domingo, 30 de agosto de 2026

Uma excursão filosófica

Entrevista de Victor Mendanha a Pinharanda Gomes


Bairro do Chiado

«Convém todavia, rememorar que em 1925 eram tidos por maiores poetas Júlio Dantas, Eugénio de Castro e António Correia de Oliveira, por maiores prosadores Aquilino Ribeiro, Samuel Maia, Carlos Malheiro Dias, sem que o prestígio desses escritores deixasse na sombra o nome dos poetas Afonso Lopes Vieira, João de Barros e Cândido Guerreiro ou dos pensadores Henrique Lopes de Mendonça, Brito Camacho e Joaquim Manso. Floresciam também muitas escritoras cujos retratos e nomes ficaram registados em folhas mortas que o historiador poderá revolver, mas tal publicidade não significava mais do que gentileza, galanteio ou cortesia do espírito varonil para com as damas que aspiravam a imitar os homens no exercício da composição literária. Eram aqueles os escritores modelares, cujos livros editados por empresas que tinham os seus escritórios perto do Chiado, lhes davam jus a serem consagrados pelos sócios correspondentes e efectivos da Academia de Ciências de Lisboa.


António Correia de Oliveira

Os ilustres escritores, que a imprensa periódica exaltava, eram apenas combatidos por certas tertúlias que hostilizavam o gosto mundano e burguês da maioria dos letrados. Se a história e a crítica mais severas eliminaram os nomes dos escritores que chegaram a ser académicos, se o modernismo trocou a escala dos valores para situar outros já consagrados, não devemos confundir o que as modernas histórias da literatura de hoje nos narram com o que era ontem o panorama da opinião pública. De vinténio para vinténio, cada geração reage contra a geração antecedente, e pela leitura das revistas mais novas podemos inferir quais os escritores que efectivamente exerceram preceptorado ou mestrado.

É um anacronismo julgar-se, por exemplo, que a geração do Orfeu, publicado em 1915, e da Athena, publicada em 1924, gozava já do crédito e da celebridade que veio a merecer quarenta anos depois, graças à vitória da estética modernista sobre as antecedentes escolas literárias. Em Portugal ninguém reconhece os valores culturais antes de passados dois vinténios sobre a sua revelação, pois é natural a dificuldade de modernizar e de actualizar de pais para filhos, e para netos, as normas e as estruturas da vida cultural. A história reconstituída para preconcebidos fins ideológicos de literatura, política ou religião é sempre uma modalidade de romance apologético.





A notoriedade de Fernando Pessoa, que não cessa de aumentar na cultura portuguesa, foi muito mais tardia do que, por exemplo, a de António Sardinha. Com efeito, já o autor de O Valor da Raça começava a ser ilustre em 1915, e conhecido do grande público no segundo decénio do século, enquanto o obscuro poeta dos heterónimos, sem livros publicados, só chegou a ser admirado, entendido e amado depois de em 4 de Fevereiro de 1935 haver publicado um notabilíssimo artigo no Diário de Lisboa. A profecia do advento de um super-Camões, a ode ao Presidente-Rei e, enfim, a Mensagem, textos apontados e dirigidos por um engenhoso espírito de dedução cronológica, eram traços insuficientes para desenhar o perfil doutrinal do político aristocrata e do filósofo esotérico que só em nossos tempos está sendo visto em sua verdadeira dimensão espiritual.


A personalidade superior de Fernando Pessoa não era, nem mesmo entre os do Orfeu, conhecida pelo seu supremo valor de filósofo que só mais tarde foi reconhecido, pois o poeta bem sabia que a música, própria para encantar as almas, ou os animais, está ainda longe da altura profética das artes da palavra. A literatura portuguesa ainda não havia chegado à sua plenitude filosófica, prevista por Fernando Pessoa, e realizada culturalmente por influência da revista presença. Antes de 1925 o público entendia que intelectuais eram só os letrados, e como tais desprezados pelos agitadores políticos, pelos legisladores utilitários e pelos burocratas mesquinhos, em sinal estatolátrico de aversão pela inteligência.»

Álvaro Ribeiro («A Literatura de José Régio»).





«Escritor difícil e o mais fundo de nosso tempo, José Marinho recusava, perante os amigos, a qualidade de escritor. Talvez Álvaro Ribeiro, que não é escritor fundo, mas escritor alto, e que não é difícil, porque se quer educador dos difíceis, soubesse das causas que apoiavam essa permanente recusa de José Marinho ao qualificativo – entre elas, a causa de ser filósofo e ter de actuar como escritor ele, que, na melhor orientação de mestre Leonardo Coimbra, era homem feito para a oralidade, para a conversação, para o debate verbal, para o parlamentarismo filosófico, formas que são, na história clássica, a arte da sofística, na sua mais alta glória. Afinal, a sua morte revelou a veracidade de ser ou não ser escritor – o espólio inédito, constituído por valiosas obras manuscritas e dactiloscritas, (milhares de aforismos, um ensaio sobre os poetas messiânicos, um tratado de ontocosmologia poética, um estudo sobre os ideais educativos do século XIX português, etc.) atesta como ele era um escritor produtivo, à contre coeur, já que, todos estamos certos, a sua missão fora melhor cumprida na aula colegial onde, olhos postos no alvo do céu, poderia ter proferido iluminações místicas, interrogações de vida e de morte, e orações de oclusividade do ser humano, no ciclo fechado que decorre, como a serpente mordendo o rabo, entre a verdade e o destino, através da condição, para o regresso à mesma verdade original.



Recusando ser escritor, escreveu muito, (e, quanto, sem assinatura, naqueles inolvidáveis Boletins das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian?), mas publicou pouco, em face do que escreveu; no entanto, o ter admitido que se editasse a Teoria do Ser e da Verdade [Colecção “Filosofia e Ensaios”, Guimarães Editores, Lx.ª, 1961], é facto pelo qual toda a cultura lusíada, aqui ou algures, no Porto, (de onde, alguns, disseram ser natural Espinosa...) ou na finisterra última do cabo do mundo, todos devemos estar gratos. Com Espinosa ou sem Espinosa, a Teoria é opus magna, pedra filosofal para que não existe música. Tudo é dado como verdade aí, e tudo é, aí, retirado como destino.

E, porque o autor que escreve livros, cujos títulos quase sempre incluem artigo definido, substantivo e adjectivo, haja motivos para, mais uma vez, se sentir prisioneiro de uma relação (afectiva e intelectiva, que, ignoramos se foi prisão, se foi libertação) pré-judicial, cumpre-nos exprimir a nossa “intervalar” convicção de que é tão difícil tratar de Platão sem a referência a Aristóteles, como de José Marinho sem explícita menção de Álvaro Ribeiro. A responsabilidade é de ambos, que escreveram numa situação paritária, um, sed contra outro, numa controvérsia de sempre que, tendo sido prejudicial para os desígnios realistas e pragmáticos e intervencionistas da filosofia portuguesa, inibindo-a de uma participação activa e interveniente aos níveis reais do nosso futuro, (e estamos vendo os efeitos de não-intervenção consequente), foi origem da pluralidade de intenções, visões, mentalidade e actualidades que, na linha leonardina, e depois de Leonardo, sabemos.



Longe deste coração o desejo de vã glória por termos anotado que a Teoria faz par com A Razão Animada; que, A Arte de Filosofar provoca, com lenta reacção, o Filosofia, Ensino ou Iniciação?, e outras aparições, que ora omitimos.

Menos lógico do que Álvaro e, portanto, mais abastado em ser genérico, Marinho algumas vezes disse tornar-se difícil saber o que era dele (só), e de todos nós em geral. Essa dificuldade decerto se tem levantado a todos quantos, na “filosofia portuguesa”, onde a honestidade mental é primado de direito, alguma vez, por tentação, julgaram apenas “seu” o que vem sendo parte da refeição comunitária. Portanto, e sem receio se afirma – talvez a estrutural história da filosofia, que se avizinha, seja capaz de identificar correctamente a Marinho sem Álvaro, ou Álvaro sem Marinho, em suas radicais posições lógicas. Deveras, Platão seria inconcebível de chateza numa história onde, a par, não houvesse Aristóteles, tal como os tomistas seriam um excesso, sem a presença dos escotistas. Os filósofos querem-se aos pares, como os divinos atributos.



Escritor difícil, demorado e complexo, mas clarividente, cujas respostas eram sempre mais demoradas e menos longas do que as interrogações, e as perguntas, José Marinho estava, quando faleceu, determinado a publicar um ensaio que lhe levara dez anos a pensar e a redigir: Verdade, Condição e Destino no Pensamento Português Contemporâneo [Lello & Irmão Editores, Porto, 1976. A obra saiu após a morte do Autor, quando já se encontrava no prelo. Por suas instruções, e de acordo com os filhos e com o Editor, procedemos à elaboração dos Índices temático e onomástico]».

Pinharanda Gomes («A “Escola Portuense”»).

 


«Desde o tempo de estudante universitário José Marinho se tornara notável pelos dons de eloquência, que exibia nas conversas com seus condiscípulos, os quais confessavam que nenhuma discussão académica poderia ser esclarecida ou encerrada sem a palavra decisiva do inspirado orador. Era surpreendente, mas verdadeiro, que José Marinho tinha o condão de apresentar a nova luz poética, ou sob um aspecto inédito, o problema em estudo e o critério de o resolver. A superioridade da sua inteligência, facilmente reconhecida pelos seus colegas mais orgulhosos ou mais invejosos, tornara-se famosa nos ambientes universitários. José Marinho comparecia frequentemente em todas as reuniões de jovens que se dedicassem a actividades intelectuais, intervinha com a lucilação da sua palavra inspirada, deslocava ou removia o tema para o plano superior em que brilha a tese, ou a ideia. Nos debates, colóquios e simpósios que se efectuaram de 1920 a 1930, – decénio em que a onda intelectual da cidade do Porto foi também vida espiritual, como nunca mais – os espectadores ou assistentes solicitavam ou exigiam que José Marinho não ficasse calado, e que lhes dissesse a última palavra. Habituaram, assim, o notável orador ao esforço máximo de reflexão e de meditação, adequado à responsabilidade do pensador, mas contribuíram talvez para acentuar inibições em que iria adiar de decénio para decénio a sua esperada revelação de escritor.»

Álvaro Ribeiro («Homenagem a José Marinho»).

 


«A filosofia não tem seu início no contacto com os livros; ela tem seu início no sentido do enigma que é o homem para si mesmo. E não é a ciência aprendida, nem a erudição livresca quem o sente, mas o espírito íntimo e solitário.»

José Marinho («O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra»).           

«(...) José Marinho é, a meu ver, um dos raros pensadores a ousar falar directamente da verdade. Mas porque não a dissocia do ser. Perguntei-me se quando Leonardo diz “chamo ser à expressão do pensamento integral” não estaria a dizer antes “chamo verdade à expressão do pensamento integral”? Ou ser e verdade são o mesmo? E que entender por pensamento integral? Não é por aí que tudo se decide?».

Orlando Vitorino («A desolação do Mundo – Leonardo Coimbra e Martinho Heidegger»).

 


«A análise da obra literária de José Régio permite-nos asseverar que o dramaturgo se preocupou certamente com os episódios reais da Modernidade, e em especial com os problemas de filosofia da História de Portugal. Quando colaborador da revista Seara Nova, o nosso ensaísta não deixaria de ter feito leitura iniciática de Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, espelho de reflexão para mestre António Sérgio, mas também problema de meditação para Joaquim de Carvalho, distinto professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Antes, porém, conviria decidir, pela alta investigação histórica, se foi na Lusitânia ou na Portugália que se estruturou e definiu a nossa nacionalidade.

A decadência dos povos estuda-se na declinação das cerimónias, das instituições e das leis, já que para o leitor atento das obras históricas a palavra costumes sofre os deslizes semânticos da opinião moral. Além do que se observa durante as cerimónias, as instituições e as leis, cumpre analisar o enfraquecimento dos instintos, a degeneração fisiológica, a repressão da vitalidade, mais susceptíveis de apreciação económica por conta, peso e medida. É no entanto na astúcia da posição subversiva: – os estrangeiros a educar os nativos, os mais novos a dirigir o trabalho dos mais velhos, os valores femininos a substituir os valores masculinos – que se adulteram as estruturas étnicas dos povos e a desnacionalização efectua-se por meio de juízos igualitários e, por fim, majoritários, a inserir na argumentação política.

A nossa tese, recebida da filosofia da história que entre nós foi escrita por Sampaio Bruno, é a de que a principal causa da decadência dos povos peninsulares está maravilhosamente descrita no livro O Encoberto (1908). É portanto uma interpretação religiosa, referida ao primeiro sistema de filosofia da história, seja o providencialismo messiânico da Bíblia. A Península Ibérica decaiu por consequência da expulsão dos Judeus.



A influência cultural deste povo de monoteísmo transcendente, que não conhece representação nem representante de Deus na Terra, povo de doutores fiéis a uma Doutrina que não impõem por métodos de proselitismo, mas, que defendem pelo sacrifício da própria vida, povo para o qual são pecados mortais só o homicídio, o adultério e a idolatria, povo que considera a aliança como padrão da vida religiosa, que antecede de um ritual belo, sério e santo o próprio acto conjugal, que santifica o sábado como dia de festa da família, que pratica a oração com simplicidade, modéstia e alegria, que espera pela era messiânica de redenção da humanidade, a influência de tal povo, repetimos, ainda não foi assaz reconhecida por etnógrafos e historiadores. Este povo que vive, respeita e pratica um admirável preceito, segundo o qual “o pai que não manda ensinar um ofício ao seu filho faz dele um pedinte ou um ladrão”, trabalhando destituído de instituições políticas e fixado na vida civil ou privada, foi o educador filosófico e religioso de outros povos migrantes, exerceu uma influência civilizadora que permaneceu latente e oculta depois de ser expulso da Península Ibérica. Este factor é muito mais importante do que aquele que aparece sublinhado pelo materialismo histórico, ou seja, a falta de tais homens no comércio, na indústria e na agricultura, ocupações que poderiam ser igualmente distribuídas pelas várias camadas da população católica.

Portugal, se perdeu a independência política em 1580, não restaurou a autonomia cultural em 1640. A expulsão de Aristóteles e a extinção da Universidade pelo espírito politécnico e antifilosófico do Marquês de Pombal foram actos adversos à Alma Mater e, consequentemente, à Pátria. Estes e outros temas, teses e teoremas que formam a disciplina especulativa da História de Portugal foram precisamente compendiados por António Quadros nos dois volumes que a tão magno assunto dedicou [A Teoria da História em Portugal: I. O Conceito de História; II. A Dinâmica da História. Prefácio, selecção, notas e comentários finais de António Quadros. Notas biobliográficas de Pinharanda Gomes – Lisboa, 1967-1968]».

Álvaro Ribeiro («A Literatura de José Régio»).




«“Seja qual for o destino da humanidade”, escrevia Álvaro Ribeiro em 1958 na “Escola Formal”, “prescrito ou descrito pelas doutrinas religiosas, seja de prever a reintegração das raças, dos povos e das nações no plano da fraternidade universal, certo é que, enquanto durarem os processos da existência no mundo, teremos de reconhecer nas sociedades étnica e historicamente diferenciadas uma resistência anímica aos prematuros, ainda que subtis, processos de absorção. Um espírito autónomo inspira ao povo o desejo de perviver em estado de independência política, porque só nessa liberdade lhe será possível acertar e assinar compromissos de ordem internacional”. E Álvaro Ribeiro conclui, sublinhando mais uma vez o princípio psicológico fundamental da teoria da história: “O estudo da história deve servir de confirmação documental dessa verdade atingida pelos homens superiores cujos processos mentais se integram no quadro da intuição. A história prova assim a existência de um Espírito que convém educar, para que se manifeste gloriosamente em actos de culto, cultura e civilização. Dar vida a esse espírito é mais do que um ministério, é verdadeiramente um magistério, porque só um mestre sabe, pode e quer realizar verdadeiramente a obra de educação nacional”».

António Quadros («A Teoria da História em Portugal. II. A Dinâmica da História»).

  


UMA EXCURSÃO FILOSÓFICA 

Iniciamos aqui uma viagem filosófica e alquímica através dos atraentes e importantes caminhos do pensamento português, salvaguarda e garantia da nossa identidade nacional, actualmente em crise tão profunda e capaz, caso não se inverta o sentido do percurso, de atingir a terra de ninguém, onde as Pátrias se diluem no rio do esquecimento.

Nesta primeira abordagem dialogámos com o filósofo e escritor J. Pinharanda Gomes, português e católico que não confunde a liberdade filosófica com a sua crença religiosa, assumindo o direito de questionar toda a autoridade.

Nascido em 1939, numa aldeia perto da cidade da Guarda, Pinharanda Gomes foi discípulo de grandes pensadores, como Álvaro Ribeiro e José Marinho, sentindo-se porém um especulativo, apesar da necessidade de missão o ter sacrificado à pesquisa da história da Filosofia.

Como temos a percepção de que, com a leitura atenta desta e das seguintes abordagens ao pensamento português, muito se esclarecerá na mente de quem nos acompanhar, fiquemos por aqui na abertura da porta, pois todo o espaço e tempo será pouco para conversar com os nossos entrevistados.



Victor Mendanha – A partir de que época começa a haver um pensamento filosófico português em Portugal?

Pinharanda Gomes – Se partirmos do pressuposto filosófico que, de um modo geral, a Filosofia portuguesa suscita, só há Filosofia portuguesa a partir do momento em que se formula a língua portuguesa.

Se o Logos encarna no Verbo, então o Logos encarna na palavra de forma que, sendo a palavra o corpo da ideia, só existe Filosofia portuguesa a partir do momento em que existe língua portuguesa.

Não sabemos quando surge a língua portuguesa, nem sabemos, sequer, se esta língua portuguesa, por nós falada e escrita hoje, é a mesma língua portuguesa utilizada pelos antigos. Em todo o caso, creio haver uma consciência, uma espécie de Filosofia portuguesa a partir do século XV, quando, no ambiente da escolástica latina surge uma apetência para o recurso à língua portuguesa. De tal forma que, embora desculpando-se de o fazer, o rei D. Duarte, no Leal Conselheiro, só escreve em português. Já surge, nessa atitude de D. Duarte, uma decisão de dar à língua portuguesa uma dignidade filosófica.

Isto independentemente dos filosofemas e dos teoremas filosóficos patentes na melhor e na pior da nossa poesia dos Cancioneiros, à qual ainda não foi prestada a devida atenção hermenêutica em termos de nela inquirir o que são meras exclamações poéticas e o que são propostas de filosofemas e mesmo teorias.

VM – Desse modo, podemos considerar D. Duarte como o primeiro filósofo português, o primeiro a fazer escola?

PG – Português, foi D. Duarte, se considerarmos a Filosofia portuguesa em geral e a Filosofia portuguesa como espécie.

Do ponto de vista da Filosofia expressa em língua portuguesa, penso podemos situar a primeira impressão filosófica no ciclo da Casa de Avis, já na procura de uma autonomia. Assim como a espécie é um género diferenciado, assim esta Filosofia portuguesa, a partir do século XV, procura ser uma espécie do género filosófico existente.

Mosteiro de Santa Maria da Vitória

VM – Poderemos encontrar alguma analogia entre Filosofia e Monarquia, coincidindo os períodos do pensamento português com os períodos áureos da Monarquia e vice-versa?

PG – Naquilo que se designa por Filosofia portuguesa em particular considera-se, sendo tese aceite por quase todos os pensadores, que estando o Reino de Deus garantido, o único reino que importa garantir é o reino do Homem.

Então toda a Filosofia, mesmo mantendo a sua pureza genética, acaba, de um modo ou de outro, por ser a causa primeira das construções sociais e políticas. Por isso Álvaro Ribeiro propunha e demonstrava que o último fim da Filosofia da História era a construção da sociedade política perfeita.

Se, quando um homem pensa bem tem todas as possibilidades de fazer bem, quando um homem pensa incorrectamente tem todas as possibilidades de proceder incorrectamente.

Não possuo uma visão muito clara da política portuguesa, e dos seus altos e baixos, mas quando olho para o nosso quadro de História secular parece haver, com efeito, uma simultaneidade entre as grandes épocas do pensamento filosófico e as grandes épocas do pensamento político e de acção política, e que às épocas de fraco pensamento filosófico correspondem épocas de acção política fraca.

Haja em vista o facto de a primeira grande época de pensamento português se situar no trânsito do século XV para o século XVI, florescendo então o Curso Conimbricense. Quando surge a decadência do Conimbricense  ela corresponde à crise do século XVII e à crise do século XIX.



VM – Aconteceu um fenómeno semelhante na mudança do regime monárquico para o regime republicano?

PG – À proclamação da República, embora ela não fosse proclamada pelos filósofos, pois em Portugal as mudanças têm sido, desde o século XIX, efectuadas por militares, equivaleu um período brilhante do pensamento filosófico. Trata-se de um período que podemos situar na Escola Portuense, desde o racionalismo de Amorim Viana até o Saudosismo da Renascença Portuguesa, tudo isto ordenado em torno do que me parece ser o fruto mais sistematizado deste movimento, o Criacionismo de Leonardo Coimbra.

Quanto à Monarquia ou à República, entendo dizer que há sempre Monarquia. Basta entender, apenas, se essa Monarquia a herdamos ou escolhemos...

VM – Parece existir uma dicotomia de pensamento, apesar das posições paralelas, entre Fernando Pessoa e Sampaio Bruno. Onde reside a diferença filosófica entre um e outro?

PG – Não creio que as diferenças entre o pensamento de Fernando Pessoa e o de Sampaio Bruno sejam assim tantas como, à primeira vista, parece.

Julgo ser oportuno que alguém faça uma aproximação hermenêutico-comparativa entre a fisionomia espiritual do Fernando Pessoa e a fisionomia espiritual de Sampaio Bruno. Então concluiríamos: os dois são espirituais; ambos participam duma espiritualidade muito própria; o sentido messiânico no Pessoa não é diferente do sentido messiânico do Bruno ainda que, julgo eu, o messianismo de Fernando Pessoa seja um messianismo mais paraclético, enquanto o messianismo de Sampaio Bruno é um messianismo mais cristológico.

Se tivermos a liberdade de interpretar e pudermos demonstrar o rigor da interpretação, no pensamento de Bruno o Cristo que há-de vir não é outro que não seja o Espírito Santo. Então, por aí, concluiríamos que também o messianismo de ambos é semelhante. 



A única diferença assinalável é o facto de, em Fernando Pessoa, ter mais força a visão poética enquanto Sampaio Bruno é um homem de pesada razão.

VM – Qual é o peso e a importância do pensamento filosófico de Leonardo Coimbra?

PG – Direi que, em mim, se alguma coisa pesa é o Leonardo Coimbra. Se ele não pesa eu também não peso, e se ele pesa eu terei algum peso, que é o peso dele herdado.

Leonardo Coimbra é o mestre da Filosofia portuguesa.

Álvaro Ribeiro ensinou aos discípulos, entre os quais eu me incluo, que Sampaio Bruno foi o fundador da Filosofia portuguesa, mas o que queria dizer com isto é que teria sido a primeira pessoa a aperceber-se das características das teses capitais da Filosofia portuguesa, traçando o perfil das constantes.



Leonardo Coimbra propôs-se incrementar a crítica dos precursores, como o foram Amorim Viana e Sampaio Bruno, salvando, para o melhor e para o pior, aquilo que em Sampaio Bruno aparecia como a quinta essência do nosso Ser.

Em segundo lugar, Leonardo Coimbra efectua outra tarefa, que é a de servir de contraponto científico a uma teoria, a meu ver padecendo de excessivo poetismo, que foi a de Teixeira de Pascoaes, no âmbito da Renascença Portuguesa.

Em terceiro lugar, ao criar a Faculdade de Letras, no Porto, desejada por ele como Faculdade de Filosofia, suscita o aparecimento de uma geração de discípulos que não se fecharam mas se abriram ao Mundo. Tiveram a noção de que a Filosofia, embora deva estar no segredo, não pode ser comprovada sem ser partilhada através da transmissão de Mestre para discípulo. 



Ao formar o Álvaro Ribeiro, o José Marinho, o Sant’Ana Dionísio, o Delfim Santos, Mestre Leonardo Coimbra deixou as gerações futuras esperançadas e hoje só se pode falar em Filosofia portuguesa porque aquilo a que chamamos os netos de Leonardo Coimbra são leais ao seu pensamento. Lealdade não significa subserviência, pois essa lealdade é para com os métodos, mas existindo diferenças nas opções.

VM – É legítimo empregar a Filosofia de um povo para subjugar o pensamento de outro povo?

PG – A filosofia, enquanto Filosofia, não é arma mas, sempre, nau ou nave. Quando a Filosofia se «coisifica» e se torna em ideologia, como sucede hoje em muito lugar, deixa de ser uma nau para ser uma arma. Mas aí já não é filosofia, mas ideologia.




VM – Poderemos dizer que a Filosofia está para a Alquimia como a ideologia o está para os «assopradores» que deram origem à Química?

PG – Sim. A imagem parece-me feliz. A imagem parece-me feliz...

VM – Neste momento existe uma crise filosófica em Portugal?

PG – Creio que sim. Ainda bem que a Filosofia portuguesa permanece em crise pois crise significa, sempre, análise de crescimento.

Talvez não reparemos quanto a palavra crise tem a ver com o método do cepticismo. O cepticismo não é a atitude de não acreditar em coisa alguma mas, apenas, o método de suspender o juízo em relação a tudo para que, quando formulamos o juízo, o método seja perfeito.

O esbater de uma onda não significa a morte do mar. Então a Filosofia portuguesa é esta onda que vem, cresce e se esbate na praia. Mas, por isso, o mar não desapareceu, dando-nos a esperança de uma nova vaga que venha à praia.



VM – A Filosofia portuguesa é marcadamente espiritual, andando à frente da ideologia. Assim sendo, qual o panorama que se poderá traçar do futuro filosófico português?

PG – O futuro a Deus pertence e às pessoas que se consideram, de alguma forma, vinculadas à Filosofia portuguesa, não fica mal empregar o nome de Deus, desde que o não façam em vão.

A nossa Filosofia tem todas as características de uma Gnose, de uma tradição de estudos. Não significa que seja, de todo em todo, esotérica e reservada apenas a alguns felizes iniciados mas, sim, que não se trata de uma tradição do domínio público. José Marinho, por exemplo, aconselhava a Filosofia no segredo, querendo dizer que o amor por ela não permite, a quem ama, degradá-la ou «coisificá-la».

No futuro, se a Filosofia portuguesa conseguir manter a sua pureza, se puder continuar a manter-se equidistante das instituições, permanecerá como é. De contrário servirá o Poder, degradando-se, pois Álvaro Ribeiro definiu-a como um pensamento que se encontra equidistante do Estado, da Igreja e de todas as instituições oficiais. É uma flor que cresce à beira dos caminhos.

VM – Poderemos chamar anti-Filosofia à política?

PG – A anti-Filosofia é, igualmente, uma filosofia. Se a política recusa o pensamento filosófico como mãe e mestre da sua construção, então a política não é a anti-Filosofia mas o inimigo da Filosofia. Agora, se a política pensa e actua no pressuposto de que não deve dar um passo sem interrogar a verdade na Filosofia, então a política é amiga da Filosofia.

Quem conseguir entender, vê tudo...

VM – Surgiu, já neste século, uma tentativa de reacção contra o enfraquecimento em que se encontrava o pensamento português: o Integralismo Lusitano. Como define o Integralismo Lusitano?

PG – O Integralismo Lusitano é, em primeiro lugar, um movimento de reacção, compreendendo-se que a juventude formadora do Integralismo não surgisse com uma proposta de tese, mas por antítese. As teses do Integralismo Lusitano vieram depois.

Aliás, o Integralismo não surge de uma inteligência que dê o primado à Filosofia pois quem dava, nessa época, o primado à Filosofia era o movimento da Renascença Portuguesa.

VM – Qual o propósito do Integralismo?

PG – Nasceu com o propósito da política à frente, dando a ilusão de se tratar de um movimento «maurrasiano» quando, na verdade, não o era.

Foi, isso sim, uma geração que se reivindicou de uma tradição de Filosofia política portuguesa, nos costumes medievais, nas autonomias dos concelhos, na Monarquia tradicional e antiparlamentar.

De dentro do Integralismo Lusitano surgiu, depois, um pensamento filosófico e político específico, muito característico, que podemos considerar com uma das grandes construções do pensamento político-filosófico em Portugal neste século.

VM – Baseado no pensamento do António Sardinha?

PG – Não será possível atribuir essa acção somente à obra, muito dispersa, de António Sardinha, mas há que enaltecer o trabalho de Luís Almeida Braga e José Pequito Rebelo, pois estes foram os que, pela dedução lógica, definiram os princípios da Monarquia.

O mesmo sucedeu com o grupo oposto, a Seara Nova, onde o primado não foi dado à Filosofia mas à doutrina da democracia.

Tanto o Integralismo Lusitano como a Seara Nova provinham do Grupo dos Homens Livres, mas aconteceram algumas deslocações ideológicas: pessoas anarquistas, como o Alfredo Pimenta, que acabaram monárquicos e, também, na inversa, pois o António Sérgio, da Seara Nova, pertencia à nobreza.

Quer isto dizer que a Seara Nova não fez filosofia política? Pensou-a e elaborou-a o pensamento de António Sérgio, mas creio que ainda mais o de Raul Proença, contém a genuína matéria filosófica do grupo que se fundou em torno da Seara Nova.

(In Pinharanda Gomes, Meditações Lusíadas, Lisboa, Fundação Lusíada, 2001, pp. 239-245).




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