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sábado, 26 de fevereiro de 2011

O Caso da Finisterra do Noroeste

Escrito por Francisco da Cunha Leão






Agora a periferia galega. No cotovelo da costa cantábrica com a atlântica, ela forma o noroeste da Península, e ao maciço seu esqueleto orográfico (galaico-duriense), articula-se o relevo do Portugal de além-Vouga.

Temos que fundamentalmente constitui a mesma nação que a portuguesa, para cuja formação concorreu decisivamente meia Galiza, influindo de tal sorte no conjunto humano e na idealidade do novo Estado que o substracto psicológico português, as atitudes frente ao mundo e à vida, e os móveis de acção se mostram similares, salvaguardadas que sejam as consequências do trânsito histórico, do activismo político e da integração de ingredientes exóticos. O asserto verifica-se até nos luso-descendentes. Reservamo-nos para discutir o tema e a tese a propósito da periferia não absorvida, irredutível que é Portugal. Por ora, interessa-nos apenas traçar um breve escorço das razões a que atribuir o irremediável afastamento da esfera política portuguesa de uma região que naturalmente se lhe devera associar, como participante do mesmo todo.

Está em primeiro lugar a cisão da faixa atlântica pelo rio Minho, acontecida no reinado de Afonso VI de Leão (cuja largueza de senhorios já lhe justificava a designação de imperador) com o desmembramento do Condado Portucalense no regime de feudo directo da Coroa, e não subordinado ao condado da Galiza, ao contrário do que tem corrido nos compêndios conforme às já rebatidas opiniões de Herculano e Gonzaga de Azevedo (1).

Desde os primeiros reis asturianos, a Galiza, libertada por Afonso I, o Católico, dos mouros que a não haviam ocupado por inteiro (2), surge espontaneamente da monarquia cristã, ora com governo próprio, ora mesmo como reino, até que o centro do novo Estado foi transferido para Leão. De outro modo, os ressentimentos locais logo deflagravam pelas armas numa terra de vastos senhorios e turbulenta nobreza.

Restabelecida por Afonso VI a unidade do grande Estado de Fernando, o Magno, e para mais alargado este, a situação da Galiza começou a tornar-se excêntrica, bem como a de toda a faixa ocidental já definitivamente assente na linha da Serra da Estrela e do Mondego.

Cada vez se deslocava mais para a meseta central o tablado político e militar. Todavia a irrequieta província do Noroeste não podia ser menosprezada, nem assim a reconquista dos litorais do ocidente. Estas circunstâncias determinaram, como é sabido, por influência da Ordem de Cluny, a atribuição do governo da Galiza, como condado, a D. Raimundo, e a formação de um outro, desentranhado do primeiro, confiado a D. Henrique. Os dois condes e parentes ficaram ligados ainda pelo casamento com duas filhas do próprio soberano.

A divisão da Galiza pelo Minho, além de não ser destituída de fundamento geográfico, posto que meramente local, - dadas a grandeza e veemência das afirmações pessoais que de uma e outra banda se manifestaram, simultâneas ou a curta alternância, e as imperiosas linhas de força divergentes em que tiveram de inserir-se, arrastadas, as duas metades da Galiza, originou dois quadros políticos cedo tornados inamovíveis, contra o que seria de prever do que não passava de simples arranjo de oportunidade sobre um todo territorial e humano homogéneo.


 Santiago Matamoros


Expliquemos e desenvolvamos quanto baste para se tornarem inteligíveis os factos que transformaram numa separação de Estados o que não passa de mero limite administrativo, à moda feudal da época:

a) A fronteira pelo Minho era a mais indicada, admitindo-se, como é evidente, ser ao mesmo tempo necessária a divisão da Galiza. Impunha-se assegurar a defesa e o combate aos sarracenos ao longo do Atlântico, numa circunscrição especial fronteira do tipo marca. Daquela Galiza centrada em Compostela por motivos religiosos e políticos, era difícil a condução da guerra para o Gharb. O reino iniciado em Oviedo, esse deslocara a capital para Leão, em plena meseta peninsular, e iria deslocá-la para Toledo, obedecendo aos imperativos da luta cada vez mais ao sul. As sucessivas contendas internas e as preocupações com o Islão seu fronteiriço, mal lhe permitiam desvios a oeste.

A divisória estabelecida, repetimos, era a mais indicada. Além de apartar distritos políticos (portucalense e conimbricense) que constituíam o mínimo indispensável de território e gente para resistência, povoamento e ataque, não lhe faltava sequer fundamento natural - o melhor que poderia encontrar-se para uma dicotomia da Galiza de então.

Isso não provinha propriamente de a fronteira se apoiar num rio, por sinal o maior do interior da terra galaica, porque os rios, as mais das vezes, antes agregam que dividem. Mas o curso inferior do Minho - ao contrário do que acontece a montante, além-da-fronteira, na várzea do ribeiro de Orense - dispõe de um vale estreito, em grandes troços alcantilado, com escassas passagens para o hinterland.

A linha mestra das comunicações na parte portuguesa acompanha o mar, ou segue a curta distância dele, ao longo de uma planície ou sequência de terreno pouco acidentado que ininterruptamente vai de Caminha a Viana, e com variantes até ao Porto, e daí para o sul ramificada na maior largura do triângulo litoral português. Essa linha mestra sofre uma distorção para leste ao longo da margem esquerda do Minho até Valença, para se internar por Tui, na Galiza propriamente dita, até Pontevedra, Caldas de Reyes, Padrón e Santiago, aflorando aí o mar somente nos extremos orientais das escarvadas rias.

Aliás, o principal caminho histórico entre a Galiza e Portugal, por essa razão e pela importância de Braga, afastava-se muito do mar. A foz do Minho aparta dois tipos de costas: ao norte, em vez de baixa, pouco recortada, com rochedos e praias, a costa segue agreste, escarpada, inóspita, por Oya e Baiona (3). Observa-se a partir daí a principal individualização geográfica da Galiza em relação ao Entre-Douro-e-Minho: as costas altas entremeadas das profundas reentrâncias das rias que, além de óptimos portos naturais, levam a maresia ao íntimo das terras. Isto dá um carácter anfíbio a muitas povoações galegas, o arvoredo e os milheirais descem às águas já pouco salinas daqueles braços de mar, enquanto quedam barcos e apetrechos marinhos pelo meio dos campos, debaixo das ramadas ou rentes aos canastros e cruzeiros de granito esculpido.

A divisória dentro da Galiza latu sensu foi portanto a mais natural (4). O mesmo se não infere para uma fronteira entre nações, porque geograficamente (à parte o facto apontado) quase se não dá pela transição, e no mais, em culturas agrícolas, fisionomia económico-social, população, o Minho nada separa como no famoso desenho de Castelão.

b) O achado da sepultura de Santiago Apóstolo - em apoio da lenda do evangelizador da Península, cujos restos mortais teriam sido trazidos para cá depois do martírio - ocorreu no princípio do século IX (ano de 813) com autenticidade logo aceita (5) dando origem a Compostela (de Campus Stellae) ao tempo em que corria na Espanha a primeira de todas as cruzadas. A urbe que brotou no local depressa originou outra Jerusalém. Logo a nova cidade santa se converteu no principal centro de peregrinação de todo o Ocidente, uma Anti-Meca, no dizer de Américo Castro, mercê do interesse que a Igreja pôs em estimular a fé na Península, e atrair a esta, em luta com os sarracenos, as dedicações religiosas e militares, e também por obra de valorização local da parte dos prelados de Compostela. O fundo céltico da Galiza, propenso ao maravilhoso, veio servir o cristianismo, com a dinamogenia deste novo mito.

Catedral de Santiago de Compostela









A estrada de Santiago que de França conduzia a Compostela (6), apoiada em conventos, albergues, hospitais e defendida por cavaleiros, foi calcorreada durante séculos por um vaivém ininterrupto de peregrinos. De nada valeram as vieiras - o símbolo marítimo.

O vínculo das peregrinações amarrou à Espanha continental e ao resto da Europa à Galiza, quando Portugal, virado ao sul, iria divergir para o caminho dos mares. Veio, volvidos séculos, acentuar a disjunção entre Galiza e Lusitânia operada pela divisão administrativa e rede de estradas do Império Romano, ao ser incluído o além-Douro na Espanha Citerior, articulado ao nódulo de comunicações de Astorga, - assunto de que trataremos noutro lugar.

c) O facto foi aproveitado e estimulado pelos bispos santiaguenses, em especial Diego Gelmirez que recebeu o báculo no ano de 1100. Esse homem pertinaz e dúctil governou a Igreja compostelana até 1140 e, com alternativas de maior ou menor influência, a própria Galiza. Ensilveiravam-se-lhe na mente dois soberanos pensamentos que, segundo Manuel Murguía, foram: «el de la sublimación de su iglesia y ciudade y el engrandecimento del país gallego» (7). Conseguiu-o numa vida de lutas porfiadas que a História Compostelana exalta.

Em contrapartida, Alexandre Herculano interpreta-o duramente como figura monstruosa de ambição e duplicidade (8). Há que atender à época e às complexas circunstâncias que obrigaram o Prelado a um duplo jogo contínuo: a desconfiança pontifícia que encontrou quanto à Diocese de Compostela, a que se atribuía uma posição orgulhosa, rival, em relação a Roma; o xadrez feudal galego no qual sobressaía o poder e a vontade dominadora da Casa de Trava; a volubilidade matrimonial e política da rainha D. Urraca consorciada em segundas núpcias com o poderoso Afonso I de Aragão. A obra realizada foi notável: engrandeceu a sua Igreja e a sua cidade; senhoreou muitas vezes o curso dos acontecimentos; conseguiu emancipar a diocese de subordinações metropolitanas, com dependência directa de Roma e elevação de ordinário à categoria de Arcebispo; salvaguardou a autonomia galega no quadro da monarquia leonesa.








Agarrado em demasia ao terreno, a sua visão não excedeu porém o regionalismo e será de atribuir-lhe boa parte da responsabilidade da fractura entre Portugal e a Galiza. A encarniçada pugna que sustentou contra a Arquidiocese de Braga, quase sempre com vantagens, e a participação constante nas querelas de um enorme reino em que os germes centralistas prevaleciam e no qual a Galiza não podia dominar por lhe ficar cada vez mais excêntrica, concorreram para tornar definitiva a fronteira do Minho, na ilusão de uma baldada esperança - quando, a partir da outra margem pelos descampados do Gharb progredia a imorredoira gesta que iria consolidar Portugal, e com ele uma periferia autónoma, voltada à liberdade dos oceanos.

Se Gelmirez tivesse aceite o asilo que lhe ofereceu a condessa portugalense D. Teresa, suserana dos bispos de Orense e Tui, na altura em que acudira à defesa de uma rainha traiçoeira que logo após o mandou encarcerar, talvez o rumo da história outro pudesse ter sido e a potência marítima lusíada receberia a favor do muito que fez um tal reforço, como os marinheiros de Padrón e Pontevedra, e esse viveiro rural do Noroeste, que seria de vaticinar-lhe grandeza porventura maior e seguramente mais sólida. A Galiza «podia ter arcado enquanto Portugal barcava», consoante a expressão feliz dum moderno ensaísta português (9).

O seu caminho não era engolfar-se pelo disputado planalto do Centro, atrelada ao carro de reis que a governavam de Leão, Valhadolide, Burgos e Toledo, mas acompanhar Portugal.

Se Braga tivesse detido a posição que fruíra antes das invasões muçulmanas - cabeça da Galiza como capital dos suevos associada à primazia eclesiástica do ocidente (10) - a marcha para o Sul não acarretaria por certo a rotura galaico-portuguesa.

d) Do lado portucalense, outros factores se criaram. Vigorosas afirmações pessoais também sobressaíram aqui, fortalecendo o núcleo da nacionalidade. O conde D. Henrique, D. Teresa, os magnates de Entre-Douro-e-Minho e Riba Douro, D. Afonso Henriques, oferecem-nos um friso de caracteres fortes cujo sentido político depressa se definiu numa linha que levou à independência e a destino próprio.



D. Afonso Henriques



Acrescente-se, para cá do Minho uma tendência de progressismo na estrutura social que não escapou a Sanchez Albornoz (11), em contraste com o que se verificava na Galiza, onde, segundo Murcia (12), as ferozes lutas entre os condes não permitiram que o sentimento popular tomasse o incremento que teve em outros povos.

Para mais, esses poderosos senhores dividiam-se em relação às intromissões e assuntos exteriores, contrastando com a unidade da nobreza portucalense perante idênticas circunstâncias. Resultaria tal união das entrelaçadas ligações familiares?

Não que os de aquém-Minho deixassem de ser tentados a tirar proveito das dissensões continentais. Houve hesitações, mas dissiparam-se a tempo. Prevaleceu e acabou por os absorver a missão que lhes impunha a ocupação da extensa margem de território em poder dos sarracenos, do vale do Mondego ao vale do Tejo e daí ao Algarve, em larga franja de litoral. D. Teresa manifestou mais amor aos seus domínios de além-Minho, de cujos bispos (Orense e Tui) garbosamente se fazia acompanhar, que aos de leste. E D. Afonso Henriques abandonou deliberadamente o senhorio de Astorga. Pela paz de Tui, desiste dos seus direitos sobre terras galegas para se votar por inteiro à reconquista do Sul. Poucos reinados bastaram.

No entanto, de uma e outra banda do Minho, na comum linguagem que os diferençava dos mais, dois povos irmãos cantavam por igual, produzindo uma das mais intensas e formosas florações poéticas da Idade Média, impregnada do mesmo inconfundível fundo sentimental que, hoje como ontem, nos dois lados persiste. Da profundeza dos séculos, mundivisão idêntica lhes selava as almas, desde as sepulturas pré-históricas aos primórdios cristãos, numa gnose própria, em que um paganismo típico se inseriu na redentora, universal doutrina (in O Enigma Português, Guimarães Editores, 1998, pp. 43-50).



Notas:

(1) Damião Peres, no seu trabalho Como Nasceu Portugal, em cuja 3.ª edição nos fixamos, rebate a tese da subordinação inicial do Condado Portucalense ao da Galiza, utilizando documentação mais recente, com argumentos que nos parecem decisivos.

(2) Àparte malhas menos importantes um extenso reduto se mantivera fora do domínio sarraceno, na diocese Iria Flavia e entre os rios Ulla e Minho, no abrigo de uma linha de montanhas, segundo Lopez Ferreiro.

(3) Silva Teles, Portugal - aspectos geográficos e climáticos, observa haver uma «mutação teatral». Ao norte do Minho a «terminação de um edifício alteroso); ao sul, a costa é «discordante em relação às formas orográficas».

(4) Já houvera outra divisória na Galiza romana, pelo rio Lerez, junto a Pontevedra, entre os conventos jurídicos Lucense e Bracarense. A Província não excedia então o Douro, pelo que a divisão era mais equilibrada e as facções mais homogéneas, pois o convento Bracarense incluía com o Entre-Douro-e-Minho e parte de Trás-os-Montes as actuais províncias de Pontevedra e Orense agro-socialmente afins. A fronteira pelo Minho nas circunstâncias em que foi atalhada, era a que tinha melhor fundamento estratégico e geográfico.

Imperador Carlos Magno


(5) A lenda da pregação na Península de S. Tiago é una lenda tardia, segundo Pierre David, e nela se inseriram outras menos verosímeis ainda. Quase instantaneamente se propagou, não tardando que o Papa Leão III desse crédito, por uma bula, à convicção do achamento da sepultura do Apóstolo próximo de Iria Flavia (Pádron) que o respectivo Prelado, o povo galego e o Rei Afonso II de Oviedo fervorosamente sentiram. O Imperador Carlos Magno foi dos primeiros peregrinos.

(6) Também conhecida por «caminho francês» por ser o que era seguido pelas principais peregrinações. Os quatro caminhos que vinham de França - três dos quais se juntavam em Ostabat para atravessar os Pirenéus, passar em Pamplona até Puente de la Reina, - formavam um só a partir deste lugar. O trajecto prosseguia por Estela, Burgos, Carrión, Sahagun, León, Astorga, Ponferrada, Portomarín e Ferreiros até Santiago. Atravessava Navarra, Leão e Castela pelas próprias capitais. «Por este camino llegaron a nosotros las influencias europeas y ilegaron a Francia las influencias compostelanas», diz Vicente Risco, (História de Galicia). A arte jacobea espalhou-se ao longo desse caminho. Em 1170 fundou-se a Ordem de Cavalaria de Santiago para proteger oe peregrinos e lutar contra os mouros.

(7) Manuel Murguía, Dom Diego Gelmirez, Editorial Nova, Buenos Aires.

(8) Alexandre Herculano, História de Portugal. Sanchez Albornoz, Españoles ante la Historia, dia que Gelmirez encarna «la sobre-humana astucia» e considera a sua acção para a Galiza equiparável à do Cid para Castela.

(9) Agostinho da Silva, Reflexão. Maior base populacional e lavradora nortenha, com espírito previdente e sofredor, teria contribuído muito para consolidar os êxitos ultramarinos de Portugal.

(10) A sedes metropolitanas, antes da invasão árabe, eram Tarragona, Toledo, Sevilha, Mérida e Braga. Esta última cidade foi por conseguinte a capital religiosa de todo o Noroeste. Após os primeiros embates a diocese que sobreviveu foi a de Lugo, beneficiada pelo prestígio bracarense, conforme Pierre David.

«Si Lugo joue le rôle de capitale réligieuse du royame asturien, c'est... parce que le metropolite de Braga y a fixé sa residénce» (Étude historique sur la Galice et Portugal, p. 124).

Nos fins do século IX restabelecia a diocese de Braga, esta logo empreendeu retomar a sua antiga importância. Mas pouco depois a obra de Gelmirez fez-se sentir. «Les archevêques Géraud et Maurice de Braga étaient donc à la tête d'un province eclésiastique à preu égale à celle que régissaient les metropolites de Braga à la période suève; seule la diocèse de Compostelle était exempte depuis 1095». (id. p. 168). Em 1118 ascendeu Compostela a arquidiocese.

Sé Catedral de Braga




















(11) Sanchez Albornoz, Españoles ante la Historia, p. 83: «En la terra de foris - los páramos de León y las llanuras de Castilla - y aún em la Terra Portucalensis fronteira, la repoblación y las necessidades de la guerra habian dado origem en el siglo IX y en el X a una massa numerosa de pequeños proprietarios libres; y sus servicios en la lucha contra el moro les habian permitido conservar sus privilegios. Pero en Galicia ni surgieron nuevos hombres libres ni hubo defensa posible para los pobres campesinos apegados al terruño desde havia milenios. La ventosa señorial los absorbio...»

(12) Manuel Murguia, Historia de Galicia, I tomo, p. 97.


sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O português em coordenadas de caracterologia étnica (ii)

Escrito por Francisco da Cunha Leão




Manuel Maria Barbosa l'Hedois du Bocage


Não resistimos a uma incursão no campo das letras, susceptível de nos mostrar outra face da psique portuguesa e a libertação dos aspectos melancólicos e abissais que tantas vezes contracenam ou transparecem na acção.

Entre os nervosos destaquem-se os poetas Bocage, Gomes Leal, Sá-Carneiro e Eugénio de Castro, o prosador Fialho de Almeida.

Bocage, um nervoso indisciplinado, inactivo, boémio, de comoção repentista, ao sabor da maré, em fogo de amor, escárneo e desespero. Sá-Carneiro inadaptado narciso («E eu, a Estátua!» «O meu desdém Astral»), hiper-sensitivo em que as imagens se tornam estridentes, se copulam hibridamente em orgias de cor e sexo, numa luxúria aberrante e luxuosa, entre megalómanos assomos («Lord que eu fui de Escócias de outra vida», «Mitrado de oiro e lua», «Que, César, mandei vir dos meus viveiros de África») e obsessões da sua pessoa («Cais de me cismar», «Catedrais de ser Eu», «ó pântanos de Mim?», «Pra que me sonha a beleza...?).

Nervoso altivo deveria ter sido Eugénio de Castro, sobretudo esteticista, aristocrata da palavra e da atitude, com sua joalharia de vocábulos selectos. Expressão precisa, recortada com nitidez e um comportamento menos primário e mais compatível com a vida prática. Certo discolismo ressuma de alguns dos seus poemas.

Em Gomes Leal manifesta-se o nervoso «dissoluto» (influenciável segundo a escala de Paulhan). Presentista, entregue ao momento, muito inactivo mas de consciência larga, volúvel e aberto aos ventos de todas as direcções - ideológicas, místicas, ou simplesmente exóticas. Tão poeta como vagabundo, vai do janotismo à indigência, oscila entre satânico e piedoso. Tanto apedreja como se comove infantilmente. Vive e poeta sem auto-crítica, anarquicamente, com a liberdade que têm as aves.

A linguagem de Fialho reflecte o sensível frenético, ocioso, de múltiplos interesses e a tudo vibrátil. Rebrilhante, expressiva, morde o exagero, cheia de rebusques nervosos; é deformado espelho da agudeza e mobilidade das impressões e da inconstância do temperamento.

Continuando pelos emotivos primários, se agora considerarmos os activos (coléricos), várias figuras prestes ressaltam: Santo António de Lisboa, José Agostinho de Macedo, Guerra Junqueiro, Leonardo Coimbra.

A vida do taumaturgo português é movimento e luta. «Martelo de Deus», assim chamavam ao pregador franciscano. Duro, contundente fustigador de erros, deveria ter sido. Justo nos parece por isso o comentário de Jaime Cortesão ao dizer que o «franciscano nascera na pele de um irmão de S. Domingos», e ao marcar a distância que vai entre esse colérico apóstolo e a visão popular portuguesa do Santo Antoninho, curiosa filtragem através da nossa pieguice de um dos mais violentos defensores da Fé (2).

José Agostinho constitui protótipo de colérico polemista. Desregrado, truculento, pletórico de energia, como que criava as dificuldades para ter ensejo de lutar (3).

À família dos «coléricos poetas» (em que é classificado Vítor Hugo) pertence Guerra Junqueiro. Poesia enfática, não raro panfletária, ritmos badalados, mesmo em lirismo. Verbo extravasante de ataque, trombeta de Gedeão a comandar a marcha.

Também o filósofo Leonardo Coimbra nos parece de enquadrar nos coléricos. Sempre empenhado, aproveitando todas as oportunidades para agir, talento demonstrativo e oratório manifesto. Espírito largo convivente, de feição optimista e luminosidade solar. Dado à acção pessoal directa, mas assistemático, ressumam da sua vida e obra emotividade primária e a febre da acção. Pedagogo apóstolo por excelência, vivia o imediatismo e a dialéctica das relações humanas; deixou por isso discípulos.

Passando aos emotivos secundários, estes, numerosos entre nós, dão-nos talvez de preferência a outros caracteres, a nota mais lídima da sensibilidade portuguesa.

Entre os sentimentais: Bernardim, Soares de Passos, Cesário Verde, Eça de Queiroz, Antero de Quental, António Nobre, Raul Brandão, Pascoaes, Afonso Lopes Vieira.

Nos apaixonados: Camões, Agostinho da Cruz, Fernão Mendes Pinto, António Vieira, Herculano, Camilo, Oliveira Martins.


Padre António Vieira



O poeta do «Só» é um sentimental puro, introversivo, com aspectos para-nervosos. Se por um lado exibe a espontaneidade da poesia pura, uma espontaneidade fresca, adolescente, e o culto do eu (a torre de Anto, etc...), António Nobre apenas impulsivamente é presencista; por mais voltas que dê, mesmo em Paris, sente-se apegado à terra onde nasceu, aos velhos afectos, à humanidade que o rodeou na infância; o que vê, ainda que pintado ao vivo, não passa de pretexto para saudades. Reflexivo fora dos repentes, sempre nostálgico (os «males de Anto»), a sua emotividade é retentiva, nutre-se do já vivido.

Teixeira de Pascoaes, um pouco menos emotivo, ainda mais secundário, contempla e vive a natureza em todos os seus elementos, propende a um filosofar cosmogónico, mítico. Insere-se no sub-grupo dos sonhadores, agarrado à sua montanha (o Marão) e ao seu vale (do Tâmega) numa constância de afectos que lhe dissolve os impulsos. Faz da vivência da Saudade a primeira e última substância de tudo quanto existe.

E Antero deu mesmo em sófico poeta, coisa a que são atreitos os vates sentimentais, dado que no sentimental há algo que transita do nervoso ao fleumático, mais ou menos distante de um ou de outro destes dois contra-pólos. No autor dos «Sonetos» e das «Odes Modernas», a secundaridade pendeu ao filosofema e à devoção social. Este o Antero a que Sérgio chama apolíneo. O primeiro será o nocturno (4).

Outro sentimental foi Raul Brandão, contemplativo, hiper-sensível à natureza e às agruras dos humildes. Não só há discolismo na sua obra, como sentido trágico. A tragédia do grotesco ninguém a percebeu como ele. O seu gosto da quietude, a elaboração a que sujeitava as impressões, são de um emotivo já secundário, não activo.

Cesário Verde e Eça de Queiroz, a nosso ver, fazem parte da mesma família caracterológica. Ambos emotivos mas secundários, de actividade moderada, sentindo a sedução da novidade bastante contemplativamente, porque no fundo amavam os hábitos e as comodidades do sedentarismo. Aguda sensibilidade, um ou outro impulso de nervos; mas, a par disso, poder de observação objectiva, ironia, e a implacável contenção dos rasgos emotivos. A secundaridade levou Eça de Queiroz ao equilíbrio das proporções e à magistral arquitectura do romance, à disciplina das efusões sentimentais; na mesma, em Cesário, ao domínio dos desabafos no espartilho das formas lapidares, com perfeito senso da medida, já que as não dilata nem sufoca. Também os levou à análise social. Um e outro puderam ver como de fora os seus próprios sentimentos, contê-los e valorizá-los. Situam-se no grupo dos sentimentais para-apáticos, dominando quais artífices pacientes uma substância de emotividade rica. Os elementos delongantes do estilo de Eça, com a adjectivação dilatória e a condescendente ironia, e bem assim os comentários tão naturais de Cesário nas suas deambulações, ora de admiração retida («Milady, é perigoso contemplá-la»), ora de carinhosa troça («A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia/Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...»), («Os querubins do lar flutuam nas varandas») denotam a finura e a mestria da sensibilidade.



 Camilo Castelo Branco



Muito emotivo e activo nos aparece Camilo, com obra vastíssima e vida tormentosa. A despeito de certos aspectos primários (improvisação, assistematismo, talento para a peripécia romanesca), a importância que dá ao pretérito, a vivência das recordações, o comprazimento na expansão sentimental e na glosa melancólica levam-nos a valorizar-lhe a secundaridade e a alinhá-lo, portanto, nos apaixonados. Seu humor é desigual, eruptivo, indominado, avesso a proporções. Seja. Mas uma vis interior, de apaixonado, caldeia as desconexões numa constância trágica, muito pessoal, que sobressai dos lances nervosos e coléricos do seu génio tão desconcertante.

De apaixonado para-nervoso (Sub-grupo dos proféticos), podemos classificar o Pe. António Vieira. Ardoroso, activo, praticando um cristianismo de promoção de raças e um patriotismo ucrónico, votado ao futuro, à redenção do mundo. Barroco da palavra e orador de vocação, os seus objectivos situam-se distantes, inserem-se num plano ideal de transformação ecuménica. Pertence à família de Santo Agostinho, Carlyle e Nietzsche.

Fernão Mendes Pinto, outro apaixonado. Verdadeira curiosidade pelo Mundo, gosto da aventura, uma existência plerótica de incríveis vicissitudes. Mas não foi só isso que seria de molde a enquadrá-lo na família dos coléricos aventureiros. O autor da «Peregrinação» não se limitou a viver com intensidade o exotismo das terras novas e a descrevê-las incomparavelmente; manifesta, a cada passo, uma tendência reflexiva profunda, serena e a compreensão dos homens, meios sociais, a um tempo repassada de humanismo e sentido crítico. Isto sobreleva-o da mera literatura de viagens ou de aventuras, faz do seu longo livro tão fértil em peripécias, um documento humano ímpar (5).

Pela sua forte secundariedade expressa em avidez pelo documento histórico e gosto de ordenador, a que presidia um espírito extremamente sério e um carácter íntegro, pela coerência, gravidade e amor ao trabalho probo, Herculano cabe nos apaixonados severos. Já Oliveira Martins, menos secundário na emotividade, imaginativo, inclinado à história, aos temas sociais e à intermitência política, está bem nos apaixonados laboriosos.

E Luiz de Camões? Com intenção o deixámos para o fim nesta galeria de apaixonados insignes, dado que propendemos a crer, de acordo com Marques Braga, que a psicologia dos portugueses eminentemente se encontra no maior dos seus poetas. Em visão caracterológica imediata, o seu recorte é de apaixonado-sentimental, classe a que pertence Miguel Ângelo, na qual se evidencia a força do agrupamento ES [emotivo-activo-secundário], com actividade A [apaixonados] que, excedendo a média dos homens, é inferior à dos considerados activos. Oscilou «entre o sentimento da existência íntima e a realização mais ou menos sistemática de uma ordem de determinação» que segundo La Senne é o traço mais profundo deste carácter. A emotividade de Camões faz impressão, embebe toda a sua obra, forma o substracto e o nexo profundo, enebriante de todas as peças, ainda que articuladas; irrompe da própria epopeia como nascente irreprimível, «excesso definitivo da alma sobre a acção». Ígnea personalidade que em si ardendo destruía todos os círculos limitadores (Agostinho da Silva). A par do fôlego passional em que os eventos do amor e da condição humana sentidos na carne são transportados ardentemente, em largos degraus, aos páramos da sublimação ideal, avultam a capacidade sistematizadora e o poder de concepção do autor de Os Lusíadas.

Os seus vastos, pungentes desalentos, a elaboração filosofada dos estados de alma, opõem-se à primaridade de um lendário trinca-fortes, por alguns sobrevalorizada.

Túmulo de Luís de Camões no interior do Mosteiro dos Jerónimos.


Não faltaram à vida do poeta aventura e as mais variadas ocorrências - zaragata, guerra, prisão, tempestade e naufrágio. Para uma definição caracterológica e de estilo, que representa isso perante a magnitude de uma obra onde se estampam grandes e experimentados sofrimentos, congeminações transcendentais e ardorosa vivência idealista? Por certo só uma inteira vida interior, leitura, reflexão, isolamento, - mais do pendor natural de Camões do que forçados - poderiam ter conduzido o seu estro a realizar-se em tão perfeitas criações. Português complexo e completo, ele sintetiza, em estrato genial, uma tendência para a acção logo que preciso intrépida e a propensão reflexiva, profunda, melancólica de um povo no qual o heroísmo enreda as ternuras do coração. O elemento líquido da maior Odisseia - a dos Lusíadas - anda nas almas em desassossego e lágrimas.

Quanto aos não-emotivos na seara das nossas letras parece-nos mínima a sua participação nas maiores alturas.

Ramalho Ortigão é de inscrever nos sanguíneos. Espírito claro, objectivo, interessado em progresso e bem estar-social, sadio, desapaixonado. Amante da ordem, da arte, do ar livre, da vida saudável, capaz de contundência, mas sem emoções febris ou deprimentes. A «ramalhal figura» nada fanática, pouco se dava à lucubração; vivia de poros abertos, impressionável sem desequilíbrio nem nervosismo.

Temos porém a assinalar um caso espantoso, em antítese idiossincrática da generalidade portuguesa, no entanto de altíssima expressão nacional, estranho fruto de um país de paradoxos: Fernando Pessoa, um grande poeta fleumático.

Homem laborioso, discreto e de hábitos, embora avesso a obrigações de horário, pouco expansivo, sentimentalmente instável mas de humor sempre igual, a quem o isolamento não impressionava, tão cumpridor «correspondente estrangeiro» como constante e exímio letrado, no entanto desprendido de dinheiros, sem pressas de publicação nem de glória literária, espírito isento, ensimesmado, capaz de aturada elaboração.

Não emotivo, activo, secundário são os caracteres do fleumático. Como explicar o grande poeta, a sua riqueza de fundo e formas e a variedade dos aspectos, concedendo-lhe apenas fraca emotividade (abaixo da média)? Por uma inteligência, ao que se vê excepcional, que o levou à mais esclarecida compreensão dos outros. A compreensão dos emotivos é instintiva, a dos fleumáticos cerebral. Lorca apreendeu a expressão cigana e a galega, mediante genialidade intuitiva; Fernando Pessoa criou os heterónimos por genialidade inteligente. Facetas da sua maneira de ser? Sem dúvida, mas corporizadas e exploradas, postas a viver e sentir por quem, frio e inteligente, era capaz de se despersonalizar, a ponto de fotograficamente se imprimir por outrem e genialmente «fingir» com base numa fracção emotiva mínima.

Pôde ser um médium da psicologia portuguesa, da alma colectiva nacional que superiormente vazou em termos épicos e míticos, a ponto de, a tal respeito, se tornar um dos autores padrões. De onde resulta contrapolarmente neste país de opostos que o outro dos seus máximos porta-vozes, espécie de Camões da modernidade, veio a ser um ciente jogador de mitos: «sebastianista racional».

O núcleo AS (activo-secundário) existe nos dois. A oposição emotivo-não emotivo explica todo o contraste. A carência de calor emocional impediu a unidade do segundo grande poeta, impediu a fusão das facetas numa só direcção dinâmica.



Fernando Pessoa



Tirada a paixão a Camões ficou Fernando Pessoa. «A diferença que há entre Camões e Pessoa é a diferença que há entre um homem e a sua inteligência», diz um ensaísta (6). Dois pólos geniais de uma Pátria, - o apaixonado e o fleumático -, entre a acção e a sua consciência estreme enfeixam os dilatados meridianos de um longo ciclo histórico. O outro Camões que profetizou Pessoa abriria um novo ciclo a consciencializar. E assim tem acontecido na História: Homero - Aristóteles; Cervantes - Unamuno; Shakespeare - Toynbee, etc... (ob. cit., pp. 200-211).


Notas:

(2) «O Humanismo universalista dos portugueses» - p. 56-57.

(3) Ver Carlos Olavo - «A vida turbulenta de José Agostinho Macedo».

(4) «Ensaios» - vol. IV.

(5) Ver Le Gentil - «Fernão Mendes Pinto e Jaime Cortesão, ob. cit.


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O português em coordenadas de caracterologia étnica (i)

Escrito por Francisco da Cunha Leão




D. Pedro e D. Inez de Castro


(...) Povo mesclado, poliétnico, porventura dos contingentes francos e romanos lhe adveio a quota-parte sanguínea, dos nórdicos algo de fleuma, e dos mediterrâneos e arábicos a emotividade primária, movediça de muitos dos seus homens.

Alguns dos condutores da nossa história representam excepções temperamentais que denotam hibridismo, em numerosos casos conhecido.

Percorramos algumas figuras, tentando a sua classificação caracterológica:

Pedro o Cru, rei itinerante, caçador e monteiro sempre rodeado de muito cão, muita ave e muita gente, amando a boa mesa cujas iguarias a todos franqueava, dadivoso, rápido nas decisões, frenético para a burocracia, «amador de trigosa justiça» (Fernão Lopes), implacável em castigar os erros - o seu retrato é o de um colérico puro. Emotivo, activo, entregue ao momento, cordeal e bailador, o louco amante de Dona Inez que o povo tanto amou, surge no friso da primeira dinastia como força da natureza indómita que prestes criou a pátria.

Sob calma aparente, Nun'Álvares descobre rasgos de emotividade primária, frenesim de acção e luta, uma pujança expressa em destemor, não sofreados repentes e rapidez de estratégia, o que tudo leva a inseri-lo também no tipo caracterológico denominado colérico - grupo dos condutores («meneurs»), pelo poder da simpatia, feita de misticismo e desembaraço do que foi um verdadeiro condestável. A vivência religiosa de igual modo intensa e a bondade da sua índole, refrearam-lhe contudo, e com o tempo, os impulsos, acentuando aspectos secundários do seu carácter. O «colérico fiel», acabou por vencer o colérico lutador nesse extraordinário «guerreiro e monge».

Colérico também, ainda que de outro estofo, deveria ter sido o Marquês de Pombal. Activo e agindo frequentemente debaixo dos estados emocionais. Autoritário e renitente no ódio. Cioso de honrarias, cúpido, infatigável em ditar a lei indiscutida, arbitrária que ela fosse. «Tudo fazia por pedaços e a retalhos» segundo António Ribeiro dos Santos, o que revela a primaridade do seu temperamento. A frieza de que era capaz, denotando falha de afectividade atesta, bem como certa visão objectiva, um aspecto para-sanguíneo dentro do tipo definido. Uma compleição psicológica de assalto, servida por grande capacidade de trabalho, e movendo-se ao sabor de emergências e obstinações pessoais.

É notável a galeria dos apaixonados e importante a sua participação nos eventos primaciais da história portuguesa. Quer nas vastas concepções e porfiadas empresas, como até na correcção dos nossos defeitos, enquadrando nervosos e coléricos.

O Mestre de Aviz foi um deles. O filho de D. Pedro e Teresa Lourenço herdou a audácia dos afonsinos temperada com a prudência e a arte de saber viver da mãe galega. Caracterologicamente apresenta-se-nos um apaixonado equilibrado. Emotivo sem ardor, activo mas não febril, secundário e no entanto só inibido pelo senso das oportunidades. O conjunto de altas virtudes médias que reunia granjeou-lhe a devoção popular sem que alertasse a inveja dos grandes. Tornou-se o homem do grave momento histórico de que sagazmente soube aperceber-se, em que se operou a conjugação da vitalidade urbana e burguesa como novo arranque do patriotismo. Não devemos ter por mediocridade a ausência de excessos numa pessoa que assegurou ponderadamente a metamorfose do meio nacional sem ruptura entre oposições profundas, tais o romanismo de João das Regras e a ética medieval de Nun'Álvares, os interesses de uma nobreza embora renovada com os da ascensão da classe popular. Obra de serena paixão foi essa que o feliz casamento do rei favoreceu, ao longo de um reinado cuja duração roçou meio século.






O Infante de Sagres encarna um caso feliz e superior da mistura de sangues, como aliás a «ínclita geração» a que pertenceu. Entre latino e anglo-saxão, o seu génio, dos mais completos da História, é o de um «apaixonado metódico». Nele se confunde monoliticamente a sonhadora ebulição e o ardor da vontade dos meridionais, com a persistência e o espírito prático dos fleumáticos, capaz de subordinar a afectividade aos rumos intelectuais de acção e às exigências desta.

Místico e negociante, cruzado e sábio, motor imóvel de navegações, sonhador e calculista da Aventura, teve de fazer a ciência, os homens e o dinheiro que um sorvedouro implacável consumia. Até o monopólio da indústria dos sabões obteve, a braços com enormes despesas, num orçamento que as altas receitas jamais equilibrariam, tão ilimitada era a empresa.

Metido no seu promontório de onde custava arrancá-lo, torre de comando feita de rochas a pique avançando sobre o mar, aí lhe principiava o mundo só de oceanos e terras virgens. Espírito fervente e solitário, movia sistematicamente uma devassa geográfica sem par e a valorização das terras novas. Em tudo pensava numa entrega total.

Ocorre duvidar-se dos sentimentos desse homem, sacrificando um irmão cativo em Tânger, não diligenciando o bastante para evitar o desastre do outro em Alfarrobeira. A sua aborção na empresa marítima porém explica tudo, mesmo essas falhas de afecto. Deu-se com o Infante uma especialização da emotividade pelo estreitamento do campo da consciência que naturalmente o inibia para o que não estivesse no interesse fundamental.

(...) No rei D. João II observemos o apaixonado muito secundário (grupo dos «circunspectos», já para-sanguíneos) conseguindo a objectividade e o sentido prático dos extrovertidos, pelo domínio de si próprio e os dotes da inteligência. As suas intrépidas intervenções pessoais não destroem este juízo, pois foram rodeadas de todas as cautelas e maduramente premeditadas. O espírito de previsão e de planear à distância, a retenção do despacho (Garcia de Resende) confirmam a sua pronunciada secundaridade.

Não lhe quadra a frieza atribuída por Oliveira Martins. A força interior do Princípe Perfeito é a dum apaixonado, bem como a veemente prossecução dos fins; os pequenos episódios relatados pelos cronistas, a ternura filial, o fervor religioso traiem o emotivo; nas palavras, nas obras há o apego ardente aos desígnios da lei e da grei.

Afonso de Albuquerque, pela grandiosa concepção global e uma energia de acção que o levava a correr obstáculos só para os esmagar, ressalta das odisseias quinhentistas como o protótipo do herói consciente quando os heróis foram enxame. A sua decisão de ataque em sequência combativa que estafava os capitães, a propensão à discordância, poderiam levar-nos a enquadrá-lo nos coléricos, se tudo isso não obedecesse, não se dispusesse em geratrizes de uma construção ideada em grande. Terá justo lugar entre os «apaixonados» e, discriminadamente, nos «imperiosos» - família de Napoleão e Alexandre. Assim Fernão de Magalhães, no qual se verificou uma atitude a que tais apaixonados imperiosos e impetuosos são atreitos, sacrificando o interesse da própria pátria às exigências de uma realização que se lhe apodera do espírito («procedimento de Coroliano»).

Convento de Mafra















Desconcertante é a figura de D. João V. O gosto do fausto, a vaidade, a prodigalidade, o desregramento sexual intervalado com fervor religioso e culto das artes, parecem evidenciar uma psicologia presencista instável. Contudo, além de se lhe não poder negar laboriosidade (assídua presença e intervenção na gerência dos negócios do Reino), verifica-se que tudo se subordinou ao empenho dominante de efectivar uma concepção, por certos considerada megalómana, da primazia de Portugal entre as nações. O interesse pelas exterioridades não consegue ocultar radicações mais profundas, de ordem cultural, patriótica e teocrática, aliás bem patentes na sua obra. De onde resulta que ao Rei Magnânimo, a despeito de alguns traços de emotivo primário, melhor quadra o tipo caracterológico apaixonado, com aspectos não raramente imperiosos.

Apaixonado para-sentimental parece-nos ter sido D. Pedro V. Meditativo de propensão, mas exigindo de si próprio uma ordem de determinações que o impedia de abster-se, e da simples entrega à vida interior e ao estudo. Espírito profundamente sério, capaz de dedicação metódica de um fleumático, sensibilidade aguda e plena de sentido social. D. Pedro V exprimiu-se no entanto como activo secundário (nada assinava que não lesse e compreendesse primeiro). O apaixonado está patente nesses caracteres confluindo na tensão com que exerceu a sua missão de rei.

Mouzinho da Silveira, reformador do liberalismo exemplifica o apaixonado laborioso. Da sua grande capacidade de trabalho não se pode duvidar. Nem faltam episódios na sua vida a provar que, além de activo, era emotivo. A secundaridade desse legislador também nos parece manifesta, descontentando às vezes os revolucionários extremistas, com o seu espírito ponderado, resistente às imposições da política partidária.

Na psicografia dos «nervosos» é de situar o rei D. Fernando, versátil, dado aos prazeres («amador de mulheres e achegador a elas, «cavalgante e torneador»), brando, inconsequente nos propósitos. O seu reinado tornou-se perigoso para a independência do soberano, suprimindo-lhe em partes os defeitos, promoveu mais um passo, e decisivo, na estruturação da sociedade portuguesa.

As características do «sanguíneo» ajustam-se a João das Regras. Trabalhador, positivo e objectivo, oportuno, ágil em discernir, hábil no encontro das soluções adequadas. «Sotilidade e clareza de bem falar» conforme Fernão Lopes, tinha esse «grão-doutor» de rosto florentino que assimilava brilhantemente na Itália a nova ciência dos legistas. Possuía a visão clara e fria dos extravertidos, a primaridade das reacções imediatas. Não será arriscado classificá-lo entre os sanguíneos (e no sub-grupo dos vivos) que detêm os máximos valores nas respostas aos quesitos sobre «talento oratório» (9.39), «presença de espírito» (9.83) e «rapidez de concepção» (9.27) (1). Apresentam-se especialmente dotados de sentido prático pelo que se adaptam às novas situações. João das Regras soube encontrar e impor mediante argumentos jurídicos e morais pertinentes na época, a solução que convinha ao interesse do País na sucessão do trono, vago pela morte de D. Fernando. Lúcido se mostrou quer em política exterior, quer na organização jurídica interna, em defesa do poder real contra os privilégios.

O rei D. Duarte aparece-nos como sentimental. Emotivo muito secundário, hesitante e frouxo de vontade. A sua verdadeira vocação era o estudo, o espírito pendia-lhe à melancolia. O desastre de Tânger e especialmente o cativeiro de D. Fernando levantaram-lhe problemas morais que, incapaz de resolver, lhe amarguraram a vida que assim foi breve. Príncipe esclarecido e justo, deixou-nos a marca da sua sabedoria em livros e leis.

O Infante D. Fernando feito prisioneiro e arrastado pelo souk de Tânger e humilhado pela população nativa (pintura de Eugene Delacroix, designada "Os Fanáticos de Tânger").


Traços evidentes de fleumático apresenta o Infante D. Pedro. Activo, pouco emotivo, extremamente secundário. Avesso à demagogia, interessado mas isento, desprezando as honrarias, com a consciência perfeita, sempre igual, dos ditames do dever e das obrigações sociais dos dirigentes. Constante no trabalho e no temperamento, incorreu, ao menos uma vez, na desastrada explosividade dos frios, feita de ressentimentos dominados. O valor intelectual e moral fez dele uma das figuras mais nobres e clarividentes da época, vitimada contudo pelas ambições que não reconheceu e pelas intrigas de que se alheava. A mesma ordem de ideias exigiria o temperamento mais forte de seu sobrinho neto, D. João II, com actos de raposa e de tigre, a fim de ser imposta ao nosso meio.

Na rainha D. Maria I vemos uma sentimental, piedosa em extremo, para-apaixonada; no rei D. João VI um apático, pouco activo, pouco emotivo, mas extremamente secundário (in Ensaio de Psicologia Portuguesa, Guimarães Editores, 1971, pp. 192-200).


(1) Trata-se de quesitos do questionário de G. Heymans e E. Wiersma.

Continua


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Da psicologia portuguesa

Escrito por Francisco da Cunha Leão




Francisco da Cunha Leão



Brandura e violência



A brandura do temperamento caracteriza os Portugueses, particularmente emotivos, coisa que anda no Brasil, com muito açucar, «cravo e canela» dos trópicos. «Molezas ternas do carácter» segundo Fialho de Almeida, em observação comum às duas bandas do Minho.

Uma das nossas palavras-tipo, das que Unamuno considera definidoras e intraduzíveis, é meiguice.

A afectividade marca-nos, forma o tesouro da nossa psicologia, está na base da compreensão e do querer. A suprema evidência da vida, o que a torna bela e digna de ser vivida, é o amor, que atinge o absolutismo (1). O português compreende e age por comoção.

O outro grande pólo da evidência situa-se na morte. Amar e morrer são os estados plenos do ser.
Morrer, já nos cancioneiros medievais equivale a desejar muito (v. José Joaquim Nunes «Cantigas de Amigo», vol. III) e está ligado intimamente à elocução amorosa.

Amor e morte são para a mundividência portuguesa as duas únicas alternativas, excluem o termo médio.

Amor idêntico a vida. Fora dele outra dignidade não há que a da morte. E a morte vem a ser o cumprimento da existência que tem no amor e no heroísmo as cordas mais tensas, as máximas provocações.

O amor é uma absorção no Português, facto notado pelos Espanhóis e pelos nossos compatriotas conhecedores de Espanha (por ex. Lope de Vega e D. Francisco Manuel de Melo). Outra constante lhe foi reconhecida por esses e outros em todas as épocas: o valor guerreiro.

Tal supervivência do amor domina a Poesia - «a coisa mais séria que há em Portugal» na opinião de Afonso Lopes Vieira.

Estranho é que o verbo amar e o substantivo amor pululem na palavra escrita, enxameando alguns géneros literários, e sejam evitados, em especial as formas verbais, na linguagem oral, ao contrário do que acontece na conversação francesa. Vê-se que há pudor no uso do verbo amar, substituído quase sempre por gostar, querer e até adorar, (no afectado calão de Lisboa-Cascais).



Vista do Castelo de S. Jorge (Lisboa).



A nosso ver isso provém da idealidade posta no amor, algo de sagrado que na fala quotidiana exige discrição, defesa da trivialidade. O caso é tanto mais notório quanto o Português não receia as palavras, propende a chamar as coisas muito naturalmente pelos seus nomes, razão porque o seu idioma dificilmente se amolda à tradução de textos amorosos franceses.

Significativo é o emprego frequente dos diminutivos, mormente da terminação inho, denunciadora de extremos de ternura.

Muitos acham ridícula, piegas, essa costumeira luso-galega. Cada povo fala, porém, conforme sente, imprime aos idiomas, que são sedimentares, o jeito da sua alma. Claro que a diminuição poderá obter-se com o qualificativo pequeno, qual o fazem os Franceses com petit. Mas pequeno, petiz significa redução, ao passo que o sufixo inho, as mais das vezes não minimiza, envolve ternura, e nas províncias do Norte, consideração, respeito afectuoso, como por exemplo chamar senhor Antoninho a um proprietário criado e radicado na terra, independentemente da estatura e idade.

O diminutivo nessas condições não é usado em relação a qualquer pessoa, revela certa escolha social, mediante o filtro afectivo de que o íncola se serve.

A moda foi de Norte a Sul, invadiu as terras de Além-Mar, Cabo Verde, o Brasil. No Algarve abundam os apelidos em diminutivo.

A sensibilidade complexa e o espírito irónico levaram a inflexões semânticas subtis. Aumentativos com intenção diminutiva, diminutivos ampliadores.

Tal brandura do temperamento impregnou as instituições, e joga contra os justiceiros quando exageram estribados na fria razão.

Assim a escravatura, entre nós, tornou-se moderada. O próprio Toynbee o reconhece. O quadro patriarcal em que se inseriu nos territórios portugueses e a tendência não segregacionista, quer pela indiscriminação das relações sexuais, quer por motivos de afectividade religiosa e de política unitária, levou à humanização do tratamento dos escravos e à alforria destes.

Se fomos dos primeiros a abolir a escravatura na generalidade, e não para ferir interesses rivais como a Grâ-Bretanha, muito antes disso algumas disposições parciais a haviam abolido (por exemplo: a carta de alforria dada por D. Manuel I aos escravos de S. Tomé e a disposição idêntica para os índios do Brasil no tempo do marquês de Pombal). O padre António Vieira, pensador lusíada por excelência, é decerto o mais estreme procurador do movimento antiescravocrata moderno.

Contamo-nos também na primeira linha dos que baniram a pena de morte - coisa que soberbas nações, tão ciosas de comandos mundiais, ainda não fizeram. Orgulham-se da sua colossal engenharia, do poder económico e militar, da mecanização generalizada, sem que tenham conseguido institucionalizar um princípio básico em civilização que se diga cristã ou pelo menos humana (2).



























O toureio da Lusitânia, conforme se fixou, tanto reflecte a bravura peninsular como um específico sentimentalismo, correndo o forcado com galhardia os riscos da luta contra o animal, opondo-lhe apenas o seu físico, e sem que haja o remate cruento da morte do touro.

A tourada «à portuguesa» é fruto do temperamento nacional. Desse ângulo nos cabe focá-la.

Entre nós jamais poderia ser um caso de vida ou de morte com o touro, como na Espanha, país das oposições frontais e dos extremos dramáticos. A nossa sensibilidade não concede que se derrame sangue por mera distracção.

Temos um jogo, um passatempo, já tradicionalmente evoluído, a que não dispensamos arte, fantasia e lealdade. O duelo do homem com a besta exerce-se, todavia, sujeito a um mínimo de convenção que o despoja dos aspectos mais bárbaros. Serram-se os cornos ao boi, mas dispensa-se a espada morticida; serram-se os cornos ao boi porque o homem também não pretende matá-lo, nem é preciso mortes para que haja lide; serram-se ainda porque os cavalos, os nobres cavalos que custam a amestrar não possuem arma equivalente e dói-nos vê-los esventrados, tripas de fora.

O forcado vai para a cabeça do touro de peito exposto, e desarmado. O cavaleiro floreia, volteia com destreza, movimentos amplos, galantaria.

Será barroco? Seja. Arte marialva, «entronização do amo» (3)? Antes do mais, veja-se a causa psicológica, modeladora do público e do consenso nacional, que assim consagrou, humanizada, a «festa brava» dos portugueses.

Se o temperamento suave, comovível, como factor de plasticidade nos abre à compreensão do alheio e, desta sorte, ao universalismo, à tolerância, ele não deixa de comportar negativo reverso. A tão apreciada «brandura dos nossos costumes», descamba amiúde para amolecimento moral, condescendência em relação aos abusos, à vagabundagem e outras pechas de longa data aninhadas no meio social português. Uma delas está na generalização do empenho, a um tempo credencial e gazua, na «cunha» como verdadeira instituição nacional. Corrente pedir-se tudo, os mais altos cargos, as honrarias, o passar nos exames e a preferência nos concursos, as situações monopólicas, e desde o simples cumprimento do dever à mais grossa ilegalidade. Há mesmo quem considere um acto de cortesia a pessoa «recomendar-se», e desatenção não o fazer. É um dos aspectos que mais impressiona os estrangeiros.

Todavia o costume, por muito que se radique na nossa sensibilidade, alega motivos de justificação, a cada passo fundamentados pela demora e atropelos a que muitos assuntos, até de expediente, estão sujeitos em burocracias chinesas ou ronceiras, muito condicionadas e pouco selectivas, mesmo nas empresas particulares.

Também esta «brandura dos nossos costumes» leva a esquecer depressa, após o transe emocional. A própria justiça no caso de tardia ou muito rigorosa chega a desagradar aos mesmos que a reclamaram. Aceita-se melhor a violência fulminante, a sanha de ofendido ou traído que a impessoal, fria razão judiciária.

Sendo o Português no geral bondoso, sofredor, espanta que se transmude intrepidamente em violento e cruel.

É a «ira do manso», a pior, segundo Unamuno. Outros autores assinalaram esse aspecto revelado em certas páginas breves, mas extremamente brutais da nossa história, em que há lances de cólera cega. Tais episódios parecem desmentir a brandura do carácter e dos costumes, a baixa criminalidade do nosso povo.



Miguel de Unamuno



A contradição equivale às que se verificam noutro campo, entre a veia lírica e a satírica, entre um idealismo do «amor-adoração» e a obscenidade boçal da chalaça amorosa.

Oliveira Martins chega a falar em força aliada ao terror, demonstração extrema e extremo desconcertante da psicologia portuguesa, que também lhe serve para se não vergar à intimidação terrorista como ainda há poucos anos aconteceu em Angola, cuja população, espontaneamente, e sem aguardar o apoio da Metrópole, afrontou com a maior bravura, a bárbara, selvagem explosão.

A ferocidade é inscrita por Sampaio Bruno como distintiva de Portugal antigo. Di-lo a propósito da Inquisição, apoiado em narrativas de autos-de-fé no seu livro «O Encoberto». Associa o facto a um «religiosismo intransigente». Incide a crítica, efectivamente, sobre uma época de intenso fanatismo, entre acções e reacções reformistas heterodoxas como ortodoxas que geraram uma atmosfera de excessos, até e principalmente, nos países considerados hoje mais livres e tolerantes.

Aliás, haverá história que se meça com a da Inglaterra, em especial nos séculos XVI e XVII, nas múltiplas manifestações endógenas de violência configuradas em perfídias cruas, odiosas, incansáveis perseguições, intolerância, esbulhos, descaroáveis assassínios e matanças?

Ter-se-iam modificado os Portugueses de Oitocentos, após a sangreira fratricida das guerras liberais? Modificaram-se os Ingleses, Franceses, Italianos?

A dificuldade está em discernir o que é temporal do que é idiossincrático, ou melhor, os processos evolutivos da conjugação desses factores.

A brandura, o carácter amoroso, a generosidade humana dos Portugueses parece-nos uma constante, certificada em todas as épocas, mediante literatura, arte, obras pias e o trato com a restante humanidade. Outra constante, por igual certificada pelos séculos, é a do heroísmo, da bravura no combate.

Já a violência é intermitente, por explosivismo dos recalques de um povo sofredor e resignado, por atiçamento passional sobre as circunstâncias que destemperam a nossa peculiar sensibilidade, quais sejam o cálculo pérfido, a traição, a usura desapiedada. Isso exprime-se em condescendência beneficiária daqueles que, perdendo a razão por decepções sentimentais, acaso foram cruéis; dos violentos cheios de razão; dos que, possuídos por um idealismo apaixonado, esquecendo-se de si próprios, também puderam incorrer nalgumas desatenções ou desvios de sensibilidade.



Rio Tejo visto da Torre de Belém




Dispensamo-nos de apresentar exemplos, visto que são flagrantes; de uma História Pátria que é das menos sangrentas ressaltam com nitidez as violências perdoadas e as não perdoadas. E pelas razões expostas (in Ensaio de Psicologia Portuguesa, Guimarães Editores, 1971, pp. 96-104).


Notas:

(1) «Não pode haver duas leis. E a do Amor é absoluta. Por isso creio ainda na vida futura» - Leonardo Coimbra (Revista «A Águia, 1.4.1911).

(2) É de considerar terem propiciado o Habeas corpus as tradicionais «cartas de seguro» do Direito Português. Veja-se «Cartas de Segurança por Carlos Araújo Lima (Edições Fundação Cultural Amazonas, 1969).

(3) Expressão de José Cardoso Pires.