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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Os Portugueses já não entendem a língua que falam e escrevem

Escrito por Álvaro Ribeiro







«Ao publicar, em 1943, o seu primeiro livro, "O Problema da Filosofia Portuguesa", Álvaro Ribeiro estava longe de prever que o seu nome ficaria para sempre ligado à designação de "filosofia portuguesa" e ao que por ela se entendeu.

O que por ela se tem entendido é da mais perturbante e confusa variedade. O que Álvaro Ribeiro entendeu é muito singelo e patente: se cada povo, ou cada pátria, é uma entidade espiritual, como a singularidade da língua demonstra, então corresponde-lhe, necessariamente, uma filosofia própria. Propôs-se, Álvaro naquele livro, descrever as condições, que são sobretudo didácticas, para que tal filosofia se exprima. Porque se ela não se exprimir, a entidade espiritual que é o povo, ou a pátria, tem o destino ameaçado, não viverá a existência que lhe é própria, depressa se evanescerá. Há hoje quem considere que tal evanescência é a fase em que o povo português se encontra.

O problema consistiria, pois, em criar as condições para a expressão da filosofia portuguesa. Mas não foi assim que foi entendido. O que se entendeu foi que Álvaro Ribeiro afirmava a existência histórica, literária, cultural e documental da filosofia portuguesa, coisa que a "cultura oficial" recusou e recusa admitir.»

Orlando Vitorino («Um filósofo singular: Álvaro Ribeiro»).


«Afastada a difícil e inevitável questão da utilidade pública de uma faculdade de ensino teorético, pode discutir-se a possibilidade de desenvolver no país um pensamento filosófico verdadeiramente original.

Há quem negue o carácter popular ou nacional da actividade filosófica, declarando que a contingência idiomática só qualifica a proveniência do contributo para o resultado da cultura humana; mas este prejuízo, fundamentado apenas numa noção estática e absoluta de universidade, ou até de humanidade, não teria grandes consequências se não fosse apoiado pela divisão convencional da história da filosofia.

Interessa, porém, não confundir a religião com a filosofia. A religião é unitiva e integrante; a filosofia, pelo contrário, desenvolvendo nos homens como nos povos a mais perfeita consciência de si, é altamente diferenciante. A religião, constituída predominantemente por actos que pressupõem a existência de verdades reveladas, terá de estar presente a todos os graus de cultura e a tal fim adaptará sempre o seu ensino; a filosofia, pelo contrário, consiste numa gradual e difícil transformação da mentalidade originária pela razão ascendente ao estado sófico.

A obra filosófica que não seja um mero produto escolástico terá sempre carácter pessoal, nacional e universal; ela é o resultado duma experiência singular e reflecte necessariamente as condições de idade, sexo, raça, língua e cultura que o pensador dominou com as discretas articulações da razão. É no seu aspecto de subjectividade que a filosofia pode apresentar carácter pessoal e nacional; mas esse aspecto é necessário, legítimo, inegável.

Mais correctamente se poderá falar de filosofia alemã, francesa, inglesa ou italiana do que de filosofia moderna ou contemporânea; nem o uso de tais expressões vai favorecer o orgulho dos povos de Além-Pirenéus, nem o seu desuso desculpa o despertar tardio da consciência filosófica entre os portugueses.

A incompatibilidade do povo português com determinados tipos de pensamento, especialmente com certas doutrinas de estrangeira cultura, não significa inaptidão especulativa; modificado o ambiente espiritual, pela falência dos extremismos das doutrinas incompletas, a filosofia portuguesa poderá surgir, não como contribuinte duma cultura estranha, mas como reveladora duma expressão autónoma, com dignidade idêntica às das outras filosofias nacionais

Álvaro Ribeiro («O Problema da Filosofia Portuguesa»).




Pinharanda Gomes



«Remetida para o domínio das ideias, a fundação do povo português que os historiadores tentam explicar por descrições e arranjos dos acontecimentos, adquire um significado que a historiografia ignora. É esse significado que Pinharanda Gomes procura na sua história da filosofia portuguesa.

Importa conhecê-la em toda a sua conceptualização

Orlando Vitorino («A Obra Monumental de Pinharanda Gomes», in O Pensamento e a Obra de Pinharanda Gomes).


«Alheia às vicissitudes da cultura universitária, onde se deforma quando se reflecte, tem sido quase sempre inspirada por um espírito subtil e desconhecido a filosofia portuguesa. Descrever as características desta filosofia e, depois de descrevê-las, defini-las, para que os conceitos e as teses se prestem às operações lógicas, é aventura por entre enganos e desenganos de quem terá de suportar a adversidade da crítica e esperar a ingratidão dos publicistas. Sabido, porém, que antes da aventura e da experiência não é possível desenhar o método, teremos de passar o risco das fabulações, conjecturas e hipóteses, se quisermos estabelecer disciplina rigorosa e exacta.

Estas viagens de descobrimento começaram no século passado, quando os precursores se inteiraram de que, fora da estrada real que conduzia ao aristotelismo tomista, outros caminhos houve também pelos quais os nossos pensadores foram procurando o da verdade. Não só por terra firme, mas também pelo mar, foram singrando os investigadores até encontrarem a especulação nebulosa dos pensadores isolados. A aventura pensante de mediação e de meditação através dos elementos foi recomendada por Aristóteles que comparou a filosofia com a altanaria.

Não há já dúvida, porque três vias estão abertas para os pensadores que desejarem prosseguir no estudo da filosofia portuguesa. Os que se sentirem mais inclinados para a paleografia, que é a arte de escrever a respeito de papéis velhos, manuscritos ou impressos, brochados ou encadernados, poderão responder e corresponder às exigências universitárias, apresentando do pensamento português a prova bibliográfica. Nem todos os estudiosos são, porém, dotados das mesmas aptidões, e poucos usufruem de ócio suficiente que possam gastar na frequentação de arquivos, bibliotecas e escolas.

O paleógrafo escreve acerca de papéis velhos; o biógrafo escreve acerca dos homens e das lutas entre os sentimentos e pensamentos, porque esse é o seu processo de descobrir os dramas da história; o arqueólogo pretende comparar a cultura do seu tempo, não com a cultura do passado, mas com os princípios que a transcendem, porque esse é o seu processo de realizar obra de filosofia. Na meditação dos princípios aristotélicos o arqueólogo arquitecta, isto é, desenha de dentro para fora, o movimento gerador da alta cultura. A confirmação externa da arqueologia poderá ser feita por uma antologia de textos literários, políticos e religiosos.

Tratando de filosofia portuguesa, não nos referimos apenas à mundividência, ou mundivisão, que se pode atribuir a quem houver revelado intensa vida de pensamento e de sentimento; referimo-nos a uma ordenação de conceitos, - como não há conceitos sem teses, a uma ordenação de teses, antíteses e sínteses, que nos distinguiu e ainda nos distingue entre vários povos da mesma civilização. Quem for dotado daquele senso linguístico que caracteriza os verdadeiros poetas, saberá que muitas das palavras portuguesas, como, por exemplo, saudade e alvoroço, representam vivências fundamentais que, fenomenologicamente estudadas, abrem caminho para noções que estimulam a peculiaridade do nosso pensar. Maior aptidão de discernimento será indispensável, porém, para descobrir que os termos lúcidos da filosofia internacional, como, por exemplo, essência, existência, realidade, recebem do idioma português uma coloração de significado algo diferente do que se regista no vocabulário dos povos francês, inglês e alemão.


A expressão filosófica não pode evitar o recurso a palavras que, por significarem superiores processos gnósicos, sóficos e písticos, nunca aparecem na linguagem vulgar e raro figuram nos escritos literários; mas essa terminologia filosófica, por muito difícil que pareça aos leitores imperitos, não pode deixar de ser de raiz nacional, - porque universal só o pensamento completamente isento de expressão. Se a filosofia é susceptível de ser representada em sistemas diversos, produtos variáveis do engenho dos escritores, o filosofar, que é uma graduação de exercícios espirituais, apenas se desenvolve nos círculos de estudiosos onde não é esquecida a finalidade do culto. Os sistemas filosóficos podem prestar-se a um intercâmbio intelectivo de carácter cosmopolita, mas a arte de filosofar, essa, radica na seriedade e na sinceridade e configura-se no modo por que cada povo concebe e realiza mais alto louvor a Deus.

Para caracterizar a filosofia de qualquer homem ou de qualquer povo é indispensável proceder por convergência de três caminhos, isto é, estudar as suas três ciências fundamentais: teologia, antropologia e cosmologia. Cada uma destas ciências, além dos processos comuns estudados no trivium, requer específicos processos gnósicos, sóficos e písticos, os quais se coordenam em uma teoria da realidade. Nos ambientes culturais em que é profunda a humildade religiosa, o filósofo detêm-se perante a transcendência e o mistério, pelo que não considera própria da condição humana unificar na consciência o saber com o ser.

O ateísmo é, filosoficamente, um caso de analfabetismo, sem que da comparação com o analfabeto resulte depreciação injusta das virtudes e das razões do ateu. Nenhum homem culto pedirá que lhe mostrem a existência de Deus pelos processos das ciências de observação e de experimentação, nem solicitará que lhe demonstrem a essência de Deus por subtilezas da razão discursiva. O homem culto ou letrado conhece o que obsta a que se torne imediata e patente aos nossos olhos a divindade; o homem culto ou letrado não toma o ateísmo por conclusão necessária do agnosticismo.

Aliás, entre os Portugueses, não há o costume de negar a essência ou realidade, nem a existência ou aparição, do verdadeiro Deus. Pelo contrário, o que perturba e torna perplexo o pensamento do lusíada é que a existência de Deus seja compossível com a existência do mal. O mal na consciência humana, e o mal que os homens uns aos outros transmitem, por pensamentos, palavras e obras, - eis o que causa perturbação, perplexidade e escândalo de todos quantos afirmam a existência de Deus.»

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


«Muitos foram os homens que em Portugal, desde a época pombalina como já antes do século XVIII, mostraram interesses filosóficos. Admira até como em tão pragmático ambiente tantos tivemos. E se alguns se limitaram, como talentosos ou menos dotados imitadores, a seguir servilmente caminhos já traçados na prestigiosa Europa, outros, abertos ao sentido do autónomo valor do saber e do conhecimento, atingiram e exprimiram, nas precárias e adversas circunstâncias, concepções originais.

A filosofia não tem seu início no contacto com os livros; ela tem seu início no sentido do enigma que é o homem para si mesmo. E não é a ciência aprendida nem a erudição livresca quem o sente, mas o espírito íntimo e solitário.

Nem há outro caminho de verdade senão o do pensamento, e a chamada cultura (cujo conceito é tão equívoco) suporá e implicará pensamento autónomo ou a caminho da autonomia: e nada será o pensamento se não for autónomo ou se à autonomia não buscar. Como é difícil a verdadeira autonomia! Como é difícil a verdadeira liberdade! Só o não sabe quem desdenhou conquistá-las e espera, em vão, o dador.»

José Marinho («O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra»).




José Marinho



«A política socialista, ininterruptamente prosseguida desde o veiga-simonismo, deixou pois ficar incólume o ensino superior, ou a universidade. Mas já ele havia ficado incólume durante todo o salazarismo. E, antes do salazarismo, durante o republicanismo. E, ainda antes, durante todo o liberalismo da monarquia. De modo que o nosso ensino superior é, substancialmente, o que dele fez o Marquês de Pombal, orientado pelo pensamento iluminista da época, cujos principais representantes – Verney, R. Sanches, Castro Sarmento – são ainda hoje enaltecidos, através dos panegíricos de A. Sérgio e semelhantes, por epígonos de menor saber que se denominam de progressistas. Ao mesmo tempo, ignora-se, ou faz-se ignorar a linha mais sábia e mais original do pensamento pedagógico e didáctico português, aquela que preconizando que a organização do ensino se deduz da filosofia que Pombal e os pombalinos de ontem e de hoje decretaram ser “abominável”, culminou em Leonardo Coimbra e se prolonga até aos nossos dias nas obras de Delfim Santos, Santana Dionísio, José Marinho e Álvaro Ribeiro». 

Orlando Vitorino («Exaltação da Filosofia Derrotada»). 


«À palavra Universidade pode o legislador, - com seu direito de soberania, e portanto liberto do veto de qualquer instituição linguística - atribuir e conferir o significado que melhor lhe aprouver. Entre os exemplos históricos bastará lembrar que em 1772 o Marquês de Pombal refez ou reformou a Universidade de Coimbra. Manteve a palavra, mas alterou-lhe a significação, a definição, a estrutura, a essência ou o essencial.

A instituição escolar que na Idade Média fôra designada por Universidade, referida à agregação universal ou católica de discípulos e mestres, ostentava todavia o significado depurado na definição de Aristóteles. Ela pressupõe uma unidade docente e didáctica que não pode deixar de ser reportada a um sistema filosófico ou teológico. Congregação suprema, cimeira ou culminante, que exerça a função monárquica de referência à Verdade, ao Espírito, a Deus.

O Marquês de Pombal pretendeu reformar a Universidade de Coimbra fora da filosofia de Aristóteles. Ignorava o estadista, como também ignoravam os seus colaboradores, que a forma significa alma, princípio interno de actividade, porque a alma não é a figura exterior que delimita um corpo de maior ou menor beleza geométrica. Tal é a razão escolhida para atribuir à palavra reforma o sentido artificial de outra forma, e assim o reformado é o sujeito de morte civil, consoante a linguagem usada ou desusada no funcionalismo público.»

Álvaro Ribeiro («Memórias de Um Letrado», III).


«Antes de mais nada, tomemos em consideração o seguinte passo de Lobo Vilela, extraído do opúsculo em que trata, frontalmente, da crise universitária: "Quem quiser descobrir as verdadeiras causas da nossa inferioridade mental e a decadência moral que nos avassala, deve ir procurá-las à universidade." [in A Crise da Universidade, Tipografia da Figueira da Foz, 1933, pp. 37-38].

Ora, se bem que o nosso estimado autor reconheça, a par de um escolasticismo serôdio e inútil, a presença no meio universitário de um conjunto heteróclito de contradições que imediatamente desvelam as falsidades e as abstrusas incoerências da classe professoral, ignaro se mostra, contudo, perante aquilo que esteve justamente no preâmbulo da degradação do ensino superior: o vício pombalino. Convém, pois, não descurar que a já relatada perseguição montada pelo Marquês de Pombal contra os jesuítas, não só pudera consolidar-se numa linha de acção que, na sua generalidade, coincidira com a fundação do Colégio dos Nobres (1761) e a criação da Real Mesa Censória (1768), como também, em momento oportuno, se dispusera a fazer valer, após promulgada a instituição da Junta de Providência Literária (1770), a nova versão institucionalizada do ensino aquando da reforma da Universidade de Coimbra (1772). De mais a mais, essa reforma, visando banir o pensamento neo-escolástico vigente, acometia assim uma série de perpetradas injustiças contra a Companhia de Jesus, unicamente possíveis pela conivência de pérfidos e desaustinados colaboradores, tais como o Cardeal da Cunha e o desembargador João Pereira Ramos de Azeredo. Isto é, notadamente, o que desde logo se pode deduzir não apenas da leitura do livro intitulado Dedução Cronológica e Analítica (1767), em cujo contexto se acusam os jesuítas de serem, sob disfarce cristão, partidários da seita muçulmana com vista à conquista do Reino, bem como do compulsar do Compêndio Histórico sobre o Estado da Universidade de Coimbra (1771), no qual, repisadas as infames acusações contra a Ordem Religiosa da Companhia de Jesus, se desenrola o respectivo e forjado rol dos «estragos feitos nas ciências e nos professores e directores» da Universidade.»

Miguel Bruno Duarte («Noemas de Filosofia Portuguesa». Versão especialmente revista).







Os Portugueses já não entendem a língua que falam e escrevem

Aristóteles afirmou que a Poesia é mais verdadeira do que a História. Parafraseando o Mestre, direi que a Filosofia é mais verdadeira do que a História. Esta afirmação desprimorosa para a história parece-me lícita num tempo em que ensaístas de sucessivas ideologias se têm por demais preocupado com a revisão da História de Portugal. Há cento e cinquenta anos, digamos assim, a Pátria tem sido interpretada sucessivamente por legitimistas, liberais, monárquicos, republicanos, socialistas e comunistas, sem que haja sido prestada a devida atenção às consequências benéficas ou maléficas na contradição ideológica da mesma realidade.

Defensor, como tenho sido, da tríade Deus, Pátria, Rei, e da persistência desta verdade simbólica para além de todas a variações ideológicas, não me reconheço comprometido com qualquer interpretação pessoal ou pessoalista de qualquer daqueles termos, designadamente do terceiro. Mais ou menos afastado de todos nós, príncipe espiritual, situado entre dois tenentes reais, relaciona a Pátria com Deus. Quantos defendem na monarquia uma instituição concreta afastam-se da definição étima do conceito jurídico, para verem demasiada e absurdamente num só homem uma ideia que não tem representação nem representante.

Acontece actualmente que os Portugueses já não entendem a língua que falam e escrevem. Dado que no homem a razão é coexistente com a fala, ou, por outras palavras, que falar é raciocinar, ainda quando as frases não cheguem a exprimir raciocínios completos, a corrupção da linguagem aparece como sinal da decadência da filosofia. Ante o perigo da dissolução da nossa nacionalidade em outra ou outras nacionalidades, (HÁ SEMPRE PÁTRIA), não pode haver outro alarme antes de pedir com urgência que seja instaurado o ensino público da filosofia portuguesa, expulsando de todas as escolas os professores que estejam pervertendo a mentalidade dos adolescentes com a reiterada injecção da filosofia estrangeira.

Em oposição a este lema nacional, ou político, os universitários protestam que a filosofia é universal e portanto única. Em nosso entender, universal é só a religião, o culto e não a cultura, porque de verdade só existe um Deus. Enquanto houver idiomas separados e diferenciados, a filosofia, esse esforço da fala e da razão humana, o mundo estará em dor e em alegria das diversidades. Convencido de que a arte de filosofar tem por fim aperfeiçoar o homem, posso licitamente inferir que só a filosofia pode habilitar os adolescentes com aquela independência intelectual que lhes permita julgar e condenar aquelas ideologias que cegam, enganam e arrastam para as veredas da contestação infinita e insubstante. Cumpre-nos ensinar ao escol português a filosofia do porvir.

Quem, como os ensaístas literários, desloca para o passado histórico a interrogação sobre a existência de uma filosofia portuguesa, já escrita em textos que possam ser adaptados ao futuro ensino público, não faz mais do que deslocar a questão, para a confiar perigosamente aos eruditos que trabalham nos arquivos, quando o problema, enunciado em tempo prudente e em termos de ordem prática, avulta agora como um dos sintomas da inegável crise da Pátria.

(in Diário do Minho, ano LIII, n.º 16 628, Braga, 15 de Junho de 1971, p. 3 do suplemento «Parábola». Incluído no livro de Pinharanda Gomes, Inquérito sobre a Filosofia Portuguesa, Braga, 1972, pp. 15-17 e em As Portas do Conhecimento, pp. 335-336, sob o título «Filosofia do Porvir». Cf. Álvaro Ribeiro, Dispersos e Inéditos, III, (1961-1981), Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2005, pp. 221-222).



Álvaro Ribeiro


segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

George Orwell: 1984 ou a verdade ao alcance das mãos

Escrito por Álvaro Ribeiro












« (…) O poder autêntico, o poder pelo qual temos de lutar noite e dia, não é o poder sobre as coisas, mas sobre os homens. - Calou-se, voltando a assumir por instantes o semblante de mestre-escola a interrogar um aluno promissor.

- Como é que um homem afirma o seu poder sobre outro, Winston?

Winston reflectiu.

- Fazendo-o sofrer - disse.

- Exactamente. Fazendo-o sofrer. A obediência não basta. A menos que sofra, como posso eu ter a certeza de que obedeceu à minha vontade e não à dele? O poder consiste em infligir dor e humilhação. O poder consiste em desagregar a mente humana para a reconstituir sob uma forma nova, sob a forma que entendermos dar-lhe. Começas agora a ver que tipo de mundo estamos a criar? Precisamente o oposto das estúpidas utopias hedonistas que os antigos reformadores imaginaram. Um mundo de medo, traição e tortura, mundo onde se pisa e se é pisado, mundo que se tornará mais impiedoso, e não menos, à medida que se for aperfeiçoando. O progresso, neste nosso mundo, será um progresso no sentido de cada vez maior sofrimento. As antigas civilizações afirmavam basear-se no amor ou na justiça. A nossa baseia-se no ódio. Não haverá lugar para outras emoções além do medo, da raiva, da humilhação e do triunfo. Tudo o mais será por nós destruído. Tudo! Já hoje estamos a liquidar hábitos mentais que sobreviveram dos tempos anteriores à Revolução. Cortámos os laços entre filhos e pais, entre homem e homem, entre homem e mulher. Já ninguém se atreve a confiar na própria mulher, no filho ou nos amigos. E no futuro suprimiremos esposas e amigos. Os filhos serão tirados às mães à nascença, como se tiram os ovos às galinhas. O instinto sexual também será suprimido. A procriação transformar-se-á numa formalidade anual, como a renovação dos cartões de racionamento. Aboliremos o orgasmo. Os neurologistas já estão a estudar o assunto. Não restará lealdade, senão a lealdade ao Partido. Nem amor, senão o amor ao Grande Irmão. Nem riso, senão o riso da vitória sobre um inimigo aniquilado. Nem arte, literatura ou ciência. Desaparecerá a distinção entre beleza e fealdade. Não haverá curiosidade, nem o gozo de viver. Todos os prazeres que possam fazer concorrência ao Partido serão destruídos. Mas haverá sempre (nunca te esqueças disto, Winston), haverá sempre a embriaguez do poder, cada vez mais intensa, cada vez mais subtil. Sempre, a todo o momento, a emoção da vitória, a sensação de esmagar um inimigo indefeso. Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota a pisar um rosto humano. Para sempre. 

Fez uma pausa, como se esperasse de Winston alguma reacção. Winston tentava de novo enterrar-se mais na cama. Não conseguia dizer nada, tinha o coração gelado. O'Brien prosseguiu: 

- E não te esqueças de que isto é para sempre. Há-de lá estar sempre esse rosto pisado. O herege, o inimigo da sociedade, estará sempre presente, para ser de novo derrotado e humilhado. Tudo aquilo por que passaste desde que caíste nas nossas mãos, tudo isso vai continuar, vai tornar-se ainda pior. A vigilância policial, as traições, as prisões, as execuções e os desaparecimentos nunca acabarão. Será um mundo tanto de terror como de triunfo. Quanto mais poderoso o Partido, menos tolerante há-de ser; quanto mais ténue a oposição, mais cerrado o despotismo. A peça de teatro que para ti representei durante sete anos há-de ser representada vezes sem conta, geração após geração, sob formas cada vez mais subtis. Havemos de ter sempre o herege aqui à nossa mercê, gritando de dor, arrasado, desprezível... e por fim completamente arrependido, salvo de si próprio, rojando-se aos nossos pés de livre vontade. É esse o mundo que estamos a preparar, Winston. Um mundo de vitórias sobre vitórias, triunfos sobre triunfos: assédio constante, constante, constante, ao âmago do poder. Vejo que começas a perceber como será esse mundo. Mas por último não te limitarás a perceber. Aceitá-lo-ás, saudá-lo-ás, passarás a fazer parte dele.

Winston recompusera-se o suficiente para conseguir falar:

- Não podem! - disse debilmente.

- Que queres dizer com esse comentário, Winston?

- Não podem criar um mundo como o que acabas de descrever. É um sonho. É impossível.

- Porquê?

- É impossível fundar uma civilização sobre o medo, o ódio e a crueldade. Nunca poderia durar.

- Porque não?

- Não teria vitalidade. Desintegrar-se-ia. Suicidar-se-ia.

- Que disparate. Estás convencido de que o ódio é mais esgotante do que o amor. Porque havia de ser assim? E se fosse, que diferença faria? Imagina só que decidimos consumir-nos mais depressa. Imagina que aceleramos o ritmo da vida humana a pontos de os homens ficarem senis aos trinta anos. Mesmo isso, que diferença faria? Não percebes que a morte do indivíduo não é a morte? O Partido é imortal.

Como de costume, aquela voz reduziria Winston à impotência. Além disso, ele receava que, ao persistir naquela discordância, O'Brien tornasse a puxar a alavanca. Contudo, não conseguiu ficar calado. Debilmente, sem argumentos, sem nada a que se apoiasse senão o horror indistinto pelo que O'Brien acabava de dizer, voltou ao ataque.

- Não sei... não me interessa. Vocês hão-de falhar. Alguma coisa irá acontecer-vos. A vida há-de vencer-vos.

- Nós controlamos a vida, Winston, a todos os níveis. Tu imaginas que existe uma coisa chamada natureza humana que vai ficar indignada com o que fazemos, virando-se contra nós. Mas nós criamos a natureza humana. Os homens são infinitamente maleáveis. Se voltaste à tua antiga ideia de que os proletários ou os escravos se hão-de erguer para nos derrubar, tira daí o sentido. Eles estão impotentes, como animais. A humanidade é o Partido. Os outros situam-se fora... são irrelevantes.

- Não me interessa. Hão-de acabar por vos vencer. Tarde ou cedo vão ver o que vocês realmente são e hão-de acabar convosco.

- Vês algum indício de que isso possa acontecer? Ou razão para que aconteça?

- Não. Acredito que vai ser assim. Sei que vocês vão fracassar. Qualquer coisa no Universo… não sei, um espírito, um princípio… invencível.

- Acreditas em Deus, Winston?

- Não.

Então qual é esse princípio que nos derrotará?

- Não sei. O espírito do Homem.

- E tu consideras-te um homem?

- Sim.

Se és homem, Winston, serás o último. A tua raça extinguiu-se; somos nós os herdeiros. Já percebeste que estás sozinho? Fora da História, inexistente...».

George Orwell («1984»).









GEORGE ORWELL


1984


OU A VERDADE AO ALCANCE DAS MÃOS


Este livro tem por fim apresentar ao leitor o romance de Winston Smith. É um romance, exactamente porque narra a mutação sentimental de um carácter humano; mas é também uma tragédia, porque descreve a frustração da liberdade em luta inglória com o destino. Se o leitor simpatiza, logo às primeiras páginas, com o protagonista, a breve trecho com o mesmo se identifica, para sofrer com ele os efeitos fascinantes de uma obra de arte.

A narrativa desenrola-se num ambiente de ficção, quer dizer, de artifício estranho à realidade, que lembra por vezes o processo clássico das utopias e das ucronias. Não é, porém, este livro uma utopia, porque o autor determina o local da acção: a cidade de Londres. Não é também uma ucronia, porque o autor define a data dos acontecimentos: o ano de 1984. O artifício é tal que quase parece uma antecipação da sociedade futura. Interroga-se, perplexo, o leitor sobre se os postulados erróneos da sociologia contemporânea hão-de conduzir os homens e os povos àquela alienação mental que o romancista descreve como termo duma dedução necessária, e nessa perplexidade o leitor pergunta se há que rever, discutir e desprezar os preconceitos e os sofismas que há quase dois séculos militam contra a liberdade.

Ante o poderio das máquinas, dos aparelhos e dos utensílios, que parece aumentar indefinidamente de século para século, a consciência humana vê-se inerte e hesita agora, sabendo que os mesmos meios podem igualmente servir contrários fins. Num estulto encómio perante os inventos, confundindo técnica e ciência, confundindo ciência e metafísica, em vez de distinguir a gradação, difundiram os homens cultos, e até os doutos, uma série de equívocos de que tardiamente se libertam com melancólica apologia. Os esperados benefícios da técnica, a que chamavam progresso material, surgem e geram novos malefícios, que não tardam a revelar-se, e contra os quais ainda não há esperança de protecção metafísica, científica e técnica. A esta sucessiva deslocação do sofrimento humano, a esta agonia sem fim, clamante como a verdade, nada vale opor a mentira artificial de um narcótico, de um ópio, de uma ilusão.

A invenção da imprensa dá-nos um exemplo típico. Uma indústria que parecia de bem para a liberdade do pensamento humano e para a difusão dos valores culturais transforma-se em arma de calúnia, de injúria e de insulto nas épocas mais conturbadas da opinião pública, ou subverte a ordem dos valores sociais, adormecendo a mentalidade do vulgo por habilidosas campanhas publicitárias. Tão certo é que os mesmos meios de expressão do pensamento podem servir contrários fins de lealdade ou de mentira.

A mecanização, que parecia libertar o trabalho humano daquele excesso de fadiga que vai até ao extremo da dor, substituiu o flagelo do cansaço pelo do aborrecimento. O homem, que de bom grado abraça o trabalho quando este corresponde a uma expressão da sua personalidade, e que vence a fadiga com a alternação rítmica de períodos de esforço e de períodos de repouso, olha com aborrecimento e com desânimo a laboração contínua de uma empresa em que não está interessado. Trabalhar com a convicção de que o trabalho será, afinal, inútil; que o trabalho não está ordenado a um fim superior; que o trabalho não será produtivo - é tormento que não desampara a consciência esclarecida. Enquanto o desgaste muscular pode ser compensado por providências conhecidas pelos higienistas, o aborrecimento, estudado pelos psicanalistas nas suas manifestações nervosas, oprime e deprime os seres humanos, com efeitos rebeldes a várias formas de terapêutica.

A mecanização do trabalho impossibilita a organização, sabido que o mecânico se opõe ao orgânico, como a justaposição se opõe à compenetração, como o exterior se opõe ao interior. A falsa organização, ou a falsa corporação das actividades sociais, torna fictícia a coordenação mental da monarquia, remota a autoridade e explica-se por delegação descendente dos mandos que impessoalizam o Poder até à máxima gravidade. Entre os elos da corrente não passam as iniciativas pessoais, aquelas que dariam ao trabalho o colorido jubiloso da criação. A atitude desumana de cada chefe para com os seus subordinados imediatos, dentro de limitados ambientes de trabalho, exprime-se em várias formas de frieza impersonalista, contra a qual não há apelo no regulamento aprovado pelos superiores desconhecidos.

Não será, pois, de estranhar que em vez de optimistas utopias e ucronias, a ficção hodierna nos ministre avisos de antecipação e sinais de alarme, já que a humanidade tanto mais se aproxima do abismo quanto mais pretende revogar as leis naturais e as leis divinas. A lição a extrair dos livros de ficção como este de George Orwell é de ordem problemática, e todo o problema consiste na dificuldade de restabelecer incessantemente a verdadeira hierarquia dos poderes humanos, segundo a qual a técnica se subordina à ciência e a ciência à metafísica. A dificuldade será tanto maior quanto mais veloz for a transformação social, porque hão-de sempre parecer obsoletos os pensamentos hierarquizados. Aquele problema é, intransferível; quer dizer, há-de ser pensado por cada um de nós em cada fase variável do respectivo enunciado.


















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Sabemos que ao longo do século XIX os técnicos, na qualidade de especialistas, ditaram as suas exigências aos sábios, considerados homens de cultura geral; sabemos que os cientistas demitiram das suas funções os metafísicos, cujas doutrinas e disciplinas se perdiam entre expressões vagas. Clamaram pela liberdade e proclamaram a liberdade dos povos mais ansiosos de felicidade terrestre. A liberdade ficou, consequentemente, inscrita nas constituições políticas. Visto, porém, que a liberdade não é um princípio organizador, tendeu-se a fortalecer no princípio contratual o estatuto das relações humanas, esquecido ou ignorado o princípio associativo. O contrato, dependente da vontade ou da noluntade, do quero ou não quero, do aceito ou rejeito, ascendeu a modelo da vida jurídica e foi perdendo a maleabilidade comercial até atingir a rigidez escrita e impressa que parecia estruturar as instituições. Do contrato ao regulamento há como que uma metamorfose visível em vários estádios da legislação, na sucessão dos quais se acentua o predomínio do espírito contabilístico e estatístico, a ambição de medir até o imensurável. Esvaziadas, assim, da diversidade psicológica, todas as relações jurídicas haveriam de postular a igualdade entre os homens. Este esquema bilateral das vontades em contrato, ou em conflito, contaminou a cultura humanista em detrimento do princípio associativo, conciliador da fraternidade com a liberdade.

Não é possível conceber uma política independente da ética, nem uma ética independente de um sistema de filosofia. É certo que muitas vezes os escritores políticos não confessam o sistema filosófico a que se encontram necessariamente submetidos, mas o facto não vale de argumento. George Orwell apresenta-nos a caricatura da filosofia alemã na medida em que eleva ao exagero de 1984 as consequências terríveis do comunismo e do nazismo. Convém, pois, não esquecer que a filosofia alemã, através dos seus intérpretes nacionais e estrangeiros, conseguiu dominar o pensamento europeu dos séculos XIX e XX. Em Kant vemos subordinada a razão teórica à razão estética e a razão estética à razão prática, o que tem por corolário inevitável o predomínio social dos técnicos. A vontade, com o seu dualismo de potência e resistência, assume em Fichte a representação dialéctica. Karl Marx propõe o mito da luta de duas classes (mito no qual será possível converter todas as representações dinâmicas da sociedade), para descrever a evolução em termos de materialismo histórico.

Vemos a caricatura da dialéctica no esforço dos dicionaristas da nova língua artificial para eliminarem as gradações semânticas, para reduzirem os adjectivos a pares de opostos, para exprimirem a contrariedade mediante o prefixo de negação. Vemos a caricatura do materialismo histórico na adaptação incessante dos velhos documentos aos novos acontecimentos, para que o passado não contradiga o presente nem o futuro. Há uma parte de verdade nesta caricatura, que descreve os elementos que hão-de paralisar de vez a filosofia alemã.

Na progressiva tensão da vontade, que vai ao extremo da violência, a consciência embriaga-se com a ideia do dever, do que deve ser. A razão da violência esquece, ou ignora, a natureza da razão. Na presunção de contrariar, ou de anular, os instintos e os afectos humanos, o utopista recorre à técnica, à ciência e à metafísica; mas porque não sabe que cada uma tem diferente critério de verdade, não pode reconhecer que os efeitos imediatos não adiantam nem retardam o processo de evolução. Todo o engenho despendido no combate à astúcia individual, que se revela em imprevistos modos de desistência, fraude e resistência, não logra mais do que complicar a regulamentação, a proibição e a repressão, demonstrando assim que a complexidade está na razão inversa da normatividade. A vontade é simplista, deseja proceder segundo linhas nítidas e sóbrias; repugna-lhe por vezes respeitar as distinções da legalidade; mas a nova simplificação, que se tornou necessária, actua como catástrofe, permitindo restabelecer a vigência das leis naturais e das leis divinas.

Todas as utopias, bem analisadas, nos deixam ver que o homem não é um animal social, e que estão errados os sistemas de sociologia cujos conceitos aparecem definidos e determinados depois da abstracção da liberdade individual. A sociologia é um prolongamento da zoologia, e, se pudermos falar de sociedades animais, já não poderemos sem equívoco falar de sociedade humanas. O homem é livre, e associa-se, num plano superior ao da animalidade, acima do campo de observação e experimentação, no domínio do invisível.

Ao longo do romance de George Orwell surgem de vez em quando leves referências a uma autêntica sociedade secreta, secreta porque não tem sede, nem corpos gerentes, nem estatutos, nem registo de filiados. A lendária Fraternidade, de que todos duvidam, não é uma corporação, não tem corpo, não é natural. Nem sequer é uma ideologia que se desarticule em frases susceptíveis de sucumbirem aos golpes de dialéctica. É algo de inefável que, para além da natureza em pecado, representa a sublimidade da graça. Sendo o elemento de redenção pelo qual esperam os homens que sentem diminuída a liberdade, na esperança configura a misticidade do Evangelho.

A tese central deste livro é, pois, a de que a humanidade, enredada pelos erros da sua metafísica, da sua ciência e da sua técnica, não se salva a si própria, apesar das utopias devidas ao intelecto e à vontade dos homens superiores. A expressão trágica dessa tese está garantida apenas pelo ateísmo que convém postular nesta espécie de obras de ficção. O artifício, neste caso, é contrário à arte. Quando o leitor, interessado no romance de Winston Smith, fecha o livro para despertar de um pesadelo, logo verifica a constância dos instintos e dos afectos na natureza humana, logo vê horizontes de evolução para a glória. Todo o proveito da leitura consiste em obter a demonstração de que seria absurdo e, porque absurdo, cruel, um mundo regulado e regulamentado por homens destituídos das virtudes teologais.

A obra de ficção seria ininteligível se não contivesse suficiente analogia com a realidade. Vale ela exactamente porque nos representa em algumas personagens o paradigma desumano para que tendem as personalidades inferiores, com boa ou má consciência da sua inferioridade. O homem superior qualifica-se, como dizemos, pela plenitude das virtudes teologais. Esquecido, porém, o significado da monarquia, pluraliza-se o Poder, que desce em escala até aos agentes ínfimos, e estes, mais do que os outros, cobrem de soberba a falta de autoridade. Os subordinados que se envaidecem com as suas respectivas situações de chefes ignoram muitas vezes que chefe é aquele que pensa e não aquele que manda. Nos ambientes de trabalho são quase sempre as personalidades inferiores aquelas que mais abusam de um poder que recebem por delegação. A má consciência acusa-as, porém, de não serem livres, e perante a injustiça claramente demonstrada mal sabem defender-se, transferindo para outrem a verdadeira responsabilidade.

Aos leitores portugueses, habituados à brandura dos nossos costumes e à reacção da consciência moral contra todos os procedimentos de violência, há-de parecer estranho, longínquo e inverosímil muito do que George Orwell prevê para 1984. Não será inútil a advertência quando alguns dos espíritos mais lúcidos parecem contaminados de preconceitos e sofismas oriundos de culturas alheias. Se, fiéis às nossas tradições, conservamos a verdadeira doutrina das relações da natureza com a graça, continuaremos a ver que a liberdade humana é solidária com a existência de Deus. (Prefácio a 1984, de George Orwell, tradução portuguesa de Paulo Santa Rita. Lisboa, Editora Ulisseia, 1955, pp. 7-14).













A "realidade" do mundo pós-orwelliano tal qual vista pelo actual presidente da república comuno-socialista em Portugal.



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domingo, 4 de março de 2018

Civilização Ocidental e Cultura Portuguesa

Escrito por Álvaro Ribeiro










«Nenhuma história nacional ou de povo, equivale, em movimento, à portuguesa.

Ocorre falar-se em paralelo com a história do povo judaico.

Muito diverso é o caso e convém discernir.

Os judeus expandiram-se, forçados pela destruição da sua pátria, votada ao extermínio.

Perseguidos, espalharam-se pelo mundo, tornaram-se maleáveis, suspicazes, preferindo a riqueza móvel à imobilária, que lhes tolheria a fácil evasão - facto que nunca deixaram de prever. Conseguiram formar uma nação sem território, mantida pela raça - mais pela raça que pela religião. Esse racismo, que é o mais ferrenho de todos os povos, permitiu-lhes reaver, ao cabo de dezanove séculos, o solo pátrio - quase já sem religião nem língua comum.

O caso português é de contínuo trânsito geográfico através do mares, de ocupação de ilhas e finisterras, de perfurações continentais, à maneira de cruzeiros marítimos, - em superação vigorosa dos obstáculos da natureza, em extravasa dos limites corpóreos da pátria.

O aventurismo antropológico dos Cabos do Mundo - nesta única finisterra que logrou organizar-se em Estado com pertinaz sequência - ganhou carácter ecuménico.

A adesão às novas terras e às novas gentes foi natural, voluptuosa, mesmo de amor. Se éramos portadores do incomparável ideal ecuménico do Cristianismo, essa mensagem universal e humana sem par dispôs, no caso português, de antropológica matéria-prima que muito concretamente e através de uma cobiça do mundo irrefreável, do amor ao exótico, de capacidade de afirmação heróica, de simpatia coadjuvada intensamente pelos elementos sensuais e sexuais, conseguiu integrar, muito concretamente, como dissemos, outros povos, outras culturas, e transmitir uma psique, uma atitude humana e étnica sobrepostas a corografias e raças, em triunfo espantoso do verdadeiramente humano, bastante forte e seguro de si, para, na generalidade da acção, se desprender das próprias matrizes.

Para se desprender, excepto da Saudade.

Caso que na história do mundo em grande escala é ímpar, e bem explica a reacção única dos lusíadas de Angola. Esses colonos e agricultores do Congo, os poucos funcionários administrativos brutalmente surpreendidos por assaltos maciços de bandoleiros negros, vindos ou animados de fora, intencionalmente exercitados no ódio racial e na prática imediata das mais execráveis barbaridades, em que a mutilação dos corpos antecede o assassínio, a sua reacção instintiva não foi fugir mas defenderem-se e... ficar.

Nas dispersas fazendas, nas pequenas póvoas do mato, ainda que desamparados militarmente, e antes de qualquer decisão nacional (ainda que pronta), a sua tenção nunca foi ceder. Indiferentes ao número de fanatizados atacantes, surdos a uma apregoada corrente da história de desistência ocidental, enjeitando os numerosos exemplos de abdicação, eles, verdadeiros portugueses universais por instinto e sentimento, responderam à intimidação do choque emocional terrorista, com a réplica violenta de uma indómita energia. Refluindo para se agrupar, essa gente não permitiu que a maquinação universal em curso conseguisse desbaratar a estrutura da ocupação portuguesa, que aguentou, sem ceder qualquer vila ou cidade propícia à sede de um governo separatista dentro do território, até que os reforços militares os foram socorrer.

Estranha epopeia em Angola se tem escrito com corpos e almas. Nela colaboram, como há três séculos no Brasil, os diversos elementos étnicos numa frente comum. Mais uma vez os portugueses fazem história, quando a ela lhes não convém ceder.

Nova fase de reflexão e aventura conseguimos iniciar.

Dilatar foi o verbo empregado por Camões, para significar a expansão portuguesa, que é de confluência entre a Europa e os outros continentes.

Esse verbo serve-nos. Dilatar pelo calor - calor do corpo e alma, é de amor prodígio conquistando espaços e homens.

A expressão mais alta, grandiosa e sem par desta verdadeira comunhão com os mundos novos, está no Brasil que sociologicamente reproduz o milagre da multiplicação dos pães.

Reconhece-se a excelência da obra do Brasil, mas, entra-se na injustiça quando se afirma que, noutros pontos do Globo, incluindo as actuais províncias ultramarinas, pouco fizemos ou pouco nos esforçamos.

O juízo será mais justo, se reflectirmos alguns minutos que seja, no que foi a criação ciclópica do Brasil e na absorção que, por mais de três séculos, ela representou para a metrópole tão pouca numerosa e relativamente pobre. A construção de um estado unitário tamanho - quase do tamanho da Europa -, toma aspectos de trabalho de Hércules, exaustivo, fabuloso. Por isso, desde que se atenda ao precedente americano, o que fizemos e queremos continuar fazendo em África e Ásia, significa pelo menos o alicerce de novas, grandiosas construções de uma política pluriracial, hoje em perigo no Mundo, mas essencial para a Civilização.

Pelo trânsito histórico, o luso-galaico, o português, tornou-se lusíada. No conteúdo lusíada, o primitivo povo não passa já de parcela, a alimentar aglomerados maiores em que outras raças participam numa simbiose de sensibilidade e ideal que as aproxima, destacando-as dos seus próprios meios naturais. Melhor termo não há que o "lusíada" camoniano, para designar um caso etno-cultural de encontro de continentes e povos - único na História!».

Francisco da Cunha Leão («Do Homem Português»).


«O inimigo atira pela porta da capela paroquial. Salvem-nos. Morremos Portugueses».

Apelo pela rádio dos heróicos defensores de Mucaba antes de serem salvos pela acção da Força Aérea, 30 de Abril de 1961.







«Tentando alcançar um conceito de razão fluídica e insubstancial, susceptível de ser de algum modo fiel a tal intento, propõe Leonardo Coimbra, com o que diríamos precária dimensão europeia, o conceito de "razão experimental". Nesta, como bem mostra todo o posterior caminho do pensador (e não só dele!), não pode, todavia, a razão consistir. Na verdade, o conceito de experiência, por mais que lhe deva a ciência e a própria filosofia em seu processo, tem sempre um sentido de extrinsecidade, de dinamismo casual, e com todo o êxito que possamos atribuir-lhe na ordem teórica e prática, vela mal a radical dificuldade da razão. Sabido como toda a experiência significa "razão em perigo", tal perigo pode entender-se duplamente: ou a razão cede às exigências de um saber finito, útil, mas sem garantia teorética e especulativa, ou a razão se transmuda numa forma de saber e parcial conhecimento que, no dizer do próprio pensador, "deixa o mundo atrás em irremediável aflição".

Procurando garantia para o vínculo subtil entre razão humana e razão cósmica, entre a razão de conhecer e a mais profunda razão de ser, encontra-a finalmente o pensador na Revelação e na efectividade da vida religiosa. A metafísica acaba-se em religião.

É todo um processo do nosso pensamento contemporâneo que deste modo se cerra, para de novo necessária e inevitavelmente se abrir. Aqui porém dificuldades a todos nós surgem, as mais sérias e mais graves, já em relação à filosofia portuguesa, já perante a situação de todo o pensamento europeu, dificuldades cuja sondagem os estudos até agora realizados, bem como os limites deste trabalho, não permitem mais longamente atender.

Assim se depara momento adequado a interrogar-nos sobre o conceito de razão e suas implicações teóricas ou práticas nos pensadores não metafísicos, filósofos, agnósticos ou ateus desta mesma época.

Ocioso quase notar, não só à luz de quanto interpretamos mas das novas instâncias críticas contemporâneas do pensamento de carácter lógico e dialéctico, e mais particularmente fenomenológico, como não há pensamento ametafísico em todos os sentidos, nem em filosofia, nem em ciência nem na mais trivial forma de senso comum. - Dizemo-lo com a reserva de o termo ametafísico nos ser dos menos gratos. Como, no entanto, neste e noutros pontos concedemos ao entendimento mais geral, e como tal termo já correu entre nós nas didácticas de filosofia, usamo-lo com seu valor sugestivo.

Quanto ao ateísmo e agnosticismo, o primeiro é sempre, de Oriente a Ocidente, digno de toda a reflectida atenção do filósofo que tenha atentamente sondado o mistério da fé e o que exige o sentido da univocidade filosófica; o segundo impõe-se modernamente ao exame do estudioso da filosofia inglesa contemporânea, bem como das formas de filosofia do Continente. O atender a seriedade do que é sempre sério em sua raiz autêntica e imperitura não dispensa o intérprete, antes o persuade, a discriminar as reais formas de intuir, pensar e compreender, quando os filósofos, abrangidos ou descuidadamente comprometidos tantas vezes em equívocas classificações culturais ou ideológicas, enfrentam com autenticidade responsável os problemas da relação do ser e do saber em sua exigente plenitude».

José Marinho («Verdade, Condição e Destino no Pensamento Português Contemporâneo»).





Civilização Ocidental e Cultura Portuguesa


Tem-se falado muito de civilização ocidental e o termo é adequado ao que se pretende exprimir. Para nós, Portugueses, a civilização ocidental não é tanto aquela que se situa em grande parte da Europa, mas aquela que se propaga para além-Atlântico. Compreendemos, por isso, no conceito de civilização ocidental, não só as «ideias-feitas», mas também, e principalmente, o dinamismo espiritual que no futuro se possa revelar.

Se por civilização entendêssemos apenas um corpo de princípios e de instituições sem evolução possível, a que devêssemos fidelidade e obediência, dificilmente encontraríamos o sentido criador da nossa colaboração no concerto dos povos, e poríamos em problema os limites da nossa individualização histórica. A civilização ocidental, definida por noções comuns, transforma-se num quadro demasiado amplo e até vago, em vez de designar um vector, com todas as suas consequências subentendidas. Devemos, pois, formular da civilização ocidental a nossa definição própria, aquela que interesse à acção dos Portugueses tanto no passado como no futuro, e inserir essa fórmula nos trabalhos de doutrina e de propaganda.


Promontório de Sagres



Falar em civilização ocidental e, ao mesmo tempo, pensar no centro cultural da Europa, parece-nos um erro explicável por anacronismo. Erro perigoso, porque diminui o valor da missão espiritual dos povos ibéricos, e, consequentemente, inferioriza a cultura portuguesa. Erro que se corrige e evita, revestindo a palavra «ocidental» da significação futurista.

De outra maneira será difícil refutar a argumentação vigorosa de Oswaldo Spengler inserta na Decadência do Ocidente. A obra do pensador alemão permanece actual na sua parte crítica, e para refutá-la será indispensável opor uma doutrina de esperança ao pessimismo imanentista. Quanto a nós, a doutrina de esperança transcendente é o germe da filosofia portuguesa, que importa desenvolver.

Colaborar na civilização ocidental é, para nós, expandir o espírito português por todos os territórios que legitimamente nos pertencem, completando pelo magistério da educação o ministério da colonização. É, ainda, interessar todos os homens que falam português, e todos os povos irmãos, no conhecimento da cultura superior que em Portugal poderá surgir. É, enfim, atrair a simpatia das nações da América do Sul, para, com ela, realizar uma obra de fraterno e recíproco entendimento.

Sabemos que, entre as pessoas de mediana instrução, não corre favorável a expressão cultura portuguesa. Toda a cultura lhes parece devida à influência estrangeira, àquela influência que se exerce pela Imprensa, pela Rádio, pelo Cinema, pelas livrarias e até pelas escolas. A tais pessoas parecerá ridículo admitir o advento de uma cultura portuguesa que demonstre superioridade sobre as antecedentes culturas europeias.

Ninguém poderá demonstrar, nem sequer pela redução ao absurdo, que tal cultura seja impossível. Há elementos suficientes para afirmar, de convicção firme, essa nobre possibilidade. Faltam-nos, porém, as condições e as circunstâncias que permitam ver o trânsito da potência ao acto.

Demonstrar a possibilidade de uma cultura portuguesa superior às antecedentes culturas europeias, - demonstração dificílima no momento presente - não seria trabalho equivalente ao de mostrar, no desenvolvimento dos seus efeitos, a realização dessa mesma cultura. Só a prova visível convenceria as pessoas medianamente instruídas, mas tal prova exigiria uma antecipação do futuro. A cultura portuguesa será, pois, afirmada por aqueles que antes de ver admitem o crer.

Temos uma admirável cultura do povo, cujas expressões estão a ser recolhidas pelos etnólogos e pelos filólogos. Falta-nos, é certo, o estudo sistemático do folclore e do artesanato, não temos sequer uma enciclopédia etnográfica que compendie os resultados do labor dos estudiosos, não possuímos um Instituto de cultura popular. Mas ao pensador interessado pela fenomenologia da expressão, e, portanto, pelo conhecimento do subconsciente e do consciente populares, fácil será entrever na alma portuguesa uma fonte riquíssima de elementos para uma superior cultura.

Acima da cultura popular existe a cultura de modelo estrangeiro, verificável nos estabelecimentos de ensino e até, infelizmente, nas escolas de instrução primária. Há, portanto, uma densa camada em que se formam as opiniões complexas das pessoas instruídas que não acreditam na cultura portuguesa. Poderemos dizer que ela é constituída pelo grande número de pessoas que conhecem uma ou mais línguas estrangeiras.

A cultura superior, retomando a preocupação da cultura popular, terá de ser uma afirmação de nacionalismo. Entre os espíritos de escol a noção de independência da Pátria exige a de autonomia no idioma e no pensamento. Justo é considerar a enunciação do problema da filosofia portuguesa entre os actos de cultura mais significativos dos últimos tempos.

Quando um povo adquire consciência de que possui uma filosofia própria, logo ficam alteradas as relações do conceito de cultura com o conceito de civilização. Portugal não é apenas o nome de um país civilizado, é, mais do que isso, a metrópole de um povo civilizador. Pensemos, pois, no significado da posição geográfica e do futuro histórico da Nação Portuguesa antes de nos referirmos, com restrita propriedade, ao destino da Civilização Ocidental. (In Diário Popular, ano VIII, n.º 2564, Lisboa, 18 de Novembro de 1949, pp. 1 e 8).