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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

D. Filipa de Lencastre

Escrito por Fernando Pessoa













Que enigma havia em teu seio
Que só génios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?

Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Gral,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!

Mensagem




Cruz de Aviz



Núpcias de D. João I e D. Filipa de Lencastre


Mosteiro de Santa Maria da Vitória


Capela do Fundador - o Repouso dos Infantes

Brasão de Aviz




terça-feira, 29 de outubro de 2019

O Desejado

Escrito por Fernando Pessoa










Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!

Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo, 
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia Nova.

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Gral!

Mensagem



Galaaz descobre o Graal, por Edwin Austin Abbey (1895).



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Do lugar inlocalizável do eu

Escrito por Fernando Pessoa








Brincava a criança
Com um carro de bois.
Sentiu-se brincando
E disse, eu sou dois!

Há um a brincar
E há outro a saber,
Um vê-me a brincar
E outro vê-me a ver.

Estou por trás de mim
Mas se volto a cabeça
Não era o que eu qu'ria
A volta só é essa…

O outro menino
Não tem pés nem mãos
Nem é pequenino
Não tem mãe ou irmãos.

E havia comigo
Por trás de onde eu estou,
Mas se volto a cabeça
Já não sei o que sou.

E o tal que eu cá tenho
E sente comigo,
Nem pai, nem padrinho,
Nem corpo ou amigo.

Tem alma cá dentro
'Stá a ver-me sem ver,
E o carro de bois
Começa a parecer.






sábado, 15 de dezembro de 2018

As ilhas afortunadas

Escrito por Fernando Pessoa







Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutamos, cala,
Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando,
Cala a voz, e há só o mar.

Mensagem




sábado, 9 de dezembro de 2017

Padrão

Escrito por Fernando Pessoa




Réplica do Padrão colocado por Diogo Cão no Cabo da Cruz, actual Namíbia.



O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

Mensagem













sábado, 4 de novembro de 2017

A obra de arte é filha de pai...

Escrito por Fernando Pessoa







Meu querido Teixeira de Pascoaes:

Muito lhe agradeço o exemplar do seu Livro de Memórias, que ontem recebi mas só hoje pude ler. Dizer-lhe que o li com inteiro agrado seria mentira.

Aprecio, como ninguém, as suas altíssimas qualidades de intuição e de sentimento intelectualizado. Mostrei sempre, por palavras ditas e escritas, que as aprecio. Reconheço - mais - que dificilmente haverá hoje no mundo - dentro dos limites das literaturas que conheço, e dos autores que, a dentro delas, não ignoro - quem, como o Pascoaes, tenha tão interpenetradas as qualidades intelectuais e as emotivas, e pois tão espontaneamente sinta com o pensamento e pense com a emoção. Mas também não ignoro que essa faculdade andrógina da alma, sendo grande quando se possui ao nível em que a possui o Pascoaes, não é mais que a base, a mãe, ou, se preferir, a matéria, para sobre ela se fundar, nela fazer ou com ela se fabricar a obra de arte definitiva. E a obra de arte é filha de pai, ou de um pensamento formativo, que esculpe a matéria bruta da emoção (impensada ou pensada), ou de uma emoção intensa, que orquestra em unidade a dualidade essencial do pensamento.

São admiráveis as frases nascidas espontaneamente da sua admirável intuição; porém o Pascoaes di-las duas, três, quatro, cinco e mais vezes; repete-se e sobrerepete-se, e, sendo a essência da impressão estética produzida pela intuição e pasmo, não repara que, repetindo-se, o pasmo cessa, porque cessa a novidade.

Por isso os poetas passam e os artistas ficam. Ouso quase dizer que os artífices talvez fiquem mais que os poetas. Falo deste mundo, da glória que há nele, e da acção que nele se emprega. Não duvido de que a emoção do poeta possa viver mais do que a arte do artista em outras esferas, noutros mundos, em outros planos, como dizem os ocultistas menores (in Correspondência, 1923-1935, Assírio & Alvim, 1999, pp. 144-145).











Ver aqui



segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Mar Português

Escrito por Fernando Pessoa







Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem de passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Mensagem






domingo, 3 de abril de 2016

António Vieira

Escrito por Fernando Pessoa








O céu 'strela o azul e tem grandeza
Este, que teve a fama e à glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.

No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.

Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo, 
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.

Mensagem






quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

D. Afonso Henriques

Escrito por Fernando Pessoa







Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam
A bênção como espada,
A espada como bênção!

Mensagem





quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O Infante D. Henrique

Escrito por Fernando Pessoa







Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras -
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.

Mensagem



Cabo de São Vicente, na freguesia de Sagres e a 4 km a norte da Ponta de Sagres.




Rosa-dos-Ventos da Fortaleza de Sagres





Rosa-dos-Ventos da carta náutica de Jorge de Aguiar (1492), com abreviaturas dos ventos nos principais rumos, à excepção do Norte e Leste.



Rosa-dos-Ventos a indicar o norte com a flor-de-lis e a direcção da Terra Santa Cristã (O Leste) com uma cruz. Esta Rosa-dos-Ventos encontra-se no Planisfério de Cantino (1502), um dos mais antigos mapas que retratam as costas brasileiras recém-descobertas.







quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Autopsicografia

Escrito por Fernando Pessoa








O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Cancioneiro






quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Alberto Caeiro e o Menino Jesus

Escrito por Fernando Pessoa







«O meu olhar é nítido como um girassol...».

Alberto Caeiro


«(...) o sentimento da natureza tem hoje duas formas essenciais: é, por um lado, o sentimento estético da paisagem ou, mais precisamente, o sentimento fotográfico da paisagem; é, por outro lado, o sentimento higiénico das forças naturais, a pele queimada pelo sol, o ar puro dos pinheiros. Nestes dois aspectos se configura o desejo de um regresso à natureza numa humanidade lassa, fabril, ou febril, burocrática, vazia.

É curioso verificar que um grande poeta e um grande homem, Fernando Pessoa, não escapou, no modo como concebeu a vivência paradisíaca da natureza, ao fascínio fotográfico da paisagem, próprio de qualquer vulgar turista de fim-de-semana. Referimo-nos a Alberto Caeiro. Através deste herenónimo, Fernando Pessoa parece ter pretendido, entre outras coisas, resgatar a natureza de um romantismo que a personifica e macula de alma e de sentimento. Cai, porém, no engano de que é olhando as coisas em plena luz, na sua maior nitidez próxima, bem de frente, de chapa, que elas se revelam. Essa coisa, quase impossível, de querer ver o mundo do sol e de fixar as formas desse mundo por uma operação instantânea, em que não está o pensamento, constitui a consequência de uma superior teoria poética, que podemos resumir assim: não há natureza, o que há são coisas - as árvores, os montes, as pedras, os rios, as flores; "as coisas não têm nome nem personalidades", são o fenómeno puro, o fenómeno em si próprio, o autofenómeno; estão absolutamente presentes no próprio "aparecer".

Todavia, sob esta teoria interpretável à luz do "nominalismo" ou do "zen" ou da fenomenologia de Husserl, insinua-se o paradigma fotográfico. É assim que o poeta escreve que as coisas se revelam "em dias de luz perfeita e exacta", quando "a natureza bate de chapa na cara dos sentidos". Quase ouvimos o disparar da máquina. A impressão pura de luz no "olhar nítido como um girassol" não sofre a inversão nem se projecta numa câmara escura. A revelação é imediata sem passagem pelo negativo. A natureza é a paisagem, uma película luminosa de cor. Mas dentro, no interior da alma, também não há sombras; "Tive um sonho como uma fotografia". O célebre poema de Alberto Caeiro poderia ser todo traduzido sem erro ou distorção na forma de uma película cinematográfica».

António Telmo («História Secreta de Portugal»).






«(...) "... tive um sonho como uma fotografia..." Claro que se não trata de um verso e o que nele se significa, e resume todo o sentido do poema, é ainda menos poético do que as palavras em que está dito. Perante o cadáver real de António, ali presente nos seus braços, Cleópatra sonha com "um imperador que também se chama António", isto no que é, talvez, o mais belo poema de Shakespeare que Pessoa tanto queria para modelo. Transitar da realidade ao sonho é, sim, sinal de poesia. Mas o contrário? E, para mais, não à realidade mas à fotografia, aos "fotógrafos" como Almada dizia de certos pintores realistas e abstractos...».

Ernesto Palma («A Inflação de Fernando Pessoa»).




«(...) Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única essência é não pensar...»

Alberto Caeiro



«Há sistemas para todas as coisas que nos ajudam a saber amar, só não há sistemas para saber amar!»







Alberto Caeiro e o Menino Jesus

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso de mais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter mãe e pai
Como as outras crianças -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
«Se é que ele as criou, do que duvido» -.
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres».

E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam  fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o completamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno,
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

(in Poesias. Heterónimos, Porto Editora, pp. 37-42).


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Judaísmo, cabala e maçonaria

Escrito por Fernando Pessoa 








«O pensamento é um acto que não se socializa».


«(...) Creio que o paganismo representa a mais verdadeira e a mais útil das fés; creio mesmo que não representa uma fé, mas uma visão intelectual da verdade».

«(...) Mais que propriamente o dos neoplatónicos, meu é o paganismo sincrético de Julião Apóstata».

«(...) Há, por fim, a iniciação divina. Esta, não a dão nem exotéricos ou esotéricos menores, como a exotérica, nem até Mestres ou Esotéricos Maiores como a esotérica; vem directamente, e por cima destes todos, das mesmas mãos do que chamamos Deus».



«A distinção das sociedades iniciáticas em três funções e em três formas é muito clássica. Encontramo-la, por exemplo, em Fernando Pessoa. No Caminho da Serpente, Pessoa distingue três Ordens: uma Ordo Serpentis, uma Ordo Solis, e uma Ordo Sebastica, que seria "oculta e sem exterior"».

«(...) As sociedades verdadeiramente esotéricas, colegiais na maior parte dos casos, são concebidas como verdadeiros laboratórios de pesquisa. Conduzem os seus adeptos às fases terminais das Vias Reais; Via do Despertar; Via do Corpo de Glória, Via da Pedra ao Rubro, Via Essencial, Via Extrema, as expressões são muitas para designar essa fase onde o indivíduo, liberto de tudo o que é humano, liberto até da libertação, acede realmente à imortalidade consciente e torna-se um deus, relativamente ao seu antigo estado humano. Neste nível, é quase deslocado falar de organizações ou de sociedades, criações humanas; os termos "Assembleia" (ekklesia), de "Ordo", no sentido sacerdotal do termo, seriam mais adequados. As ordens internas verdadeiras são, na sua maioria, estruturas "flutuantes" que vão e vêm, aparecem aqui e ali, passam com facilidade de uma forma a outra. Integraram a impermanência como modo de funcionamento estrutural. Na realidade, não existem verdadeiramente escolas esotéricas, mas sim Linhagens, nas quais a relação entre o Mestre (aquele que domina a arte e a disciplina, e que pode ser um colectivo) e o aluno, ou Discípulo (aquele que aplica a disciplina para atingir a arte), constitui a base desse trabalho terminal e muito interno. Os nomes dessas Linhagens, Assembleias e Ordens "Serpentinas" aparecem e desaparecem, são raramente pronunciados; permanecem desconhecidos, mesmo dos historiadores do Esoterismo».

«(...) Ergon ou Parergon, um pelo outro, o outro pelo um, o Raio de Elias Artista sela aquilo que é cumprido in Christus; Christus não devendo ser aqui entendido no seu sentido religioso, o ungido que religa, mas no sentido solar de Absolutidade...».

Rémi Boyer («A Tradição Maçónica e o Despertar da Consciência»).






Ahura Mazda



Zoroastro e Ptolomeu (A Escola de Atenas).







«Entre os Egípcios, como entre os Persas da religião mazdeana de Zoroastro, como depois de Jesus, em Israel, como para os cristãos dos dois primeiros séculos, a ressurreição foi interpretada de duas maneiras: uma material, absurda; a outra espiritual, teosófica. A primeira é uma ideia popular, adoptada pela Igreja, depois da repressão do gnosticismo. A segunda é a ideia profunda, a ideia dos iniciados. No primeiro caso, o corpo material volta à vida, o que é, numa palavra, a reconstituição do cadáver decomposto ou disperso. Isso era o que se supunha que iria acontecer com a volta do messias no dia do juízo final. É inútil acentuar o materialismo grosseiro e absurdo de tal concepção.

Para o iniciado, a ressurreição tinha um significado diferente: ela relacionava-se com a doutrina da constituição  ternária do homem, significando a purificação e a regeneração do corpo sideral, etéreo e fluídico, que é o próprio organismo da alma e de algum modo a cápsula do espírito. Essa purificação pode ocorrer desde esta vida, pelo trabalho interior da alma e um certo modo de existência. Para a maioria dos homens, ela só se efectua depois da morte.

(...) Visto do exterior e do ponto de vista terrestre, o drama messiânico termina na cruz. Embora sublime, falta-lhe o cumprimento da promessa. Visto de dentro, do fundo da consciência de Jesus, do ponto de vista celeste, ele tem três actos. A Tentação, a Transformação e a Ressurreição marcam os pontos altos. Em outros termos, essas três fases marcam: a iniciação do Cristão, a revelação total e o coroamento da obra. Correspondem àquilo que os apóstolos e os cristãos iniciados dos primeiros séculos chamaram os mistérios do Filho, do Pai e do Espírito Santo».

Eduardo Schuré («Os Grandes Iniciados»).


«Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida»; «Ninguém vai ao Pai senão por mim»; «Aquele que não colhe comigo, desbarata»; «Sem mim, não podeis fazer nada».




Idealidade Judaica, Cabala e Maçonaria


A idealidade judaica manifesta-se de três formas diferentes, todas elas eivadas do materialismo central da raça, ritmo do pêndulo da vida que a anima. A primeira forma é o seu patriotismo tradicionalista; e patriotismo tradicionalista, seja de que nação for, é o modo mais material do sentimento da prática ou da raça. A segunda forma é a especulação cabalística, em que, embora se pretenda subtilizar, por interpretações de três ordens, o conteúdo do Pentateuco, e de mais que o Pentateuco, nunca se atinge uma vera abstracção ou uma espiritualidade verdadeira: material, considerando o que pretende ser, é ainda o Nome Inefável, materiais os Sephiroth, os Arcanjos, os Anjos e as Esferas Celestes, através de quem vem até nós a Sua emanação. A terceira forma – não mais recente, mas mais recentemente sensível – é o idealismo social em todos os seus modos, desde o igualitarismo até ao naturismo; e essa é material por sua mesma natureza.










São estas as três formas da idealidade judaica, e, embora todas manifestem o materialismo central da raça, não são materiais em seus intuitos; não há por isso que duvidar da sinceridade daqueles judeus em quem os vemos. Do tradicionalismo rácico, é certo, ninguém duvida ou duvidou; aliás, os anti-semitas não têm nem tiveram senão vantagem em aceitá-lo. As outras duas formas têm sido diversamente consideradas pelos inimigos dos judeus: a primeira como sincera na origem mas não em certos modos do seu uso, a segunda como insincera; e como ambas elas servindo – uma por utilização, outra por invenção – para desintegrar e dissolver a civilização cristã, em a qual os judeus adversariamente vivem.

Acusam os cabalistas, de cuja sinceridade original se não duvida, de, primeiro através da Rósea Cruz, terem criado a Maçonaria, Ordem supostamente anticristã, e de, mais tarde, por diversas vias, se terem infiltrado nela, para, presumivelmente, contrariar e vencer as expansões cristã e templária que se manifestaram, depois da Oração de Ramsay, na criação dos Altos Graus e sobretudo da Stricta Observância de von Hund ou dos seus Superiores Incógnitos. Acusam os idealistas sociais de, por meio de doutrinas igualitárias, para tal fim inventadas, pretenderem mergulhar, e de facto estarem mergulhando, a sociedade aristocrática que é a de Europa na decadência e na anarquia, para, evidentemente, sobre os escombros construírem o Reino e o Reinado de Israel. E acusam a Maçonaria de ter provocado a Revolução Francesa e os judeus de terem provocado a Revolução Russa.

Antes de mais, entendamo-nos bem sobre qual é a matéria de que se está tratando. Trata-se do idealismo judaico e da sua sinceridade ou não sinceridade; não se trata da acção política dos judeus. Essa é evidente e natural; tem-se aproveitado, não só da Maçonaria e da Ideologia igualitária, mas de tudo quanto, de origem judaica ou não judaica, possa de facto, devidamente utilizado, servir para dissolver a civilização tradicional, Greco-Romana e Cristã, da Europa e do mundo europeizado. E legitimamente se tem aproveitado, pois aos judeus assistem os mesmos direitos que aos outros povos: o direito de defesa e o direito de império – o primeiro em absoluto, o segundo se o concedemos aos outros. Nem foram os judeus, ou a Maçonaria, ou qualquer outra força estranha, que provocou ou poderia provocar, a Revolução francesa, ou a Revolução russa, ou qualquer outra verdadeira Revolução. As revoluções são provocadas pelo Poder tirânico que as torna, passado certo ponto, inevitáveis. Foi a tirania do Czarismo que fez a Revolução russa. As forças estranhas não fizeram mais que aproveitar-se, conforme puderam, da matéria social incoordenada em que as tiranias, depois das revoluções que provocaram, deixaram os povos que regiam.



Origens da Maçonaria






O problema das origens da Maçonaria, e sobretudo do Grau de Mestre, que é o seu futuro, é confuso e obscuro, ao último ponto: ninguém fora ou dentro da Ordem, se pode orgulhar de ter achado para ele uma solução, simples ou composta, que satisfaça senão a quem a deu. Uma coisa, porém, se pode afirmar: a Maçonaria não é uma Ordem judaica, e o conteúdo dos graus fundamentais, que vulgarmente chamam simbólicos, não é judaico em espírito, mas só em figura. Se se quiser dar um nome de origem à Maçonaria, o mais que poderá dizer-se é que ela é, quanto à composição dos graus simbólicos, plausivelmente um produto do protestantismo liberal, e, quanto à redacção deles, certamente um produto do século dezoito inglês, em toda a sua chateza e banalidade. O quadro judaico dos três graus e o cenário judaico do drama do Terceiro podem ser considerados naturais em uma terra e um tempo protestantes. O protestantismo foi, precisamente, a emergência, adentro da religião cristã, dos elementos judaicos, em desproveito dos greco-romanos; por isso se serviu ele sempre abundantemente de citações, tipos e figuras extraídos do Velho Testamento. Ninguém crê, porém, ou diz que a Reforma, pense-se dela o que se pensar, fosse um movimento judaico.


Ordem do Templo e Rosa-Cruzes

À parte disto, os dois primeiros graus maçónicos, menos simbólicos que emblemáticos, não conduzem definitivamente a coisa nenhuma; e o grande mistério do grau de Mestre – que é, por assim dizer, a Rosa de toda a Cruz Maçónica – é um símbolo vital mais abstracto, que cada qual pode interpretar no sentido que entender. E assim de facto se tem interpretado – a ele e à parte simbólica dos outros dois – através do vasto esquema divagativo dos Altos Graus e dos Graus Velados – estes, aliás, já fora e além da Maçonaria. Tudo, desde o catolicismo ao ateísmo, se tem reflectido nesses graus interpretativos. Se há Altos Graus que são nítida e materialmente cabalísticos, e até anticristãos, também os há que são espirituais ou cristãos, desde o sobregrau do Sacro Real Arco até àquele grau crípto em que Hyram é erguido como Cristo. Sucede, até, que o mesmo grau do mesmo rito pode ter conteúdos diferentes sob diferentes Obediências: assim é que o Grau 18, propriamente Príncipe Rosa-Cruz, do Rito Escocês, é «filosófico», na América (depois da reunião de Pike), menos talvez que «filosófico» na Maçonaria francesa e suas congéneres, mas plenamente cristão (como aliás não poderia deixar de ser) sob as Magnas Obediências britânicas. Em resumo, nada e tudo se tem reflectido na Maçonaria: nada nos graus simbólicos, que de per si se não explicam; tudo nos Altos Graus e nos Graus Velados, onde cada fabricante de ritos, de católico a ateu, deixou o rastro dos seus preconceitos e das suas preocupações. Mais em resumo ainda: a Maçonaria é, nas suas bases, insuficientemente dogmática e definida para que o seu conteúdo se possa afirmar isto ou aquilo, judaísmo ou outra coisa qualquer.

A presença de elementos cabalísticos nos graus simbólicos, afirmada por alguns com vislumbres de razão, também não provou a origem judaica da Maçonaria. Quando a Maçonaria emergiu e se constituiu declaradamente, em seus graus fundamentais, já de há muito a Cabala tinha intérpretes não-judeus e por esses fora cristianizada, para o que, aliás, eminentemente se prestava. A presença de elementos cabalísticos na Maçonaria não prova, pois, uma origem judaica. De resto, esses elementos cabalísticos resumem-se em dois – o sentido simbólico do Templo de Salomão e a Palavra Perdida. O sentido simbólico do Primeiro Templo pode ser, na Maçonaria, de origem templária, e portanto cristã, pois a Ordem do Templo era-o «do Templo de Salomão», e não se sabem ao certo os pormenores da iniciação secreta nessa Ordem. Quanto à Palavra Perdida do Grau de Mestre, se de facto relembra o Nome Perdido do cabalismo judaico, não é necessariamente da mesma natureza. Sabe-se em que consiste a essência do Nome Perdido dos cabalistas; não se sabe que espécie de Palavra é que o Mestre morreu para não revelar. A maior autoridade maçónica de hoje interpreta a Palavra Perdida de um modo nitidamente não judaico: Verbum Christus est, diz.






















O que acaba de dizer-se da Maçonaria, com mais forte razão se pode dizer dos Rosicrúzios, que, misturados com ela na antecâmara da sua vida emblemática, bem pode ser que a houvessem fundado, ou contribuído para a sua fundação, como sistema especulativo. A grande Fraternidade é cristã e católica (embora não-romana) nas suas dedicações. Os Rosicrúcios eram é certo, cabalistas, como eram em dois sentidos, alquimistas; mas eram cabalistas cristãos, como eram (sobretudo) alquimistas espirituais. Como vários outros, aproveitaram-se da Cabala e lhe deram um sentido e um complemento cristãos; por isso com mais razão se poderiam queixar os judeus de que os Irmãos se haviam servido da Cabala para fins antijudaicos, do que os cristãos de que eles tinham introduzido a Cabala na substância do cristianismo, onde, aliás, desde o Quarto Evangelho, já toda a alma dela existia. Acresce, quanto à Rósea Cruz, que os grandes expositores dela, desde antes do seu aparecimento até nossos dias, têm sido declaradamente místicos cristãos, e, ainda que, o voto de castidade absoluta, a que (por motivos que nada têm com virtude) a Fraternidade obrigou o candidato, é a coisa menos, judaica, embora «cabalista» que se pode conceber.


Budistas, Gnósticos e Rosa-Cruzes

Os dois ramos (aparentemente) mais notáveis da propaganda oculta, o Budismo Esotérico e os Rosa-Cruz, destinaram-se a preparar o mundo, cada um em sua esfera de acção, para a formação da Nova Jerusalém, ou verdadeira Igreja Católica. E, como operavam em regiões diferentes, e para crentes de religiões diversas, dispunham a sua propaganda do oculto de acordo com as redisposições e crenças desses. Assim sendo, sua doutrina essencial, como de todos os ramos do ocultismo, o Segundo Advento de Cristo e a fundação, com ele, da vera Igreja Católica, preparavam o estado de alma, só hoje definindo-se, para esse Advento e essa Fundação, de maneiras diferentes.

A Natureza de Jesus Cristo é dupla – para os ocultistas como para os teólogos cristãos. É a um tempo divina e humana. Para os teólogos e para os crentes cristãos, ambos exteriores à compreensão deste assunto, a dupla natureza entende-se de maneira diversa que para os ocultistas. Para estes, Jesus Cristo é ao mesmo tempo um Adepto, como o Buda, ou outro Iniciado qualquer, e o Filho de Deus, ou Logos, e, como tal, acima de qualquer nível de adeptismo. Como o primeiro é Jesus, ou Ieschu, e viveu na terra cem anos antes da época que no mundo cristão se supõe, sendo justa a interpretação dos hierólogos radicais – ressalvado o materialismo dela – de que os mitos cristãos se reuniram em torno da figura do Ieschu ben Pandira que foi enforcado e lapidado em Lyda, na véspera da Páscoa, no reinado de Alexandre Janneo. Como o segundo é Cristo, e não pertence a este mundo senão como Deus, que o criou, e é substância dele, lhe pertence. Os Gnósticos, que eram ocultistas, ou pelo menos místicos superiores, assim viram, mas separaram as duas naturezas, adorando só a divina, que lhe era necessariamente superior, e não a humana, que, quando muito, só em grau, que não em género, o poderia ser. Mas os Gnósticos foram condenados por herejes, e como herejes repulsos, e extintos, pelo menos aparentemente. Não foi porém a Igreja que os extinguiu assim, senão o Destino que fez a Igreja poder assim extingui-los. A ideia que apresentavam vinha fora do seu tempo, nem poderia servir aos fins dos Condutores do mundo, embora estes soubessem bem que era mais verdadeira que a que iria ser espalhada e desenvolvida entre as nações pela Igreja Católica.


Os Budistas, para trabalharem para a convergência dos homens para o Segundo Advento, apresentaram sempre Jesus aos seus sequazes como um Adepto, pois, se o apresentassem como Deus, ou como Deus e Adepto ao mesmo tempo, nem seriam compreendidos nem aceites pelas populações budistas. Precisavam manter nelas o respeito preparador de Jesus; fizeram-no pondo-o como respeitável no nível que seria compreendido. Só a Teosofia é que, finalmente, declarou o Segundo Advento, e, ainda assim, como deveras lhe compete, não insiste muito na outra face da Figura, na face transcendente e divina.

Os Rosa-Cruz, por outra parte, tendo de ministrar, embora veladamente, o mesmo ensinamento a outras populações, apresentaram-no de diverso modo. Não se referiram, senão de modo tão velado que só o compreendesse quem pudesse compreendê-lo, a Jesus, ao Adepto; apenas aludiram ao Cristo, ao Filho de Deus. Assim nada, no que diziam, feria a fé católica ou cristã dos seus leitores.

Do mesmo modo não aludiram os Rosa-Cruz, em seus escritos, claramente à doutrina da reincarnação, elemento físico do ocultismo todo. Tal doutrina, embora contida em verdade no verdadeiro cristianismo, não está nele dada esotericamente. Ensiná-la seria ferir as populações cristãs, erguer o ódio das Igrejas cristãs, prejudicar a preparação que os seus livros serviam de efeituar» (in António Quadros, Fernando Pessoa – Iniciação Global à Obra, Arcádia, 1982, pp. 182-189).