Escrito por Agostinho da Silva
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«O que ele [Pitágoras] dizia aos seus companheiros, ninguém o pode referir com segurança; é que entre eles reinava um invulgar silêncio. Mesmo assim, tornou-se universalmente conhecido o seguinte: em primeiro lugar, que ele afirma que a alma é imortal; depois, que ela se muda para outras espécies de seres animados; além disso, que os acontecimentos ocorrem em determinados ciclos, e que nunca nada é absolutamente novo; e por fim, que todos os seres vivos devem ser considerados como aparentados. Segundo parece, Pitágoras foi o primeiro a introduzir estas crenças na Grécia.»
Porfírio
(«Vida de Pitágoras»).
« – Que é a transmigração? Julgava que toda a gente o sabia. Não? Pois bem, então vejamos: é a passagem duma alma para outro corpo. Existem imensos exemplos deste facto na história do mundo. Para tornar mais claro este fenómeno, imagine uma viatura. A viatura pára e o condutor sai dela. Entra um outro condutor e passa a dirigir a viatura. Os condutores podem ser comparados a almas. Da mesma forma que uma viatura pode ser sucessivamente conduzida por duas pessoas, o corpo pode ser investido sucessivamente por duas almas. Toda a complicação se resume a isto. Também se pode explicar a transmigração da seguinte forma. O senhor tem uma bateria eléctrica. A carga – neste caso a alma – esgota-se e há necessidade de recarregar a bateria de vez em quando. Dito doutra maneira, a mesma bateria é, de vez em quando, provida duma nova “alma”».
«Rampa explica-se» (in Alain Stanké, «Lobsanga Rampa – O Enigma»).
«Restabelecendo
tanto quanto possível o pensamento primitivo do Buda, parece que a primeira
ideia a que chegou foi a da ligação íntima que existe no universo entre causa e
efeito. Não tinha que se invocar para o mundo um governo de deuses. Tudo o que sucede tem a sua explicação
suficiente em qualquer acto que o precedeu; o que nos acontece e o que acontece
a todos os animais e a todos os objectos não é mais do que o resultado do que
aconteceu em momentos anteriores. Um homem bastante inteligente que conhecesse
a totalidade do universo num certo instante e as leis que regulam as
transformações poderia predizer o que se passaria no instante seguinte. Só a
nossa ignorância e a nossa limitação intelectual nos fazem aparecer os fenómenos
como isolados, como surgindo por acaso, ou nos podem dar a ilusão de que algum
acto se perdeu, sem efeito. Nenhuma acção boa, nenhuma acção má deixam de mover
a grande máquina, deixam de se incorporar no universal fluxo, todas sendo
causadas, todas causando por seu turno. A cadeia de causas e efeitos é a
verdadeira natureza do universo e não há possibilidade de nenhum pensamento
libertador sem que a ideia se ponha nitidamente; de contrário, só teremos o
recurso de nos entregarmos nas mãos de deuses que nos dirijam à sua vontade ou
de admitir que tudo sucede por acaso. Qualquer das duas hipóteses é, segundo o
Buda, perfeitamente absurda.
Poderia supor-se, com uma visão superficial, que a morte quebra estes laços, que interrompe, num determinado momento, num determinado lugar, a relação de causa e efeito; é uma pura ilusão, como tantas outras em que vivemos. A morte não é mais do que um dos elos da cadeia. E verdadeiramente não há morte, como não há nascimento, senão no sentido de que nos aparece alguma coisa de novo. Uma corrente de vida percorre todo o mundo, eternamente, sem admitir falhas sem interrupções. O homem a que chamamos morto está na realidade tão vivo como nós, simplesmente com uma forma diferente de vida. Como amanhã poderá ter a de mineral ou a de árvore. É esta a interpretação que, segundo parece, convém dar à ideia de transmigração budista. Não se trata propriamente da passagem de uma alma para outro homem, ou para um animal, ou para uma planta, mas o reconhecimento de que nada suspende quanto a essa alma o fluxo de vida que constitui o próprio universo. Morrer é um aspecto diferente de ser. Vive-se por toda a eternidade, embora se mude exteriormente; mas o exterior nada é do que aparência e engano.»
Agostinho da Silva («O Budismo»).
Gautama Buda
(...)
As primeiras palavras pronunciadas pelo Buda depois da «iluminação» chamam-se
as «bem-aventuranças». São como que a indicação das qualidades que deve possuir
o homem que deseja ser salvo, a lista do que cada um deve encontrar em si
próprio para se assegurar de que atingiu a libertação. E bem-aventurado o que
vive só, mesmo entre uma multidão, o que se sente separado dos interesses
vulgares porque conhece e vê a verdade; é bem-aventurado o que, no confluir e
no tumulto das doutrinas, no embate de paixões e de instintos, de loucuras e
esperanças, de anseios e de desânimos, se mantém firme como um sólido rochedo
sobre as águas, como torre sobre a areia dos desertos. É bem-aventurado o que
viu o fim de todo o impulso e de todo o «querer ser»; é bem-aventurado o que
venceu a teimosia do «eu» e o sente dissolver-se, perdendo-se, e garantindo a
liberdade que, com ele, jamais encontraria.
Depois,
vai em busca dos cinco monges com quem vivera e encontra-os na cidade santa de
Benares. Estão na mesma disposição de hostilidade e de dureza perante o traidor,
mas a atitude do sábio domina-os imediatamente; é a eles que Buda prega o que
pode ser considerado como o texto fundamental do budismo, o resumo de toda a
doutrina. Expõe-lhes a primeira «verdade santa», a de que a vida é
instabilidade e dor, e sempre foi e sempre será instabilidade e dor para o comum
do universo. Em seguida, que a origem da dor é a sede de existir, que o desejo
cria o ser e o torna infeliz. A terceira «verdade» é, naturalmente, a de que a
supressão da dor só se poderá conseguir com a supressão do desejo; na quarta
«verdade», indica-lhes o caminho a seguir para se atingir o nirvana: pureza de
fé e de vontade, de palavra e de acção. Pureza na maneira de existir, não
roubando nem matando, pureza na aplicação da tarefa de libertar-se, pureza de
memória, pureza de meditação.
É
importante notar-se que Buda não se apresenta como o portador de um dogma a que
os outros devem respeito e obediência cega. Ele quer que todos pensem e
critiquem, que ninguém se deixe, até, levar pelo respeito, pela simpatia que
possam ter pela sua pessoa. O caminho que o trouxe até às suas verdades foi
afinal um caminho de inteligência, de raciocínio; não há motivo algum para que ele
subitamente se suspenda. Além de tudo, a verdade não se toma feita do
pensamento dos outros. Exige que cada um de nós a refaça, caso contrário será
morta e inútil. Não é do exterior para nós que se terá de desenrolar o caminho
da salvação, mas de dentro do homem para fora do homem, do seu espírito para o universo.
Quem
pretende imitar o Buda não tem que acreditar nem em textos, nem em ritos, nem
no prestígio dos sacerdotes. Que tudo se construa de novo, que tudo se erga a
golpes de razão, que se procure no íntimo a luz salvadora, porque é em nós que a verdade reside. A palavra de fora pode despertar da ilusão; mas é a nossa alma
que será o guia.
Muitos
acorreram a ouvir a pregação de Buda e abandonaram logo as suas casas para
melhor alcançarem o nirvana; reuniam-se em grupos e viviam de esmolas nos bosques
e palácios que admiradores ricos punham à sua disposição. Na estação seca
erravam pela Índia, a ensinar a doutrina. Observavam os preceitos de não matar,
não roubar, não ter relações sexuais, nem vanglória de se sentirem perfeitos.
Pouco depois apareceram os primeiros grupos de monjas, embora a mulher fosse
considerada como um ser inferior e perigoso, muito mais perto de Mara do que
do paraíso das bem-aventuranças. Fora, os laicos simpatizantes iam aumentando
de número; tinham tomado da doutrina de Buda o que era compatível com a vida que
continuavam a levar, mas distinguiam-se pela bondade, pela honestidade, pelo
sereno comportamento em todos os actos da existência.
Não
havia templos budistas, nem se adorava nenhum deus. Buda não lhes negara a existência explicitamente, mas a sua
concepção do universo era formada de tal modo que dispensava a sua intervenção,
quer no curso normal da vida, quer no que respeita ao acto de salvar-se. É
neste sentido que a doutrina de Buda é um ateísmo e tem sido por muitos
considerado não como uma religião mas como uma filosofia; os deuses, mesmo que
existam, serão dispensáveis. Buda não perde tempo a esclarecer os problemas que
não importam directamente ao estabelecimento de uma doutrina de salvação e de
uma norma de vida e era exactamente esse caso o que se dava com os deuses.
Quanto a acto de culto, nenhum havia a praticar. Ninguém se salvava pelo acto exterior de um sacrifício ou de um rito, a prece não tinha poder mágico, o sacerdote não tinha maior conhecimento dos segredos do mundo. Não se dava com o budismo desse tempo o que acontecia com outras religiões em que se conferia todo o poder à superstição e a uma espécie de feitiçaria que apagava com os seus actos todos os pecados do fiel. Buda vai, quanto a este ponto, na linha de pensamento de contemporâneos seus, os profetas da Judeia e os taoistas da China. O que importa é que a vida seja pura, não que se cumpra o preceito exterior da reza ou da esmola indiferente. As leis escritas nos livros dos templos são mortas e secas; só valem as leis que se inscrevem nas almas e passam como que a fazer parte da sua própria estrutura. Para o budista, o importante reside nos actos da vida; é aquilo que cada um faz, não aquilo que cada um diz, o que o perde ou o salva.
Nas
comunidades dos monges havia duas cerimónias que, embora, pudessem recordar
certos ritos, estavam, no entanto, profundamente ligadas ao desejo de pureza na
vida; chamava-se uma a «confissão», a outra o «convite». Na primeira, os monges
reunidos confessavam alto, cada um por sua vez, as violações de preceitos que
tinham cometido; para eles era um princípio de libertação e um tomar de
consciência que lhes dava maior força para a sua tarefa de salvar-se. Para os
outros, era uma ocasião de meditarem sobre os pecados idênticos que tinham cometido
e de, ao mesmo tempo, se não verem como réprobos no mundo, mas como membros de
uma humanidade fraca e incerta, a cada passo descendo ao caminho da ilusão e do
engano. No «convite», cada monge erguia-se e declarava o que lhe tinha parecido
mal na comunidade e o que tinha notado de repreensível em qualquer dos seus
companheiros; reconhecia-se que só a crítica livre podia evitar à comunidade
grandes males e impedia-se o gosto da maledicência e da calúnia.
Embora
não fizesse parte de uma comunidade, Buda andava sempre com alguns
companheiros, ou dos discípulos antigos ou dos que mais recentemente se tinham
convertido. As aldeias mais humildes como as cidades mais poderosas viam-no
passar com a sua pobre túnica e ir de casa a casa com a tigela das esmolas. Não
fugia dos homens, antes procurava que o convidassem para ter ocasião de lhes
comunicar as suas doutrinas; tratava os homens de todas as castas e de todas as
raças como irmãos que muito amava sem fazer entre eles a menor distinção. E,
entre os monges, apareciam, ao lado de príncipes, de mercadores e de guerreiros,
discípulos que provinham das classes mais desprezadas.
Todos
viam Buda não como um deus que descera dos céus a pregar-lhes a verdade, mas
como um homem de superior inteligência e de perfeita moral que tinha conseguido
descobrir o caminho da salvação e fora bastante generoso para o ensinar aos
outros; tratavam-no com veneração, mas não o adoravam. Era o mestre cuja
doutrina se ouvia e se discutia, que se não mostrava ofendido por nenhuma
dúvida, nem adoptava as atitudes superiores de quem pertence de direito a
planos ultraterrenos. Era, na realidade, um homem como eles, da sua mesma
natureza, embora com qualidades que o distinguiam dos outros. À medida que
avança em idade – e a sua pregação estende-se, segundo a cronologia mais de
aceitar, por cerca de 50 anos –, maior se torna o respeito que todos sentem por
ele, pela sua vida admirável de pureza e de bondade, mas não acode a ninguém o
pensamento de o divinizar, de tal maneira Buda se mantinha deliberadamente na
esfera do humano e do racional.
Ao
contrário de outros fundadores de religiões, Buda não faz milagres; pelo menos,
não existe a narrativa de nenhum nos textos que nos merecem mais confiança. O milagre
era, de resto, perfeitamente absurdo num mundo determinado de que se tinha
afastado a vontade arbitrária dos deuses. O facto de não aparecerem
acontecimentos miraculosos não quer dizer que se não contem factos que são
realmente extraordinários; são quase todos referentes à bondade de Buda e ao
seu império sobre o mundo dos homens e dos irracionais.
Era
natural que a imaginação ardente do hindu tivesse ido além do verdadeiro; mas
também não vai muito longe do razoável acreditar que Buda tivesse amansado
elefantes bravios que acorriam para o matar, ou dominado às primeiras palavras
ou só com a vista os adversários que dele se aproximavam com intuitos maléficos.
A sua inesgotável benevolência abatia todo o furor cego e todo o ódio.
Algumas
vezes surgiram divergências entre os monges. Um primo de Buda é apresentado nos
textos como tendo-se revoltado contra o próprio mestre e feito a exigência de
um maior rigorismo na regra monástica. Era decerto um espírito organizador, a
quem parecia um erro a inexistência de um poder central forte e a demasiada
indulgência do fundador. Por um lado, devia-se obrigar os monges a um estrito
ascetismo, por outro lado pôr cobro à anarquia que tudo acabaria por perder.
Não teve, porém, consigo nem a opinião de Buda, nem o assentimento da maioria
dos monges. Ele próprio acabou por ver que a libertação da vida, no sentido
búdico, e organização de vida são incompatíveis e que o desenvolvimento livre
das comunidades, apesar dos perigos inegáveis, trazia vantagens, que se não
podiam eliminar sem maiores riscos, para o progresso espiritual dos discípulos.
Por volta dos 80 anos, sentiu Buda que já tinha pouco tempo para viver e, a convite de Ananda, o seu discípulo favorito, fez uma última recomendação de que ninguém se apresentasse como guia ou como chefe dos outros, cada qual traz a luz em si próprio e a ela deve recorrer. Depois, dirigiu-se a Pava e, apesar de já doente, não recusou tomar parte numa festa para que o convidaram. À mesa serviram carne de javali e Buda, para não ofender o amigo hospitaleiro, comeu da carne que lhe deram; teve uma indigestão ou uma infecção intestinal e foi morrer a Cussínara, à sombra de umas árvores, junto de Ananda e doutros monges. No dia seguinte, ao despontar do Sol, os nobres da cidade, segundo o costume, queimaram o corpo de Buda, mas com honras que só se prestavam aos reis.
Agostinho da Silva («O Budismo», in Páginas Esquecidas, Fixação do texto, selecção, introdução e notas de Helena Briosa e Mota, Quetzal, 1.ª edição, 2019, pp. 317-321).








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