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domingo, 5 de abril de 2026

O Homem e a Técnica

Escrito por Luís Furtado



 

«A progressiva restrição de todas as liberdades em certos povos, não obstante a licença exterior, que lhes dá a ilusão da posse dessas liberdades, parece ser consequência da sua velhice tanto como a de qualquer regime. Constitui um dos sintomas precursores da fase de decadência a que nenhuma civilização até hoje pôde escapar.

A avaliarmos pelas lições do passado e por sintomas que por toda a parte se manifestam, algumas das nossas civilizações modernas chegaram à fase da velhice extrema, que precede a decadência. Ao que parece, são fatais em todos os povos fases idênticas, pois que as vemos muitas vezes repetidas na História.»

Gustave Le Bon («A Psicologia das Multidões»).

 

«Pois bem: a civilização do século XIX é de tal índole que permite ao homem médio instalar-se num mundo farto, do qual percebe só a superabundância de meios, mas não as angústias. Encontra-se rodeado de instrumentos prodigiosos, de medicamentos benéficos, de estados previdentes, de direitos cómodos. Ignora, pelo contrário, o difícil que é inventar estes medicamentos e instrumentos e assegurar para o futuro a sua produção; não repara como é instável a organização do Estado, e mal sente obrigações dentro de si. Este desequilíbrio falsifica-o, vicia-o na sua raiz de ser vivo, fazendo-o perder contacto com a própria substância da vida, que é perigo absoluto, problemática radical. A forma mais contraditória que pode aparecer na vida humana é a do “menino satisfeito”. Por isso, quando se torna figura predominante, é preciso dar o grito de alarme e anunciar que a vida se encontra ameaçada de degeneração; quer dizer, de morte relativa. Segundo isto, o nível vital que a Europa de hoje representa é superior a todo o passado humano; mas, se se olha para o porvir, é de temer que não conserve a sua altura nem produza outro nível mais elevado, antes pelo contrário, que retroceda e recaia para níveis inferiores.»

Ortega y Gasset («A Rebelião das Massas»).

 

«A técnica moderna passa, como qualquer técnica mais antiga, por coisa humana, inventada, executada, desenvolvida, dirigida e estabelecida de modo estável pelo homem e para o homem. Para confirmar o carácter antropológico da técnica moderna é suficiente a referência ao facto de ela estar fundada sobre a ciência moderna da natureza. Compreendemos a ciência como uma tarefa e uma exploração do homem. O mesmo vale num sentido mais lato e englobante para a civilização, cuja técnica constitui um domínio particular. A civilização em si tem por finalidade cultivar, desenvolver e proteger o ser-homem do homem, a sua humanidade. É aqui que se situa a muito debatida questão: será que a cultura técnica – e por conseguinte a própria técnica – contribui em geral, e se sim em que sentido, para a cultura humana (Menschheitsbildung), ou arruína-a e ameaça-a?».

Martinho Heidegger («Língua de tradição e língua técnica»).

 


«A cultura atinge o seu termo quando se desenvolve na fase da civilização. Por outras palavras, quando, à criação global de ideias, de crenças, de intuições, de concepções artísticas, de símbolos, de mitos e de finalidades universais, se segue a sua expansão extrínseca. Cultura e civilização exprimem, para Spengler, “uma sucessão orgânica rigorosa e necessária. A civilização é o destino inevitável da cultura”. E o pensador alemão explica eloquentemente o seu conceito: “As civilizações são os estados mais exteriores e mais artificiais que pode atingir uma espécie humana superior. São um fim; sucedem ao devir como o devindo, à vida como a morte, à evolução como a cristalização, à paisagem e à infância da alma, visíveis no dórico e no gótico, como a velhice espiritual e a cidade mundial petrificada e petrificante. São um termo irrevogável, mas que é sempre atingido com uma profunda necessidade.»

António Quadros («Introdução à Filosofia da História»).

 

«Tanto faz, pois, dizer: em tal data manda o homem, tal povo ou tal grupo homogéneo de povos, como dizer: em tal data predomina no mundo tal sistema de opiniões – ideias, preferências, aspirações, propósitos.

Como deve entender-se este predomínio? A maior parte dos homens não tem opinião, e é preciso que esta lhe venha de fora à pressão, como o lubrificante entra nas máquinas. Por isso é preciso que o espírito – seja ele qual for – tenha o poder e o exerça, para que as pessoas que não opinam – e são a maioria – opinem. Sem opiniões, a convivência humana seria o caos; menos ainda: o nada histórico. Sem opiniões a vida dos homens careceria de arquitectura, de organicidade. Por isso, sem poder espiritual, sem alguém que mande, e na medida em que isso faltar, o caos reinaria na humanidade. E, paralelamente, toda a movimentação do poder, toda a mudança de quem impera é ao mesmo tempo uma mudança de opiniões e, consequentemente, nada mais nada menos do que uma mudança de gravitação histórica.

(...) Durante vários séculos mandou no mundo a Europa, um conglomerado de povos com espírito afim. Na Idade Média não mandava ninguém no mundo temporal. Foi o que se passou em todas as idades médias da história. Por isso representam sempre um caos relativo e uma relativa barbárie, um défice de opinião. São tempos em que se ama, se odeia, se anseia, se repugna, e tudo em grande escala. Mas, por outro lado, opina-se pouco. Tempos assim não carecem de encanto. Mas, nas grandes épocas, é da opinião que vive a humanidade, e por isso há ordem. Do outro lado da Idade Média, encontramos novamente uma época em que, como na Moderna, alguém manda, se bem que numa porção demarcada do mundo: Roma, a grande mandona. Ela pôs ordem no Mediterrâneo e arredores.

Nestas jornadas do pós-guerra começa a dizer-se que a Europa já não manda no mundo. Apercebemo-nos de toda a gravidade deste diagnóstico? Com ele anuncia-se uma movimentação do poder. Para onde se dirige? Quem vai suceder à Europa no comando do mundo? Mas estamos seguros de que lhe vai suceder alguém? E, se não fosse ninguém, que aconteceria?».

Ortega y Gasset («A Rebelião das Massas»).




«“A Escola” - isto significa o conjunto das instituições escolares desde a escola primária até à universidade. É esta última que é hoje provavelmente a forma de escola mais esclerosada, a mais atrasada na sua estrutura. O nome “universidade” perpetua-se pesadamente e apenas como um título fictício.»

Martinho Heidegger («Língua de tradição e língua técnica»). Ver aqui


«Não nos é lícito interpretar o aristotelismo em termos de mecanismo, porque contra tal interpretação conspiram a letra e o espírito das obras de Aristóteles. Vemos, aliás, que na Física de Aristóteles se passa da dinâmica para a cinemática, e da cinemática para a estática, em gradação ascendente da Terra para o Céu, ao contrário da mecânica ensinada nos tempos modernos. O ideal “moderno” da física parece ter sido contrariado pela classificação dos movimentos, das forças e das energias que figura na obra aristotélica; mas no nosso tempo, em que os fenómenos magnéticos, eléctricos e luminosos por sua vez contrariam o determinismo mecanista e materialista, já os esquemas aristotélicos ressurgem para cingirem, melhor do que os outros, a onda, a emissão e a explosão que configuram os principais fenómenos físicos. Se o fenómeno nos é descrito por uma série de fases, entre a aparição e a aparência se restabelece um nexo lógico que permite a inteligibilidade do universo. Não houve revolução a Aristóteles, no decurso dos séculos XIX e XX, porque revolução significa revolvimento, retorno, regresso. Houve, sim, o reconhecimento de um modo perene de filosofar, e portanto a possibilidade de ver na mesma enciclopédia o progresso das ciências filosóficas.



Enciclopédia, dizemos, para lembrar a rotação que era para Aristóteles o movimento mais puro. No centro, o motor imóvel, o infinito, expressão que para significar a transcendência parece de estrutura contraditória. Se soubermos ler na Psicologia a doutrina do movimento que se encontra exposta em outros escritos, em especial a doutrina da circulação angélica e da locomoção humana, compreenderemos o que em puridade significa a eternidade do mundo, cujo emblema admirável é a esfera. Bastará ler com atenção filológica o livro a que Henrique Bergson deu o título de La Pensée et le Mouvant para redescobrir o aristotelismo inspirador do poema evolutivo de Dante. A relação da psicologia com a teologia, a mediação do Logos entre o Homem e Deus, o silogismo que está para a vida intelectual como o amor para a vida religiosa, constituem efectivamente elementos que permitem considerar a superioridade da filosofia aristotélica sobre todas as outras filosofias helénicas ou helenísticas. O aristotelismo contém em si as melhores condições de adaptação aos progressos que a técnica, a ciência e a metafísica foram realizando no decurso dos séculos; mas contém, igualmente, a vigorosa refutação dos sofismas que impedem a inteligência humana de receber docilmente os dados da revelação divina. Em plena Idade-Média, foi o aristotelismo estudado e adoptado por pensadores judeus, cristãos e islâmicos. Não devemos estranhar, antes devemos admirar, que Santo Alberto Magno, e mais limpidamente Santo Tomás de Aquino, hajam visto na obra de Aristóteles a filosofia perene, e, portanto, aquela que mais convém à teologia católica. A confirmação do Magistério Eclesiástico, pela voz autorizada dos Pontífices, tem encontrado fácil eco no nosso país, exactamente porque o aristotelismo está integrado na filosofia portuguesa, quer dizer, na verdadeira tradição portuguesa.»

Álvaro Ribeiro («Aristóteles e a Tradição Portuguesa»).


«Sinto que, em Aristóteles, aquilo que entendo por assimilar se constitui por necessidade congénita sempre em benefício e referência ao sujeito. O que significa que no conceito o sujeito não se encontra a si mesmo, a não ser como o outro de si, dentro do próprio concebido. A assimilação, para mim, é a primeira notícia que assinala a mais discreta integração ou fusão intemporal da ordem enquanto física para a ordem metafísica. Assim se integra o conceber pensado em conceito actual. A nossa tendência comum é a de considerar a assimilação através de um critério apenas de ordem física, mas devemos ter em conta que esta sempre subentende o sentido para a unidade, para um fim a cumprir no âmbito dos estados ou das mutações da realidade. Desde o metabolismo das células, a assimilação procura a unidade do orgão ou do modelo constituinte, pelo qual se realiza na sua singularidade. Julgamos ser lícito conservar esta palavra como uma valia sugestiva no sentido de uma hermenêutica do movimento concebente para a realização dos conceitos. Deste modo, em sentido ambicioso e ideal, direi que o saber dos elementos deveria ser assumido pelo homem tal como o sabor dos alimentos. A assimilação é a similitude incorporada em conceito. A incorporação é que confere a qualidade sui generis ao conceito. Não se detém no serviço das nossas operações lógicas. O fim do conceito é conceber o in+concebível. Verdadeiramente quanto a nós, é o que Aristóteles quer significar por sínfise! É o lugar em si do sujeito, no universo que só ao sujeito pertence numa situação nova, como se, sem se dar conta, transitasse o espectador para dentro do espelho da sua reflexão, invertendo o foco da sua realidade. A partir daí, certamente que a epistemologia passava a usufruir e compreender melhor o critério da distinção e avaliação entre o pensamento científico e o pensamento propriamente filosófico. Não somos daqueles que acreditam numa filosofia validamente elaborada atenuando as dificuldades. O que queremos dizer, porém, é que uma filosofia da imaginação poderia ter esclarecido melhor o desenvolvimento posterior da filosofia europeia

Luís Furtado («Teoria da Luz e da Palavra»).


O Homem e a Técnica

Pretende o livro O Homem e a Técnica, tornar acessíveis ao leitor comum os fundamentos essenciais que justificam o declínio inelutável das culturas vivas em civilizações mortas. A obra de Oswald Spengler, A Decadência do Ocidente, é agora por este filósofo simplificada com o intuito de esclarecer as causas determinantes do sombrio presságio que ameaça a civilização europeia. O Homem e a Técnica pretende ainda evidenciar que este previsto declínio terá consequências finais nunca verificadas em outras culturas precedentes. Ficamos pois aptos a compreender que esta cultura fáustica “se não é por acaso a última, é decerto a mais poderosa, a mais vibrante, e ainda a mais trágica, devido ao conflito latente e interior entre a sua intelectualidade que tenta a compreensão do todo, e a sua alma profundamente desenraizada” [1].

A história está semeada de vestígios de antigas eras, onde jazem os despojos das culturas vencidas. Todas tiveram um ciclo de vida próprio em que aspiravam a uma possível eternidade. Caíram no entanto numa entropia decadente que lhes fez perder o valor criativo do espírito e a dinâmica de uma resposta activa sempre renovada.

Isto acontece porque todos os espaços culturais se encontram, quando nascem, congenitamente comprometidos numa estratégia de domínio, numa luta sem tréguas com o meio ambiente. Esta estratégia que logo de início é apenas uma «táctica vital» conforme as possibilidades naturais da espécie, vai pouco a pouco desenvolvendo e refinando novas vantagens pela criação contínua de utensilagem própria. É certo que o impulso eterno do fenómeno humano se alimenta de um desejo sempre insatisfeito de manipular todos os recursos disponíveis, numa superação constante das carências quotidianas. Daí que as sociedades se afastam da sua alma verdadeira modificando em artifícios cada vez mais complexos a paisagem originária em que nasceram. Resulta assim a técnica de um antagonismo do homem com a natureza. Mas se pela intervenção directa no próprio mundo dos objectos as mãos indicam já o esboço de “uma técnica tão antiga como a própria vida”, qual o facto determinante susceptível de conquistar um novo universo activo, para além dos limites orgânicos da espécie? Para Spengler é a linguagem a potência libertadora que vem abrir os novos caminhos do homem sobre a terra. É ela que de início elaborada a partir de representações espaciais vividas, solicita a marcha do progresso, respondendo às perguntas do intelecto atento e pesquisador. É por este esforço de constante autonomia que a linguagem vai dar origem à plenitude de um pathos onde se constituem imagens possíveis de uma terceira dimensão da realidade, já separada do círculo natural das sensações imediatas. Através da palavra é agora possível o exercício livre do pensamento abstracto que abre as portas de um novo espaço, em que as formas teóricas são outras tantas hipóteses de trabalho e acção sobre o sensível. É esse universo intelectualizado que transforma a originária estratégia instintiva em ponderados sistemas metódicos, com o fim de definir pela prática um controlo eficiente dos fenómenos. O conceito de espaço natural vai pois sendo esboçado mediante sistemas eidéticos que progressivamente esvaziados da densidade mística e divina se oferecem como abstracções susceptíveis de serem tratados pela racionalidade de uma lógica pura. Deste modo a física constitui-se como panorama do extenso, supondo que a natureza só pode ser descoberta através da unidade da razão e que por sua vez esta última subsume tudo o que acontece no espaço e sucede no tempo.

Desenha-se assim a tendência essencial da cultura fáustica, que é a de traduzir o mundo em sistemas lógicos e converter o movimento do universo em pensamentos extensivos e mecânicos. É evidente que o pensamento que procura modos operativos e concretos de intervenção, deseja definir na imagem visível do espaço todo um sistema ideal de acções finalizadas. Ele tem de atender aos modelos de uma mecânica universal em que as leis da casualidade respondem por um sistema possível de processos funcionais. Só neste contexto pode aspirar ao fim supremo de conceber numa constância calculada as variáveis cósmicas do devir. Nos movimentos livres da natureza a técnica vai explorar a imagem funcional de um universo lógico e teórico com o desígnio de desencadear tendências unilaterais e controladas no acontecer dos fenómenos. Nesta estratégia, consegue submeter ao seu serviço os princípios de uma dinâmica susceptível de potenciar a acção do homem sobre o ambiente que o rodeia.

Não admira pois que a técnica transporte consigo o dogma da força e do domínio! Mas esse domínio e essa força só lentamente se vão realizando, já que uma coisa são os sistemas que teorizam os processos funcionais e outra são os meios disponíveis que aguardam em perspectivas futuras de mecânica a possibilidade de objectivação concreta. A mecânica é com efeito, desde o princípio, um sistema de forças que nos seus aspectos genéricos mantém uma estrutura muito vizinha dos modelos biológicos que a inspiram. Resulta em termos práticos da observação dos seres vivos e tenta imitar ou superar determinadas aptidões da dinâmica dos corpos. Ela se nos apresenta como o sistema materializado de um conjunto de forças concorrentes para fins específicos de actividade.

Mas o pensamento corre à frente do tempo e por isso a mecânica concreta e possível só muito lentamente corresponde a todas as figuras que a alma fáustica visiona e antecipa nas sequências dinâmicas do movimento universal. Das possibilidades reais às teorias imaginadas há sempre uma distância abstracta a percorrer, em que os planos e as estratégias aguardam participar mais tarde como modelos objectivos na vivência quotidiana do homem. A história da técnica está pois cheia de visões ainda não consumadas! Desde Arquimedes ou Leonardo que se pensam e projectam esquemas dinâmicos que possuem a síntese possível das forças e a geometria sonhada de máquinas futuras...

Sempre será assim, apesar de no séc. XIX se terem efectivado as condições necessárias para o advento triunfante da civilização maquinista em que vivemos. Considerando que a mecânica depende do conhecimento do modo como actuam determinadas forças, ela supõe em si uma cadeia necessária de dependências estruturais que ambicionam desde logo uma possível unidade de todos os seus sectores. Com efeito, pela primeira vez na história, ela detém as sínteses dinâmicas de uma morfologia eficiente, que pode ser extensiva a vários domínios de intervenção. A mecânica ganha assim a indispensável cidadania na esfera do labor humano.

É esta fase maquinista que uniformiza pela indústria produzida a fisionomia da cultura. Nasce sob o signo da vontade e constitui-se como imperativo de um progresso que oposto ao mundo natural instaura um projecto de formas inertes e destituídas de vida. Há neste desígnio uma intenção planificadora que de modo resoluto programa a vida dos povos, em obediência a indiscutidas soluções funcionais. Por isso mesmo, a indústria patenteia os sintomas mais petrificantes da decadência do espírito. Ao constituir-se como suporte essencial e necessário das sociedades humanas, a produção industrial programada não pode aceitar lapsos, já que tenta substituir artificiosamente os recursos naturais por uma cadeia ininterrupta de circuitos de consumo. Neste sentido, e para manter uma operatividade constante, o maquinismo e a indústria ambicionam resolver o problema do movimento pela conquista integral de uma mecânica sem lacunas. Isto significa que tem de utilizar em seu benefício o mundo das leis inorgânicas que regem os fenómenos, e transformar em energia os movimentos livres da natureza.

A civilização tecnológica, no rigor científico dos seus métodos, na indústria racional e necessária dos seus produtos, já se presume vitoriosa e triunfante... A sua sobrevivência depende pois de consumar dentro de si, pela imitação das leis da física a imagem realizada do movimento perpétuo. Ela considera-se a única na história, que detém possibilidades autênticas de escapar ao determinismo das leis naturais que sentenciaram com a morte as outras civilizações anteriores. É aceitando esta esperança aliás sempre longínqua, que as sociedades confiam que a técnica as pode defender com eficácia da instabilidade que sempre acompanhou o homem sobre a terra.

As diversas culturas realizaram modificações de tal modo profundas nos seus ritmos tradicionais de existência que agora dependentes num processo de desafio e rivalidade tecnológica, definitivamente recusam um retorno às cadências mais originais da vida. No mundo de hoje, tal pretensão de regresso, seria considerada retrógrada e merecedora do público desdém que o comum consenso costuma atribuir a todas as razões que não compartilha ou compreende.

Verificamos no entanto que a crescente procura de fontes energéticas que se esgotam, substitui os planeamentos, altera os ritmos de produção e submete os sistemas mecânicos a adaptações novas de estratégia e de eficácia. Os circuitos da indústria, sujeitos a várias dependências, de modo algum garantem para os humanos o definitivo usufruto de uma existência estável. Por isso são constantes as disputas e as angústias que a era tecnológica vem trazer a todos os povos do mundo. Não interessa referir ao leitor esses factos, que pela análise dos tempos presentes, nos fazem temer os tempos futuros. De certo modo estes resultam sem sentido, já que o senso comum só com dificuldade aceita discutir problemas que coloquem em causa a placidez burguesa dos habituais sistemas de vida. Prefere entender esses acontecimentos como resultantes necessárias de crises de crescimento de uma civilização em irrefutável progresso. Defendem com efeito que a era industrial em que vivemos, mais cedo ou mais tarde encontrará a sua meta de triunfo, na base de qualquer novo tipo de energia, cuja descoberta se prevê dentro das possibilidades de uma ciência que sem descanso investiga os mistérios da natureza.

Os perigos que ameaçam a cultura fáustica podem assim ser superados sem renúncia da linha de destino laboriosamente construída. Neste caso a teoria de Spengler é julgada apenas naqueles aspectos intuitivos que resultam da análise entre os símbolos vivos das sociedades antigas, e os sinais mortos das sociedades modernas. O discurso do mundo julga que no caminho vitorioso desta civilização deverá apenas ter em conta o possível diálogo esclarecedor que faculte consensos tendentes a corrigir o abismo entre a alma originária do homem e as formas artificiais de existência por ele criadas. A resolução deste problema dependeria apenas de se encontrar um entendimento possível nestes dois mundos de diversa natureza. É evidente que deste modo a perspectiva de Spengler se anula mediante sucessivas intervenções em que a técnica e a cultura poderiam estabelecer possíveis sistemas de harmoniosa coexistência. Tudo se resolveria numa política de ambientes, numa estratégia ecológica, numa análise profícua de sociologia aplicada.

Mas este raciocínio tão plausível, não teria sido por este pensador prudentemente considerado, de modo a não comprometer a sua teoria em tão categórico juízo de decadência?

Convém notar que neste tipo de determinismo essencialmente comprometido com os ritmos biológicos do tempo, cumprem-se as estações da cultura, mediante um ciclo análogo ao das estações do ano. Este calendário natural explica como as formas orgânicas e fluentes das culturas, petrificam o seu ritmo criador em formas inorgânicas e destituídas de vida.

Devemos pois ter em conta que o fundamento essencial desta decisão irredutível, se relaciona com factores intrínsecos ao devir da natureza, de certo modo até indiferentes a toda a responsabilidade da intervenção humana. Não podemos com efeito aceitar a intransigência de Spengler na génese de uma atitude meramente metafísica. As razões profundas que a determinam, não podem ser apenas consideradas na base de um idealismo neflibata, elaborado nas cadeias fascinantes de uma simbólica intuitiva. Esse conteúdo determinista, não se circunscreve aos aspectos formais de uma filosofia que se assume e explica para além do sensível, ao reconhecer a realidade de um devir, que dissolve no tempo as efémeras obras humanas. Esta análise suficientemente persuasiva num entendimento entre filósofos, não se explicaria contudo na pública opinião, como susceptível de assumir as determinações extremas de um irremediável finalismo. Além disso, o pensamento simbólico, quando frequenta o discurso do homem comum, vive mais nas formas emotivas da sensibilidade do que no sentido necessário de qualquer conclusão teleológica. Neste contexto o símbolo quando é assumido nos seus conteúdos subjectivos, não costuma vincular o sujeito às consequências últimas daquilo que implica, dado que os seus modos poéticos de entendimento aparecem como antagónicos das exigências racionais de uma teoria científica.

Para este século de realizações objectivas, só a ciência dispõe do privilégio de se constituir como explicação última do mundo e da vida. Vemos que a sociedade está sempre mais inclinada a defender preconceitos científicos que estimulem o seu desejo de progresso... O horizonte simbólico e abstracto de Spengler se isolado de qualquer outra fundamentação mais realista, nunca poderia ser compreendido pela nossa época, tão inclinada a pragmáticas positividades. Por isso mesmo, o declínio das culturas no devir da natureza só pode ser realçado como problema importante no universo lógico das sociedades humanas, se for entendido mediante os postulados da própria física moderna.





O certo é que se o pensamento de Spengler manifesta uma verdade em ideias afins da filosofia especulativa, também se fundamenta dentro do consenso das ciências exactas. Convém neste aspecto referir A Decadência do Ocidente. É neste livro que Spengler nos fala da famosa lei da entropia pela qual nos apercebemos das consequências do segundo princípio da termodinâmica no destino desta civilização tecnológica. Esta lei que teve origem no estudo de Carnot sobre o rendimento das máquinas cuja energia se perde e se degrada em calor, veio mais tarde a ter uma valência universal, pelas fórmulas matemáticas introduzidas por Clausius. Aí é demonstrado, que no plano natural e cósmico, todos os sistemas energéticos dotados de heterogeneidade se submetem no seio deste imenso sistema que é o nosso universo. Isto quer dizer que todos os sistemas físicos trocam as energias que os singularizam em plurais manifestações fenoménicas, numa energia degradada ou seja em calor ou agitação molecular desordenada. Conclui-se que todas as leis da física se tendem a tornar cada vez mais indiferenciadas e homogéneas à medida que decorre este processo inelutável. As energias cinética, eléctrica ou química perdem pois as tendências específicas e finalistas que as diferenciam e exteriorizam como acontecimentos ou fenómenos naturais, susceptíveis de serem apropriados pelo homem, regressando assim, no ciclo do tempo, a uma espécie de «aperon», onde todas as suas leis e formas se dissolvem numa espécie de incandescência térmica, em que transparece a presença mais elementar de toda a energética universal. Esta lei, segundo Bergson indica-nos a “direcção da marcha do mundo” afirmando ainda que “ela diz que as alterações visíveis e heterogéneas se diluirão umas às outras em alterações invisíveis e homogéneas, e que esta instabilidade à qual devemos a riqueza e a variedade dessas alterações, ao consumar-se no nosso sistema solar, dará pouco a pouco ocasião à estabilidade relativa de estremecimentos elementares, que indefinidamente se reflectirão uns aos outros. Tal como um homem que conservasse as suas forças, mas consagrando-as cada vez menos aos seus actos, acabasse por empregá-las totalmente a fazer respirar os pulmões e palpitar o seu coração”[2].






Este segundo princípio da termodinâmica descreve por si mesmo, o vasto cenário de um espaço energético e descontínuo, que tal como o reconhece a física moderna, lentamente se evanesce na desintegração de sistemas nucleares, atómicos, moleculares e finalmente astrofísicos, que se nos revelam em energia luminosa ou fotónica. É assim manifestada a tendência geral do nosso universo em transformar-se em radiação, em luz...

Deste modo concluiremos que o processo que estrutura a solidez desta extensão sensível, transita em sentido contrário a esta mesma extensa exterioridade, e que este espaço caminha inelutavelmente para uma imaterial evanescência. Ela, a extensão, constitui os objectos numa tensão exterior (ex+tensão) que se polariza nas formas materiais que convivem com os dados dos sentidos. Por isso perguntamos se a geometria euclidiana que suporta os conceitos da física clássica não será um abstracto muito conveniente e pragmático...

Sabemos, como o reconhecera Einstein, que as descobertas da física recente repudiam e anulam a mecânica à medida que o espaço deixa de ser concebido como um contínuo em três dimensões. Com efeito, as leis da mecânica resultam da coordenação de um sistema de forças em pontos determinados de um sistema espacial que não podem dispensar a rigidez de uma geometria estática. Mas como se isto não fosse bastante, também há ainda a considerar que a energia inesgotável e infinita não tem sentido dentro de um sistema finito, pelo que de acordo com Carnot-Clausius não se pode resolver o problema do movimento perpétuo dentro de uma civilização de máquinas.

Porém, os métodos da ciência física têm que corresponder com eficácia concreta aos factos observados, e estes decorrem logicamente do nosso conceito de realidade que tem de permanecer o mesmo. Deste modo, por razões óbvias, o problema da energia não pode ser considerado extra-espacial já que é em sentido físico e objectivo que se investiga. Tal facto possibilita que a civilização tecnológica e maquinista na sua operatividade constante consiga disfarçar estes novos postulados da física moderna. Como o consegue?

Submete a sua estratégia de sobrevivência à extensão do mundo na qual se realiza e constitui, e supõe como princípio teórico, que a energia recebida é igual à energia dispensada, e que esta não fará mais do que transitar na sua quantidade exacta entre os vários sistemas fechados. Parte pois do princípio já refutado da conservação dessa mesma energia, dado que o fluxo que se transmite pode ser medido pelos cálculos matemáticos, com a correspondente noção de quantidade constante.

Vai assim a civilização maquinista constituindo o seu império, à custa de um esforço em que explora e actualiza o carácter mais ou menos fugaz de vários episódios energéticos, em concordância, com a possível eficácia concreta das leis da física. Aqui se avaliam os fundamentos em que assenta o poderio tecnológico que presentemente acciona o destino da história.

A pujança e a versatilidade desta civilização devem-se pois a pontuais fontes heterogéneas que pouco a pouco se irão extinguindo. Isto quer dizer que mais cedo ou mais tarde, todos os complexos sistemas humanos devem ceder a uma monotonia uniformizadora de acções repetitivas e elementares, indispensáveis a uma precária sobrevivência. Aliás a mecânica e a indústria denunciam prematuramente as tendências uniformizantes das suas capacidades funcionais, nas séries exaustivas e monótonas dos seus produtos. Desde logo nos apercebemos que se instaura sobre o mundo uma imagem do homogéneo, contrária às possibilidades anímicas e naturais que as culturas consigo transportam.





Se a técnica e a mecânica ambicionam controlar realmente os fenómenos da natureza, deveriam pelo que fica exposto, ironicamente o dizemos, suster a marcha do devir. Só assim alcançariam o pleno triunfo dos seus propósitos. No entanto, tal não acontecerá!... Limitam-se pois a instaurar na vida das sociedades o controlo de situações pragmáticas, possibilitando também utensílios necessários a uma eficaz intervenção do homem sobre o mundo. O certo é que o desenvolvimento tecnológico vem mostrar à humanidade o problema universal da energia, assim como revela ainda, a nudez desenvolvida dos limites e do destino da própria física. À medida que o maquinismo e a técnica esgotam as possibilidades, mais a física moderna patenteia em teoremas matemáticos as forças vectoras que suportam e explicam um espaço inorgânico numa esfera pura de causas e números funcionais. O que vemos em todo esse abstracto axiomatismo? Um formulário algébrico de pensamentos e ideias que têm necessariamente de tomar expressões viáveis nas correspondentes dimensionais do extenso.

A física de hoje, tem de explicar todos os fenómenos encontrando nas leis dos campos energéticos estruturas universalmente válidas, que não podem falhar neste «campo» da natureza, nesta reunião em que a matéria como energia altamente concentrada se apresenta ao espaço da vivência humana.

Ao contrário da física clássica que se inspirava na realidade dimensional da natureza organizando o espaço do homem em confiantes representações, o caminho da física moderna tem sentido inverso. Parte de abstracções que devem ser comprovadas nesta zona do real, traduzindo possibilidades muito concretas. Isto tem como consequência o declínio de toda a actividade representativa, e corresponde à descoberta da estrutura cada vez menos sensível e cada vez mais transparente da matéria, nos limites já invisíveis do próprio átomo. É sabido que este elemento postula e representa uma fonte inesgotável de energia. Aqui a alma fáustica no extremo umbral entre o denso e o diáfano poderia talvez garantir o predomínio da civilização tecnológica, se o uso dessa energia não tivesse como moeda de troca a dissolução do próprio espaço... O poder da alma fáustica sobre a natureza só será consumado pela morte.

“Fausto na segunda parte da tragédia morre porque acaba de alcançar a sua meta. O fim do mundo como conclusão do desenvolvimento íntimo e necessário. Eis o crepúsculo dos deuses”[3]. Isto desabafa Spengler para quem o sentido da história acompanha de modo evidente os conceitos do espaço e tempo que decorrem da evolução das ciências físicas. A História manifesta-se mediatizada por um conjunto de processos reversíveis ou irreversíveis, de acordo com a lei da entropia. Daqui derivam no seu estatuto as consequentes alterações que se transmitem à dinâmica das sociedades e à fisionomia das várias culturas.


Esta análise de ordem científica liberta a teoria de Spengler de qualquer profético misticismo e torna possível a descoberta dos sinais morfológicos da decadência que dão sentido a seculares unidades de tempo. A História, dentro dos conteúdos lógicos que a explicam, intimamente se relaciona com uma perspectiva física do real, já que define os acontecimentos dentro de um espaço, em limites concretos de existência. Os factos significantes que descrevem uma cronologia, não podem fugir à noção de um espaço contínuo ou descontínuo que contrapõe da física clássica à concepção da física moderna. Uma e outra solicitam duas diferentes perspectivas na análise dos acontecimentos, assim como inspiram diferentes análises conjunturais e disciplinares da realidade.

A teoria euclidiana, permite a vigência de uma história em que o tempo é aliado cíclico natural de um espaço contínuo, onde os factos se sucedem como representações singulares e definidas. Estes factos, por si mesmos são conteúdos que podem responder na sua autonomia pela dinâmica do grande todo que os rodeia. Correspondem a uma sólida estrutura geométrica do real, a pontos firmes que suportam todo um sistema de tensões e forças, que é correlativa com o discurso de uma História cujos centros dinâmicos se definem em povos singulares ou singulares homens de génio, que respondem pelos acontecimentos que determinam a marcha temporal da humanidade.

Com o desenvolvimento da técnica progressivamente se consolida uma fusão plena entre a continuidade do espaço e uma concepção mecanista da natureza e da vida. Por isso, dentro dos postulados de uma física triunfante de que a História pretende imitar o rigor das leis, o devir e a causalidade começam a confundir os elementos históricos e os elementos naturais. Dentro deste contexto, o mundo abstracto das causas inorgânicas, está autorizado a exigir na sucessividade do tempo a teoria explicativa de um destino. É que se todo o espaço físico tende através dos sistemas mecânicos a ser traduzido em energia dirigida, também o caminho da existência humana deve ser encarado em sistemas racionais que definam a direcção de um futuro.

Daqui resulta a natureza intelectualista das teorias históricas que disciplinam a interpretação dos acontecimentos.

O certo é que se a continuidade do extenso tinha na física antiga a valia inquestionável de estabelecer acordos harmoniosos entre a dinâmica e a estática, também nas ideias que explicam a História, este acordo possibilita o conhecimento eficaz entre a visão teórica do espaço e as representações definidas dos factos. Com efeito todas as suposições lógicas que derivam da geometria de Euclides, podem ser confirmadas pela experiência em substantivos próprios que designam no mundo animado da natureza o contorno preciso de representações objectivas.

Euclides, Escola de Atenas, por Raffaello Sanzio 

Mas quando o conceito de espaço contínuo foi abandonado pela física moderna, a nitidez geométrica do extenso distende-se numa indefinida evanescência, e a razão humana terá agora que encontrar unidades discursivas mais genéricas, como condições válidas do conhecimento.

Convém referir os pressupostos científicos desta nova física, para relacionarmos as correspondentes perpectivas que condicionam a interpretação dos acontecimentos que se sucedem no espaço e no tempo.

Assim a ciência moderna aceita a realidade de matéria e a realidade de campo que não designam de modo algum duas regiões espaciais distintas dentro de um critério físico. Matéria e campo são apenas conceitos derivados de uma intensidade maior ou menor de energia.

Mas como é que estas duas realidades se distinguem uma da outra?

Diz-se apenas que matéria tem massa e que o campo não a tem. Ser matéria e ter massa, apenas supõe uma concentração de energia quantitativamente mais intensa em relação à energia mais fraca e diáfana de que o campo pode dispor. No vazio entre as massas, na distância entre os corpos, também existe matéria que só pode ser conhecida em valores quantificados. Resulta pois evidente que este conhecimento e esta distinção em termos de espaço só pode efectivar-se pela categoria da quantidade ou quantum energético. Ora sendo o quantum constituído por partículas elementares é impossível determinar na singularidade de cada um dos seus elementos o comportamento de todos os componentes desse grupo. Deste modo a física moderna abandona o elemento em si próprio e tenta determinar os valores típicos médios de um agregado. As leis do quantum têm pois um carácter estatístico e como tal não são verificáveis pela mediação de um facto singular, mas por séries de mediações de factos. Além de indiferentes a qualquer conceito qualitativo só valem quando aplicados a grandes agregados, não declarando conteúdos lógicos, revelam apenas tendências e probabilidades no tempo.

A perspectiva do real que esta nova física anuncia, logo nos aponta o papel anónimo do sujeito em face dos grandes agregados das sociedades modernas, controlados pela estatística e pelo critério uniformizante da quantidade. Este processo que determinou o anonimato da pessoa humana tem raízes antigas... Ele foi-se lentamente consumando pela falta de confiança nas possibilidades lógicas que respondem pelo acordo entre a percepção e o conhecimento. Entre o perceber e o conhecer, há uma distância lógica a ser percorrida pelo indivíduo. Por isso no relacionamento imediato com a natureza a percepção que nos aponta o sensível, supõe em Aristóteles uma lógica do conceito. Isto significa que tudo o que o sujeito pode conhecer no objecto, vai sendo mediatizado e assumido por um lento desenvolver conceptual, que ao partir da designação substantiva se enriquece por graus sucessivos em conteúdos universais e abstractos. Mas o certo é que dentro da eficaz jurisdição do pensamento científico, estes conteúdos abstractos residem por si mesmos nos próprios objectos. Queremos dizer, que são as próprias coisas que detêm e explicam in nuce, em si e por si, as causas das leis que regem os fenómenos. Neste consenso epistemológico a realidade de todo o humano conceber derivaria mais de certas tendências subjectivas do que dos reais conteúdos que fundamentam a exacta ciência. A lógica será assim nas suas formais conclusões apenas uma tradução do real condicionada nos modos como o sujeito se compromete com o sensível. Dentro deste espírito, as demonstrações lógicas não podem prevalecer sobre as demonstrações científicas. A natureza da própria demonstração desloca o eixo que fundamenta ab origine o princípio da irrefutável autoridade. A resposta não reside no sujeito quando este a partir de si mesmo a constitui numa lógica conceptual possível. Ela legitima-se nos conteúdos naturais ou seja nos elementos componentes dos fenómenos. Agora cabe à ciência o testemunho decisivo do que existe de real na percepção do mundo. O seu veredicto põe em causa a valia do pensamento, sempre que este singulariza na pessoa humana, aquilo que esta última sabe por si da natureza. À medida que a ciência avança no seu trabalho de integração da realidade, também declina no homem a autonomia reflexiva, desaparecendo por isso as diferenças qualitativas mediante um critério uniforme que quantifica e empobrece a visão concreta do universo e da vida. Tal facto que agora relacionamos com a física moderna, mais evidente se torna se tivermos em conta que o espaço descontínuo, além de estabelecer critérios únicos de quantidade, também nega à percepção do sensível toda a confiança necessária à vida intelectual. Não pode o pensamento no extenso descontínuo constituir-se em qualquer fixidez substantiva. O substantivo é a pedra de toque e toda a arquitectura lógica, é como um núcleo inercial que relaciona e suporta toda a dinâmica do visível. Se indeciso da sua própria realidade, não pode traduzir esses movimentos nos verbos que potenciam o pleno pensamento discursivo. Aqui se esgotam as forças intelectuais, assim como desaparece a voz responsável do sujeito no indeterminado informe das grandes massas humanas.

Tal como no quantum físico formulam-se leis de multidões não de indivíduos, onde as tendências dos grandes agregados obedecem à estatística, e ao planeamento programado das probabilidades. Agora o discurso histórico sofre de inúmeras rupturas e é elaborado de acordo com enunciados que atendem tão somente a uma narrativa de superfície. O enunciado também é um «campo» de elementos que se situam em complexas relações dependentes de compromissos temporais. São pois esses campos enunciativos presenças descontínuas, espaços de memórias que encerram não um horizonte proveniente do fundo do tempo, mas sim um conjunto de estratégias de apropriação eficaz da realidade. Em si mesmos eles interpretam uma coexistência de acontecimentos que se oferecem por um lado ao nível do tratamento científico e por outro ao nível da manipulação ideológica. A História visa agora um complexo de grandezas morfologicamente singulares que exprimem uma profunda crise de identidade dos povos. Estes parecem condenados a viver uma existência sem ontologia. O saber no qual constituem a precária consciência que os anima extrai os seus próprios fundamentos do exercício prático que se adquire na luta por um progresso programado e materialista.

A história de cada nação europeia é hoje uma história de renúncia. A Europa perdida do seu destino, já não fala dos heróis necessários. Renunciando a si própria, ela aponta-nos os fantasmas dos seus mártires supérfluos.

(Prefácio de Luís Furtado in Oswald Spengler, O Homem e a Técnica, Guimarães Editores, Lisboa, Segunda Edição, 1993).


[1] Cap. V.

[2] Bergson - "Evolução criador", cap. III.

[3] Decadência do Ocidente – Ed. Gallimard, 1.º vol., pág. 406.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Do Conceber para o Lugar do Conceber

Escrito por Luís Furtado



Manuel Kant

«Se Kant, em sua doutrina gnosiológica a duas dimensões, ou a dois factores, negou ao homem a possibilidade de desocultar o oculto, isto é, a possibilidade de conhecer os nómenos dos fenómenos, Hegel soube opor ao formalismo extrínseco das determinações pitagóricas a fenomenologia aristotélica das fases e dos ritmos. O progresso da ciência depende do aperfeiçoamento da evidência sensível, não pela intervenção de aparelhos e instrumentos, mas pelo aumento do poder da sensitividade, pela reconquista de virtudes perdidas, conseguindo por fim que todo o sensível seja sentido. A crença precede, pois, a ciência, mas é indispensável crer com imaginação.

(...) A lógica de Hegel confirma a lógica de Aristóteles. Sabemos que para o filósofo grego, por maus intérpretes acusado de empirismo, todas as relações de dois termos, como as que se exprimem nos juízos e nas leis, valem o que valer o terceiro termo mediador que é um verbo. Ser é sempre um verbo, embora seja o verbo da classificação mais geral, e, portanto, representativo de todos os outros verbos, o que nos permite que Hegel o traduzisse por Werden».

Álvaro Ribeiro («A Arte de Filosofar»).


«Foi na "Ciência da Lógica", de Hegel, que culminou a tentativa iniciada por Kant para a formação de uma lógica adequada às ciências modernas. Mas os cientistas já estavam possessos do orgulho que lhes suscitaram os êxitos obtidos no domínio das forças da natureza e "ignoraram" a genial façanha de Hegel. Quando, mais tarde, esse orgulho começou a ver-se abalado pela previsão das finalidades a que tais êxitos unicamente conduziam e, num certo esforço de reflexão, reconheceram o que hoje designam por "crise dos fundamentos da ciência", os pensadores científicos esboçaram um "regresso a Kant" mas nunca apelaram para a lógica de Hegel. O mesmo "regresso a Kant" depressa foi abandonado. Onde a ciência moderna sempre depositou as suas esperanças foi na matemática, em vão confiando que ela lhes forneceria a fundamentação que a lógica aristotélica assegura à ciência clássica. Isso explica as sucessivas tentativas para fazer da matemática uma lógica: a dos positivistas do Círculo de Viena, a de Bertrand Russell e Alfredo N. Whitehead, com os famosos "Principia Mathematica", e, mais recentemente, as de T. Kuhn e de Karl Popper, este com a sua "Lógica da Descoberta Científica". Dentre os responsáveis por estas vãs tentativas, apenas Whitehead abandonou a via de nenhures em que todas elas inevitavelmente se perdem, não hesitando em reconhecer, nessa obra-prima do pensamento científico que é "A Ciência e o Mundo Moderno", que a ciência ainda não conseguiu dar resposta à crítica de David Hume. Quem mais claramente enunciou a questão a que todas essas tentativas tentam dar resposta foi Karl Popper: "Qual o critério a aplicar para avaliar da cientificidade de uma qualquer proposição?"

(...) Ao longo deste processo, há uma constante: o ataque à lógica aristotélica. Mas é impressionante como esses valentes combatentes ignoram aquilo que combatem. Um exemplo de tal ignorância é o insulto galhofeiro, mas muito apreciado, de William James quando, depois de reduzir a teoria do silogismo a um jogo de palavras, julga poder anatematizá-la dizendo que a "palavra cão não morde". Outro exemplo é a frequente repetição de determinações aristotélicas traduzidas em vazia linguagem matemática como acontece quando Bertrand Russell, a propósito da quadratura do círculo, não faz mais do que anunciar, mas como sendo uma original descoberta sua ou só possível à sua lógica matemática, o princípio de não-contradição, dizendo: "não existe um x tal que seja ao mesmo tempo quadrado e redondo"».

Orlando Vitorino («Exaltação da Filosofia Derrotada»).


«A nossa razão, irremediavelmente presunçosa, imagina possuir por direito de nascença ou de conquista, inatos ou adquiridos, todos os elementos essenciais do conhecimento. Mesmo quando confessa não conhecer o objecto que lhe é apresentado, julga que a sua ignorância consiste apenas em não saber qual das suas antigas categorias se adequa ao objecto novo. Em que gaveta o guardaremos? Com que roupa, já feita, os vestiremos? Será isto, ou aquilo, ou outra coisa? E "isto", "aquilo" e outra "coisa" são sempre para nós o já concebido, o já conhecido. A ideia de podermos ter de criar, a partir do zero, um novo conceito para um novo objecto, talvez mesmo um novo método de pensar, mostra-nos o eterno conflito de sistemas, a impossibilidade de vestir definitivamente o real com o pronto-a-vestir dos nossos conceitos já feitos, a necessidade de trabalhar por medida. Em vez de chegar a este extremo, a nossa razão prefere anunciar de uma vez por todas, com uma orgulhosa modéstia, que apenas pode conhecer o relativo, e que o absoluto não faz parte do seu domínio. Esta declaração preliminar permite-lhe aplicar sem escrúpulos o seu método habitual de pensar e, a pretexto de não tocar no absoluto, sentenciar sobre todas as coisas. Platão foi o primeiro a erigir em teoria que conhecer o real consiste em encontrar a sua Ideia, ou seja, obrigá-lo a entrar numa moldura preexistente que estaria já à nossa disposição - como se possuíssemos implicitamente a ciência universal. Mas esta crença é natural à inteligência humana, sempre preocupada em saber sob que antiga rubrica poderá catalogar qualquer objecto novo; e poder-se-ia dizer, em certo sentido, que todos nascemos platónicos».

Henrique Bergson («A Evolução Criadora»).



Henrique Bergson

«(...) Bergson distingue (...) numa página célebre, entre a percepção da extensão e o conceito de espaço, distinção de que o seu pensamento pode mais tarde arrancar esplêndidas elucidações. Existem animais que, partindo de centenas de quilómetros, voltam em linha recta à sua habitação. As tentativas de explicação variam desde um espaço olfactivo, visual e (Lakhowsky, por exemplo) electromagnético. "Isto equivale a dizer que para o animal não é o espaço tão homogéneo como para nós e que as suas determinações, ou direcções, não revestem para ele uma forma puramente geométrica".

Quem não viu um cão de caça seguir as linhas aromáticas dum espaço olfactivo?

E não é o nosso espaço de crianças um espaço qualificado de gravidade, de molde a perguntarmos por que não cai a lua e a resistirmos à admissão dos antípodas?

E, por uma singular viagem do pensamento abstractivo da ciência, não vemos a física nova, da relatividade generalizada, incorporar de novo a gravitação em modalidades dum espaço menos abstracto que esta forma limite do senso comum e do euclidianismo?

Referindo-se ainda às percepções dos animais viajantes, diz-nos Bergson que "nós distinguimos a direita da esquerda por um sentimento natural e que estas duas determinações da nossa própria extensão nos apresentam, pois, uma diferença de qualidade e é por isso mesmo que conseguimos defini-las"».

Leonardo Coimbra («A Filosofia de Henri Bergson»).



Do Conceber para o Lugar do Conceber


(Ensaio de Hipotipose)


Tem sido intermitente o meu convívio com o Orlando Vitorino. Recordo porém antigas e notáveis reuniões em que todas as semanas me era dado o prazer da sua esclarecida companhia. Depois da morte de A. Ribeiro só por períodos mais felizes tenho o privilégio de recapitular tudo o que nos liga ou nos ligou ao então Grupo da Filosofia Portuguesa. Reconhecemos realmente que permanece uma herança fundamental que se actualiza no apelo à verdadeira arte de filosofar. E não se trata de um hábito ou compromisso de circunstância, já que para nós importa a génese de uma sensibilidade que nos é comum, e que se implica e explica nos ideais que pensamos e princípios que defendemos.




Se me é permitida a metáfora, direi que assim como na antiga Grécia, havia a pedagogia socrática e o ensinamento dos sofistas, também neste grupo se problematiza a contraposição entre a lógica aristotélica ou natural e a lógica do saber útil. Acreditamos que assim como no princípio o ensino sofístico desencadeou a crise dos valores, também agora a prioridade do critério do útil científico sobre a física, vem provocar uma deturpação na relação ontológica do homem com a natureza! De um modo convicto e simples, sem mais explicações por agora, direi que esta questão já levantada por A. Ribeiro é de ordem eterna, porque é verdadeiramente fundante, e nela subjaz para a raça humana, o magno problema da vantagem ou desvantagem da prioridade das matemáticas sobre a física. Para o desenvolvimento espiritual do homem qual será a prioridade mais importante? Será a da natureza, berço da forma humana e de toda a sensibilidade que por destino de génese lhe é inerente, ou será a da lógica matemática que abstrai da natureza simplificando as coisas em ideias gerais, e que nos faz nessa simplificação, acreditar que penetramos nas substâncias de que essas coisas são feitas? Quanto mais gerais são as ideias mais abstracto e vazio é o grau da sua realização mental, mais rarefeita a sustentação da nossa dialéctica. As ideias gerais são o conceber, e só existem enquanto conceitos, na medida rítmica do nosso pessoal entendimento. Não existem em profundidade para a abstracção pura, mas apenas nesta podem ser teorizadas, como virtualidade subjectiva. A intervenção matemática interfere artificialmente com a génese natural das coisas físicas, porque o seu momento lógico de aplicação não será o do tempo, como instante ôntico do movimento, mas o da ocasião útil entendível, dentro da ordem externa da sucessividade. Assim conclui sabiamente o Estagirita que “as coisas matemáticas que não estão separadas, pensamo-las no entanto em separado quando as temos em mente” (1). Há sempre pois um não esclarecido ponto cego de esvaziamento ontológico, que só a lógica natural pode evitar, porque sustenta a transmissão permanente desse vínculo em que o ser diz e se predica, superando as distorções extensivas do pensamento matemático.

O objecto da lógica natural converte-se pois na filosofia primeira. Todas as teorizações decorrentes deste compromisso, reconhecerão que a filosofia na sua totalidade, será uma ciência de conceitos. Estamos agora em convergência simpática com o pensamento de Hegel, porque sempre O. Vitorino conseguiu movimentar-se com brilhantismo, nas conciliações da lógica hegeliana com a lógica aristotélica.


Hegel


Hegel como sabemos submete a exame várias definições de Absoluto, e acaba por deixar entrever que o convívio do Absoluto com a realidade é multímodo, e sujeita-se a várias transparências, em vários movimentos de interpretação na ordem do devir. Independentemente dos quadros naturais externos, há sempre um círculo interior da natureza, um círculo interior da lógica, um círculo interior do espírito! Cada um deles, na captação do sujeito, corresponde a vários estados de sensibilidade, e como tal, será susceptível de várias ordens dialécticas de perspectiva. Haverá pois uma diferenciação incessante entre a correspondência do absoluto global e a teorização lógico unificadora, porque subjaz, uma impercorrida infinidade de fundo, em que o ser do sujeito se intimiza, excedendo todas as conscientizações do nosso entendimento conceptivo. Não assumimos dialecticamente o devir segundo a profundidade essencial inerente ao conceber, mas apenas segundo o entendimento predominante dos conceitos que cada um de nos consegue actualizar. Por isso, na hermenêutica que fazemos, Aristóteles não atribuía essência aos conceitos (2). São, neste contexto, muitas as possíveis perspectivas, porque toda a dialéctica se esgota no trânsito e no recurso da alternância de si mesma, perante a verdade que no absoluto nos escapa… No devir de Hegel o ser é universal ou determinado, essencial ou não essencial, porque dele o sujeito apenas consegue toda a restante fundação ontológica, no grau de ordem de uma conversão pessoal. É que o trânsito nos círculos que constituem a graduação do conceber, sendo a tarefa da filosofia total, conservam apenas a ressonância de uma virtual unificação, já que o sujeito fica sempre excêntrico no seu isolamento intramundano, porque no seu concebido as concordâncias permanecem aquém daquele ritmo ou daquela rima em que a realidade total do ser, o inclui como pessoa na longitude infinita que o rodeia. O ser é assintótico como disse Leonardo Coimbra. O homem só reconhece a unidade do ser assintoticamente, porque a esfera da sua realidade é sempre, em longitude, infinitamente ultrapassada. É nesta fase de compreensão que interpretamos a crítica de B. Croce, quando diz que a dialéctica de Hegel tem como efeito a perda do “nexo dos conceitos distintos”. Neste caso como diz Croce “os erros são tratados como conceitos distintos, isto é, como categorias; e pretende deduzir, ou seja desenvolver os erros, como se deduzem e desenvolvem categorias, isto é conceitos distintos” (3) e ainda «São esses aspectos da verdade o genuíno tema da história do pensamento; o erro é o hemisfério das trevas, que a luz verdadeira ainda não iluminou; faz-se a história porque acompanha toda a história. Por isso a transmutação dos erros em verdade (primeira consequência da transferência a que Hegel se deixou arrastar, da dialéctica dos contrários ao nexo dos conceitos distintos) deve considerar-se fundamentalmente arruinada” (4). Justiça seja feita ao Orlando que sempre tratou esta problemática com muito esclarecimento e inteligência oportuna. Porém eu me interrogo, se será suficientemente persuasivo na sua fundamentação, quando escreve que “Álvaro Ribeiro descobriu Aristóteles através de Hegel” (5). Porque através de Hegel? Sabemos que Leonardo deixou sobre o silogismo de Aristóteles um testemunho pouco favorável. Apesar disso, A. Ribeiro valoriza toda a graduação da Escolástica, como acto educativo axial para o desenvolvimento da inteligência humana, e nunca pretendeu julgar e avaliar a lógica aristotélica, submetendo-a ao telescópio da dialéctica hegeliana, cuja infinita longitude abrangente, acaba por reduzir toda a singular pedagogia, a um momento apenas pessoal e subjectivo. Não me custa acreditar que na fase mais juvenil, e até politicamente interventiva, tenha sido o Álvaro mais um leitor de Hegel, do que um hermeneuta de Aristóteles. Mas a este “hegelianismo de Álvaro Ribeiro a caminho do aristotelismo”, como diz Orlando, eu acrescentaria o bergsonismo de Leonardo Coimbra que inteligentemente o Álvaro conclui em aristotelismo. A influência de Bergson parece quanto a nós a mais certa e a provável, pelo interesse que Leonardo transmitiu aos seus conviventes e discípulos, na obra deste pensador. Mas como é que havemos de explicar os pressupostos que moviam o pensamento bergsónico? Este resulta com efeito de hermenêuticas precedentes mais implícitas do que explícitas, e que foram investigadas por Heidsieck (6) com base na famosa tese latina – Quid Aristoteles De Loco Senserit – Bergson aliás demonstra grande interesse pela tese de interpretação do aristotelismo de Félix Ravaisson, à qual dedica um extenso estudo no seu livro La Pensée et le Mouvant.


Félix Ravaisson


O que importava, era a conciliação entre o cientismo e o espiritualismo, e o que se desejava assegurar, era a correspondência do pensamento, não só com o universo da consciência, como também, com o universo da ciência. Reparemos que a relação desejada entre a ciência e a consciência pretende agora ser bergsonicamente idealizada no âmbito da lógica natural. E porquê? Porque o que interessava à ciência era o espaço abstracto das matemáticas; porém o espaço da metafísica, esse deveria ser sempre acrescentado à consciência vivida por uma realização espacializante e nunca apenas por uma operacionalidade algébrica! O certo é que a partir de Kant, deram-se conta os filósofos, de que o espaço não pode deixar de ser, pelo menos, cúmplice no ensaio de formalização do pensamento. Todo o pensar lógico se implica em discretas morfologias, que bem no fundo, são constituintes de uma “gestalt” da nossa actividade especulante. O que Kant e Lambert nos pretendem transmitir é a superveniência e um efeito sub-reptício, influente como estrutura da razão. Com este efeito julga Kant, alterar ou suspender a consciência empírica do movimento, nos graus e qualidades da realidade recebidos através das sensações, como se estas fossem matéria inibidora do uso puro da razão, impedindo a transparência “a priori” desse prisma puramente racional. Mas assim como o ser humano nasce para o espírito, também as sensações, por génese natural podem não ter sido em nós predestinadas ao conhecimento da matéria, pois nunca nos disseram se a matéria é “isto ou aquilo”. O que nos falam e dizem, isso sim, e desde logo radicalmente, é sobre as substâncias com as suas qualidades e atributos, pelas quais a matéria se torna por elas cognoscível. Esta noção é fundamental, porque aponta para a revisão da dogmática do “a priori” e insinua a confiança na conscientização gradual das nossas potencialidades empíricas. As sensações não são pois de genitura feitas para a matéria, cujo sentido desde os Gregos, vem a sofrer muitos ajustamentos de conveniência apenas científica, mas sim para a ordem das substâncias, em inerência às qualidades dos movimentos e atributos naturais. Mesmo numa abstracção pura, o empirismo deveria enfim revelar-se para a metafísica, como uma verdadeira teologia da experiência. Pressente Bergson que o filósofo quanto ao espaço e quanto ao tempo, deve conservar uma certa atitude intelectiva tradicional, atitude essa que, fundada em Aristóteles, continuou a ser preservada até Leibniz, para depois ser impugnada por Lambert e Kant e por outros técnicos da ciência e da matemática. O sentido do lugar vem a ser para o sujeito, tal como o sentido do universal concreto para a natureza, como esplendor final de uma realização criadora! Ambos exigem uma graduação qualitativa do domínio representativo do movimento. Mesmo sem o premeditarmos, pressentimos uma espécie de hipotipose em que o conceber se torna concebido, tanto na ordem da natureza como na ordem singular do sujeito. Só a memória se torna a mais autêntica categoria no tempo, capaz de manter o sentido natural e naturante pelo qual a categoria espaço supera sempre o esquema abstracto e consegue vivência e predicação própria.

Também Leonardo Coimbra como matemático e metafísico tentou explorar o naturalismo dinamista de Bergson, esperando sempre dele a procurada aliança da consciência com a ciência. Não nos admira ou surpreende que espreitasse no pensamento de Leibniz, que vai desde o cálculo infinitesimal até à dedução metafísica das mónades. O que mais nos importa neste momento é que Leonardo, tal como Leibniz, ao admitirem a infinidade do espaço com domínios de manifestação tanto visíveis como invisíveis, ambos por inconsciente hipotipose, idealizam nas mónades o lugar do lugar. Sabemos como a filosofia do mestre foi importante para A. Ribeiro. Procuramos nós uma hermenêutica essencial! Julgamos pois da maior importância o contributo de Orlando Vitorino, que sem dúvida tem sido e virá a ser, por mérito, uma referência ilustre da Filosofia Portuguesa (in Teoremas de Filosofia, 2002, n.º 6, pp. 20-24).


Notas:

(1) Aristóteles, De Anima, III, 431B.

(2) O. Hamelin, Le Système d’Aristote, J. Vrin, 3.ª ed., p. 127.

(3) Benedetto Croce, O que é Vivo e o que é Morto na Filosofia de Hegel, p. 96 (trad. de V. Nemésio).

(4) Idem, p. 92.

(5) «As Teses da Filosofia de Álvaro Ribeiro», em Álvaro Ribeiro e a Filosofia Portuguesa, Colecção Lusíada, n.º 7, p, 185 e seguintes.

(6) Heidsieck, Henri Bergson et la Notion d’Espace, P.U.F.