quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Diário Português

Escrito por Mircea Eliade


Oliveira Salazar no Palácio das Necessidades com Luís Teixeira Sampaio, secretário-geral do MNE, e Armindo Monteiro, embaixador em Londres.

«Ele [Oliveira Salazar] é um grande homem servido por um povo pequeno

Walford Selby

 

«Preocupado com as incertezas da Europa e da sua pátria romena, Mircea Eliade chegou a Portugal com 34 anos. Era já um intelectual maduro, um escritor respeitável e um experiente viajante, tendo vivido uma boa dose de aventuras. Por aquela altura, já havia feito a sua longa e marcante viagem à Índia, entre 1928 e 1931, onde estudou filosofia, sânscrito e tradições hindus com Surendranath Dasgupta, pai de Maitreyi Devi – um dos grandes amores da sua vida – imortalizada nas páginas do romance Maitreyi, de 1933, também conhecido pelo título francês, La Nuit Bengali. (...) esta sua experiência indiana acabaria por ter uma importante repercussão na forma como o romeno pensou, interpretou e conceptualizou a Revolução Nacional de 28 de Maio de 1926, o Estado Novo e a figura de António de Oliveira Salazar.

Os anos que Mircea Eliade viveu em Portugal, de 1941 a 1945, encontram-se relativamente bem documentados pelo próprio. A principal fonte sobre esse período passado no Extremo Ocidente europeu é o chamado Diário Português, no qual, o então diplomata, anotava os seus encontros com intelectuais portugueses e estrangeiros, pensamentos e impressões acerca de Portugal, reflexões sobre política, guerra, actualidade romena, entre outros assuntos. Além desse registo memorialista, escreveu também um livro que muitos consideram uma obra atípica na sua longa bibliografia. Referimo-nos a Salazar e a Revolução em Portugal, uma obra de investigação no campo da História Política Portuguesa, redigida em 1941 e 1942.

(...) Logo na abertura de Salazar e a Revolução em Portugal, Mircea Eliade demonstra ter um pensamento meta-político que o diferencia de outros intelectuais coevos. Questiona-se sobre a possibilidade de uma revolução espiritual que fosse realizável do ponto de vista histórico por homens que acreditassem, acima de tudo, na primazia do espírito. Ele via em Salazar um líder com a capacidade de levar a cabo uma revolução espiritual católica, reintegrando Portugal no seu destino histórico, apesar das traumáticas experiências constitucionais maçónico-liberais do século XIX e da violência jacobina republicana que antecedeu a Revolução Nacional de 1926. Um feito que, segundo ele, serviria de farol para a Europa, em particular para a sua Roménia. Esta tensão entre dever patriótico e vocação intelectual fica explícita na seguinte entrada do seu diário: “Teria muito mais prazer se escrevesse Camões – Ensaio de filosofia da cultura. Mas escolhi Salazar para melhor servir o meu país, para ter ao menos a ilusão de que estou a cumprir o meu dever em tempo de guerra”. Este sacrifício pessoal sublinha bem o valor que ele atribuía ao exemplo português.





 

(...) Salazar e a Revolução em Portugal foi escrito com a ajuda de vários amigos portugueses, tais como António Ferro, Tavares d’Almeida, Manuel Múrias, Silva Dias, Pedro Correia Marques, João Ameal, ou Eduardo Freitas da Costa, alguns dos quais responsáveis pela própria revolução. Tal como todos os processos revolucionários, a história oficial do 28 de Maio também foi alvo de uma certa dose de mitificação. É o próprio Mircea Eliade que, numa das entradas mais curiosas do seu Diário Português, nos alerta para o facto, confessando:

“Divertida, mas não menos verídica, a história da revolução do general Gomes da Costa, em Braga, que abriu caminho a Carmona e, mais tarde, a Salazar – contada ontem à noite por Manuel Múrias e Correia Marques, não apenas testemunhas oculares, mas também autores responsáveis pelo sucesso desta revolução!

É pena não a poder revelar no meu livro sobre Salazar. Porque, como se sabe, a história oficial dá uma versão completamente diferente do golpe de Estado de 28 de Maio de 1926. Segundo essa versão, Portugal inteiro aderiu, logo no primeiro dia – e o Exército passou logo para o lado de Gomes”».

José Almeida («Mircea Eliade e a Revolução em Portugal», in O Século de Maio – 100 Anos da Revolução Nacional).

 


«Muitos dos problemas que perturbam a sociedade portuguesa são reflectidos em alguns meios intelectuais. Destaca-se a geração que se afirmara antes da guerra, formara o seu espírito e a sua cultura antes da catástrofe, seguia cânones anteriores a esta, e que está agora na sua maturidade criadora. Aquilino Ribeiro, quase à beira dos sessenta anos, enriquece a prosa portuguesa, numa produção abundante de volumes sucessivos, de grande altura estilística: O Homem que Matou o Diabo, A Aventura Maravilhosa de D. Sebastião, S. Banaboião, outros ainda. Ferreira de Castro, na casa dos quarenta e cinco anos, é criador menor mas desfruta de grande público com a Terra Fria, a Tempestade, os Pequenos Mundos, A Volta ao Mundo. Muito mais novos, acreditaram-se os da geração da Presença. Com os seus poemas de O Outro Livro de Job, e da Lamentação, e a sua prosa dos Dias da Criação do Mundo, e dos Bichos, e dos Contos da Montanha, e dos volumes do Diário, Miguel Torga entra num friso eminente da história literária. E tem largo acolhimento José Régio com os seus poemas das Encruzilhadas de Deus, a sua peça Jacob e o Anjo, o seu Fado, o seu Príncipe com Orelhas de Burro. Adolfo Casais Monteiro afirma a sua poesia acrescentando ao Canto da Nossa Agonia a sua Noite Aberta aos Quatro Ventos. João Gaspar Simões cultiva o romance Elói, Uma História de Província, O Marido Fiel, o Pântano, A Unha Quebrada; mas impõe-se sobretudo por uma magistratura crítica e ensaística de uma amplitude única em Portugal. E são ainda na poesia Carlos Queirós, com o seu Desaparecido; António de Navarro, que no seu hermetismo atinge uma muito alta realização poética com os Poemas de África e Ave de Silêncio; Vitorino Nemésio, com o Bicho Harmonioso; e na prosa são Joaquim Paço d’Arcos, que retrata a alta e média burguesia e conquista vasta audiência com Ana Paula, Neve sobre o Mar e Ansiedade; Domingos Monteiro, que de súbito coloca a novela e o conto em grande plano, com Enfermaria, Prisão e Casa Mortuária; e Irene Lisboa com Começa Uma Vida e Voltar atrás para quê?, e Esta Cidade!; e é João de Araújo Correia, que nos Contos Bárbaros e Contos Durienses tem da melhor prosa portuguesa. Além de todos, paira o vulto de Fernando Pessoa, já desaparecido há quase oito anos, e cuja obra ganha depois da sua morte a fama, o peso, e a influência que correspondem a um dos maiores momentos poéticos da literatura portuguesa. Mas estes homens, sem embargo da diversidade da sua temática, da sua inspiração estética, e dos seus feitios literários, assentam as suas raízes em valores de entre as duas guerras, norteiam-se por padrões estabelecidos, têm do mundo e das coisas uma visão já clássica. É romântico e por vezes sentimental o seu humanismo; é formal o seu realismo; no fundo, estão apegados à terra, e fincam-se em dados telúricos, mesmo quando procuram o universalismo; e são republicanos, democratas, por vezes socialistas. São homens que sentem a guerra: não são homens formados ou influenciados pelo desagregar geral que a guerra provoca.







Mas agora surge uma nova geração que faz penetrar na comunidade portuguesa novas correntes estéticas, novas atitudes perante o mundo, novos valores sociais. Chegam lentamente a Portugal influências desencontradas, algumas com anos de vivência, e que são oriundas de Inglaterra, da França, dos Estados Unidos, do Brasil, de outros mundos literários ainda. São lançados jornais e revistas que reflectem uma agitação mental em novas coordenadas: O Diabo, o Sol Nascente, a Altitude, o Pensamento: mas todas têm uma vida lábil. E agora desponta um grupo de vanguarda que através do fenómeno literário tenta enquadrar os problemas portugueses em termos do mundo que julga antever para amanhã: e os seus membros a si próprios se intitulam neo-realistas. São os homens dos Cadernos Azuis, do Novo Cancioneiro, dos Novos Prosadores. Não pelo estilo mas pelo pensamento a que obedece, surge como neo-realista Castro Soromenho que, há pouco regressado de África, traça em Nhari, em Rajada, em Homens sem Caminho, um quadro da paisagem humana negra em que esta é tratada de um prisma africano e não europeu. E é Fernando Namora que, de As Sete Partidas do Mundo ao Fogo na Noite Escura, faz a transição do presencismo para o neo-realismo. Carlos de Oliveira, com a sua Casa na Duna, é já plenamente neo-realista; Virgílio Ferreira apresenta-se formalmente numa fronteira indefinida entre a nova escola e o ficcionismo clássico; e Manuel do Nascimento, Joaquim Ferrer, Marmelo e Silva, outros ainda, dão impulso ao neo-realismo. Na poesia, é neo-realista Manuel da Fonseca que em Planície e Rosa dos Ventos desfralda uma bandeira de protesto, conceptualmente primária mas vigorosa no seu subjectivismo lírico, contra a sociedade constituída e os seus valores; e Armindo Rodrigues e João José Cochofel apresentam a sua poesia à luz de idêntica inspiração. De uma geração anterior é José Gomes Ferreira: mas a sua poesia, desdenhosa, violenta e sarcástica para com a realidade exterior, apenas é admirada em círculos restritos.

E todos estes homens, na sua insubmissão, na sua revolta, na sua crítica, na sua visão dialéctica do mundo, reflectem uma comunidade internacional que se desagrega, acusam padrões morais e psicológicos que se afundam, condenam hábitos e mentalidades que julgam pertença exclusiva do passado. E as suas criações são propagadas pela imprensa, discutidas pela crítica, lidas pelo público, sem interferência dos serviços de censura. Limitam-se, todavia, porque põem as suas faculdades criadoras ao serviço apologético de um credo político-social preciso. Nem por isso deixam no momento de produzir em algumas camadas um choque psicológico que não chega no entanto a permear o país.»

Franco Nogueira («Salazar, As grandes Crises, 1936-1945», III).

 




Ver aqui, aqui, aqui e aqui

«É interessante (...) o percurso das relações entre o adido de Imprensa Mircea Eliade e o regime político de Portugal, em particular a relação com Salazar, a quem dedicou um livro. Salazar aparece pela primeira vez no Diário Português logo na primeira página, no comício de 28 de Abril de 1941. Eliade fica impressionado com a calma com que ele se dirigia à multidão em delírio: “De qualquer modo não lhe era prisioneiro, nem sequer se deixava sugestionar por ela”, escreve. A lucidez e a calma académica de Salazar impressionaram realmente todos que o viram, e esses traços impediram a sua assimilação ao resto dos ditadores europeus, habituados mais a excitarem as multidões que a convencerem-nas racionalmente (a diferença de estilo do comportamento é sublinhada, aliás, na apresentação das cartas credenciais, a 30 de Abril de 1941).

A visita ao Senhor Presidente tem lugar a 7 de Julho de 1942, um mês e pouco depois de ter acabado o livro sobre ele e alguns dias depois de Eliade ter decidido, de qualquer modo, ir “de licença” a Bucareste. O encontro é organizado pelo amigo António Ferro, que era impossível, penso eu, não saber do fim do livro e, provavelmente, da iminência da partida. Se a minha hipótese estiver correcta, não é Eliade que parte para Bucareste para transmitir a mensagem de Salazar a Antonescu, mas antes Salazar e Ferro que aproveitam a ocasião para enviar uma mensagem a Antonescu. Talvez tenha sido essa também a sensação de Eliade e por isso registou nas Memórias uma versão diferente da mensagem que está no Diário Português, nomeadamente uma em que a intenção política é mais forte e torna-se até uma advertência ou, lida retrospectivamente, uma trágica previsão. Realmente, se Eliade transcreve ad litteram nas Memórias fragmentos do Diário, precisamente a mensagem não foi transcrita, mas sim reescrita, talvez por ter sido separada da folha de papel que Eliade quis levar com ele para Bucareste como memento, mas que mais tarde, por prudência, aprendeu de cor e destruiu.

No Diário, Salazar pergunta-lhe se na Roménia “está a surgir um ‘espírito de frentismo’, que sozinho poderia salvar o país depois da guerra, porque seria a única organização totalmente espontânea”. Aliás, o sacrifício seria inútil, como se viu em França a seguir à Primeira Guerra, quando a antiga unidade se dividiu em partidos diferentes. Interessante pergunta, que ninguém se colocava na Roménia, onde nem Antonescu, nem Maniu [político democrata romeno] sabiam pensar politicamente a longo prazo. A pergunta implica, obviamente, o conselho de que deveria ser concebido um tal “espírito de frentismo”, mas Salazar não dirige esse conselho a alguém em especial e não sugere como é que ele se deveria fazer. Eliade não menciona no Diário o que lhe respondeu, mas nas Memórias, depois de escrever que Salazar lhe transmitiu de maneira “engenhosa” “uma mensagem pessoal [...] para o marechal Antonescu”, resume o discurso de Salazar da seguinte maneira: “Se estivesse no lugar dele, diria Salazar, manteria no país o máximo de tropas possível. O Marechal  não é um político; não ganhou a posição que tem através do apoio de um partido político; a sua única força é o Exército. Então porque dissipá-lo pelas estepes da Rússia? Ao mantê-la no país, ou o mais perto das suas fronteiras, podia apoiar-se no Exército para poder enfrentar as dificuldades.” No fim da mensagem assim reconstituída, Eliade acrescenta: “Evidentemente, Salazar sugeria ao Marechal que seguisse o exemplo da Finlândia”, mas, acrescenta Eliade numa nota de rodapé, é “inútil discutir aqui em que medida poderia ser imitada a política do marechal Mannerheim”.



Se Mircea Eliade não traduziu na altura, mas sim redigiu, ou seja rescreveu a mensagem de Salazar, significa que havia nele deslizes do pensamento político da antiga simpatia pelos legionários para uma nova simpatia por Antonescu, tal como podemos descobrir também no livro sobre Salazar. Só assim se poderá explicar a dificuldade de admitir, na nota acima mencionada, que Antonescu pudesse imitar Mannerheim: a tese oficial de Antonescu era que tal imitação não era possível (para ele nem sequer desejável), e precisamente essa tese, penso eu, recorda Eliade no momento em escreve as Memórias. Por outro lado, se nos últimos meses antes da partida para a Roménia, Eliade teve realmente, segundo acredito, dúvidas em relação ao Estado cristão e unitário de Salazar, então é fácil acreditar que da utopia cristã originária tinha restado apenas um “autoritarismo saudável”, baseado na “dignidade nacional, equilíbrio, paz interna” e economia sólida, termos que também aparecem na descrição da mensagem no Diário. Ora, é mais uma vez evidente que esses valores, hoje em dia mais depressa laicos, embora ainda tenham uma pigmentação religiosa (“o papel dos católicos”), só Antonescu é que os podia aplicar na Roménia. Conclusão: Eliade transforma a mensagem mais geral e europeia de Salazar numa mensagem romena para Antonescu, redigida nos termos que esse, aliás, já sabia, mas que, vindos de Salazar, tinham um peso maior do que se viessem da oposição da Roménia. Ao redigi-la dessa forma, Eliade não só se aproximava de Antonescu, mas também se aproximava da oposição, emprestando-lhe, de facto, a lógica e a linguagem.


O Rei Miguel I e Antonescu na fronteira, no rio Prut, observando a mobilização do exército romeno em 1941.


Estandarte de Ion Antonescu

Em Bucareste, Eliade não consegue ver o Marechal – nem deixa a impressão de o ter procurado muito insistentemente –, mas apenas Icã Antonescu. A descrição da conversa nas Memórias e no Diário Português é quase a mesma palavra por palavra e dá o mesmo retrato de um Icã medíocre e suficiente. No Diário: “Entendi que a ideia de Salazar – o espírito de frentismo – não lhe convinha, porque: ‘nós sabemos como são os militares, têm espírito pragmático’, e não conseguem dirigir um país” (Julho, Bucareste). Nas Memórias: “Transmito a ‘mensagem’ dirigida por Salazar ao Marechal, mas com alguma dificuldade, porque estava a interromper-me. [...] Da maneira como me falou dos militares (‘Têm espírito pragmático e não sabem conduzir um país’) duvido que comunique ao Marechal a ‘mensagem’ de Salazar".



Mas o que transmitiu exactamente Eliade a Icã? A necessidade do “espírito de frentismo”, segundo o Diário, ou a “mensagem” (interessante, entre aspas no texto) mencionada nas Memórias? A descrição da conversa com Icã segue, portanto, em cada livro, uma outra temática da mensagem. E, novamente, será que Eliade transmitiu algo das mensagens londrinas que lhe entregou Tilea? Parece que não, talvez por elas serem demasiado confidenciais para chegarem a Icã. De qualquer modo, independentemente da versão que foi transmitida, o resultado foi nulo. Descobrimos aqui um grande contraste entre a elaboração sob pressão da mensagem por Eliade nos diálogos iniciais com Tilea (em Londres) e Salazar, ou em casa, nas suas próprias reflexões e o cuidado com que as transcreve, e o seu “esvaziamento” absoluto perante a obtusidade de Icã Antonescu.

Bandeira das Forças Armadas da Roménia, em frente e verso.

Detalhei tanto esse episódio porque é o único em que Mircea Eliade tem a ilusão de que pode transmitir realmente algo entre os dois mundos onde vive, algo de útil para a Roménia e, talvez, para Antonescu pessoalmente. Perante Icã, Eliade entende mais ou menos o mesmo que tinha entendido perante Pamfil Seicaru: a falta total de sentido político da classe política romena, a sua incapacidade de pensar coerentemente ou pelo menos de ouvir os outros, o desinteresse e a ineficácia em conceber uma alternativa real. A análise dos textos de Eliade deixa a impressão de que ele se tinha movimentado politicamente para uma posição pós-legionária e de aproximação prudente do Marechal e da oposição, mas que a conversa com Icã o desmobilizou definitivamente. Deixou de tentar, pelos vistos, falar com o Marechal Antonescu e, regressado a Lisboa, não confirmou a Salazar, como seria de esperar, que tinha entregue a mensagem, em qualquer das versões. Provavelmente porque esperava que Salazar lhe pedisse uma resposta, e não tinha nenhuma. Lá está uma iniciativa inteligente em si, mas que, tipicamente para as classes políticas romenas de sempre, falha por falta elementar de compreensão do outro e de prosseguimento com ele de um diálogo eficiente. É pena, certamente, Eliade não ter perseverado, mas não teve nem tempo, nem outra ocasião.»

Sorin Alexandrescu (Estudo introdutório in Mircea Eliade, «Diário Português [1941-1945]»).




DIÁRIO PORTUGUÊS

(...) 7 de Julho [de 1942]

Ontem à noite ligou-me António Ferro, para me dizer que hoje vou ser recebido em audiência por Salazar. O dia está quente, e embora comece a procurar um táxi às 4, até às 5 não encontro nenhum. Cheguei ao Palácio de São Bento a correr e com a boca seca de emoção; não porque me iria encontrar com Salazar, mas porque estava com receio de chegar atrasado. Subo as escadas à pressa. O porteiro pergunta-me onde ia: «Ao Senhor Presidente». Mostra-me a escada do fundo: «Segundo andar, direito». Assim se entra em casa do ditador de Portugal. Encontro no segundo andar alguns empregados, que me encaminham para o gabinete de Salazar. Aguardo dois minutos na antecâmara e peço um copo de água para poder falar. Salazar ainda não acabou o encontro com uma comissão de administradores coloniais. Depois entro e recebe-me ele próprio à porta, pronunciando muito correctamente o meu nome.

Um gabinete modesto, com uma secretária de madeira, sem papéis em cima, e à sua esquerda uma mesinha onde está o telefone. Falando comigo, Salazar muda de quando em quando a posição do telefone. São os únicos gestos.

É menos rígido visto de perto. Quando ouve, fecha um pouco os olhos, e o rosto ilumina-se-lhe de bondade. Há algo de cândido, fresco, virginal nessa cara bem talhada e tão masculina. Os seus olhos são húmidos, sombreados, e parecem olhar-nos de muito longe; por vezes, escorregam por nós, passando além. Tem uma voz cálida, única, diferente da voz que tantas vezes ouvi na rádio. Fala bastante bem francês, com sotaque português, procurando às vezes as palavras. Mas não parece nada incomodado pelas limitações da sua conversa em francês.

Ouve com interesse o que lhe digo. Pergunta-me o que fiz na vida até à data: sobre a Índia, a universidade, a literatura, a minha experiência portuguesa. Falo-lhe sobre o livro que escrevi e parece surpreendido pela minha informação histórica. Tem um grande talento para ouvir, encorajando o outro, pela expressão da cara e pelos gestos, a expor o seu pensamento. Quando lhe apresentei as minhas opiniões acerca de Camões, da capacidade infinita de assimilação do espírito latino – deu-lhes atenção, considerou-as fundadas, mas voltou a discussão ao ponto de partida.

Faço-lhe várias perguntas, às quais responde com amabilidade. Uma delas: o momento histórico da revolução do Estado Novo dá-se logo depois de consumida a última fase de decomposição da estrutura democrata-liberal. (Esta frase soa horrível, mas os leitores do meu livro sobre Salazar sabem o que quero dizer!) Não será a revolução do Estado Novo uma consequência fatal desse processo de decomposição? Ou, dito de outra forma, seria possível o Estado Novo se a velha construção democrata-liberal não tivesse entrado em decomposição? Teriam sido possíveis a revolução e Salazar se a república não tivesse conhecido todas as fases, do entusiasmo inicial à anarquia final?



Resposta de Salazar:

O mal é criativo. O simples facto de que algo desaparece não implica a aparição de outra coisa nova viva no seu lugar. Obviamente, o momento histórico tornou possível a revolução – mas não a criou. A democracia entrou em decomposição também noutros países (por exemplo, o caso da França depois da derrota), mas porque não havia ali os germes de uma outra ordem social, seguiram-se o marasmo e a indiferença, e não a revolução. (Escreverei estas coisas, por extenso, num livro que irei publicar sobre a conversa com Salazar).

Salazar pergunta-me se na Roménia está a surgir um «espírito de frentismo», que sozinho poderia salvar o país depois da guerra, porque seria a única organização totalmente espontânea, suprapartidária. Os dirigentes da Roménia têm uma grande responsabilidade: porque perder este «espírito de frentismo» seria muito mais grave mesmo do que os sacrifícios de sangue que provocaram. O caso da França, depois da outra guerra, que não soube organizar esse espírito, deixou-o dissipar-se pelos vários partidos, perdeu a única oportunidade de refazer a unidade do país – e os resultados viram-se em 1940.

Acredita muito nas elites. Não é necessário que uma revolução seja compreeendida e apoiada pelas massas. Uma elite é suficiente para transformar o país. As massas apenas são sensíveis a algumas constantes: a dignidade nacional, o equilíbrio, a ordem interna, etc. – e, se essas fossem respeitadas, as massas aderem a qualquer revolução.

A imensa importância que o crédito interno pode ter. As poupanças dos Portugueses, como as suas grandes fortunas, estavam todas no estrangeiro. No momento da crise internacional, ao verem que o escudo resiste, enquanto a libra baixava, todas essas fortunas regressaram ao país. Portugal foi o único que ganhou com a crise. Mas não se pode dizer que foi «o momento histórico» que fez isso, porque, se não tivesse havido um equilíbrio interno (alcançado com esforços e sacrifícios), as economias não teriam regressado ao país.

Fala também dos católicos e dos integralistas.

A audiência estava marcada para quinze minutos, mas quando o secretário veio anunciar que tinha acabado o tempo, Salazar fez-lhe um sinal com a mão. Voltou aos trinta minutos; o mesmo sinal. Enfim, aos cinquenta e cinco minutos, já eu estava a dar sinais de impaciência e tive de me levantar várias vezes. Então Salazar levantou-se, algo bruscamente. Desejou-me boa viagem e apertou-me a mão com bastante serenidade.

Lá fora, na sala de espera, encontrei, exasperado, Castérau que tinha audiência às 5.30.

(In Mircea Eliade, Diário Português [1941-1945], Guerra e Paz Editores, 2007, pp. 63-65).




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