Escrito por Miguel Spinelli
«Três sinais, que nunca mentem, distinguiram sua alma profunda, assinalaram sua vida, se exprimiram em sua fisionomia, seu gesto, seu magistério poderoso, seu juízo implacável, sua imaginação alada, seu verbo fecundo e inolvidável: a exigência de verdade, o sentido da liberdade e a dádiva de amor espiritual aos discípulos, aos amigos, a qualquer classe, turma ou assembleia que o ouvisse, por mais impreparada ou ignara, fluindo através desses, para aqueles mesmos seus detractores, inocentes colaboradores e indirectos arautos da sua glória, que foram, e são, à direita e à esquerda, seus e nossos contemporâneos triunfantes.»
José Marinho («Apologia de Leonardo Coimbra»).
«Apresentar o juízo de Álvaro Ribeiro sobre o Leonardo Coimbra professor é algo que desde já confessamos não nos propormos fazer no quadro deste estudo. É tema demasiado vasto e difícil para poder ser tratado sumariamente. Exigiria, na verdade, uma análise completa da obra de Álvaro Ribeiro, toda ela por ele patente ou encobertamente apresentada como obra do discípulo do Mestre, por este induzido e permanentemente orientada e alimentada. Reconhecer-se-á pacificamente não poder tal tarefa realizar-se no presente contexto.»
Manuel Ferreira Patrício («A Pedagogia de Leonardo Coimbra»).
«(...)
Leonardo Coimbra, encontrando a noção da Crítica kantiana, não pretende
elaborar propriamente uma gnosiologia, mas sim fazer uma “análise”
gnosiológica; antes de uma filosofia, uma “reflexão” sobre a filosofia.
O seu “Criacionismo” sente a necessidade de se demorar na Crítica, para não abandonar o espírito a uma metafísica dos seus hábitos, ou, a uma metafísica preguiçosa e sensual, ou seja, à metafísica do tacto. [O Criacionismo (II), 2]. É, neste sentido, que Leonardo Coimbra toma o problema do conhecimento como ponto de partida de todo o pensamento crítico e fundamentado. É com esta consciência, aliás, que ele elabora a sua “Teoria do Conhecimento”; não obstante a sua valente afirmação: “As teorias do conhecimento podem, como demonstramos no livro “O Pensamento Criacionista”, reduzir-se a três: materialismo, formalismo e criacionismo”».
Miguel Spinelli («A Filosofia de Leonardo Coimbra»).
«O criacionismo tem origem em Leonardo Coimbra como concepção do seu sistema filosófico. Também concepção na qual se cristaliza o sempre disperso e vário pensamento especulativo que lhe é anterior e posterior. Mais convém, por isso, formar, com um rigor que não tem tido, o princípio, o conceito ou a noção do criacionismo em Leonardo. Não se trata de um criacionismo ontológico, ex nihilo, como o dos criacionistas escolásticos. Também não se trata de um criacionismo teológico como mais geralmente se tem entendido. Trata-se de um criacionismo de pensamento que Leonardo deduz do princípio que tem sempre presente: o excesso do pensamento sobre a realidade. É a esse criacionismo que aludem Álvaro Ribeiro e José Marinho quando preconizam uma nova lógica, liberta, para o primeiro, do fixismo formal da escolástica e da ciência moderna, derivada, para o segundo, da “compreensão una e omnímoda”, não do conceito e do juízo. Não do conceito e do juízo mas talvez da noção a que Ângelo Alves dedicou um capítulo do seu livro O Sistema Filosófico de Leonardo Coimbra, livro publicado há trinta e seis anos, há trinta e seis anos esquecido, mas que já hoje estamos em condições de trazer à actualidade da filosofia.»
Orlando Vitorino («Álvaro Ribeiro incontornável»).
«Diante
do problema filosófico-teológico da Criação divina, Leonardo Coimbra, não só
rejeita o seu significado, como também se não propõe discutir o “problema da
criação do mundo por Deus no tempo, ou da eterna existência do mundo no tempo”,
uma vez que este problema, desta forma como se tem posto, não só lhe é falso,
como também não tem sentido. Ele acredita que “a mais insignificante
determinação do tempo exige a existência do mundo”; e o conceito de Deus não
pode ser determinado como um dado, o que viria a esvaziar o seu verdadeiro
significado teológico, ou mesmo, negá-lo. O seu Deus não é um Deus que esteve
adormecido e que, ao acordar, achou por bem fazer aparecer as criaturas,
determinismos sem autonomia, máquinas saídas da absoluta vontade divina. E,
como o querer absoluto fora do saber e amar coincide com o capricho, as
criaturas seriam caprichos divinos, o que equivale a dizer que não seriam. Eis
os motivos que à velha palavra Leonardo Coimbra deu um novo significado.
O
problema de Deus no “Criacionismo” de Leonardo Coimbra não é este. O seu
problema teológico não está desligado do seu problema cosmológico e
antropológico. É da sua concepção sobre o homem e o universo que desencadeia o
seu problema de Deus, e é deste contexto que surge o significado, ou o
conceito, ao termo “criacionismo” por ele aplicado.
Todavia,
na base do seu “Criacionismo” está o pensamento, que se apresenta como o seu
problema fundamental, e é daí que surge a sua primordial intuição, e de onde
derivam aquelas concepções sobre o homem, sobre o universo e sobre Deus. De
outra parte, o seu “Criacionismo” está centrado no próprio homem, Leonardo
Coimbra, e em sua forma de estar no mundo, de se relacionar consigo mesmo, com
os outros homens, com o universo e com Deus. Sendo assim, aquele pensamento tem
a sua plataforma no “homem”, Leonardo Coimbra, que se concebe espírito e ser
criativo; não como “uma inutilidade num mundo feito, mas o obreiro de um mundo
a fazer”. Rejeitando ainda qualquer forma de materialismo e formalismo,
especialmente a mecanicista, entrevê um universo que se contrapõe a uma visão
mecânica, e que não é entendido como uma massa amorfa a ser decifrada
satisfatoriamente ou a chegar-se a um conhecimento absoluto.
Leonardo Coimbra levantando os problemas: pensamento, homem, universo e Deus, preocupa-se especialmente com o lado espiritual desta problemática: espírito e vida. Ele prova criar uma nova linguagem, que não deixa confundir o seu “Criacionismo”, ou seja a sua concepção integral da existência humana: ao Universo do Criador contrapõe o pluriverso das criaturas, à existência, coexistência, à Unidade, pluralidade...».
Miguel
Spinelli («A Filosofia de Leonardo Coimbra»).
«A
filosofia de Leonardo Coimbra paga, sem dúvida, pesado tributo (como tantas
outras filosofias modernas) a uma sobrevalorização do saber científico, mas
isso não significa que esse pensamento apareça alguma vez destituído de
intencionalidade metafísica.
(...)
Não sem profunda razão se concebe, em O
Criacionismo, o pensamento de Leonardo Coimbra como “metafísica moral e
religiosa”, e em A Razão Experimental
todo o primeiro capítulo é destinado a mostrar os limites de uma filosofia de exclusivo
carácter lógico ou epistemológico. O facto de a epistemologia ter, no pensamento
de Leonardo Coimbra, amplo e fundo significado, único em toda a história da
filosofia em Portugal, não quer dizer que a teoria e crítica da ciência seja a
mais íntima e constitutiva finalidade desse pensamento. A íntima e constitutiva
finalidade desse pensamento é nitidamente expressa como metafísica, religiosa
ou metafísico-religiosa, em todos os seus momentos.
Ao
sairmos do mais puro critério racional da primeira fase para um critério
experimental, verificamos como ainda então a filosofia de Leonardo Coimbra não
deixa grande esperança aos partidários da filosofia científica. Entre muitos,
podemos citar, como mais decisivo, directo e simples o passo seguinte:
“É
claro que, sendo a Experiência humana mais complexa e opulenta que a simples
experiência científica, esta só pode ser matéria de assimilação para aquela,
pois terá de se fundir no seu direccionismo, significado e riqueza”.
A
filosofia de Leonardo Coimbra realiza, como dissemos, uma sobrevalorização do
saber científico; mas tal sobrevalorização está distante da vã modernidade de
considerar a ciência saber único, ou tipo e garantia do saber.
O análogo se verifica a respeito da mal denominada experiência religiosa. Um metafísico não religioso verá na obra de Leonardo Coimbra uma sobrevalorização da “experiência religiosa”. Não poderá, no entanto, afirmar que, mesmo no período último do seu pensamento, o sentido do valor culminante da religião destitua inteiramente o conhecimento dos seus direitos. Considerar a metafísica como “acabada em religião”, já o notáramos em A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre, é coisa nova no pensamento de Leonardo Coimbra. Tem, entretanto, isto de permanente: que embora transmutando o sentido da metafísica, mantém, como veremos, a exigência da razão.»
José Marinho («O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra»).
«(...) o criacionismo pretende significar que o espírito humano se move em mundo de noções que são sua própria criação, que o espírito é acto criador e não só recurso receptivo e fixante do já criado. Movemo-nos em universo de símbolos, de noções dirigidas para a compreensão das coisas, dos outros e de nós próprios, que também simbolicamente somos. Não há razão pura, como não há pura experiência. A experiência é o caminho que a razão propõe para a si própria se verificar, e só assim, entre o monismo da razão e o pluralismo da experiência, se poderá evitar a contradição resultante da falta de respeito pela dualidade primária com a opção infundada por um só dos aspectos da contradição, que não desaparece mas sempre volta de novo a afirmar-se, quando tudo se julga resolvido. É isto que nos parece ressaltar destas páginas que poderiam ser tema de meditação para todos aqueles que sabem que da filosofia depende a estruturação séria da personalidade e da cultura nacional. O caminho está indicado: não basta o conhecimento de verdades, é preciso também a certeza da verdade, ou, como o filosofo afirmou: é necessário que a certeza seja verdade e a verdade também certeza.»
Delfim Santos (Prefácio in O Criacionismo
(Síntese Filosófica), II).
«Ao designar o seu pensamento como “metafísica moral e religiosa” Leonardo Coimbra assinala que as origens e a finalidade da filosofia não são científicas, que a ciência é válida apenas, quando adequadamente interpretada, naquele domínio que abrange como condicionado saber de e da natureza. Eis o que, aliás, está também indicado na distinção de duas fases da dialéctica: a positiva, em que a ciência aparece, a metafísica, que transcende aquela e a garante. (V. O Criacionismo, pág. 5)».
José Marinho («O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra»).
«Leonardo Coimbra deixou de usar a expressão noção em certas obras, mas não abandonou o referente que ela designava. Com efeito, a noção é equiparada a conceito. (“Pensamento Filosófico de Antero de Quental”, ed. cit., II, 450). E o conceito e o juízo são identificados num “acto único da vida do pensamento” (“Razão Experimental”, ed. ct., II, p. 693); supomos pois, que quando Leonardo Coimbra, declara que tudo o que existe é pensamento como juízo, não se está a afastar da tese que a realidade são noções, uma vez que juízo = conceito e conceito = noção.»
António José de Brito («Pensamento e Realidade em Leonardo Coimbra»).
«(...)
o pensamento de Leonardo Coimbra não é apenas regulativo do conhecimento, mas
também constitutivo da realidade. Esta não é “em si”; resulta do conúbio do
pensamento e do não-pensamento: é noção. A noção não é ideia nem conceito, mas
o núcleo da apercepção transcendental, a fonte donde promana o que se
diversificará em ôntico e em lógico. E esta é a razão pela qual o criacionismo
se define como dialéctica de noções, e critica as filosofias que se constroem
como dialéctica de conceitos. Os conceitos são pensamento pensado, as noções
são pensamento realizante, constituinte disso que, como objecto, nós pensamos e
a que sempre o pensamento fica mais ou menos estranho. A dialéctica nocional é,
no seu dinamismo, diluente de todos os estatismos sempre limitativos da
aspiração de liberdade que é sinal distintivo do homem. A ambivalência da
dialéctica nocional, quanto ao método, apresenta dois sentidos antitéticos e
irredutíveis: “cousar” e “criar”, o “em-si” e o “por-si” como Sartre viria a
exprimir esta oposição.
Em Leonardo Coimbra, porém, o pensamento opera entre limites tendenciais e não entre balizas, entre irredutíveis aparentes e não entre irredutíveis definitivos, como é o caso do pensador francês. O cousismo – como Leonardo Coimbra dizia e escrevia – é vício de pensamento que macula as filosofias expostas e criticadas na primeira parte desta Síntese Filosófica. Mas o cousismo não tem razão de ser, tem razão de não-ser, que o criacionismo mostra, revela e corrige. O cousismo é fiel expressão do sendo comum ou da táctil inteligência que interpreta ideias e conceitos como consistentes e subsistentes por carecer de critério determinante da diferenciação e da distinção. O cousismo surge, pois, como definição arbitrária do indefinido, delimitação menorizante do ilimitado, definitação ousada do não definitivo que é sempre o pensamento no esforço dialéctico de a si próprio se superar. Como também em outro lugar afirmámos, a Síntese Filosófica é a parte nuclear da obra por nos indicar com a máxima clareza o vector antropológico e personalista que a filosofia europeia posteriormente veio confirmar.»
Delfim Santos (Prefácio in O Criacionismo (Síntese Filosófica), II).
«Como
actividade construtora do real, o pensamento elabora conceitos, que o simbolizam.
Da percepção passa à conceptualização e a obra desta são noções.
Os
conceitos são concreções de juízos, ou juízos condensados, a noção é intuição
racionalizada, mas nunca poderão separar-se do movimento dialéctico que os cria
– são momentos da sua evolução, “potenciais psíquicos de mais alto ou baixo
nível”, parciais sínteses elaboradas.
Há por vezes o perigo de o pensamento esquecer a sua essência de actividade e tomar as noções ou conceitos, por realidade estática e em si – é o perigo de cousar. Este vício aparece mesmo em ciência, fazendo “enredar o pensamentos nos fios da sua anterior actividade, estagná-lo entre os calhaus das suas criações petrificadas”. Importa, pois, referir sempre o pensado ao pensamento.»
Ângelo Alves («O Sistema Filosófico de Leonardo Coimbra»).
O PENSAMENTO DE NOÇÕES OU O DINAMISMO ONTOLÓGICO DA REALIDADE-PENSAMENTO EM LEONARDO COIMBRA
Logo no início do seu «Criacionismo», onde fora
movido por uma forte necessidade de aplicar ainda mais o campo da cultura
filosófica em sua Pátria, que se particularizava neste ou naquele sistema
filosófico, especialmente no da filosofia positiva ou científica, Leonardo
Coimbra foi encontrar no termo «noção», actividade do pensamento realizante, a
contraposição para o «facto» inerte comteano e para qualquer forma restrita de
nominalismo, empirismo e idealismo puro [1].
Recolhendo, sinteticamente, no primeiro capítulo
introdutório [2]
do seu primeiro escrito criacionista, as conclusões a que chegara gloriosamente
e mostrando o heroísmo e a honestidade de seu pensamento [3],
Leonardo Coimbra destaca os seguintes pontos: o pensamento metafísico fora
envergonhado pelo pensamento científico...; o pensamento é a sua garantia; os
sistemas filosóficos são condenados pelo pensamento; o pensamento responde
pensando, e pensando ergue-se, engrandece-se e justifica-se; «mas o pensamento
diz a sua relatividade, coloca a sua realidade psicológica no meio de uma
realidade mais vasta e activa. Não é o pensamento de puras ideias, nascidas de
uma absoluta espontaneidade, é o pensamento de actividades em recíproca dependência
e (...) em busca de harmonia e fraternização» [4].
Leonardo
Coimbra não querendo fechar o pensamento em algum sistema mecânico, ou em um
determinismo que não conduz a lugar algum, encontra, na actividade do
pensamento, «noções inferiores» que vão subindo numa «hierarquia racional» até
encontrar «noções superiores». «Estas noções inferiores são a base da pirâmide.
É sobre a sua sólida rigidez que as noções inferiores de fim, liberdade (...)
se enraízam». «Em cima, se é o mundo da liberdade, é, por isso mesmo o mundo
das noções de mobilidade, e espontaneidade, de interioridade inesgotável, de
infinitas possibilidades portanto» [5].
Leonardo
Coimbra estabelece, assim, e logo de início, uma enigmática realidade com a
qual o pensamento (sua primordial realidade) trabalha: «Noções» [6].
Estabelece, aliás, uma dialéctica de noções, que não são nem ideias nem
conceitos [7], mas
um dinamismo ontológico da realidade-pensamento [8] que
dilui todos os estatismos, sempre limitativos, da aspiração de liberdade que é
o sinal distintivo do homem [9]. Elas
são, todavia, realidades para o pensamento pensante, vastas e activas, com uma
interioridade inesgotável, sempre em ebulição e requerendo uma construção
dialéctica, no sentido do pensamento hegeliano, para se concluírem em novas
sínteses [10].
Ressalva-se ainda que, estas noções, não são puras ideias no sentido
genuinamente platónico [11], mas
«a ideia lida no fenómeno» ou o «o ser apreendido na inteligência nos dados da
sensibilidade» [12].
Recorda-se
que aquele «pensamento» de H. Poincaré fala pensamentos quando se quer exprimir
sobre as coisas; sugestionado por ele [13], o
pensamento de Leonardo Coimbra, pensando, (consciente, portanto), fala e
responde «noções».
Por
um lado, as «noções», para Leonardo Coimbra, são frutos da sua constatação de
que o pensamento humano se move em universo de símbolos: noções dirigidas para
a compreensão da realidade, da experiência e dos seres.
Para
ele não existem formas puras de conhecimento, e tudo é envolvido por estas
«noções» do pensamento [14] que
lhe são reais, porque a sua essência é pensamento do mundo, mas nada podem
realizar sem pensamento que a eles preside e as organiza como realidades. As
qualidades existem, mas só o pensamento trabalhando-as em noções lhes pode dar
existência. As sensações são já pensamentos endereçados ao pensamento; são as
primeiras realidades psicológicas de um pensamento vulgar que antecede um
pensamento criador. São símbolos, portanto de outras actividades.
O
pensamento criacionista não trabalha no vazio, e, pensar sobre si mesmo, sem a
realidade dialéctica de um «mundo de noções» seria petrificar ou estagnar a sua
própria actividade. As noções são, portanto, a vida, o combustível purificador
de uma «engrenagem» que é o pensamento que não se solidifica («coisifica»)
nesta ou naquela «noção», neste ou naquele sistema.
Por
um outro lado, estas «noções» não são dados empíricos, mas constituem-se num
recebido, ou seja, em elementos elementares ou fundamentais de intuição [15].
Elas são pensamentos exteriorizados, isto é, transformados em linguagem, feitos
causa e efeito de uma harmonia social de pensamentos ou consciência social [16].
Sendo assim, estas «noções» não se referem exclusivamente a um suposto
resultado do contacto sensitivo, mas a todo um acervo cultural e civilizador
que é posse da humanidade. O pensamento é acção, mas acção solidária; logo, as
«noções» são património do pensamento individual e da colectividade.
Já
se observou que o pensamento criacionista é um pensamento universalista; não
mede, pois, o fervor da sua criatividade pela exclusividade das próprias
«noções» nacionais-civilizadoras. Ele é um pensamento de mais vasto ser que se
robustece destas «noções», mas, sem se descaracterizar, serve-se de tantas
outras «noções» universais. Estas «noções» estão, portanto, para se contraporem
a «um sistema de valores espirituais» [17]. Aos
primitivos valores de uma época, ou de um período criador social, substituem-se
novos valores espirituais, pois uma sociedade vale pela maneira como consegue
manifestar e exprimir o espírito de um povo.
O
espírito humano [18]
revelando-se para o «Criacionismo» como o «fenómeno específico da sociabilidade
humana» [19],
manifesta-se, então em busca de um equilíbrio perfeito, de uma absoluta e
permanente exteriorização de si mesmo. Há solidariedade, portanto, entre a
consciência individual e a consciência colectiva; há em cada «eu» a repetição
de um «nós» mais real e efectivo. Assim como o pensamento individual não se
perde (ou não se pode criminosamente perder) no pensamento social, a liberdade
criadora de um povo não se pode estagnar («coisificar-se») nos modelos de uma
determinada época, ou, de uma nação. O pensamento humano filtra estes modelos
universalizando-os e universalizando-se.
Leonardo
Coimbra, querendo ainda mostrar que o critério de verdade do «ser mental», a
ciência, é o seu racionalismo, encontra nas «noções» do pensamento científico a
possibilidade deste racionalismo.
O
seu saber positivo colocando a ciência da quantidade, ou ciências matemáticas,
em primeiro lugar, e as ciências físicas, químicas, e biológicas a seguir, está
colocando «noções inferiores» na base da sua pirâmide de liberdade criadora, e,
nesta ordenação primária, já revela a posição destas ciências em relação à
Verdade [20].
Toda
a ciência é um processo racionalizante. Tal processo é sempre incompleto, e a
marcha do seu caminho é o da máxima racionalização: é um contínuo movimento
envolvente e de profundidade. Cada ciência é um «mundo de noções» à espera de
um pensamento criador que as desordene e, consequentemente, as reordene,
através de uma análise crítica regressiva, mas de construção progressiva, em
busca de novas sínteses. Uma nova teoria é, pois, o sistema convergente de uma
dialéctica construtiva de noções; nova excitação para um pensamento criador.
Leonardo Coimbra encontra no poder racionalizante deste «mundo de noções», que
pode concluir-se em uma ou mais teorias [21], o
dinamismo do seu próprio método.
A
exemplo de Platão, Leonardo Coimbra concebe um «mundo de noções», que é, além
de pensamento realizante e actividade do pensamento em criatividade, o
essencial plano de realidade e campo de experiência, por intermédio dos quais o
pensamento age e se possui [22].
O
seu idealismo de tipo platónico é uma visão da realidade de molde matemático,
isto é, uma realidade expressa em símbolos que são modelos ideais de que a
realidade seria uma cópia aproximada. O pensamento não é um espelho passivo em
que o mundo objectivo se reflicta. É antes uma actividade inalienável a
qualquer observação ou interpretação do mundo objectivo. A imagem que o
«Criacionismo» tem deste mundo objectivo, é construída em colaboração entre
«sentidos» e «pensamento». O seu idealismo, portanto, não é como o de Platão,
que concebe as realidades como projecções truncadas das ideias, e, nem tão
pouco, como o realismo ontológico de Aristóteles, preso pelo senso comum.
Pode
dizer-se que, com Berkeley, e com o termo «noção», Leonardo Coimbra indica um
tipo de conhecimento contraposto ao fornecido ao conhecimento de Deus, do
espírito humano e suas acções, e das relações entre as coisas.
Pode dizer-se também que percorre, da mesma forma, o significado da «Notio communis ou Axioma» de Euclides, passando pelas «Máximas ou Verdades eternas» de Descartes, até se aproximar de Nicolau de Cusa que, com o termo noção, caracteriza o saber humano que, diferente do divino, reproduz, não cria a realidade.
(In Miguel Spinelli, A Filosofia de Leonardo Coimbra,
Publicações da Faculdade de Filosofia, Braga, 1981, pp. 133-140).
[1] Com esta observação se inclui a
atitude intelectualista de Leonardo Coimbra; tendência fortemente marcada em
seu primeiro livro.
Neste seu primeiro livro, como de
resto em toda a sua obra, Leonardo Coimbra ocupa-se com o «Pensamento criando a
realidade. Esta sua preocupação tem em vista, no seu primeiro escrito, combater
«os substancialistas ingénuos que julgam trabalhar com a realidade nua e
recebida» (O Criacionismo (I), 115),
e os materialistas que «pretendem ter agarrado uma realidade completamente
despida de pensamento, despida até da especificidade sensual, e, com ela,
adrede recomposta, fazer toda a realidade» (A
Luta, 32).
[2] O primeiro capítulo do
«Criacionismo: Esboço de um sistema filosófico», intitulado «O Método», possui
vários indícios de que fora escrito à moda de introdução, isto é, ele é
posterior à elaboração do corpo do trabalho.
Este capítulo possui duas partes
distintas: a primeira é uma síntese das conclusões alcançadas (é curioso observar
que, nela, Leonardo Coimbra utiliza a expressão «tentamos mostrá-lo»); a
segunda é uma descrição cuidadosa dos objectivos e método utilizado (ali, a
expressão é «tentaremos mostrar»).
[3] Na dedicatória de «A Luta pela
imortalidade, recordando a morte de seu primeiro filho, escreve Leonardo
Coimbra a sua esposa: «Eu tinha escrito o meu primeiro livro. Era uma síntese
filosófica, chegando a conclusões optimistas sobre o mundo como sociedade de
seres espirituais imperecíveis. (...) O livro por aí anda – «O Criacionismo» –
e a mostrar o heroísmo e a honestidade do meu pensamento» (A Luta, 9/10).
[4] O Criacionismo (I), 1/2.
[6] «O físico pensa e trabalha com
pensamentos. Experimenta com pensamentos e, se as suas teorias têm de respeitar
a experiência, é porque a experiência é uma realidade, isto é, um sistema
de noções. Se a experiência fosse um
dado bruto, todos seriam capazes de experimentar» (O Criacionismo (I), 102). «Se pretendemos dar miolos às palavras,
temos de sair da região das metáforas epidérmicas e mergulhar na dialéctica dum
pensamento de noções» (O Criacionismo (I),
126).
[7] Já no seu livro a Luta pela imortalidade, Leonardo Coimbra
dará mais peso ao conhecimento por conceitos, do que propriamente a um
conhecimento nocional. No entanto, conserva também ali, ampliando-a, esta
concepção de que o pensamento pressupõe, ou é inerente a ele, um potencial
psíquico de energias. «O conhecimento por conceitos não é de forma alguma, um
conhecimento vazio de intuição...» (A
Luta, 15). « O conhecimento por conceitos resulta de dois factores
principais – a correcção do próprio indivíduo e a correcção da sociedade, duas
formas do esforço para a consciência, que é a essência do nosso ser íntimo» (A Luta, 14). «O conceito não é um ser
mitológico com um terrível poder oculto. (...). É o explicativo, onde o
pensamento condensou grandes energias, como é o cofre onde guardou os seus
melhores tesouros» (A Luta, 16).
Há evolução no pensamento de
Leonardo Coimbra e não convém, pois, querer persistir nas suas «contradições».
[8] «Para o nosso realismo (realismo
de noções – activo e construtor na mais longínqua acção do pensamento) não há
nem intuição pura, nem racional puro; mas todo o pensamento, mesmo o pré-lógico
e o pré-científico, é noção-realidade. Se assim é, cada noção é, não só um
sistema completo do pensamento que é a filosofia, como nos sistemas para e por
si limitados, que são as ciências, um momento dialéctico que a si mesmo se
garante e justifica pela sua racionalidade, que é ordem e fecundidade» (O Criacionismo (I), 28). «... a
realidade é um sistema de relações de ser, cuja definição se fez na acção,
restando para cada símbolo a simples noção de actividade em geral. (...). Assim
se revela desde o início que a realidade é uma inter-relação de actividades em
que a actividade que conhece é imprescindível» (A Luta, 77/78).
[9] Delfim Santos, Prefácio a «O Criacionismo: Síntese filosófica»,
Porto, 1958, passim.
[10] «Que só temos trabalhado com
noções é evidente...». «Mas ainda não nos aparecera tão claramente como agora,
o progresso dialéctico das noções» (O
Criacionismo (I), 111). «... o movimento das teorias é um movimento
dialéctico, um sistema dinâmico de noções» (O
Criacionismo (I), 134). «A psicologia é, como as outras ciências, uma dialéctica de noções» (O Criacionismo (I), 146). «A experiência é uma dialéctica de noções...» (O Criacionismo (I), 116).
[11] «O erro de Platão está não na
bela hipótese da reminiscência, mas na ingenuidade de supor que em vidas
anteriores era possível a visão directa das ideias...» (A Luta, 28).
[12] A Rússia, 114.
[13] «Nesta primeira parte do nosso
trabalho (refere-se ao seu primeiro livro), (...) poderíamos aceitar
provisoriamente as ideias de Poincaré...» (O
Criacionismo (I), 33).
[14] «Se voltarmos ao rochedo,
encontraremos que ele não é tão despido de pensamento como parece. Em primeiro
lugar ele é, na sua mínima realidade vulgar, uma obra do pensamento. Já o
pensamento o banha e o circunda, quando de pensado é levado ao seu ciclo de
pensamento» (A Morte, 50).
[15] «É intuitivo o que se nos
apresenta sem construirmos, mas, ao lado dessa intuição reveladora do estranho,
o homem vai criando como que uma intuição de segunda ordem pela presença, sem
elemento indagador, de elementos adquiridos» (O Criacionismo (I), 12).
[16] «Todo o nosso pensamento é
adaptação à vida social, no sentido amplo, de forma que se vá fazendo acordo com
os homens e as cousas» (A Luta, 25).
«O pensamento é criacionista, não porque crie a sua realidade, mas porque a sua
adaptação à vida social é uma obra da sua liberdade efectiva, isto é, da sua
acção solidária» (A Luta, 31).
[17] A Alegria, 338. «No entanto a
história de sistemas, seres, sociedades, etc., é uma dialéctica de noções e não
uma colecção de cousas ou de factos» (O
Criacionismo (I), 132).
[18] «O Espírito só será real pelo pensamento»
(O Criacionismo (I), 146). «O
Espírito revela-se na ideia, na criação viva e animada, pois mais não é que a
palpitação da própria vida espiritual. A ideia é a unidade da diversidade, o
acordo de várias formas...» (Inéditos,
30).
[19] Inéditos, 29.
[20] «As matemáticas são uma
ordenação das experiências primárias dos homens: a troca por correspondência
gera a aritmética, a comparação das grandezas externas gera a geometria. A
aritmética e a geometria interferem e oferecem novas formas da experiência a
ordenar. A álgebra, a teoria das funções, são promoções destas ciências elementares.
É nesta ordenação primária que já se revela a posição destas ciências em
relação à Verdade» (Inéditos, 58/59).
[21] «As teorias são sistemas de
noções...» (O Criacionismo (I), 131).
O valor prático de uma teoria está no poder racionalizador desta teoria. «Então
ela é um conjunto de noções ligadas, procurando mais perfeita unidade, visto
que elas chegam de diferentes pontos do horizonte mental» (O Criacionismo (I), 69).
[22] «Ora a Experiência não é mais que a vida do pensamento (no sentido cartesiano abrangendo amplamente a vida psíquica) procurando o seu harmonioso crescimento. Partida de umas quantas sensações, ela regressa finalmente a um último sistema de sensações. Mas entre as primeiras e as últimas vai um imenso dinamismo; se partirmos das primeiras, tomamo-las para símbolos dos primitivos interesses, as últimas são confirmações simbólicas de todo um sistema pensante de universais interesses. A experiência é uma interrogação feita numa dada linguagem procurando activamente uma resposta compreensível» (A Luta, 25).
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