios e dos vales.

Vê-se o poder de encarnação que modelou a figura do Encoberto, ao mesmo tempo, sublimada pelo seu destino redentor.

Um saudoso sentimento (14) das coisas murmura em vários dizeres da Linguagem popular, denunciando também a matéria original do nosso génio.


NAS PALAVRAS INTRADUZÍVEIS OU NO GÉNIO DA LÍNGUA


O génio da Língua é a essência espiritual emanada dos seus vocábulos intraduzíveis, que se pode sintetizar numa expressão mais ou menos definida.

Na Língua portuguesa há um certo número de palavras altamente expressivas do que a nossa sensibilidade possui de mais íntimo e característico, e, por isso, sem equivalentes nas outras Línguas.

Mas conhecemos ainda uma célebre palavra animada pelos dois princípios religiosos que definem a alma pátria.

Não precisamos de reunir vários sentimentos comuns dos portugueses, para com eles desenharmos o seu carácter mortal. Há um que o define por completo. Refiro-me à Saudade.

Analisai-a e vereis logo os elementos que a formam: desejo e lembrança, conforme Duarte Nunes de Leão; gosto e amargura, segundo Garrett.




O desejo é a parte sensual e alegre da Saudade, e a lembrança representa a sua face espiritual e dolorida, porque a lembrança inclui a ausência de uma coisa ou de um ser amado que adquire presença espiritual em nós.

A dor espiritualiza o desejo, e o desejo, por sua vez, materializa a dor. Lembrança e desejo confundem-se, penetram-se mutuamente, e precipitam-se depois num sentimento novo que é a Saudade.

Pelo desejo e pela dor, a Saudade representa o sangue e a terra de que descende a nossa Raça.

Assim, aqueles dois ramos étnicos que deram origem aos povos latinos, encontraram na Saudade e, portanto, na alma portuguesa, a sua divina síntese espiritual.

A Saudade pelo desejo (desejar é querer e querer é esperar), em virtude da própria natureza do desejo, é também a esperança, assim como é lembrança pela dor.

Mas, para além deste aspecto definido e revelado da Saudade, existe ainda a sua feição misteriosa, vaga e indefinida, que devemos perscrutar em outros vocábulos intraduzíveis, como remoto, ermo, oculto, luar, nevoeiro, medo, sombra, etc. (15).

O génio da nossa Língua é o dom especial que ela tem de traduzir o sentimento saudoso da Natureza animada e inanimada.


NA FILOSOFIA


O génio lusíada é mais emotivo que intelectual. Afirma e não discute. Quando uma ideia se comove, despreza a dialéctica; e é sendo e não raciocinando que ela prova a sua verdade.

A emoção afoga a inteligência, ultrapassando-a como força criadora. E assim, corresponde à nossa superioridade poética, uma grande inferioridade filosófica. O português não é nada filósofo; a luz do seu olhar alumia mais do que vê; não abrange, num golpe de vista, os conhecimentos humanos, subordinando-os a uma lógica perfeita e nova que os interprete num todo harmonioso.

O português não quer interpretar o mundo nem a vida, contenta-se em vivê-la exteriormente; e tem, por isso, um verdadeiro horror à Filosofia, imaginando encontrá-la em tudo o que não entende.

Daí a sua incapacidade construtiva de novas verdades que representam o móbil superior do Progresso.

Mas haverá um pensamento português? Ou antes, a alma pátria, que nós conhecemos na sua ingénua expressão sentimental e poética, tornou-se já consciente, formulando a sua ideia da Vida e do Universo? Podemos responder que tal ideia começa a desenhar-se em Oliveira Martins e Antero de Quental, extraída do nosso originário misticismo naturalista (lirismo camoniano e popular).

Antero vislumbrou o casamento do Helenismo com o Cristianismo nos seus trabalhos filosóficos; e Oliveira Martins, de acordo com o sublime poeta dos Sonetos, nos seus trabalhos sobre Antropologia e as Raças Humanas, genialmente lança a teoria da evolução criadora, atribuindo ao homem uma qualidade moral específica, sui generis, que a evolução lamarckiana ou a mecanista dos seres não explica.





E neste critério existe um idealismo naturalista (porque admite, como resultante das forças vitais, um fenómeno supranatural) que é a fonte de algumas modernas tentativas filosóficas, entre as quais se destaca o Criacionismo, de Leonardo Coimbra.

Já nitidamente se vê a aurora de um pensamento português, o qual representa a cristalização luminosa da penumbra sentimental e originária do ingénito lirismo religioso e saudoso dos lusíadas.


NA JURISPRUDÊNCIA


É certo que a nossa jurisprudência deriva das leis godas e romanas, e a dos últimos tempos não é mais que uma cópia inferioríssima de leis estrangeiras que desnaturaram por completo o corpo jurídico do Estado.

Mas há leis na nossa antiga legislação, como as primeiras leis proteccionistas do comércio marítimo (cortes de Atouguia) e do desenvolvimento da agricultura, que nasceram directamente do instinto que teve Portugal, depois de se fixar como Pátria, de se defender e consolidar. Ele começou por criar a família rural, ligando-a à posse duradoura da terra. Assim, entre nós, o morgadio teve como origem uma lei (lei avoenga, da 1.ª Dinastia).

Temos ainda os forais e os princípios de direito político estabelecidos nas antigas cortes, revelando o espírito de independência e liberdade que animou sempre a alma popular. Intervinha no governo do País, na sucessão do trono, em todos os actos de interesse geral que o Rei praticasse: a guerra e a paz, lançamento de impostos, etc. E exercia ainda uma esperta vigilância sobre o procedimento dos homens de Estado, alguns dos quais foram acusados e condenados!

Em plena Idade Média, enquanto outros povos gemiam sob o peso do poder absoluto, impúnhamos à nossa Monarquia a forma condicional: o Rei governará se for digno de governar, e governará de acordo com a nossa vontade, expressa nas cortes gerais reunidas anualmente.

E temos ainda várias leis antigas emanadas do Costume, as quais receberam dele uma nuance original que também caracteriza o génio português.


NA ARTE


Nuno Gonçalves (pintor), Soares dos Reis (escultor), além de outros artistas, deram à cor, ao mármore e ao som aquele sentimento saudoso das coisas e da vida, que mostra, a uma luz de beleza original, o íntimo perfil do nosso espírito.


NA LEGENDA


Cfr. Sebastianismo, Aparição de Ourique e outras lendas populares reveladoras também da alma pátria.


NAS FRASES CÉLEBRES


São as frases de certos heróis, proferidas nos instantes sublimes da vida perante a morte, e nas quais a alma humana atinge o relevo mais puro e transcendente.

Nelas perscrutamos, como nas obras de Génio, a intimidade da criatura e também da sua raça.

Tu tremes, carcaça? Que farias tu, se soubesses onde te vou levar! exclamou Turenne a caminho da batalha.

Nestas palavras se percebe o génio gaulês sublimado, a ironia da alma incidindo, como um raio divino, sobre a fraqueza corporal. É a autocaricatura de um herói, na qual ele mesmo se contempla, de imensa altura, e, doloroso, ri do seu temor...

Mac-Mahon, de origem inglesa, comandou o assalto às trincheiras de Sebastopol, na guerra da Crimeia. Quando os soldados ultrapassaram as primeiras muralhas, ficou de pé sobre elas, afrontando as balas do inimigo. E como o aconselhassem a abrigar-se do fogo, respondeu; J'y suis, j'y reste!

Esta frase, em que a suprema coragem congelou, revela o génio do Norte, na sua forma de heroísmo.




Brasão do Conde de Avranches




Em Alfarrobeira, o nosso Conde de Avranches, vendo o seu irmão de armas já morto e sentindo-se cansado de lutar em nome da valorosa lealdade, exclamou, entregando-se às lanças da canalha: Ó corpo, não podes mais! E tu, alma, já tardas!

Turenne, diante da Morte, escarnece o medo do seu corpo; Mac-Mahon atira ao rosto da Morte a sua fria indiferença; Álvaro Vaz d'Almada invoca a Morte como libertadora da alma, e à sua fraqueza humana dirige palavras tristes de perdão.

Se aquela frase anuncia o desejo de abandonar um meio em que triunfava a plebe ignara, mostra também a substância religiosa da alma pátria, encontrando em Deus o móbil da sua actividade. Assim, D. Sebastião, em Alcácer, perdida toda a esperança, voltou os olhos para o Céu. E este mesmo desânimo disse, mais tarde, em Lisboa, pelos lábios de Herculano: Isto dá vontade de morrer!


NA RELIGIÃO


Entre a Poesia e a Religião há estreitos laços de parentesco. O verdadeiro sentimento poético é sempre religioso, porque transcende a realidade sem a desnaturar.

Deus é o Homem infinito. E o poeta fala, entre os homens, a linguagem de Deus, para que eles se reconheçam na sua própria natureza etérea e progridam moralmente. O poeta auxiliando a alma popular no seu doloroso e obscuro trabalho revelador, mostra-lhe o rumo divino que ela deve seguir, acende-lhe, no coração, todos os sentimentos que nimbam de eterna claridade a pobre sombra humana.

Quem fez comunicar os homens com Deus foi o poeta. E os homens, desde então, conceberam, além da sua existência animal, uma outra, mais bela, esse longínquo centro de gravidade para que devem tender as suas mais altas aspirações.

O homem religioso viverá com alegria, porque viverá integralmente a sua vida, não a partilhando com a morte. A alegria de viver é viver a vida em absoluto. O que nos entristece e anoitece, é a vida que deixamos de viver; e, ofendida, nos magoa... O que, sobre o nosso esqueleto, substitui a sombra pela carne, é a capacidade de sonho transcendente que nos eleva a Deus, à Família e à Pátria, e nos obriga a cumprir alegremente a lei do sacrifício.

A essência original e livre (15) da alma pátria, deu originalidade e independência às nossas Letras, à nossa Arte, à nossa Política e também à nossa Religião.

É certo que a primitiva Igreja Lusitana viveu, durante muitos séculos, separada de Roma, e foi só por interesses políticos que Afonso Henriques a submeteu à Cúria (16).

Esta Igreja pertence à nossa tradição é é uma das provas mais eloquentes do espírito de liberdade que caracterizou a nossa Raça.

Da sua reconstituição depende também o pátrio renascimento, concorrendo tal facto para a cultura religiosa do Povo que se tem abastardado, num grosseiro cepticismo destruidor daqueles nobres sentimentos que criam, no ser individual e animal, o ser espiritual: o Pai, o Patriota e o Homem.

É preciso que o Povo encontre o culto religioso dos seus Avós - daquela Alma primitiva que, dentre a confusão das raças da Ibéria, ergueu bem alto a sua presença livre e inconfundível - primeiro na figura homérica de Viriato e depois em Afonso Henriques, esse rude estatuário de uma Pátria que as últimas gerações têm mutilado.


É tão vivo em nós o espírito de independência religiosa, que os nossos melhores teólogos sempre defenderam princípios de acordo com a autonomia da nossa Igreja. Assim Diogo Paiva de Andrade, Frei Bartolomeu dos Mártires e o célebre teólogo António Pereira, num tempo em que era absorvente o poder papal e o jesuítico, defenderam todos os princípios libertadores e nacionalizadores da Igreja Lusitana, a qual consiste na congregação do Povo unido aos seus Bispos cuja jurisdição eles recebem directamente de Cristo e não do Papa. E o poder dado por Cristo aos Bispos é, em si, um poder absoluto e sem limites, por ordem ao governo de cada diocese. O Bispo é o Prelado supremo da sua diocese, e só a Deus deve dar contas do que faz. No episcopado se encerra todo o poder espiritual que Cristo deixou na Igreja, e o título Vigário de Cristo pertence a todos os Bispos e não somente ao Papa (Cfr. Tentativa Teológica, de António Pereira).

Tais princípios defendidos pelos nossos melhores teólogos, demonstram que sempre existiu, em Portugal, muito vivo, aquele espírito de independência religiosa que é a essência do nosso Cristianismo familial e patriótico e um dos mais belos atributos da Raça. A ideia de Família e a de Pátria ligadas à ideia de Deus, representam uma hierarquia espiritual e divina que se não deve destruir. Por isso, a verdadeira igreja cristã é sempre nacional, como ainda hoje a igreja inglesa e outras.

A este conceito nacional da nossa Religião, responde logicamente o sentimento popular.

Não reconhece a supremacia romana, e o seu respeito pelo clero nacional depende das suas boas qualidades morais. É do Povo esta frase: Acredito em Deus, mas os padres são homens como nós...



Crucificação de S. Pedro



Todavia, se o padre for digno e caridoso, receberá de suas ovelhas o mais sincero amor e respeito; mas, se for um homem como os outros, será mal-visto e mesmo satirizado:


Todos os padres de missa
Aos infernos são chamados;
Inda ele têm mais filhos
Que os homens casados.

Canta o pardal no loureiro,
O rouxinol na silveira,
Os padres cantam no coro,
Rogam a Deus por dinheiro.

O padre quando namora
Logo põe a mão na coroa,
Namora, padre, namora,
Que Roma tudo perdoa.

Cancioneiro Popular


Esta alusão satírica ao Papa e as outras quadras mostram que o Povo adora a Deus directamente, ou sem intermediários, de cuja natureza humana desconfia.


Praça de S. Pedro (Roma).



E o que lhe dá independência religiosa é a alma saudosa que o anima.

Quem estudar as lendas e as festas populares (romarias) logo vê o nosso Cristianismo colorido de vivas tintas pagãs:


Nossa Senhora da Veiga,
Ela lá vai Douro acima,
Com cestinha no braço
Fazer a sua vindima.

Lá vem o Baptista abaixo
Vestido de azul-ferrete;
Numa mão traz a custódia
E na outra um ramalhete.

Desceram do céu à terra
Dois anjos embaixadores,
A buscar a Primavera
Que lá no céu não há flores.


Na primeira quadra, a embriaguez dionisíaca tinge de alvoroço alegre a celeste figura da Virgem que vai colher o negro fruto da Alegria...




Na segunda quadra, o Santo Precursor aparece-nos como trazendo, no emblema de Flora, o Santo Espírito. É o casamento do céu com a terra...

Na terceira quadra, mais se consagra ainda a terra, onde há o que não existe no céu: flores! E os Anjos vêm buscá-las ao mundo... A terra e o céu completam-se, como a alma e o corpo, a vida e a morte.

Esta sublime unidade (promessa de uma nova Luz) que atingiram, no génio da nossa Raça, o princípio cristão e o pagão (17), claramente se descobre em todas as formas da nossa actividade intelectual e sentimental. E eis a característica mais profunda e bela da nossa Pátria (in ob. cit., pp. 73-86).


Notas:

(13) Há outras de grande valor representativo nas obras dos nossos grandes autores, como «sol íntimo», de João de Deus.

(14) Se existe um «sentimento romântico», um «sentimento realista», etc., também há um «sentimento saudoso», que explica o nosso amor, idealismo, misticismo, isto é, a nossa atitude, perante a Natureza. Se o Espírito resulta de um movimento reflexo da vida sobre si própria e as suas formas anteriores ou materiais, este movimento é um acto de «lembrança desejosa». O Espírito é, portanto, o «estado saudoso» da Matéria; e a consciência é também um fenómeno de saudade... é esperança que se lembra...

Aquele estado sentimental adquiriu estranho relevo no génio dos lusíadas, em virtude de causas étnicas e de meio a que já nos referimos.

(15) A verdadeira independência consiste em vivermos à nossa custa económica e moralmente; e a verdadeira liberdade consiste em obrarmos em nosso próprio nome, em sermos nós em nossas obras e pensamentos.

(16) Cfr. O Espírito Lusitano, p. 15.

(17) Já vimos que o sentimento religioso lusitano, em virtude da sua tendência naturalista, humanizou a Igreja, tornando-a familial, patriótica e anti-romana.


Catedral de Viseu



terça-feira, 31 de maio de 2011

Arte de Ser Português (ii)

Escrito por Teixeira de Pascoaes





"Camões na Gruta de Macau"



MANIFESTAÇÕES DA NOSSA ACTIVIDADE EM QUE MELHOR SE REVELA A ALMA PÁTRIA


NA LITERATURA


«Quem ler alguns dos nossos grandes escritores, Camões, Bernardim, António Ferreira, Gil Vicente, Vieira, Camilo e António Nobre, vê que a sua sensibilidade é, por assim dizer, dualista; tem essência e forma e, ante elas, vibra com a mesma intensidade. Quero dizer: a sua emoção nasce do contacto de suas almas humanas com a parte material e espiritual das coisas e dos seres contemplados. E desses dois contactos resulta uma só impressão que lhes dá vida e actividade ao génio literário» (7).

E digo génio literário, porque o escritor é muito mais espontâneo e emotivo do que intelectual (8), o que imprime verdadeiro encanto às suas obras nascidas directamente da Inspiração e para sempre animadas de íntimo calor. Elas ganham, em expressão vivente, o que lhes falta em força dialéctica e construtora de pensamento. E por isso, em Portugal, é pequeníssima a distância entre a literatura culta e a popular.

O escritor português tem o sentimento inato da Paisagem, porque ela responde às suas íntimas qualidades rácicas. Nos romances de Camilo, por exemplo, as personagens estão, para a terra natal, numa relação de parentesco apenas igualada pelas árvores... A Mariana do Amor de Perdição é a mais pura flor silvestre, a obscura flor de sacrifício nascida para ser trilhada; a pequenina Virgem das nossas povoações rurais, que tem, na sua beleza de humildade, aquele casto amor silencioso que se esconde no coração, e ali vive para não morrer...






A esta divina donzela camiliana, responde o Povo cantando:


Se eu não amo deveras,
Deus do céu me não escute,
Estrelas não m'alumiem,
A terra não me sepulte

Eu fui aquela que disse:
Ou contigo ou com a terra!
Se não casasse contigo
Queria morrer donzela

O meu coração do teu
É mui ruim de afastar
É como a alma do corpo
Quando Deus a quer levar.


A Joaninha de Garret lembra uma Flor desabrochando a ouvir cantar um rouxinol...

E a Menina e Moça de Bernardim é toda ermo crepúsculo, queixume de zéfiro outonal... É a alma etérea dos ermos em vulto de humana formosura...

Sobressaem, no romance nacional, os tipos femininos, porque a nossa sensibilidade panteísta visiona a criatura através da Natureza que é mulher.

Mas, na Poesia aparece a alma de um Povo, no que ela tem de mais profundo e misterioso.

É por intermédio dos poetas que o génio popular se vai fixando em figura viva, cada vez mais perfeita.




O poeta é o escultor espiritual de uma Pátria, o revelador-criador do seu carácter em mármore eterno de harmonia.

Devemos considerar divina a missão dos poetas, quando não mintam ao seu destino sublime.

Se a Ciência é a realidade das coisas fora de nós, a Poesia é a sua realidade dentro em nós. A Ciência vê; a Poesia visiona, transcendentaliza o objecto contemplado; eleva o real ao ideal; é criadora, e as suas criações ficam a viver, a pertencer à Natureza que, nelas, se excede e acrescenta às suas formas do domínio Científico, a beleza espiritual.

A Poesia converte matéria em espírito; e, por isso, ela intervém na criação da alma pátria, definindo e sublimando as suas qualidades, e tornando-as, ao mesmo tempo, universais e duradouras.

A obra mais representativa da Raça, por mais espontânea, é o Cancioneiro Popular. Nele transparece encantadoramente a fusão dos contrastes: dor e alegria, vida e morte, espírito e matéria, e a própria divinização da Saudade.


De qualquer sorte que existas,
És a mesma divindade;
Ventura quando te vejo
Se te não vejo, saudade!


O Cancioneiro Popular (9) não é apenas uma obra satírica e amorosa, como tem sido considerado: é, antes de tudo, uma obra religiosa, anunciando o nosso misticismo panteísta (10).


Ó sol, torna-te amanhã,
Eu quero ver-te nascer!
Só a vós é que eu adoro,
Só por vós quero morrer!

Eu sou filho das estrelas,
Junto ao céu fui criado,
Perdi-me na noite escura,
Fui em teu peito encontrado.

Meu coração é um rio
Cheio de águas, mete medo!
Seca-se o meu coração,
Rega-se o teu arvoredo!




Os versos da última quadra, de uma grandeza cósmica difícil de encontrar nos maiores poetas, traduzem a paixão do amor sulcando o coração humano como um rio caudaloso. A água do coração identificada com a das fontes! O amor e a dor disputando às nuvens a graça de fecundar e florir a terra!

No Cancioneiro há também a tragédia do Mistério:


Ó noite que vais crescendo,
Tão cheia de escuridão,
Tu és a flor mais bela
Dentro do meu coração!


Nesta cantiga se desvenda a qualidade sublime da alma popular, que integra a dor lusíada na dor universal, e é mais um aspecto do seu poder saudosista ou do seu parentesco íntimo com as coisas.

O deus Pã, o velho deus alegre das florestas, cobre-se de sombras, e aparece à alma do Povo. É o Medo profundo e mítico, povoando a noite de aparições, dramatizando fantasmaticamente a Natureza. É o medo que nos põe em convivência com o outro mundo, com as almas bem-amadas que partiram, encomendadas, de noite, pela Quaresma, dos altos píncaros solitários:


Irmãos! alerta! alerta!
Que a morte é certa
E a hora incerta!


E este medo saudoso, fonte inesgotável de Poesia, que atingiu na obra de Bocage uma das suas mais belas expressões líricas, não adquiriu ainda a sua forma verdadeira -, forma dramática e trágica; e por isso, o consideramos a origem futura de um grande teatro português.



Manuel Maria Barbosa l'Hedois du Bocage (1765-1805).



Este Medo, esta Dor fantasma, terrível por indefinida e ansiosa por inatingível, não encontrou ainda o seu Ésquilo.

O Cancioneiro Popular tão pobre como Poética, representa a maior riqueza de Poesia que possuímos. Nele vive tão inteira a alma pátria, que, pelo seu estudo, se pode reconstruir espiritualmente Portugal. E dele pode nascer o romance, o poema, a tragédia, o drama, a filosofia, a estátua, a lei do Estado.

O Cancioneiro e a obra camoniana constituem os dois fundamentos indestrutíveis da nossa Raça. Logo que a Mocidade os compreenda, subordinando-lhes o seu espírito, e obrando a profunda reforma política, religiosa, económica e literária de que a Pátria necessita para se erguer, definida e viva, da nódoa estrangeirada em que a deliram, e apagaram, então, sim, voltaremos, de novo, a ser Alguém...

E com a poesia popular estão de acordo os nossos poetas. O seu lirismo elegíaco, desde Bernardim a António Nobre é longínquo e nubloso: sebastianista. Dentro dele, paira a sombra do Mar, a Aventura na sua aurora de tristeza, a tentação do Remoto e do Mistério.

E o seu amor é o amor saudoso, o dolorido culto da mulher santificada pela ausência (11), contemplada através de uma lágrima que lhe transmuda o corpo carnal em vulto de lembrança. O coração português adora, sobretudo, a imagem da bem-amada. Na sua íntima tendência mística despe a mulher do hábito material e transitório, e adora-a, extasiado, em alma ou presença de saudade.


Chamaste-me a tua vida,
Em tua alma quero ser!

Cancioneiro Popular


Este amoroso platonismo, este vago sentido etéreo das coisas na sua pureza imaterial e original, dá uma delicadeza divina à obra lírica da Raça, e é um sinal da sua religiosidade saudosista. Por isso, todos os nossos líricos verdadeiros são poetas místicos. Divinizam o Amor, imaterializando o seu objecto, por meio de uma ausência real ou imaginária.

Tal sentimento da Mulher anima o nosso culto à Virgem Maria que se humaniza e aproxima de nós, com o Menino Deus nos braços, ou jaz de dor aos pés da Cruz. É a Esposa casta e a Mãe amantíssima, alma da Família, pessoa espiritual de Deus:


E teu filho, madre, esposa,
Horta nobre, frol dos céus,
Virgem Maria.
Mansa pomba gloriosa,
Ó quão chorosa,
Quando o seu filho e Deus
Padecia!

Gil Vicente


Pois que seria, Virgem, quando vistes
Com fel nojoso e com vinagre amaro
Matar a sede ao Filho que paristes!

Camões






O idealismo saudoso, no qual se fundem o espírito e a matéria, a vida e a morte, é o nosso próprio misticismo,


Adeus, minha saudade,
Espelho do meu sentido (12).


a essência do nosso Cristianismo (in ob. cit., pp. 65-73).


Notas:

(7) Cfr. O Espírito Lusitano, p. 9, e O Génio Português, Ed. da Renascença Portuguesa, Porto, 1913, p. 17.

(8) Eis porque a ideia subentendida na Raça, o nosso «ideal colectivo» derivante da nossa natureza moral, vive disperso em nuvens de sentimento e vagas claridades instintivas, na Arte e na Literatura. Daí a sua existência ignorada e incompreendida, que tanto compromete o progresso moral da Pátria, que hesitou no seu caminho, transviando-se.

(9) Cfr. o meu artigo «Camões e a Cantiga Popular», in A Águia, vol. III, p. 177.

(10) Há portugueses que chamam a este ingénito misticismo da nossa raça nebulosidades germânicas!!!

(11) Eis a nossa costela quixotesca. Na verdade, Dom Quixote, no seu divino criador, Miguel Cervantes, participa da alma galega, nossa irmã nos velhos celtas. Daí o seu valor peninsular. A Saudade não é estranha a Dom Quixote, e Cervantes adorou Camões.

(12) Cfr. o citado Cancioneiro Popular.







Dulcineia del Toboso



Continua


domingo, 29 de maio de 2011

Arte de Ser Português (i)

Escrito por Teixeira de Pascoaes




Ponte de Amarante






DA ALMA PÁTRIA E SUA ORIGEM


A alma lusíada tem a sua origem na fusão de antigos Povos que habitaram a Península, e na Paisagem.

Esta bela flor espiritual brotou de uma haste que mergulha as raízes na terra e no sangue, entre os quais se estabeleceram verdadeiros laços de parentesco.


A PAISAGEM


É na região de Entre-Douro-e-Minho, que o Portugal de terra se mostra em alto e nítido relevo. É ali, portanto, que devemos estudar a Paisagem, como fonte psíquica da Raça.

Quem atingir as alturas do Marão, o seu píncaro mais elevado (1400 metros acima do mar) onde está edificada a pequena ermida da Senhora da Serra, avista, para as bandas do nascente, o escuro e montanhoso Trás-os-Montes; e, para os lados de noroeste e nordeste, o Minho viridente. Depois, aproximando o olhar, descobre, nesta mesma direcção as terras vizinhas do Tâmega que participam de Trás-os-Montes pelo acidentado do terreno e do Minho pelo verde e alegre colorido dos seus vales e pradarias.

O doloroso drama transmontano e o bucólico idílio minhoto, fundem-se, na região do Tâmega, numa paisagem original que é o próprio busto panteísta do génio dos lusíadas.

Se exceptuarmos as planícies do Alentejo, monótonas, como que anoitecidas de um vago e antigo sonho mourisco, e os desnudos planaltos transmontanos de uma hostil e amarela aridez judaica, a paisagem portuguesa (1) é quase toda igual à banhada pelo Tâmega.

Entre-Douro-e-Minho é o coração de Portugal casado ao sentir ingénito da Raça.

A reflexão da paisagem no homem é activa e constante. A paisagem não é uma coisa inanimada; tem uma alma que actua com amor ou dor sobre as nossas ideias ou sentimentos, transmitindo-lhes o quer que é da sua essência, da sua vaga e remota qualidade que, neles, conquista acção moral e consciente.

Por isso, a paisagem representa um grande papel na nossa existência; tem sobre nós como que um poder de herança, igual ao dos fantasmas avoengos.

O estudo da sua influência moral sobre o homem, creio que está, infelizmente, por fazer - o que torna incompleto o conhecimento da alma humana, deixando, na sombra, a origem e a natureza de alguns sentimentos e instintos (2) (o da beleza e o do crime, por exemplo, nas suas formas panteístas) de certas modificações que sofrem, de certas nuances que adquirem, etc.


O SANGUE


Empregamos esta palavra como significando Herança.


Serra do Marão


Os rubros glóbulos sanguíneos trazem, dentro da sua microscópica esfera, antigos espectros que ressurgem e vão definindo o carácter dos indivíduos e dos Povos.

Gritam no sangue velhas tragédias, murmuram velhos sonhos, velhos diálogos com Deus e com a terra, esperanças, desilusões, terrores, heroísmos, que desenham, em tintas vivas, o cenário e a acção das nossas almas.

O sangue é a memória, presença de fantasmas, que nos dominam e dirigem.

À voz do sangue responde a voz da terra; e este diálogo misterioso mostra os caracteres da nossa íntima fisionomia portuguesa.

A Ibéria foi primitivamente povoada por diversos Povos de que descendem os actuais castelhanos, vascos, andaluzes, galegos, catalães, portugueses, etc.

Aqueles Povos pertenciam a dois ramos étnicos distintos, diferenciados por estigmas de natureza física e moral.

Um dos ramos é o ariano (gregos, romanos, godos, celtas, etc.); e o outro, é o semita (fenícios, judeus e árabes).

O Ária criou a civilização greco-romana, o culto plástico da Forma, a beleza concebida dentro da Realidade próxima e tangível (3), o Paganismo; o Semita criou a civilização judaica, a Bíblia, o culto do Espírito, a unidade divina, a beleza concebida para além da Matéria.

O Ária cantou, nos cumes do Parnaso, a verde alegria terrestre, a infância, a superfície angélica da Vida; o Semita glorificou, nos cerros do Calvário, a dor salvadora que nos eleva para o céu, o céu da Redenção, pelo sacrifício do individual ao espiritual (4).

Vénus é a suprema flor do Naturalismo grego; a Virgem Dolorosa, a suprema flor do Espiritualismo judaico. A primeira simboliza o amor carnal que continua a vida, esta, o amor ideal que a purifica e diviniza.

O Ária (celtas, gregos e romanos) trouxe, portanto, à Ibéria o Naturalismo, e o Semita, (árabes e judeus) o Espiritualismo (5).

Povos destes dois ramos étnicos tão diferentes, misturam-se na Península, originando as antigas Nacionalidades que Castela submeteu à sua hegemonia, com excepção de Portugal. Todavia, conservam uma certa independência moral (6) revelada pelos idiomas ainda hoje falados na Espanha.

Portugal resiste, há oito séculos, ao poder absorvente de Castela. Demonstra este facto que, de todas as velhas Nacionalidades peninsulares, foi Portugal a dotada com mais força de carácter ou de raça.


E este seu carácter, trabalhado depois pela Paisagem, resultou ou nasceu da mais perfeita e harmoniosa fusão que, neste canto da Ibéria, se fez do sangue ariano e semita.

Estes dois sangues, equivalendo-se em energia transmissora de heranças, deram à Raça lusitana as suas próprias qualidades superiores, que, em vez de se contradizerem - pelo contrário - se combinaram amorosamente, unificando-se na bela criação da alma pátria.


DA ALMA PÁTRIA E SEU CARÁCTER


Já vimos que a maior parte da paisagem portuguesa está de acordo com o génio ariano e semita, pela aparência alegre e dolorosa dos seus ermos montes emsombrados de árvores, subindo de viridentes campinas, ou espraiando-se em planaltos luminosos.

É uma paisagem de contrastes que se abraçam e beijam com amor. Também a alma pátria é uma alma de contrastes que se abraçam e beijam com amor. E neste amor que os casa, encontra ela, por assim dizer, a alma da sua alma, a parte mais etérea e sublime da sua fisionomia religiosa que ao Futuro compete definir, concretizar em formas reais.

Na alma da Paisagem, como na do Povo, existe Cristianismo e Paganismo: Religião.

A dor múrmura dos pinheirais sombrios, a mágoa silenciosa dos ermos escalvados e o verde riso das campinas representam, na Paisagem, a tristeza espiritual e o sentido alegre e plástico do mundo, que dão vulto ao génio dos lusíadas.


A alma pátria é, portanto, caracterizada pela fusão que se realizou, na nossa Raça, do princípio naturalista ou ariano e do princípio espiritualista ou semita, e pelas qualidades morais da Paisagem que, em vez de contrariar a herança étnica, a acentua e fortalece.

E este carácter do génio lusíada idealmente se completa pela sua feição religiosa que, absorvendo a ideia cristã e a pagã, deste dualismo extrai a sua unidade sentimental, aquele sentimento saudoso das Coisas, da Vida e de Deus, que anima de original e mística beleza a nossa Arte, Poesia, Literatura e Cristianismo (in Arte de Ser Português, Assírio & Alvim, 1998, pp. 51-62).


Notas:

(1) Muito se tem escrito, em prosa e verso, acerca da paisagem de Coimbra. Toda de melancólica suavidade, dilui-se em meigos tons que se combinam numa doce fisionomia parada e contemplativa, e traduz propriamente o indeciso alvorecer do nosso génio, a tristeza da meia sombra matutina, a lágrima alvorante dos nossos primeiros elegíacos.

«Mas a região de Entre-Douro-e-Minho define-se pela combinação amorosa ou dramática dos seus contrastes». Veremos, adiante, como estes coincidem com os da alma pátria.

(2) Em Trás-os-Montes, paisagem dolorosa, há mais crimes de morte do que no Minho, paisagem alegre e feliz.

Ali, a navalha que mata, converteu-se no cacete, no ramo de árvore que faz barulho. O instrumento criminal vegetalizou-se, e a «pancada» ou «paulada» é, por assim dizer, o crime de ofensa corporal paganizado...

(3) ... admitimos duas realidades: a realidade - meio («animal») e a realidade - fim («espiritual»). ... este «dualismo» se converte em «unidade» no sentimento característico da «alma pátria» - inesgotável fonte de beleza e pensamento filosófico, religioso e social.

(4) E assim o amor filial e o amor pátrio, representados por um idêntico sentimento de sacrifício, se cristianizam; e aqueles dois amores tornam-se, como já dissemos, as duas primeiras formas de amor a Deus que é a atitude ideal de todos os nobres sentimentos.

(5) Cf. O Espírito Lusitano ou o Saudosismo, Ed. da Renascença Portuguesa, Porto, 1912, pp. 8-9.

(6) Principalmente a Catalunha, esse belo Povo nosso irmão, a quem devemos a mais fraterna simpatia, e ainda a Galiza que, em virtude da sua herança celta, tem o parentesco mais íntimo com os povos do Minho. O rio deste nome não separa as duas províncias... A límpida corrente, reflectindo as duas margens, parece casá-las numa lágrima eterna de saudade...




Continua


terça-feira, 12 de outubro de 2010

Fernando Pessoa apreciado por Teixeira de Pascoaes

Entrevista a Teixeira de Pascoaes








Assistimos à leitura do admirável «poema em prosa» (no dizer justo de Lopes de Oliveira), que foi a conferência de Teixeira de Pascoaes sobre Junqueiro. Nela, feriram-nos a atenção umas referências veladas, mas em todo o caso visivelmente depreciativas, para Fernando Pessoa como poeta. Ficou-nos o desejo de ouvir o autor do «Sempre» falar mais de espaço sobre o assunto. Havia motivos para julgarmos de particular interesse o seu depoimento sobre a personalidade literária de Pessoa, além da razão de ordem geral de ser sempre grato ouvir um grande poeta falar de outro grande poeta (ou, para nos exprimirmos em termos objectivos – considerado como tal). Na verdade, não fora sob a égide de Pascoaes que Fernando Pessoa se estreara nas letras? Não houvera, porventura, relações pessoais entre ambos e não emitira Fernando Pessoa, por mais de uma vez, juízos de valor sobre a poesia de Pascoaes, que mostram bem o alto conceito em que o autor da «Mensagem» tinha a poesia pascoaesiana? De Pascoaes sobre Fernando Pessoa, é que nada lêramos ainda e só ouvíramos as referências irónicas da conferência sobre Junqueiro. Além disso, tanto Fernando Pessoa como Teixeira de Pascoaes estão na ordem do dia, neste ano de 1950. Sobre Fernando Pessoa anuncia-se a próxima publicação dum estudo crítico; da autoria do próprio Fernando Pessoa foram, há pouco, reveladas as páginas sensacionais de «O Preconceito da Ordem» e sabe-se ir sair em breve a tradução portuguesa dos «English Poems». Quanto a Pascoaes (parecendo começar, agora, nesta sua terra, a dar-se conta de que é um escritor de celebridade mundial), o público português vai registando: acaba de aparecer a 4.ª edição do «São Paulo» em holandês; fundou-se em Zurique uma sociedade de intelectuais para estudar a obra do autor do «Verbo Escuro»; uma editorial americana vai publicar em português os inéditos, e ainda reeditar, também em português, toda a obra de Pascoaes, etc.

Encontrando-nos com Pascoaes, resultou, ao sabor da conversa, a entrevista que segue.

– Gostava de saber o que pensa de Fernando Pessoa. As suas alusões irónicas ao «Supra Camões» e ao «Sumo Poeta da actualidade» parece não deixarem lugar a dúvidas de que Fernando Pessoa não lhe merece muita consideração como poeta…

– Evidentemente.

– Mas então seria muito interessante ouvir a sua opinião, fundamentada, sobre Fernando Pessoa, tanto mais que a teoria do «Supra Camões» foi sob a sua direcção, na «Águia», que ele a expôs, e além disso creio que devem ter convivido um com o outro…

– Conheci-o pessoalmente, mas convivi pouco, ou antes, não convivi com ele. Tinha um aspecto misterioso… Olhe: era só quase nos eléctricos que o encontrava (excepto uma vez que conversei com ele no Martinho da Arcada). E, a propósito, ocorre-me que, numa ocasião, entrando eu num eléctrico (recordo-me bem, era da carreira da Estrela), deparo com Fernando Pessoa que me pergunta de chofre: «Já notou uma coisa, ó Pascoaes? Há escritores de quem toda a gente fala e ninguém lê, e outros de quem ninguém fala e toda a gente lê. E destas duas espécies, quais, em seu entender, têm mais valor?» Respondi que aqueles de quem toda a gente fala e ninguém lê, e Fernando Pessoa rematou: «É também a minha opinião».



– O que acaba de contar é já curiosíssimo. Mas, entrando fundo na questão: não considera Fernando pessoa uma figura literária de primeira grandeza, e possuidor dum talento extraordinário? – o que, de resto, no dizer daqueles que com ele privaram e tinham olhos para ver, saltava à vista ao mais ligeiro contacto?

– Considero, sim senhor, Fernando Pessoa um grande talento. Mais: afirmo que como crítico e como ironista não houve outro que o igualasse. Nem o Camilo nem o Eça, nem o Fialho (que, quando atingia o máximo da expressão, era superior ao Camilo e ao Eça). Mas depois veio Fernando Pessoa, e foi o mais genial de todos (tão genial, que o tomaram e tomam a sério, o que não aconteceu aos outros). O desaparecimento de Fernando Pessoa deixou um vácuo que ainda não foi preenchido, nem o será tão cedo. Já vê que tenho o culto da memória de Fernando Pessoa…

– Está bem, mas queria que me falasse do Fernando Pessoa poeta. E a propósito: sabe com certeza o que ele escreveu a seu respeito?

– Não me lembro.

– Por exemplo, que os «sinais do nosso renascimento próximo (Pessoa escrevia isto em 1923) são o caminho de ferro de Antero a Pascoaes e a nova linha que está quase construída».

– Ele escreveu isso? Desconhecia. Mas – ironizando… – deixe-me concluir a frase: «construída…» por ele!… Pois claro. Então ele não era o «Supra Camões?…» No entender dele
seria; no meu, não foi poeta…

– !?

– Repare: não digo que foi mau poeta. Digo que não foi poeta, isto é, nem bom nem mau poeta. E se foi poeta, foi-o só com exclusão de todos os outros, desde Homero, até aos nossos dias… Veja a «Tabacaria»: não passa duma brincadeira. Que poesia há ali? Não há nenhuma, como não há nada… nem sequer cigarros!… Fernando Pessoa tentou intelectualizar a poesia e isso é a morte dela. É roubar o espontâneo à Alma Humana, isto é, o que ela tem de Alma Universal ou de poder representativo da realidade. Veja o poema (poema?!) que começa «O que nós vemos das coisas»… Isto não é poesia, nem filosofia, nem nada. Não é poesia, porque nessa visão das coisas elas mostram apenas a sua mais próxima superfície, criada pelo seu primeiro contacto com a nossa sensibilidade; é portanto a sua mais falsa aparência. Não é filosofia, porque sobre esta aparência não podemos construir nenhum sistema interpretativo da existência, cujos últimos limites se estendem, talvez inspiradamente, para além da sua constituição atómico-eléctrica. Fernando Pessoa, quanto era lógico na prosa, era ilógico no verso.






– Íamos ouvindo e registando. Evidentemente que a nossa opinião não contava. Estávamos ali como se fôssemos um repórter e a função deste é provocar a discussão e, de seguida, escutar. Atalhámos:

– Ocorre-me esta afirmação de Pessoa: «Há duas feições literárias, a épica e a dramática. O lirismo é a incapacidade comovida de ter qualquer delas» Que lhe parece?

– Que não é nada disso. Ser lírico é ser poeta dentro das leis eternas da harmonia. Basta irmos à origem da palavra: vem de «lira», instrumento de música. E sem música não há poesia, não só lírica, mas também épica, dramática e satírica, pois a epopeia, o drama e a sátira, são formas do lirismo essencial.

– Então, em resumo, Fernando Pessoa…

– Em resumo, Fernando Pessoa não foi poeta, porque foi dotado dum raciocínio matemático. Ora a matemática estiliza a poesia e a poesia não pode ser estilizada, porque a estilização mata. Que é o homem estilizado? O seu esqueleto (que são as nossas linhas essenciais e firmes).

Mas Pascoaes conheceria toda a obra poética de Fernando Pessoa, para assim, não fazer a mais pequena concessão ao Fernando Pessoa poeta? Averiguámos que não, e comprometemo-nos a fazer chegar às suas mãos alguma coisa do que ele não conhecia e que, em nosso entender, poderia, talvez, modificar a sua opinião. Entretanto, como dispunhamos já de poucos minutos, quisemos ainda, abordar outra faceta da personalidade de Fernando Pessoa.






– Que me diz ao Fernando Pessoa político?

– Sobre isso nada lhe posso dizer com segurança. Nunca falei com ele sobre política e compreende-se, pois eu não sou político. Sou liberal, é certo, mas sou-o por egoísmo. Quero a liberdade pela mesma razão por que o sapateiro quer que haja sola: é que sem sola o sapateiro não pode fazer sapatos, e eu, também, sem liberdade não posso trabalhar intelectualmente. Em todo o caso, quanto ao Fernando Pessoa político, a impressão que tenho é a de que em política era o mesmo que em poesia. Tinha a arte de tornar o «sim» igual ao «não» e vice-versa… Em suma, um «blagueur» genial. Houve um esboço («a lápis…») do Fernando Pessoa: foi o Santa-Rita Pintor, outro «blagueur», cujas «blagues» andavam na boca de toda a gente, em Lisboa, há uns trinta ou trinta e cinco anos. Era considerado naquela altura o maior pintor de Portugal e creio que nunca pintou nada…

– Já que falou do Santa-Rita Pintor, diga-me: que pensa do movimento futurista?

– Nesse movimento houve um poeta, um verdadeiro poeta: Mário de Sá-Carneiro. Esse, sim, foi um poeta de raiz, porque não era nada estilizado. E no domínio das artes plásticas, houve, ou há, o Almada, que como artista tem incontestável mérito.

– Tinha terminado a nossa conversa. As opiniões nela manifestadas, discutíveis como todas as opiniões, e, talvez, não definitivas, revestem-se de alto interesse, dada a categoria de quem as emitiu. Valia a pena virem a lume? Ocorrem-nos as palavras famosas de Fernando Pessoa. «Tudo vale a pena se a alma não é pequena»…


Mário de Sá Carneiro (1890-1916).


quinta-feira, 22 de abril de 2010

Aforismos (iv)

Escrito por Teixeira de Pascoaes




Solar de Pascoaes




As formas objectivas do universo ninguém as vê. Existem sepultadas na escuridão que cai do sol.

O sol bate-nos nos olhos, como nós batemos a uma porta que não se abre.

O sol é o esplendor da Vulgaridade.

Os anjos são de luar, como de sol os demónios. O sol, encarnando, escurece. A raça negra...

Ser uma coisa evidente é ficar reduzido a quase nada.

A imagem das vacas tem maior nitidez que a das pessoas.

Vivemos como num estado de transmigração para a nossa fotografia.



sábado, 10 de abril de 2010

Aforismos (iii)

Escrito por Teixeira de Pascoaes




Serra do Marão



Deus não está nos preceitos da Moral.

Deus não sabe como se chama!

A morte é a pessoa feminina de Deus.

O Universo é o cadáver de Deus, a estátua fria e inerte da Esperança.

Se Deus não fosse um absurdo, quem lhe ligaria importância ou acreditaria nele?

O mal e o bem progridem ao mesmo tempo. São como forças paralelas que se prolongam animadas d'um movimento igual em velocidade. O reino de Deus aumenta, junto do reino de Satã que se dilata. O dia e a noite crescem sobre a terra. A luz é cada vez mais clara e a treva cada vez mais negra.



sábado, 3 de abril de 2010

Aforismos (ii)

Escrito por Teixeira de Pascoaes







A Natureza odeia a linha recta.

Do concreto sai o abstracto como dum pinheiro o número um.

Um penedo é a sua própria força construtiva; uma ave é a sua própria acção orgânica.

Na orgânica de um olho, por exemplo, anuncia-se uma arte que excede o inimaginável.

Cada número ordinal tem uma espécie de carácter absoluto, irredutível a qualquer operação aritmética.

A geometria é poesia solidificada, a ciência da morte e, portanto, exacta.



terça-feira, 30 de março de 2010

Aforismos (i)

Escrito por Teixeira de Pascoaes








O Universo é um cérebro infinito povoado de inúmeras imagens.

A economia terrestre, como a mecânica, depende da celeste.

A sociedade é uma colecção de cidadãos ou fantasmas, criaturas expulsas da Existência natural, por interesse colectivo. Que são os homens, diante do Homem?

O homem é o espaço e o tempo (os outros animais são apenas espaço).

O homem, antes de tudo, é poeta, por mais gordo ou adaptado à rotundidade planetária; e depois é pedagogo, aferidor de pesos e medidas, engenheiro, deputado e outras deformidades sociais.