quarta-feira, 13 de maio de 2026

A matemática sagrada

Escrito por Eduardo Schuré


«A matemática pode ser considerada ciência filosófica se for estudada do ponto de vista pitagórico, mas não poderá sobreviver como ciência autónoma no ambiente positivista que designa por números as diversas noções que se prestam ao cálculo das quantidades. A primeira dificuldade que obsta à restauração do ensino tradicional é a própria classificação das ciências matemáticas, porque a sequência habitual da aritmética, álgebra e análise, numa gradação que se justifica por razões lógicas e históricas, (sequência que em relação acompanha a geometria e a astronomia), forma um conjunto impermeável ao método especulativo. Outra dificuldade é a de vencer o preconceito de que os algarismos tecem, na sua variedade, uma complexa rede de protecção a um saber tão especializado quanto secreto, ciosamente guardado pelos respectivos técnicos, e o correlativo preconceito de que a virtuosidade do calculista representa um verdadeiro talento, digno da admiração dos ignorantes ou dos ingénuos.

Quem estudar, porém, a matemática pela sua evolução histórica, isto é, na relação com os problemas que deram impulso ao seu desenvolvimento, altera, atenua e clarifica o aspecto rebarbativo que aquela ciência apresenta quando em conjunto magno do saber. Torna-se então possível elaborar outra classificação das ciências matemáticas que seja mais útil e permeável aos estudos especulativos. A nova classificação dependerá, porém, do sistema filosófico a que haja de se articular.

As noções específicas da matemática, e os seus específicos raciocínios, hão-de ter lugar no quadro dos conceitos fundamentais das ciências, seriados estes pelo critério de maior interesse para a inteligência humana. Noções como identidade, igualdade, majoração, minoração, quantidade, grandeza, etc., qualquer que seja o respectivo quadro de categorias, hão-de depender do estudo da noção de número. Habilitado pela análise dos conceitos fundamentais, poderá então o filósofo estudar concretamente as noções primitivas, primordiais e formativas dos números, que foram representados por palavras antes de se reconhecer a vantagem do uso de sinais, e, consequentemente, o comportamento dessas noções com as outras que tornam real ou fecunda, a chamada generalização ou extensão da ideia de número.

Todos os números que os matemáticos modernos ou antigos inventaram para a conveniência de medir ou de calcular, – os transfinitos, os imaginários, os irracionais e os fraccionários, – são provas de idealismo. A generalização ou extensão da ideia de número, admirável exercício de inteligência, resulta de uma ansiedade metafísica que não beneficia da comprovação analógica que assegure aos números a sua característica de realidade. A aritmologia é, pois, a ciência matemática que mais interessa ao filósofo relacionista, porque não se limitando ela à categoria de quantidade, permite que a operação numérica se articule com a distinção do ser nos três planos da existência.

A aritmologia não progride, porém, sem o recurso a noções de ordem física no sentido aristotélico, como as de raiz, produto, potência, etc.. O estudo etimológico dos termos correntes na aritmética, hermenêutica desprezada por aqueles matemáticos que nos símbolos vêem apenas sinais, levar-nos-ia a recordar as altas noções de ordem cosmogónica que os números condensam na sua economia representativa. Os atributos de quadrado e de cubo, usados na teoria da potenciação, representam já a ordem mais baixa do mundo físico, o sólido em contacto com a terra, a geometria.

A geometria, que da relação com o espaço qualificado tende para a extensão homogénea, representa já, com o platonismo, uma forma menos pura da matemática. Dela derivam todas as noções úteis, como a de continuidade divisível, a de potenciação espacial, a de série ilimitada, a de grandezas positivas e negativas, noções com as quais o pensamento humano vai constituindo a geometria analítica, novas aplicações de cálculo, enfim, instrumentos mais para resolução de problemas técnicos do que para notação de argumentos científicos. Por fim, as noções de infinito e de zero, não aplicáveis a qualquer multidão numerável nem a qualquer quantidade concebível, parecem facilitar a ambição do trânsito da matemática para a metafísica.

Estas noções pertencem de tal maneira à cultura moderna que penetram a linguagem vulgar, mas talvez por isso mesmo, não são entre nós objecto de reflexão dos matemáticos, que se interessam apenas pela técnica do cálculo, nem dos filósofos, que se preocupam apenas com a técnica da lógica; ora nem a matemática consiste nas quatro ou cinco operações da aritmética, nem a lógica consiste nos três princípios directores da razão. É indispensável que estas noções sejam objecto de digno estudo no ensino superior, pelo que se aconselha a instituição de uma cadeira de metafísica na Faculdade de Ciências e uma de matemática na Faculdade de Letras. Só numa Faculdade de Filosofia, porém, seria possível dar a este estudo crítico a determinação que propicia, sem desvios tecnicistas ou historicistas, a visão seráfica das relações da matemática com a filosofia.»

Álvaro Ribeiro («As Portas do Conhecimento. Matemática e Metafísica»).

 

«Os Pitagóricos acreditam também numa única espécie de número – o matemático; só que dizem que ele não está separado, mas que dele se formam as substâncias sensíveis. É que eles constroem todo o universo a partir dos números – só que não são números compostos de unidades abstractas, mas supõem eles que as unidades têm grandeza espacial. Mas como é que a primeira unidade com grandeza se constitui é facto que eles parecem ter dificuldade em explicar.»

Aristóteles (Metafísica M 6, 1080 b 16).

 


«Para Pitágoras, os números são potências. Eles são forças que por si mesmas desencadeiam a manifestação do próprio fenómeno. Não dizem, pois, respeito a uma ordem exterior, nem tão pouco a uma enumeração de acontecimentos fenomenais. Eles dizem respeito à força constituinte do fenómeno em si mesmo.

Os números para Pitágoras são essências, são uma realidade mística. Eles em si mesmo são a chave explicativa de tudo o que existe e que é manifestado. Mas as categorias pitagóricas não reduzem o universo tão somente ao número, também o reduzem à geometria. A geometria é, afinal de contas, a estrutura sagrada do próprio universo.

Como é que Pitágoras relaciona o número com a geometria? Para Pitágoras, o número é uma potência que dá origem a um fenómeno, o que significa que o número como potência, ao dar origem a um fenómeno, certamente que dá origem a uma forma de espaço.

Os números são geradores também da unidade espacial do universo. Assim, o que é a geometria para os pitagóricos? É a expressão do pensamento gerado por todas as potências que concebem todo o universo visível, mas não se trata tão somente do universo visível porque há números e potências que estão na origem de manifestações [na ordem do universo invisível]. Assim, para Pitágoras, a geometria aparece hierarquizada e, como tal, os números encontram dentro de cada figura geométrica a sua respectiva hierarquia. Era através da graduação das figuras geométricas que os pitagóricos visualizavam a qualidade de cada número.»

Luís Furtado («Cadernos de Filosofia»).

 

«O número para os pitagóricos está presente em todas as coisas, pois estas são também números. A própria alma humana é um arithmós auto kinetikós, um número, que é capaz de mover a si mesmo. Sem que nos afastemos do esquema vulgar do número da aritmética, do número de medida extensista, não é possível alcançar o seu significado mais alto.

Aristóteles, em sua crítica ao pitagorismo, na “Metafísica”, considerou sempre ou quase sempre que o conceito pitagórico de número de referisse apenas aos números naturais, aos números como abstracção de terceiro grau da quantidade. Era fácil, depois, fundado nessa posição, realizar a crítica do pitagorismo, o que padecia, evidentemente, de ignoratio elenchi, pois se fundava numa caricatura do número pitagórico.»

Mário Ferreira dos Santos («Tratado de Simbólica»).

 



 

«Convém notar, entretanto, que a fenomenologia do espírito haja sido susceptível de uma interpretação mitológica que a aproximou da fenomenologia da vida. Esta fenomenologia biológica era o termo da meditação aristotélica. Tal se prova pela bibliografia, não só no livro da geração e da corrupção, mas também na acertada polémica contra os cientistas que pretendiam anular esta fenomenologia num materialismo cingido às representações mecânicas.

De certo que todos os esquemas figurativos de repouso presidem à modelação do pensamento, mas são tópicos insuficientes para a representação da verdade. A figuração geométrica é essencialmente válida enquanto que projectada em trancensão mental. Aristóteles mostrou-se, neste particular, um notável discípulo de Pitágoras que contra os pitagóricos desenvolveu uma polémica de saneamento intelectual. A matemática é a ciência dos limites. Todas as doutrinas que vão procurar às matemáticas as garantias lógicas estão por isso mesmo condenadas pelo aristotelismo. Elas vingam-se, porém, constituindo gnosiologias positivistas, de um positivismo que pretende fazer da filosofia uma ciência de rigor.

Esta necessidade de aplicação mental a uma figuração matemática, só prova que o homem, na sua condição terrestre, não pode pensar sem recorrer a esquemas, com o perigo até de cair nas imagens. Está nisso a refutação do pensamento puro sem intenção nem objecto. A pobreza dos esquemas matemáticos, facilmente esgotados, é contraditada nos sucessivos graus da essência à estância, e da estância à existência. É o sinal da magia, da técnica e do estilo com que o homem realiza a sua arte.

Pensar não é, em suma, prestar atenção a esquemas, ou a imagens, cuja definição se realize por configuração exterior e se enuncie por predicados superficiais. O esquema é, como diz Henrique Bergson, motor, e o pensamento é comparável ao movimento.

É indispensável, portanto, conhecer a doutrina aristotélica do movimento para sobre ela estabelecer a teoria das operações mentais. Limitar o conceito de movimento ao conceito de deslocação, como fazem os matemáticos, equivale a situar-se numa posição incapaz de prosseguir no estudo do problema. É que, além da deslocação, solidária com o espaço, existe a usura, solidária com o tempo. Para combinar estas duas noções é indispensável uma experiência que só pode ser adquirida pelo homem que passa da adolescência para a adulta idade. A ilusão de que o movimento natural pode ser revertido por um movimento violento, ilusão própria dos homens volucionários e revolucionários, assenta no sofisma de que é possível repor em igualdade o que foi deslocado por desigualdade, ou assenta no denominador comum que suporta a ficção da igualdade.




Movimento natural é o movimento para o lugar natural, o que pressupõe o entendimento de a Natureza com o duplo aspecto do nascer e do morrer. Movimentos naturais serão, pois, aqueles que verdadeiramente representem a fenomenologia da geração e da corrupção. Movimentos violentos são aqueles que podem ser representados mecanicamente, perfeitamente reversíveis, segundo a vontade e o arbítrio do homem inteligente.

Vê-se, portanto, quão difícil é imitar a natureza pela arte subtil de filosofar. Explica-se, assim, que seja mais fácil imitar as máquinas, para sobre elas estabelecer os paradigmas do pensamento rigoroso e exacto. Certo é, porém, segundo a argumentação já apresentada, que tal pensamento corresponde a uma fase pueril.»

Álvaro Ribeiro («Liceu Aristotélico»).

 

«Contemporâneos destes filósofos [Léucipo e Demócrito], e anteriores a eles, os chamados Pitagóricos dedicaram-se à matemática; foram eles os primeiros a fazer progredir estes estudos, e tendo sido criados neles, pensaram que os seus princípios eram os princípios de todas as coisas. Uma vez que, destes princípios, os números são por natureza os primeiros, e que nos números eles pensaram ver grande porção de semelhanças com as coisas que existem e que se geram – mais do que no fogo e na terra e na água (sendo uma determinada modificação do número a justiça, uma outra, a alma e o intelecto, uma outra, a oportunidade – e, semelhantemente, sendo quase todas as demais coisas numericamente exprimíveis); visto, ainda, eles verem que os atributos e as razões dos acordes musicais eram exprimíveis em números, visto, também, todas as demais coisas no conjunto da natureza parecerem ter sido modeladas a partir de números, e que os números pareciam ser as primeiras coisas no total da natureza, supuseram que os elementos dos números eram os elementos de todas as coisas, e que todo o céu era um acorde e um número. E todas as propriedades dos números e acordes que eles foram capazes de demonstrar que estavam em concordância com os atributos e as partes e a disposição total dos céus, eles as reuniram e ajustaram ao seu esquema; e se em algum ponto havia uma lacuna, logo faziam adições, por forma a que toda a sua teoria fosse coerente. E visto considerarem que o número 10 é perfeito e que abarca a natureza total dos números, eles afirmam que os corpos, que se movem através dos céus, são em número de dez, mas como os corpos visíveis são apenas nove, para obviar a esta dificuldade, inventam um décimo – a “anti-terra”.


 


(...) É evidente, pois, que estes pensadores consideram também que o número é o princípio, tanto como matéria das coisas como formador das suas modificações e dos seus estados permanentes, e sustentam que os elementos do número são o par e o ímpar, e que destes o primeiro é ilimitado e o segundo limitado; e que o 1 procede de ambos (por ser simultaneamente par e ímpar) e que o número procede do 1; e que todo o céu, como já disse, é números.»

Aristóteles (Metafísica A 5, 985 b 23).



«O homem, antes de tudo, é poeta, por mais gordo ou adaptado à rotundidade planetária; e depois é pedagogo, aferidor de pesos e medidas, engenheiro, deputado e outras deformidades sociais.»

Teixeira de Pascoaes

 

A MATEMÁTICA SAGRADA

Era um belo dia, um “dia de ouro”, como diziam os antigos, aquele em que Pitágoras recebia um noviço em sua casa e solenemente o admitia no número dos seus discípulos. Depois de contactos repetidos, o noviço entrava no interior da habitação. Daí o nome de esotéricos (os de dentro) oposto ao de exotéricos (os de fora). Começava a verdadeira iniciação. A revelação consistia numa exposição completa e racional da doutrina oculta, desde o início até ao término da evolução universal, incluindo o destino e a finalidade suprema da Psique divina. A ciência dos números era conhecida nos templos do Egipto e da Ásia, sob nomes diferentes. Os algarismos, as letras, as figuras geométricas, as figurações humanas, que tinham o valor de signos dessa álgebra do mundo oculto, só eram entendidos pelo iniciado. Este só revelava o seu significado ao adepto, depois do juramento de silêncio. Sobre esta ciência, PITÁGORAS escreveu um livro intitulado HIEROS LOGOS (A Palavra Sagrada). Esse livro não chegou até nós. Mas os escritos posteriores dos pitagóricos FILOLAU, ARQUITAS, HIÉROCLES, os diálogos de PLATÃO, os trabalhos de ARISTÓTELES, de PORFÍRIO, de JÂMBLICO, mencionam os seus princípios. Para entender o seu significado, entretanto, é necessário compará-los a todas as doutrinas esotéricas do Oriente.

Pitágoras chamava aos seus discípulos matemáticos, pois que o seu ensino superior começava pela doutrina dos números. Essa matemática sagrada era mais transcendente, mais viva, do que a matemática profana, a única conhecida dos nossos sábios e filósofos. Nela, o NÚMERO não se reduzia a uma quantidade abstracta. Era a virtude intrínseca e activa do UNO supremo, de Deus, fonte da harmonia universal. A ciência dos números era a das forças vivas, das faculdades divinas em acção, nos mundos, no homem, no macrocosmo, no microcosmo. Penetrando-as, distinguindo-as, explicando-lhes a acção, Pitágoras elaborava uma teogonia ou uma teologia racional.

Uma teologia verdadeira devia fornecer os princípios de toda a ciência. Só será ciência de Deus se mostrar a unidade e o encadeamento das ciências da natureza. Só merece este nome se se constituir em orgão e síntese de todas as outras. Era essa a função, nos templos egípcios, da ciência do verbo sagrado, formulada e precisada por Pitágoras, sob o nome de ciência dos números. Um poeta moderno pressentiu essa verdade, ao imaginar Fausto descer até às Mães, a fim de dar vida ao fantasma de Helena. Fausto pega na chave mágica, a terra abre-se sob os seus pés, ele cambaleia mergulhando no vazio dos espaços. Chega ao reino das Mães, que, vigiando as formas originárias do grande Todo, fazem os seres saírem do molde dos arquétipos. Essas Mães são os Números de Pitágoras, as forças divinas do mundo. Para o iniciado, o exercício da inteligência despertava-se aos poucos, como um novo sentido. A revelação interior era uma ascensão pelo grande sol incandescente da Verdade, de onde, na plenitude da luz dos seres e das formas, o iniciado as contemplava, projectadas no turbilhão das vidas por uma irradiação vertiginosa.

A posse interna da verdade não se realiza num só dia. Eram necessários anos de exercício, a concordância tão difícil da inteligência e da vontade. Antes de manejar a palavra criadora, faz-se indispensável soletrar o verbo sagrado, letra por letra, sílaba por sílaba. Pitágoras costumava dedicar-se a esse ensinamento no templo das Musas. Os magistrados de Crotona tinham mandado construí-lo, a pedido dele e conforme as suas indicações, perto da sua moradia, num jardim fechado. Os discípulos do segundo grau só entravam lá em companhia do mestre. O templo era circular e no seu interior viam-se as nove Musas, de mármore. No centro estava Héstia, envolta num véu, solene e misteriosa. Com a mão esquerda protegia a chama de uma ara e com a direita apontava para o céu. Para os Gregos e Romanos, Héstia ou Vesta é a guardiã do princípio divino, presente em todas as coisas. No templo de Pitágoras, ela simbolizava a Ciência divina ou a Teogonia. Quanto às Musas, além dos nomes tradicionais, possuíam os seguintes correspondentes às artes sagradas de que elas eram guardiãs: Urânia, correspondente à astronomia e astrologia; Polínia, relacionada com a ciência das almas na outra vida e a adivinhação; Melpomene, de máscara trágica, relativa à ciência da vida e da morte, das transformações e renascimentos. Essas três Musas superiores reunidas constituíam a cosmogonia ou física celeste. Calíope, Clio, Euterpe presidiam à ciência do homem nas seguintes artes: medicina, magia, moral. O último grupo, Terpsícore, Erato, Tália, reunia a física terrestre, a ciência dos elementos, das pedras, das plantas, dos animais.

Depois de ter conduzido os seus discípulos àquele pequeno santuário, Pitágoras abria o livro do Verbo e começava o seu ensinamento esotérico, dizendo: “As Musas são apenas efígies terrestres das potências divinas, cuja beleza sublime e imaterial ides agora contemplar. Assim como elas vêem o fogo de Héstia, do qual emanam, e lhes dá movimento, ritmo, melodia, assim deveis mergulhar no Fogo central do universo, no Espírito divino para expandir-vos com ele, nas suas manifestações visíveis”. Então Pitágoras afastava os discípulos do mundo das formas e das realidades. Anulava o tempo e o espaço, levava-os com ele até à grande Mónada, na essência do Ser incriado.

Pitágoras denominava o Uno como sendo o primeiro composto de harmonia, o Fogo macho, que atravessa tudo, o Espírito que se move por si mesmo, o Indivisível, o grande Não-Manifesto, cujo pensamento criador se revela nos mundos efémeros, Único, o Eterno, o Imutável, oculto sob as coisas múltiplas que passam e mudam. Diz o pitagórico FILOLAU: «A essência, enquanto ela própria, foge à percepção do homem. Este somente conhece as coisas deste mundo, onde o finito se combina com o infinito. E como pode ele conhecê-las? Há entre ele e as coisas uma harmonia, uma relação, um princípio comum. Esse princípio é-lhe dado pelo Uno, juntamente com a sua essência e a sua inteligência. É a medida comum entre o objecto e o sujeito, a razão das coisas, mediante a qual a alma participa da razão última das coisas: o Um.[1] Mas como aproximar-se do Ser inapreensível? Alguém já viu o senhor do tempo, a alma dos sóis, a fonte das inteligências? Não? Somente confundindo-se com ele é que se penetra na sua essência. É semelhante a um fogo invisível, no centro do universo, com a chama ágil a circular por todos os mundos e movendo a circunferência”. Filolau acrescentava que a obra da iniciação estava na aproximação do grande Ser, assemelhando-se a ele, tornando-se tão perfeito quanto possível, dominando as coisas pela inteligência, tornando-se activo como ele e não passivo como elas. Não é o vosso próprio ser, a vossa alma, um microcosmo, um pequeno universo? Mas ei-la cheia de tempestades, de discórdias. Trata-se de realizar a unidade na harmonia. Então somente Deus descerá na vossa consciência, só então participareis do seu poder, fareis da vossa vontade de ferro a pedra do lar, o altar de Héstia, o trono de Júpiter!

Deus, a substância indivisível, tem por número a Unidade, que contém o infinito, e por nome o de Pai, Criador ou Eterno Masculino, por signo o Fogo vivo, símbolo do Espirito, essência do Todo. Eis o primeiro dos princípios.

Pitágoras dizia que a grande Mónada age como Díade criadora. Quando se manifesta, Deus é duplo, essência, activo, animador, e princípio feminino, passivo, ou matéria plástica animada. A Díade representava portanto a união do Eterno-Masculino e do Eterno-Feminino em Deus, as duas faculdades divinas essenciais e correspondentes. Orfeu exprimiu poeticamente essa ideia no seguinte verso: 

Júpiter é o esposo e a Esposa divinos.


Orfeu resgata Eurídice no mundo subterrâneo

Intuitivamente, todos os politeísmos têm consciência desta ideia, representando a Divindade ora sob a forma masculina ora sob a forma feminina. Essa Natureza viva, eterna, grande Esposa de Deus, não é  somente a natureza terrestre, mas a natureza celeste invisível aos nossos olhos carnais, a Alma do mundo, a Luz primordial, Maia, Ísis, vibrantes sob o primeiro sopro divino, encerrando as essências de todas as almas, os tipos espirituais de todos os seres. É depois Deméter, a terra viva com todos os corpos que ela encerra, nos quais as almas vêm encarnar. É em seguida a Mulher, companheira do Homem. Na humanidade, a Mulher representa a Natureza. A imagem perfeita de Deus não é só o Homem, mas o Homem e a Mulher. Daí a recíproca e invencível atracção de um pelo outro, a embriaguez do Amor, o obscuro pressentimento de que o Eterno-Masculino e o Eterno-Feminino gozam de união perfeita no seio de Deus. Dizia Pitágoras: “Honra à Mulher, que nos faz compreender a grande Mulher, a Natureza. Que ela seja a sua imagem santificada, que ela nos auxilie a subir os degraus da escada que vai até à grande Alma do Mundo, que concebe, conserva e renova, até a divina Cibele, que conduz as almas no seu manto luminoso.”

A Mónada representa a essência de Deus, a Díade a sua faculdade geratriz e reprodutiva. Esta gera o mundo, expansão visível de Deus, no espaço e no tempo. Ora, o mundo real é tríplice. Assim como o homem se compõe de três elementos distintos, unidos entre si – corpo, alma, espírito –, assim o universo é dividido em três esferas concêntricas: o mundo natural, o humano e o divino. A Tríade ou lei do ternário é a lei constitutiva das coisas, a verdadeira chave da vida.

Expliquemos esta lei pela correspondência essencial do homem e do universo. Pitágoras admitia que o espírito do homem ou intelecto tem de Deus a sua natureza imortal, invisível, absolutamente activa. O espírito é aquilo que se move por si mesmo. Chamava ao corpo a sua parte mortal, divisível, passiva. Segundo ele, aquilo a que chamamos alma está estreitamente unido ao espírito, mas formando-se de um terceiro elemento intermediário, proveniente do fluido cósmico. A alma assemelha-se a um corpo etéreo que o espírito tece para si mesmo. Sem esse corpo etéreo, o corpo material seria massa inerte e sem vida. A alma tem forma semelhante à do corpo que ela vivifica, sobrevivendo-lhe depois da dissolução ou morte. Segundo a expressão de Pitágoras, repetida por Platão, ela torna-se carro subtil que leva o espírito para as esferas divinas ou o deixa cair nas regiões tenebrosas da matéria, dependendo de ser ela boa ou má. A constituição e a evolução do homem repetem-se em círculos crescentes, em toda a escala dos seres e em todas as esferas. Assim como a Psique humana luta entre o espírito que a atrai e o corpo que a retém, assim a humanidade evolui entre o mundo natural e animal, onde ela mergulha pelas suas raízes terrestres, e o mundo divino dos puros espíritos, onde se acha a sua fonte celeste, e para o qual ela trata de subir. O que se passa na humanidade ocorre em todas as terras, em todos os sistemas solares, em proporções sempre diversas, em modos sempre novos. Estendei o círculo até ao infinito, e se puderdes aplicai um único conceito a todos os mundos sem limite. Que encontrareis? O pensamento criador, o fluido astral, mundos em evolução: espírito, alma e corpo da divindade. Levantando véu após véu, sondando as faculdades dessa divindade, vereis a Tríade e a Díade envolvendo-se na sombria profundidade da Mónada, como florescência de estrelas nos abismos da imensidade. Segundo esta rápida exposição, concebe-se a importância capital que Pitágoras atribuía à lei do ternário. Pode dizer-se que ela é a pedra angular da ciência esotérica. Tiveram consciência disso todos os grandes iniciadores religiosos, todos os teósofos. Um oráculo de Zoroastro diz:

O número três em toda a parte no universo

E a mónada é o seu princípio.

 


O incomparável mérito de Pitágoras é ter formulado essa lei com a clareza do génio grego. [2] Assim como o ternário humano se concentra na consciência do eu e da vontade, que reúne todas as faculdades da alma, do espírito e do corpo na sua unidade viva. O ternário humano e divino resumido na Mónada constitui a Tétrada sagrada. Mas o homem só realiza a sua própria unidade de maneira relativa. A sua vontade que actua em todo o ser não pode, entretanto, agir simultânea e plenamente nos três orgãos, ou seja, no instinto, na alma e no intelecto. O universo e Deus só lhe aparecem, alternativa e sucessivamente, reflectidos nestes três espelhos.

1. Visto através do instinto e do caleidoscópio dos sentidos, Deus é múltiplo e infinito como as suas manifestações. Daí o politeísmo em que o número dos deuses não é limitado.

2. Visto através da alma racional, Deus é duplo, ou seja, espírito e matéria. Daí o dualismo de Zoroastro, dos maniqueus e de várias outras religiões.

3. Visto através do intelecto puro, ele é tríplice, ou seja, espírito, alma e corpo, em todas as manifestações do universo. Daí os cultos trinitários da Índia (Brahma, Vishnú, Shiva), e a própria trindade do cristianismo (Pai, Filho, Espírito Santo).

4. Concebido pela vontade, que resume o todo, Deus é único, e temos então o monoteísmo hermético de Moisés, em todo o seu rigor. Aqui não há mais personificação, não há mais encarnação, saímos do universo visível e entramos no Absoluto. O eterno reina só no mundo reduzido a pó. A diversidade das religiões provém portanto do facto de que o homem só realiza a divindade através do seu próprio ser, relativo e finito, ao passo que Deus realiza a todo o instante a unidade dos três mundos na harmonia do universo.

Bastaria esta explicação para demonstrar a aplicação do Tetraedro no plano das ideias. Daí o entusiasmo de Lísis nos Versos Áureos, compreendendo-se porque é que os pitagóricos juravam por este grande símbolo:

Juro por aquele que gravou em nossos corações

A Tétrada sagrada, imensa, puro símbolo,

Fonte da Natureza, modelo dos deuses.

Tetraedro

Pitágoras leva muito além o ensino dos números. Em cada um deles, o mestre definia um princípio, uma lei, uma força activa do universo. Dizia que os princípios essenciais estão contidos nos quatro primeiros números. Adicionando-os, multiplicando-os, encontram-se todos os outros. A infinita variedade dos seres no universo é produzida pelas combinações das três forças primordiais (matéria, alma, espírito), sob o impulso criador da unidade divina. Como os principais mestres da ciência esotérica, Pitágoras dava muita importância ao número sete e ao número dez.

Sendo sete o composto de três e de quatro, significa a união do homem e da divindade. É o algarismo dos adeptos, dos grandes iniciados, e exprime a realização completa em qualquer coisa por sete graus: representa a lei da evolução. O número dez, formado pela adição dos quatro primeiros, contendo o precedente, é o número perfeito por excelência. Representa todos os princípios da divindade evoluídos e reunidos numa nova unidade. Terminando o ensino da sua teogonia, Pitágoras mostrava aos discípulos as nove Musas, personificando as ciências, agrupadas por três, presidindo ao tríplice ternário evoluído em nove mundos, formando com Héstia a Ciência divina, guardiã do Fogo primordial – a Década sagrada.

(In Os Grandes Iniciados – Esboço da História Secreta das Religiões, Vega, 1998, pp. 233-239).



[1] Nas matemáticas transcendentais, demonstra-se algebricamente que zero multiplicado pelo infinito é igual a Um. Na ordem das coisas absolutas, zero significa o ser indeterminado. O Infinito, o Eterno, na linguagem dos templos, era assinalado por um círculo ou uma serpente a morder a cauda. Isso significava o Infinito movendo-se por si mesmo. Quando o Infinito se determina, produz todos os números contidos na sua grande unidade, por ele governada em perfeita harmonia. Tal é o sentido transcendente do primeiro problema da teogonia pitagórica, i. e., a razão pela qual a grande Mónada contém todas as pequenas mónadas, e todos os números saem da mesma unidade em movimento.

[2] Essa lei foi posteriormente apreendida por FABRE D’OLIVET. A concepção das forças do universo a atravessarem-no, por assim dizer, de alto a baixo, não tem nenhuma relação com as especulações vãs de metafísicas medíocres, como, por exemplo, a tese, a antítese e a síntese de Hegel, simples jogos do espírito.




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