segunda-feira, 9 de março de 2026

Os mensageiros da Morte

Fragmento extraído d'O Livro Tibetano dos Mortos




«Há que acreditar em Rampa?

A edição especial de The Third Eye traz um aviso prudente dos editores ingleses. O texto foi repetido em Troisième Oeil, mas já se não encontra na reedição popular. Notamos curiosamente a prudência com que os editores Secker e Warburg apresentavam o seu autor: como prova eis o seu texto:

O relato autobiográfico das experiências dum lama tibetano é um documento tão excepcional que é difícil estabelecer a sua autenticidade. Procurámos obter a confrontação do que o autor diz submetendo o manuscrito a uma vintena de leitores, escolhidos pela sua inteligência e pela sua cultura, alguns dos quais possuíam um conhecimento profundo do assunto. As suas opiniões foram de tal modo contraditórias que não se conseguiu obter qualquer resultado positivo. Nem sempre foram as mesmas passagens que viram contestada a sua exactidão e o que parecia duvidoso a um perito era aceite sem qualquer reserva por outro. Mas, perguntámo-nos então, encontrar-se-ia no mundo um só especialista que tivesse o treino dum lama até às suas formas mais extremas? Encontrar-se-ia um só que tivesse sido criado numa família tibetana?

Verifica-se pelos documentos fornecidos por Lobsang Rampa que é diplomado pela Universidade de Medicina de Tchong-k’ing e que tem o título de lama do mosteiro de Potala em Lassa.

Podemos verificar através de numerosas conversas o carácter excepcional das suas faculdades e dos seus conhecimentos. Em numerosos pontos da sua vida pessoal mostrou-se duma discrição por vezes desconcertante. Mas todos têm o direito de ter uma vida privada e Lobsang Rampa assegura que, estando o Tibete ocupado pelos comunistas, é obrigado a uma certa discrição para não comprometer a segurança da sua família. É por esta razão que alguns pormenores, tais como a verdadeira posição ocupada pelo seu pai na hierarquia tibetana, são apresentados duma maneira deliberadamente inexacta.

Tudo isto explica que o autor deve tomar a completa responsabilidade das suas declarações, o que aliás faz de boa vontade. Pensar-se-ia talvez que ultrapassa por vezes os limites da credulidade ocidental, ainda que os nossos conhecimentos na matéria não possam ser considerados definitivos. Os editores estão apesar de tudo persuadidos de que Le Troisième Oeil constitui na sua essência um testemunho autêntico acerca da educação e da formação dum jovem tibetano no seio da sua família e numa lamaseria. É por esta razão, e unicamente por ela, que publicamos este livro. Acreditamos que aqueles que o irão julgar duma maneira diferente estarão pelo menos de acordo em reconhecer ao autor um raro talento de contador e o poder de evocar com felicidade cenas e personagens tão excepcionais como cativantes.



(...) Lobsang Rampa não é o seu nome!

Em 1960 Rampa fazia aparecer no seu livro The Rampa Story a declaração seguinte, que é um elemento importante para todo aquele que quiser descobrir a evolução deste homem. Dela damos a respectiva tradução.

Declaração do autor

Admite-se geralmente no Oriente que um espírito pode tomar posse dum corpo, se é mais forte que o espírito que antes habitava esse corpo. Numerosos exemplos deste facto existem igualmente no Ocidente, como parecem provar o caso de Bridie Murphy e o que se encontra relatado em Trois Visages d’Eve.

No final do ano de 1947, Cyril Hoskins experimentou estranhas impressões e sentiu-se na obrigação de adoptar um modo de vida oriental. No dia 9 de Fevereiro do ano seguinte, chegou mesmo a pedir a mudança do seu nome. Conseguiu, por acto declarativo legal, chamar-se KuanSuo.

Durante vários meses, Cyril Hoskins (presentemente Carl KuanSuo) foi atingido por uma estranha confusão mental. Teve de renunciar à profissão que exercia e instalou-se numa região afastada. Sofria do que pareciam ser alucinações e duma espécie de desdobramento da personalidade. As recordações da sua existência de inglês apagavam-se, substituídas pelas recordações dum oriental.






 

Teve de mudar de domicílio por várias vezes, para confundir as pistas. No dia 13 de Junho de 1949, foi vítima dum pequeno acidente no seu jardim. Segundo parece, uma espécie de comoção cerebral. Durante este ataque perdeu toda a recordação da sua vida passada e, em substituição, veio-lhe a memória completa dum tibetano, desde a mais recuada infância. Durante vários dias, na sequência do que se passara, ficou num estado de insensibilidade que inquietou a sua mulher mas que ela atribuiu às preocupações, ao desemprego e talvez a esquizofrenia. Ela encontrava-se em condições de o informar acerca da sua vida passada, porque a fim de poder continuar a viver num país ocidental, era preciso que KuanSuo desse a impressão de continuar a ser o inglês que tinha sido.

Devo insistir no facto de que os Orientais são capazes de recordar toda a sua vida desde a mais tenra infância e que admitem com facilidade que uma entidade forte pode tomar posse dum corpo antes habitado por uma outra alma.



Durante esse tempo eu tinha – porque fora eu que tinha tomado posse deste corpo –, tinha, como digo, adquirido uma grande força de visão e era capaz de ver muito para além do alcance normal do olhar. Falei aliás de tudo isto em Le Troisième Oeil.

Durante muito tempo procurei encontrar um emprego em Inglaterra. Por diversas razões não o consegui e tive de viver de algumas economias. Finalmente, munido duma carta de recomendação dum amigo, fui visitar o Sr. Cyrus Brooks, das Edições A. M. Heath e Cº. Estava disposto a aceitar qualquer trabalho de escritório, a aceitar mesmo servir de nègre [escritor desconhecido do público que redige obras que depois são publicadas sob o nome dum autor já célebre] para qualquer escritor. Por acaso, durante uma conversa, abordei o assunto do Oriente. O Sr. Brooks aconselhou-me a escrever um livro sobre isso e, durante muito tempo, recusei-me a fazê-lo. Depois, como continuava sem encontrar trabalho, resolvi-me a escrever este livro. É preciso notar que sabia, graças à memória que tinha da minha vida oriental passada, onde se encontravam os papéis que provam a minha identidade. Fi-los procurar e fiz com que mos enviassem. Depois, mandei devolver esses documentos ao seu lugar de origem, porque queria evitar vê-los sujos pelas dúvidas que se levantaram a meu respeito.



O meu objectivo, ao escrever este livro, como também esse outro livro que intitulei Doctor from Lhasa, era ajudar a construir um instrumento que permitisse a todos ver a aura humana. Já foi fotografado por várias pessoas, assim como o etéreo. O Dr. Kilner, por exemplo, consagrou-lhe uma obra e apresentou dele numerosas ilustrações. O coronel Powell, na Califórnia, escreveu igualmente um livro sobre a aura humana. Precisava de meios para empreender as minhas investigações. Foi esta a única razão pela qual escrevi o meu livro Le Troisième Oeil e declaro solenemente que ele é absolutamente verídico. Foi redigido com toda a presa, como pode testemunhar o Sr. Brooks. Não fiz qualquer investigação para me documentar e nada do que contém esse livro foi tirado de qualquer outra obra. Não existem dois “peritos” que se tenham podido pôr de acordo acerca dum único erro que ele pudesse conter. Os “peritos”, na realidade não conseguiram mais do que contradizer-se uns aos outros, e isto deveria bastar para provar a autenticidade do meu livro. Aliás, nenhum destes “peritos” viveu alguma vez a existência dum lama no Tibete nem alguma vez entrou numa lamaseria com a idade de sete anos, como foi o meu caso.






Existem na literatura teosófica numerosos casos de “possessão” dum indivíduo por uma outra entidade. Annie Besant, uma das sumidades do Movimento Teosófico, testemunha alguns casos destes na sua obra, assim como Alice Bailey. Abundante bibliografia se encontra consagrada a este assunto. Acrescento que um swami escreveu uma carta cuja cópia se encontra nas mãos do Sr. Brooks e dos Srs. Secker e Warburg. Nela insiste no facto de que a “possessão” é uma coisa perfeitamente corrente no Oriente.






Declaro categoricamente que os meus livros Le Troisième Oeil e Doctor from Lhasa são verídicos. A minha mulher testemunha aqui que se deu conta, na época em que isto se produziu, que o meu corpo tinha sido investido por uma outra entidade.

Nada mais tenho a acrescentar.

T. Lobsang Rampa (C. Ku’an).».

(In Alain Stanké, Lobsang Rampa – O Enigma»).

 

«Publicado pela primeira vez em inglês em 1927, O Livro Tibetano dos Mortos vendeu mais de meio milhão de cópias, e a sua tradução para muitas outras línguas europeias levou a que se tornasse o texto tibetano mais lido no Ocidente. O manuscrito desta grande obra foi descoberto por W. Y. Evans-Wentz em 1919, imediatamente a seguir à Primeira Guerra Mundial, numa altura de ressurgimento do interesse pelo espiritualismo e pelo destino dos recentemente falecidos. Oito anos mais tarde, publicou-o.







Walter Yeeling Wentz nasceu em Trenton, Nova Jérsia, em 1878. Desenvolveu muito cedo um interesse pelo espiritualismo, a partir da leitura de livros da biblioteca do pai, e ainda adolescente leu Ísis Sem Véu e a A Doutrina Secreta, de Madame Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica. Depois de se mudar para a Califórnia, Wentz tornou-se membro da Sociedade Teosófica, em 1901, e matriculou-se na Universidade de Stanford onde estudou mitologia e folclore célticos no Jesus College, em Oxford. Adoptou também o nome Evans-Wentz, juntando ao seu apelido um nome da família do lado da mãe. Embarcou depois numa volta ao mundo, visitando o México, a Europa e o Extremo Oriente, antes de passar a maior parte da Primeira Guerra Mundial no Egipto, de onde viajou depois para a Índia, chegando a Darjeeling em 1919. Nesse mesmo ano, adquiriu um exemplar do Bardo Thödol, que foi publicado com os seus comentários e anotações em 1927, como O Livro Tibetano dos Mortos. Seguiu-se a tradução de outros textos tibetanos, incluindo A Yonga Tibetana e As Doutrinas Secretas (1935) e Milarepa, História de Um Yogi Tibetano (1951). Evans-Wentz regressou aos EUA durante a Segunda Guerra Mundial e passou os derradeiros anos em San Diego, onde morreu em 1965.»

John Baldock (In Introdução ao Livro Tibetano dos Mortos, Marcador, 1.ª edição, Lisboa, 2024).

 



OS MENSAGEIROS DA MORTE


Os que são irreflectidos, e não prestam atenção,

Quando chegam os mensageiros da Morte,

Sentirão longamente as dores do sofrimento

Habitando um qualquer corpo básico.

Mas todos os homens bons e santos,

Quando vêem os mensageiros da Morte,

Não são irreflectidos e prestam atenção

Ao que diz a Nobre doutrina;

E no apego amedrontados vêem

A fértil fonte do nascimento e da morte,

 E do apego se libertam,

Assim extinguindo o nascimento e a morte.

Seguros e felizes estão eles,

Libertos de todo este circo efémero;

Livres de todo o pecado e medo,

Superaram todos os tormentos.


Anguttara Nikaya



Nenhum comentário:

Postar um comentário