domingo, 14 de dezembro de 2025

20 teses acerca da formação e sobrevivência de Portugal

Escrito por Francisco da Cunha Leão





«As causas da independência portuguesa não são geográficas. A caractereologia geográfica pode resumir-se em simples frases: apesar de algumas diversidades, as fronteiras naturais entre Portugal e Espanha são inexistentes. As fronteiras geográficas costumam indicar-se por acidentes orográficos e hidrográficos que, em virtude da fortaleza telúrica, compartimentavam as terras. Mas agora? Para que servem essas longas pontes sobre os estuários, e esses profundos e canudos túneis sob os montes, senão para aproximar o que estava separado? Mesmo aos olhos distraídos do turista, a Hispânia ressaltará como a unidade peninsular na diversidade da paisagem.

Oliveira Martins anotou as variedades e as variações geo-sociológicas da Península mas, convém ter em mente a ideologia iberista e desligada do contexto ultramarino do ilustre membro da geração de 1870, para melhor entendermos a sua perspectiva, em muito semelhante à de Garrett. De facto, está ainda por estudar o desinteresse metropolitano no decurso do século XIX. A metrópole oitocentista viveu na sombria ausência da dimensão de Portugal. Porventura voltados para os novos interesses de uma sociedade, abriram as portas à cisão brasileira, amorteceram a visão imperial, estavam mais atentos à evolução da política prussiana do que à realidade portuguesa e, uma vez pesado Portugal, tal como o viam na balança europeia, logo se viu que Portugal não pesava o bastante.

Contudo, o bloco peninsular só geograficamente é um bloco, um caldeirão, uma fortaleza, uma ilha, a flecha avançada da cristandade, da arabidade e da hebreidade, a charneira onde os opostos se unem, ponte, refúgio, entreposto, fonte da vida, ovo genesíaco dos mundos e dos povos que são a Europa continuada, a Europa ultrapassada.

Ora, na Península, Portugal e Espanha, os dois poderes políticos mais fortes, fizeram sucumbir os poderes políticos mais fracos, esses de âmbito regional , como são os da Catalunha e Galiza. Mais: o destino peninsular português, segundo a lógica deduzida dos trâmites históricos, seria naturalmente o mesmo das outras regiões hispânicas: embora mantendo as tradições locais, designadamente as linguísticas, Portugal tende a ser englobado na Espanha, pelo poder político espanhol, e a Espanha tende a englobar Portugal. Nós podemos hoje dizer: talvez isso tivesse sido possível nos tempos da monarquia mas actualmente, em regimes de orientação democrática, a conveniência da existência de dois países peninsulares é evidente, porque, em caso de revoluções internas num desses países, o poder, ou alguns membros do poder, têm onde buscar fácil e próximo exílio e, por conseguinte, as forças políticas hão-de respeitar o estado presente da dualidade hispânica, muito útil, como ficou provado durante a guerra civil, na medida em que os nacionalistas contaram com a ajuda portuguesa, impossível se Portugal não fosse um país autónomo.»

Pinharanda Gomes («Meditações Lusíadas»).

 

«Mas que era a Galiza? Uma finis-terra resguardada por forte maciço montanhoso. No extremo dos Cantábricos, este conjunto orográfico vai até ao Vouga (galaico-duriense). Ângulo pronunciado para noroeste, sobre o oceano. Costas, na maior parte, profundamente recortadas.

Cabo Finisterra (Galiza).

Como em regra as finisterras, etnicamente diferenciadas. Termo de invasões, resíduo de velha raça, tais os Peloponesos, as Bretanhas, as Escócias, as Escandinávias.

Os sábios corroboram-no, desde remotas eras. Com mais ou menos celtas, mais ou menos suevos, é uma finisterra assaz caracterizada, de boa defesa, propícia para mais à fixação agrícola de numeroso povo. Que assim foi, demonstra-o a teimosa vitalidade da sua gente: centro de irradiação de dólmenes nos tempos pré-históricos; a resistência dos brácaros às legiões de Augusto; a heresia de Prisciliano, quando da introdução do Cristianismo; a individualização e renitência do Estado Suevo; o florescimento de lirismo próprio, a denunciar enraizada ruralidade, de muita e dispersa população, convivendo em romarias (Pidal); a rivalidade de Leão e Castela, na qual Menéndez y Pelaio descortina a oposição mais funda entre o espírito galego e o castelhano; e, precedida de outros factos de rebeldia, a independência de Portugal, física e espiritualmente originada na Galiza, e que o ensaísta Otero Pedrayo considera uma prova da vitalidade desta.

Fosse Douro ou o Mondego e Coimbra (finis Galeciae) o seu limite meridional, importa reconhecer que por aí (do Douro litoral para Coimbra) se desenha a charneira humana na Galiza com a Lusitânia, inclinada sobre esta pelo sentido norte-sul da linha de força.

(...) E a Lusitânia, que era a Lusitânia? Mais que uma província romana, interessa considerá-la núcleo populacional, cujo músculo estaria no extremo oeste do espinha, corográfico da Península.  Finisterra do relevo, os montes Hermínios e outros dessa região eram sentinelas por excelência sobre os desgastes ocidentais da Meseta e seus vales férteis que decaíam para o Atlântico, dele beneficiados; esses e outros, já da Espanha (Gata, Peña de Francia, etc.), davam para as vastas estremaduras, boas para a hibernação dos gados, cortadas por grandes rios.

Os montanheses da actual Serra da Estrela já sobressaem na história de Cartago e Roma pelo seu carácter independente, inassimilável. Às fáceis infiltrações que a Bética permitia ao imperialismo estranho, os lusitanos opunham ali a sua indomável barragem.

Na Beira serrana e mais relevos centro-ocidentais, se encontra o outro grande núcleo populacional português, do mais puro e persistente, pela irredutibilidade natural que lhe serve de suporte.

Assim raciocinamos, quanto à Lusitânia (exceptuando o Algarve, que é um caso à parte e mais tardiamente reintegrado), por a maior parte do Alentejo, Ribatejo e mesmo Estremadura contarem ainda nos primeiros tempos da Monarquia pequena população, reduzida a alguns centros, embora importantes de solidez pouco estável, no meio de grandes espaços vazios e infindáveis matagais.

Será de estranhar que me impressione com a desproporção de população que ainda hoje existe entre o Norte e o Sul, após oito centúrias de drenagem de gente daquele para este? Creio ser uma impressão baseada objectivamente.

Os dois grandes blocos de irradiação demográfica (Além-Douro e Beira) ultrapassam quatro milhões de habitantes, enquanto o resto do País, em área maior, só conta cerca de três milhões, incluindo Lisboa com todo o seu poder aglutinador.

Um pormenor: pelo censo de 1940, 49% da população da capital nem sequer era nascida no distrito.




Qual a mistura que originou a etnia de cada um desses blocos, quais os elementos simples que os constituíram, ao caso não interessa agora. Comparticipando em maior ou menor grau de sangue celta, romano ou germânico – factores comuns que alguns sejam – basta-me a afirmação de caracteres distintivos, em relação aos demais peninsulares, de galegos e lusitanos, e a verificação da persistência desses caracteres nos tempos históricos.

As importantes fracções destes dois povos, para sempre ligados na pátria portuguesa, creio que apresentavam entre elas aspectos diferenciais que hoje se notam ainda, a despeito de incontestáveis afinidades que tão longo destino comum reforçou, juntando-lhe marca própria.»

Francisco da Cunha Leão («Do Homem Português»).

 

«Apesar da mentalização proveniente da disciplina de História Pátria, Castela sempre levou a melhor; perdeu batalhas mas venceu guerras, e, se perdeu guerras no campo militar, ganhou-as nas secretarias. O que teve de ceder em Tordesilhas, (metade do mundo), ganhou-o todo à morte do Cardeal D. Henrique, ficando com o mundo inteiro, mas, no concerto peninsular, foi Afonso VII de Leão que, liquidando os projectos de Peres de Trava, ganhou para Castela a Galiza, pondo fim à integração do genuíno espaço lusitano.»

Pinharanda Gomes («Meditações Lusíadas»).

 

«É certo que com a propagação dos estudos históricos começou logo a filosofia da história; género de romance impertinente ... ».

Alexandre Herculano

 

«Uma vez perdido o pensamento da História, isto é, não achado o princípio filosófico da História de Portugal, continuar seria uma violência por assim dizer automática; Herculano obedeceu a essa falta de estímulo que vem de um pensamento, e deixou-se ficar na inércia, abandonando a História de Portugal como um edifício interrompido, não pela falta de material, mas pela falta de destino.»

Teófilo Braga


20 TESES ACERCA DA FORMAÇÃO E SOBREVIVÊNCIA DE PORTUGAL

 

Por certo, muitas circunstâncias foram apontadas, nem faltaram suposições sagazes para explicar a independência e sobrevivência livre de Portugal. Esses factores, ainda que a sua ordenação se discuta, são na maioria integráveis numa hipótese explicativa. A fluidez e um sentimento de insuficiência deles ressalta, no entanto, em contraste à nítida resultante histórica e sua pronta, eficaz, inconfundível afirmação através dos tempos. O país não constitui uma ilha, uma península, um compartimento definido, unidade ou indivíduo geográfico, nem porção substancial de uma unidade; não passa de pequena parte de um todo individualizado fortemente; de uma das varandas e praias do portentoso polígono arquitectónico da Ibéria; couraçado embora em muitas zonas da fronteira setentrional, o sistema defensivo acaba-lhe a meio do território na linha de água do Tejo, ficando a outra metade amplamente vulnerável; quanto à caracterização económica, não faltam outros litorais, até na Península, bastante diferenciados.

Os elementos antropológicos são flutuantes e as observações positivas, tanto da História como somáticas, não chegam por si mesmas para explicar o fenómeno. São débeis em relação à sua grandeza. É preciso ir às manifestações civilizacionais e interpretá-las, prospectar a alma do nosso povo, construindo hipótese que incorpore os estudos feitos e, mediante novas observações, possa ganhar foros de teoria.

As justificações políticas, ainda que ponderáveis, também não convencem, mesmo apoiadas em parte da argumentação das teses geográficas e antropológicas.

Quantos chefes de valor presidiram até com certa continuidade, a feudos ou Estados, sumidos mais tarde em conjuntos geográficos ou étnicos maiores? Quantos localismos fortes, organizados mesmo, não soçobraram sacrificados às grandes unidades políticas? Para mais Portugal não surgiu de nenhum tratado de conveniência ou compromisso entre potências. Se teve apoios internacionais para opor às sucessivas forças que no decurso histórico arriscavam a sua integridade, ganhou-as, conseguiu-as pela própria iniciativa: – a Santa Sé, primeiro; a Inglaterra, uma constante; de outra vez, a França; o Brasil, e até a Espanha.

Acresce que, depois de fundado (e diversas nacionalidades brotaram contra o Islão na Península), o Reino sofreu várias gravíssimas crises de independência, que chegou mesmo a ser perdida por seis dezenas de anos – tempo bastante para a comprometer definitivamente se as razões da autonomia não fossem na realidade muito profundas. Mais da ordem intrínseca do que da extrínseca, essas razões. Frutos de um impulso interior, de um cerne irredutível, de uma vontade que buscou, torceu, aproveitou as circunstâncias. A independência não só deflagrou com incrível pujança e tenacidade como se reforçou em formas originais. Ao reflectirmos sobre os seus efeitos e suportes psicológicos condicionados teremos a chave da intrigante irredutibilidade portuguesa e da sobrevivência nacional. E do presente para o pretérito; a partir dos apogeus representativos pela sua eficácia e das depressões tão esclarecedoras como os fenómenos patológicos em Psicologia.



Muito haverá a corrigir, a rever até ao ponto de se lhe mudar o sinal – de menos para mais, de mais para menos. Ou Portugal seria absurdo. Não poderia sequer existir.

Temos um enigma de génese e sobrevivência agravado pelo de uma alma – conteúdo mental, emocional e actuante – cuja interpretação corrente, cujas aparências e sintomas surgem paradoxais, desajustados ou opostos à cada vez mais evidente documentada grandeza de um curso histórico singular, fértil em acções e êxitos.

Tentemos compreender. Nesse sentido formulamos as seguintes proposições:

1. Uma parte da Galiza e outra da Lusitânia formaram Portugal. Só razões de ordem política, de condicionalismo religioso e estratégia militar condenaram a circunscrever-se à terra portucalense a completa autonomia de toda a Galiza.

2. Dois blocos regionais, secularmente emissores de população, e que não se misturam entre si, ainda hoje nos permitem, pela sua relativa natureza, ajuizar dos elementos humanos constitutivos de Portugal: – O Noroeste, cujos habitantes são identificáveis aos galegos espanhóis; a zona montanhosa das Beiras, para os lusitanos.

3. Lusos e galaicos distinguem-se, posto que povos individualizados em finisterra, de parentesco próximo e afinidades incontestáveis.

4. O Português é uma síntese de lusitano e galaico, um luso-galego e só metaforicamente lusitano.

5. O tipo do Português formou-se a partir da linha do Douro e Vouga – a charneira luso galaica – ao longo da faixa de trânsito litoral, e daí por toda a Estremadura, Lisboa, Riba e Além-Tejo, com assimilação dos elementos exóticos.

6. A população portuguesa tende para a homogeneidade, pelo intenso convívio dentro de fronteiras oito vezes seculares que a fácil articulação das comunicações ao corredor de trânsito litoral assegura, na estreiteza do seu território.

O Português é uma combinação feliz. Estudadas as duas grandes reservas humanas relativamente intactas quanto a caracteres, – do Além-Douro interamnense e transmontano e do bloco beirão – nas manifestações espirituais encontramos estremadas as suas características harmoniosamente complementares.

7. A idealidade sonhadora, a contextura sentimental branda, mas rica em tonalidades e teimosia surda, o fundo instável de inquietação, a mundi-visão saudosa, o pathos da alma portuguesa radicam-se no viveiro galaico, em semelhança flagrante com a Galiza propriamente dita; o espírito realista, de organização jurídica e independência pessoal, o talento político, a afirmação intrépida são principalmente lusitanos.

8. Sentimentos dominantes do português tidos aparentemente, comummente por negativos e até por suicidas escondem carácter contraditório. Se fossem na essência assim depressivos, e patenteando-se eles há tantos séculos, a História de Portugal surgir-nos-ia absurda, por inexplicável e impossível.

9. A Saudade, fulcro da sensibilidade portuguesa, de modo algum é apenas retrospectiva; encerra um conteúdo insuspeitado de indeterminação e sentido futurante, pleno de impulso dinamogénico, por força do que insere de subconsciente, esperançoso apego à vida. A Saudade impregna toda a vida religiosa, sentimental e activa dos portugueses.

10. A forma de resistência nacional à adversidade é o Sebastianismo, inteiramente diversa da forma de resistência espanhola: – o Senequismo.

11. A História de Portugal é uma história do Sentimento aproveitado, temperado pela Reflexão. Uma aventura consciente caracteriza-lhe os momentos mais densos, eficazes e significativos. Aventura consciente a independência, os descobrimentos, a formação do Brasil. A rotura entre aqueles elementos, ora traz o domínio da Paixão, ora o da Razão correctiva.

Aparta-se flagrantemente da História da França e da História da Espanha.

12. A História de Portugal, partindo da exiguidade geográfica, ao longo de um corredor marítimo, numa linha de força norte-sul é uma história em trânsito contínuo, compensando-se maritimamente da escassez continental correspondente à sua idiossincrasia.

13. Com esse trânsito, de tendência oceânica, correspondente à sua idiossincrasia, o Português aprendeu a triunfar do meio geográfico, obteve as maiores vitórias sobre o espaço.

14. Os descobrimentos e a colonização constituem por isso a suprema afirmação dos portugueses, a linha das cumeadas do seu contorno histórico, e bem assim o complexo fenomenal que mais aproveita à interpretação da Grei.

15. Na base da sua causalidade há que primeiro inscrever entre outros estímulos uma raiz antropológica, tão obscura como evidente, de interesse pelo mundo com apetência do desconhecido e novo, a par do apego sentimental à pátria, a qual é condicionadora de plasticidade à natureza e às gentes, que vai a ponto de lhes aderir por inteiro, levando à incorporação no exótico das formas originais.

16. O Cristianismo teve na maneira de ser e actuação dos portugueses o mais decisivo esforço no sentido de destruição das barreiras raciais e das incompatibilidades do apostolado, e bem assim a instituição das mais belas formas de socorro humano.

17. Por sua vez, o curso histórico, além de individuar Portugal no quadro do mundo moderno, influiu na psique portuguesa num sentido activista, apurando-lhe as aptidões de adaptação e enriquecendo-a com experiência, exotismo, calor e claridade. Com isso a distanciou da galega.

18. O fundo temperamental do Nordeste mantém-se, no entanto como «limite» da sensibilidade portuguesa e da posição perante a vida.

A afirmação é válida para os luso-descendentes.

19. A grandeza, a intensidade do movimento histórico, a absorção e natural desgaste pelas desmedidas áreas e tarefas universais, retardaram a sistematização do conteúdo pensante português, já de si do tipo emocional e assistemático. Nos escritos poéticos e de viagens estão os expoentes do nosso génio.

20. No quadro hispânico a oposição psicológica, em muitos aspectos diametral, de portugueses e castelhanos tem sido a prima razão e a salvaguarda instintiva da independência nacional.

(In Francisco da Cunha Leão, O Enigma Português, Guimarães Editores, Lisboa, 4.ª Edição, 1998, pp. 95-100).

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