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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Homenagem a José Marinho

Escrito por Álvaro Ribeiro




«(...) aquele que se interroga como homem religioso, ou como poeta e artista, ou como sábio de alguma certeza, na pausa de sua finita ciência, aquele ainda que se interroga como homem comum, em momento singular de perplexidade ou aflição, temor ou desespero, sobre a vida e o sentido da vida, esse interrogará afinal sobre o mesmo, embora de modo menos directo, nu e abstracto, por maneira mais indirecta, impura e aleatória.

E é neste momento, pela consideração do enigma no homem, como ser da verdade para si enigmático, que o sentido radical do enigma surge. Tanto em filosofia como decisivo cabe apreender não só o sentido do mais alto e raro, mas o do mais humilde e mais comum, tanto o sentido do saber mais significativo como o da menos sábia e mais taciturna relação do saber e do ignorar!

O enigma, em sua autenticidade, não é dado para o interrogar fora: adere radicalmente ao ser que interroga. Pois quando, para além do mero ser e sentir enigmaticamente, o sentido autêntico do enigma se alcançou, nesse e por esse se reconhece a subtil urgência de se interrogar a si, de si, e de si para si mesmo sucessivamente interrogar e responder.

Interrogando-se sobre o ser do seu ser, situa já o homem ao enigma em seu sentido denso e grave. Pois se o homem fosse apenas o que é sem consciência da relação entre saber e ignorar, não haveria enigma; e se ele fosse o que de si plenamente sabe, também não haveria enigma. O homem, porém, não é um nem outro: e por isso ele se interroga como o que se não detém no amor de si ou de algo, e na crença ou descrença insciente ou fácil, e ele se interroga como o que é para si enigmático em seu ser e na verdade do seu ser e do ser em si e no saber da verdade e na mesma verdade. Eis porque o enigma marca o momento solene do encontro do homem consigo mesmo. Homem: o ser que entra e sai incessantemente no ser da visão unívoca, e na mesma visão, para sobre um e a outra se interrogar; ou, se não se interroga, para existir em equivalente misterioso ou dramático desde o âmago de si às mais extrínsecas formas do seu viver.»

José Marinho («Teoria do Ser e da Verdade»).

 


 
«Importava agora entender a Teoria da Cisão, a dispersão da verdade no tempo e no espaço que a Teoria diz “sucessão e distância irremediáveis” para exprimir o que há de desgarrador, doloroso e dramático na criação ou formação do múltiplo ser, na existência do mundo. Já víramos, pela inutilidade da cisão primordial, como “o ser enquanto ser é ilusório”. O vemos melhor agora – ou melhor, o pensamos porque a teoria é o que se vê e simultaneamente se pensa – no múltiplo ser que compõe o mundo. Tendo na verdade a sua essência, isto é, o que faz que seja, e sendo para ela, o limite ou forma dos predicados que dela se cindiram, o ser é o limite, a prisão ou o suporte sensível, no tempo e no espaço irremediáveis, de uma verdade parcial, de apenas um ou alguns predicados cindidos do conteúdo de todos os predicados possíveis. Verdade parcial essa, para que seja o outro da verdade inteira e una na expectativa, que acompanha e justifica o movimento desde a cisão primordial até à cisão extrema, de obter o saber de si que só de um outro o mesmo pode adquirir. Mas na desgarradora cisão percorrida, a verdade do ser, tal como o Ser da verdade, não obtém o saber de si que, a vir de um outro, propriamente se pode também chamar, como Hegel lhe chama, re-conhecimento. O ser enquanto ser, seja uno como no Ser da Verdade, seja múltiplo como na verdade do ser, permanece ilusório. E ao atingir a cisão extrema dir-se-á que o ser é para não ser pois a cisão extrema é o momento em que o movimento da verdade no processo da cisão se vê perante o não-ser, o abismo sem fundo do não-ser, diz a Teoria, do “mais profundo nada”. Aí surge o homem, o único que pensa, e do nada surge o espírito que, esse sim, é o outro da verdade, até o seu contrário. No espírito – diz também a Teoria – tem seu princípio o pensamento, e compreendemos que só na cisão extrema, perante o abismo do não-ser, surja o único que pensa.»

Orlando Vitorino («A Desolação do Mundo – Leonardo Coimbra e Martinho Heidegger»).




«Com o pensamento de Álvaro Ribeiro se nos deparou desde cedo um dos mais árduos momentos do nosso trabalho. Como com o poeta José Régio ocorrera também, o íntimo convívio de longos anos e a muito grave consciência das fundas afinidades e dos vivos contrastes tornam-nos ainda hoje confessadamente difícil a requerida e equânime compreensão.

A filosofia deste pensador exemplifica a nossa tese da situação barroca. Com uma unidade subjacente de ponta a ponta, na obra pela qual se traduziu o seu pensamento, este se nos apresenta em sucessivas mutações. Aparece-nos aquela unidade imediatamente assegurada pela renovada sondagem das íntimas e subtis correspondências da crença e da razão. Para além delas, no fundo e amplo vínculo da fé e do pensamento, se nos entreabre a mais substancial relação com a autêntica universalidade.

O primado da teologia e do sentido de transcendência afasta-se em Álvaro Ribeiro, de modo nítido, da via aberta por Amorim Viana e pensadores consequentes: o aprofundamento das noções, nele essenciais também, de liberdade e de justiça, insere-se numa concepção providencialista no quadro da tradição judaico-cristã. Num aristotelismo renovado, de boa raiz platónica, viu entretanto o pensador da Arte de Filosofar e da Razão Animada, com outros filósofos do nosso tempo, a garantia filosófica das relações intrínsecas do ser e da verdade de Deus com o homem e o Universo.

Considerado no mais restrito âmbito da filosofia portuguesa, cuja apologia e propedêutica mais que nenhum outro dos nossos filósofos promoveu, insere-se a obra de Álvaro Ribeiro numa enigmática: pois não só dele, nem dos que de vários modos acompanharam a sua persistente e responsável exigência de filosofar, depende o êxito do propósito na terra que seu Mestre designou como “a mais anti-filosófica do planeta”».

José Marinho («Verdade, Condição e Destino no Pensamento Português Contemporâneo»).

 


«Saudamos no livro de José Marinho, no pensamento e no estilo admiráveis da Teoria do Ser e da Verdade, uma obra autêntica de filosofia que efectivamente nos obriga a cogitar, a meditar e a reflectir. A crítica dirá se as respectivas teses concordam entre si, para coerência do sistema, e se estão de harmonia com a cultura que nos cumpre propagar e defender. O livro surge na hora em que, perplexos ante as dificuldades opostas pelos estrangeiros ao pensamento nacional que estrutura a verdade da Pátria, buscamos as razões justificativas da posição que nos singulariza pelo modo de colaborar na redenção da Humanidade. Os estrangeiros, e com os estrangeiros os nossos emigrados ou turistas, arguem maliciosamente com a denúncia das tristes culpas, certos de que o ensino das escolas públicas, viciado pela frenesia cientista e tecnicista, tem revogado de geração para geração os valores defensáveis pela filosofia portuguesa. Aos escritores, e especialmente aos autores das obras de pensamento, tem sido efectivamente desleixado o poder de educar as novas gerações. Só eles constroem o futuro, já que o ser do homem é o seu pensar, e com o pensar se ilumina o agir. No passado repousam, ou adormecem, parentes, professores e sacerdotes, que repetindo palavras pretéritas esvaziam de conteúdo intelectual ou emocional as cerimónias em que por hábito colaboram, transformando as comemorações históricas em farsas revogáveis, dispersando em terras mortas o vínculo espiritual da tradição.»

Álvaro Ribeiro («Decisão e Indecisão na Casa de Portugal»).

  


HOMENAGEM A JOSÉ MARINHO

O Estado português, fundamentalmente positivista, não tem por missão essencial promover o cultivo da filosofia. Desta afirmação, que merece acordo unânime, inferimos e esclarecemos as consequências observadas naquele ramo de administração pública que até agora tem sido designado por instrução, educação ou escolaridade, o qual pressupõe opção por uma tese definidora da liberdade e do destino do homem em seu trânsito pelo mundo. Outrora referida à finalidade suprema de conhecer e amar a Deus, a vida humana é hoje, programada em obediência às ilusões da prosperidade material e da distribuição das riquezas pelos povos. A falta de uma disciplina ordenadora e coordenadora de todo o saber, a falta de uma filosofia nitidamente caracterizada por princípios, meios e fins, tem por consequência a impossibilidade de projectar e concretizar no quadro do ensino público uma instituição que mereça o nome de Universidade. Um aglomerado de escolas em que falte a unidade, a monarquia, a teologia do saber teorético ou teórico, jamais poderá assegurar ou promover a realização da autêntica e verdadeira cultura. Há escolas superiores umas às outras; há escolas inferiores umas às outras; predomina o relativo sobre o absoluto; mas deste modo a pluralidade dispersiva das ciências, das técnicas e dos ofícios, se torna permeável a todas as contradições que, no tempo como no espaço, ameaçam a continuidade e a segurança do espírito que caracteriza a Nação.

De lustro para lustro, ao fim de cinco anos, após a duração de um curso, volta-se a falar em nova reforma, em dar outra forma, ao articulado jurídico de estruturas escolares que parecem já caducas, inoperantes ou improdutivas. Tal resulta de olhar apenas para o que no mundo é efémero, transferível ou relativo, em vez de prestar atenção ao que a experiência tem demonstrado ser constante e improgressivo, tanto no educador como no educando. Quantas vezes se procura imitar o melhor modelo estrangeiro, tantas vezes se esquece o propósito essencial da formação do homem português, do homem que fala português e que pensa em português.

Tal não acontece, porém, em outros povos, e em outros estados, os quais não só cultivam ciosamente as filosofias que criaram ou que importaram, mas também as difundem por livros de apologética adequados à propagação de ideologias propícias ao domínio hegemónico sobre o pensamento estrangeiro. Ocioso será lembrar os exemplos históricos de indução falaciosa na construção de sistemas universais, porque tais factos de intercâmbio cultural demonstraram uma lição que se impõe à memória dos bons entendedores. A subordinação da política à filosofia, implícita ou explícita nos textos jurídicos, vai-se tornando evidente a quem sabe ler com atenção as mais recentes páginas da História, sem confundir as constantes com as variantes de acontecimentos progressivos para um fim remoto ou ignoto.



Durante os séculos áureos da Nação Portuguesa, em que se verificou a hegemonia universitária da Escolástica, foi a filosofia predominantemente cultivada em latim e intimamente associada à religião. A disciplina promotora da liberdade de pensamento, enviada em sua forma aristotélico-jesuítica, esteve associada à disciplina seguradora da unidade da fé. Depois de 1772, instaurados o iluminismo liberalista e o sociologismo positivista, haveria o vulgo ignorante, mas bem falante de considerar como anacrónico, retrógrado, ou reaccionário o ensino da filosofia.

Ao longo do século XIX desenvolveu-se contra a Escolástica, não uma crítica minuciosa e certeira, mas uma injusta polémica, tendente a dissolver a relação perene entre a filosofia e a religião. Exaltada foi a liberdade de pensamento, mas tal liberdade deveria ficar subordinada ao determinismo da ciência, formando-se à margem deste círculo vicioso um campo propício às variantes da opinião. Alguns plumitivos chegaram até a doutrinar sobre os conflitos havidos entre a ciência e a religião, encobrindo numa expressão caracterizada pela impropriedade dos termos, intenções precursoras de agitação política e revolução social.

Eliminar a filosofia dos quadros do ensino público foi a aspiração confessada ou inconfessada de muitos reformadores políticos, mas a tal propósito obstavam não só os hábitos didácticos dos professores fiéis à nossa tradição escolástica, mas também o prestígio de que a filosofia gozava nas nações estrangeiras e nos congressos internacionais. Adentro das nossas fronteiras, a filosofia ia sendo também atacada pela licenciosidade dos literatos e parlamentares românticos; mas os escritores realistas, mais prudentes ou mais inteligentes, admitiram uma filosofia esboçada para complemento da enciclopédia científica, imitando o exemplo das celebridades estrangeiras. Ninguém elevou a voz para demonstrar que a exclusão da filosofia escolástica iria dificultar a autêntica e metódica investigação histórica do pensamento artístico, político e religioso do povo português; seria o factor mais profundo de adulteração da fisionomia espiritual da Pátria; aceleraria a dissolução da língua portuguesa no jornalismo escrito e falado para melhor aceitação das expressões de origem internacional.




A palavra «filosofia» permaneceu a designar uma das últimas disciplinas do curso dos liceus, mas tal disciplina, periodicamente reformada nos seus programas ou ministrada por livros estrangeiros, reproduz ainda hoje um método incompatível com uma didáctica vivente, do qual resulta a demissão da inteligência em que se propõe transitar para uma escola universitária. Seria inútil repetir ou resumir as críticas feitas por especialistas autorizados. Nos serviços públicos, desde o Curso Superior de Letras até à última reforma das Faculdades de Letras, nunca houve intenção de formar filósofos entre os estudantes que para tal demonstrassem vocação ou aptidão, (a exemplo do que se praticou outrora quanto às carreiras eclesiásticas), porque sempre os legisladores atribuíram prioridade às disciplinas de história e à ordenação histórica dos tópicos dos programas, em detrimento das actividades especulativas que se reflectem no julgar, no conceber, no meditar, e que manifestam sua fecundidade pela elaboração de livros originais.

Graças à iniciativa do Professor Doutor Joaquim de Carvalho, e à dos seus directos e indirectos discípulos, Portugal começou a ter uma brilhante minoria de eruditos que honram o laborioso campo de historiografia filosófica, sinal promissor de que não tardará o dia em um legislador inteligente se mostre capaz de promover a inventariação dos manuscritos latinos que ainda existem nos arquivos e bibliotecas, a tradução que os restitua à língua portuguesa em que foram pensados, e sua publicação em livros acessíveis às bolsas dos estudiosos. Será assim traçado o caminho que nos permitirá descobrir aquela filosofia política e aquela filosofia jurídica de que resultou a esquecida mas gloriosa contribuição dos soberanos portugueses para a civilização mundial. A História goza hoje de notável prestígio entre os editores portugueses, e a título de História, sob a capa de História, a coberto da palavra História, vão alguns estudiosos conseguindo substancial auxílio de instituições particulares e de serviços de Estado, auxílio quase sempre indeferido a quantos o requerem para livre cultura das ciências, das artes e das técnicas, sempre recusando ao cultivo da imaginação e da especulação.

A nítida separação entre a Igreja e o Estado, justificável apenas no plano administrativo, revogou totalmente a doutrina tradicional acerca das finalidades da educação humana, e contribuiu para consolidar a prioridade dos interesses económicos na sociedade civil, proclamados pelo liberalismo, como para exaltar a ambição infinita de prosperidade material. A palavra interesse obteve assim alta dignidade legislativa como termo próprio para agrupar ou classificar as actividades sociais, e assim se compreende que os zeladores dos interesses públicos reiteradamente signifiquem por omissão acintosa o seu estranhado desfavor pelas actividades em que o pensamento humano se manifesta tão livre como desinteressado. Não admira que, numa sociedade constituída por tão moderna teoria, só a aprendizagem profissional, em sucessores graus, seja considerada instrução de interesse social, e mereça uma atenção que não recai sobre o pensamento interessado no culto, na cultura e na civilização.


 

Muitos dos que exaltam a protecção do Estado à investigação científica tomam o cuidado de evitar que tal se confunda com o amor da verdade, já que de seus dizeres transparece a preocupação consciente ou inconsciente de uma finalidade técnica, bélica ou industrial. Ora, sem o amor da Verdade, que é a propedêutica do amor de Deus, não há ensino digno de eficiência intelectual ou espiritual. A essência do filósofo inútil assume, assim, aos olhos dos pedagogos e dos pessimistas, o odioso aspecto de um escândalo que urge reprimir ou suprimir.

Fácil é inferir que a filosofia, omitida na articulação jurídica do Estado, e realmente excluída dos fins propostos à Universidade, não beneficie de qualquer protecção ou defesa contra as injúrias quotidianas de quantos naturalmente se esquivam à disciplina e à vercidade no pensar, no falar e no escrever. É evidente que a filosofia, como tal, nunca estava ao alcance de quem se estime dotado de instrução primária. As ofensas incidem, portanto, sobre os filósofos contemporâneos, principalmente sobre aqueles que se distinguem pela crítica lucidamente racional sobre o modo leviano ou empírico porque o vulgo discute as mais sérias questões públicas.

Muitos processos há de excluir a filosofia, ou de fazer passar por filosofia o que é a sua contradição e contrafacção; maior é, porém, o número de artifícios de estilo para significar desdém ou aversão pelos filósofos que não se conformam com o destino injusto do anonimato. Desde o cumprimento insincero, e portanto irónico, mediante palavras lisonjeiras até às práticas de ofensa, difamação e desonra que os jornais e as revistas liberalmente acolhem para divertimento dos seus leitores, consolida-se aquela opugnação vulgar ou pública segundo o qual o qualificativo de filósofo é mais ou menos ridículo e, portanto, mais próprio para a comédia do que para a tragédia. Morrem os filósofos nas condições que a História regista para que o castigo social não deixe de recair sobre quantos se dedicam a uma forma de pensamento livre, independente de qualquer ideologia sectária ou partidária, motivados apenas pelo excelso amor da verdade.

A quantos cultivam a filosofia é dificultada a publicação de seus escritos na imprensa periódica, alegando os editores e livreiros que o nosso público ainda não está preparado para comprar obras de pensadores portugueses. Nenhum prémio pecuniário, nenhuma medalha honorífica, nenhuma iniciação académica surge para prestar justiça a quem se distinga por seus escritos filosóficos, e muito menos para quem esteja no princípio de uma carreira que a sociedade tolera mas não considera promissora de valores nacionais. Tal se evidencia por contraste, a preto e branco, com essa composição de mentira e de verdade, que é a literatura de ficção, a qual vai conquistando o respeito que lhe é prestado pelos políticos que a temem, governadores ou opositores.



Compreende-se assim que a minoria dos filósofos, vivendo em condições que lhes são adversas, pois nem sequer gozam de um estatuto comparável ao dos estrangeiros, se reúnam brevemente em tertúlias para discutirem em linguagem mais ou menos esotérica a temática superior de quem ama acima de tudo a luz perene da verdade. Tratam-se mutuamente por amigos, a exemplo do que foi outrora ensinado por Aristóteles, já que na amizade encontram merecida compensação de justiça que lhes é negada. Chamar-se-iam talvez companheiros, se esta designação, referente a participantes de uma cerimónia religiosa, estivesse livre de qualquer significação confessional, a que nem todos aderem.

Formando como que pequenas academias, sem estatutos escritos, como fora habitual no século dezoito, permutam entre si os estudos que destinam apresentar em público, e auxiliam-se tanto pela discussão severa dos temas imaturos como pela crítica lúcida das teses imprecisas. Não há entre eles respeito mundano nem elogio mútuo, mas ao contrário do que acontece com os literatos, à míngua de assuntos, formalmente excluem de suas conversas qualquer demora na maledicência acerca de presentes e ausentes. Realizam, por vezes, breves simpósios intencionais, para prestarem uns aos outros aquele alento espiritual que lhes é negado pelas entidades públicas, as quais se defendem dos filósofos pela táctica habitual da conspiração pelo silêncio.

Na homenagem que vai ser prestada a José Marinho por seus amigos e contertúlios, não poderia eu estar ausente, nem silencioso, como se julgasse tal iniciativa uma cerimónia despropositada, inútil ou supérflua. Concordo inteiramente com a manifestação a que me associo. Louvo quem a promoveu, na certeza de que é mais meritório prestar o calor da bondade humana aos que connosco vivem, do que esperar pelo dia remoto do necrológio, ou pelo livro de memórias, para obedecer aos mandamentos da verdade.

Não é esta a primeira vez que escrevo palavras de justo elogio ao Amigo José Marinho. Narrei o nosso primeiro encontro nos salões da «Renascença Portuguesa», aludi às nossas primeiras conversas que fortaleceram a minha fidelidade à vocação espiritual, referi-me à divergência dos nossos rumos culturais, acentuei a distracção dos trabalhos por cada um de nós realizados. Nunca será demais retocar o perfil de alguém que, honrado por um círculo de amigos, que lhe reconheceram méritos, não recebeu até agora o merecido prémio de ser aclamado como primeiro filósofo português da segunda metade do século XX.


Ex-libris da «Renascença Portuguesa», da autoria de António Carneiro


Desde o tempo de estudante universitário José Marinho se tornara notável pelos dons de eloquência, que exibia nas conversas com seus condiscípulos, os quais confessavam que nenhuma discussão académica poderia ser esclarecida ou encerrada sem a palavra decisiva do inspirado orador. Era surpreendente, mas verdadeiro, que José Marinho tinha o condão de apresentar a nova luz poética, ou sob um aspecto inédito, o problema em estudo e o critério de o resolver. A superioridade da sua inteligência, facilmente reconhecida pelos seus colegas mais orgulhosos ou mais invejosos, tornara-se famosa nos ambientes universitários. José Marinho comparecia frequentemente em todas as reuniões de jovens que se dedicassem a actividades intelectuais, intervinha com a lucilação da sua palavra inspirada, deslocava ou removia o tema para o plano superior em que brilha a tese, ou a ideia. Nos debates, colóquios e simpósios que se efectuaram de 1920 a 1930, – decénio em que a onda intelectual da cidade do Porto foi também vida espiritual, como nunca mais – os espectadores ou assistentes solicitavam ou exigiam que José Marinho não ficasse calado, e que lhes dissesse a última palavra. Habituaram, assim, o notável orador ao esforço máximo de reflexão e de meditação, adequado à responsabilidade do pensador, mas contribuíram talvez para acentuar inibições em que iria adiar de decénio para decénio a sua esperada revelação de escritor. 

Admirável conversador de tertúlia, José Marinho era sempre esperado com impaciência para que o tema banal da conversa desultória fosse, enfim, transposto para o plano intelectual de analogia com os diálogos platónicos. A discussão inútil transformava-se imediatamente em acto de ensinar ou de aprender. Por seus dons de simpatia e de comunicação, José Marinho conseguia integrar quaisquer ouvintes num ambiente espiritual de iniciados e agraciados, perturbando e deslumbrando até os mais refractários à arte de filosofar.

Seria estulto dizer que não haja na conversa de José Marinho algo de semelhante ao que nos foi traçado no modelo de Sócrates, pois há diferenças vantajosas para o perfil espiritual do filósofo português. A sua argumentação dialéctica, tendente sempre a mostrar a alternância do sim e do não em toda a ordem de valores e em toda a instância de conceitos, não propicia ao ouvinte a facilidade de alcançar o cerne íntimo de ideia pura. José Marinho humilha os orgulhosos que não aspiram a mais do que ter razão, e exalta os que humildemente procedem por amor da verdade.

Desconfiando do estruturalismo, desvalorizando o pensamento categorial, opondo-se à tese positivista de que cada nomenclatura científica forma um compartimento estanque, José Marinho usa magicamente das palavras quando exerce o magistério de tradutor, intérprete e hermeneuta em suas lições admiráveis. Conforta-nos ouvi-lo atribuir aos termos políticos, que se intrometem nas conversas mais banais, as equivalências semióticas, semânticas e simbólicas, pelas quais a inteligência ascende às superiores esferas religiosas. Ensinando-nos a enunciar em termos cristãos, e até em termos clericais, os conflitos humanos que os jornalistas medíocres transferem para a política, a apologética e a polémica, dá-nos a ver que os graves desentendimentos entre novos e velhos, filhos e pais, estudantes e professores, homens e mulheres, governantes e governados, nacionais e estrangeiros, etc, só podem ter significação autêntica e resolução possível nos quadros apocalípticos da vida religiosa.

Quem alguma vez ouviu José Marinho interpretar uma frase de Jesus, extraída dos Evangelhos, ou explicar um dos mais belos poemas da língua portuguesa, jamais esqueceu a maravilhosa mestria de quem facilmente abre, desenvolve ou desenrola a verdade das doutrinas sagradas. Transitando do significado exotérico para o sentido esotérico, já não é o professor quem fala, mas talvez o sacerdote inspirado. Desta observação se infere a função que José Marinho pessoalmente atribui à filosofia, deslocando-a para a escolástica, segundo a honrosa tradição medieval.





É, para seus discípulos, evidente que a vocação espiritual de José Marinho se exprime no apelo de transcender a escolástica, a filosofia, o pensamento situado, na inquietação de alcançar a ideia pura. Enquanto outros pensadores, seus contemporâneos, opondo barreiras ou diques ao positivismo invasor – que ameaça anular amanhã as últimas características da cultura portuguesa, e até o idioma nacional, – iam escrevendo ensaios escolásticos sobre as relações da filosofia com a religião, com a pedagogia, com a política, com a literatura, etc., José Marinho elaborava em segredo a sua obra-prima, que haveria de ser intitulada Teoria do Ser e da Verdade. Publicou-a em 1961, com plena consciência de que praticava uma «intempestiva ousadia» numa sociedade adversa aos livros de pensamento puro.

Traduzida em francês, inglês ou alemão, esta obra seria a demonstração perfeita da superioridade da filosofia portuguesa sobre todas as suas rivais estrangeiras; ela permanece ignorada e esquecida aquém e além fronteiras, por culpa de todos nós, que não sabemos cultivar nem aproveitar as verdadeiras fontes das nossas riquezas espirituais. Síntese poderosa de todas as teses enunciadas na filosofia contemporânea, ela é além disso verificada por uma dinâmica de intenção mística. Ela realiza, com a superação da filosofia, a transcensão infinita que ao homem como tal é possível falar, dizer ou escrever.

Na sua estrutura severa de pensamento puro, a Teoria do Ser e da Verdade contraria os hábitos mentais dos leitores de obras fáceis de filosofia, e desperta uma atitude de expectativa para com as obras complementares que José Marinho há-de publicar. Todos nós, seus amigos, leitores e admiradores fazemos votos por que a José Marinho sejam dadas possibilidades humanas, sociais e divinas de completar a sua obra, prometida e esperada.

(In Parábola, n.º 34. Página Cultural do Diário do Minho, Ano LV, n.º 17 542 (Braga, 9.2.1974).


terça-feira, 14 de julho de 2026

O ensino da teologia e a filosofia portuguesa

Escrito por Álvaro Ribeiro



 

«Um professor pergunta a um aluno se ele reza. Este diz que sim; então o primário manda-o ajoelhar-se e pedir-lhe pão. Depois da pobre criança pedir pão a Deus, o primário pergunta – Deus deu-te pão?

Não, responde a criança. Então pede-o ao camarada comunista. O pequeno obedece...  este louco, este deus primário entrega-lhe um pouco de pão... demonstrando assim a não existência de Deus (!!).»

Leonardo Coimbra («A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre»).

 

«O ateísmo é, filosoficamente, um caso de analfabetismo, sem que da comparação com o analfabeto resulte depreciação injusta das virtudes e das razões do ateu. Nenhum homem culto pedirá que lhe mostrem a existência de Deus pelos processos das ciências de observação e de experimentação, nem solicitará que lhe demonstrem a essência de Deus por subtilezas da razão discursiva. O homem culto ou letrado conhece o que obsta a que se torne imediata e patente aos nossos olhos a divindade; o homem culto ou letrado não toma o ateísmo por conclusão necessária do agnosticismo.»

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


«Cabe ser extremamente cauteloso e prudente quando se fala de agnosticismo e ateísmo. Pois assim como os crentes, no passado mais distante, e ainda também em nossos dias, simplisticamente desatendem a funda indicação de S. Paulo segundo a qual “há muitas moradas na casa do Pai”, assim também, no século passado e no presente, ensaístas, filósofos até, desatendem com frequência que designações como agnóstico ou ateu correspondem a diversíssimas situações reais perante o mistério do Ser ou perante o que seriamente caiba admitir como Deus ou divino, e ainda também perante o que valorativa ou desvalorativamente se designe por transcendente, ignoto ou incompreensível. Em relação com o que estamos tratando cabe notar que, em Portugal e na Europa, uma parte dos filósofos ou dos homens cultos se obstinam em não atender toda a importância da noção kantiana, ou já husserliana, de transcendental. É tão obstinado o sentido da “imanência desorbitada”, tão absorvente em pensadores lógicos e dialécticos a confusão entre noções mais restritamente lógicas e noções onto-teológicas ou onto-fenomenológicas, que se vai de geração para geração dificultando o possível esclarecimento ou o mínimo acordo possível quanto aos termos, para ser simplesmente viável algum diálogo autêntico entre filósofos ou homens com responsabilidades de pensamento.»

José Marinho («Verdade, Condição e Destino no Pensamento Português Contemporâneo»).

 


«Lembrando os nomes de Carlos Darwin, Herbert Spencer e Henrique Bergson, entre os pensadores que mais contribuíram para o desaparecimento da antropologia fixista, e que encerraram a era da filosofia mediterrânea para abrirem a da filosofia atlântica, não podemos deixar de evocar os estudos geográficos dos Portugueses e as consequentes navegações em busca das ilhas afortunadas no Oriente, – dando a esta palavra o significado mais alto, que não é o do ponto cardeal onde nasce o sol, mas o de luminosa e divina origem do Ser. Doutrina evolucionista é somente a que se refere à antropologia, à evolução da humanidade, pelo que não convém usar da palavra evolução no estudo das várias doutrinas transformistas das espécies biológicas. A antropologia evolucionista, que pode ser expressa sem contradição das verdades tradicionais, demonstrando que o homem primitivo era diferente do homem decaído, mortal e ocidental, permitirá talvez resolver alguns problemas de teologia bíblica e de apologética religiosa que por enquanto atormentam as consciências piedosas.

A verdade criacionista de que Deus moldou o homem à sua imagem e semelhança, não oferece dificuldade a quem pensar no tempo imenso, no tempo imensurável, que mediou entre o nascimento de Adão e o primeiro pecado a que todas as tradições se referem e a cuja obscuridade relacionam um cataclismo cósmico. Talvez nos seja lícito até representar esse período adâmico, idílico e edénico antes do que contamos hoje como tempo, antes da periodicidade, antes da história. Assim revistas, as nossas ciências positivas, como a paleontologia, a anatomia comparada e a embriologia, que estudam a Natureza já alterada pelo sofrimento e pela morte, não fornecem aos descrentes argumentos que necessariamente refutem e invalidem a tradição que fez doutrina entre povos de diferentes civilizações.

Impiedosas pareceram sempre, aos olhos dos filósofos, todas as tentativas de aplicar aos acontecimentos pré-históricos a gnosiologia positivista, e, portanto, de ver na letra dos livros inspirados e sagrados a confirmação dos raciocínios conjecturais das ciências de observação e de experimentação. O pensamento gnósico não poderá fazer mais do comparar o presente com o passado, comparar o corpo humano com a matéria orgânica existente antes de Adão, violentar por conjectura intelectualista um segredo natural, se não um mistério divino. Ao pensamento sófico repugnará a representação minorada nos quadros empíricos do espaço e do tempo, e ao pensamento pístico nunca as fórmulas da razão discursiva hão-de parecer suficientes para descrever o processo por que a humanidade foi criada por Deus.

A dignidade que o corpo humano reveste na configuração apolínea e a beleza que ele assume no ambiente natural, por muito que signifiquem esteticamente, não são atributos que nos obriguem a ver nessa imagem o tipo mais elevado, ou arquétipo, da antropologia. O formalismo estético não nos parece muito compatível com a mobilidade indispensável ao conceito de encarnação. O aprofundamento dos problemas humanos conduz-nos aos segredos naturais, e estes, por sua vez, nos remetem para os mistérios divinos.


Expulsão de Adão e Eva, por Alexandre Cabanel.

Toda a maravilha da infância se nos apresenta mais lúcida quando relacionada com o conceito de evolução, porque se o infante é aquele que tem dentro de si o verbo, mas ainda não fala, de sempre a humanidade superou a animalidade. A criança inocente, que há-de falar, tem dentro de si o sinal da origem divina. Eis o que explica a analogia entre a evolução e a educação, eis o que justifica a educação religiosa, na variedade e liberdade de cultos.

Quem medite na significação do sacramento do nome, que é o baptismo, não terá dificuldade em a relacionar com a tríade Letra-Verbo-Espírito. A própria liturgia cristã, com a água e o sal, com a água salgada, parece querer dar ao infante a possibilidade da fala, e, portanto, a possibilidade da oração. Os outros sacramentos, mais filosóficos, promovem a educação, e, com a educação, a evolução integral da humanidade.

Se relacionarmos a teologia com a eternidade, a antropologia com o tempo e a cosmologia com o espaço, para acertarmos a nossa terminologia, compreenderemos que o conceito de evolução só no bergsonismo atinge pleno sentido. A antropologia existencialista, descrevendo embora a situação do homem no tempo, abstém-se de recorrer àquele conceito que em si contém implicações cosmológicas e teológicas.  A afinidade entre o tempo bergsonista e o movimento aristotélico, aliás cedo apontada pelos críticos, refuta a possibilidade de contagem do tempo pelo movimento de deslocação, ou movimento mecânico.»

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).

 

«O homem foi criado por Deus, mas a criação não cessou com a queda do homem na história, depois do pecado original. A razão imagina pelo estudo científico do homem actual a antropologia revelada pelo texto sagrado, mas porque seria impiedade alterar uma letra deste texto tem de considerar pseudo-científicas as conclusões do evolucionismo darwinista.

Observando o homem existente, verificamos pela figura que o corpo ostenta – a posição vertical – e pela liberdade de movimentos, harmónicos com a autonomia da cabeça; pelas expressões da sua imaginação significando uma certa iniciativa; pelo dom da palavra e relativo exercício do raciocínio verificamos que ainda conserva os vestígios da primitiva realeza adâmica, hoje perdida. Tudo se passa, porém, como se ele fosse, de facto, um animal inteligente e munido de vontade somente: Também os outros animais são munidos de vontade e de inteligência; sempre que querem alimentar-se ou reproduzir-se têm aptidão para relacionar os meios com os fins e é essa aptidão que caracteriza a inteligência. No homem a relação dos meios com os fins é mais complexa, a sua inteligência animal exprime-se superiormente nas várias ciências económicas e financeiras. É este um modo de dizer irónico que Álvaro Ribeiro utiliza para chamar o homem para mais nobres e altos fins, aqueles a que, segundo a sua natureza, há-de aspirar se tomar consciência de que é um artista, isto é, uma pessoa dotada de razão e de imaginação. Como é que é possível que só alguns homens tomem consciência disso? É que, na maioria dos homens, a imaginação, presa à carne que de si criou, arrastou consigo a razão para formas de perversão em que as palavras ou significam sentidos, isto é, as imagens do mundo sensível ou se articulam por abstracções entre a técnica e a metafísica.


A mulher, o homem e a serpente, por Byam Shaw (1911).

O pecado original é um pecado de imaginação ou, se preferirdes por ser mais claro, um pecado de magia. Álvaro Ribeiro insurge-se contra as explicações do pecado original que nele vêem a relação carnal entre o homem e a mulher. Já Adão tinha conhecido Eva quando se deu o pecado de que temos notícia pelo Génesis.

Há uma degeneração na carne que serviu de carro ou de veículo ao amor de Adão por Eva quando ele a conheceu. Os cinco sentidos ou sensos, como prefere dizer Álvaro Ribeiro, puras irradiações do sentido interno, o sensorium communis dos escolásticos, pelo pecado original emergiram na carne e a imaginação passou a confundir-se com a sensação. Com efeito, sem a imaginação não seríamos capazes de reconhecer uma rosa. Sem a imaginação nunca a sensação seria percepção.

Deixemos, porém, este assunto que é o mais difícil e misterioso da obra de Álvaro Ribeiro, mas retenhamos a ideia de que o homem é uma tríade vivente composta de corpo, alma e espírito. A alma é mediadora entre o corpo e o espírito em analogia ou correspondência da imaginação entre a sensação e a razão.»

António Telmo («Teoria da Imaginação em Álvaro Ribeiro», in Álvaro Ribeiro e a Filosofia Portuguesa, Ciclo de Palestras).

 

«A antropologia fixista é desesperante para quem considere a actual situação do homem no mundo. A doutrina evolucionista, pelo contrário, abre a porta à esperança que se nutre de especulações filosóficas. Tal é o significado da afirmação, já divulgada, de que o homem é ser que vive no tempo.

Compreende-se, por isso, que todos os pensadores cristãos tivessem reagido contra a interpretação darwinista da antropologia evolucionista. Situar o homem no mais alto grau da escala zoológica, e, distingui-lo dos outros animais por certos predicados e epítetos, para depois conjecturar que ele ocupa esse posto em consequência de obscuras forças biológicas ou químicas, é reduzir a criação e sua admirável enteléquia a uma interpretação progressivista de obscuridade entre o ponto inicial e o ponto final. Se o corpo é a substância e a alma o acidente, ou se o corpo é mera forma que naturalmente está sujeita a transformação, geração e corrupção, – não há lugar para o princípio de semelhança ou de analogia entre o homem e Deus, não é sequer possível a religião.

Graves responsabilidades são as dos teólogos que por métodos positivistas pretendem fazer a apologia do Génesis. O erro de considerar a paleontologia como pré-história obriga a explicar positivamente o aparecimento tardio do corpo humano no plano da criação e a aceitar princípios que não se integram na doutrina religiosa. Estabelecer a compatibilidade dos livros sagrados com os livros científicos não é suficiente nem eloquente afirmação das verdades tradicionais.

God Judging Adam by William Blake, 1795.

A dúvida não se resolve pelo dualismo. O que importa é interpretar o pecado original e a queda de Adão, substituindo os conceitos positivistas por outros mais depurados, para que numa gnosiologia transcendente seja dado mais perfeito significado a termos discutíveis como carne, terra e matéria. Saber que o mundo sentido não é todo o mundo sensível – é saber que facilita a intelecção da ontologia do mal.

Qualquer concessão às hipóteses sobre as quais assenta o transformismo impede-nos de ter sentimento de admiração pela Natureza, retira fundamentação e legitimidade à Ética, dá-nos a triste visão calvinista e moderna, tão genialmente sumariada nos pecados contra o Espírito Santo. Esse calvinismo, de que o senso-comum está por demais infectado, leva a ver sempre no jogo, na arte e no divertimento apenas veículos do mal, que é preciso proibir, reprimir ou fiscalizar, a ver, enfim, em todas as formas de júbilo, de alegria e de prazer, incessante perigo para a moral. A insistência nas palavras penitência, expiação, sacrifício enegrece o entendimento do culto, pelo que tira à vida religiosa o aspecto superior de gratidão para com os benefícios presentes no reino da Natureza e de esperança na vinda do reino de Deus.

Explica-se, por isso, a preferência dos filósofos pela “visão franciscana da vida”. Explica-se, também, a presença da tradição franciscana na Terra de Santo António. Entre um povo para o qual a santidade não está necessariamente relacionada com a ascética e a mística, e muito menos com a austeridade voluntariosa e a seriedade sombria, não é de estranhar que seja grande a devoção por S. Francisco de Assis, o santo jogral ou trovador de Deus, para quem não foi escândalo transmutar a Folia em Sofia.

O pensamento indutivo, que pela transparência dos mitos sóficos se habitua a ver a luz da fé, rejubila ao reconhecer também a possibilidade sacramental de educação da humanidade. O que hoje se chama sacramento foi outrora chamado mistério. A mediação verbal, que é apreendida na linguística, na estilística e na lógica, têm o seu complemento religioso no estudo estético da Natureza.

Eliminando a queda ou o pecado original, a antropologia darwinista de certo modo renova ou restabelece a heresia pelagianista, contrária à educação e à evolução. Mas a verdade tradicional nunca desaparece da consciência humana, que sempre manifesta ou exprime repugnância pelas doutrinas que a prendem à escala zoológica e assim negam a possibilidade da vida religiosa e a esperança de libertação. A natural aversão do homem pelo trabalho, especialmente pelo trabalho sem arte e sem jogo, a sua difícil resignação perante a lei da morte, a sua perplexidade interrogativa pelo destino de além-túmulo, significam muito mais para a antropologia do que todas as impiedosas conjecturas sobre a origem da terra, da carne e da matéria.




Na firmeza com que o homem defende as opiniões, as crenças e as preferências que o singularizam e separam dos seus conterrâneos e contemporâneos, na identificação do seu pensamento com o seu próprio ser, reside o estímulo que o leva a filosofar. Há um obscuro heroísmo na luta pela expressão adequada ao íntimo pensamento que, por considerar valioso, o estudante quer comunicar, sem escândalo para os seus conviventes. Se ao artista inspirado, que em suas obras revele demasiada liberdade de concepção, o senso-comum não perdoa e logo apela pela interpretação do psiquiatra, do carcereiro ou do preceptor, para que não mais se repita o escândalo de a arte contradizer o que se observa no mundo sensível, – contra o escritor mais ousado podem surgir as acusações infamantes que outrora entravam em processo judiciário e levavam às consequentes sanções da lei.

Nem a todos os homens é dado atingir aquele grau de nobreza em que se respeita e protege a liberdade de pensamento conceitual e imaginal. Por isso vemos tantas obras de filosofia apresentadas, no tribunal da crítica, como livros de apologia. Muitos pensadores escrevem, não como pensam, mas como se tivessem chegado a formular os seus filosofemas pelos métodos usados nas ciências, ou, melhor, pelos processos de análise, observação, experimentação e cálculo.»

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).

 

«“No silêncio e na solidão é que preferimos servir por fidelidade a uma vocação espiritual”. Álvaro está maduríssimo, na plenitude da idade da razão. O estudo dos pensadores, principalmente de Bruno e de Leonardo convence-o de uma continuidade filosófica na vida portuguesa, através dos acidentes e, até, das omissões. Dedicado a Francisco da Cunha Leão (em evidente agradecimento por ter criado as condições para a “Colecção Filosofia e Ensaios”, uma vez que o autor de O Enigma Português era administrador, com sua mulher, D. Leonor, da Livraria Guimarães), o livro Apologia e Filosofia, escrito em 1952, e aparecido em 1953, parece um solilóquio, mas é um diálogo oculto. Nele, em dezoito capítulos, Álvaro aborda aqueles problemas que maior debate suscitavam no grupo, desde as questões mais simples da história da filosofia (aliás, o primeiro capítulo é uma admirável síntese dos tópicos e dos tropos da transição do mais antigo aristotelismo para o mais moderno positivismo) às mais complexas da Metafísica, da Psicologia Racional e, por concomitância, da Teodiceia. Na maior parte dos capítulos, o autor trata as questões aos pares, num itinerário em escadaria, subindo do facto para a ideia, da história para a filosofia e, enfim, do natural para o sobrenatural, ou da Palavra para o Verbo. Este livro, epístola, ou diálogo sob a forma de solilóquio, poderá descrever-se como uma introdução filosófica à compreensão da filosofia, com uma deriva para a compreensão filosófica dos característicos típicos do que ele entendia por Filosofia Portuguesa. Processa a dedução lógica aos seus livros anteriores, na ordem das teses, uma vez aduzidos alguns preliminares históricos. Aqui, e pela primeira vez com juízo afirmativo, Álvaro propõe a existência de uma filosofia portuguesa, que logo pôs em contraste com a filosofia alemã, nas admiráveis e pouco atendidas páginas do prefácio a A Origem da Tragédia de Nietzsche (1954), em que afirma que a filosofia portuguesa, por suas verdades cifradas, é superior à alemã. Afirmação gratuita? É melhor deixar o enigma parabolar permanecer.



Solicitava-se de Álvaro o compêndio iniciático. Veio ele na forma de um livro de ensaios. A Arte de Filosofar (1955) que abre com a famosa distinção entre os conceitos de filósofo e escritor, ou de filósofo e autor de livros e a valorização soberana do “secreto pensamento”. É o texto mais difícil de Álvaro, e, no entanto, poderá ser entendido como a segunda parte do chamado Apologia e Filosofia.



Aduzidos os princípios, propõe-se a razão universal e a sua incarnação na razão portuguesa. É por isso que Álvaro dedica o livro “A José Régio, Poeta do Mistério da Encarnação”, e esta dedicatória é uma epístola a Régio, para lhe dizer que, afinal, o secreto pensamento incarna, e que a razão universal não deixa de ser razão situada. Eis o método, contemplativo: “ascender da palavra escrita à palavra ouvida, como quem transita do sólido para o fluido, não se contentar com ouvir mas tentar imaginar, para que a razão mais subtil atinja o grau de inteligência”. Caminhar da cultura para o culto, do evidente para o oculto. Do natural para o sobrenatural. Da palavra para a ideia.»

Pinharanda Gomes («A “Escola Portuense”).

 

«Cabe também não esquecer, quanto ao problema da crise da metafísica, a obra de Álvaro Ribeiro, particularmente Apologia e Filosofia e Arte de Filosofar.»

José Marinho («Verdade, Condição e Destino no Pensamento Português Contemporâneo»).

 

«A ideia de Deus, - e dizer a ideia de Deus é afirmar a realidade de Deus – havia sido o princípio e a origem da filosofia portuguesa. Foi Sampaio Bruno quem a expôs e, por isso, Álvaro Ribeiro o reconhece, a ele e não a Leonardo, “o fundador da filosofia portuguesa”.

A ideia de Deus, em Bruno, não é, como na filosofia alemã, a de um Deus morto, mas a de um Deus diminuído e prisioneiro, o que explicará a existência do mal e do erro. Do mal, na natureza. Do erro, no homem.

Duas vias divergentes aí se abriram: a que, perante o Deus prisioneiro, orienta o espírito para a sua libertação, e foi essa a filosofia de José Marinho; e a que, desviando os olhos e a mente de qualquer diminuição de Deus, atribui a existência do mal aos erros dos homens que, a esses sim, se impõe redimir do mal libertando-os do erro, e foi essa a filosofia de Álvaro Ribeiro.»

Orlando Vitorino («As Teses da Filosofia de Álvaro Ribeiro»).






O ENSINO DA TEOLOGIA E A FILOSOFIA PORTUGUESA

A escola portuguesa de filosofia que Leonardo Coimbra fundou em reacção contra o positivismo no primeiro quartel deste século, tem de comum com a escola, também portuguesa, de Sampaio Bruno a reivindicação do primado da teologia sobre as ciências especulativas. Ninguém deverá estranhar, portanto, que entre os discípulos de Leonardo Coimbra haja quem defenda o restabelecimento da Faculdade de Teologia na Universidade Portuguesa e, mais ainda, o ensino da teologia católica em alguns dos nossos cursos superiores.

Uma sistematização tradicional do saber humano reduz a três as disciplinas filosóficas: teologia, antropologia e cosmologia. Quaisquer outras disciplinas, teóricas ou práticas, não podem estar senão subordinadas a esta tríade. A Teologia tem, evidentemente, o primado porque só dentro dela é lícito falar de verdades eternas. A antropologia, pelo contrário, tendo como objecto de estudo um ente sujeito ao tempo, é disciplina passiva de devir existente, quer se adopte o conceito naturalista de evolução, quer se aceite o conceito tradicionalista de redenção, no estudo das vicissitudes do homo viator. A cosmologia, como sabemos, é elaborada com certezas provisórias ou instantes, ou, quando muito, assentes em hipóteses e em teorias que os investigadores não receiam substituir na melhor oportunidade.

Esta sistematização do saber humano não condiz com a classificação das ciências que enciclopedistas e positivistas trouxeram no século passado para o nosso País, classificação que transparece na ordenação actual das faculdades universitárias. Há ainda quem fale nas «conquistas definitivas da ciência», referindo-se à matemática e à física, para classificar o saber humano segundo uma escala ascendente ou descendente de utilidade. São os pensadores que, abstendo-se de meditar sobre o tempo e sobre a história, fatalmente se equivocam quando falam de cosmologia, antropologia e teologia.

Pretendemos, assim, eliminar a objecção de que o ensino da teologia nos cursos superiores, longe de obedecer a fins de educação pública, corresponderia a intentos de propagação da fé ou da política retrógrada. Contra essa objecção intempestiva, julgamos ser para os estudos humanistas o conhecimento da teologia católica tão indispensável como o da história pátria. Ora ninguém dirá que a disciplina de História de Portugal foi instituída para justificar a acção dos nossos reis e governantes, ou para despertar nos estudiosos maior paixão nacionalista.




A teoria da verdade que fundamenta a teologia dogmática não está condicionada pelo tempo. Diríamos, porém, que ela atrai o nosso pensamento muito mais para o futuro do que para o passado, e que, esclarecendo-nos, não tanto nos necessita como nos liberta. Habilitado o estudante a separar os dogmas, e também os artigos de fé, de tudo quanto se lhe afigure mera doutrina susceptível de controvérsia, em breve compreenderá que no estudo da teologia está exercendo aquela liberdade de pensamento que a Igreja Católica nunca deixou de defender.

Liberta-se também o descrente de atribuir à teologia católica alguns pensamentos que abusivamente se encontram em livros inferiores, e habitua-se a um rigor de expressão que lhe dará vantagens na arte de discutir. Quem falar, como iluminista, em nome da razão, deixará de confundir, no mesmo campo de irracionalidade, os mais vulgares absurdos com os augustos mistérios da fé. Referimo-nos em especial ao Mistério da Santíssima Trindade, cuja meditação obriga a esclarecer superiormente os conceitos de pessoa e de liberdade, tão importantes para a ética implícita na filosofia portuguesa.

Várias sistematizações teológicas existem entre as quais poderá o estudante escolher a que convier à sua vocação espiritual. A possibilidade de escolha não é suficiente, porém, para definir a liberdade. Livre é o homem que pode com certeza julgar-se autor.

Nutrimos, de há muitos anos, a convicção de que aos teólogos portugueses não seria muito difícil constituir uma síntese dogmática que perfeitamente se harmonize com a religiosidade peculiar do nosso povo. Não nos cumpre dizer em que sentido e com que critério. Limitamo-nos, modestamente, a observar que sem a prévia referência a uma determinada sistematização teológica deixa de ter precisão suficiente o que se disser a respeito da filosofia escolástica.



Acontece, por isso, que entre as pessoas que estão a ver com simpatia o movimento de renovação dos estudos escolásticos no nosso País, algumas se perturbam com o receio, talvez não fundamentado, de que uma vez mais fiquemos em filosofia subordinados a uma escola francesa. A maioria de referências a autores franceses e belgas de certo modo justifica a prevenção dos observadores. Convém, por isso, ter sempre presente que nem tudo quanto se discutiu na Europa Central, desde a Reforma ao Romantismo, merece ser transplantado para os domínios da nossa cultura, mediante recensões, refutações ou adaptações que não condizem com a linha de evolução do pensamento português.

Constituída por professores de nacionalidade portuguesa a Faculdade de Teologia, logo o ensino da ciência divina adquiriria forma que servisse de modelo para outras escolas universitárias. Nas Faculdades de Letras o ensino da teologia deveria ser ministrado no primeiro ano de cada curso. Os estudantes de filologia românica e de filologia germânica ficariam assim habilitados a interpretar obras literárias que não podem ser perfeitamente compreendidas senão pelas directas ou indirectas, mas quase sempre subtis, relações com a teologia católica; os estudantes de filologia clássica ficariam habilitados a situar adequadamente os cultos pagãos na escala fenomenológica para a religião absoluta.

A universalidade da teologia tem sido compatível com as filosofias nacionais. Não o é porém, com a lei dos três estados, nem com a divisão da história da filosofia em antiga, medieval, moderna e contemporânea. A teologia é, pois, digna de ocupar no ensino superior o lugar que lhe é atribuído pelas escolas portuguesas de filosofia.

(In A Semana, ano 1.º, n.º 47, Lisboa, 2 de Fevereiro de 1952, supl. «Das Artes e Das Letras», n.º 2, pp. 1-2).