«Quando
falamos hoje de técnica, o nosso entendimento fica-se pelas máquinas da idade
industrial. Mas, entretanto, esta caracterização já se tornou inexacta. Porque
no interior da idade industrial moderna verificamos uma primeira e uma segunda
revolução técnica. A primeira consiste na passagem da técnica do artesanato e
da manufactura à técnica das máquinas com motor. Consideramos como segunda
revolução técnica a introdução e o triunfo da maior “automação” possível, cujo
princípio de base é definido pela técnica da regulação e da direcção, a cibernética.
O que significa que o termo técnica não é, antes de mais, claro numa primeira
abordagem. A técnica pode significar o conjunto das máquinas e dos aparelhos
que se apresentam, tomados apenas como objectos disponíveis (vorhanden) – ou então em funcionamento.
A técnica pode querer dizer a produção destes objectos, produção que precede um
projecto e um cálculo. A técnica pode também significar a co-pertença num
conjunto de produtos e de homens ou grupos humanos que trabalham na instalação,
na manutenção e na vigilância das máquinas e dos aparelhos. Mas não
consideraremos a técnica sob este aspecto, que não é mais que uma forma
grosseira de a descrever. Todavia, o campo de que falaremos será – ao menos
aproximadamente – delimitado, se tentarmos agora fixar numa série de cinco
teses as representações hoje normativas sobre a técnica.
(...)
Segundo a concepção corrente:
1. A
técnica moderna é um meio inventado e produzido pelos homens, isto é, um
instrumento de realização de fins industriais, no sentido mais lato, propostos
pelo homem.
2. A
técnica moderna é, enquanto instrumento em questão, a aplicação prática da
ciência moderna da natureza.
3. A
técnica industrial fundada sobre a ciência moderna é um domínio particular no
interior da civilização moderna.
4. A
técnica moderna é a continuação progressiva, gradualmente aperfeiçoada, da
velha técnica artesanal segundo as possibilidades fornecidas pela civilização moderna.
5. A
técnica moderna exige, enquanto instrumento humano assim definido, ser
igualmente colocada sob o controlo do homem – e que o homem se assegure do
domínio sobre ela assim como da sua própria fabricação.
1. Ninguém pode contestar a exactidão das teses que enumerámos relativas à técnica moderna, porque cada um dos enunciados pode ser apoiado pelos factos. Mas permanece a questão de saber se esta exactidão atinge suficientemente o carácter mais adequado da técnica moderna, quer dizer, o que a determina previamente e do princípio ao fim.»
Martin Heidegger («Língua de tradição e língua técnica»).
«Por
todo o mundo há equipas e laboratórios em constante actividade. Isto significa
o seguinte: que embora a actividade visando a descoberta de novos conhecimentos
científicos seja contínua, a produção desses mesmos conhecimentos é sempre
descontínua. O que quer isto dizer? Isto significa que as descobertas
científicas são raras dentro da perseverança das investigações a que a ciência
constantemente se dedica.
Os
institutos e os grandes laboratórios funcionam permanentemente e, no entanto,
poderemos dizer que as descobertas realmente importantes são raras e demoradas
se tivermos em conta a permanência da sua actividade. Por isso dizemos que a
descoberta científica é descontínua, ou seja, acontece de vez em quando.
(...)
A limitação da informação no que respeita à ciência tende a ser nos nossos dias
um acontecimento de certo modo vulgar, porque as nações mais avançadas dispõem
de determinados segredos no campo da técnica e da indústria que se abstêem de
comunicar. Existe até noutros campos como, por exemplo, na informática ou na
inteligência artificial, uma certa espionagem.
Com efeito, mesmo no campo puramente industrial da produção de bens de consumo, o conhecimento de determinadas técnicas consegue muitas vezes que um determinado produto possa ser mantido no mercado sem concorrência. Assim, há muitas empresas que, embora tenham produção de equipamentos noutros países, não facultam a esses mesmos países a possibilidade de um fabrico integral dos instrumentos [relativos a] esses mesmos equipamentos. As informações tecnológicas representam vantagens de produção.»
Luís Furtado («Cadernos de Filosofia»).
«Falou-se
muito nestes anos da decadência da Europa. Suplico fervorosamente que não se
continue a cometer a ingenuidade de pensar em Spengler simplesmente porque se
fale da decadência da Europa ou do Ocidente. Antes de o seu livro ter
aparecido, todos falavam disso, e o êxito do livro foi devido, como é notório,
à suspeita ou preocupação preexistente em todas as cabeças, com os sentidos e
pelas razões mais heterogéneas.
Falou-se
tanto da decadência europeia que muitos chegaram a encará-la como um facto. Não
que acreditem a sério e com evidência nele, mas habituaram-se a encará-lo como
certo, embora não se recordem sinceramente de se terem convencido disso em
nenhuma data determinada. O recente livro de Waldo Frank, Redescoberta da América, apoia-se integralmente no pressuposto de
que a Europa agoniza. Não obstante, Frank nem analisa nem discute, nem
questiona tão enorme facto, que lhe vai servir de formidável premissa. Sem mais
averiguações, parte dele como de algo inconcusso. E esta ingenuidade no ponto
de partida basta-me para pensar que Frank não está convencido da decadência da
Europa; longe disso, nem sequer levantou tal questão. Toma-a como se tomasse um
eléctrico. Os lugares-comuns são os eléctricos do transporte intelectual.
E
como ele fazem-no muitas pessoas. Sobretudo, fazem-no os povos, os povos
inteiros.
É
uma paisagem de puerilidade exemplar aquela que o mundo nos mostra agora. Na
escola, quando alguém dá notícia de que o professor saiu, a turba infantil
encabrita-se e indisciplina-se. Cada qual sente o prazer de se libertar da
pressão imposta pela presença do professor, de tirar o jugo das normas, de se
pôr de pernas para o ar, de se sentir dono do próprio destino. Mas como, tirada
a norma que fixava as ocupações e as tarefas, a turba infantil não tem um
trabalho próprio, uma ocupação formal, uma tarefa com sentido, continuidade e
trajectória, resulta que não pode executar mais do que uma coisa, a cambalhota.
É
deplorável o frívolo espectáculo que os povos menores nos dão. Visto que, como
se diz, a Europa decai e, portanto, deixa de mandar, cada nação e naçãozinha
pula, gesticula, vira-se de cabeça para baixo ou põe-se em bicos de pés e
estica o pescoço, fingindo-se uma pessoa maior que rege os seus próprios
destinos. Daí o panorama como que de vibrião de “nacionalismos” que se nos
apresenta em todas as partes.
Já
nos capítulos anteriores tentei filiar um novo tipo de homem que hoje predomina
no mundo: chamei-lhe homem-massa, e fiz notar que a sua característica
principal é que, sentindo-se vulgar, proclama o direito à vulgaridade e nega-se
a reconhecer instâncias superiores a ele. É natural que, se esse modo de ser
predomina no seio de cada povo, o fenómeno se produza também quando olhamos para
o conjunto das nações. Também há povos-massa decididos a rebelarem-se contra os
grandes povos criadores, minoria de estirpes humanas que organizaram a
história. É verdadeiramente cómico contemplar como esta ou aquela republicazinha,
do seu recanto perdido, se põe em bicos de pés e increpa a Europa e se declara
demissionária da história universal.
Que
resulta daqui? A Europa tinha criado um sistema de normas cuja eficácia e
fertilidade os séculos demonstraram. Essas normas não são as melhores
possíveis, longe disso. Mas são, sem dúvida, definitivas enquanto não existirem
ou se divisarem outras. Para superá-las é inexcusável dar à luz outras. Agora,
os povos-massa resolveram dar por caducado aquele sistema de normas que é a
civilização europeia, mas, como são incapazes de criar outro, não sabem que
fazer e, para ocupar o tempo, dedicam-se à cambalhota.
É esta primeira consequência que advém quando no mundo alguém deixa de mandar: os outros, ao rebelaram-se, ficam sem ter que fazer, sem programa de vida.»
José Ortega y Gasset («A Rebelião das Massas»).
«Observação
digna de nota é que os matemáticos,
ciosos da sua terminologia que legitimamente respeitam como segredo esotérico e prontos a pôr a
ridículo os profanos que não falem com correcção a língua dos iniciados nos
algarismos, apropriam-se dos termos das outras ciências, não respeitam os
direitos da nobreza etimológica, não curam dos equívocos que vão impunemente
lançando no congresso dos homens cultos. Muitos exemplos poderiam ser dados num
estudo de semântica, mas por agora bastará discernir o uso do verbo generalizar (que significa relacionar
com o género biológico, ou com o análogo do género biológico) dando-lhe a
significação de estender, e assim
falam da generalização da ideia de número. Outros exemplos se poderiam ver num
estudo de estilística, porque não é difícil demonstrar que a linguagem do
cálculo, cheia de paradoxos, revela uma intencional indiferença para com o
sensível e o imaginável.
Sabendo que o homem, por condição natural, não pode pensar sem imagens, – tese fundamental do aristotelismo, – o matemático, e especialmente o geómetra, postula ou pede definições que contrariam, se não contradizem, os dados da sensitividade. Assim, na nossa humildade intelectual perante as exigências dos matemáticos, admitimos números fraccionários, negativos, irracionais, imaginários, definimos o ponto sem dimensões, a linha sem largura, etc. Ficções tais como o polígono de indefinido número de lados, a tendência do polígono para a circunferência, a indistinção entre rectas e curvas, são docilmente admitidas pelo estudante que constrói a representação de um mundo diferente daquele que lhe é dado pela natureza e pela vida, mundo onde incrementa indústrias, e constrói máquinas, o engenhoso espírito de contradição.»
Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).
«O
declínio da verdade do ente dá-se de um modo necessário, como o acabamento da
metafísica.
O
declínio efectiva-se pelo desabamento do mundo marcado de metafísica e, ao
mesmo tempo, pela devastação da terra, resultado da metafísica.
Desabamento
e devastação encontram a consumação que lhes convém nisto de o homem da
metafísica, animal rationale, aí estar
agora como besta de trabalho.
Esta
situação confirma a extrema cegueira do homem no limiar do esquecimento do ser.
Mas o homem quer ser, ele próprio, o voluntário da vontade de vontade, aquele
para quem toda a verdade se transforma no erro que precisa para poder estar
certo de se iludir a si. Trata-se de, para ele, não ver que a vontade de
vontade nada pode querer se não a nulidade do nada perante a qual se afirma sem
conseguir aí conhecer a sua própria e completa nulidade.
Antes
que o ser se possa mostrar na sua verdade inicial, é preciso que o ser com a
vontade seja quebrado, que o mundo seja destroçado, a terra entregue à
devastação e o homem jungido ao que não seja senão trabalho. Só depois deste
declínio se tornará sensível, no decurso de um longo intervalo, a duração
abrupta do começo. No declínio, tudo tem fim: tudo, quer dizer, o ente no
inteiro horizonte da verdade da metafísica.
O declínio já se deu. As consequências deste acontecimento são os grandes feitos da história mundial que assinalaram [o] século [XX]. O fim deste decurso está ordenado segundo a técnica da “história” e com o sentido do último estádio da metafísica. Tal pôr-em-ordem é o último acto pelo qual o que teve fim está instalado na aparência de uma realidade cuja operação é irresistível porque pretende dispensar-se do desvelamento do ser do ser e isso de um modo tão decidido que todo o pressentimento desse desvelamento é supérfluo. A verdade ainda escondida do ser recusa-se aos homens da metafísica. A besta de trabalho é abandonada à vertigem das suas fabricações para que ela se destroce a si própria, se destrua e caía na nulidade do Nada.»
Heidegger (in Orlando Vitorino, «A Desolação do Mundo – Leonardo Coimbra e Martinho Heidegger»).
«Precisamente a técnica é o fenómeno que expressa, no plano do modo de ser homem no mundo, o desabrochar e o cumprimento da metafísica. Ao dar-se do ser só como vontade, teorizado por Nietzsche – que é o modo extremo de ocultar-se do ser e que deixa aparecer só o ente – corresponde a técnica moderna que dá ao mundo essa forma que hoje se chama “organização total”. Os sistemas metafísicos do século XIX são uma forma de “organização total” a um nível ainda teórico: pressupõem ainda, como toda a metafísica, certa recordação da diferença ontológica. Com efeito, a metafísica nasce como pergunta sobre o ser do ente: neste sentido, a metafísica adverte a diferença ontológica mesmo quando a esquece de facto, enquanto pensa o ser do ente apenas como aquilo que todos os entes têm de comum, atendendo ao modelo do ente concebido como simples presença. Embora esquecendo o verdadeiro sentido da diferença ontológica, a metafísica concebe, no entanto, sempre o ser do ente e sobrevive assim até que o seu esquecimento do ser se apresenta mascarado sob o aspecto de uma indagação do ser do ente. Vimos como o desenvolvimento da metafísica a levou a reduzir o ser do ente à certeza da representação e, por conseguinte, à vontade como vontade do sujeito reduzir tudo a si mesmo. Apesar de tudo, também os grandes sistemas idealistas do século XIX supõem ainda, como teorias, uma remota sobrevivência de uma recordação, embora cada vez mais mistificada, da diferença ontológica. Esses sistemas, por exemplo, distinguem sempre de alguma maneira entre uma realidade “empírica” e uma realidade “verdadeira”, que é a descrita na sua teoria, realidade verdadeira que tem uma razão de ser precisamente porque não se identifica ainda com a realidade no seu modo de se dar imediato e quotidiano; mas aquilo para que tendem fundamentalmente esses sistemas é a organização total do ente: o que reconhecem como empírico é só o que ainda escapa a essa organização total, à “sistematização” geral da realidade. Segundo Heidegger, a técnica dá justamente o último passo no caminho da delimitação de toda a diferença residual entre realidade “verdadeira” e realidade “empírica”. A organização total realizada pela técnica já não está apenas na teoria, mas concretiza-se efectivamente como ordem do mundo. Abolida esta última diferença, fica também abolida a última e pálida recordação da diferença ontológica: do ser já não fica mais nada e só ficam os entes. O ser do ente é total e exclusivamente o ser imposto pela vontade do homem produtor e organizador.»
Gianni
Vattimo («Introdução a Heidegger»).
«O
mundo da técnica é o mundo da errância: os homens não têm nenhum ponto de
referência. As guerras mundiais que enfurecem o mundo não têm mais sentido que
a paz que se segue: porquê fazer a paz e porquê ter feito a guerra?
Esta
visualização deplorável, da qual podemos continuar a descrição, não deve dar
lugar a lamentações de tipo moral, como se não tivéssemos feito o que de nós
depende para manter a técnica nos seus justos limites ou como se não tivéssemos sabido insuflar os valores ou
o “suplemento de alma” necessários ao equilíbrio do desenvolvimento da máquina.
Heidegger – e é este o seu grande mérito – quer ir mais longe na análise e
esforça-se por desvelar o sentido profundo da situação que está para além de um juízo ético. Este,
se tiver lugar, dependerá de uma investigação que religue os aspectos
deploráveis concretos que vimos às dimensões mais radicais dos homens: as que
têm que ver com a sua relação com o ser e o tempo, e com a história desta
relação. É o que Heidegger procura quando faz remontar a técnica, como
instrumentalidade e manipulação (e não há
nada a dizer contra ela a este nível),
à essência da técnica.
De
que se trata? De que a técnica é o fim do que Heidegger chama a “metafísica”;
ela é o fruto da sua longa história; ela é o ponto em que a filosofia “conjuga
as suas possibilidades extremas”, o ponto terminal de um itinerário em que a
figura de Platão marca o ponto de partida e dá a inspiração constante. Se não
se refere esta situação terminal da técnica ao longo caminho da metafísica, não
a compreendemos em absoluto e ficamos desarmados face à sua penetração totalitária.
Então, para ir ao fundo do problema que põe a expansão da técnica que se tornou
terrífica é necessário deslocar o discurso ou ao menos religá-lo à investigação
sobre a metafísica.
Para
trazer à luz a ligação da técnica à metafísica há que remontar para o longo
processo histórico que Heidegger chama o destino
da filosofia ocidental, onde se encontra a ligação necessária e fatal que
nos conduziu onde estamos.
Martin
Heidegger designa por uma palavra não traduzível, Gestel, o estado mortal onde nos encontramos. Este termo reúne e
sugere todas as variantes da raiz que encarna (não apenas no sentido de exprimir, mas também no de tomar
concretamente corpo), o processo de manipulação, de artificialidade, de
abstracção destrutiva que é preciso indicar, stellen: colocar, meter, adiante, atrás, violentamente, docemente,
produzir, arrancar, dispor de, deslocar. Ora todos estes termos reenviam para
uma certa atitude da vontade, que se tomou a si própria como fim e reconduz
indefinidamente tudo a si, uma deslocação que unifica paradoxalmente a
desmedida (uma vez que não há outra regra que o puro querer de si) e a
exactidão (pois, para esta acção agressiva, ela usará até ao fim a razão mais
friamente calculista, donde a inflação das ciências e da sua aplicação sem
limites no maquinismo).
Esta
atitude da vontade, virada sobre si própria e o seu querer viver, reenvia a
Nietzsche: foi por ele que o fundo do real se manifestou como força de vida,
imediatez sensível e vital, que constrói campos de valores livres da
escravatura da racionalidade e da lei. Ora esta recentração da realidade como
dinamismo de um querer-viver centrado em si, “vontade da vontade”, “possibilidade
de voltar a si, fora de qualquer condição, como à vontade da vida”, é de
facto uma transmutação: Nietzsche
herda de um mundo secularmente marcado pela omnipotência do racional, suposto com capacidade para
reassumir qualquer coisa e toda a história, seja segundo a variante idealista
de Hegel (movimento dialéctico do espírito absoluto), ou a de Marx, materialista
(processo histórico da produção), e transmuta este primado do racional em
primado da vontade.
Somos então reenviados de Nietzsche a Hegel, onde o idealismo transcendental aparece, por seu lado, como a forma radical de um processo iniciado com Descartes: na aurora dos tempos modernos, a percepção da consciência por si própria torna-se fundamento de toda a certeza; sobre este fundamento se constrói a distinção entre sujeito e objecto, encontrando-se o real objectivado e dominado pela consciência, critério último da verdade. A reflexão do Cogito sobre si próprio tem como corolário o primado da representação, tomando todo o ser a forma da apresentação que os homens se fazem do objecto a partir da certeza de si. Não é possível seguir aqui as vicissitudes desta construção da realidade da autoposição do sujeito, de Descartes, onde ela se inicia, até Hegel, onde se torna perfeita, duas etapas importantes, passando por Leibniz e Kant, para a posição de Heidegger. Há que ter em conta apenas que, em Hegel, o fundamento é total e definitivamente posto no sujeito, como termo de um percurso que reassume e articula a realidade do ser, do pensamento e da história. É este absoluto do percurso como racionalidade subjectiva que Nietzsche quis transpor.»
Mário Botas (posfácio in Martin Heidegger, «Língua de tradição e língua técnica»).
A queda do homem fáustico
Qualquer
Cultura Superior é uma tragédia. A própria História da Humanidade é
completamente trágica. Mas o desafio e a queda do homem fáustico ultrapassam
tudo aquilo que Ésquilo e Shakespeare alguma vez imaginaram. A criatura ergue-se
contra aquele que a criou. Assim, tal como, um dia, o microcosmo-Homem se
revoltou contra a Natureza, agora o microcosmo-Máquina se subleva contra o
homem Nórdico. O senhor do Mundo está a caminho de devir o escravo da Máquina,
que a força – que nos força a todos, estejamos ou não conscientes disso – a
seguir na sua trajectória. O triunfador, abatido, é condenado a morrer
espezinhado pelo galope de seus cavalos.
No
início do século XX o aspecto do «mundo» no nosso minúsculo planeta é, pouco
mais ou menos, como segue: um grupo de nações, de sangue nórdico, domina a
situação, sob comando dos Ingleses, Alemães e Franceses, e dos Americanos. O
seu poderio político assenta na Riqueza que possuem, riqueza que é fruto do seu
poder industrial. Mas este, por seu turno, depende estreitamente dos recursos
em carvão. A localização das jazidas de carvão assegura, especialmente aos
povos germânicos, um monopólio quase completo deste recurso. Este facto conduz
a uma multiplicação populacional sem
paralelo na história. Dependendo do carvão e das vias principais de comunicação
que irradiam das minas, existe uma massa humana de monstruosas proporções, com
uma vida disciplinada na técnica
mecanista, trabalhando para ela e obtendo todos os seus meios de subsistência. Quanto
aos outros povos, é-lhes confiado, quer sob o estatuto de colónias, quer de
Estados nominalmente independentes, o papel de fornecedores de matérias-primas
e de consumidores do produto final. Essa divisão de funções é mantida e
assegurada por exércitos e frotas, cuja
conservação pressupõe a riqueza industrial, exércitos esses que foram
organizados e equipados por meio de técnicas tão aperfeiçoadas que podem entrar
em acção com a simples pressão de um botão. Mais uma vez, é posta em relevo a
conexão estreita e profunda, a quase total identidade entre a política, a
guerra e a economia. O grau de poder militar é correlativo do grau de
desenvolvimento industrial. Os povos industrialmente pobres passam privações em
todos os aspectos; não têm meios para manutenção de um exército nem para fazer
a guerra, pelo que são politicamente impotentes. E, em consequência disso, os
elementos activos desses países, tanto dirigentes como dirigidos, representam
apenas peões no tabuleiro da política dos seus adversários.
Face
às massas de «Mãos» executantes,
único factor que retém a atenção do «olhar medíocre» dos descontentes, o valor
do trabalho de chefia dos poucos cérebros criadores (empresários,
organizadores, administradores, inventores e engenheiros), embora seja cada vez
mais elevado, queda incompreendido e ignorado [1]. Essa
incompreensão nota-se menos na América, que é uma nação pragmática, e mais na
Alemanha, país de «poetas e pensadores». A frase idiota: «todas as rodas
parariam de girar se tal fosse a vontade do Braço Poderoso» obnubila a mente
dos linguareiros e escrevinhadores. Para parar a engrenagem das máquinas,
bastaria que nelas caísse um simples carneiro... Mas inventar essas máquinas e
pô-las em marcha, assegurando assim a subsistência desse tal «braço poderoso»,
é algo que apenas pode ser concretizado pela minoria dos que são congenitamente
dotados para tal. Esses chefes incompreendidos e detestados, que formam um
conjunto de personalidades fortes, têm, contudo, características psicológicas bem diferentes. Não perderam o
sentimento secular do predador que segura nas suas garras a vítima, ainda
palpitante, tal o sentimento de Cristóvão Colombo, quando viu surgir terra no
horizonte; tal o sentimento de Marco António, ao contemplar em Filipe as
legiões inimigas caindo na ratoeira. Tais momentos, pontos altíssimos da
experiência humana, são também disfrutados pelo construtor, quando vê um majestoso paquete ser lançado à água, ou pelo inventor, quando a sua mais
recente máquina inicia o seu trabalho com perfeição, quando se eleva nos ares o
primeiro «zeppelin».
Mas
o que é intrínseco à tragédia dos tempos actuais é justamente o facto de o
pensamento humano, que desencadeara o processo técnico, já não ser capaz de
apreciar o alcance e as consequências dos actos a que dá origem. A técnica
tem-se tornado tão esotérica como as matemáticas superiores, (de que, aliás, se
serve). As teorias da física, partindo da abstracção dos fenómenos, levaram o
seu requinte ao ponto de mesmo sem tomarem claramente consciência disso, terem penetrado
os limites fundamentais do entendimento humano[2]. A
mecanização do Mundo entrou já numa fase de tensão extremamente perigosa. A
própria face da Terra, com as suas plantas, seus animais e seus homens, já não
é a mesma. Em escassas dezenas de anos, muitas das grandes florestas
desapareceram, transformadas em papel de jornal; provocaram-se modificações
climatéricas que põem em perigo a economia rural de populações inteiras[3]. Por
causa do homem, numerosas espécies animais encontraram a quase total extinção,
como é o caso exemplar do bisonte; e raças inteiras têm sido sistematicamente
exterminadas, pouco faltando para o seu desaparecimento total – caso dos índios
americanos e dos aborígenes da Austrália.
Todos
os seres orgânicos sucumbem perante a crescente mecanização. Um mundo
artificial invade o mundo natural, envenenando-o gradualmente. A Civilização
converteu-se, por si-própria, numa máquina que faz, ou tenta fazer, tudo
mecanicamente. Já não conseguimos pensar senão em termos de cavalos-vapor. Não
podemos olhar uma cascata sem mentalmente a transformarmos em energia eléctrica.
Somos incapazes de contemplar o gado que pasta nos campos sem contabilizarmos o
rendimento da sua carne. Não sabemos já admirar a beleza do artesanato dos
povos ainda simples, pois logo queremos substituir os seus processos manuais
por técnicas modernas. Seja isso viável ou absurdo, o pensamento técnico quer realizar. O luxo mecanicista é a
consequência de uma distorção mental. Em última análise, a máquina tornou-se
num símbolo análogo ao ideal que lhe esteve na origem – o perpettum mobile. Mas este é uma necessidade espiritual e
intelectual, não vital.
Aliás,
a máquina mostra-se já, em muitos aspectos, contraditória com a prática
económica; os sinais antecipados desse divórcio começam a manifestar-se por
todo o lado. Através da sua multiplicação e do seu requinte cada vez mais
acentuado, a máquina começa a provocar consequências inversas aos objectivos
para que foi construída. Nos grandes aglomerados urbanos o automóvel, devido à
sua proliferação, anulou o seu próprio valor utilitário; já nos deslocamos mais
depressa a pé... Na Argentina, em Java e em muitas outras regiões a simples
charrua do pequeno lavrador, puxada por um cavalo, já demonstrou que
proporciona uma rentabilidade superior a grandes máquinas da agricultura
mecanizada, achando-se em vias de expulsar esta última. Em muitas regiões
tropicais o homem negro ou amarelo, com seus processos primitivos de trabalho,
já concorre perigosamente com a técnica moderna das plantações adoptadas pelo
homem branco. E até o trabalhador industrial da velha Europa e da América do
Norte experimenta um certo mal-estar, uma adesão renitente ao trabalho que
executa.
Claro
que é absurdo falar, como foi moda no século XIX, no esgotamento das minas de
carvão nos próximos séculos, e das consequências de tal eventualidade. Mas, no
século XIX, época de enraizado materialismo, não era fácil pensar de outra
forma que não fosse materialmente. Mesmo sem ter em conta que o petróleo e a
energia hidráulica estão sendo cada vez mais utilizadas como fontes energéticas
substitutas do carvão, é óbvio que o pensamento técnico rapidamente descobriria
outros recursos possíveis. Aqui, do que se trata, é que é completamente vão
querer antecipar tanto as coisas, em relação ao futuro, porque a própria
técnica da Europa e da América irá acabar antes disso. Não subsistem dúvidas de
que não será um insignificante pormenor como ausência de matéria-prima (lato sensu) que comprometerá essa
transformação gigantesca. Enquanto existir a Inspiração que anima essa técnica,
ela estará no seu apogeu e apta a produzir sem falha os meios adequados aos
seus fins.
Mas
durante quanto tempo permanecerá ela no auge? Só para manter os nossos processos
técnicos ao nível actual, são necessários uma centena de milhar de cérebros
excepcionais, organizadores, inventores e engenheiros. Todos eles tem de ser
talentos fortes e até criativos, entusiasmados pelas suas tarefas graças a um
dispendioso processo de formação, que exige muitos anos. Na realidade, é
justamente essa vocação que tem atraído irresistivelmente, durante os últimos
cinquenta anos, a fina flor dos indivíduos mais dotados e fortes de toda a
juventude de raça branca; já em crianças se divertiam com brinquedos técnicos.
Nas famílias e classes sociais da cidade (cujos filhos são, neste ponto, os que
interessa considerar), uma tradição de conforto e cultura constituía a base
normal de formação destes frutos tardios do pensamento técnico.
Mas
nestes últimos decénios tem sido patente que tal estado de coisas começou a
alterar em todos os países onde a grande indústria se instalou de há longa
data. O pensamento Fáustico começa a sentir náuseas da máquina. Está a
propagar-se uma lassitude, uma espécie de pacifismo na luta contra a Natureza. Os
homens viram-se para modos de vida mais simples e próximos da Natureza;
consagram mais tempo aos desportos que às experiências técnicas. As grandes
cidades estão a parecer-lhes odiosas, e eles aspiram a evadir-se da opressão
esmagadora das actividades sem alma, do jugo da máquina, da atmosfera rígida e
glacial da organização técnica. E são precisamente os talentos fortes e
criadores que voltam, deste modo, as costas aos problemas práticos das
ciências, para se lançarem na especulação pura. O ocultismo e o espiritismo, as
filosofias hindus, a curiosidade metafísica oculta em manto cristão ou pagão,
que ao tempo de Darwin não passavam de objectos a desprezar, ressurgem agora.
Esta era a índole de Roma no século de Augusto. Desgostosos da vida, os homens
afastam-se da civilização, procuram refugiar-se em regiões primitivas, na
vagabundagem e no suicídio. Inicia-se a fuga dos chefes natos perante a máquina[4]. Todo
o grande empreendedor, seja qual for a esfera da sua actividade, tem inúmeras
ocasiões para constatar a quebra de qualidades intelectuais naqueles que tenta
recrutar. Ora o esmagador desenvolvimento técnico do século XIX só foi possível
pela constante elevação do nível intelectual. Por isso, mesmo que não se dê uma
diminuição, um simples estado de estagnação é já perigoso, constitui um sinal
precursor do fim, por muito numerosas e treinadas que possam ser as Mãos para
o trabalho.
![]() |
| Nova Iorque, Manhattan. Ver aqui |
E
que acontece a essas «Mãos»? A tensão entre o trabalho de chefia e o de
execução atinge o seu paroxismo, aproxima-se da catástrofe. A importância desse
trabalho de direcção e o valor económico de toda a Personalidade autêntica que
nela participa têm aumentado ao ponto de se tornarem imperceptíveis e
incompreensíveis para a maioria daqueles que ocupam cargos subalternos. Mas ao outro
nível, ao nível dos que trabalham manualmente, o indivíduo deixou de ter a
mínima importância. Apenas os números contam. O pleno conhecimento deste
irrevogável estado de coisas, e ainda explorado financeiramente e envenenado, é
de tal modo desconsolador que, em reacção conforme à natureza humana, os homens
revoltam-se contra o papel que a maioria deles foi obrigado a desempenhar pela máquina – e não, como se julga,
pelos seus possuidores. E assim se inicia, das mais variadas formas, desde a
chantagem sob a forma de greve ao suicídio, a amotinação das Mãos contra o seu
destino, contra a Máquina, contra a vida padronizada, finalmente contra todos.
A organização do trabalho, tal como tem existido, durante milhares de anos,
baseado na «acção colectiva combinada» e na distinção entre dirigentes e
dirigidos, entre cérebros e mãos, está sendo pulverizada desde os alicerces.
Mas a «Massa» não é mais que um ente que nega,
que recusa o conceito de organização; a «massa» nunca é, por si-mesma, capaz de
organizar a vida. Um exército sem oficiais jamais deixa de ser uma mera horda
desordenada e inútil[5]. Um
montão de tijolos esboroados e de sucata não pode tomar o lugar de um edifício.
Essa amotinação, espalhada pelo mundo inteiro, ameaça pôr termo à própria
possibilidade do trabalho técnico rentável. Os chefes podem encontrar solução
na fuga; mas aqueles que eles conduziam, tornados inúteis, ficam perdidos. E o
simples facto de serem muito numerosos os condena à morte.
O terceiro e mais sugestivo sintoma da derrocada incipiente reside naquilo que se poderia designar por traição para com a técnica. O que vou afirmar é do conhecimento público, mas nunca foi considerado sob todos os seus ângulos e como tal, seu fatal significado nunca foi patenteado. A enorme superioridade de que disfrutámos, durante a segunda metade do século XIX, na Europa Ocidental e na América, baseada no poderio económico, político, militar e financeiro, assentava, em última instância, no monopólio incontestado da indústria. E as grandes indústrias não eram viáveis sem estarem conjugadas com as jazidas carboníferas desses países nórdicos. A função do resto do mundo era absorver os produtos finais dessas indústrias; a política colonial foi sendo constantemente fundamentada, no plano prático, na abertura de novos mercados e de novas fontes de matérias-primas, e, nunca o desenvolvimento de novos centros de produção. Sem dúvida existem jazidas de carvão noutros lugares, mas só os engenheiros de raça branca sabiam como lidar com ele. Éramos possuidores exclusivos, não só de matérias-primas, como de cérebros e técnicas capazes de as valorizar. É isto que está na base do nível de vida luxuoso do trabalhador branco, cujo rendimento, comparado com o do trabalhador «moreno»[6], é principesco; esta circunstância foi omitida pelo marxismo, omissão que agora lhe causa grande dano. Actualmente, a compensação natural para este facto começa a evidenciar-se com o problema da falta de postos de trabalho. O nível elevado dos salários do trabalhador branco, que pode pôr em perigo a sua vida, deve-se ao monopólio que os chefes industriais souberam criar em seu redor[7].
Mas
eis que, cerca do final do século XIX, a cega Vontade de Domínio começa a
cometer erros cruciais. Em vez de guardarem zelosamente a sua técnica, que era
a sua melhor arma, os povos brancos ofereceram-na complacentemente a outros
povos, por esse mundo fora, utilizando as mais diversas formas de divulgação
oral e escrita. Perante o espanto admirativo de Indianos e Japoneses,
compraziam-se e envaideciam-se. Instaurou-se assim a famosa «descentralização
da indústria», motivada pelo desejo de aumentar os lucros com a transferência
da produção para as regiões de colocação dos produtos. E foi assim que, em vez
de uma exportação, em exclusividade, dos produtos acabados, os povos de raça
branca começaram a exportar os seus segredos, os seus métodos, os seus
processos, os seus engenhos e organizadores. Os próprios inventores começaram a
emigrar, porque o socialismo, ao querer submetê-los ao seu jugo, expulsou-os.
De repente, os «morenos» penetraram rapidamente nos nossos segredos;
compreenderam-nos e utilizaram-nos com pleno rendimento. Em trinta anos, também
os Japoneses se tornaram técnicos de primeira ordem; na sua guerra contra a
Rússia demonstraram uma tal superioridade técnica que dela até seus professores
extraíram ensinamentos. Hoje, por todo o lado – Extremo Oriente, Índias,
América do Sul, África do Sul – existem, ou estão em vias de existir regiões
industriais que, graças ao baixo nível de salários auferidos pelos seus
trabalhadores, nos vão colocar face a uma concorrência mortal. Os intangíveis
privilégios das raças brancas foram disseminados ao acaso, esbanjados,
divulgados. Os não-iniciados prenderam nas suas malhas os iniciadores, e talvez
os venham a ultrapassar, graças à aliança entre a manha dos «morenos» e a sua
atávica maturidade intelectual, resultante das suas civilizações muito antigas.
Em todas as regiões onde existem carvão, petróleo e hulha branca podem ser
forjadas armas apontadas ao coração da própria civilização Fáustica. Aqui
começa a vingança do mundo explorado sobre os seus senhores. As multidões
incontáveis de Mãos da raça de cor, tão capazes como as Mãos das outras raças,
mas muito menos exigentes, corroeram a organização económica dos Brancos até aos seus alicerces. Os hábitos de vida do trabalhador branco, luxuosos se
comparados ao do Kulí, serão a sua perda, pois o seu trabalho, mais dispendioso,
chegará a ser indesejável. As enormes massas humanas concentradas nas regiões
carboníferas setentrionais, cidades e regiões inteiras com seus complexos
industriais, os capitais aí investidos, tudo isso vê surgir a probabilidade de
uma derrota nesta competição. O centro de gravidade da produção afasta-se
constantemente, tal como se desvaneceu, após a primeira Guerra Mundial, o
respeito das raças de cor pelos Brancos. Estas são as condições que estão na
base da irremediável falta de trabalho que reina entre os Brancos. Não se trata
apenas de uma simples crise, mas do início da catástrofe.
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| Muralha da China vista do espaço |
Para esses povos de cor, onde incluímos também os Russos, a técnica Fáustica não surge, de modo algum, como uma necessidade interior. Só o homem Fáustico pensa, vive e sente nas suas formas. Para ele, isso é uma necessidade espiritual, não uma mera resposta a necessidades económicas; são as vitórias que essa técnica propicia aquilo que realmente conta – «navigare necesse este, vivere non est necesse». Para as massas de cor, pelo contrário, a técnica não passa de uma arma na sua luta contra a civilização fáustica, arma semelhante a um ramo que se corta da árvore depois de cumprida a sua tarefa. Essa técnica mecanicista desaparecerá com a Civilização Fáustica e, um dia, os seus despojos serão espalhados, esquecidos, as nossas vias férreas e paquetes jazerão olvidados, como as estradas romanas ou a Muralha da China; as nossas cidades gigantes e os nossos arranha-céus quedarão em ruínas, como as construções de Memphis e da Babilónia. A história dessa técnica dirige-se célere para o seu fim inelutável. Será corroída e devorada a partir do seu interior, como todas as grandes formas de culturas. Porém, ignoramos quando e como tal acontecerá.
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| Ruínas da cidade antiga de Memphis, no Egipto. Ver aqui e aqui |
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| Muralhas de Babilónia em 1970 |
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| Ἀχιλλεύς |
Confrontados com tal destino, uma só concepção da vida é digna de nós, aquela que já foi designada por «Escolha de Aquiles»: mais vale uma vida breve, plena de acção e brilho, que uma vida longa mas vazia. O perigo é tão grande, para cada indivíduo, para cada classe, para cada povo, que tentar ocultá-lo é deplorável. O tempo não pode deter-se; não há retrocessos prudentes, nem renúncias cautelosas. Só os sonhadores poderão acreditar em tais saídas. O optimismo é cobardia. Nascidos nesta época, temos de percorrer até final, mesmo que violentamente, o caminho que nos está traçado. Não existe alternativa. O nosso dever é permanecermos, sem esperança, sem salvação, no posto já perdido, tal como o soldado romano cujo esqueleto foi encontrado diante de uma porta de Pompeia, morto por se terem esquecido, ao estalar a erupção vulcânica, de lhe ordenarem a retirada. Isso é nobreza, isso é ter raça. Esse honroso final é a única coisa de que o homem nunca poderá ser privado.
(In Oswald Spengler, O Homem e a Técnica, Guimarães Editores,
Segunda Edição, Lisboa, 1993, pp. 107-119).
[1] Decadência do Ocidente, Tomo III, cap. V, n.º 7.
[2] Decadência do Ocidente, Tomo II, cap. IV, n.º 14 e 15.
[3] Acerca deste assunto leia-se,
por exemplo, Fairfield, Osborn, La
Planète au pillage, Payot, 1949.
[4] Dentro em pouco, só estarão
disponíveis talentos de segunda ordem, meros epígonos de uma grande época.
[5] Aquilo que o regime soviético
tem tentado fazer não passa de um regresso, com nomes diferentes à organização
política, militar e económica que tinha destruído.
[6] Com esta designação abrangemos os habitantes da Rússia e de certas regiões do sul e sudoeste da Europa.
[7] Sem que tenhamos de ir mais longe, basta lembrar a tensão que existe a propósito dos salários, entre trabalhadores rurais e operários metalúrgicos, que testemunha o que afirmamos.




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