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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O Plano Maria da Fonte

Escrito por Riccardo Marchi



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«(...) julgo justo e exacto afirmar: a revolução começou por ter um âmbito muito restrito quanto à sua origem e objectivos, que se diriam quase disciplinares e de grupo; dado o estado em que se encontrava a sociedade portuguesa, todavia, forças políticas e ideológicas exteriores logo compreenderam a oportunidade que podiam aproveitar ou provocar, e tomaram em mão um processo que foi rapidamente conduzido sem que a massa do povo português se apercebesse do que se passava».

Franco Nogueira («Juízo Final»).

 

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«A guerra e sua condução não se compadecem com o modelo democrático pelo menos no que respeita ao complexo de “direitos e garantias individuais”. Como já observámos, as chamadas democracias de guerra não são democracias, ou apenas o são quanto à origem e legitimidade do poder constituído, pois a entrada em vigor do estado de guerra determina o congelamento de todo o complexo de protecção das liberdades das pessoas e dos grupos, subordinadas às imposições do salus populi.

Logo, havia que escolher entre a democracia e a defesa militar e não se podia pôr em causa o modelo autoritário com risco de comprometer, em seguida, a integridade do território. Ao contrário do sustentado por Spínola eram incompatíveis a resistência em África e a democratização das instituições pela adopção de um modelo pluralista de tipo europeu ocidental. Havia contradição real entre partidocracia e nação portuguesa, para quem entendesse a última no seu todo pluricontinental. Contradição decidida a favor do primeiro termo pelas armas dos que preferiram as glórias do Largo do Carmo, do PREC ou do Conselho da Revolução às servidões e grandezas do Além-Mar. Assim, perdeu-se o País, mas salvou-se (ou restaurou-se) a democracia. Não se pode ter tudo.»

Jaime Nogueira Pinto («Portugal – Os Anos do Fim»).

 


«Em "África. A Vitória Traída" repõe-se com números, que ninguém contestou, e factos relatados pelos chefes militares mais qualificados para o efeito, verdades que andavam monstruosamente deformadas. Não é mais possível empolar-se, sem demonstrar ignorância e má fé, os custos financeiros e humanos da guerra, ou a fuga dos mancebos pela impopularidade daquela. E se se comparar os custos financeiros e humanos da guerra com os mesmos custos da "paz" trazida pelo 25 de Abril, sem a restritiva óptica racista que explica muito do que se passou, e ficou consolidada na incrível lei da nacionalidade, fica-se horrorizado com o preço daquela "paz". Ouçam-se as vítimas que por aí andam, juntem-se as vítimas que deambulam por Angola, Timor, Moçambique, Guiné... some-se a tudo o comportamento indecoroso para com os soldados e as populações vitimadas por sempre se terem considerado portugueses. E não haverá arte, subtileza, ou habilidade, capaz de camuflar o horror provocado. E a haver inteligência que tente justificação, a não a admitirmos conduzida por razões menos transparentes, temos de lhe atribuir insensibilidade e, ou, irresponsabilidade.


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Vasco Gonçalves, Otelo Saraiva de Carvalho e Rosa Coutinho



Que a guerra não estava perdida em 25 de Abril, já hoje ninguém, medianamente informado, duvida. Como praticamente todos sabem que, em Angola, a vitória estava à vista. Quanto ao resto, é como se prova em "África. Vitória Traída". Os que andaram pelo Ultramar e os que por lá combateram sabem que era assim... E daí o sentimento generalizado de vergonha, arrependimento e frustração de muita gente boa que hoje sabe ter sido objecto de manipulação com o 25 de Abril».

Entrevista de Silvino Silvério Marques concedida a J. N. Pereira da Costa, publicada no semanário «O País», de 11 de Novembro de 1977 (in Silvino Silvério Marques, «Portugal. E Agora?»).



«Entre o 28 de Setembro de 1974 e o 25 de Novembro de 1975, há uma completa teia de atitudes, tácticas e estratégias, traduzidas em formas legais e marginais de luta, que vão desde uma amplíssima frente anticomunista, com Mário Soares, ao fomento e integração em organizações populares activistas do tipo do levantamento do Norte e dos assaltos às sedes do PCP, até à participação em estruturas clandestinas com vocação para a resistência armada, como o MDLP ou ELP. Este fenómeno repercutir-se-á, também, externamente, nos territórios do antigo Ultramar, por exemplo na guerra civil de Angola

Jaime Nogueira Pinto («A Direita e as Direitas»).


«Os condicionalismos que inibiram os portugueses situavam-se muito longe da Metrópole. Tivesse Spínola lido atentamente Lenine, o seu procedimento seria outro. Para os russos, é vital exacerbar os nacionalismos no Mundo. Não o escondem: está publicado em livros que editaram.

Nesse contexto, Paris foi a cidade escolhida para, em Setembro de 1973, os partidos comunista e socialista portugueses talharem e retalharem o Ultramar. Se o moscovita Barreirinhas lutou por sua "dama", Mário Soares foi o cavalo de Tróia, como agente-motor da estratégia global do PC. Ambos são réus de alta-traição ao povo português. Eles e os seus satélites. Os dois partidos melhor organizados no País dispõem - e dispuseram antes do 25 de Abril - de fundos inesgotáveis para minguar Portugal até às dimensões de uma quinta abaixo da pontuação contemplada pela mais benevolente Reforma Agrária.

Turza Ferreira, presidente da Associação dos Agricultores de Angola, que o diga, como assistente anónimo, em Lusaka, de um encontro em que Mário Soares implorou a Samora Machel, "por amor de Deus", que aceitasse a independência de Moçambique. Samora Machel sabia as linhas com que se cosia. Não queria aceitar. Talvez o dorido queixume de Soares o comovesse. Cedeu. Possivelmente estará envergonhado - ou arrependido [nem isso!].»

Pompílio da Cruz («Angola: Os Vivos e os Mortos»).

 

Álvaro Cunhal e Samora Machel


«Mário Soares chegara a Portugal sob a influência do contrato político acordado com o PC em Paris em 1973 e, pior do que isso, perfeitamente convencido de que o PS estava predestinado a um papel subalterno em relação aos comunistas. E embora discordando dos comunistas portugueses, sobretudo em matéria de liberdades, com eles mantinha algumas afinidades derivadas da sua formação na unidade antifascista e, também, do seu deslumbramento com as teses de François Mitterrand sobre a matéria.»

Rui Mateus («Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido»).



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«No que diz respeito ao Ultramar português, Soares esforçou-se de forma empenhada para que o processo se passasse como se passou. Contrariamente ao que se diz e à fama que se auto-atribui.

Em tempos de PREC, o dr. Mário Soares cativava inocentes com promessas de consultas populares, a serem feitas cá e lá, mas a verdadeira intenção era não perguntar nada a ninguém e entregar todo o nosso território ultramarino a elementos directissimamente ligados ao estalinismo soviético. Soares executou, objectivando-o, um desiderato do partido comunista. É assim deste personagem a responsabilidade pelo que considero ter sido, e ser ainda, a maior catástrofe nacional: a destruição, traiçoeira e vil, de um ideal eminentemente português e a sequente, horrorosa e previsível mortandade que se seguiu.

A gravidade deste horror indescritível vem ainda do facto de nunca ninguém ter investido Soares de poderes para dispor de território nacional. Nem mesmo isso seria jamais possível, por muito que invoque a legalidade revolucionária (que substancialmente não foi legalidade alguma, por se ter traduzido naquilo em que se traduziu: destruição de Portugal). A partir daqui, o que se passou é da enorme responsabilidade de uma pessoa imputável há 81 anos e que dá pelo nome de Mário Soares. A "descolonização exemplar" foi exemplarmente criminosa, e é imperdoável, tendo em vista a sua enorme gravidade.»

João de Mendia






«Só Soares, Cunhal, Melo Antunes e Vasco Gonçalves sabiam da revolução tal como fora planeada pela União Soviética no período da Guerra Fria, quando os EUA se encontravam enterrados no Vietname. E aconteceu o 25 de Abril, com toda uma encenação para lhe dar um carácter de golpe militar quando no fim foi uma segunda edição do golpe comunista de 1948 em Praga. O grande "democrata" e anti-fascista Soares lança-se numa batalha frenética pela conquista do poder. A sua actividade desenvolve-se a um ritmo alucinante em vários sectores, em especial na descolonização, enquanto os verdadeiros senhores do poder nos tempos subsequentes à revolução se mantêm, aparentemente, na sombra, mas criando o aparelho que há-de conduzir o país ao caos completo, do económico ao educacional, do trabalho à justiça, etc., etc. Foi toda uma máquina complexa, mas extraordinariamente eficaz, que se vem arrastando até aos nossos dias, paralisando os centros vitais da actividade positiva e do progresso do país.»

General Silva Cardoso («25 de Abril de 1974. A Revolução da Perfídia»).





«Com frequência se ouve dizer a Soares que pouco terá tido a ver com a descolonização por sistematicamente ter sido ultrapassado por Melo Antunes e outros, sabendo-se agora, pela obra póstuma de Melo Antunes, não apenas as responsabilidades de Soares como a interferência dele em quase tudo. Chega mesmo ao cúmulo da desfaçatez de tentar convencer as pessoas de que, não fora a sua intervenção, os processos teriam tido aspectos ainda piores. Então, teve ou não responsabilidades? É revoltante e insultuoso ouvir o descaramento destas enormidades, sabendo ele, como poucos, as consequências daquilo que fez. Se não conseguia evitar o que agora admite ter tido algumas falhas, então que se tivesse demitido. Mas não se demitiu. Soares era o ministro dos Negócios Estrangeiros, e era com ele, e através dele, dado que não havia ainda Bruxelas para impor compromissos, que se definia e aplicava a nossa política externa. Muitos lhe chegaram a pedir, populações e quadros africanos inclusive, para que adiasse as independências por se prever com facilidade a inevitabilidade de horror de uma tragédia que se anunciava. Soares nada fez. Insistiu mesmo com as independências de todos os territórios, mesmo aqueles que ele sabia, melhor que ninguém, que pereceriam sem o apoio da Metrópole, como Cabo Verde, Timor e S. Tomé. E em Angola, por exemplo, as últimas e dramáticas contas elevavam a cerca de 3 a 4 milhões de pessoas, portuguesas muitas delas, mortas e assassinadas à mão directa e indirecta dos responsáveis pela independência e descolonização. E digo isto porque é frequente Soares abusar do argumento de que não será responsável pelo que se passou depois da independência, remetendo isso para as novas soberanias, o que não pode ser mais farisaico e demonstrativo do carácter e da sensibilidade que não existem nesta personagem. É que a responsabilidade mantém-se para lá da independência, como é óbvio, quanto mais não seja por todos saberem que os acordos de Alvor foram feitos à pressa, na madrugada anterior, por Almeida Santos, que tinha de África dezenas de anos de experiência, e sabia, assim como Mário Soares e melhor que ninguém, que o acordo não duraria mais que umas escassas horas. Mas eram compromissos com a bandeira política do marxismo comunista e socialista da altura, e outros que se saberá um dia, tarde temo eu, de onde viriam e em que é que consistiriam».

João de Mendia


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«[Mário Soares] O líder socialista, no transcurso da sua chegada a Portugal, a 28 de Abril, até à primeira crise do processo revolucionário, em Julho de 1974, somou erros sobre erros, concorrendo largamente, pela sua fatuidade, para o descalabro da descolonização, para a destruição das estruturas económicas do País, para uma prática política confusionista, na sombra do Partido Comunista, o seu grande complexo - que acabaria por conduzir à desgraça que se abateria inclemente sobre a Pátria.

(...) Efectivamente, três dias depois, em solene comunicação ao País, amplamente divulgada, o presidente Spínola, a 27 de Julho, fazia perante milhões de portugueses, emocionados e estupefactos, o seu “hara-kiri” político. Cedendo definitivamente a pressões internas e externas, acabava de proceder por esse modo brutal à entrega pura e simples do Ultramar aos inimigos da pátria portuguesa, com grave atropelo ao estabelecido no Programa do MFA e no decreto-lei n.º 202/74. Satisfazia-se, desse modo, a aspiração máxima de socialistas e comunistas, de Soares e de Cunhal: deixar, por qualquer preço, os territórios, com vidas e haveres de milhões de negros e de brancos portugueses, à voracidade de interesses neo-colonialistas estranhos a Portugal, com todas as suas dolorosas consequências. Seria o começo da descolonização exemplar...

A Lei constitucional n.º 7/74, decretada pelo Conselho de Estado, promulgada na véspera, havia criado o quadro de legitimidade constitucional à perpetração deste crime de lesa-Pátria. Removida essa última barreira, era reiterado assim o reconhecimento do direito dos povos dos territórios ultramarinos portugueses à autodeterminação, incluindo o reconhecimento do seu direito à independência.

(...) Igualmente é de espantar que, em Dezembro de 1974, Almeida Santos, na ONU, apresentasse um calendário completo para as independências de Moçambique, Angola e Guiné. Não menos espantosa a revelação feita pelo ministro português de que Portugal havia já contribuído, ou despenderia, até final do ano, 230 milhões de dólares (seis e meio milhões de contos) com a assistência financeira, não reembolsável, para apressar o processo de descolonização...

Quem faria, pois, “correr” estes homens?!»

João M. da Costa Figueira («25 de Abril: A Revolução da Vergonha»).


Mário Soares na ONU como ministro dos Negócios Estrangeiros (23 de Setembro de 1974). Ver aqui, aquiaquiaqui, aqui, aqui e aqui

 



«[Costa Gomes] escapou milagrosamente à depuração resultante da tentativa de golpe de Estado de Abril de 1961; foi comandante-chefe em Angola; chegou a CEMGFA, no consulado de Marcello Caetano; foi Presidente da República após os acontecimentos de 28 de Setembro de 1974 e, mais tarde, foi promovido a marechal do Exército. Entretanto, após ter deixado o cargo de Chefe do Estado, passou a militar no Conselho Mundial da Paz, organismo manipulado pelo Partido Comunista da União Soviética».

João José Brandão Ferreira («Em Nome da Pátria. Portugal, o Ultramar e a Guerra Justa»).

 

«Naquela altura só importava gerar a confusão, a anarquia, a agitação que absorvia a atenção dos principais responsáveis pelo poder, eliminando os que tentassem opor-se à nova ordem, deixando assim o terreno livre para que uns tantos, bem poucos, pudessem levar a efeito um dos principais objectivos do 25 de Abril: entregar os novos países, resultantes da independência das províncias ultramarinas, aos senhores do Kremlin».

General Silva Cardoso («ANGOLA: Anatomia de uma Tragédia»).

 


«O Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP) surge da rede dos militares portugueses envolvidos no 11 de Março, refugiados no Brasil e em Espanha após o fracasso da intentona spinolista.

(...) Do ponto de vista organizativo, o MDLP preocupa-se, num primeiro momento, em juntar as forças políticas solidárias com a estratégia spinolista, através da distribuição do protocolo de constituição do movimento. Ao mesmo tempo, a rede contacta entidades estrangeiras e grupos de refugiados, nomeadamente a embaixada do Senegal no Brasil, a embaixada de França, os refugiados guineenses anti-PAIGC em Paris, liderados pelo ex-deputado Nicolau Martins, e os portugueses na África do Sul, em particular Jorge Jardim. A estrutura hierárquica, pensada por Calvão, prevê um Comando assegurado por um Comité Superior, presidido por Spínola, e por cinco departamentos dependentes: o político (José Miguel Júdice, José Valle de Figueiredo, Luís Sá Cunha, António Marques Bessa), o militar (Alpoim Calvão, tenentes-coronéis Gilberto Santos e Castro e Alexandre Dias de Lima), o financeiro (Manuel Cotta Dias e Joaquim Ferreira Torres), o diplomático e o das informações (primeiro-tenente Jorge Braga). Também o nome de Sanches Osório é referido como um dos responsáveis das relações exteriores do MDLP a partir do seu refúgio em Paris. Nesta veste, Osório participa numa reunião na casa de Manuel Bulhosa, em Neully, para angariar fundos para o MDLP junto de Miguel Quina, António Champalimaud e Queiroz Pereira (representado por Manuel Magalhães). Apesar da indisponibilidade de Champalimaud, incompatibilizado com Spínola, Osório consegue abrir uma conta em Genebra financiada pelos restantes industriais para poder pagar uma avença mensal aos exilados. Na verdade, a relação entre Sanches Osório e o MDLP sempre foi bastante problemática. A partir de uma carta de Spínola a Alpoim Calvão de 12 de Maio de 1975, depreende-se que o general estava em contacto com Sanches Osório e que lhe terá passado uma credencial para tratar de assuntos políticos em seu nome, com a condição de se manter sempre ligado a Calvão. Por sua vez, Sanches Osório teve o primeiro encontro directo com Spínola no Rio de Janeiro apenas em Setembro de 1975. Por conta do MDLP, o major organiza pelo menos duas reuniões – ambas de fraco sucesso: uma com os financiadores do MDLP Manuel Bulhosa, António Champalimaud e Miguel Quina; outra entre Spínola e o chefe das secretas francesas, o conde de Marenches, que recusou qualquer apoio francês aos planos spinolistas de invasão de Portugal. Sanches Osório avançou sempre críticas severas à liderança militar e civil da organização. Por um lado, considerava Alpoim Calvão um contra-revolucionário com quem não conseguia relacionar-se e julgava a sua estratégia megalómana, ao ponto de ter alienado a ajuda dos países ocidentais ao movimento. Por outro lado, desconfiava dos civis do MDLP, acerca dos quais afirma: “a visão que eu tenho é que a chamada divisão política do MDLP era de extremíssima direita, gente com quem eu nada tinha a ver e que me parecia pactuar imenso com o ELP”. Na verdade, a fama do próprio Sanches Osório é bastante controversa nos meios clandestinos. Segundo o testemunho de Nuno Barbieri, circulavam boatos das suas ligações à maçonaria e aos serviços secretos franceses, que lhe garantiam cobertura em Paris, e da sua função de informador do MFA sobre o meio dos refugiados. Íntimo de Vítor Alves desde a comissão em Angola em 1967, o major mantém contactos com o conselheiro da revolução ao longo de todo o período da clandestinidade. Em Paris, Osório é apoiado financeiramente por Miguel Quina e reúne-se com frequência com outro português ligado aos serviços secretos ocidentais, Jorge Jardim, com quem montará o Plano Maria da Fonte, juntamente com o editor Waldemar Paradela de Abreu, também maçon. A pertença de Sanches Osório ao MDLP não é o único caso questionável. Também o coronel Sigfredo Costa Campos tem uma relação ambígua: se, para alguns, ele é afastado da organização por não corresponder às expectativas em termos de eficácia operacional, Alpoim Calvão afirma que o coronel nunca pertenceu ao MDLP, devendo-se considerar a sua actividade entre Portugal e Espanha pessoal e autónoma de qualquer organização clandestina.




(...) Do ponto de vista operacional, o maior êxito do MDLP é a sua participação nos levantamentos anticomunistas do Norte, no Verão Quente de 1975. A importância do Verão de 1975 é representada também pela tentativa de Spínola, no mês de Julho, de mudar a sua sede operativa do Rio para Paris. Entre Agosto e Outubro de 1975, o MDLP colabora organicamente com o Plano Maria da Fonte. Em particular, a RAI desempenha um papel importante nas acções armadas com vista ao levantamento popular. O seu comandante, Morais Jorge, com a colaboração de Mira Godinho, Benjamim Abreu e Silva Horta, monta uma rede de contactos, no território português, entre as células do MDLP e os caciques locais, para formar os sublevados nas técnicas de guerrilha. Na Directiva n.º 3/1075, o MDLP afirma encontrar-se já na quarta fase de actuação, ou seja, no início da subversão. Esta fase consiste na ocupação e libertação de uma parcela do território português, a partir da qual se avançaria para a libertação de todo o país, através da destruição progressiva da estrutura de poder do marxismo militar e do reconhecimento internacional de um “Governo Nacional de Portugal Livre”. A decisão estratégica de começar a luta no Norte deve-se aos resultados das eleições de 25 de Abril de 1975, que demonstraram a concentração dos comunistas na zona de Lisboa e da sua cintura industrial. Perante a demora na eficácia da acção anticomunista de Mário Soares a nível nacional, o Norte torna-se o terreno mais fértil, graças também à disponibilidade da Igreja Católica e à permeabilidade do povo. Neste meio, os oficiais do MDLP começaram a formar os núcleos milicianos civis em técnicas de guerrilha. Nas memórias de Alpoim Calvão, os poucos contactos com o ELP e a soldadura com o Plano Maria da Fonte deram-se exactamente no Norte e na fase mais acesa do levantamento popular anticomunista, entre Julho e Agosto de 1975. A partir daqui, foi possível implementar por completo a fase da subversão. Segundo José Hipólito Vaz Raposo, a aproximação entre o MDLP e ELP, no Verão de 1975 servia para maximizar a formação das populações nas técnicas de guerrilha. O fracasso deveu-se às resistências do ELP em colaborar com os spinolistas, assim como à sabotagem de Calvão, que anunciava continuamente a iminente integração no MDLP de elementos do ELP, já em dissolução. A tentativa de coordenação entre as diversas redes clandestinas não tem por objectivo o golpe militar clássico, mas a instrução das populações nas técnicas da guerra revolucionária. Esta estratégia é justificada pelos condicionalismos da altura, que tornam a situação portuguesa diferente da chilena. No Chile, as Forças Armadas estavam coesas e hierarquizadas, o que permitiu intervir, segundo Hipólito Raposo, quando os civis marxistas começaram a ser armados à sombra do governo, com vista à instauração de um regime comunista. Em Portugal, pelo contrário, os comunistas escalaram o poder a partir do 25 de Abril com a ajuda de parte das Forças Armadas, e com a complacência dos socialistas no caso do 28 de Setembro. A impossibilidade do golpe militar anticomunista obriga as organizações clandestinas à acção subversiva, sem, contudo, conseguirem monopolizar o levantamento popular. Como recorda Hipólito Raposo:

“Essa guerra revolucionária já começou em Portugal. Lembremos os ataques às sedes do PCP e MDP/CDE, e a acção dos agricultores, da Confederação dos Agricultores de Portugal. Mas em nenhuma destas acções o ELP ou o MDLP tiveram qualquer interferência, ou inspiração directa ou indirecta. São atitudes autónomas que, no entanto, se enquadram nesta guerra revolucionária de que falamos, porque se baseiam no descontentamento da população."


 

Esta perspectiva é confirmada pelo testemunho de António Pessoa de Amorim, quadro da Associação Central da Agricultura Portuguesa (ACAP), de onde, em 1975, teve origem, por cisão, a CAP. Pessoa de Amorim recorda ter dinamizado, com a sua rede de amigos em Alcobaça, o levantamento popular contra o comício de Álvaro Cunhal no Pavilhão Gimnodesportivo, no dia 16 de Agosto de 1975. Os confrontos foram muito duros, com a intervenção dos militares dos Regimentos de Infantaria de Leiria e das Caldas da Rainha, a saída de Cunhal escondido numa ambulância e a prisão de vários atacantes. Segundo Pessoa de Amorim, a acção nada teve a ver nem com o MDLP nem com o ELP, embora as duas estruturas tentassem sempre aproveitar estas mobilizações autónomas. De facto, a capacidade operativa e de mobilização do MDLP é bastante questionável, também à luz dos testemunhos de alguns dos seus militantes. Jaime Zúquete da Fonseca caracteriza o MDLP como uma fantochada, sem estratégia alguma, com uma hierarquia teórica que nada conseguia fazer funcionar. Chega, inclusivamente, a pôr em dúvida que os militares do MDLP alguma vez tenham colocado bombas, e acredita mais na utilização da microcriminalidade local para este género de serviços. O capitão Hugo Maia é ainda mais claro, explicando que o seu processo de recrutamento

“Demorou meses! Esta velocidade era habitual nas esferas dirigentes do MDLP. Tudo demasiado lento, quando a situação que se vivia em Portugal impunha que tudo funcionasse com rapidez. Daí umas das causas por que o MDLP perdeu o comboio. Porque o perdeu mesmo, não tenha dúvidas, apesar de ter tido o bilhete na mão.”

Oficial pára-quedista de extrema-direita – antigo legionário formado doutrinária e militarmente pelos veteranos franceses da Argélia e da OAS, refugiados em Portugal –, o capitão Maia viaja para Espanha logo que sabe da formação do MDLP e do envolvimento neste de militares do calibre de Alpoim Calvão e Gilberto Santos e Castro. Numa primeira ronda pelas cidades de Tuy, Vigo, Orense, Verin, Salamanca e Madrid, o aspirante operacional não consegue nenhum contacto. Através de um amigo, encontra-se finalmente com um português refugiado em Espanha, que o apresenta a Guilherme Ramos, quadro do MDLP. Este explica-lhe os objectivos da organização e as tarefas dos seus militantes, sem, contudo, dar seguimento ao encontro ou às prometidas reuniões com quadros superiores da organização. Só a sua perseverança lhe permitiu reunir-se com Morais Jorge, Alexandre Negrão e Carlos Beirão da Veiga, respectivamente comandante, número dois e seu adjunto na RAI. Num segundo encontro com Morais Jorge e o capitão Santos Paiva e Saraiva, o capitão Maia torna-se finalmente operacional do MDLP.




O êxito do levantamento anticomunista do Norte, contudo, lança também as premissas para o fim do MDLP. A queda de Vasco Gonçalves e a indigitação do VI Governo Provisório, liderado por Pinheiro de Azevedo, a 19 de Setembro de 1975, mudam as relações de forças em Portugal. A partir daí, e ainda mais após o 25 de Novembro, a estratégia do MDLP deixa de ser a luta armada.»

Riccardo Marchi («À Direita da Revolução: Resistência e Contra-Revolução no PREC (1974-1975)»).


Waldemar Paradela de Abreu

O Plano Maria da Fonte

No ápice da resistência anticomunista no Verão de 1975, o MDLP colabora intensamente com uma outra rede sitiada e activa exclusivamente no território português: o Plano Maria da Fonte. A historiografia e a memorialística fazem remontar a origem do Plano Maria da Fonte ao acordo entre Jardim, Waldemar Paradela de Abreu e José Sanches Osório. O primeiro – homem de confiança de Salazar em África, ligado aos governos da Rodésia e do Malawi, mas também à intelligence do antigo regime e de algumas potências ocidentais – é o ideólogo da famosa provocação ao arcebispo de Braga, D. Francisco Maria da Silva. A provocação serve para acelerar a resposta do arcebispo ao pedido de apoio da Igreja ao movimento anticomunista. A ideia de Jardim concretiza-se na denúncia anónima ao MFA do transporte oculto de divisas pelo arcebispo em viagem para Manaus (Brasil), o que provoca a detenção e perquisição corporal do religioso pelos militares revolucionários no aeroporto do Porto, a 11 de Junho de 1975. A humilhação sofrida terá convencido o arcebispo a aceitar as propostas dos anticomunistas para a colaboração das estruturas da Igreja do Norte na luta armada clandestina. A provocação idealizada por Jardim é menos estranha do que parece, pois, segundo o operacional do ELP José Campos, as denúncias anónimas às autoridades revolucionárias para as despistar era prática comum entre os grupos clandestinos. Recorda, por exemplo, que o banqueiro do Banco Intercontinental Português (BIP) e presidente do Sporting, João Rocha, levava com frequência dinheiro para Espanha, onde a família residia na Torre Renta, juntamente com outros refugiados portugueses. Segundo o procedimento habitual, a polícia ou o PCP recebiam uma denúncia anónima sobre a iminente passagem de João Rocha por Vilar Formoso, no seu Mercedes com motorista. Enquanto o carro era revistado e desmontado na fronteira, o dinheiro passava noutro carro anónimo. O mesmo esquema funcionou para o desembarque de algumas dezenas de quilos de explosivos do ELP numa praia na costa alentejana, avisando a polícia local da operação iminente, uns quilómetros mais a norte.


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Jorge Jardim. Ver aqui

No que diz respeito às ligações entre o Plano Maria da Fonte e o MDLP, Waldemar Paradela de Abreu desenvolve um papel central, começando a liderar a organização Maria da Fonte, com o nome de cobertura do comandante Cruz na clandestinidade, após a mudança de Jorge Jardim para Las Palmas, pouco após a criação do plano. Neste contexto, é sintomática a reunião de Paradela de Abreu com o arcebispo Francisco Maria da Silva: vindo de Madrid através dos caminhos do contrabando que passam por Chaves, Paradela é auxiliado por João Braga, António Estarreja e a família de António Sousa Machado, reunindo-se com o arcebispo juntamente com os tenentes Pedro Menezes e Silva Horta do MDLP, mais António Silva Santos, da rede do Porto.[1] Activo nas direitas liberais já antes do 25 de Abril como jornalista do República e editor do livro de Spínola, Portugal e o Futuro, com o começo da transição democrática Paradela envolve-se de início com o PSDP e, a seguir, com o PSDI de Luís Arouca – também maçon – tornando-se, logo em 1975, chefe de redacção do jornal deste último, o Liberdade. A colaboração editorial com Spínola facilita os seus contactos com o antigo Presidente da República, agora líder do MDLP. Após o 11 de Março, a sua ideia é colaborar com Alpoim Calvão para trazer Spínola do Brasil para o Norte de Portugal, onde iria constituir um governo protegido pelos milhares de populares armados. Alpoim Calvão confirma o interesse do MDLP em colaborar com o Maria da Fonte, relacionando-se, num primeiro momento, com Jorge Jardim e, posteriormente, com Paradela. Para este último, a liderança de Spínola é importante do ponto de vista psicológico devido ao prestígio tradicional de que ainda gozavam as figuras militares na vida política portuguesa. Num primeiro momento, até, Paradela utiliza o nome do general Galvão de Melo, com a sua autorização, mas pensa sempre em Spínola para liderar a sublevação anticomunista. Embora tenha sido o general a recusar a proposta, o editor recorda a dificuldade em promover Spínola junto das populações assim que o Plano Maria da Fonte teve de ficar relativamente autónomo face ao MDLP. A relação entre as duas estruturas resolve-se na assistência técnica, por parte de um punhado de veteranos de guerra do MDLP, para ensinarem e assistirem os operacionais do Maria da Fonte na dinamitação das sedes das organizações de esquerda, entre Julho e Setembro de 1975. O material para as bombas é recuperado nas pedreiras, como as de Ponte de Lima, onde, aliás, a sede local do PCP é por completo destruída num assalto de populares, organizado pelo Maria da Fonte. O objectivo final das operações no Norte é levar a contra-revolução até Lisboa antes de 11 de Novembro, para permitir outro género de independência a Angola que a não a simples entrega dos poderes ao MPLA. Para este fim, realiza-se uma reunião, inconclusiva, em Setembro de 1975, entre Paradela de Abreu, Rui Castro Lopo pelo MDLP, o major Canto e Castro do Grupo dos Nove no Conselho da Revolução e alguns chefes locais da revolta do Norte.[2] Um episódio saliente da coordenação entre o Maria da Fonte e MDLP é a reunião no seminário de Santiago, em Braga, a 31 de Outubro de 1975, na presença dos oficiais do MDLP Alpoim Calvão, Benjamim Abreu e Mira Godinho, do líder do plano Paradela de Abreu, do cónego Eduardo Melo, de António Sousa Machado e de Ângelo do Nascimento. O malogro da reunião com a chegada dos militares do COPCON serve apenas para deteriorar ainda mais a opinião dos responsáveis do Maria da Fonte acerca de Calvão, que, por sua vez, em entrevista a Maria João Avillez,[3] chega a descrever Paradela de Abreu como um «pirata».[4] A proximidade ao MDLP deve ter permitido ao Maria da Fonte também usufruir das ligações dos spinolistas com as autoridades espanholas: Paradela admite as suas relações constantes com os serviços secretos espanhóis nas viagens a Espanha, em particular com o número dois da DGS, o coronel do Exército Don Pepe.[5] Segundo Jaime Nogueira Pinto, este Don Pepe é provavelmente o chefe da polícia de Puebla de Sanabria, Don Pepe Rodriguez Somoza.[6] Apesar de confirmar a colaboração com o MDLP, Paradela de Abreu nega qualquer intenção de colocar a sua estrutura ao serviço da estratégia spinolista e ainda menos da estratégia do ELP, cujos líderes, de resto, considerava um grupelho de meia dúzia de inúteis entalados em Madrid. Paradela recorda a existência de células do ELP antes do aparecimento do Maria da Fonte, surgidas, por simpatia, com a sigla divulgada pela comunicação social, mas sem qualquer tipo de actividade subversiva. Vários dos seus militantes são rapidamente absorvidos pelo Maria da Fonte, como foi o caso de um filiado no ELP de Leiria, que se tornou o referente local da nova organização por convite de Jorge Jardim, começando então a operar aí.[7] O ELP, por seu turno, não é menos duro com os promotores do Maria da Fonte, em particular com Jorge Jardim, acusado de ter contribuído para o fracasso do 7 de Setembro em Moçambique. O boato tinha sido sustentado pelo colaborador de Jardim nos Serviços Especiais de Informação e Intervenção (SEII), em Lourenço Marques até ao 25 de Abril e agora militante do ELP, Carlos Veiga. Ele traz para Madrid as provas documentais da traição, que demonstram o imobilismo de Spínola em Portugal e a sabotagem de Jorge Jardim em Moçambique. Para o ELP, Jardim tinha tentado salvaguardar os seus interesses em Moçambique graças ao acordo com o Presidente da Zâmbia, Kenneth Kaunda, baseado na aceitação da passagem de poderes à FRELIMO e na aposta em figuras independentes, como Joana Simeão, por oposição a qualquer estratégia alternativa dos nacionalistas brancos. Este precedente incompatibiliza os vértices do ELP com os do Maria da Fonte.



A nível territorial, o Plano Maria da Fonte actua onde existem sedes dos partidos de extrema-esquerda (LCI, FSR, MES e outros) e centros de trabalho do PCP. Estas cidades são habitualmente as capitais de distrito ou as sedes de concelho. O acordo com a Igreja Católica do Norte fez com que o responsável local da rede fosse sempre o cónego da terra: o cónego Melo em Braga, o cónego Aníbal em Lamego, o cónego Ruivo em Bragança, o cónego Galamba em Leiria, monsenhor Sarmento em Vila Real. Não faltam, contudo, casos de civis, como a dona Ana Nogueira (A Aninha) da vila de São Romão, próxima da cidade de Seia, que, com o nome de código Vaticano II, coordena três centenas de homens armados, operários das fábricas da Covilhã.

A propaganda do Maria da Fonte, impressa nas tipografias das igrejas ou das pequenas vilas não sujeitas ao boicote dos trabalhadores sindicalizados, caracteriza-se pela denúncia do comunismo e pelas instruções à população no sentido de tomarem acção. No primeiro caso, a organização utiliza como texto também o alerta do Presidente da República Spínola, no seu discurso de demissão pós-28 de Setembro, contra o alastrar do comunismo vindo de Lisboa. A ideia é acicatar os sentimentos regionalistas e localistas das populações contra a propaganda comunista personificada, na província, pelas Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA. Em particular, o plano aproveita o medo das populações perante as expropriações e ocupações das terras que, no Alentejo, seguiam a ritmo acelerado. Os agricultores do Norte demonstram-se bastante permeáveis a esta propaganda, pois a estrutura da terra não é tanto de latifúndio, antes de pequena propriedade, com um a cinco hectares no máximo. A este respeito, é interessante o testemunho ao jornal Barricada do presidente da Comissão Administrativa da Câmara de Rio Maior, Alberto Goucha, acerca dos motins anticomunistas daquela terra, tendo como alvo as sedes locais do PCP e a Frente Socialista Popular (FSP). Goucha começa por referir a sua filiação ideológica no MUD, durante o Estado Novo, quando colaborou com os comunistas locais, numa terra como Rio Maior onde Humberto Delgado ganhou estrondosamente nas eleições presidenciais de 1958. Para o depoente, a radicalização do Verão de 1975 deve-se à tentativa de assalto ao poder do conselho por parte de comunistas vindos de fora, pois os da terra estavam perfeitamente integrados no tecido político local. Foram os comunistas de fora que provocaram a população, com acções como o assalto ao grémio da lavoura em Julho de 1975 e a imposição das medidas da reforma agrária mesmo em pontos rejeitados pelos agricultores da terra. Estas atitudes azedaram as relações e levaram a população a reagir violentamente para expulsar os estranhos, tornando-a permeável aos apelos da recém-criada Associação Livre de Agricultores (ALA), de José Manuel Casqueiro e Luiz Vaz de Almada, posteriormente transformada na CAP. Por isso, para Goucha, Rio Maior não pode ser considerado sinónimo de reacção, mas sim de apego à liberdade, sobretudo contra os comunistas que contra ela atentavam.[8]






 


No segundo caso, os panfletos do Maria da Fonte alertam os populares para ficarem atentos ao tocar dos sinos das igrejas, sinal da concentração para a mobilização anticomunista. Frequentemente, esta propaganda informa as populações da presença, nas concentrações, de elementos treinados para a acção: é o caso dos panfletos assinados pelas Brigadas Anti-Totalitárias (BAT).[9] BAT é uma das inúmeras siglas contra-revolucionárias do Verão Quente, como os Comandos Democráticos do Norte (CDN), o Movimento de Reconstrução Nacional, a Frente Patriótica Portuguesa (FREPAPO), a Junta de Acção Portuguesa, a Frente Nacional Anti-Comunistas, os Viriatos, entre outras.[10] Nestas acções, o Plano Maria da Fonte e o MDLP entrelaçam-se. Assim, um panfleto do MDLP do Verão de 1975 alerta as populações para a necessidade da defesa anticomunista das comunidades e explica:

«Quando ouvires os sinos da tua freguesia tocar a rebate, vem para a rua com as armas que tiveres: caçadeiras, pistolas, picaretas, enxadas ou gadanhas.

A capacidade de ataque está a cargo da B.A.T. (Brigadas Anti-Totalitárias) constituídas por combatentes civis. Os combatentes das “B.A.T:” vão ajudar-te a organizar a auto-defesa da tua freguesia».[11]

Sintomático deste conúbio entre o Plano Maria da Fonte e o MDLP é a declaração do cónego Melo ao semanário Tal e Qual, de 17 de Maio de 1991, na qual caracteriza o seu envolvimento no Verão Quente com «tudo pelo MDLP, algo pela “Maria da Fonte”, nada pelo ELP».[12] Também João Braga, integrante do MDLP após passagem pelo ELP, opera nos subgrupos do Plano Maria da Fonte, nomeadamente nos Viriatos, que incendeiam 317 sedes de partidos no Verão Quente.[13] Segundo Paradela de Abreu, em termos operativos o Plano Maria da Fonte procurava causar o máximo dano material e psicológico ao inimigo, sempre evitando mortos, como, aliás, o arcebispo de Braga tinha pedido como condição para autorizar a ajuda da Igreja. Por esta razão, as sedes dos partidos marxistas são dinamitadas preferencialmente de madrugada e os assaltos à luz do dia organizados a partir de mobilizações multitudinárias. De facto, nos casos mais renomados a imprensa diária fala de 50 mil pessoas em Braga e 45 mil em Leiria. Em Braga, a manifestação multitudinária, organizada a 10 de Agosto de 1975 pelo cónego Melo em apoio ao arcebispo Francisco Maria da Silva, acaba com alguns milhares de manifestantes a assaltarem a sede do PCP. Em Leiria, a violência dura três dias, entre 25 e 27 de Agosto de 1975, ao som das canções contra-revolucionárias do disco Zé do Povo, gravado em 3 mil cópias por um padre português no Canadá. Os sitiados tentam resistir, provocando três dezenas de feridos com tiros de caçadeira, mas nem a intervenção dos militares do RALIS consegue evitar a destruição das sedes dos partidos de esquerda.



O Plano Maria da Fonte, portanto, opera de duas formas distintas: onde o povo está já suficientemente auto-organizado, os operacionais do plano limitam-se a supervisionar e participar; onde há carência de organização na mobilização de base, os operacionais tomam as rédeas da acção. Nas localidades maiores, por exemplo, pequenos núcleos do Maria da Fonte distribuem milhares de panfletos na véspera da acção para explicar o objectivo e a razão da mesma. No dia da mobilização, os núcleos de ex-combatentes integram as manifestações e, a partir destas, executam os assaltos às sedes das esquerdas.

O plano operacional começa com a manifestação de Aveiro, em Agosto de 1975. A primeira acção violenta é de 11 de Agosto, em Braga, com o rebentamento da sede do PCP, a que se seguem as de Ponte de Lima, Famalicão, Leiria, Covilhã, Bragança, Vila Real, Amarante e outras. No mês de Agosto de 1975 ocorrem mais de duas dezenas de ataques à bomba, a maioria dos quais inclui assaltos às sedes. Viana do Castelo é evitada, pois os dirigentes do Maria da Fonte temem a presença dos 600 operários comunistas armados dos estaleiros navais. Na cidade do Porto, as acções são limitadas e pontuais, devido ao acordo com o general António Pires Veloso, nomeado, em Setembro de 1975, comandante da Região Militar do Norte e simpatizante da revolta anticomunista.

Nesta altura, a rede do Maria da Fonte já está plenamente integrada na mais ampla frente anticomunista, tanto que lhe são atribuídas tarefas em previsão da acção militar contra a facção revolucionária do MFA, agendada para final de Novembro de 1975. Em particular, os operacionais do Maria da Fonte armadilham 15 pontes no Porto para as rebentarem em caso de guerra civil e dificultar o avanço do inimigo. São salvaguardadas as pontes D. Luís e D. Maria para a mobilização das forças anticomunistas. Já nas semanas anteriores, e na eventualidade da ofensiva sobre Lisboa, a organização tinha treinado a possibilidade de cortar o abastecimento de electricidade e de água à capital, sabotando a confluência das águas da barragem de Castelo de Bode. À luz de todo este esforço, Paradela sente-se traído quando se dá conta que a sua rede – na verdade, a rede da Igreja, na qual ele era apenas um civil com actividade destacada – é excluída das operações contra-revolucionárias. O conselheiro da evolução José Canto e Castro tinha-lhe comunicado a data de 30 de Novembro para as operações militares, com o intuito evidente de manter a rede nas margens. No próprio dia das operações, entre 25 e 26 de Novembro, o major José Clementino Pais – spinolista e colaborador do general Soares Carneiro nos CDL – ordena a Paradela que não active os seus operacionais, pois os Comandos de Jaime Neves já derrotaram os insurgentes e controlam a situação. De facto, terminadas as operações militares, a cúpula Maria da Fonte pode constatar a ausência de qualquer espaço de manobra futuro para a rede, uma vez que, no rescaldo do 25 de Novembro, os protagonistas, pela voz do major Ernesto de Melo Antunes em declarações oficiais à imprensa, apressam-se a recuperar politicamente o PCP para o futuro da democracia portuguesa. A autonomia dos militares do 25 de Novembro das redes clandestinas é confirmada também por Jaime Neves: o oficial admite os seus contactos com muitos camaradas ligados ao MDLP e ao ELP, disponíveis para apoiarem as acções armadas dos Comandos, e reconhece a convergência entre a sua estratégia de pressão sobre os comunistas com as dos movimentos clandestinos armados. Contudo, sublinha que estas redes nunca pressionaram o Regimento de Comandos para a acção de 25 de Novembro.[14]



Embora Paradela de Abreu fixe no dia 27 de Novembro o fim do Plano Maria da Fonte,[15] nas suas memórias deixa entender como a dissolução das organizações clandestinas inaugurou a fase mais controversa da violência política contra-revolucionária: o editor recorda ter encontrado em Tuy, no próprio dia 27 de Novembro, o cónego Melo – aí refugiado desde a véspera das operações militares do 25 de Novembro – o industrial de Braga, José Pinto Cardoso, financiador do Maria da Fonte, e o tenente-coronel António Quintanilha, do MDLP. Os três empenhados na passagem de armas para Portugal.[16] Para Paradela, contudo, estas movimentações de bastidores já não têm nada a ver com a sublevação generalizada anticomunista de 1975, mas sim com as relações obscuras que, naqueles meses, foram tecidas entre alguns dos protagonistas da resistência.

(In Riccardo Marchi, À Direita da Revolução: Resistência e Contra-Revolução no PREC (1974-1975), Objectiva, 1.ª edição, 2020, pp. 289-298).

 


[1] Carvalho, Miguel, Quando Portugal Ardeu, Alfragide, Oficina do Livro, 2017, p. 138.

[2] Carvalho, Miguel, Quando Portugal Ardeu, Alfragide, Oficina do Livro, 2017, p. 155.

[3] Avillez, Maria João, Do Fundo da Revolução, Lisboa, Público, 1994, p. 107.

[4] Hortelão, Rui, Luís Sanches de Baêna e Abel Melo e Sousa, Alpoim Calvão Honra e Dever, Porto, Caminhos Romanos, 2012, p. 377.

[5] Bernardo, Manuel Amaro, Memórias da Revolução, Lisboa, Prefácio, 2004, pp. 483.

[6] Entrevista com Jaime Nogueira Pinto de 30 de Agosto de 2019.

[7] Bernardo, Manuel Amaro, Memórias da Revolução, Lisboa, Prefácio, 2004, pp. 479-491.

[8] «Em Rio Maior», Barricada, 9, 8 de Janeiro de 1976, p. 1, 6, 11.

[9] Dâmaso, Eduardo, A Invasão Spinolista, Lisboa, Fenda, 1999, p. 70.

[10] Jorge, Álvaro e Hugo Maia, Eu Acuso o M.D.L.P., Portugal, ed. do autor, 1976, p. 30.

[11] «Portugueses, Organização das Freguesias em Autodefesa», in Ephemera, Biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira [Documento disponível em https://ephemerajpp.files. Worldpress.com/2012/12mdlp_0625_br.jpg. Consultado a 17 de Março de 2019].

[12] Dâmaso, Eduardo, A Invasão Spinolista, Lisboa, Fenda, 1999, p. 204.

[13] Carvalho, Miguel, Quando Portugal Ardeu, Alfragide, Oficina do Livro, 2017, p. 152.

[14] Bernardo, Manuel Amaro, Memórias da Revolução, Lisboa, Prefácio, 2004, p. 495.

[15] Bernardo, Manuel Amaro, Memórias da Revolução, Lisboa, Prefacio, 2004, p. 486.

[16] Abreu, Waldemar Paradela de, Do 25 de Abril ao 25 de Novembro, Lisboa, Intervenção, 1983, pp. 210-211.