Mostrando postagens com marcador Agostinho da Silva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Agostinho da Silva. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

A Universidade, a nova Idade e o futuro governo universal em Agostinho da Silva

Escrito por Agostinho da Silva





«De Agostinho da Silva reuniu e publicou agora o universitário Paulo Borges, os escritos dispersos nos quais o discípulo, malgré lui, de Leonardo Coimbra tem deixado dito o seu recado que, de outros modos além dos escritos, andou transmitindo pelos quatro cantos do mundo consoante lho deixaram transmitir os baldões da sorte em que tem feito viver seus vivíssimos 82 anos. Porque Agostinho da Silva não é manifestamente, e ele o diz, um escritor embora tenha passado grande parte da vida a escrever. Tão pouco é, também ele o diz, um político, embora a iluminar políticos tenha em vão terçado suas armas. Não é, abrenúncio, um divulgador, embora se haja dedicado, com fama e excelência, a fazer saber ignorados clássicos e outros. E insiste, com suspeita insistência, em negar que seja o filósofo que muitos vêem nele e lhe chamam. Agostinho da Silva é o que não é. Quer dizer: para sabermos quem é Agostinho da Silva torna-se necessário saber o que ele não é. Estamos, pois, perante um exemplo vivo da “razão bastarda” que Platão cultivou, com e sem ironia socrática.

Relendo, mas agora em grosso volume, os seus escritos dispersos, algumas constantes encontramos nos desvarios (em sentido clássico) do nosso Homem. Primeiro, uma constante hoje vulgaríssima por ter passado, de pedra de toque de gente superior, a pasto de toda a canzoada institucional: a admiração sem limites por Fernando Pessoa que Agostinho sempre razoadamente bastardo, diz não ser admiração pelo poeta, menos ainda pelo pensador, mas pelo homem que, como ele mesmo Agostinho, entregou a vida aos baldões da sorte não aceitando emprego certo com inscrição sindical, medicina para a doença e pensão para a velhice. Se assim na verdade fosse, quanta gente teria então de admirar Agostinho, desde os ricaços que vivem além dos empregos certos, como aqueles com quem Agostinho tão bem se entende, até à multidão de auto-marginais e auto-segregados, uns e outros, em geral, bem pobres de espírito. Os paradoxos nem sempre são felizes, e a verdade é que o que Agostinho admira em Pessoa é a riqueza de espírito que o fez ver, como a ele Agostinho, os símbolos da Pátria. Os símbolos, não o pensamento deles porque isso, desconfia Agostinho, já seria filosofia. E é conveniente anotar aqui que, em verdade ou em erro, só Sampaio Bruno pensou seriamente os símbolos da Pátria.»

Ernesto Palma («Agostinho da Silva, filho pródigo»).


«A Universidade, (...) a partir do século XVI se arrasta num esforço de sobrevivência que é aquele a que assistimos com todas as crises possíveis, porque é um organismo superado pelo próprio evoluir do tempo. (…) A Universidade em muitos países é o único organismo que se conserva inteiramente mudo quando se levantam os problemas de organização da comunidade. A Universidade passa a ser apenas alguma coisa que se frequenta para ter um diploma para poder exercer legalmente a profissão mas não alguma coisa que se frequenta para adquirir uma capacidade plenamente humana. Naturalmente é esse defeito geral das universidades no mundo que preocupa todos os educadores mas que os tem preocupado sobretudo como fenómeno de estatística, tem preocupado sobretudo como um fenómeno de verificar que a máquina já não funciona mas que tem preocupado a muito poucos no sentido de saber que máquina se pode pôr a funcionar que substitua aquela, de que maneira é que efectivamente vamos resolver este problema da criatividade no homem. A crítica que se faz, portanto, à Universidade é que ela está por vários motivos não contribuindo para formar o homem. Esse problema preocupa todos os educadores e naturalmente preocupará mais os educadores brasileiros e preocupará mais o Brasil onde vêm defeitos particulares, defeitos locais, juntar-se aos defeitos da Universidade em geral. Quando os Portugueses são criticados porque não criaram uma Universidade no Brasil possivelmente eles são criticados por um dos grandes benefícios que prestaram ao Brasil, o de não trazer para um país novo, que tinha a obrigação de criar caminhos novos, uma Universidade que já ao tempo da descoberta era uma Universidade envelhecida em Portugal. Ao passo que os Espanhóis cometeram realmente o erro de trazer as suas universidades para os países de língua espanhola e isso se compreende porque as classes espanholas que vieram para a América, hoje Latina, eram as classes para as quais a Universidade significava realmente um apoio estrutural; para o Brasil, para o qual veio sobretudo o povo, a Universidade de Coimbra, em Portugal, não tinha importância absolutamente nenhuma. Era uma coisa que podia ser dispensada inteiramente porque estava à parte da nação. Nenhum esforço vivo da nação portuguesa saiu jamais da Universidade de Coimbra, a não ser nos primeiros períodos da sua existência medieval. O Brasil, portanto, viveu sem Universidade – felizmente – e a grande desgraça para o Brasil foi não ter esperado o tempo suficiente para criar um organismo seu, próprio, que exprimisse a psicologia brasileira e sobretudo preparasse o Brasil para a missão que tem de desempenhar no mundo; mas por circunstâncias especiais, quis à pressa adoptar modelos que já estavam efectivamente superados nos países de origem. E o triste é que continuamos no Brasil, de cada vez que se fala em reforma de Universidade, a procurar imitar um modelo novo em lugar de se esperar o suficiente, de se pensar o suficiente na maneira pela qual se poderia realizar alguma coisa que respondesse mais perfeitamente àquilo que é o Brasil, no que é diferente e no que tem de ser diferente dos outros povos do mundo. Então, há no Brasil, a juntarem-se aos defeitos gerais da Universidade, todos os defeitos que vêm duma implantação não bastante pensada em relação com as responsabilidades do Brasil, todos os defeitos que vêm duma imitação e naturalmente todos os outros que decorrem não da própria estrutura da Universidade mas da própria estrutura do país. Não podemos ter de maneira nenhuma, e em parte alguma, Universidade separada daquilo que seja a estrutura do país.»

Depoimento de Agostinho da Silva à Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar, entre outras coisas, a estruturação actual do sistema de ensino superior no país, abrangendo universidades federais, estaduais, particulares, bem como faculdades isoladas. Documento inédito, dactilografado, de 46 páginas, papel timbrado «Câmara dos Deputados», com carimbo «Cópia para Depoente», datado de 23 de Maio de 1968, Brasília. (Cf. Agostinho da Silva, Textos Pedagógicos II, Âncora Editora, 2000).




«Alheia às vicissitudes da cultura universitária, onde se deforma quando se reflecte, tem sido quase sempre inspirada por um espírito subtil e desconhecido a filosofia portuguesa.»

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


«Dá-nos Agostinho da Silva uma imagem de si que é a imagem do filho pródigo antes de regressar a casa de seus pais. A casa que abandonou é a escola de Leonardo Coimbra, a Renascença Portuguesa, a mitologia de Pascoaes, a filosofia portuguesa de Álvaro Ribeiro e José Marinho. Sempre a casa lhe esteve e está aberta, com o lume aceso e o pão na mesa. Amuos de Menino – ele é que é o Menino dos “Impérios” – prendem-no lá fora ao frio de um cientismo que deu o que não tinha a dar, à secura de um racionalismo sergista de que já se não vê o que ficou e coisas semelhantes que são o que mais há por esse mundo das universidades, das academias, das instituições, das teocracias sem Deus onde Agostinho parece dizer que gosta de fazer figura.

Da casa o viram a andar pelo Brasil e alegraram-se. Como os caminhos do Brasil passam perto da casa, esperam-no prestes, puseram mais um pão na mesa, mais uma acha ao lume. Em vão. Já velho, admirável velho, várias vezes passou à vista da casa, ouviu as vozes, parou, mas os amuos de menino foram mais resistentes. Álvaro Ribeiro ainda lhe demonstrou que o V Império, a ser coisa de Portugueses e do Espírito e se algum sentido tem, só pode ser a “filosofia portuguesa”. Inútil. Todavia, para ficar a meio caminho e ainda lhe chegar algum calor do lume, agarrou-se a Pessoa. Mas Pessoa está atirado à fama como um osso aos cães e é preciso esperar que, envenenados pelo osso, os cães o larguem. Teimou em retomar o blá-blá socializante da sua juventude sergista e, contentes, os dos poleiros dos galinheiros do Estado cobrem-no de flores, mostram-no na televisão, põe-no na capa de revistas, plebeízam-no.

No fundo, porém, ainda o têm por suspeito. Por isso o querem atirar agora para os confins da África perdida. O que lhes é suspeito é “aquela luzinha no alto dos céus” que ele um dia nos disse ser donde lhe vem toda a filosofia. É o que o fez dizer que “Portugal é um dos nomes de Deus”. É o patriotismo e a Pátria que nele dá pelo nome de V Império. É o que fez dele um dos nossos mestres…».

Ernesto Palma («Agostinho da Silva, filho pródigo», in Leonardo, Ano I, n.º 4, Dez. de 1989).


«Para sair da Escolástica não é indispensável entrar no iluminismo. Se o pensamento português nunca assimilou o essencial do pensamento de Descartes e de Kant, facto é para explicar e não para condenar. A aceitação do positivismo em Portugal e a influência perdurável dessa doutrina na nossa literatura possuem um significado digno de interpretação especulativa.

Fácil é verificar, pela análise do ensino público e das obras dos publicistas, que a doutrina dominante em Portugal já não é a Escolástica, mas tão só uma flexível modalidade de positivismo para uso de crédulos e incrédulos. A escolástica, propriamente dita, eleva a inteligência humana até ao nível da Revelação Cristã. Abandonámos a Escolástica de tal modo que sofremos uma decadência de pensamento filosófico, e nessa queda houve dois momentos fatídicos: a instituição do Curso Superior de Letras de Lisboa, que veio a ser foco de radiação do positivismo, e a extinção da Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra por inevitável conclusão de ordem política. Não tivemos em Portugal reforma cartesiana nem revolução kantiana, - é certo -, mas tivemos no século passado, e infelizmente continuamos a ter no século que vai já em meio, a equivalente revolta das Letras contra o Espírito.

A influência do positivismo explica, pois, que o ensino universitário da história da filosofia tenha obedecido à lei "dos três estados" ou a outra ficção análoga; não devemos, por isso, estranhar que tal programa didáctico suscite, entre os estudantes, a credulidade no advento de uma fase definitiva da humanidade e que, ao mesmo tempo, vá gerando o descontentamento dos pedantes contra o povo português que, durante séculos, permaneceu indócil às lições de europeísmo vulgar. A ser julgada pelo critério da "lei dos três estados", a História da Filosofia em Portugal merece severa condenação, - sem recurso possível, porque nem vale de atenuante a laboriosa hipótese de ter havido alguns precursores.








Ver Teorema de Tales









Tudo quanto de injusto se tem escrito contra o passado (e até contra o futuro!) do pensamento português, assenta na admitida falsidade de que a filosofia se desenvolve como um só fio que teve origem em Tales de Mileto, por exemplo, e que termina actualmente nas mãos de determinado professor universitário cujo renome é mundial.

A verdade é-nos dada, porém, numa figura mais complexa do que a recta intelectualidade. Vemos que todos os povos superiores - e o povo grego nos oferece o mais nítido exemplo - desenvolveram esforços diferentes para atingirem a sabedoria a raros acessível. Poderemos também ver, quando a isso colectivamente nos dispusermos, que o povo português lutou e tem lutado pela expressão de um pensamento original. Não sabemos, porém, quando chegará a manhã de lucidez nacionalista…».

Álvaro Ribeiro («A História da Filosofia e o Ensino Universitário», in Atlântico, nova série, n.º 5, Lisboa, 1947).


«Portugal, o grande, o todo, o de amarelos, brancos, pretos e vermelhos, o de islamitas, cristãos, judeus, animistas, budistas, taoistas, o da América, Europa, Ásia, África, Oceânia, o dos municípios, tribos e aldeias, o de monarquias e repúblicas, o dos grandes espaços conhecidos e o dos espaços ignotos ainda, dentro e fora do homem, o Portugal núcleo de formação de uma União Internacional dos Povos para o desenvolvimento, a liberdade e a paz, Portugal, que tem actualmente a sorte de ter universidades que nada valem, nada se perdendo, portanto, se se fecharem, deve, audaciosamente, preceder os outros povos, estabelecendo ensino ou aprendizagem superior que estejam já encaminhados a uma certa era em que o homem seja plenamente criador e deixe como traço de sua passagem na vida esse aproximar-se cada vez mais da essência da criação divina.»

Agostinho da Silva («Educação de Portugal» in Textos Pedagógicos II, Âncora Editora, 2000).


«O José Hermano Saraiva também foi Ministro da Educação, quando era homem de confiança de Marcello Caetano, e ainda se não popularizara como historiador da RTP. Logo se me dirige na minha qualidade de candidato presidencial, assumindo ele a de um especialista "blasé" na política e na história da política, de mãos habituadas a fazer e desfazer revoluções, ministros, reis e presidentes da República, coisas que lhe são tão familiares e sem surpresa que deixa adivinhar enfadarem-no. Com a boca traçada em arco como a das personagens trágicas, numa voz metálica que a televisão popularizou, logo me atira, de dedo apontado e a cabeça reclinada para trás, tentando olhar-me de cima: "V. propõe a extinção da Universidade. Como se a Universidade não estivesse há muito extinta... É só fechar-lhe a porta e dar a volta à chave. Lá dentro, não há nada!"».

Orlando Vitorino («O processo das Presidenciais 86»).


«(…) a vida dos portugueses, na sequência da revolução comuno-socialista de 1974, continua a ser, no geral, politicamente esmagada e asfixiada pela esquerda socialista e totalitária que já fez do Estado um instrumento de servidão contra a Pátria, a Nação e a República. Derrotar uma tal esquerda, assestar-lhe um golpe definitivo, exige a intervenção, assaz complementar, de uma já existente e activa coligação de objectivos estratégicos transnacionais contra o que se nos afigura ser o conjunto autocrático de instituições-chave da nova ordem mundial. Realizá-lo, concretizá-lo, exige, pois, a concorrência simultânea do pensamento categorial susceptível de operar a inadiável refutação do revisionismo histórico financiado e organizado pela cultura oficial triunfante.

Com isto não queremos, de modo nenhum, dizer que toda a experiência, por alguns inteligentemente vivida e adquirida no desenrolar do processo revolucionário, sobretudo na forma como "foi rapidamente conduzido sem que a massa do povo português se apercebesse do que se passava", não deva, simplesmente, ser tida em linha de conta. Até porque, neste aspecto, a experiência portuguesa, quando bem lida e interpretada, nos poderá ajudar a compreender como "a revolução começou por ter um âmbito muito restrito quanto à sua origem e objectivos, que se diriam quase disciplinares e de grupo", para, por fim, ser posteriormente cooptada sob a coordenação clandestina de forças políticas e ideológicas exteriores. Um exemplo, capaz de clarificar uma parte do perfil ideológico oposicionista que antecedeu o 25 de Abril, encontra-se na acção subversiva do Partido Comunista nas Forças Armadas, como relevantemente o procurou analisar e descrever Jaime Nogueira Pinto. Assim, desde os agentes operacionais adormecidos em que o Partido Comunista apostara, entre eles Vasco Gonçalves, Melo Antunes e Rosa Coutinho, até ao despontar de protagonistas analfabetos e "desejosos de ribalta", tais como Vasco Lourenço, Otelo Saraiva de Carvalho e Victor Alves, eis como Portugal caíra abruptamente na órbita criminosa, e até terrorista , da inqualificável cambada a soldo e serviço da revolução mundial socialista.






Ver aqui


Ver aqui

Ver aqui e aqui


Eis, portanto, um gravoso e gritante processo que, em termos de genocídio, crimes de guerra e contra a humanidade, passara então completamente impune, e assim continuaria até à actualidade mediante a articulação e a conivência de três instâncias dominantes de extorsão, propaganda e desinformação em Portugal: a estatização da economia, o controlo da informação e a adulteração criptocomunista do ensino e de todas as formas livres e independentes de criação cultural. Ora, tudo isso seria infelizmente possível em função daquilo que o socialismo revolucionário tornaria, entretanto, perfeitamente patente, a saber: uma oligarquia apoiada no monopólio da representação popular pelos partidos políticos, a que ainda sobreviria o caciquismo invasor nas autarquias e o regime clientelar nas empresas públicas do Estado. Enfim, um sistema aparentemente democrático, advogando a liberdade, embora, na realidade, constituindo-se como o maior inimigo dessa mesma liberdade.

Paralelamente, o sistema em questão tem hoje uma dimensão externa intergovernamental, nomeadamente quanto ao que já hoje constitui o periclitante projecto globalista da União Europeia. Uma dimensão, como já Agostinho da Silva parcialmente vira, traduzida num "departamento económico", ou quando não mesmo confinada a "uma organização inútil, doente, que não se entende, que dificilmente resolve os seus problemas pois levou anos, até, para saber qual deveria ser a cor do passaporte europeu". Além de que, essa nova, suposta ou pretendida Europa, apostada que está na ilegítima transferência dos centros nacionais de decisão autónoma e soberana para a burocracia tentacular e centralizadora de Bruxelas, também se vai convenientemente esquecendo que a velha Europa muito ficou a dever à Península duplamente mediterrânica e atlântica, nomeadamente ao negócio da pimenta, como até ao açúcar, madeira, oiro e diamantes que de Portugal vieram através do Brasil em tempos idos.

Nesta óptica, encontramo-nos, sem dúvida, sob o renovado espectro do europeísmo invasor que já no século XVI eventualmente trouxera para Portugal, em contexto próprio e na sequência do que Agostinho da Silva chamara o capitalismo europeu, um governo centralista autoritário por oposição ao direito concelhio português autónomo e descentralizado. Seja como for, a verdade é que, num presente totalmente incerto, vingou por agora, e até ver, um super-estado europeísta de estrita e obsessiva concentração do poder político, financeiro e económico, a que já Agostinho da Silva, curiosamente, propendia a ver, na sua origem histórica, como um absolutismo real que até nós particularmente chegara, no reinado de D. João II, por via italiana. Uma relação, por conseguinte, potencialmente interessante, se para o caso justamente atendermos ao que, de facto, resultara do especial tratamento que os judeus, agravado por D. Manuel I e pelos reis que se lhe seguiram, receberam no contexto da civilização europeia, e que mais propriamente consistiu num judeu ressentido e em desespero a ponto dele fazer o agente prático da civilização germânica com a qual, através da diáspora judaica, se daria lugar à transferência da Europa industrial para a Rússia e para a América do Norte.

Ora, disto ressalta que o simulacro deveras sombrio de Europa que aí temos à vista, também por sinal hostil ao que de melhor Agostinho da Silva misticamente apreendera no espírito medieval português, está como que a impor não só um contra-sistema absolutamente desagregador de uma promissora constelação de nações, como ainda a preconizar, em termos de hegemonia tecnoburocrática, o oposto do que para nós, portugueses, sempre representou a pomba mística de Portugal. "Não queremos para nada essa porcaria de ser europeu", dissera, pois, o nosso Agostinho. E isso poderiam igualmente dizer todos os portugueses que não se revêm na aplicação sistemática de progressivas versões tecnocráticas especialmente saídas de um europeísmo precursor da administração aparentemente multipolar do planeta. Tudo, enfim, assaz consumado na esteira de partidos políticos com seus respectivos chefes e corifeus servilmente entregues ao zeloso cumprimento de directrizes globalizantes provenientes de tratados, programas e convenções internacionais.»

Miguel Bruno Duarte («Noemas de Filosofia Portuguesa». Versão especialmente revista).


«"- Olhe, eu [António Augusto Salgado Júnior] vou fazer o doutoramento, porque quero mesmo seguir a carreira universitária. Agora quanto a si, você é que sabe."

"- A mim não me interessa muito, porque quem deu cabo da Faculdade do Porto foi a Universidade de Coimbra e a Universidade de Lisboa, de maneira que quando eu puder rebentar com elas, rebento. Carreira também não tenciono seguir, sou contra injustiças...

De repente pensei melhor e disse para mim: "Quem sabe se um dia realmente um doutoramento até não me vai ser útil." E disse-lhe:

"- Também vou!"»

Agostinho da Silva («A Última Conversa», Editorial Notícias, 1998).














A Universidade, a nova Idade e o futuro governo universal em Agostinho da Silva

(…) aqui chegamos, tocados pelos ventos do discurso, a este problema de Universidade, tão actual no mundo português e nos outros países; entre nós, porque se discute de que maneira se há-de reformar, entre os outros porque se pensa se, mesmo reformada, poderá servir para alguma coisa. Quanto ao que se passa connosco, bom seria que se reflectisse sobre o facto de que já várias reformas se tentaram, mobilizaram homens e recursos, vários nascimentos houve de novo, e o resultado foi sempre o mesmo: a Universidade serviu apenas para criar um falso escol e os que se comportaram de outro modo o conseguiram apesar da Universidade, não por ela. O que os portugueses fizeram depois no Brasil, não fundar Universidade alguma, era o que D. Dinis devia ter feito em Portugal; mas, depois do grande acerto de nacionalizar os Templários, tem de se ser indulgente para algum cansaço ou engano do rei; e se o comportamento português foi, no Brasil, o que devia ser, a razão é ter o Brasil sido feito pelo povo e não pelos dirigentes e saber muito bem o povo que a Universidade nunca lhe serviu para nada e ter o instinto de que, muito pelo contrário, só lhe tem sido prejudicial; prejudicial não quando forma médicos ou engenheiros ou qualquer outro técnico, mesmo aí com o atraso que tanto lhe tem sido reprovado; já, porém, discutível quando forma professores, que então começa ela a deixar de ser simplesmente escola técnica de terceiro grau, para principiar a não ser, como devia, o organismo que pensa a comunidade e seu lugar no mundo, e caminhando para resultados mais graves com os juristas e filósofos.

Quanto ao Brasil, bom fora que a visita do rei Alberto da Bélgica, que tinha no seu programa uma apresentação em Universidade brasileira, não tivesse levado o governo a criar uma à pressa, reunindo escolas que estavam felizmente separadas umas das outras, sem organismo central que as peasse, e iam fazendo o melhor que podiam, dentro das estruturas do país; não teve assim o Brasil tempo algum para pensar coisa alguma que correspondesse à sua real natureza: primeiro, ao alargamento, ao florescimento de Portugal que no melhor tem sido; à contribuição do africano e do índio, logo depois; finalmente, às invenções próprias a que o tem levado o desafio de seu imenso espaço e de seu papel actual e futuro. Copiou os vários moldes que iam sendo de moda, coimbrões, franceses, alemães, tentou ainda, com Brasília, aproximar-se da América, numa altura em que a validade da Universidade americana é seriamente contestada pelos próprios americanos, mas nunca tentou criar uma Universidade à sua própria imagem e semelhança, excepto quando São Paulo pôs a funcionar a Faculdade de Filosofia, destinada fundamentalmente a pensar filosoficamente as filologias, não a tomá-las como línguas ou literaturas, que se aprendem agora para ensinar, exactamente como um médico aprende biologia para curar, e a fazer o mesmo com as ciências e até com a filosofia. O que, porém, aconteceu foi que nem em São Paulo foi possível fazer com que funcionasse a contento, apesar do muito que conseguiu nos primeiros tempos; foi imediatamente travada, primeiro pelas escolas tradicionais, que os legisladores se esqueceram de extinguir ou de pôr definitivamente fora da Universidade, ao próprio termo extinguindo, depois do analfabetismo geral, grave sobretudo nos que sabem ler e não entendem o que lêem; o qual viu as Faculdades de Filosofia como se fossem apenas a junção de mais duas escolas de professores secundários, os de Letras e os de Ciências, porque até pela miséria mental e francesa de chamar Letras à Filologia se teve de passar; finalmente, acabando totalmente com elas a inovação de Brasília, com a sua criação dos institutos; de modo que reforma, no Brasil, não significou trocar o vinho, nem sequer a garrafa; mudou-se apenas o rótulo.

O mesmo sucederá em qualquer outra área do mundo português enquanto não houver remodelação de estruturas; de estrutura económica por deixar de passar mal o povo; de estrutura educacional quando não formos todos mais ou menos analfabetos, e me estou incluindo com muita consciência de causa; de estrutura política, quando não julgarmos que só uns poucos têm sabedoria de governo e dermos a todos a possibilidade de cumprirem o seu dever de ter opiniões sobre os rumos da vida colectiva; de estrutura mental quando pusermos de parte as saudades de não termos nascido em Paris ou Boston e pedirmos ao povo que nos ensine o que ele sabe muito mais verdadeiramente do que nós, - uma filosofia de sua vida pessoal, pois não sofre o povo das misérias da angústia falsamente filosófica, sofre do concreto, frio, fome e falta de respeito, sabe o que é positivo e negativo, luta por ter Fé, Esperança e Caridade, que oxalá tivéssemos nós todos; uma filosofia da vida colectiva, porque acredita na Criança, num futuro governo universal, já que provavelmente só em Paraíso nos poderíamos ver livres da fatalidade de ser governados, e na ressurreição dos mortos de Alcácer; uma filosofia do Universo inteiro, quando vive o mais possível no presente e declara que o passado passou, que ao futuro lá chegaremos, que tudo está escrito, e direito, embora sejam tortas as linhas, e que não é por muito madrugar que amanhece mais cedo; além de nos convidar a todos à meditação e ao silêncio quando diz que quem muito fala dá bom-dia a cavalo.

Esperando não correr esse risco, e depois de reafirmar que não esperemos nós êxito onde falharam o Infante, D. João II, o Marquês de Pombal e a República, conviria pensar se vale a pena tentar reformas que não sejam puramente técnicas, haver mais professores, mais salas de aula ou mais microscópios ou até mais escolas de nível superior, entendendo aqui superior no sentido em que se diz que está o terceiro andar por cima do segundo, e se não se tem, pelo contrário, que examinar em conjunto com os outros países e até indo à frente deles, - porque não se vê por que motivo intrínseco há-de Portugal continuar copiando, quando, não copiando, fundou uma religião, tornou o mar inteiro e continuou bandeirante por continentes vários -, se não se tem, pelo contrário, de ver em que termos se põe o problema da Universidade em todo o mundo e se não é ela incompatível com a nova Idade em que entra o Universo, aquela Idade a que chamam de Aquário astrólogos e hippies, de Internacional os revolucionários materialistas e, com seu sinónimo de «um só rebanho», os eclesiásticos melhores, finalmente de Império o nosso povo, não confundindo com os Impérios de teatro em que tudo é grande e a pequenez domina.

Academia de Platão


Antiga estrada que levava à Academia de Platão.


Local arqueológico da Academia de Platão.


O primeiro ensino superior que houve foi o dos gregos e, felizmente, nunca teve instituição que o destruísse até as datas fatais em que Platão se lembrou da Academia e de Liceu o Aristóteles; a descendência que tiveram os castigou bastante, mas a grande época foi a que se passou nos mercados e nos ginásios, com professores que ninguém nomeava, que não assinavam livro de ponto nem diplomavam ninguém, mas que procuravam cumprir a tarefa fundamental que a Grécia tinha por diante, a de descobrir e estabelecer como base de tudo a ideia geral; era o trabalho em que colaboravam mestres e alunos, numa comunidade de pesquisa, e em que era possível ao lado dos que iam na linha de Sócrates, estabelecendo os alicerces de uma política, de uma moral e de uma ciência, haver os que preveniam, com Heraclito, de que é mais larga a vida do que a mais ampla das filosofias e mais apontavam, como na China Lao-tsu contra Confúcio, a uma indiferença superior do que a um imediato e pragmático construir. No diálogo se juntavam as duas grandes artes da dialéctica e da maiêutica, servindo sobretudo a primeira para fechar os caminhos do absurdo, dando-se à segunda o papel de fazer que cada um, revelando o que era, parindo-se a si próprio, contribuísse com seu ímpar testemunho para o apuramento da verdade e, se verdade não há, para o trânsito livre nas teimosas jornadas do buscá-la.

Quando esta Universidade se acabou, estabelecera-se uma geometria, ciência que permite ao homem demonstrar que o real se compõe de irreal; uma filosofia, base do direito que habilita os mais fracos a ir sobrevivendo aos mais fortes; uma religião em que a Beleza era a divindade suprema e a um tempo se afirmava como transcendente e imanente; e, mais importante que tudo, demonstrara-se que nenhum esforço da razão faz mais do que chegar pelo avanço até as fronteiras do racionalmente explicável e que daí por diante se estende o terreno fundamental do mito.

Paralelamente, havia a estreiteza das cidades-estado, que o ímpeto de Alexandre não conseguira superar; uma democracia que o era apenas para raros, a escravatura como aceitado meio de produção; um sistema de comunicações incapaz de abranger grandes espaços, uma administração incompetente para o alargamento que a Humanidade exigia. Roma tinha de vir com o seu império de paz, os seus direitos de cidadania, a sua invenção do município, as suas estradas, os seus códigos, os seus funcionários, tudo pago, porém, pelo estagnar da criação na ciência, na arte, na filosofia, e por um resignar-se ao mesmo mal da escravatura e a uma religião de ritualismos e de contratos; mas o que importava era que houvesse possibilidade de se espalhar pelo mundo conhecido o que a Grécia inventara, com o desenvolvimento de algumas técnicas que o grego desprezara, por mais contemplativo do que activo, e que nas fronteiras do Império tivesse cabido o país inquieto e pobre dos judeus, donde ia surgir a palavra de que Deus tem Amor por Beleza, de que nenhum homem deve ser escravo e de que não haverá solução alguma para a convivência que não seja a do mundo inteiro como nação.

A esta Idade nova, pois que fora a de Roma intervalar apenas, correspondeu uma Universidade também nova, que infelizmente herdou de Roma sementes de tanto dano como o direito cesarista ou a inclusão de puras técnicas como a medicina, mas pôde, pelo menos nos primeiros tempos, ser basilarmente uma associação de homens interessados em estudar, sabendo alguns mais e outros menos, estudando uns a vida inteira, os professores, nome que uma etimologia de sentidos nos deveria fazer derivado de professar, e outros apenas uma parte da vida, os alunos, que esses, por filologia científica, são realmente particípio passado do verbo alimentar: na Universidade recebiam o alimento da vida inteira, o que tão pouco sucede hoje; alimento que lhes vinha de não ir a um dispensário de saber, mas a uma associação, a uma corporação de estudo; de encontrar homens de caridade que, por não haver livros para todos, liam os seus e lhes acrescentavam comentários, que também liam, de tudo isto se chamando lentes, de poder intervir nos concursos de professor, ajudando a barrar os incompetentes que sempre ascendem a cátedras por serem primos de primos; podendo igualmente eleger reitores, que hoje se elegem com tanta restrição que, sendo já tão poucos os chamados, ainda muito menos são os escolhidos.

É esta Universidade, que só tinha tal título quando também ensinava a teólogo, que mais é que filósofo, pois inclui o que Platão exprimira em mito e seu mestre Sócrates punha por conta do demónio interior ou de inominado deus, a Universidade que sobra ainda hoje, quando os espíritos fortes consideram a teologia um misto de crendice e de idiotia, quando há livros que chegam para todos e a caridade é talvez a mais rara das virtudes que se poderiam encontrar em recintos universitários, tanto do lado das reacções de uns como das revoltas de outros. Mas feita para tornar pensável e possível a fraternidade que Jesus pregava, mal sabendo que teria por seu infiel descendente tanto catedrático de hoje, conseguiu, apesar de tudo, cumprir o seu dever, tanto quanto as circunstâncias gerais lho permitiam; apesar de todas as pressões de Economias, Estados e Igrejas, sempre houve dentro delas quem defendesse acima de tudo o direito à pesquisa e à publicação e aproveitamento de seus resultados, quase sempre foi possível levar por diante o trabalho de construção científica, que, pela sua aplicação técnica, é a grande força que permitirá à Humanidade ser realmente fraterna se esse for o seu desejo, exactamente como na Idade Média a invenção de um novo arreio de cavalo deixou que se libertassem os servos da gleba, porque havia o ideal cristão de os ver livres. («Educação de Portugal», in Agostinho da Silva, Textos Pedagógicos II, Âncora Editora, 2000, pp. 120-125).







Jesus entre os doutores aos doze anos, por James Tissot.



Jesus expulsando os vendilhões, por El Greco.



Jesus Christo retratado como o Alfa e o Ómega nas Catacumbas de Roma (século IV d. C.)



"Taça mágica" ou "bojo de encantamento". Ver aqui


Maomé une em oração Jesus, Abraão e Moisés, entre outros.




Brasão do episcopado anglicano de Trinidad (Caraíbas).


segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Amar o imprevisível

Registo extraído de uma conversa com o Professor Agostinho da Silva





Robert Stephenson Smyth Baden-Powell















«(…) Baden-Powell achava que ensinar meninos de maneira fácil, fazer rir meninos quando aprendem aritmética ou geografia é das coisas mais absurdas que podem existir no mundo. As coisas são difíceis; aquilo que se tem de fazer dá muito trabalho, e então é preciso que o menino, logo desde o princípio, saiba que aquilo que ele tem que aprender é efectivamente trabalhoso e exige aplicação total. Tem de saber que não há outro jeito. Ensinamos línguas, por exemplo, como ensinamos, cinco anos latim, cinco anos de francês, não sei quantos de inglês, com o resultado de não sabermos nem latim nem francês nem inglês, porque é exactamente isso que sucede, é coisa que inteiramente tem de ser pôr de parte. No fim do ano o aluno possui quanto muito vocabulário que corresponde à aprendizagem de uma ou duas palavras por dia, o que dá ao fim de dois ou três meses o vocabulário suficiente para se entender publicações correntes. Além de tudo, o que acontece muitas vezes é que a palavra que se aprendeu num dia se esqueceu no dia seguinte, tais os intervalos de aprendizagem e as matérias diferentes que nela se intercalam. Vamos pelo fácil quando só pelo difícil se pode realmente aprender. Na realidade ninguém aprende coisa nenhuma quando não está em dificuldade. Fixamos as coisas na altura que o perigo está connosco.

Por outro lado, achou Baden-Powell que a pedagogia se tinha que dirigir a alguma coisa de diferente, de bem diferente da escola actual, que às vezes fabrica sábios, mas quase nunca fabrica homens no sentido de pessoas capazes de ser a persona, a máscara que age, aquela que representa na vida um papel vital. Quanto a isto, foi Baden-Powell um dos mais intensos moralistas de todas as épocas, embora não falasse nunca de moral.

Basta citar, por exemplo, o que se refere ao fumo. Quando Baden-Powell combatia para que o escuteiro não fumasse, nunca disse que não devia fumar por moral ou por economia: disse sempre que não devia fumar porque fumar estraga o olfacto. Escuteiro tem obrigação de distinguir bem os cheiros como prova de atenção e de amor pelo mundo externo. Tem obrigação de ser o que vê bem, o que ouve bem e o que tem bom olfacto. Então, se ele fuma e se o seu olfacto se encontra em perigo, só lhe resta ou desistir de fumar ou desistir de ser escuteiro. O mesmo acontece quando ele intercalou em livros seus a notinha de que o leitor se devia pôr direito, devia endireitar as costas. A ideia fundamental não é a de que uma pessoa lendo um livro toda recurvada está faltando à sua dignidade, ao respeito que deve a si própria, o que, no entanto, já seria uma ideia. A ideia de Baden-Powell é certamente a de que aquilo que um livro pode ensinar entre muito melhor e muito melhor se fixe se a pessoa está perante a leitura como que em posição de sentido. E Baden-Powell não fica fazendo longos discursos sobre o assunto: põe o tal parêntesis ou as tais iniciais e a pessoa que está lendo o livro, ao receber aquela ordem simples e directa, automaticamente estabelece a boa posição.

Sabia fazer estas coisas sem apelar para as questões de moral, sem levar o assunto para o lado trágico. Embora a persona de que vos falei a princípio fosse também alguma coisa de tragédia, ele nunca tomou na vida esta atitude trágica e, embora também seja alguma coisa de comédia, nunca procurou fazer rir ninguém; o que ele procurou foi que as pessoas fizessem realmente as coisas com alegria; mas alegria e risos são diferentes: é por isso que os retratos que é moda tirarem a rir os homens públicos só mascaram tristeza e desalento.»

Agostinho da Silva («Baden-Powell, Pedagogia e Personalidade», in Textos Pedagógicos - Volume II).


«Tal como o ensino de primeiras letras e de primeiros números habilitou o estudante a distinguir entre um verbo e um substantivo, entre uma adição e uma diminuição, entre uma recta e uma curva, o ensino secundário e superior deveria habilitar o estudante a distinguir entre abstracto e concreto, especialização e generalização, indução e dedução, lei e norma, hipótese e teoria, certeza e dúvida, etc., não pela repetição das regras e dos exemplos do compêndio, mas durante a leitura analítica de obras de ciências. Este exercício de crítica a todos os processos de sofismação libertará o estudante, pondo-o de aviso contra o prestígio de certas doutrinas sem glória que, já oportunamente refutadas, continuam a ter aceitação entre o grande público, que não as conhece sem mediação. Habilitar o estudante a ler obras científicas, e a analisá-las mediante inquérito ou questionário, seria mais útil do que prepará-lo a responder a interrogatórios previsíveis e convencionais.

A leitura, feita em seminário, com reduzido número de ouvintes, é processo educativo tão indispensável no ensino secundário como no ensino superior. Não nos referimos ao livro de aula, adaptado ao sumário do exame, e aprovado oficialmente, nem a qualquer colecção de apontamentos que completem as lições do professor. Leitura indispensável é a daquelas obras em que os sábios nos narram e descrevem como promoveram efectivamente o progresso das ciências, obras célebres, que muitos homens cultos conhecem apenas pelos resumos dos compêndios e dos tratados, mas que nunca leram, por falta de conselho, de curiosidade ou de tempo.

Ao descobrir que num texto em prosa há sempre margem para a sugestão do que o autor quis dizer, ou não quis dizer, o leitor sente a presença de uma alma e a aproximação do mistério, pelo que a leitura analítica pretende ser completada pela análise psicológica. Mas a psicologia não pode ser ciência positiva, porque não é possível atingir directamente a psique; não há psicologia de observação ou experimentação; tudo quanto de psicologia julgamos positivamente saber são conjecturas, inferências, suposições. É tal o receio de nos encontrarmos perante uma alma, uma alma sem corpo e sem espírito, que até nos custa ler um livro qualquer sem conhecermos a biografia, e pela biografia a caracterologia, de quem o escreveu.

A análise dos livros de ciência foi largamente praticada pelos escolásticos que habilitaram gerações de estudantes a refutar sofismas, a discernir paralogismos, classificar silogismos, a destruir vícios de argumentação e de demonstração. A excessiva fidelidade a classificações erradas impediu-os de integrarem no mesmo sistema interpretativo e explicativo os princípios, os métodos e os resultados das ciências e das artes mecânicas que se ensinavam separadas da lógica tradicional. O desvio que levou os escolásticos à decadência partiu do erro de pretenderem que o comentário dos textos autorizados era suficiente para estabelecer a verdade, e dispensava o acesso à observação e à experimentação.»

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


«(…) a primeira ideia fundamental da pedagogia de Baden-Powell é essa, a de que é a vida aquilo que educa, de que é a vida aquilo que importa. O que vale é o participar activo das tarefas da vida e não o passivamente estar sentado numa cadeira aprendendo a ler, a escrever e a contar, sobre os problemas que não são reais, trabalhando com factos que são inventados só para o caderninho de problemas, em lugar de se ter diante o grande caderno de problemas da vida cujas soluções demoram, para se encontrar, anos e anos para queles que na vida estão como Baden-Powell queria.

Para forçar uma pessoa a sair de alguma coisa para a qual não está talhada não é precisa nenhuma dessas máquinas de exame que nós montamos com tanta firmeza e tanta acuidade na vida. Sempre que tive de ensinar numa Faculdade de Filosofia consegui que se fossem embora espontaneamente aqueles que nada tinham que fazer lá dentro. Sempre aprovei toda a gente no vestibular, porque todos têm a capacidade de aprender o que se vier a ensinar; e não reprovei nunca ninguém na classe porque quem não valia ou não queria valer nem aos exames chegava. As cargas de trabalho prévio que eles tinham de fazer eram de ordem que ficavam a imaginar o que seria o exame. Só aqueles que tinham a coragem de enfrentar essas cargas de trabalho verificam depois que no exame a coisa era extremamente fácil. De facto, tudo tem de ser difícil na escola, menos o exame; exame, para quem aguentar o trabalho, não tem importância nenhuma: é uma formalidade que vai para os arquivos para se poder dar ao menino uma nota documentada. Aquilo que vale na realidade é o trabalho que ele fez antes e, se ele não teve coragem de enfrentar esse trabalho, prova não serve para coisa alguma. Sabemos perfeitamente que nossas alunas de quase todas as escolas superiores, eu falo de nossas alunas de quase todo o mundo, sobretudo das nossas civilizações chamadas latinas, nós sabemos que essas meninas ou não estudam, e fazem prova; ou fazem prova e passam. Como é que isso se consegue não o sei eu. Se é copiando ou se é levando dentro da cabeça um certo número de noções que servem para todas as coisas ou se é uma benignidade muito grande de toda a gente que julga, isso nada importa; o que importa é que elas depois, lançadas na realidade da vida, não sabem como se defender. É o caso das bacharéis que não sabem fazer requerimento, é o caso das médicas que não sabem se as pessoas têm pneumonia ou se receberam facadas, ou o caso das professoras que chegam diante de uma classe e não são capazes de ensinar coisa alguma porque se sentem inibidas. São todas profissionais que fabricamos às centenas e que não servem para coisa alguma. Que vão talvez servir para muita coisa, porque em geral são bons no que é interior, mas que só vão servir depois de a vida as ter educado. É afinal o que elas dizem: na escola aprendemos pouco, na vida aprendemos muito.»

Agostinho da Silva («Baden-Powell, Pedagogia e Personalidade», in Textos Pedagógicos - Volume II).



Visão estratosférica do Monte Olympo (Grécia).





















Olympus Mons (Marte). Ver aqui




«Nas condições da sociedade moderna, a atenção consciente do escolar é dirigida para a observação da matéria fraccionada e morta que o cerca: as paredes da casa ou da escola, os utensílios e as máquinas de que se serve, os veículos que transitam nas ruas, enfim, o mundo imenso dos artefactos. Todos os apetrechamentos escolares são constituídos de pedaços mortos de matérias que foram vivas ou de formas perfeitas de esboços ideais. Cinge-se e restringe-se na escola a capacidade do observável para que, em campo tão limitado, se adestrarem melhor as operações mentais de utilidade social.

A escola assim organizada representa muito bem a decadência da arte em técnica, porque também na Academia, no Olimpo, no Museu, enfim, em todos os conservatórios de modelos, paradigmas e exemplares que prendem a atenção do artista ao imóvel, não se previa que a intenção de fazer parar o tempo dava motivo ao sacrilégio da idolatria. Esta paralisação ou concretização plástica do ideal abstracto realiza uma barreira perante a qual se detêm a impaciência do educando e o zelo do educador. Os modelos são propostos como universais, mas em breve se vê que eles representam, efectivamente, a tendência e a directriz da nacionalidade que mais pesa no internacionalismo ou no cosmopolitismo.

O esforço didáctico, bem o sabem os professores, consiste em lutar com o aluno, para que desvie a atenção do objecto que mais a solicita, - a vida com todas as seduções lúdicas, desportivas e combativas, - para que envie a atenção para os objectos reais ou ideais do sumário ou do programa. O professor aponta, indica, expõe os objectos para os quais é obrigado a chamar a atenção do futuro examinando, e recorre a artifícios para o interessar pelo assunto da lição. O professor, apresentando aos alunos o imóvel e o imutável, consegue alterar a observação em contemplação.

O aluno aborrece-se se o professor não o diverte, cansa-se se o professor não o distrai, mas os conceitos de diversão e de distracção não se encontram muito bem estremados na pedagogia que apenas estabelece a alternação dos períodos de trabalho com os períodos de recreio, porque parece ignorar a gradual diferença entre o aborrecimento, a fadiga e o sobernal. Recluído num ambiente de fábrica, o aluno procura mover-se porque pretende observar: a observação tende para o móvel e para o movimento, passando sempre da estática para cinemática e para a dinâmica. Silente e sedentário, por força do regulamento escolar, o aluno espera a hora da libertação, e enquanto espera inverte a inteligência para domínios do memorável e do imaginável».

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


«Há uma cultura real e uma cultura oficial. Trata-se de uma distinção que está longe de surpreender o leitor medianamente interessado por estas coisas. Há quarenta ou cinquenta anos, ainda era fácil detectar imediatamente a cultura oficial, com sua galeria de jarrões que teve como arquétipo o ainda hoje famoso Júlio Dantas. Os tempos mudaram e a imagem alterou-se. Com a alteração da imagem, alterou-se o conteúdo. O que se conservou foi a cultura oficial, a sua sanha à cultura real e a sua mesma eficácia, agora mais ampla e profunda que ameaça de morte - coisa inimaginável há quarenta anos - a presença dos valores do espírito. É a grande deturpação da inteligência.

Há cinquenta anos, o caso mais grave daquela eficácia não foi a obstrução de Júlio Dantas à estética do Orfeu, que deu origem ao admirável Manifesto do Almada. Vinte anos depois, o caso repetiu-se, com os neo-realistas no lugar do Dantas e a Presença no lugar do Orfeu. Trinta anos mais tarde, o caso volta a repetir-se, com os mesmos neo-realistas no lugar do mesmo Dantas e a Filosofia Portuguesa no mesmo lugar da Presença. Mas não deram origem, estas repetições, a novos Manifestos como o do Almada. Dantas é que premiou os seus epígonos, juntando aos jarrões azuis da Academia alguns jarrões vermelhos do neo-realismo, como J. Prado Coelho ou Urbano T. Rodrigues. Aliás, Dantas era um percursor dos neo-realistas, na literatura e na simpatia ideológica. Foi ele quem, primeiro, fez em Portugal o elogio de Brecht, ainda desconhecido no mundo, e sugeriu, para modelo da reforma do nosso Teatro Nacional, a organização soviética do teatro moscovita. Embora um tanto retrógrados, ainda hoje o elogio de Dantas e uma alfinetada, como a que David Mourão-Ferreira mesmo agora lhe deu, na Filosofia Portuguesa, são um ritual a respeitar para curriculum identificador.

Não são estes, todavia, os casos que dão a medida aproximada do que é capaz a sanha e a eficácia da cultura oficial.
















Enfim, os tempos mudaram, alterou-se a galeria dos jarrões, alteraram-se os fins, os conteúdos e os modos de agir da cultura oficial, mas conservou-se a sua sanha e a sua eficácia.

Em nossos dias, com as sociedades indefesas à penetração até daqueles que se destinam a destruí-las, vimos formarem-se dois blocos de forças culturais que, com fácil domínio sobre os poderes dos Estados, sobre as instituições académicas, e argentárias e sobre as redes da informação pública, se vão introduzindo em todos os povos e aí esmagam os valores do espírito que só as singulares culturas reais são capazes de exprimir, representar e actualizar. Uma vez instaladas, são como as patas do cavalo de Átila e depressa constituem a cultura oficial que, satisfazendo todas as carências de civilizadismo intelectual dos governos absorvidos na planificação da economia e na recolha dos impostos, irá ser transmitida às inteligências pelo ensino e divulgada na opinião pelos meios de comunicação pública.

Os dois blocos que, desde 1945, entre si disputam dominar e esmagar, sob a bandeira da equidade uniformizante e humanitária, a infinita variedade do mundo do espírito, são o bloco marxista e o bloco da Unesco. As diferenças que há entre eles não são irredutíveis e um denominador comum os torna solidários até à morte: a destruição das culturas reais que, exprimindo cada uma delas, em sua singularidade, uma manifestação do espírito, são a razão de ser das pátrias. A resistência que fatalmente têm de encontrar em cada povo, leva-os a ambos, num primeiro estádio da penetração, a dizerem respeitar e reconhecerem a existência de cada cultura real. Antes de reduzirem cada uma delas a uma variedade folclórica para exibir em festivos congressos internacionais, chegam a atribuir-lhe uma função: a que consistirá em adaptar as singulares e vividas expressões do espírito às formas abstractas e vazias do internacionalismo humanitário. Encontram sempre em cada povo agentes ou sicários para exercerem essa função. Quando a adaptação estiver completada, também se evanesceu completamente a existência desse povo.

A introdução em Portugal da Unesco foi mais tardia do que a do modelo cultural marxista. Iniciou-se ao mesmo tempo, nos finais da 2.ª Guerra Mundial, a expansão organizada, e talvez acordada, de ambos. Mas as circunstâncias locais do salazarismo fizeram hostilizar o projecto da Unesco e, discreta ou secretamente, abrir as portas aos marxistas. Parece ter acontecido o equivalente na guerra de África onde, para "contrariar" a acção "ocidental", se facilitou a insinuação das forças comunistas. Entretanto, o bloco marxista já fizera, nos anos trinta, uma primeira investida.

Só em 1969, com a destituição de Salazar, se desfez a resistência oferecida à Unesco que logo afirmou decididamente a sua presença na reforma do ensino. Já, nessa data, o bloco marxista havia corroído sectores fulcrais da cultura real: os ambientes universitários já estavam marxizados, a imagem marxista da história de Portugal já havia sido composta por António Sérgio e seus epígonos, os mais libertos da literatura, do jornalismo e da arte estavam já minados.

O "25 de Abril" produto de vários factores, foi sobretudo um resultado desta cultura oficial em que se misturavam os dois blocos rivais. A partir de então, veio ela abandonando o bloco marxista para se entregar completamente nas mãos do bloco da Unesco que, sem dificuldades nem contradições, imediatamente absorve e integra a obra do seu rival. O sector onde esta situação se mostra mais patente e tem mais fundas consequências é o do ensino. Em alguns outros sectores, porém, a penetração do bloco marxista já era de tal modo profunda que o despertar político antimarxista da sociedade portuguesa não o consegue demover nem sequer atingir. É o caso da comunicação pública onde os próprios orgãos ao serviço dos partidos políticos anticomunistas continuam a valorizar e, até, a só conhecer os produtos culturais marxistas, sejam eles os mais insignificantes.

Os dois blocos vêem-se pois impedidos de, até sectorialmente, se afastarem do que lhes é comum, de separarem um do outro a respectiva actividade. Estão indissoluvelmente solidários na grande deturpação

Orlando Vitorino («Manual de Teoria Política Aplicada»).












































«Tão forte é a convicção de Agostinho da Silva de que o português é o grande intermediário mundial, que afirma ousadamente que a "verdadeira ONU e a verdadeira UNESCO só de nós podem surgir, só de nós devem surgir", pois devem ser "formadas pelos povos, não pelos governos."»

Manuel Ferreira Patrício («Como entra a Europa na visão de Agostinho da Silva sobre o futuro de Portugal», in Agostinho da Silva e o Espírito Universal - Actas do Colóquio realizado na Biblioteca Municipal de Sesimbra em 30 de Setembro de 2006).


«No que respeita ao plano internacional, note-se, curiosamente, este trecho do professor Manuel Patrício: "Corre em 1992 o IV centenário do nascimento de Coménio, que veio ao mundo em 28 de Março de 1592. Constitui honra inegável da AEPEC [Associação da Educação Pluridimensional e da Escola Cultural] o ter sido a única organização pedagógica portuguesa a colocar todas as suas actividades planeadas para 1992 sob o signo da comemoração do IV centenário do nascimento do grande pedagogo morávio. Coménio apostou tudo no homem e na sua educabilidade. Trabalhou incansavelmente para uma educação à medida da dignidade do homem e da igual dignidade de todos os homens, numa linha de fraternidade universal que é ainda um programa para o 3.º milénio. É no melhor e no mais alto do pensamento de Coménio sobre a educação, e dentro do seu sonho de uma reforma radical da escola, que se inscreve o esforço que chamamos Educação Pluridimensional e Escola Cultural. Comemorar Coménio é trabalhar para a Escola que ele sonhou e que ainda só existe como o esboço do que é possível tornar-se real. É trabalhar, por meio dessa Escola, para a Sociedade Fraterna onde o Homem possa coincidir com a plenitude de si mesmo, em cada um e em todos." (cf. Escola Cultural, Editorial, publicação da AEPEC, n.º 1, Vol. 2, 1992, p. 3). Ora, o pastor Coménio, considerado o fundador da didáctica moderna, foi nada mais nada menos apontado, em 1956, numa Conferência Internacional da UNESCO, em Nova Delhi (Índia), como um dos primeiros propagadores da ideia de uma educação universal que estivera, aliás, na génese inspiradora da fundação da própria UNESCO, em 1945. E nós já vimos, a esse propósito, no que realmente consiste o universalismo abstracto dessa agência internacional da Organização das Nações Unidas.»

Miguel Bruno Duarte («Noemas de Filosofia Portuguesa». Versão especialmente revista).


«As publicações da UNESCO afiguram-se-lhe de carácter predominantemente sociológico, e até positivista, não é verdade?

A proliferação de estudos sociais e de estudos sociológicos, em todo o hemisfério designado por ocidental, com a multiplicação de gabinetes, centros, institutos, faculdades e outras escolas, acusa uma tendência doutrinária que me parece perigosa na medida em que tende a minimizar, ou a minorar, os estudos de psicologia. A sociologia sem psicologia conduz à inversão, e portanto à falsificação, dos métodos explicativos e racionais. Ora a UNESCO está impregnada deste sociologismo tão internacionalista como abstracto, contra o qual não podem deixar de opor-se todos os intelectuais religiosos e todos os intelectuais espiritualistas que meditem sobre o destino transcendente da Humanidade.»

Entrevista a Álvaro Ribeiro («O ideal civilizador dos Portugueses é imensamente superior (incomparavelmente superior) àquele que tem sido proclamado na ONU»).


«De inspiração directamente kantiana tem sido, de facto, toda a legislação uniformizante que a ONU, desde a sua primeira hora, vem progressivamente instituindo e impondo ao mundo. E a complementar essa inspiração de ordem iluminista tem estado igualmente o positivismo jurídico de Hans Kelsen, para quem a teoria pura do direito corresponde a uma hierarquia piramidal de normas em que a primeira e fundamental de todas reside na primazia do direito internacional, no qual apenas subsiste a positividade dos ordenamentos jurídicos impostos por orgãos, poderes e instâncias que, sem nenhuma referência aos príncipios de verdade, justiça e liberdade, detêm o poder efectivo de lavrar códigos que reflictam, na esfera nacional, o que rigorosamente se estipula na ordem internacional. Noutras palavras, aqueles orgãos, poderes e instâncias traduzem-se sobretudo nas diversas agências que constituem a Organização das Nações Unidas, ou, se quisermos, na superpotência global e transnacional implícita nas concepções dogmáticas já teoricamente adoptadas por Manuel Kant e Hans Kelsen.»

Miguel Bruno Duarte («ONU: o supergoverno mundial»).




Ver aqui
























Ver aqui, aqui e aqui



Ver aqui, aqui e aqui









Ver aqui


«Eu estive em Timor em 1963. Fui ao Japão nesse ano como bolseiro da Unesco, a qual achava que seria interessante, já que se estava a criar a Universidade de Brasília, que alguém fosse àquele país, para ver como é que estavam as universidades japonesas e saber qual o interesse numa colaboração mais estreita entre o Japão e o Brasil nesse ponto e até de algum modo, que a nova Universidade de Brasília se modelasse segundo as universidades japonesas. A impressão que tive do Japão foi contrária a isso, pois a Universidade de Brasília caminhava numa linha muito mais interessante do que as muito fechadas universidades japonesas. Mas para mim teve interesse visitar o Japão, ver, tomar conhecimento, contacto directo com a cultura do país, que, naturalmente, fiquei admirando em muitos pontos, mas quanto às universidades não havia nenhuma lição prática a tirar.»

Agostinho da Silva («Vida Conversável»).


«(…) Uma vez presente a ideia de reconciliação, lançada por Agostinho da Silva entre o Oriente e o Ocidente, haverá porventura no mundo de hoje algo que nos leve a prever uma tal reconciliação? Curiosamente, em Conversas com Agostinho da Silva, é de ver como ressalta o interessante caso dos japoneses que, devido ao seu espírito de disciplina e ordem, têm inclusivamente vindo a perseguir, segundo o próprio, o conceito do Tudo. E dir-se-ia até de um conceito que parece subitamente entrar em contradição com o conceito do Nada em razão de sua fundamental ligação ao Divino.

Por outras palavras, o Japão que nós hoje conhecemos, isto é, o Japão que, por influência e intervenção do Ocidente materialista, se rendeu por completo à actividade industrial, parece estar agora a reconhecer o derradeiro limite a que chegou, a tal “'parede' também encontrada pelos ocidentais", particularmente assente na "ofensa do Poder sobre a ideia de que o importante é o não Poder". Quer dizer: os japoneses, conforme os retrata Agostinho da Silva, parecem estar a reconhecer, por intermédio de "grandes subsídios aos chamados países subdesenvolvidos", que o mais importante na vida é poderem as pessoas, precavidas contra o Poder, desenvolver-se livremente na plenitude do seu Ser. Caso contrário, aqueles podem sempre correr o risco, conforme bem observara Agostinho quando inquirido pelos próprios japoneses, de simplesmente terem de viver e se comportarem como os americanos.

No fundo, trata-se de um estranhíssimo destino que talvez tivesse sido eventualmente diferente se os japoneses mais propriamente se lembrassem que foram, não os americanos, mas os portugueses quem realmente os preparara para a "vida moderna", sobretudo quando pensamos, a par daquele nosso missionário do Espírito Santo, na arquitectura, na navegação, e até no primeiro hospital por eles criado no Sul do Japão. Depois, há ainda a considerar o ano de 1575, aquando da introdução do arcabuz português no País do Sol Nascente, em virtude do qual Oda Nobunaga, um senhor da guerra, conseguiu reunir 20.000 arcabuzeiros para derrotar Takeda Katsuyori na Batalha de Nagashine. De resto, seria Oda Nobunaga, juntamente com Toyotomi Hideyoshi e Tokugawa Ieyasu, o grande responsável pela reunificação do Japão ocorrida no Período Azuchi-Momoyama (1573-1603).

É, contudo, com alguma reserva que notamos ter Agostinho da Silva partido do princípio de que os portugueses tivessem, entretanto, conduzido os japoneses a uma aposta num futuro triunfo de cariz tendencialmente mecânico e técnico. E assim é na medida em que, o Período Tokugawa, temporalmente delimitado entre 1603 e 1868, foi mais rigorosamente conhecido como o "Período do País Fechado", conforme assinala, a seu modo, a expressão sakoku jidai. Era, consequentemente, um período em que quase todos os ocidentais haviam sido categoricamente expulsos a partir de 1639, num país, para todos os efeitos, fortemente controlado pelo Xogunato.




Mon (emblema) do clã Tokugawa









Kabuto. Ver aqui




































Sasaki Kojiro (à direita) enfrenta Miyamoto Musashi em Ganryujima, uma ilha japonesa - ao tempo Funajima, que significa "Ilha do Barco") - localizada entre Honshu e Kyushu. Musashi usa dois bokken.



Musashi Budokan em Mimasaka (Japão).


Ora, este período, após três séculos de intensas e sangrentas lutas feudais, é precisamente o período onde, num ambiente de consolidada paz e admirável expansão cultural, terá lugar o desenvolvimento espiritual propriamente dito das afamadas artes marciais. Assim, surge, por um lado, a formalização da via guerreira numa relação harmoniosa entre corpo, alma e espírito, aliás precursora do que viria a ser o Budo, e, por outro, a reformulação estratégica e religiosa do código dos samurais (Bushido), ora assaz descrito e exemplificado na história dos Quarenta e Sete Ronins, ora nas descrições hoje populares do Hagakure, escritas por Yamada Soko, ou ainda no Go Rin No Sho, atribuído a Miyamoto Musashi. É, portanto, no seio deste duradouro e estabilizado período, fechado às potências ocidentais, que mais particularmente floresce no Japão uma tradição espiritual única que tão bem aparece simbolizada no sabre mítico que dá simultaneamente a vida ao mesmo e ao outro, ao protagonista e ao antagonista, ao amigo como ao inimigo. Enfim, uma tradição que, secretamente transmitida de geração em geração, subentendia uma mestria espiritual em que cada indivíduo, contanto que liberto das obsidiantes limitações do ego, sabia ou mesmo aprendia a orientar-se adentro de um círculo de amplitude ilimitada onde, não obstante, um dado e determinado ponto em particular, entre outros igualmente possíveis, poderia certamente vir a coincidir com o centro do universo.

Convém ainda notar que os japoneses, ao invés do que simplesmente ocorrera com os ocidentais, somente transpuseram o limiar da "Idade Moderna" em 1868, aquando do despontar do Período Meiji, cujo processo e consequente transformação a todos os níveis terá aparentemente revelado tratar-se de um cenário tão inesperado como deveras determinante até ao dealbar do Período Taisho (1912-1926). E é a partir de então, com o regresso dos "diabos estrangeiros", que o Japão passará a debater-se, quer seja antes ou depois das duas maiores guerras do século XX, com a ingente necessidade de, numa vertiginosa corrida contra o tempo, alcançar uma posição cimeira no preponderante domínio do triunfo técnico-industrial. E, de facto, também seria, aliás, por entre as vicissitudes desse almejado triunfo que viria sobretudo à tona o tal espírito de disciplina militar de que Agostinho da Silva se dera particularmente conta num povo que, embora trazido para a "modernidade" pela mão dos portugueses, talvez não tivesse devidamente valorado e pesado o próprio rumo entretanto traçado, mormente quando tratou de, numa atmosfera de conflito mundial, contrariar a nova estratégia de poder de uma potência tão tecnicamente emergente quão perigosamente industrializada.»

Miguel Bruno DuarteNoemas de Filosofia Portuguesa»).


«Afirmar, (…) como alguns vieram, depois, a fazer, que [o IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros] significou um acto [sic] de acomodação ou até subordinação da Universidade da Bahia à política autoritária de Salazar, é algo, ao meu ver, sem propósito. Estando aqui a referir-me, de modo específico, a Maria de Fátima Maia Ribeiro, professora do Departamento de Letras da Universidade Federal da Bahia, quando afirmou que ele proporcionara "expressão subliminar e adicional às demandas portuguesas, que, oficialmente, se resolviam na ostensiva defesa do colonialismo português, pelo Brasil, inclusive na ONU…", o que me parece ser uma inverdade. Por lembrar-me, neste instante, da figura de Heron de Alencar, militante do Partido Comunista do Brasil (PCB), o que poucos sabiam, ao me confidenciar que o convite feito a Agostinho da Silva, para participar do Colóquio, fazia parte de uma estratégia por ele e por outros imaginada para neutralizar a presença e atuação [sic] no conclave de alguns dos mais obstinados defensores do regime de Salazar, que nele estariam presentes, dado o caráter [sic] oficial do evento, entre eles figurando como o nome de maior expressão, Marcelo Caetano, então Reitor da Universidade de Lisboa.

Reconheço, contudo, que não seria do interesse do Reitor Edgard Santos que viesse, naquela reunião, a ser condenado o colonialismo português, o que o deixaria mal aos olhos do governo de Portugal, um dos patrocinadores do evento. Teve, no entanto, coragem bastante para não impedir que pudesse ser discutida no Colóquio a questão desse colonialismo, ao permitir a inclusão em sua programação, e por ele previamente aprovada, de uma mesa-redonda intitulada "Problemas africanos de interesse luso-brasileiro", realizada, afinal, com resultados que não satisfizeram os defensores do colonialismo português, graças, entre outras razões, à atuação [sic], nessa reunião, de Agostinho da Silva.

Teria o Reitor Edgard Santos assim agido por haver, talvez, levado em conta, ponderações que lhe teriam sido feitas por Heron de Alencar e Antônio [sic] Celestino, este, um português então residente em Salvador, muito a ele chegado e discordante do salazarismo; sem que se deva, ao meu ver, considerar a presença e participação no Colóquio de intelectuais brasileiros com notórias posições de oposição ao regime português, como atitudes de acomodação ou aprovação "tácita" da sua política.

Não teria sido, pois, o IV Colóquio Luso-Brasileiro, o que Maria de Fátima Maia Ribeiro denominou de "suplemento oblíquo de demonstração da positividade do regime imperial"; nem dele resultaria, embora fosse desejada pelo governo de Salazar, a "legitimação do colonialismo português".





Forte de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz, erguido entre 1507-1515 (Irão).


Cisterna Manuelina da Fortaleza de Mazagão construída entre 1513-1541 (Marrocos).



Mapa português da Índia em 1630. Detalhe do atlas Taboas geraes de toda a navegação, de João Teixeira de Albernaz e D. Jerónimo de Ataíde.


Carraca portuguesa em Nagasaki



Tsuba com a Esfera Armilar





Tsuba com ornamentos emblemáticos, entre os quais ressalta a cruz cristã.







Kyoto - 1963: Agostinho da Silva, Cláudia Lemos e Secretária da Embaixada do Brasil.


Quanto à idéia [sic] da fundação do Centro de Estudos Afro-Orientais, foi ela, inteira e exclusiva de Agostinho da Silva; ainda que, de início, houvesse ele pensado apenas em um centro de estudos africanos, havendo o termo orientais lhe sido acrescentado por sugestão do Reitor Edgard Santos, conforme depoimento do próprio Agostinho.

Outra falsa interpretação envolveu, em caso preciso, a sua ação [sic].  Poucos o entenderam quanto ao que queria realizar. É que ele sonhava com uma comunidade de povos que viessem a conviver, guardando e respeitando os valores culturais de um Portugal do passado, o do tempo dos descobrimentos, que já desaparecera, sem deixar vestígios, em sua opinião, na Europa, valores, contudo, que teriam sobrevivido nas antigas colônias [sic] estabelecidas pelos portugueses na América, África e Ásia, de modo mais específico, no Brasil.

Místico por essência, influenciado por Vieira e pela leitura atenta que fizera dos textos do milenarista calabrês Joaquim de Fiori, encantado pela idéia [sic] do "Quinto Império" de que tanto falara Vieira em sua História do Futuro, transformado, em seu pensamento, no "Império do Espírito Santo", sonhava com algo muito amplo - uma comunidade no seio da qual pudessem conviver em paz e liberdade, como países independentes, todos os povos que haviam recebido, no passado, aquela influência portuguesa. Nada tendo isso a ver com o luso-tropicalismo de Gilberto Freyre, como o qual não concordava, e sem esquecer considerar difícil ver realizado o seu sonho, pois que os povos que deveriam participar dessa comunidade e nela se manter, teriam que fazê-lo por sua espontânea vontade, fiéis que se sentissem ao espírito que nela os deveria unir.

Seu sonho envolvia, portanto, terras e povos da América, África e Ásia, englobando tanto as que se haviam tornado, ao longo do tempo, colônias [sic] portuguesas, mas também aquelas onde teria chegado, um dia, a mensagem daquele Portugal do passado. Nada tendo, pois, a ver esse seu sonhado Império com os impérios coloniais que as potências europeias [sic], inclusive Portugal, haviam antes construído sobre terras americanas, africanas e asiáticas.

Poucos foram, no entanto, capazes de entendê-lo. Tanto que, logo após haver sido instalado o Centro de Estudos Afro-Orientais, fui procurado, aqui em Salvador, por intelectuais pseudo-esquerdistas, inconformados com a minha presença, como homem de esquerda, ao lado de Agostinho da Silva, como ocorrera desde os primeiros dias de existência do Centro de Estudos que ele criara. Vieram dizer-me, nessa ocasião, haver me enganado a seu respeito, rotulando-o de "colonialista" e me propondo, então, a adesão a um novo Centro, por eles criado no Rio de Janeiro, com o nome de Centro de Estudos Afro-Asiáticos, já entregue, àquela altura, à direção [sic] de um conhecido crítico literário, baiano radicado no Rio de Janeiro, amigo de Heron de Alencar, que de lá viera, entre outras cousas, para conversar comigo a esse respeito. Devendo, então registrar-se o fato [sic] de, entre os poucos intelectuais baianos que bem entenderam o pensamento do fundador do CEAO, haver figurado Thales de Azevedo, por lhe sobrarem inteligência e bons conhecimentos, superiores em qualidade, às dos detratores [sic] de Agostinho da Silva.

Tendo sido por mim repelidos em suas insinuações, iriam eles tentar, desde então, desmoralizar a ação [sic] do Centro de Estudos Afro-Orientais da Bahia, que já havia enviado, quando era ainda dirigido por Agostinho da Silva, respectivamente, para a Nigéria e o Senegal, dois professores baianos, Vivaldo da Costa Lima e Pedro Moacir Maia, a fim de atuando [sic] junto a Universidades africanas, ali poderem reconhecer e bem avaliar os elementos culturais que da África haviam chegado, no passado, para o Brasil; e ainda, nelas criar Centros de Estudos Brasileiros que propiciassem a estudantes africanos o aprendizado do português e o conhecimento da cultura brasileira, havendo eles desempenhado, com extraordinário êxito, essa sua árdua missão.

Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro, actual Bahia, em 1500. Óleo sobre tela de Oscar Pereira da Silva (1922).



Fundação de São Vicente, a primeira vila da América Portuguesa.



O Forte de Santo António da Barra, em Salvador, construído pelos Portugueses no final do século XVI.



Fachada da Igreja dos Irmãos Terceiros de S. Francisco de Salvador (projecto do mestre arquitecto português Gabriel Ribeiro). Ver aqui





Jânio Quadros condecora o guerrilheiro Ernesto "Che" Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul (1961, Arquivo Nacional).













Uma pequena amostra das conquistas revolucionárias em Havana (Cuba comunista).































Trataram, então, os "afro-asiáticos", apoiados em influências exercidas sobre o governo de Jânio Quadros por intelectuais de prestígio, agindo em seu próprio favor ou em benefício de afilhados, garantir quadros diplomáticos nas embaixadas já abertas ou a serem instaladas pelo Brasil nos novos países da África; quase todas já havendo sido entre eles "repartidas", quando da renúncia daquele presidente, o que sustou essa extravagante corrida "diplomática", uma insólita história ainda a ser contada.»

Waldir Freitas Oliveira («Agostinho da Silva. Lembranças e Verdades»).


«Um dos nossos maiores erros é a ilusão no que respeita ao nosso "eu". O homem tal como o conhecemos - "a máquina humana" que não pode "fazer" e na qual todas as acções aparentes são simplesmente "feitas" - não pode ser um "eu" invariável e unificado. O nosso "eu" muda tão frequentemente quanto os nossos pensamentos, sentimentos e humores, e cometemos um sério engano em considerar-nos sempre a mesma pessoa, quando de facto somos sempre outra pessoa e nunca a mesma pessoa do momento anterior. O homem não tem um "eu" constante e invariável. Cada pensamento, cada humor, cada desejo, cada sensação diz "eu". E, em cada caso, assumimos que este "eu" fala pelo Todo, a pessoa toda, e que um pensamento, um desejo ou uma aversão representam a expressão deste Todo. Na verdade, este pressuposto é inteiramente infundado. Cada pensamento e cada desejo aparecem e vivem bastante separados e independentes do Todo. E o Todo nunca se expressa realmente, pela simples razão de que ele existe como tal, apenas como uma entidade material num corpo físico e como um conceito abstracto. Na sua psique, o homem não tem um "eu" unificado, mas antes centenas de pequenos "eus" separados, que são, com muita frequência, inteiramente desconhecidos e inacessíveis entre si ou, ao contrário, hostis entre si, isto é, mutuamente exclusivos e incompatíveis. Cada minuto, cada momento, estamos a dizer ou a pensar "eu", e de cada vez o nosso "eu" é diferente. Primeiro é um pensamento, depois um desejo, depois uma sensação, depois outro pensamento e por aí fora, ad infinitum. O homem é uma pluralidade, o nome dele é Legião.»

G. I. Gurdjieff («Em Busca do Ser. O Quarto Caminho para a Consciência»).




Amar o imprevisível


O meu conceito de pessoa é, digamos, tão interior e tão não comprometido seja com o que for, que não teria nome nenhum e não poderia designar-se por coisa nenhuma. O meu conceito interno de pessoa é um conceito a quem se poderia aplicar o nome de pessoa porque esta vem da palavra divina persona que significa máscara. Então quando digo «está aqui uma pessoa», é a mesma coisa que dizer: está aqui um homem mascarado ou uma máscara de homem, que me pode aparecer com muitos aspectos. A pessoa pode ter várias personae, várias máscaras com que aparece. Então podemos supor que às várias máscaras que aparecem ou que sem aparecer existem, a pessoa pode dar nomes diferentes, escondendo, deixando no silêncio, na obscuridade, na indefinição, aquilo que a pessoa acha fundamental. Assim daqui nós podemos passar para uma coisa metafísica ou teológica que seria interessante explorar, que é a da concepção de um Deus, vário e uno ao mesmo tempo. Coisa que me parece a mim muito compreensível se nós aceitarmos, não quero dizer aceitarmos como verdade - para um sê-lo-á, para outros não - mas aceitarmos como hipótese, que antes de haver mundo existia alguma coisa com possibilidade criadora a que se chamaria na linguagem de algumas pessoas Deus. Então eu acho que esse Deus teria consigo, como uma das suas características, a da consciência. Esta não existiria fora de Deus e não teria aparecido no mundo apenas aquando da sua constituição. Deus teria consciência, ela estaria em Deus, ou se o meu amigo quer chegar à última coisa que podemos dizer nesse ponto: Deus seria a consciência. Então Deus teria a consciência de si próprio. Ao acontecer isso, já haveria duas pessoas: aquela que tem consciência e a que é conscienciada. O sujeito da consciência e o objecto da consciência. E nós teríamos duas pessoas, uma depois da outra, numa sucessão como se fosse de pai e filho, coisa que pode suceder connosco se, por exemplo, nos olharmos ao espelho ou se olharmos para dentro de nós próprios sem espelho...

Ele teria consciência. É por isso que eu digo: se nós quiséssemos chegar ao exagero - Deus seria a consciência, e basta eu dizer isso para fazer imediatamente de Deus um sujeito e um objecto. Então eu preferia: ele era a consciência, para não separar sujeito e objecto. Mas quando ele toma consciência de si próprio então há um sujeito e objecto, só que são um e o mesmo. Mas ao mesmo tempo que eles são o mesmo, eles são dois, o sujeito e o objecto. Deste modo, se são um mesmo há uma identidade, há uma essência entre o Pai e o Filho, e aí está o que eu chamaria o Espírito; a essência de Deus estaria ao mesmo tempo no Pai e no Filho, no sujeito e no objecto, seria independente deles ao mesmo tempo.



"Santíssima Trindade", por Gregório Vásquez de Arce y Ceballos.



Assim, agora, ao passo que o Pai seria previsível, de um Deus Pai Criador eu posso sempre dizer que tal acto é previsível nele ou não, inclusive a destruição. Porque o acto de destruição, tal como o podemos conceber, é sempre o acto de uma nova criação; na realidade ninguém morre, toda a gente se transforma noutra coisa qualquer, por um lado transforma-se numa certa química, e por outro numa certa lembrança, numa certa ideia. Nem na morte há uma destruição! Há uma lembrança da pessoa nos que ficam e há uma transformação química naquilo que baixa à terra ou que se queima, porque no fim é o mesmo. Então ele será sempre o Deus Criador. Não tenho possibilidade de ver Deus como um destruidor absoluto - ele é previsível. No Filho, naquele que toma consciência do outro há, pois, sempre uma ligação, que é uma ligação de identidade, de amor, o que para nós colocaria uma definição de amor ou uma ideia de olhar o amor que talvez fosse interessante - ver em dois seres que se amam a existência dos dois em cada um deles, continuando ao mesmo tempo os dois diferentes um do outro, separados e, dentro de cada um, inteiramente ligados, tal como acontece agora nessa ideia, digamos, teológica, de Deus. Mas há o outro - a existência. Como em duas pessoas que se amam, além do objecto amado, há o amor, lá dentro. Deste modo parece-me que, tal como o Deus Pai, o Criador é previsível e é-o também seu Filho, dentro da forma que essa ideia tomou e se estabeleceu no Ocidente, nós podemos dizer, por exemplo, que Cristo é previsível, que eu sei o que fará perante uma determinada situação ou o que é mais provável que faça. Mas a essência tem de estar liberta das características do Pai e das do Filho. A essência, provavelmente, tem de estar pronta para qualquer coisa que apareça. E por isso se diz no Texto, que o Espírito voa onde quer, que o Espírito é imprevisível.

Então parece-me que tomando também a outra ideia do Texto, a ideia que o homem é à imagem e semelhança de Deus - o mais próximo de Deus que podemos encontrar na criação - diríamos que há dentro de cada um de nós uma coisa fundamental que não podemos definir e que por não conhecermos totalmente é de facto imprevisível, pode-nos aparecer de várias maneiras, isto é, para nos aparecer tem de pôr sempre uma máscara, é sempre uma persona e como persona podemo-nos comportar de várias maneiras. Então há uma maneira de comportamento de cada um de nós que convém à nossa comodidade pessoal e ao jogo social em que estamos inseridos. E todos nós aderimos muito a essa persona, a essa maneira de ser, com mais ou menos largueza, amando mais ou menos o risco, o perigo, aderimos a ela e é essa personalidade aquela que fundamentalmente vivemos na nossa vida social. Mas há muitas outras que existem dentro de nós como tendência ou como realização, potência ou acto. Por isso algumas pessoas vão para a realização e assinam os seus trabalhos de várias maneiras. Por exemplo, eu fiz uns trabalhos de zoologia médica. Esses trabalhos são todos assinados com o meu nome. E por quê? Porque a instituição em que eu trabalhava no Rio de Janeiro, o Instituto Oswaldo Cruz, era uma instituição pública famosíssima no domínio da biologia e, portanto, com uma certa regra científica, uma certa constituição de comportamento científico.

Quer dizer, nesse tempo, no Rio de Janeiro, eu fazia: de manhã zoologia médica com o meu nome no Instituto Oswaldo Cruz, à tarde pesquisa histórica para o Itamaraty na Biblioteca Nacional com o meu nome, à noite, ensinava filosofia da educação na Universidade também com o meu nome. Três coisas tão distintas como estas punha-as todas com o meu nome? De qualquer maneira isto devia estar ligado a algo muito importante na vida geral que é um cheque no fim do mês e eu não podia ter esse cheque com um pseudónimo, pois o banco não o pagava. De modo que o melhor nessas três coisas tão diferentes, era eu ter um nome a que o banco pagasse e em que pudesse apresentar os documentos oficiais. Noutras coisas - ser tradutor de Anacreonte ou qualquer coisa assim, coronel em Timor (coisa que eu poderia ter sido), ou qualquer outra coisa que vai ver nessas Folhas de São Bento - não havia nenhum cheque pendurado, eu tinha o dinheiro suficiente para pagar a edição, enfim, essa coisa toda. Então podia ser à vontade assim, dando porém um testemunho que para mim é fundamental - para mim e sobretudo para os outros - a ideia de levá-los a pensar, que eles também são vários. Muita gente já o sabe e  sente-se oprimida, sente-se excluída de uma vida verdadeira porque tem de ser só isto ou só aquilo, ou porque fica muito espartilhada para ser outras coisas ou porque poderia parecer esquisito também ser outras coisas. Então gostaria que as pessoas se libertassem desse modo e se realmente lhes apetecer que sejam várias coisas.

É evidente que a nossa economia actual é a mesma, quer do lado capitalista, quer do lado a que se chama socialista ou comunista. Eu gosto mais de dizer comunista porque aí é inteiramente definido, de facto se digo socialista sou capaz de estar a tomar banho em água morna, nem uma coisa nem outra, indefinida. É uma economia do trabalho, da produção, do consumo, é uma economia de uma obrigação e que com a consciência leve toma conta da terra, como se a terra lhe pertencesse, toma conta das plantas, dos animais e dos homens no fim de tudo. São organizações, de um lado e do outro, que tomam conta de tudo o que está vivo e não só - o homem, por exemplo, vai demolir montanhas para tirar o ouro ou a prata, dominando o mundo num império brutal sobre as coisas; é extraordinário o que o homem faz com os animais - toda a gente quer pôr coisas internacionais para os direitos humanos, e os direitos dos bichos? Um dia vão ter... porque o que é isso de dominar cavalos ou cães e todas essas históricas!? Vão ter problemas complicados com isso, não é? Então eu gostaria que toda a gente começasse por ter a ideia de que ela própria é alguma coisa realmente imperial, autocrática e dominadora porque pegou num daqueles que podia ser e nomeou-o imperador dos outros e autocrata, ditador de todos os outros… e solta essas coisas, solta para fora o todo que é.



Getsémani






Igreja de Todas as Nações ou Basílica da Agonia (Monte das Oliveiras, Jerusalém).


Espero que um dia, e então falaremos nisso, as condições do mundo, numa altura em que não se sabe a que se pode ou não chamar economia, sejam de tal ordem que o homem possa efectivamente soltar-se das coisas, apenas se submetendo, aceitando, se quiser, uma paixão, desde que essa paixão não tenha mais nada que ver com a etimologia. Porque a palavra «paixão» está ligada, por exemplo, com a palavra «passivo»; quando se fala na paixão de um santo ou na de Cristo, o que aparece é o sofrimento, é o domínio da dor sobre a pessoa, é uma atitude passiva. E eu acho que a paixão que temos de pensar é o amor activo, o amor criador. Então se a pessoa tem um amor criador, também se usa para isso a palavra paixão, por exemplo, pela arqueologia naval, essa pessoa tem de ter à sua volta as condições para se soltar e, provavelmente, porque tem esse amor ela lança-se a criar, põe de lado com facilidade todos os outros, tal como na vida comum, uma pessoa que se apaixona por outra em geral está numa situação passiva em relação ao outro, obedece-lhe, o outro é quem manda nela, a pessoa nessa posição abandona muitas outras coisas, não se importa com elas, está dedicada àquilo, então é preciso que uma paixão não passiva, activa, criadora, possa ter os mesmos efeitos - abandonar as coisas secundárias para se lançar nas que importam, como temos visto em muitas personalidades históricas. Há gente que se apaixonou nesse sentido pela ciência, pela arte, ou por Deus, como os místicos, e que abandonou todas as outras coisas.

Não, esses estão muito bem e não precisam dos heterónimos para nada, eles têm um nome só, aquele espírito, o tal Espírito Santo que há dentro deles adopta uma só máscara, e esta e o seu possuidor são de tal maneira congruentes, são de tal maneira idênticos, que a máscara acaba por ser o rosto e o rosto a máscara - as coisas fundem-se completamente e ninguém sabe mais o que é persona-máscara e o que é persona-indivíduo lá metido dentro. De forma que há os heterónimos, como vários sujeitos têm sido. Em Portugal cita-se sempre o Pessoa, em Espanha pode citar-se o António Machado que também tem pelo menos um heterónimo célebre, em que ele foi outra coisa que não o poeta. Mas essa gente dos heterónimos, é porque não está verdadeiramente apaixonada por uma só coisa, mas sim por várias...

Adoptar uma só máscara? Eu acho que isso não deve ser o ideal. Porque o ideal é ir na corrente do rio, bem alegre, bem divertido com o rio, pronto para ir para todos os lugares aonde ele levar, porque acho que todas essas pessoas que têm um ideal, de certo modo estão presas por esse ideal. É que o voto fundamental da pessoa deve ser, de facto, o voto à liberdade.

Claro que é impossível ter por ideal o não ter ideal, é qualquer coisa de impossível para nós e é muito bom que o homem saiba, que cada um saiba, que há uma série de coisas, que são efectivamente impossíveis para ele, mas que sabendo que são impossíveis, possa tentar o que é impossível, apenas porque ele é limitado, porque é um reflexo muito ténue, uma centelhazinha muito distante daquilo ou daquele de que ele é imagem. Digo de propósito daquele ou daquilo, para dizer que dou perfeitamente como possível que nenhum homem, nenhum pensamento personalize o aquilo, porque talvez personalizar o aquilo é já pô-lo não como nós sermos a imagem e criação dele, mas como sendo ele a imagem e criação nossa. Quando as pessoas pensam num ser divino que as vigia, que bate num, que premeia outro, etc., estão realmente a transportar-se a si próprias para uma atmosfera divina, para um poder divino que de nenhuma maneira lhes pertence. O que há lá, a tal outra coisa que pode ser tudo, é tão ilimitada, que não pode tomar nenhuma das nossas histórias; realmente, pela essência é imprevisível, voa a tudo. Então talvez que o ideal da Humanidade, um ideal muito importante hoje na História, é passarmos do previsível ao imprevisível. Porque nós estamos a criar e a viver uma civilização desde a primeira Pré-História, uma civilização em que nos parece que temos por ideal o previsível. Hoje a informática e outras coisas semelhantes e todas as tentativas para criar inteligência mecânica, a que tantos homens se dedicam, parecem ser exactamente uma maneira de dominar o imprevisível. Então acho que só nos podemos soltar disso, começando a amar, a querer o imprevisível. Porque se o quisermos, estamos na posição de termos ao mesmo tempo um ideal - o imprevisível - e de não ter ideal nenhum, porque ele é imprevisível. (in Vida Conversável, Organização e Prefácio de Henryk Siewierski, Assírio & Alvim, 1998, pp. 25-30).


Agostinho da Silva (Tokyo, 1963).



Domingo de Páscoa, 3 de Abril de 1994 (dia do falecimento de Agostinho da Silva).