sábado, 14 de março de 2026

A Psique como asa ou sopro divino

Escrito por Eduardo Schuré


Eros e Psique

«(...) os Egípcios foram os primeiros a sustentar a doutrina de que a alma humana é imortal e de que, quando o corpo perece, ela entra noutro animal, que esteja a nascer nesse preciso momento, e de que quando tiver completado o ciclo das criaturas da terra firme do mar e do ar, volta a entrar no corpo de um homem que esteja a nascer; e de que o seu ciclo se completa num período de 3.000 anos. Alguns Gregos há que adoptaram esta doutrina, uns em tempos antigos, e alguns outros mais tarde, como se fosse da sua própria invenção; os seus nomes conheço-os eu, mas abstenho-me de aqui os referir.

Heródoto II, 123 (in G. S Kirk, J. E. Raven e M. Schofield, «Os Filósofos  Pré-Socráticos»).

 

«A teoria defendida pelos Pitagóricos parece ter o mesmo objectivo; pois alguns deles disseram que a alma não é mais do que as partículas existentes no ar, e outros, que é aquilo que as move. Falaram eles de partículas, porque estas estão evidentemente em movimento contínuo mesmo quando há calma absoluta.

(...) Uma outra teoria nos foi transmitida acerca da alma... Dizem eles que a alma é uma espécie de harmonia; já que esta é uma mescla e composição de contrários, e o corpo é constituído de contrários.»

Aristóteles («De Anima»).

 

«Pensemos que os grandes acontecimentos que ocorreram ao longo da evolução da humanidade só tiveram lugar por terem sido realizados por certas pessoas. É preciso que num determinado momento certas pessoas se encarreguem dos desígnios da evolução. Pensem no curso que teria tido a evolução na Idade Média se Carlos Magno não tivesse intervindo numa determinada época, ou no curso que teria seguido a vida espiritual do passado se num momento específico Aristóteles não estivesse estado activo. Pensem que, se quiserem compreender o curso da evolução humana, tereis de, mentalmente, inserir Aristóteles na época em que ele viveu; porque, sem ele, muitas coisas ter-se-iam mais tarde passado de outro modo. Vemos por aqui que personalidades como Carlos Magno, Aristóteles, Lutero, entre outros, deviam viver na época que foi a sua, não por eles, mas pelo mundo. Todavia, o seu destino pessoal está intimamente ligado ao que se passou no mundo. Mas poderemos nós por isso afirmar que os seus actos correspondem ao que outrora eles mereceram, ou às faltas que cometeram?»

Rudolf Steiner («Reencarnação»).




O segundo Goetheanum






Da Psique como asa ou sopro divino

As evoluções material e espiritual do mundo são dois movimentos inversos, apesar de paralelos e concordantes. Um explica-se pelo outro. Ambos explicam o mundo. Mediante a evolução material, Deus manifesta-se na matéria pela alma do mundo que a elabora. A evolução espiritual representa a elaboração da consciência nas mónadas individuais, as suas tentativas de alcançar o espírito divino, de quem elas emanam através dos ciclos da vida. Do ponto de vista terrestre, a explicação racional do mundo deve começar pela evolução material. Vendo o trabalho do espírito universal na matéria, prosseguindo o desenvolvimento das mónadas individuais, essa explicação conduz ao ponto de vista espiritual, fazendo-nos passar do lado de fora para o lado de dentro das coisas, do avesso do mundo para o direito.

Assim procedia Pitágoras. A segunda parte do seu ensino começa portanto pela cosmogonia. Segundo os fragmentos da teoria esotérica dos pitagóricos, a sua astronomia seria semelhante à de Ptolomeu, geocêntrica. No centro do seu universo, Pitágoras colocava o fogo, do qual o Sol é apenas um reflexo. No esoterismo de todo o Oriente, o fogo é o signo do espírito, da consciência divina, universal. Os nossos filósofos acham que a física de Pitágoras e de Platão é uma descrição imaginativa da sua filosofia secreta, luminosa para os iniciados, impenetrável para o vulgar, pois faziam-na passar por uma simples física. Mas, devemos entendê-la como uma espécie de cosmografia da vida das almas. A região sublunar designa a esfera da atracção terrestre, chamada círculo das gerações. Para os iniciados, a Terra é a região da vida corporal. Aí ocorrem as operações de encarnação e desencarnação das almas. A esfera dos seis planetas e do Sol corresponde às categorias ascendentes dos espíritos. O Olimpo é o céu dos eleitos, sendo assimilado à esfera das almas perfeitas. Essa astronomia infantil encerra uma concepção do universo espiritual.

Os antigos e Pitágoras tinham noções justas a respeito do universo físico. Aristóteles diz que os pitagóricos acreditavam no movimento da Terra em torno do Sol. COPÉRNICO afirma que a ideia  da rotação da Terra em torno do seu eixo lhe fora sugerida lendo em CÍCERO que um certo HICETAS de Siracusa falara do movimento diurno da Terra. Aos seus discípulos do terceiro grau, Pitágoras ensinava o duplo movimento da Terra. Sem dispor das medidas exactas da ciência moderna, ele sabia, como os padres de Mênfis, que os planetas nascidos do Sol giram em torno desse astro. Sabia que as estrelas são sistemas solares, submetidas às mesmas leis que o nosso, que cada mundo solar forma um pequeno universo com a sua correspondência no mundo espiritual. Essas noções teriam subvertido a mitologia popular: eram reveladas sob juramento de segredo[1].

Segundo Pitágoras, o céu com todas as estrelas é apenas forma transitória da alma do mundo, da grande Maia, que concentra a matéria esparsa nos espaços infinitos, dissolvendo-a depois, dispersando-a sob a forma de fluido cósmico imponderável. Cada turbilhão solar possui uma parcela dessa alma universal, evoluindo no seu seio, durante milhões de séculos, com força de impulsão e medidas especiais. Quanto às potências, aos reinos, às espécies, às almas vivas, aparecendo sucessivamente nos astros desses pequenos mundos, elas vêm de Deus, elas descendem do Pai. Quer isso dizer que elas emanam de uma ordem espiritual, imutável, superior, assim como de uma evolução material anterior, ou seja de um sistema solar extinto. Essas potências invisíveis, algumas absolutamente imortais, dirigem a formação deste mundo. As outras aguardam a sua eclosão no sono cósmico, ou no sonho divino, para entrarem nas gerações visíveis segundo a lei eterna. Enquanto isso, a alma solar e o seu fogo central, movidos directamente pela grande Mónada, manipulam a matéria em fusão. Os planetas são filhos do Sol. Cada um está dotado de alma semi-consciente, nascida da alma solar, tem o seu carácter distinto, a sua função particular na evolução. Sendo cada planeta expressão diversa do pensamento de Deus, exercendo função especial na cadeia planetária, os antigos sábios identificaram os nomes dos planetas com os daqueles em acção no universo.

Os quatro elementos de que se formam os astros e todos os seres designam quatro estados gradativos da matéria. O primeiro é o mais denso, o mais grosseiro, o mais refractário ao espírito. O último, o mais subtil, demonstra grande afinidade com o espírito. A terra representa o estado sólido. A água o estado líquido. O ar o estado gasoso. O fogo o estado imponderável. O quinto, o elemento etérico, representa um estado da matéria de tal maneira subtil que não é mais atómico, sendo dotado de penetração universal. Pitágoras falava também aos discípulos da Ásia e do Egipto. Ele sabia que a terra em fusão estava primitivamente rodeada de uma atmosfera gasosa que, liquefeita por esfriamento sucessivo, tinha formado os mares. Segundo o seu hábito, ele falava metaforicamente, dizendo que os mares eram produzidos pelas lágrimas de Saturno (o tempo cósmico).




Mas, eis os reinos aparecendo, os germes invisíveis flutuando na aura etérea da terra, turbilhonando no invólucro gasoso, depois atraídos ao seio profundo dos mares e aos primeiros continentes imersos. Os reinos vegetal e animal, ainda confundidos, aparecem quase ao mesmo tempo. A doutrina esotérica admite a transformação das espécies animais, não somente segundo a lei secundária da selecção como também segundo a lei primária da percussão da terra pelas potências celestes, e de todos os seres vivos por princípios inteligentes e forças invisíveis. Quando uma espécie nova aparece no globo é porque uma raça de almas de tipo superior encarna-se, em dada época, nos descendentes da espécie antiga, para fazê-la subir um degrau, remodelando-a e transformando-a segundo a sua imagem.

Do ponto de vista da evolução terrestre, o homem é o último ramo e coroamento de todas as espécies anteriores. Mas isso não basta para explicar a sua entrada em cena. Todas as criações sucessivas supõem a percussão da terra pelas potências invisíveis, criadoras da vida. A do homem supõe o reino anterior de uma humanidade celeste, presidindo à eclosão da humanidade terrestre, enviando como ondas de uma maré formidável novas torrentes de almas, que se encarnam, fazendo brilhar os primeiros raios de uma luz divina, no ser saturado de animalidade, forçado a viver para lutar contra todas as potências da natureza.

Pitágoras informa que os templos do Egipto tinham noções precisas sobre as grandes revoluções do globo. As doutrinas da Índia e do Egipto sabiam da existência do antigo continente austral, de onde viera a raça vermelha com a poderosa civilização chamada dos Atlantes, pelos Gregos. Atribuía a imersão e submersão dos continentes à oscilação dos pólos, admitindo que já houvessem ocorrido dez dilúvios. Cada período antediluviano coincide com a predominância de uma grande raça humana.

Nascem e morrem as raças, surgem e desaparecem continentes. Passam os povos e as civilizações. E qual é o grande mistério? O grande problema é o nosso, está dentro de nós, é o problema da alma. A alma vê nela mesma um abismo de treva e de luz, vê-se a si mesma com enlevo e terror, afirmando: “Não sou deste mundo. Ele não basta para explicar-me. Não venho da terra, vou para um mundo além. Onde?” Esse é o mistério da Psique, no qual se encerram todos os outros.


Tetraktys

Ao centro: Pitágoras de Samos (Escola de Atenas, por Rafael Sanzio).

Dizia Pitágoras que a cosmogonia do mundo visível leva-nos à história da terra. A história da terra conduz-nos ao mistério da alma humana. Aí tocamos no santo dos santos, no arcano dos arcanos. Uma vez desperta a sua consciência, a alma transforma-se no mais admirável espectáculo para ela mesma. Mas esta consciência é apenas a superfície iluminada do seu ser, onde ela pressente abismos obscuros e insondáveis. “Conhecendo-te a ti mesmo, conhecerás o universo e os deuses.” Eis o segredo dos sábios iniciados. Para passarmos por essa porta estreita, entrando no imenso universo invisível, despertemos em nós a vida directa da alma purificada, empunhemos o facho da inteligência, da ciência dos princípios e dos números sagrados.

Assim, Pitágoras passava da cosmogonia física à cosmogonia espiritual. Depois da evolução da terra, falava da evolução da alma através dos mundos. Essa era a doutrina da transmigração das almas. Essa doutrina tem sido incompreendida. Platão foi o filósofo que mais contribuiu para divulgá-la, mas apresentou uma interpretação mutilada e inexacta. A doutrina da vida ascensional das almas, através de várias existências, é o traço comum das tradições esotéricas e o coroamento da teosofia. Acrescento que ela tem para nós uma importância capital.

Actualmente, o homem rejeita com igual desprezo a imortalidade abstracta e vaga da filosofia e o céu infantil da religião primária. Também sente horror ao materialismo seco, vazio. Aspira à consciência de uma imortalidade orgânica, que atenda às exigências da razão e às indestrutíveis necessidades da sua alma. Essas verdades, mantidas em segredo pelos iniciados das antigas religiões, eram transmitidas por Pitágoras aos seus discípulos, homens e mulheres, que se agrupavam em torno do mestre, numa parte subterrânea do templo de Ceres, chamada cripta de Proserpina, onde ouviam com emoção a história celeste de Psique.

O que é a alma humana? Uma parcela da grande alma do mundo, uma fagulha do espírito divino, mónada imortal. O seu possível futuro abre-se aos esplendores insondáveis da consciência divina e a sua misteriosa eclosão remonta às origens da matéria orgânica. Para tornar-se o que é na humanidade actual, ela atravessou todos os reinos da natureza, toda a escala dos seres, desenvolvendo-se gradualmente numa série de inumeráveis existências. Elaborando os mundos, condensando a matéria cósmica em massas enormes, o espírito manifesta-se com intensidade diversa e sempre se condensa mais nos reinos sucessivos da natureza. Força cega e indistinta no mineral, individualizada na planta, polarizada na sensibilidade e no instinto dos animais, ela tende à mónada consciente, nessa lenta elaboração. E a mónada elementar é visível no mais inferior animal. O elemento anímico e espiritual existe pois em todos os reinos, embora somente em quantidade infinitesimal nos reinos inferiores.



As almas existentes como germes nos reinos inferiores aí estão sem sair, durante imensos períodos. Somente depois de grandes revoluções cósmicas é que passam para um reino superior, mudando de planeta. Tudo o que elas podem fazer, durante o período de vida de um planeta, é subir algumas espécies. Onde começa a mónada? Seria o mesmo que perguntar onde se formou uma nebulosa ou um sol brilhou pela primeira vez. De qualquer modo, o que constitui a essência de um homem teve de evoluir, durante milhões de anos, através de uma cadeia de planetas e reinos inferiores, conservando no decurso dessas existências um princípio individual que a acompanha sempre, em toda a parte. Essa individualidade obscura, indestrutível, constitui o selo divino da mónada, na qual Deus quer manifestar-se pela consciência.

Quanto mais ascende, na série de organismos, mais a mónada desenvolve os seus princípios latentes. A força polarizada torna-se sensível, a sensibilidade transforma-se em instinto, o instinto muda-se em inteligência. À medida que se acende o facho vacilante da consciência, a alma torna-se mais independente do corpo, mais capaz de levar uma existência livre.

A alma fluida e não polarizada dos minerais e dos vegetais está ligada aos elementos terrestres. A dos animais, atraída pelo fogo terrestre, permanece nele por algum tempo, depois vem à superfície do globo para reencarnar-se na sua espécie, sem jamais poder deixar as baixas camadas do ar. Estas estão povoadas de elementais ou de almas animais, que desempenham a sua função na vida atmosférica e exercem influência oculta sobre o homem. Somente a alma humana vem do céu e volta para lá, depois da morte.


Elementais

Mas em que época da sua longa existência cósmica é que a alma elemental se tornou alma humana? Em que cadinho incandescente esteve aquela chama etérea, a fim de haver essa transformação? A transformação só foi possível, durante um período interplanetar, pelo encontro de almas humanas, já plenamente formadas, que desenvolveram na alma elementar o seu princípio espiritual e imprimiram o seu divino protótipo como um selo de fogo na substância plástica.

Mas quantas viagens, quantas encarnações, quantos ciclos planetários ainda a atravessar, para que a alma humana, assim formada, se torne no homem que conhecemos! Segundo as tradições esotéricas da Índia e do Egipto, os indivíduos da humanidade actual teriam começado a sua existência noutros planetas, onde a matéria é menos densa do que a da Terra. O corpo humano era quase vaporoso. As suas encarnações eram rápidas e fáceis. Nessa primeira fase humana, a percepção espiritual directa era mais forte. Ao contrário, eram embrionárias a razão e a inteligência. Nessa situação semicorporal, semi-espiritual, o homem via os espíritos, tudo era musical, encantador, esplendoroso, para os seus sentidos. Não pensava, não reflectia, apenas queria. Bebia os sons, as formas, a luz, flutuando como num sonho, da vida para a morte, da morte para a vida. Eis o que os órficos chamavam o céu de Saturno.

Orfeu e Eurídice

Só pela encarnação em planetas cada vez mais densos, segundo a doutrina de Hermes, o homem se materializou. Encarnando-se em matéria mais densa, a humanidade perdeu o seu sentido espiritual. Mas, mediante a luta cada vez mais forte com o mundo exterior, ela desenvolveu a razão, a inteligência, a vontade. A Terra é o último grau, nessa descida na matéria, que Moisés chama a saída do paraíso e Orfeu a queda no círculo sublunar.

Daí o homem pode voltar a subir, penosamente, pelos círculos, uma série de novas existências, recuperando os sentidos espirituais, mediante o livre exercício da inteligência e da vontade. Só então, dizem os discípulos de Hermes e de Orfeu, o homem adquire pela sua acção a consciência e a posse do divino. Só então ele se torna filho de deus. E aqueles que na Terra usaram esse título tiveram de descer e subir a terrível espiral, antes de aparecerem entre nós.



O que é, pois, a humilde Psique na sua origem? Um sopro transitório, um germe flutuante, um pássaro levado pelos ventos, voando de existência em existência. Entretanto, após tantos naufrágios, no decurso de milhões de anos, ela tornou-se a filha de Deus e só reconhece uma pátria: o céu! A poesia grega, com o seu profundo e luminoso simbolismo, comparou a alma ao insecto de asas, ora verme no solo ora borboleta no céu. Quantas vezes crisálida? Quantas vezes borboleta?

Tal o vertiginoso passado da alma humana! Qual a situação da divina Psique na vida terrestre? Ela só vive, respira e pensa através do corpo. Mas ela não é o corpo. À medida que se desenvolve, sente nela mesma uma luz, algo invisível, imaterial, que denomina o seu espírito, a sua consciência. O homem possui o sentimento inato da sua tríplice natureza. Na sua linguagem ainda instintiva, ele distingue o seu corpo da sua alma e a sua alma do seu espírito. A alma cativa, atormentada, debate-se entre os dois companheiros. Às vezes, absorvida pelo corpo, ela vive só mediante as sensações e paixões corporais. Então participa da cólera, das volúpias carnais, até se espantar dela mesma por causa do silêncio do companheiro invisível, ora é atraída por esse companheiro invisível. Perde-se então nas alturas do pensamento, até esquecer a existência do corpo, que dá sinal da sua presença com um chamado tirânico.

Mas diz-lhe uma voz invisível: entre ela e o hóspede invisível, o laço é indissociável, ao passo que a morte romperá a sua ligação com o corpo. Oscilando entre os dois, a alma busca a felicidade e a verdade. Ela busca a si mesma nas sensações transitórias, nos pensamentos fugitivos, no mundo mutável como miragem. Ela duvida dela mesma e de um mundo divino que se revela somente pela dor e pela incapacidade de atingi-lo. Enfim, qualquer que seja a extensão dos seus conhecimentos, o nascimento e a morte encerram o homem em dois limites fatais. A chama da sua vida acende, entrando pela porta do nascimento, apaga-se, saindo pela outra. Dá-se o mesmo com a alma? O que lhe aconteceu?

Têm sido diferentes as respostas dos filósofos. As dos iniciados em todos os tempos têm sido idênticas, no que há de essencial. Quanto às religiões, elas exprimiram a verdade sob formas supersticiosas ou simbólicas. A doutrina esotérica abre perspectivas mais vastas. As suas afirmativas relacionam-se com as leis da evolução universal. Eis o que dizem os iniciados: o que se agita em ti, o que tu chamas alma é um duplo etéreo do corpo, encerrando um espírito imortal. O espírito constrói para si o seu corpo espiritual. Pitágoras denomina-o carro subtil da alma porque este invólucro serve para transportar o espírito, depois da morte. Esse corpo anímico é o orgão do espírito, o seu invólucro sensitivo, o seu instrumento volitivo, serve para animar o corpo, que de outro modo ficaria inerte. O duplo é visível, no caso de mortos ou de moribundos. Isto supõe um estado nervoso em quem o vê. A subtileza, a potência, a perfeição do corpo espiritual variam segundo a qualidade do espírito que ele encerra. Há na substância das almas tecidas na luz astral, mas impregnadas de fluidos imponderáveis da terra e do céu, matizes mais numerosos, diferenças maiores do que entre todos os corpos terrestres e todos os estados da matéria ponderável. Esse corpo astral, embora mais subtil e mais perfeito do que o corpo terrestre, não é imortal como a mónada contida nele. Muda, apura-se segundo os meios que atravessa. O espírito molda-o, transforma-o perpetuamente, segundo a sua imagem, mas não o deixa nunca. Se se afasta, é para revestir-se de substâncias mais etéreas. Isso era o que ensinava Pitágoras, que não concebia a entidade espiritual abstracta, a mónada sem forma. O espírito em acto, nos céus como na terra, deve ter um orgão. Esse orgão é a alma viva, bestial ou sublime, obscura ou radiosa, mas tendo a forma humana, a imagem de Deus.



Quando se morre, o que acontece? Ao aproximar-se a agonia, geralmente a alma pressente a sua próxima separação do corpo. Rapidamente, revê toda a sua existência terrestre, em quadros sucessivos. Quando pára no cérebro a vida esgotada, ela perturba-se e perde totalmente a consciência. Se é uma alma santa e pura, os seus sentidos espirituais já estão despertos pelo desapego gradual da matéria. Antes de morrer, pela introspecção do seu próprio estado, ela teve uma espécie de sentimento da presença do outro mundo. A terra já perdeu a sua consistência. Ela sente solicitações silenciosas, apelos longínquos, e quando se livra do cadáver frio, feliz pela sua libertação, sente-se levada para uma grande luz, para a família espiritual à qual ela pertence.

Mas não ocorre o mesmo com o homem comum, aquele que foi solicitado por instintos materiais e também por aspirações superiores. Ele desperta com uma semiconsciência, como se estivesse no torpor de um pesadelo. Não tem mais braços para apertar, voz para chamar, mas lembra-se, sofre, existe num limbo de trevas e de medo. A única coisa que ele percebe é a presença do seu cadáver, do qual está separado, mas para o qual ainda se sente atraído, pois mediante o cadáver é que ele vivia. E agora, que é dele? Estará vivo? Estará morto? Mas o caso é que ele não vê, não pega em coisa nenhuma. Envolto em trevas, percebe apenas uma fosforescência, que lhe causa horror... a fosforescência sinistra do seu próprio despojo. E o pesadelo recomeça.

Essa situação pode prolongar-se, durante meses, até mesmo anos. A duração depende da força dos instintos materiais da alma. Mas, boa ou má, infernal ou celeste, somente aos poucos a alma terá consciência do seu novo estado. Uma vez livre do corpo, ela penetrará no sorvedouro da atmosfera terrestre, cujas correntes eléctricas a levam, para cá, para lá, onde ela começa a ver formas errantes, multiformes, mais ou menos semelhantes a ela, como se fossem luzes fugazes em bruma espessa. Então começa uma luta da alma, ainda entorpecida, para subir às camadas superiores do ar, libertando-se da atracção terrestre e alcançar no céu do nosso sistema planetário a região que lhe é própria e que somente os seus guias amigos podem mostrar-lhe. Mas, antes disso vai decorrer algum tempo. Essa fase da vida da alma tem várias denominações nas diferentes religiões. Moisés chama-a Horebe, Orfeu denomina-a Érebo, o cristianismo Purgatório ou o vale da sombra da morte. Os iniciados gregos identificam-na como o cone da sombra que a Terra projecta atrás dela, que vai até à Lua, sendo por isso chamado do abismo de Hécate. Segundo os órficos e os pitagóricos, naquele poço há o turbilhão das almas que procuram, em desesperados esforços, chegar ao círculo da Lua e que os ventos rechaçam para a Terra. Homero e Vergílio comparam-nas a turbilhões de folhas, a enxames de pássaros perseguidos pela tempestade. No esoterismo antigo, a Lua desempenhava um grande papel. Supunha-se que as almas purificavam o seu corpo astral na face da Lua voltada para o céu. Supunha-se também que os génios e os heróis ficavam algum tempo na face da Lua voltada para a Terra, a fim de revestirem um corpo apropriado a este mundo, antes de reencarnarem. Atribuía-se também à Lua o poder de magnetizar a alma para a encarnação terrestre e anular esse magnetismo para o céu.



Como, porém, descrever a chegada da alma pura ao seu mundo? A Terra desapareceu como num sonho. Ela está envolta em novo sonho acariciante. Não vê mais o seu guia, que a leva com a rapidez do relâmpago às profundezas do espaço. E o seu despertar no ambiente de um astro etéreo, onde tudo parece novo, singular, uma natureza sensível e eloquente? Que dizer dessas formas luminosas, homens e mulheres, à sua volta, como se fossem iniciá-la numa vida nova? São deuses ou deusas? São almas como ela mesma. Os seus pensamentos, os seus sentimentos, ternura, amor, desejo, temor, irradiam através daquelas formas diáfanas, em colorações luminosas. Ali, o que elas pensam e sentem revela-se, na superfície límpida, cristalina. Psique chegou à sua verdadeira pátria. Ali está a sua ventura, vive no seio da alma do mundo, ali sente a presença de Deus!

Prosseguirá na sua ascensão. Sente o apelo dos enviados, dos génios alados, daqueles que se chamam deuses, pois libertaram-se do círculo das gerações. Levada até lá por aquelas inteligências sublimes, ela tratará de soletrar o grande poema do Verbo oculto, tratará de compreender o que lhe for possível apreender da sinfonia universal. Receberá ensinamentos luminosos das hierarquias do Amor divino. Tratará de ver as essências, que difundem nos mundos os génios que são energias. Contemplará os espíritos glorificados, os raios vivos do Deus dos deuses. Ela não suportará o seu esplendor ofuscante, que faz empalidecer o Sol como se fosse uma lâmpada enfumaçada. Ela estremece ante tais imensidades. E, quando regressar dessas viagens, ouvirá ao longe o apelo das vozes amadas, recairá no solo dourado do seu astro, sob o véu róseo de um sonho embalador, cheio de formas brancas, de perfumes, de melodia.


Tal a vida celeste da alma como apenas pode imaginá-la o nosso espírito espesso da terra. Mas tais iniciados concebem-no, os videntes vêem-no, e está demonstrado pela lei das analogias e das concordâncias universais. A lei da analogia, a nossa linguagem imperfeita esforça-se por traduzi-la, mas cada alma viva sente a sua semente nas profundezas ocultas. A filosofia oculta formula as suas condições psíquicas. Nos arcanos da tradição esotérica está a ideia de astros etéreos, invisíveis para nós, que fazem parte do nosso sistema solar, onde residem as almas felizes. Pitágoras denomina-a uma contrapartida da terra: a antichtone iluminada pelo fogo central, isto é por uma luz divina. No final do Fédon, PLATÃO descreve extensamente, embora de maneira disfarçada, essa terra espiritual. Diz que ela é tão leve quanto o ar e rodeada de uma atmosfera etérea.

Portanto, na outra vida, a alma conserva toda a sua individualidade. Da sua existência terrestre conserva apenas as recordações nobres, esquecendo as outras, esquecimento que os poetas chamaram as águas do Letes. Livre das impurezas, ela sente-se como que interiorizada. Do exterior do universo, dirigiu-se para o interior. Com uma aspiração profunda, Cibele-Maia retomou-a para si. Psique realizará o seu sonho, interrompido de vez em quando e sem cessar recomeçado na Terra. As esperanças reflorescerão na aurora da sua vida divina. Os sombrios ocasos do Sol incendiar-se-ão em luminosidades brilhantes. Sim, basta o homem viver uma hora de entusiasmo ou de abnegação e essa nota pura, extraída da gama dissonante da sua vida terrestre, será repetida no seu além em progressões maravilhosas, em harmonias eolianas. As felicidades fugidias, provindas dos encantos da música, os êxtases de amor, os transportes da caridade, são apenas as notas de uma sinfonia que entenderemos no reino celestial. Será essa vida um longo sonho, uma grandiosa alucinação?


Λήθη Lḗthē

A vida celeste da alma pode durar centenas ou milhares de anos, de acordo com a sua classe e a sua força impulsora. Mas somente as mais perfeitas, as mais sublimes, aquelas que ultrapassaram o círculo das gerações, somente essas podem prolongá-la indefinidamente. Essas atingiram o repouso permanente. Alcançaram a realização da verdade. Criaram as suas próprias asas. São invioláveis, pois são luz. Governam os mundos, porque elas vêm através deles. Quanto às demais, por uma lei inflexível, têm de reencarnar, para se submeterem a nova prova, elevando-se um plano acima, ou decaindo, se falharem.

Como a vida terrestre, a vida espiritual tem o seu começo, o seu apogeu, a sua decadência. Quando essa vida se esgota, a alma sente-se desmaiar. Uma força invencível atrai a alma outra vez para as lutas, para os sofrimentos na terra. Esse desejo mescla-se a apreensões terríveis, à dor terrível de deixar a vida divina. Mas chegou a hora. A lei deve ser cumprida. Ela sente-se pesada, envolta em penumbra. Vê os companheiros luminosos através de um véu, o qual se vai tornando espesso. Isso só lhe faz pressentir uma próxima separação. Ouve os seus tristes adeuses. As lágrimas dos bem-aventurados penetram-na como um orvalho celeste, que deixará no seu coração a sede ardente de uma felicidade desconhecida. Então, com juramentos solenes, ela promete recordar, recordar a verdade no mundo das trevas, da mentira, no mundo do ódio.

Ela desperta numa atmosfera espessa. Tudo desapareceu: almas diáfanas, oceanos de luz. Ei-la outra vez na terra, no abismo do nascimento e da morte. Entretanto, não perdeu totalmente a lembrança celeste. O guia alado mostra-lhe a mulher que será sua mãe. Esta traz dentro de si o germe de uma criança. Esse germe só viverá se um espírito vier animá-lo. Então, durante nove meses, processa-se o mais impenetrável mistério da vida terrestre, o da encarnação e da maternidade.

A fusão misteriosa opera-se, lentamente, sabiamente, orgão por orgão, fibra por fibra. À medida que a alma mergulha nesse antro, quente, crepitante, à medida que ela se sente presa, nos meandros das vísceras, diminui e extingue-se a sua consciência da vida divina. Entre ela e a luz interpõem-se ondas de sangue, os tecidos da carne que a comprimem e a penetram nas trevas. A luz longínqua é apenas uma penumbra. Afinal, aperta-a uma dor horrível, apertando-a como num estojo, uma convulsão sangrenta arranca-a à alma materna e fixa-a num corpo palpitante. O menino nasceu, miserável efígie terrestre, e grita de medo. Mas a lembrança celeste entrou das profundezas ocultas do inconsciente. Só reviverá pela ciência ou pela dor, pelo amor ou pela morte!

A lei da encarnação e desencarnação descobre-nos pois o verdadeiro sentido da vida e da morte. Ela constitui a base da evolução da alma, permitindo-nos acompanhá-la para a frente ou para trás, até às profundidades da natureza e da divindade. Essa lei revela-nos o ritmo e a medida, a razão e o objectivo da imortalidade. De abstracta ou fantástica, torna-se viva e lógica, mostrando as correspondências da vida e da morte. O nascimento terrestre é uma morte, do ponto de vista espiritual, e a morte uma ressurreição celeste. A alternância das duas vidas é necessária ao desenvolvimento da alma. Cada uma das duas vidas é ao mesmo tempo consequência e explicação da outra.



Entretanto, dirão, o que é que nos prova a continuidade da alma, da mónada, da entidade espiritual através de todas as existências, pois ela perde a lembrança dessas existências? E responderemos: o que é que prova a identidade da vossa personalidade, durante a vigília, durante o sono? Vós despertais, pela manhã, com uma sensação tão estranha, tão inexplicável como a morte. Ressuscitais de um nada para voltar ao mesmo nada, à noite. É o nada? Não, pois houve os sonhos e os vossos sonhos foram para vós tão reais quanto a realidade da vigília. A mudança das condições fisiológicas do cérebro alterou as relações da alma e do corpo, deslocando o vosso ponto de vista psíquico. Permanecestes o mesmo indivíduo, mas estivestes num outro meio e levastes uma outra existência. Nos magnetizados, nos sonâmbulos, nos clarividentes, o sono desenvolve outras faculdades, que parecem miraculosas, mas que são as faculdades naturais da alma desligada do corpo. Quando despertam, os clarividentes não se lembram mais do que viram e fizeram durante o sono lúcido. Mas num desses sonos, eles lembram o que aconteceu no sono anterior e, algumas vezes com exactidão matemática, predizem o que acontecerá no próximo. Parece terem duas consciências, duas vidas alternadas inteiramente distintas, cada uma com a sua continuidade racional, envolvendo uma mesma individualidade como cordão de cores diversas em torno de um fio invisível.

Por isso tem um sentido muito profundo a expressão usada pelos antigos poetas iniciados, segundo a qual o sono é irmão da morte. Um véu de esquecimento separa o sono e a vigília como o nascimento e a morte. Assim, a nossa existência terrestre divide-se em duas partes, sempre alternadas, da mesma maneira como o roteiro da alma é alternado, na imensidade da sua evolução cósmica, entre a encarnação e a vida espiritual, entre as terras e os céus. Essa passagem alternativa de um plano do universo para outro, essa inversão dos pólos do ser não é menos necessária ao desenvolvimento da alma como a situação alternativa da vigília e do sono o é para a vida corporal do homem. Mas o esquecimento não é total e a luz passa através do véu. Bastam as ideias inatas para provarem uma existência anterior. Mais ainda: nascemos com um mundo de vagas recordações, de impulsos misteriosos, de pressentimentos divinos. Nos meninos filhos de pais mansos e tranquilos, às vezes irrompem paixões selvagens que o atavismo não basta para explicar e que procedem de uma existência antecedente. Nas vidas mais humildes, há inexplicáveis e sublimes fidelidades a um sentimento, a uma ideia. Não virão de promessas e de juramentos feitos, durante a vida celeste? Vê-se portanto que Pitágoras e todos os teósofos consideram a vida corporal como elaboração necessária da verdade e a vida celeste como crescimento espiritual e como uma realização.

As vidas seguem-se mas não se assemelham e, no entanto, encadeiam-se com uma lógica impiedosa. Se cada um tem a sua lei própria, o seu destino especial, a sua série é regida por uma lei geral, que se poderia denominar a repercussão das vidas [A lei chamada Karma pelos brâmanes e pelos budistas]. Segundo essa lei, as acções numa vida têm a sua repercussão fatal na vida seguinte. Não somente o homem renascerá com os instintos e as faculdades que ele desenvolveu na sua encarnação precedente, mas o próprio género de existência será determinado, em grande parte, pelo bom ou mau emprego que ele fez da sua liberdade na vida anterior. Não há palavra, não há acção que não tenha o seu eco na eternidade, diz um provérbio. Segundo a doutrina esotérica, esse provérbio aplica-se literalmente de uma vida para outra. Para Pitágoras, as aparentes injustiças do destino, as deformidades, as misérias, os golpes da sorte, as desgraças de toda a espécie têm a sua explicação no facto de que cada existência é a recompensa ou o castigo da precedente. Uma vida criminosa engendra uma vida de expiação; uma vida imperfeita determina uma vida de provas. Uma vida boa suscita uma missão; uma vida superior, uma missão criadora. Nessa série, pode haver progressão rumo à espiritualidade, rumo à inteligência, como pode haver regressão rumo à bestialidade, rumo à matéria. À medida que a alma vai progredindo, ela adquire maior participação na escolha das suas reencarnações. A alma inferior suporta; a alma mediana escolhe entre as que lhe são oferecidas. A alma superior delibera sobre a missão que deve cumprir. Quanto mais elevada, mais a alma conserva, nas suas encarnações, a consciência clara, inquebrantável, da vida espiritual, que há além do nosso horizonte terrestre, que a envolve como esfera de luz e envia os seus raios nas nossas trevas. A tradição até pretende que os iniciadores de primeira classe, os divinos profetas da humanidade, tenham tido lembrança das suas vidas terrestres antecedentes. Segundo a lenda, Gautama Buda, Sáquia Muni, teria encontrado nos seus êxtases o fio das suas existências passadas. Relata-se que Pitágoras dizia ser devedor de um favor especial dos deuses, a sua lembrança das vidas anteriores.



Já dissemos que, na série das vidas, a alma pode retroceder ou avançar, conforme se entrega à natureza inferior ou divina. Daí uma consequência importante, da qual a consciência humana sempre sentiu a verdade. Em todas as existências, há lutas a sustentar, escolhas a serem feitas, decisões a serem tomadas, cujas repercussões são incalculáveis. Mas no caminho ascendente do bem, que atravessa uma série considerável de encarnações, deve haver uma vida, um ano, um dia, uma hora talvez, em que a alma, chegando à plena consciência do bem e do mal, possa elevar-se, mediante um último e soberano esforço, a uma altura da qual ela não irá mais descer e onde começa o caminho dos cimos. Mas se não tiver acontecido isso, ela poderá rolar até ao fundo das trevas. Perderá a sua humanidade. Quando o homem se torna demónio, o demónio animal, e a sua mónada indestrutível for forçada a recomeçar a penosa e terrível evolução, através dos reinos ascendentes e de existências inumeráveis, isso será o verdadeiro inferno, segundo a lei da evolução. Mas esse inferno não é tão terrível quanto os infernos das religiões esotéricas.

Na série das existências, portanto, a alma pode subir ou descer. Quanto à humanidade terrestre, a sua marcha opera-se segundo a lei de uma progressão ascendente, que faz parte da ordem divina. Esta verdade que nós supomos descoberta recente era conhecida e ensinada nos mistérios antigos. Dizia Pitágoras: “Os animais são parentes do homem e o homem é parente dos deuses”. Ele desenvolvia filosoficamente o que também ensinavam os símbolos de Elêusis: o progresso dos reinos ascendentes, a aspiração do mundo vegetal ao mundo animal, do mundo animal ao mundo humano, e, na humanidade, a sucessão de raças cada vez mais perfeitas. Esse progresso não se executa de maneira uniforme, mas em ciclos regulares e crescentes, encerrados uns nos outros. Cada povo tem a sua mocidade, a sua maturidade, o seu declínio. Ocorre o mesmo com raças inteiras: a raça vermelha, a raça negra, a raça branca, têm reinado, sucessivamente, na Terra. A raça branca, nos nossos dias, ainda não atingiu a sua maturidade. No apogeu, sairá do seio dela uma raça aperfeiçoada, pelo restabelecimento da iniciação e pela selecção espiritual dos casamentos.

Assim seguem as raças, assim progride a humanidade. Os iniciados antigos iam mais longe nas suas previsões do que os modernos. Eles admitiam o momento em que a grande massa dos indivíduos componentes da humanidade passaria para outro planeta, a fim de recomeçarem um novo ciclo. Na série de ciclos da cadeia planetária, toda a humanidade desenvolverá os princípios intelectuais, espirituais e transcendentais que os levarão assim a uma florescência mais geral. Tal desenvolvimento exigirá não somente milhares, mas milhões de anos, e assim ocorrerão tais mudanças na condição humana, que nós não podemos imaginá-las. Platão disse que, nessa época, os deuses estarão realmente presentes nos templos dos homens. É lógico admitir que na cadeia planetária, quer dizer nas evoluções sucessivas da nossa humanidade noutros planetas, as suas encarnações sejam cada vez mais etéreas, o que as aproximará insensivelmente do estado puramente espiritual dessa oitava esfera, que está fora dos círculos das gerações e pela qual os antigos teósofos designavam o estado divino. É natural que nessa prodigiosa ascensão vá diminuindo o número dos bem sucedidos, pois nem todos dispõem do mesmo impulso, muitos ficam fora do caminho e outros detêm-se. Assim entendida, não está a evolução das almas mais conforme com a unidade do Espírito, o princípio dos princípios, a homogeneidade da Natureza das forças? Visto através do prisma da vida espiritual, um sistema solar não constitui somente um mecanismo material mas um organismo vivo, um reino celeste, onde as almas viajam de mundo em mundo, como o próprio sopro de Deus, que o anima.



Qual é pois o fim último do homem e da humanidade, segundo a doutrina esotérica? Depois de tantas vidas, tantas mortes, renascimentos, calmarias, despertares pungentes, haverá um término às actividades de Psique? Sim, dizem os iniciados, quando a alma tiver, definitivamente, vencido a matéria. Quando, depois de desenvolvidas todas as suas faculdades espirituais, ela tiver encontrado nela mesma o princípio e o fim de tudo. Então a encarnação não será mais necessária. Ela entrará no estado divino pela sua união completa com a inteligência divina. Mas, se mal podemos pressentir a vida espiritual da alma, depois de cada vida terrestre, como poderemos imaginar essa vida perfeita, depois de toda a série de existências espirituais? Para Pitágoras, a apoteose do homem não está na imersão na inconsciência, mas na actividade criadora na consciência suprema. A alma, tornando-se puro espírito, não perde a sua individualidade. Ela completa-a, pois reúne-se ao seu arquétipo com Deus. Lembra-se das existências anteriores, que lhe parecem degraus para atingir o patamar de onde ela descortina o universo, penetrando-o. Nessa estado, o homem não é mais homem, como afirmava Pitágoras, é semideus, pois ele reflectiu em todo o seu ser a luz inefável com a qual Deus enche toda a imensidade. Para ele saber é poder, amar é criar, ser é irradiar a verdade e a beleza.

É definitivo esse término? A eternidade espiritual tem outras medidas, que não são as do tempo solar, mas também inclui as suas fases, as suas normas, os seus ciclos. A lei das analogias progressivas, nos reinos ascendentes, permite-nos afirmar que, chegando a esse estado sublime, o espírito não pode mais recuar. Se os mundos visíveis mudam e passam, o mundo invisível, que é a sua razão de ser, a sua nascente e a sua foz, do qual Psique faz parte, é imortal.


 ψυχή (Psique)

Com essas perspectivas luminosas, Pitágoras terminava a história da divina Psique. A última palavra expirara nos lábios do sábio, mas o sentido da verdade incomunicável permanecia suspenso no ambiente da cripta. Cada um supunha haver terminado o sonho das vidas, despertar na grande paz, no doce oceano da vida, una e sem limites. As lâmpadas de nafta iluminavam tranquilamente a estátua de Perséfona, em pé, como ceifeira celeste e faziam reviver a sua história simbólica, nos afrescos sagrados do santuário. Algumas vezes, ouvindo a voz harmoniosa de Pitágoras, uma sacerdotisa entrava em êxtase. Ela parecia encarnar na sua atitude e na sua fisionomia radiante, a inefável beleza da visão. E os discípulos, em emoção religiosa, olhavam silenciosos. Mas logo o mestre, com um gesto lento e seguro, trazia à terra a profântida inspirada. A sua fisionomia empalidecia, ela caía nos braços da companheira e ficava em letargia profunda, da qual despertava, confusa, triste e como se estivesse esgotada pelo esforço.

Então saíam todos da cripta para os jardins de Ceres, sob a frescura da alvorada que começava a branquear o mar, sob o céu estrelado.

(In Eduardo Schuré, Os Grandes Iniciados – Esboço da História Secreta das Religiões, Vega, 1998, pp. 240-255).



[1] Certas definições, transmitidas sob a forma de metáforas, provenientes do ensino secreto do mestre, deixam transparecer no seu sentido oculto a grandiosa concepção pitagórica do Cosmo. Falando das constelações, ele chamava a grande e a pequena ursa as mãos de Rea-Cibele. Rea-Cibele significa esotericamente a luz astral, móvel, a divina esposa do fogo universal ou do espírito Criador. Este, concentrando-se nos sistemas solares, atrai as essências imateriais dos seres, agarra-as, fazendo com que elas entrem no turbilhão das vidas. Também chamava aos planetas os cães de Proserpina. Essa expressão só tem sentido esotericamente. Proserpina, a deusa das almas, presidia à sua encarnação na matéria. Pitágoras chamava os planetas cães de Proserpina porque eles guardam e retêm as almas encarnadas como o Cerbero mitológico as almas no Inferno.

Rapto de Proserpina, por Peter Paul Rubens

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