sexta-feira, 31 de julho de 2026

O Império do Espírito

António Quadros



«É verdade muita certa

Este sonho que sonhei.»

Bandarra

 

«Sonhava, anónimo e disperso

O Império por Deus mesmo visto,

Confuso como o Universo

E plebeu como Jesus Cristo.


Não foi nem santo nem herói,

Mas Deus sagrou com Seu sinal

Este, cujo coração foi

Não português mas Portugal.


Fernando Pessoa

«O Bandarra»

 

«Em linhas gerais, tudo se passa como se os nossos sonhos fossem os anúncios das nossas futuras realidades e representassem assim uma espécie de memória antecipada das coisas do porvir; como se o homem estivesse em potência de tudo quanto pode imaginar; como se a verdade devesse tornar-se um dia no que sonhamos que ela é. O homem é definido pelos seus sonhos, os quais, muito mais que a acção, modelam o real.»

Denis de Rougemont


Ver aqui e aqui



«É significativo que, antes de partir para Alcácer Quibir, D. Sebastião se tenha armado a si próprio Cavaleiro de Cristo, insistindo em levar para África alguns freires remanescentes da semi-destruída Ordem.

O que o povo espera do seu Desejado, o que continua a esperar do Encoberto, é que venha chefiar o movimento de restauração de uma cruzada, de uma missão histórica, de uma presença heróica e gloriosa no mundo, de um sentido de acção universal e de futuro sem limites.

Mais ainda, contudo: na figura cada vez mais luminosa e, no entanto, de contornos cada vez mais indefinidos, do Encoberto, o povo português projecta toda a sua ansiedade psicológica e social, toda a sua dimensão de sonho, toda a sua aspiração religiosa e mítica a uma plenitude de ser, a algo que transcenda o querer e o ter, um desejo profundo e inominável de mais ser, irredutível, ainda hoje, à aproximação positiva ou materialista dos que apenas podem ver no fenómeno humano em geral e no fenómeno português em especial um catálogo de apetites, de emoções egoístas e de sentimentos mesquinhos. É o que Agostinho da Silva precisamente diz, ao anunciar que Portugal “dará ao mundo”... “o seu reino de alma humana continuamente sendo e continuamente ansiosa de mais ser...” [Um Fernando Pessoa].

E é o que José Marinho exactamente significa, ao escrever que “no sebastianismo subsiste alguma coisa de mais profundo”, “um sebastianismo fundamental”, “um sonho permanente de redenção”, “uma das formas de revelação do ser do homem, do homem nunca vencido, nunca desmentido em sua grandeza, em seus diversos fins, mesmo na extrema decadência aparente”.

Mas observemos que o sebastianismo só nalgumas facetas pode ser conotado com o messianismo, no sentido judaico. O sebastianismo não foi nunca ou não é de modo algum a expectativa da vinda do Messias, do Salvador, como na tradição judaica, visto que é um mito surgido e desenvolvido no contexto de uma religião e de uma sociedade cristãs para as quais Jesus Cristo foi o verdadeiro Messias.

Mais: o sebastianismo não é compreensível sem a tutelar imagem de um Jesus martirizado, morto e ressuscitado, pois a “história sagrada” do Encoberto o apresenta como mártir da causa nacional e ao mesmo tempo como o salvador que regressará da morte numa manhã de nevoeiro – e aqui surgem também as conotações céltico-bretãs e arturianas que nada têm a ver com a tradição judaica. Razão tinha, do seu ponto de vista, Menassé Ben-Israel.



Uma outra nota nos parece fundamental: a relação do saudosismo com o sebastianismo. Há neste mito, efectivamente, toda a força psicológica do sentimento saudoso galaico-português. Tal a visão correcta de Teixeira de Pascoaes, que interpreta a saudade como a síntese da lembrança e do desejo, do sentimento de perda e da esperança duma regeneração, da tradição e do futurismo. O que foi muito Desejado, continua a sê-lo pela saudade, até que se desencubra do seu exílio.

No entanto, do messianismo puro, o sebastianismo guardou um sentido de historicidade, de futurabilidade e de redenção pela vinda de um restaurador que lançará uma ponte sobre a grande brecha do ser dividido dos humanos.

O padre António Vieira exprimiu melhor do que nenhum outro, na sua História do Futuro, todo este lado regenerativo e ôntico do psiquismo português, consubstanciado na sua visão do Quinto Império: “Hão-de ler nesta História, para exaltação da Fé, para triunfo da Igreja, para glória de Cristo, para felicidade e paz universal do Mundo, altos conselhos, animosas resoluções, religiosas empresas, heróicas façanhas, maravilhosas vitórias, portentosas conquistas, estranhas e espantosas mudanças de estados, de tempos, de gentes, de costumes, de governos, de leis; mas de leis novas, governos novos, costumes novos, gentes novas, tempos novos, estados novos, conselhos e resoluções novas, empresas e façanhas novas, conquistas, vitórias, paz, triunfos e felicidades novas; e não só novas porque serão futuras, mas porque não terão semelhança com elas nenhumas das passadas. Ouvirá o Mundo o que nunca viu, lerá o que nunca ouviu, admirará o que nunca leu e pasmará, assombrado, do que nunca imaginou”.

Eis quanto António Vieira oferece a Portugal, cabeça do “Quinto Império do Mundo”, chefiado pelo imperador ainda encoberto, mas que será um infante português...

Escreve Vieira, efectivamente: “Mas perguntar-me-á porventura alguma emulação estrangeira (que às naturais não respondo): se o império esperado, como se diz no mesmo título, é do Mundo, as esperanças porque não serão também do Mundo, senão só de Portugal? A razão (perdoe o mesmo Mundo) é esta: porque a melhor parte dos venturosos futuros que se esperam, e a mais gloriosa deles, será não só própria da Nação portuguesa senão única e singularmente sua. Portugal será o assunto, Portugal o centro, Portugal o teatro, Portugal o princípio e o fim destas maravilhas; e os instrumentos prodigiosos deles, os Portugueses”.



E mais adiante, exortando à leitura do seu livro de revelações e de futurologia: “Portentosas foram antigamente aquelas façanhas, ó Portugueses, com que descobristes novos mares e novas terras, e destes a conhecer o Mundo ao mesmo Mundo. Assim como líeis então aquelas vossas histórias, lede agora esta minha, que também é toda vossa. Vós descobristes ao Mundo o que ele era, e eu vos descubro a vós o que haveis de ser. Em nada é segundo e menor este meu descobrimento, senão maior em tudo. Maior cabo, maior esperança, maior império...”.

E algumas linhas depois exprime Vieira, em síntese lapidar, o seu telos mítico e ideal: “Tal é a História, Portugueses, que vos presento, e por isso na língua vossa. Se se há de restituir o Mundo à sua primitiva inteireza e natural formosura, não se poderá consertar um corpo tão grande, sem dor nem sentimento dos seus membros, que estão fora do seu lugar. Alguns gemidos se hão-de ouvir entre vossos aplausos, mas também estes fazem harmonia”.»

António Quadros («Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista»).

 

«(...) mas aos homens que sentem sobre os ombros o peso da direcção dos povos ensinou-lhes a história, quando não a observação própria, coincidir a decadência com certas manifestações mórbidas das inteligências e das vontades, com a pretensa emancipação do jugo de regras superiores, impostas ao homem e derivadas da sua natureza e dos seus fins. Para elevar, robustecer, engrandecer as nações é preciso alimentar na alma colectiva as grandes certezas e contrapor às tendências de dissolução propósitos fortes, nobres exemplos, costumes morigerados.

É impossível nesta concepção da vida e da sociedade a indiferença pela formação mental e moral do escritor ou do artista e pelo carácter da sua obra; é impossível valer socialmente tanto o que edifica como o que destrói, o que educa como o que desmoraliza, os criadores de energias cívicas e morais e os sonhadores nostálgicos do abatimento e da decadência.»

Oliveira Salazar («Para servir de prefácio», in Discursos, 1928-1934).

 


«Não há outros pensadores que, como estes dois [Leonardo Coimbra e Martinho Heidegger], tão intensamente vissem e sofressem a desolação do mundo, tão completamente a descrevessem e, dando-lhe as razões, com tão igual profundidade ou firmeza escutassem as vozes do pensamento e dissessem o que elas dizem ora convergindo, quase sempre divergindo, cruzando-se e alongando-se, a partir, um do centro da Europa em horas de catástrofe, outro da finisterra atlântica em horas de apatia. Ignorando-se um ao outro, travaram e continuam a travar entre si, falando a mesma linguagem do pensamento, um diálogo onde se ouve, na voz de um deles, toda a esperança, na do outro todo o desespero deste tempo e deste mundo em que vivemos.

(...) Menciono a teoria da memória a Heidegger porque explica ele a desolação do mundo pelo esquecimento do ser no percurso da metafísica. O regresso ao princípio, à origem, o recurso do percurso, apagando o esquecimento, só a memória o faz. Pensar é memorar.

Leonardo dá à memória mais amplo desenvolvimento.

Assim como Heidegger escolhe Hölderlin entre os poetas, os que guardam a palavra “morada do ser”, Leonardo escolhe Pascoaes, o poeta da saudade, uma espécie de sublimação da memória com o poder de tornar presente o que lembra. Enquanto Hölderlin lembra a antiga Grécia, com seus deuses e heróis, Pascoaes lembra o Paraíso, habitado de imagens, cujas sombras a saudade faz regressar das cavernas infernais. Heidegger põe na Grécia de Hölderlin, que é a Germânia espiritual ou a Pátria, o esquecido ser, Leonardo tem já, com pequenas alterações na linguagem de Pascoaes – as  ideias em vez da imagem, as sombras, a caverna –, a linguagem do platonismo e, na proximidade da saudade com a reminiscência, o que irá dizer da memória: “o princípio de conservação da memória é a condição absoluta do ser (...)».

Orlando Vitorino («A Desolação do Mundo – Leonardo Coimbra e Martinho Heidegger»).

 



«Lembremo-nos de que as discussões sobre o valor da memória, da anamnésia e da reminiscência constituíam o centro do inatismo platónico. Saber é recordar-se, diziam os platónicos, reconduzindo assim todo o conhecimento ao passado. Aristóteles observa, porém, que a fluência da sensitividade animal não assegura a memória, e que só a audição da palavra articulada nos oferece o ponto de referência para a vida intelectual. Tal doutrina está nos livros de Metafísica e surge na crítica às teses de Heraclito. A predilecção aristotélica pelos esquemas pitagóricos, com seus tópicos e suas figuras, nos mostra e demonstra quanto o novo ensino trivial ou exotérico era estruturalmente de tipo mnemónico. De aí o apelo de Aristóteles à firmeza dos princípios, tanto dos princípios próprios de cada ciência, como dos princípios gerais do discurso. Assim tendia Aristóteles a valorizar a doutrina do velho mestre Parménides.»

Álvaro Ribeiro («Liceu Aristotélico»).



«Entretanto, e para além da magistral lição filosófico-científico-teológica de Leonardo Coimbra, também os poetas se não escusarão a propor teoria da história. Guerra Junqueiro, sobretudo em “A Pátria”, é o precursor do grupo dos que, na exaltação criadora dos começos da República, tentam por várias vias ligar à doutrinação pedagógico-cultural da Renascença Portuguesa, uma nova épica. Teixeira de Pascoaes forjará a teoria saudosista, que pode sob certo ponto de vista ser considerada uma interpretação psicológica do dinamismo reintegrativo de Bruno: a saudade portuguesa, a saudade humana, que é efectivamente, senão a aspiração sentimental do regresso ao Homogéneo inicial, ao Paraíso perdido? Mas Pascoaes, muito atraído pelo mito da Atlântida e pela doutrinação de Steiner e Eduardo Schuré, que em “Os Grandes Iniciados” visionava uma História movida pelos homens superiores, revaloriza o mito sebastianista, sempre em sentido psicológico, considerando-o "a espiritualização da Aventura, a sua incidência religiosa no Infinito, o móbil humano divinizado e individualizado superiormente".

Fernando Pessoa voltará francamente a uma mitogenia adunante à do Pe. António Vieira, muito embora de tipo heterodoxo ou esotérico e não-cristão. Também ele entende que a história revela a marcha para “uma humanidade superior”. As suas teses são todavia mais aristocrático-iniciáticas do que antropológicas, como prenunciavam o pensamento de Bruno. A sua interpretação profética dos grandes homens da história portuguesa como sinais e símbolos da peregrinação do homem para uma meta supra-humana que ele próprio vai realizando em etapas sucessivas (da Índia geográfica para a Índia que não vem nos mapas), religa-se a um alquimismo faústico da conversão de matéria que é uma das constantes da sua obra.

Mas Pascoaes e Pessoa foram mais poetas do que teóricos da história. As suas intuições influenciaram no entanto profundamente os pensadores que, mais recentemente, procuraram representar o escopo anunciado, mas ainda não realizado por Sampaio Bruno: a colocação da antropologia, mas de uma antropologia escatológica, no próprio centro da teoria da história. São eles, numa linha onto-teológica, José Marinho. Numa linha sócio-religiosa, Agostinho da Silva. E numa linha pedagógico-psicológica, Álvaro Ribeiro

António Quadros («A Teoria da História em Portugal, II, A Dinâmica da História»).



«O génio lusíada é mais emotivo que intelectual. Afirma e não discute. Quando uma ideia se comove, despreza a dialéctica; e é sendo e não racionando que ela prova a sua verdade.

A emoção afoga a inteligência, ultrapassando-a como força criadora. E assim, corresponde à nossa superioridade poética, uma grande inferioridade filosófica. O português não é nada filósofo; a luz do seu olhar alumia mais do que vê; não abrange, num golpe de vista, os conhecimentos humanos, subordinando-os a uma lógica perfeita e nova que os interprete num todo harmonioso.

O português não quer interpretar o mundo nem a vida, contenta-se em vivê-la exteriormente; e tem, por isso, um verdadeiro horror à Filosofia, imaginando encontrá-la em tudo o que não entende.

Daí a sua incapacidade construtiva de novas verdades que representam o móbil superior do Progresso.

Mas haverá um pensamento português? Ou antes, a alma pátria, que nós conhecemos na sua ingénua expressão sentimental e poética, tornou-se já consciente, formulando a sua ideia da Vida e do Universo? Podemos responder que tal ideia começa a desenhar-se em Oliveira Martins e Antero de Quental, extraída do nosso originário misticismo naturalista (lirismo camoniano e popular).

Antero vislumbrou o casamento do Helenismo com o Cristianismo nos seus trabalhos filosóficos; e Oliveira Martins, de acordo com o sublime poeta dos Sonetos, nos seus trabalhos sobre Antropologia e as Raças Humanas, genialmente lança a teoria da evolução criadora, atribuindo ao homem uma qualidade moral específica, sui generis, que a evolução lamarckiana ou a mecanista dos seres não explica.

E neste critério existe um idealismo naturalista (porque admite, como resultante das forças vitais, um fenómeno supranatural) que é a fonte de algumas modernas tentativas filosóficas, entre as quais se destaca o Criacionismo, de Leonardo Coimbra.

Já nitidamente se vê a aurora de um pensamento português, o qual representa a cristalização luminosa da penumbra sentimental e originária do ingénito lirismo religioso e saudoso dos lusíadas.»

Teixeira de Pascoaes («Arte de  Ser Português»).

 


«Justamente porque os portugueses não fizeram a partição corajosa e séria do que do passado é morto e do que é vivo ainda, justamente porque o passado nos limita os passos e junge a mente, por isso cumpre rever, compreender e explicar. Em relação a Oliveira Martins, de um modo muito especial cumpre fazê-lo: pois foi ele o primeiro que com maior constância se pôs o problema das relações entre o Portugal velho e o Portugal contemporâneo.

Como quase todos os seus livros, Elementos de Antropologia impõe-se não apenas pelo estilo admirável, como também pelo conteúdo intuitivo e problemas actuais que mais ou menos directamente suscita.

Para suscitarmos este breve tentame interpretativo, cabe lembrar uma relação à primeira vista inesperada. Cabe lembrar que Teixeira de Pascoais, em Arte de Ser Português e Os Poetas Lusíadas, cita o nosso historiador em termos muito significativos. No primeiro dos livros mencionados é expressa a referência à obra de que nos ocupamos. Correlacionando a visão de Oliveira Martins com a de Antero, depois de se perguntar se “haverá um pensamento português”, escreve:

“... Oliveira Martins, de acordo com o sublime poeta dos sonetos, nos seus trabalhos sobre Antropologia e Raças Humanas, genialmente esboça a teoria da evolução criadora, atribuindo ao homem uma qualidade moral específica, sui generis, que a evolução lamarckiana dos seres, ou a mecanista, não explica”. (Arte de Ser Português, 1.ª ed. – pág. 115-116).

Considerando o trecho com rigor crítico, poderia perguntar-se-nos se é bem certo que na obra que vamos interpretar através dos passos cruciais, se esboça, como nos diz o Poeta, a teoria da evolução criadora, ou poderia inquirir-se do sentido de uma expressão tal como “qualidade moral específica”.

Qualquer que seja, porém, a exigência da crítica de análise rigorosa, uma observação cabe notar. Pascoais entendeu o que leu e até ao fundo.

Nos dois escritores do séc. XIX e XX, a confiança tradicional no criacionismo teológico adoeceu. Há talvez outro criacionismo, mais fundo, mais autêntico, esse, porém, não corrente. E corrente decerto não pode ser, pois não consiste em fórmulas. Não demanda dom aleatório, mas dom certo, e do alto. Exige, com isso, esforçado labor.

Por certo não identificamos a visão terráquea e humanística do evolucionismo em Oliveira Martins com a visão cósmica e aberta de Pascoais. Não as identificamos: nosso propósito é sugerir as diferenças para os cristãos da hora e os não-cristãos da hora. Em Oliveira Martins a visão restringe-se, detém-se, como em estado nascente. Nem seria lícito pedir-lhe outra. Não é dado ao historiador, enquanto tal, ultrapassar os limites do homem, compreender génese e processo a mais alta luz e em mais amplo cenário.

Digno de nota é, porém, que aquele que se chamou já com boas razões “vulgaridade de génio”, não sendo filósofo, tenha visto o que logrou ver no seio do debate significativo em torno do grande enigma da evolução. Ao problema do sentido da vida e da origem do homem, tal como trata aqui, se vêm, aliás, ligar posteriormente as considerações desenvolvidas na abertura de O Helenismo e a Civilização Cristã. Um historiador para o qual a história depende de uma visão do mundo, da vida e do homem, um historiador que, com os elementos e recursos disponíveis de informação da época, pretende preencher essa deficiência radical da historiografia portuguesa do seu tempo, e diríamos não só do seu tempo – é, por extraordinário, digno de atender.

O interesse que Oliveira Martins teve para Teixeira de Pascoais radica na indicada conformidade de situação entre o dessorado sentido do criacionismo tradicional e um evolucionismo de carácter meramente determinista que não satisfaz a exigência de razão suficiente.

Esta nossa tentativa de interpretação terá, pois, duplo propósito: mostrar como há no autor dos Elementos de Antropologia uma séria atenção àqueles problemas cruciais de que depende a teoria e a concepção da história; sugerir qual a atitude que ante o problema da vida, da evolução e da origem do homem o nosso historiador assumiu. É certo, e cabe não esquecer, que em Oliveira Martins, ao contrário por exemplo de Antero e dos espíritos de feição teórica e de tendência especulativa, há sempre o escritor de intenção prática, o escritor que quer influir, que pretende preparar os caminhos da justiça, tornar mais harmoniosa e mais feliz a existência dramática e abortiva ou difícil do povo de que faz parte. Isso, porém, aparece nele com uma exigência de pensamento e orientação intelectual. Pensar, para Oliveira Martins, não é tudo, nem, por certo, o mais importante. Tudo, porém, depende do pensar e do saber que ao pensamento seja dado.»

José Marinho «(Estudos sobre o Pensamento Português Contemporâneo»).

 

«O primeiro nome que Fernando Pessoa pensou dar ao seu livro foi Portugal. Abandonou esse nome, quando verificou que ele tinha sido atribuído a uma marca de sapatos. O nome que veio a ficar foi Mensagem. Não sabemos como chegou o poeta a esse nome, ainda que algo a isso ele se refira. A nosso ver, o poeta acertou em cheio, tendo em conta o conteúdo do livro e a intencionalidade que de uma ponta à outra o habita.

Mensagem quer dizer Evangelho, Boa Nova. O prefixo eu significa que o que se segue é da ordem do bem. O mensageiro é o anjo, ággelos, ou. O anjo é o portador da mensagem, da novidade, da boa nova. O anjo é o enviado. Aquele que alguém, superior ao destinatário, envia. Eis-nos desde logo instalados no domínio do sagrado. O discurso que nos é dado em Mensagem é um discurso sagrado. É a Pessoa Suprema que no-lo envia. Chamemos-lhe Deus. Jesus chamou-lhe O Pai. Uso esta linguagem para propositadamente desde o início nos situarmos no elemento do judeo-cristianismo português. Conscientes, embora, de que o elemento do sagrado é de uma amplitude maior. Aprendi-o cedo, com Rudolf Otto, pela mão do Padre Manuel Antunes.




Ao deixar-nos Mensagem, Fernando Pessoa quis, encobertamente, deixar-nos o Evangelho. Que Evangelho? Como a leitura do primeiro poema desde logo luminosamente deixa evidente, quis deixar-nos o Evangelho de Portugal e da portugalidade; o Evangelho da Nova Humanidade, pela mediação de Portugal. Nova, porque a futura. Nesse poema auroral, o Poeta-Vate não cinde Portugal e a Humanidade, o Passado e o Futuro aparecem ligados intimamente desde a primeira letra, que curiosamente é o A (“A Europa jaz...”). Como, sempre curiosamente, será a última (“É a Hora.”). A portugalidade, que interpreto como a qualidade ontológica de Portugal, como a marca do ser de Portugal era para Pessoa o futuro, o destino, a redenção da humanidade. O mundo vieirino do Quinto Império nimba desde o primeiro poema de Mensagem a fronte inspirada do poeta, paira como transparente nuvem sagrada sobre a sua cabeça de vidente.

A identificação da portugalidade com a humanidade – da qualidade ontológica de português com a de humano – não deve levar a sorrir, com desdém ou ironia, pelo facto de Portugal ser um país fisicamente pequeno, economicamente pobre e politicamente pouco relevante. Pequena foi a Hélade e a Grécia pôde ser o destino do mundo ocidental. Pequeno foi Israel e Israel pôde ser o destino do mundo cristão.

Mas avancemos para o labirinto sagrado pessoano. O Quinto Império é o que se há-de seguir ao Quarto. Os Quatro Impérios são os seguintes: Grécia, Roma, Cristandade, Europa. O Quinto Império aparecerá prefigurado logo no primeiro poema de Mensagem. Este poema é sobre a Europa. Ou seja, sobre o Quarto Império. Diz o poeta: “A Europa jaz [...].” Está morta? Não, porque olha, vê, fita. Olha, vê, fita – o quê? “O Ocidente, futuro do passado.” O rosto com que fita é Portugal.” É com esse rosto, é com Portugal, que a Europa fita e vê o futuro. Portugal é, foi, desde logo, o visionário do Quinto Império. O gajeiro que, instalado na gávea da Europa, como se nau dos Descobrimentos esta fosse, é o que primeiro vê e anuncia o continente da Nova Humanidade. É ele o visionário do Quinto Império.»

Manuel Ferreira Patrício («No Labirinto Messiânico de Fernando Pessoa»).

 

«O mito é o nada que é tudo.»

Fernando Pessoa («Mensagem»).

 

«O mitósofo diferencia-se do filomitista em não fazer do mito um absoluto, em considerá-lo matéria experiencial, modo de revelação do ser do homem e canal de expressão de valores através do qual uma comunicação transcendente se estabeleceu ou estabelece. Atendendo ao mito, não se detém, porém, na sua realidade exclusiva, ultrapassa-o e integra-o numa visão mais vasta. O mito representa zonas psicológicas e antropológicas de indispensável relevância para o conhecimento do homem. O mito exprime, de forma narrativa e simbólica, o enigma de existir e ser, subjacente às próprias interpretações mais afirmativamente antimíticas. O mito é consubstancial aos comportamentos humanos – e negá-lo tem apenas como consequência, as mais das vezes, conferir-lhe uma primazia vital, tanto mais imperiosa quanto é inconsciente. Enfim, o mito integra-se na esfera numinosa e religiosa, exprimindo, por certo de modo defeituoso e carecente, a relação do homem com Deus, mas recolhendo, não obstante, no seu destino temporal, valores, iluminações, verdades, que cabe aos mitósofos (filósofos, antropólogos, sociólogos, etnólogos e até teólogos) desenvolver em contextos mais dinâmicos e realistas.


Escreveu José Marinho, como já vimos, que “todo o poeta verdadeiro, todo o artista autêntico é filómito, e é-o necessariamente”. Todavia, “quem ame apaixonadamente mito ou poema, por eles só, é o menos apto a penetrar e descerrar suas secretas e misteriosas significações”. Ao filósofo (ao mitósofo) cabe interpretar o mundo mítico “na sua forma própria ou na mais apaixonada visão simbólica” [Do prefácio ao Sistema dos Mitos Religiosos de Oliveira Martins, p. XXI].

Sob a perspectiva das suas carências, compreende-se que os pensadores e teóricos da história mais exigentemente racionalistas tivessem escolhido a oposição radical ao mito, negando-lhe toda e qualquer tangência com a verdade. É porventura uma das necessidades da evolução das sociedades. Quando a absolutização de um mito se transforma em utopia ameaçando circunscrever-se a uma esperança no fim de contas passiva, impõe-se afirmar teorias da razão e da acção que devolvam ao homem a iniciativa, que afirmem a sua liberdade e confiram valor ao seu trabalho, ao seu sacrifício, à sua luta quotidiana para se elevar acima da situação de crise ou retrocesso dentro da qual estiola sem outro consolo do que a expectativa sempre adiada do regresso de D. Sebastião e a promessa obscura do apocalipse mítico do Quinto Império. Ascender da utopia a um movimento teleológico que a compreenda na sua raiz mítica mas a transcenda, é uma nobre tarefa, jamais concluída, da filosofia da história.

Não esqueçamos, porém, que os movimentos ideológicos não poucas vezes reflectem uma secreta mitologia e, sob a capa do progressismo, na realidade apetecem um certo estatismo utópico ou ucrónico. Como certeiramente compreendeu Jung, o inconsciente colectivo é um incessante fabricador de mitos. Já vimos como Mircea Eliade, (...) interpretou o comunismo como o revivalismo de um dos mais antigos mitos da humanidade, o mito da Idade de Oiro. O que é “a corrente da história”, de que tantos ideólogos se reclamam para anunciar a predestinação de um evolucionismo de sentido único, senão uma das formas de necessitarismo mítico, tal como o era a doutrinação do Quinto Império, na História do Futuro do padre António Vieira?

No movimento ascensional do homem, o mito tem lugar dialéctico irrecusável. Se ontem o sebastianismo uniu e identificou os Portugueses num ideal patriótico de resistência à absorção castelhana e à decadência, ao religar-nos directamente a um mandato divino e a um Príncipe Salvador, também hoje um novo e difuso sebastianismo, sob diversas formas, algumas, aliás, antagónicas entre si, paira na atmosfera do país.

Mas não podem os Portugueses esquecer que a teleologia escatológica é superior à teleologia mitológica, que aceita e compreende, mas que sublima e transcende.

Natália Correia com Dominique de Roux. Ver aqui

A descoberta, por alguns pensadores estrangeiros, do carácter original do nosso messianismo sebastianista, ligado ao mito do Quinto Império, de signo paracletista, abriu-lhes perspectivas culturais e até políticas inéditas. Sublinhava, por exemplo, Jean Subirats, com certo espanto, num livro escrito em 1968, que, “sob o ponto de vista da duração, o interminável messianismo português coloca-se imediatamente a seguir ao do povo judeu” [Les séquelles du sébastianisme portugais aux XIX et XX siècles, Rennes, 1968, p. 33, Cit. por Sales Loureiro]. E Raymond Abellio escrevia em 1976 estas palavras perturbantes: “Aparentada às concepções milenaristas do monge calabrês Joaquim de Flora, que, neste mesmo século XII, dividia a história em três reinos sucessivos, e anunciava, depois dos do Pai e do Filho, o reino do Espírito Santo, a ideia do Quinto Império ultrapassa-as de longe, no sentido de que implica uma completa inversão da história, e de que este Império não é apenas o do Fim, mas de um fim de depois do fim, consumidas e consumadas todas as coisas humanas, só sendo, portanto, concebível depois de um apocalipse”. E, citando Catarina de Ataíde, a heroína do romance O Quinto Império, de Dominique de Roux, ao comentar a revolução de 25 de Abril: «Todo este escândalo para voltar a nada!”, e ainda: “Quanto maior for o desastre, e mais irremediável, tanto mais próximo estará o Quinto Império, o tempo do Espírito Santo” – o pensador francês reflectia: “Em nenhuma parte melhor que em Portugal, a existência aparece assim como o exílio do ser. Em nenhuma parte melhor se sente que a história tem que acabar, e, para tanto, arrastar o homem até o mais baixo e, quando ele aí chegar e acabar com ela, dar lugar a um estado do homem, que, não só não decorre dela, mas também a reenvia ao nada que constantemente testemunha.”

Kaúlza de Arriaga e Dominique de Roux. Ver aqui, aqui, aquiaqui e aqui




O ubedo do Quinto Império virá assim depois das fases alquímicas de putrefactio e de nigredo; a luz do Espírito Santo, após a putrefacção de a morte ritual de todo um povo. A terra portuguesa, queimada, gasta, desperdiçada, a waste land de Eliot, povoada de hollow men, de homens vazios, é um Calvário, onde um povo-Messias, um povo-D. Sebastião, um povo-Cristo, é crucificado para ressuscitar em glória e salvar a humanidade. Este é, para Abellio, o mais subtil sentido dos mitos do sebastianismo e do Quinto Império. Não a conservação de um império terrestre, sob a chefia de um chefe carismático e sebástico, mas a putrefactio e a nigredo, para um ressurgimento todo ígneo e espiritual. Então, só então, pode Portugal combater e talvez vencer a grande infâmia materialista e aviltante do mundo contemporâneo. “Em Portugal, fim da terra e terra do fim, diz Abellio como já vimos, o combate só será realmente derradeiro se opuser os dois universalismos radicais, o marxismo e o Quinto Império.”

Não podem os Portugueses esquecer, dissemos, que a teleologia escatológica é superior à teleologia mitológica. Se é certo que o mito, “o que está antes do tempo e além do tempo”, “o sinal do que estava implícito ao saber”, alimenta o homem sedento, perdido no deserto; e se não o é menos que o sebastianismo exprime “um sentido permanente de redenção” – não cremos que a batalha final se trave entre duas mitologias antagónicas, a do materialismo e a do espiritualismo, porque qualquer delas se encontra em transe de superação e transcensão.

Só uma teleonomia de raiz filosófica e ética, alimentada por fontes espirituais, sem dúvida, mas baseada no esforço humano de intelecção, de educação, de liberdade, de movimento, pode a nosso ver “salvar” o homem e as sociedades humanas da queda na uniformidade, na exterioridade e no vazio angustioso da insignificação. Nem a “corrente da história” a submeter a humanidade à corrida para a “sociedade-termiteira” em que se exilaria de si própria, nem a metanóia mágica do negrume a fazer-se ouro e luz, no apocalipse visionado por Abellio, de que a destruição-ressurreição de Portugal seria o símbolo.

Tudo dependerá, ao contrário, da sua possibilidade de a política, entre nós, se subordinar à escatologia cristã-paraclética, a nosso ver a mais rica de todas as escatologias possíveis, mas por mediação ético-filosófica e pedagógica, e de acordo com os valores próprios da nossa estrutura cultural e com a nossa capacidade de pensar com autonomia e liberdade. Então, tudo quanto é português será repensado e reassumido, os mitos como as formas de pensamento, de arte ou de direito, em ordem a uma nova dinâmica, exemplar e luminosa.

Só acederemos à idade do Espírito quando a merecermos, a descobrirmos ou a conquistarmos. As provas da nossa crucificação e da nossa putrefacção só poderão ser fecundas à luz da reconversão intelectual e ética a partir de dentro. A liberdade do homem exige o risco de uma permanente opção entre a verdade e o erro, a inspiração e a obstinação, o esforço e o repouso, o bem e o mal. É contrária ao necessitarismo cíclico do mito utopizado, embora não o seja ao que de profundo, verdadeiro e até incitante o mito guarda e transmite. Beneficiados que sejam os homens e os povos com a lição de uma fecunda experiência, com a força de uma mitologia nacional e com a revelação de um divino eschaton, a recusa é sempre o seu direito e por isso se pode morrer sem esperança e desaparecer do mapa sem glória.

O que não será, se Deus quiser, o caso português!».

António Quadros («Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista»).




O IMPÉRIO DO ESPÍRITO

A Pátria de Fernando Pessoa, objecto (...) de toda a sua vida, é uma Pátria ideal. Mais: é uma Pátria mítica, não no sentido positivista do mito como uma mentira poética, mas no sentido transcendental do mito como uma narrativa teleológica, em que os fins últimos estão no princípio, assim como o princípio contém já os fins últimos.

O que funda uma nacionalidade não é, nesta acepção pessoana, um complexo de causas vindas de trás, sociais, económicas, políticas, aquilo a que Aristóteles chamou a «causa eficiente», mas um telos ou uma finalidade dada desde logo no mito, na profecia ou na revelação, isto é, aquilo a que o mesmo filósofo chamou a «causa final».

É precisamente o sentido da profecia lendária de Cristo a D. Afonso Henriques: «... porque eu sou o fundador e distribuidor dos impérios do mundo, e em ti, e no teu sémen quero fundar para mim um Reino, por cuja indústria será o meu nome notificado a gentes estranhas».[1] Portugal é criado, sancionado do alto em Ourique para ser o Reino de Deus, o Reino que levará o nome de Jesus Cristo a gentes estranhas.

Com o mito-profecia de Ourique cruzam-se as profecias do Terceiro Reino, o Reino do Espírito Santo, de Joaquim de Flora, afeiçoadas ao ritual laico da Coroação do Imperador do Espírito Santo, instituída por D. Dinis e Santa Isabel; da Sétima Idade do Mundo que, segundo Fernão Lopes, teria sido inaugurada com o advento da dinastia de Avis; e do Quinto Império, segundo a interpretação que o profeta Daniel fez do sonho de Nabucodonosor: «depois dos quatro Impérios materiais, tradicionalmente interpretados como sendo os dos Assírios, Persas, Gregos e Romanos (e assim os ordenaram também Camões e o Padre António Vieira, afectos ao mesmo mito), virá um reino que jamais será destruído e cuja soberania nunca passará a outro povo.»[2]

Se para os israelitas será um Quinto Império Judaico, para os portugueses, numa tradição anterior a Camões (encontramo-la já expressa nos Lusíadas), este Quinto Império será cristão e português (Camões, Vieira).

Também para Fernando Pessoa, absorvendo toda esta elaboração mitológica e todo este profetismo, principalmente através das profecias de Bandarra e dos livros e sermões de Vieira, Portugal será a cabeça do Quinto Império, mas de um Quinto Império intelectualmente repensado. O poeta vê-o como um Império da Cultura, um Império do Espírito, um Império que não necessita de um grande território de apoio, nem de um povo-potência mundial, porque é essencialmente um Império da Paz e da Sabedoria, ou, como escreveu, um Império onde «haverá a reunião das duas forças separadas há muito, mas de há muito aproximando-se: o lado esquerdo da sabedoria – ou seja a ciência, o raciocínio, a especulação intelectual; e o seu lado direito – ou seja o conhecimento oculto, a intuição, a especulação mística e cabalística. A Sabedoria, a Sageza, fonte da Paz, surgirá com a conquista da inteligência material pela espiritual e da espiritual pela material»[3]: é uma síntese e um ideal unitivo – um telos mítico, mas dotado de uma energia divina primordial, ficando, no entanto, dependente do homem em sua liberdade e capacidade superativa.

Podemos dizer, por outro lado, que Pessoa concebe um Quinto Império iniciático e gnóstico, se nos lembrarmos de que, para ele, Portugal se formou com uma Ordem do Templo e uma Ordem de Cristo expressoras do pensamento, depois assumido pelos Rosa-Cruzes e pelos Cristãos Gnósticos em geral, e só poderá perdurar com o ressurgimento e sublimação destas Ordens numa Terceira Ordem, a Ordem Sebastianista, criação do seu espírito e base do seu projecto de Portugal-Quinto Império.



Non nobis, Domine, non nobis: sed Nomis Tuo da gloriam

Bandeira do Leal Senado de Macau

Este mito não poderia deixar de ter equivalência pragmática e política. Ele está sempre presente, embora implícito, em todas as páginas do pensamento político que juntamos neste livro. E por outro lado estas páginas jamais serão entendidas se forem lidas no sentido usual da politologia moderna.

O que Fernando Pessoa almeja não é apenas uma nação socio-economicamente desenvolvida, não é propriamente uma nação «progressiva», «europeia», porque quer mais, muito mais: quer uma nação – Quinto Império, uma nação-Espírito, uma nação hierarquizada segundo a «oligarquia dos melhores», sendo os melhores os poetas-filósofos, os sages, os iniciados. Tudo o resto, que em vão se procura numa política de acumulação ou de distribuição de riqueza, virá por acréscimo, porque dos sages e dos iniciados se pode esperar o óptimo, enquanto dos medíocres só se pode esperar o péssimo. Escreveu: «Toda a política deve assentar essencialmente numa mística. E com maior razão terá de fazê-lo aquela política que não vise interesses ou problemas imediatos no tempo ou limitados no espaço.»[4] E noutra página acrescenta que tal é «o dever português», comentando: «O prazer é para os Cães, o bem-estar material é para os escravos – o homem tem a honra e o domínio.»

«Honra» de um dever cumprido, da ordem do sagrado. «Domínio» fundamentalmente sobre o seu eu, transviado em zonas psicológicas inferiores.

Não admira pois que, nos seus escritos políticos, Fernando Pessoa tenha batido obsessivamente as mesmas teclas: é preciso não deixar que se destrua a personalidade nacional pelo estrangeirismo e pelo provincianismo mental dele resultante, pois temos que guardar a convicção de sermos uma pátria de destino, uma pátria eleita; afirmar a independência pátria perante a Igreja ou as Igrejas (Portugal tem fins espirituais próprios) e perante as outras nações e blocos, com as excepções da Espanha e dos países de língua portuguesa e espanhola, com as quais admite formas de aliança e de associação; combater a igualização ou a uniformização sociocráticas, porque abafam e diminuem o poder criativo do indivíduo, do qual depende a emergência de uma aristocracia dos melhores, que eles e só eles poderão conduzir a nau lusíada ao seu porto mítico; defender o liberalismo intelectual e económico, um liberalismo congénito conciliável com a sua afeição às personalidades carismáticas, às personalidades-símbolo (como Sidónio Pais), representantes de proa do espírito nacional e do mito sebastianista português com todas as suas implicações regeneradoras; exprimir uma exigência ética, intelectual e espiritual que se oponha intransigentemente às águas turvas, às ambiguidades, às demagogias, às ambições, às intrigas e às mentiras das classes políticas e intelectuais que sucessivamente viu chegarem ao poder.




Face ao mito, como empalidece a realidade! O mito é o «ser-aqui», que demanda a plenitude de Ser e, dentro do seu círculo sagrado, o poder, de origem demoníaca, tentação de Fausto, não é senão um factor de secundária importância. Mas o que o poeta vê em sua volta é ao contrário a vontade de poder, devorando insaciavelmente o que ainda subsiste nas almas do mito ou do ideal, é o pragmatismo desviado dos verdadeiros fins últimos do homem.

Compreenderemos agora melhor o percurso político de Fernando Pessoa. Entre 1906 e 1910, um período que analisa no projectado livro Da Ditadura à República, o poeta critica João Franco e os últimos anos do regime monárquico, saudando a jovem República nascente como uma esperança. Logo a seguir, nas Considerações Pós-Revolucionárias, sente-se partilhado entre esta esperança e a dúvida que já se lhe insinua quanto à bondade e à verdade da República instituída. Ao escrever, por volta de 1915, o livro ou opúsculo A Oligarquia das Bestas, já está totalmente desiludido com o regime e com os seus políticos. Aplaude então a mãos ambas o intermédio da República Nova, de Sidónio Pais; é o período em que se dedica a compor a obra, como as outras incompletas, O Sentido do Sidonismo.

Talvez porque Sidónio Pais foi assassinado menos de um ano depois de ter iniciado a sua experiência presidencialista e não teve, pois, tempo para mostrar o que valia, ele como estadista, o seu projecto político como solução válida para o país, Pessoa permaneceu nos anos subsequentes afecto ao ideal sidonista, colaborando, embora como franco-atirador, com o Núcleo de Acção Nacional. Foi esta associação que lhe publicou, em 1928, O Interregno que defendia o regime de ditadura militar nascido de 28 de Maio, embora de uma ditadura militar que via como estado de excepção ou de interregno, mediador para o regime que verdadeiramente almejava.

Mas também não durou muito esta sua posição, visto que logo em 1932, ao escrever o referido segundo opúsculo, O Interregno e as Suas Consequências, vemo-lo criticar a ideologia do Estado Novo e nomeadamente o seu conceito de Civilização Cristã, o seu lema de «Tudo pela Nação, nada contra a Nação» ou a censura ao trabalho intelectual; a este respeito, escrevendo a Adolfo Casais Monteiro um mês antes de morrer, comentaria asperamente um discurso de Salazar, dizendo: «Desde o discurso que o Salazar fez em 21 de Fevereiro deste ano, na distribuição de prémios no Secretariado de Propaganda Nacional (ele próprio, embora sem comparecer à cerimónia, recebeu então o seu prémio pela Mensagem), ficámos sabendo, todos nós que escrevemos, que estava substituída a regra restritiva da Censura, “não se pode dizer isto ou aquilo”, pela regra soviética do Poder, “tem que se dizer isto ou aquilo”. Em palavras mais claras, tudo quanto escrevemos, não só não tem de contrariar os princípios (cuja natureza ignoro) do Estado Novo (cuja definição desconheço), mas tem que ser subordinado às directrizes traçadas pelos orientadores do citado Estado Novo. Isto quer dizer, suponho, que não poderá haver legitimamente manifestação literária em Portugal que não inclua qualquer referência ao equilíbrio orçamental, à composição corporativa (também não sei o que seja) da sociedade portuguesa e a outras engrenagens da mesma espécie.»[5]




Oito dias depois, em 8 e 9 de Novembro, escrevia a poesia satírica Poemas de Amor em Estado Novo, que é a tradução poética daquelas palavras...

Face ao mito, como empalidece a realidade! Mas este eterno desiludido do mundo, desiludido da Monarquia que tínhamos, desiludido da República que passámos a ter, desiludido do Estado Novo que depois sobreveio, não desistiu de formular o seu regime ideal. Como dissemos, é pela positiva que escreverá (embora desse intento pouco tenha chegado a ter tempo para realizar) algumas páginas para a sua Teoria da República Aristocrática e que provará definir o seu nacionalismo liberal, que nunca devemos confundir, esses e os seus anteriores conceitos (como tem sido, por vezes, a tentação de alguns) com a ideologia fascista em maré crescente nos últimos anos da sua vida. São bem explícitas, como se verá, as críticas de Fernando Pessoa a todo o totalitarismo, ao «Tudo pelo Estado, nada contra o Estado» de Mussolini e à própria figura deste político que satiriza por exemplo no texto intitulado Profecia Italiana.

Pessoa é, na verdade, contrário ao intervencionismo estatal em todos os campos. Neste aspecto, têm o maior interesse os escritos sobre economia, (...) onde baseado na sua larga experiência de correspondente comercial em numerosas firmas lisboetas de importação e exportação, fundado nos seus conhecimentos práticos acerca dos mecanismos do comércio e da indústria, defende e teoriza o liberalismo económico, condenando toda a legislação que lhe seja restritiva e as algemas (título de um dos seus artigos) que o Estado coloca ao desenvolvimento económico, com as suas medidas intervencionistas. Como se sabe, não só os comunismos e os socialismos são fortemente intervencionistas na economia e em geral na vida de um país, igualmente o são os fascismos, uns e outros postulando o predomínio mais ou menos absoluto (conforme as tonalidades da gama de cores, desde o vermelho ao rosado e ao negro) do Estado sobre o indivíduo. Ferrenho individualista, Pessoa nunca aceitaria o «Tudo pelo Estado, nada contra o Estado» como teve dificuldade a aceitar o «Tudo pela Nação, nada contra a Nação» do Estado Novo, por lhe parecer ambiguamente derivado, confusamente derivado do preceito mussoliniano.

Daí os termos da Nota Biográfica que escreveu em 30 de Março de 1935. A Nota resume perfeitamente o pensamento político-mítico de Fernando Pessoa, tal como aliás se pode deduzir do conjunto dos seus escritos atrás citados.

Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação» [fórmula que se opõe às, citadas, de Mussolini e de Salazar], anticomunista e antissocialista, Templário e Cristão gnóstico [(Posições patriótica, social, iniciática e religiosa), o poeta assim define claramente, nessa Nota, a sua ideologia política:] Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente antirreacionário.

Jacques de Molay


Em resumo desta Nota, propunha-se o poeta, tendo na memória o martírio do templário Jacques de Molay, «combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania».

Decerto o pensamento político de Fernando Pessoa, inspirado muito mais pelo horizonte profético e escatológico do mito do que pelas ideologias triunfantes no seu tempo, oferecerá dificuldades a quem, não tendo outras referências do que os conceitos hoje vigentes e dominantes, tenderá naturalmente a enquadrá-lo e limitá-lo sob tais perspectivas. Decerto haverá muito a opor, mesmo em nome de um pensamento político lúcido, maduro e superior, aos caminhos seguidos pelo poeta na sua paixão patriótica, no seu ardente idealismo e mesmo nas atitudes provocatórias, na contradição por vezes levada ao extremo ou nos paradoxos a que por vezes se deixa levar. Mas também é verdade, julgamos, que Fernando Pessoa, mesmo em domínios que não são os seus de raiz (ele foi acima de tudo poeta), em muito nos interpela, em muito nos desafia, em muito nos faz vacilar e pensar, nestes escritos, com a sua inteligência poderosa e com a sua visão subtil. Se eles não constituem o núcleo essencial da sua obra, ajudam-nos sem dúvida a compreendê-la melhor e à época que foi a sua e que se prolonga, afinal, nos nossos dias. Além de que, mesmo agora, ainda hoje, nos consegue desbravar novos caminhos e abrir inéditos horizontes...

Cascais, Setembro de 1989

(António Quadros, Introdução in Fernando Pessoa, Páginas de Pensamento Político – 1910-1935, Clássica Editora, 2024, pp. 67-75).



[1] Frei Bernardo de Brito, Crónica de Cister, e Frei António Brandão, Monarquia Lusitana.

[2] Livro de Daniel, 2, 44.

[3] Ver mais em pormenor os textos completos do poeta no volume anterior, Portugal, Sebastianismo e Quinto Império.

[4] Ver ob. cit.

[5] Ver obra intitulada Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas.



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