Escrito por Agostinho da Silva
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Selo de Martinho Lutero |
«A religião de
Lutero é uma religião individualista, com uma Igreja invisível de almas puras
voltadas a Deus; mais que uma reforma, é uma dissolução de tudo o que existia.
Para coroar este anarquismo religioso, Lutero declara que prega uma acção não
violenta, que nenhum cristão pode usar a violência para fazer triunfar as suas
ideias.
Lutero já
sofrera várias tentações diabólicas, mas faltava-lhe passar a pior, a de querer
salvar a sua obra e firmá-la no futuro imediato; e, desta vez, o Diabo venceu.
Os nobres apoderaram-se de Lutero e deram-lhe o apoio político, os discípulos
levaram-no a formar uma nova Igreja, com cerimónias e ritos; a fidelidade ao
pensamento inicial teria levado Lutero ou a ser posto de lado pelos partidários
ou a assistir à derrota do movimento, como Erasmo e Lefèbre.
Circunstância de
temperamento e de ambiente fizeram-no tomar o outro caminho, contra vontade,
possivelmente; organizou-se uma Igreja, usou-se da violência contra os
adversários e, dentro em pouco, contra os discípulos que pretendiam levar a
revolução até o fim. No Verão de 1524, os camponeses alemães reclamaram
reformas sociais, de acordo com o Evangelho, e agruparam-se em bandos armados
para fazer vencer o seu direito. Lutero respondeu que para os cristãos só tem
interesse a liberdade interior: a servidão externa não importa. Ao mesmo tempo,
exortava os príncipes a abater os camponeses: “Apunhalai, castigai, matai os
que puderdes.” Os nobres acudiram ao apelo e a revolta terminou num mar de
sangue.
(...) O ideal
para Calvino seria que se reunisse numa só pessoa, governando como ditador, o
poder religioso e o poder temporal. Foi o que, favorecido pelas circunstâncias,
pôde fazer ele próprio, em Genebra, de 1555 até 1564, ano da sua morte. O seu
domínio da cidade é absoluto e consegue-o pela expulsão ou pela morte dos que
lhe são contrários, pela polícia secreta, pela inquisição mais subtil que tem
havido no mundo.
As vítimas são às centenas, algumas ilustres, como o médico e teólogo espanhol Miguel Servet; mas Calvino alcança dar à cidade uma feição que perdurará durante séculos, ao mesmo tempo que a sua doutrina tem uma larga expressão. Genebra é aos olhos de todos a realização de uma sociedade nova, nela todos se apoiam para dar a sua batalha e a vencer. O luteranismo aparece como um fenómeno local, o calvinismo como doutrina de exportação possível; mas é fora de dúvida que o autoritarismo, o dogmatismo, a estreiteza de espírito de Calvino impediram, durante muito tempo, todo o progresso, toda a evolução da religião reformada.»
Agostinho da Silva («A
Reforma», in «Páginas Esquecidas»).
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| João Calvino |
«[...] A abolição da
propriedade é o que sempre definiu o antiquíssimo comunismo. Poderão os
comunistas falar de meios de produção, de lutas de classes, de proletariado
escravizado, de burgueses e de mais-valia. Poderão até recorrer a metáforas de
origem homossexual como a da "exploração do homem pelo homem". Do que
exclusivamente se trata é de abolir a propriedade. Abolida a propriedade, o
comunismo atinge a única finalidade que lhe é própria, e que é também,
simultaneamente, o seu ponto de partida. Ponto de partida para quê, para onde,
ninguém sabe. O seu patrono moderno, Karl Marx, encolerizava-se quando lhe
perguntavam o que se iria fazer depois de abolida a propriedade. Não sabia.
Encolerizava-se e respondia: "Eu não faço receitas de cozinha".
É fácil organizar o
combate pela abolição da propriedade. Ao longo da história, muitas vezes o
combate se travou e muitas vezes, até, saiu vitorioso: na Esparta de Licurgo,
na Morávia dos anabaptistas, no Paraguai dos Jesuítas, na Rússia dos bolchevistas... Mas, abolida a propriedade, os homens continuam a estar no
mundo; continua a haver, de um lado, os homens e, de outro lado, as coisas de
que é feito o mundo. Os homens não podem viver sem o mundo e a existência no
mundo é uma existência de relação com as coisas. A propriedade é, precisamente,
esta relação. Abolida a propriedade, que acontece? Deixa de haver homens?
Impossível. Passam os homens a viver separados do mundo? Não podem. Qual a
receita que Marx se recusava a fazer? A única que os diversos cozinheiros
conseguiram fazer - e a única que os comunistas, antes e depois de Marx
conseguiram fazer - foi a de passarem para o Estado a posse (com a qual
confundem a propriedade) das coisas. Ora o próprio Marx já havia prevenido que
essa não era a solução, e claramente afirmou que transferir a propriedade para
o Estado seria um mal pior do que manter a propriedade nos indivíduos. Com
efeito, os resultados da estatização sempre estiveram longe de ser risonhos:
massacre de milhões de homens, escravidão generalizada e até instituída, etc. E
se não se pode dizer que, em rigor, tenham sido uma "estatização da
propriedade" todos os diversos regimes comunistas que houve ao longo da
história - alguns deles bem mais duradouros do que os marxistas actuais -
também de nenhum deles se pode dizer que foi risonho: o dos espartanos foi a
vergonha do "milagre grego"; o dos anabaptistas evanesceu-se no caos;
o de Münster evanesceu-se na sangueira; o do Paraguai, levou, em duzentos anos,
um pobre povo à idiotia...».
Orlando Vitorino
(«Manual de Teoria Política Aplicada»).
«(...) o Concílio de
Trento determina as políticas culturais da Contra-Reforma: criação dos
seminários diocesanos, novos institutos religiosos (Companhia de Jesus),
reforma do Santo Ofício, aprofundamento das fontes doutrinais da Escritura, da
Tradição e do Magistério. A Hispânia soergue-se a baluarte geográfico da Contra-Reforma
em todo o mundo: pela disputa anti-reformista na Europa, pela missionação no
resto do mundo. É um século de ouro que se inicia (1540-1640) e que começará
por ser o da fundação ou renovação das escolas. O Colégio das Artes é fundado
em 1547 num meio universitário onde, desde 1540, já tinham sido criados vários colégios universitários das ordens
religiosas. Os jesuítas tomam conta do Colégio das Artes (1555) e a breve
trecho o esquema topográfico da Segunda Escolástica está definido: Salamanca,
Alcalá, Coimbra, Évora. De 1540 a 1640 é
um tempo de ascensão, de 1640 em diante é um tempo de enfraquecimento.»
Pinharanda Gomes
(«Escolástica», in «Dicionário de Filosofia Portuguesa»).
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| Ver aqui |
«A vida religiosa, como
a entende o cristianismo, a redenção do pecado original, é missão que interessa
de direito, se não de facto, a toda a humanidade. Dentro deste quadro, porém,
vemos que as nações historicamente existentes se diferenciam nos processos de
activar essa missão sobrenatural. A missão da França, por exemplo, não parece
ter sido a mesma que a Divina Providência confiou à Espanha e a Portugal.
Neste ponto de filosofia
da história, muito controvertido por iluministas e socialistas, convém corrigir
as expressões infelizes e insuficientes com a assaz banalizada “dilatação da fé”.
O subentendido não se afigura ao ouvinte ou ao leitor que, positivamente,
desdenhe da teologia. A dilatação da fé passa, assim, a ser minorada em
divulgação social do catecismo entre gentios, pagãos e infiéis, obra de ministério
comparável ao ensino primário e secundário, com o mero intuito de estabelecer
hábitos, costumes e instituições.
Torna-se indispensável
sem ambages o pensamento cristão, e dizer completamente: dilatação da fé, da
esperança e da caridade. Assim se legitima de sobrenatural sentido a intenção
justificativa da epopeia dos descobrimentos, e só premissa esta doutrina podem
então ser discutidos os argumentos anti-teológicos dos iluministas e dos
socialistas. A fórmula completa de referência às três virtudes esclarecerá, por
fim, o aspecto diferenciado do que se chamou “colonização portuguesa”».
Álvaro Ribeiro («Os Positivistas»).
A RELIGIÃO REFORMADA
(...) As doutrinas
novas espalharam-se rapidamente por toda a Europa, dependendo o número de conversões
do estado de alma da população, da atitude dos governantes e da maior ou menor
força de que dispunham os católicos. Na Alemanha e nos países escandinavos fixou-se
o luteranismo, demasiado preso a características nacionais para conquistar o
estrangeiro; em França, por exemplo, havia uma só Igreja Luterana.
O calvinismo
penetra na Europa Oriental e Central, onde o caminho lhe estava preparado por
todos os movimentos heréticos anteriores, e na Inglaterra, onde tomou aspectos
especiais, com Eduardo VI, depois da separação levada a cabo, por motivos
pessoais, pelo rei anterior, Henrique VIII. Nos Países Baixos, o calvinismo
une-se estreitamente aos sentimentos de independência política e constitui uma
das forças que habilitam os holandeses a bater a dominação dos espanhóis. Em França,
o calvinismo toma também carácter de um partido político, o que leva, como
noutros pontos da Europa, a guerras longas e mortíferas. O Sul da Europa,
Itália, Portugal e Espanha, não conheceu, devido à acção dos inquisidores, dos
jesuítas e do poder temporal, a devastação das lutas religiosas; mas a
repressão exercida sobre erasmistas, luteranos e calvinistas, e até sobre os
católicos que iam para além de uma ortodoxia incompreensiva, está sem dúvida
entre as causas que determinaram, para muito tempo, uma quase paralisia de
espírito.
Apesar do
temperamento pessoal dos reformadores e de o ambiente do tempo os ter levado a
fórmulas estreitas que não correspondiam aos princípios sobre que se tinha
baseado a revolução e possivelmente agravaram em muitos pontos os erros que se
pretendiam combater, certo é que a religião reformada tinha em si um germe de
liberdade que não podia morrer.
O princípio do
livre exame dos textos, da opinião pessoal ante as doutrinas, as cerimónias e a
organização eclesiástica, daria, logo que se pudesse restabelecer a vida
normal, logo que terminasse a atitude da guerra que em parte impunha a reacção
católica, toda a possibilidade de formação de religiões individuais, em que o
indivíduo comunica directamente com Deus e se desprende das questões teológicas
e do formalismo dos cultos para aplicar o seu espírito ao melhoramento moral
próprio e ao estabelecimento no mundo de um reino de Deus, isto é, de um reino
de bondade, de justiça e de amor.
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| O Doutor Agostinho da Silva, Porto, 1929. |
Só enquanto tiveram
por si a força do Estado lograram as Igrejas protestantes evitar a heresia e a
formação de seitas: a ortodoxia exige, para que se mantenha, a coacção; e foi
de certo modo esta liberdade protestante que levou ao grande combate do século
XVIII contra a intolerância, o fanatismo religioso, e preparou os caminhos de
um futuro em que a religião seja considerada como do domínio particular de cada
homem e ninguém e nenhum agrupamento ouse exercer qualquer pressão neste
sentido.
Por outro lado,
o mesmo livre exame revelou que em muitos pontos era difícil conciliar razão e
crença: ao passo que uma parecia chamada a desempenhar no mundo papel cada vez
mais importante, pela racionalização progressiva de inúmeras actividades, a
outra revelava-se estranha, cheia de ilogismos, pelo menos aparentes, em todo o
caso de espinhosa defesa. No conflito, a fé perdeu e hoje há numerosos
agrupamentos de reformados que são pouco mais do que sociedades de filosofia e
de acção moral. Como os domínios humanos comunicam todos entre si, não foi
duradouro o aborto político e social que se incluía na Reforma: o gosto da
liberdade estendeu-se a outros campos e seria fácil traçar a história de muitos
movimentos revolucionários mostrando o seu acordo com doutrinas protestantes e
até a sua filiação nos rebeldes do século XVI.
E, se a humanidade não tivesse ganho mais nada com a Reforma, bastaria o que se conseguiu nos domínios da pedagogia para que se pudesse verificar progresso: a afirmação de que a todo o fiel devia ser possível ler os textos sagrados levou à criação de escolas populares com métodos e ambientes novos. Fundam-se ginásios (escolas secundárias), academias e faculdades; escrevem-se numerosos tratados de pedagogia, dá-se o primeiro impulso para a obra de Coménio, de Basedow, de Froebel; e é aos colégios protestantes que vão buscar o seu modelo, pelo que respeita a organização, os jesuítas, que, no fim do século XVI, iniciam a sua actividade pedagógica.
(Agostinho da Silva, «A Reforma», in Páginas Esquecidas, Quetzal, Fixação do texto, selecção, introdução e notas de Helena Briosa e Mota, 2019, pp. 370-372 ).



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