sábado, 11 de abril de 2026

Desafio e queda do homem fáustico

Escrito por Oswald Spengler



«Quando falamos hoje de técnica, o nosso entendimento fica-se pelas máquinas da idade industrial. Mas, entretanto, esta caracterização já se tornou inexacta. Porque no interior da idade industrial moderna verificamos uma primeira e uma segunda revolução técnica. A primeira consiste na passagem da técnica do artesanato e da manufactura à técnica das máquinas com motor. Consideramos como segunda revolução técnica a introdução e o triunfo da maior “automação” possível, cujo princípio de base é definido pela técnica da regulação e da direcção, a cibernética. O que significa que o termo técnica não é, antes de mais, claro numa primeira abordagem. A técnica pode significar o conjunto das máquinas e dos aparelhos que se apresentam, tomados apenas como objectos disponíveis (vorhanden) – ou então em funcionamento. A técnica pode querer dizer a produção destes objectos, produção que precede um projecto e um cálculo. A técnica pode também significar a co-pertença num conjunto de produtos e de homens ou grupos humanos que trabalham na instalação, na manutenção e na vigilância das máquinas e dos aparelhos. Mas não consideraremos a técnica sob este aspecto, que não é mais que uma forma grosseira de a descrever. Todavia, o campo de que falaremos será – ao menos aproximadamente – delimitado, se tentarmos agora fixar numa série de cinco teses as representações hoje normativas sobre a técnica.

(...) Segundo a concepção corrente:

1. A técnica moderna é um meio inventado e produzido pelos homens, isto é, um instrumento de realização de fins industriais, no sentido mais lato, propostos pelo homem.

2. A técnica moderna é, enquanto instrumento em questão, a aplicação prática da ciência moderna da natureza.

3. A técnica industrial fundada sobre a ciência moderna é um domínio particular no interior da civilização moderna.

4. A técnica moderna é a continuação progressiva, gradualmente aperfeiçoada, da velha técnica artesanal segundo as possibilidades fornecidas pela civilização moderna.

5. A técnica moderna exige, enquanto instrumento humano assim definido, ser igualmente colocada sob o controlo do homem – e que o homem se assegure do domínio sobre ela assim como da sua própria fabricação. 

1.    Ninguém pode contestar a exactidão das teses que enumerámos relativas à técnica moderna, porque cada um dos enunciados pode ser apoiado pelos factos. Mas permanece a questão de saber se esta exactidão atinge suficientemente o carácter mais adequado da técnica moderna, quer dizer, o que a determina previamente e do princípio ao fim.»

Martin Heidegger («Língua de tradição e língua técnica»).

 


«Por todo o mundo há equipas e laboratórios em constante actividade. Isto significa o seguinte: que embora a actividade visando a descoberta de novos conhecimentos científicos seja contínua, a produção desses mesmos conhecimentos é sempre descontínua. O que quer isto dizer? Isto significa que as descobertas científicas são raras dentro da perseverança das investigações a que a ciência constantemente se dedica.

Os institutos e os grandes laboratórios funcionam permanentemente e, no entanto, poderemos dizer que as descobertas realmente importantes são raras e demoradas se tivermos em conta a permanência da sua actividade. Por isso dizemos que a descoberta científica é descontínua, ou seja, acontece de vez em quando.

(...) A limitação da informação no que respeita à ciência tende a ser nos nossos dias um acontecimento de certo modo vulgar, porque as nações mais avançadas dispõem de determinados segredos no campo da técnica e da indústria que se abstêem de comunicar. Existe até noutros campos como, por exemplo, na informática ou na inteligência artificial, uma certa espionagem.

Com efeito, mesmo no campo puramente industrial da produção de bens de consumo, o conhecimento de determinadas técnicas consegue muitas vezes que um determinado produto possa ser mantido no mercado sem concorrência. Assim, há muitas empresas que, embora tenham produção de equipamentos noutros países, não facultam a esses mesmos países a possibilidade de um fabrico integral dos instrumentos [relativos a] esses mesmos equipamentos. As informações tecnológicas representam vantagens de produção.»

Luís Furtado («Cadernos de Filosofia»).

 

«Falou-se muito nestes anos da decadência da Europa. Suplico fervorosamente que não se continue a cometer a ingenuidade de pensar em Spengler simplesmente porque se fale da decadência da Europa ou do Ocidente. Antes de o seu livro ter aparecido, todos falavam disso, e o êxito do livro foi devido, como é notório, à suspeita ou preocupação preexistente em todas as cabeças, com os sentidos e pelas razões mais heterogéneas.

Falou-se tanto da decadência europeia que muitos chegaram a encará-la como um facto. Não que acreditem a sério e com evidência nele, mas habituaram-se a encará-lo como certo, embora não se recordem sinceramente de se terem convencido disso em nenhuma data determinada. O recente livro de Waldo Frank, Redescoberta da América, apoia-se integralmente no pressuposto de que a Europa agoniza. Não obstante, Frank nem analisa nem discute, nem questiona tão enorme facto, que lhe vai servir de formidável premissa. Sem mais averiguações, parte dele como de algo inconcusso. E esta ingenuidade no ponto de partida basta-me para pensar que Frank não está convencido da decadência da Europa; longe disso, nem sequer levantou tal questão. Toma-a como se tomasse um eléctrico. Os lugares-comuns são os eléctricos do transporte intelectual.




E como ele fazem-no muitas pessoas. Sobretudo, fazem-no os povos, os povos inteiros.

É uma paisagem de puerilidade exemplar aquela que o mundo nos mostra agora. Na escola, quando alguém dá notícia de que o professor saiu, a turba infantil encabrita-se e indisciplina-se. Cada qual sente o prazer de se libertar da pressão imposta pela presença do professor, de tirar o jugo das normas, de se pôr de pernas para o ar, de se sentir dono do próprio destino. Mas como, tirada a norma que fixava as ocupações e as tarefas, a turba infantil não tem um trabalho próprio, uma ocupação formal, uma tarefa com sentido, continuidade e trajectória, resulta que não pode executar mais do que uma coisa, a cambalhota.

É deplorável o frívolo espectáculo que os povos menores nos dão. Visto que, como se diz, a Europa decai e, portanto, deixa de mandar, cada nação e naçãozinha pula, gesticula, vira-se de cabeça para baixo ou põe-se em bicos de pés e estica o pescoço, fingindo-se uma pessoa maior que rege os seus próprios destinos. Daí o panorama como que de vibrião de “nacionalismos” que se nos apresenta em todas as partes.

Já nos capítulos anteriores tentei filiar um novo tipo de homem que hoje predomina no mundo: chamei-lhe homem-massa, e fiz notar que a sua característica principal é que, sentindo-se vulgar, proclama o direito à vulgaridade e nega-se a reconhecer instâncias superiores a ele. É natural que, se esse modo de ser predomina no seio de cada povo, o fenómeno se produza também quando olhamos para o conjunto das nações. Também há povos-massa decididos a rebelarem-se contra os grandes povos criadores, minoria de estirpes humanas que organizaram a história. É verdadeiramente cómico contemplar como esta ou aquela republicazinha, do seu recanto perdido, se põe em bicos de pés e increpa a Europa e se declara demissionária da história universal.

Que resulta daqui? A Europa tinha criado um sistema de normas cuja eficácia e fertilidade os séculos demonstraram. Essas normas não são as melhores possíveis, longe disso. Mas são, sem dúvida, definitivas enquanto não existirem ou se divisarem outras. Para superá-las é inexcusável dar à luz outras. Agora, os povos-massa resolveram dar por caducado aquele sistema de normas que é a civilização europeia, mas, como são incapazes de criar outro, não sabem que fazer e, para ocupar o tempo, dedicam-se à cambalhota.

É esta primeira consequência que advém quando no mundo alguém deixa de mandar: os outros, ao rebelaram-se, ficam sem ter que fazer, sem programa de vida.»

José Ortega y Gasset («A Rebelião das Massas»).



«Observação digna de nota é que os matemáticos, ciosos da sua terminologia que legitimamente respeitam como segredo esotérico e prontos a pôr a ridículo os profanos que não falem com correcção a língua dos iniciados nos algarismos, apropriam-se dos termos das outras ciências, não respeitam os direitos da nobreza etimológica, não curam dos equívocos que vão impunemente lançando no congresso dos homens cultos. Muitos exemplos poderiam ser dados num estudo de semântica, mas por agora bastará discernir o uso do verbo generalizar (que significa relacionar com o género biológico, ou com o análogo do género biológico) dando-lhe a significação de estender, e assim falam da generalização da ideia de número. Outros exemplos se poderiam ver num estudo de estilística, porque não é difícil demonstrar que a linguagem do cálculo, cheia de paradoxos, revela uma intencional indiferença para com o sensível e o imaginável.

Sabendo que o homem, por condição natural, não pode pensar sem imagens, – tese fundamental do aristotelismo, – o matemático, e especialmente o geómetra, postula ou pede definições que contrariam, se não contradizem, os dados da sensitividade. Assim, na nossa humildade intelectual perante as exigências dos matemáticos, admitimos números fraccionários, negativos, irracionais, imaginários, definimos o ponto sem dimensões, a linha sem largura, etc. Ficções tais como o polígono de indefinido número de lados, a tendência do polígono para a circunferência, a indistinção entre rectas e curvas, são docilmente admitidas pelo estudante que constrói a representação de um mundo diferente daquele que lhe é dado pela natureza e pela vida, mundo onde incrementa indústrias, e constrói máquinas, o engenhoso espírito de contradição.»

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).

 


«O declínio da verdade do ente dá-se de um modo necessário, como o acabamento da metafísica.

O declínio efectiva-se pelo desabamento do mundo marcado de metafísica e, ao mesmo tempo, pela devastação da terra, resultado da metafísica.

Desabamento e devastação encontram a consumação que lhes convém nisto de o homem da metafísica, animal rationale, aí estar agora como besta de trabalho.

Esta situação confirma a extrema cegueira do homem no limiar do esquecimento do ser. Mas o homem quer ser, ele próprio, o voluntário da vontade de vontade, aquele para quem toda a verdade se transforma no erro que precisa para poder estar certo de se iludir a si. Trata-se de, para ele, não ver que a vontade de vontade nada pode querer se não a nulidade do nada perante a qual se afirma sem conseguir aí conhecer a sua própria e completa nulidade.

Antes que o ser se possa mostrar na sua verdade inicial, é preciso que o ser com a vontade seja quebrado, que o mundo seja destroçado, a terra entregue à devastação e o homem jungido ao que não seja senão trabalho. Só depois deste declínio se tornará sensível, no decurso de um longo intervalo, a duração abrupta do começo. No declínio, tudo tem fim: tudo, quer dizer, o ente no inteiro horizonte da verdade da metafísica.

O declínio já se deu. As consequências deste acontecimento são os grandes feitos da história mundial que assinalaram [o] século [XX]. O fim deste decurso está ordenado segundo a técnica da “história” e com o sentido do último estádio da metafísica. Tal pôr-em-ordem é o último acto pelo qual o que teve fim está instalado na aparência de uma realidade cuja operação é irresistível porque pretende dispensar-se do desvelamento do ser do ser e isso de um modo tão decidido que todo o pressentimento desse desvelamento é supérfluo. A verdade ainda escondida do ser recusa-se aos homens da metafísica. A besta de trabalho é abandonada à vertigem das suas fabricações para que ela se destroce a si própria, se destrua e caía na nulidade do Nada.»

Heidegger (in Orlando Vitorino, «A Desolação do Mundo – Leonardo Coimbra e Martinho Heidegger»).

«Precisamente a técnica é o fenómeno que expressa, no plano do modo de ser homem no mundo, o desabrochar e o cumprimento da metafísica. Ao dar-se do ser só como vontade, teorizado por Nietzsche – que é o modo extremo de ocultar-se do ser e que deixa aparecer só o ente – corresponde a técnica moderna que dá ao mundo essa forma que hoje se chama “organização total”. Os sistemas metafísicos do século XIX são uma forma de “organização total” a um nível ainda teórico: pressupõem ainda, como toda a metafísica, certa recordação da diferença ontológica. Com efeito, a metafísica nasce como pergunta sobre o ser do ente: neste sentido, a metafísica adverte a diferença ontológica mesmo quando a esquece de facto, enquanto pensa o ser do ente apenas como aquilo que todos os entes têm de comum, atendendo ao modelo do ente concebido como simples presença. Embora esquecendo o verdadeiro sentido da diferença ontológica, a metafísica concebe, no entanto, sempre o ser do ente e sobrevive assim até que o seu esquecimento do ser se apresenta mascarado sob o aspecto de uma indagação do ser do ente. Vimos como o desenvolvimento da metafísica a levou a reduzir o ser do ente à certeza da representação e, por conseguinte, à vontade como vontade do sujeito reduzir tudo a si mesmo. Apesar de tudo, também os grandes sistemas idealistas do século XIX supõem ainda, como teorias, uma remota sobrevivência de uma recordação, embora cada vez mais mistificada, da diferença ontológica. Esses sistemas, por exemplo, distinguem sempre de alguma maneira entre uma realidade “empírica” e uma realidade “verdadeira”, que é a descrita na sua teoria, realidade verdadeira que tem uma razão de ser precisamente porque não se identifica ainda com a realidade no seu modo de se dar imediato e quotidiano; mas aquilo para que tendem fundamentalmente esses sistemas é a organização total do ente: o que reconhecem como empírico é só o que ainda escapa a essa organização total, à “sistematização” geral da realidade. Segundo Heidegger, a técnica dá justamente o último passo no caminho da delimitação de toda a diferença residual entre realidade “verdadeira” e realidade “empírica”. A organização total realizada pela técnica já não está apenas na teoria, mas concretiza-se efectivamente como ordem do mundo. Abolida esta última diferença, fica também abolida a última e pálida recordação da diferença ontológica: do ser já não fica mais nada e só ficam os entes. O ser do ente é total e exclusivamente o ser imposto pela vontade do homem produtor e organizador.»

Gianni Vattimo («Introdução a Heidegger»).

 


«O mundo da técnica é o mundo da errância: os homens não têm nenhum ponto de referência. As guerras mundiais que enfurecem o mundo não têm mais sentido que a paz que se segue: porquê fazer a paz e porquê ter feito a guerra?

Esta visualização deplorável, da qual podemos continuar a descrição, não deve dar lugar a lamentações de tipo moral, como se não tivéssemos feito o que de nós depende para manter a técnica nos seus justos limites ou como se não tivéssemos sabido insuflar os valores ou o “suplemento de alma” necessários ao equilíbrio do desenvolvimento da máquina. Heidegger – e é este o seu grande mérito – quer ir mais longe na análise e esforça-se por desvelar o sentido profundo da situação que está para além de um juízo ético. Este, se tiver lugar, dependerá de uma investigação que religue os aspectos deploráveis concretos que vimos às dimensões mais radicais dos homens: as que têm que ver com a sua relação com o ser e o tempo, e com a história desta relação. É o que Heidegger procura quando faz remontar a técnica, como instrumentalidade e manipulação (e não há nada a dizer contra  ela a este nível), à essência da técnica.

De que se trata? De que a técnica é o fim do que Heidegger chama a “metafísica”; ela é o fruto da sua longa história; ela é o ponto em que a filosofia “conjuga as suas possibilidades extremas”, o ponto terminal de um itinerário em que a figura de Platão marca o ponto de partida e dá a inspiração constante. Se não se refere esta situação terminal da técnica ao longo caminho da metafísica, não a compreendemos em absoluto e ficamos desarmados face à sua penetração totalitária. Então, para ir ao fundo do problema que põe a expansão da técnica que se tornou terrífica é necessário deslocar o discurso ou ao menos religá-lo à investigação sobre a metafísica.

Para trazer à luz a ligação da técnica à metafísica há que remontar para o longo processo histórico que Heidegger chama o destino da filosofia ocidental, onde se encontra a ligação necessária e fatal que nos conduziu onde estamos.

Martin Heidegger designa por uma palavra não traduzível, Gestel, o estado mortal onde nos encontramos. Este termo reúne e sugere todas as variantes da raiz que encarna (não apenas no sentido de exprimir, mas também no de tomar concretamente corpo), o processo de manipulação, de artificialidade, de abstracção destrutiva que é preciso indicar, stellen: colocar, meter, adiante, atrás, violentamente, docemente, produzir, arrancar, dispor de, deslocar. Ora todos estes termos reenviam para uma certa atitude da vontade, que se tomou a si própria como fim e reconduz indefinidamente tudo a si, uma deslocação que unifica paradoxalmente a desmedida (uma vez que não há outra regra que o puro querer de si) e a exactidão (pois, para esta acção agressiva, ela usará até ao fim a razão mais friamente calculista, donde a inflação das ciências e da sua aplicação sem limites no maquinismo).

Esta atitude da vontade, virada sobre si própria e o seu querer viver, reenvia a Nietzsche: foi por ele que o fundo do real se manifestou como força de vida, imediatez sensível e vital, que constrói campos de valores livres da escravatura da racionalidade e da lei. Ora esta recentração da realidade como dinamismo de um querer-viver centrado em si, “vontade da vontade”, “possibilidade de voltar a si, fora de qualquer condição, como à vontade da vida”, é de facto uma transmutação: Nietzsche herda de um mundo secularmente marcado pela omnipotência do racional, suposto com capacidade para reassumir qualquer coisa e toda a história, seja segundo a variante idealista de Hegel (movimento dialéctico do espírito absoluto), ou a de Marx, materialista (processo histórico da produção), e transmuta este primado do racional em primado da vontade.

Somos então reenviados de Nietzsche a Hegel, onde o idealismo transcendental aparece, por seu lado, como a forma radical de um processo iniciado com Descartes: na aurora dos tempos modernos, a percepção da consciência por si própria torna-se fundamento de toda a certeza; sobre este fundamento se constrói a distinção entre sujeito e objecto, encontrando-se o real objectivado e dominado pela consciência, critério último da verdade. A reflexão do Cogito sobre si próprio tem como corolário o primado da representação, tomando todo o ser a forma da apresentação que os homens se fazem do objecto a partir da certeza de si. Não é possível seguir aqui as vicissitudes desta construção da realidade da autoposição do sujeito, de Descartes, onde ela se inicia, até Hegel, onde se torna perfeita, duas etapas importantes, passando por Leibniz e Kant, para a posição de Heidegger. Há que ter em conta apenas que, em Hegel, o fundamento é total e definitivamente posto no sujeito, como termo de um percurso que reassume e articula a realidade do ser, do pensamento e da história. É este absoluto do percurso como racionalidade subjectiva que Nietzsche quis transpor.»

Mário Botas (posfácio in Martin Heidegger, «Língua de tradição e língua técnica»).

 


A queda do homem fáustico

Qualquer Cultura Superior é uma tragédia. A própria História da Humanidade é completamente trágica. Mas o desafio e a queda do homem fáustico ultrapassam tudo aquilo que Ésquilo e Shakespeare alguma vez imaginaram. A criatura ergue-se contra aquele que a criou. Assim, tal como, um dia, o microcosmo-Homem se revoltou contra a Natureza, agora o microcosmo-Máquina se subleva contra o homem Nórdico. O senhor do Mundo está a caminho de devir o escravo da Máquina, que a força – que nos força a todos, estejamos ou não conscientes disso – a seguir na sua trajectória. O triunfador, abatido, é condenado a morrer espezinhado pelo galope de seus cavalos.

No início do século XX o aspecto do «mundo» no nosso minúsculo planeta é, pouco mais ou menos, como segue: um grupo de nações, de sangue nórdico, domina a situação, sob comando dos Ingleses, Alemães e Franceses, e dos Americanos. O seu poderio político assenta na Riqueza que possuem, riqueza que é fruto do seu poder industrial. Mas este, por seu turno, depende estreitamente dos recursos em carvão. A localização das jazidas de carvão assegura, especialmente aos povos germânicos, um monopólio quase completo deste recurso. Este facto conduz a uma multiplicação populacional sem paralelo na história. Dependendo do carvão e das vias principais de comunicação que irradiam das minas, existe uma massa humana de monstruosas proporções, com uma vida disciplinada na técnica mecanista, trabalhando para ela e obtendo todos os seus meios de subsistência. Quanto aos outros povos, é-lhes confiado, quer sob o estatuto de colónias, quer de Estados nominalmente independentes, o papel de fornecedores de matérias-primas e de consumidores do produto final. Essa divisão de funções é mantida e assegurada por exércitos e frotas, cuja conservação pressupõe a riqueza industrial, exércitos esses que foram organizados e equipados por meio de técnicas tão aperfeiçoadas que podem entrar em acção com a simples pressão de um botão. Mais uma vez, é posta em relevo a conexão estreita e profunda, a quase total identidade entre a política, a guerra e a economia. O grau de poder militar é correlativo do grau de desenvolvimento industrial. Os povos industrialmente pobres passam privações em todos os aspectos; não têm meios para manutenção de um exército nem para fazer a guerra, pelo que são politicamente impotentes. E, em consequência disso, os elementos activos desses países, tanto dirigentes como dirigidos, representam apenas peões no tabuleiro da política dos seus adversários.

Face às massas de «Mãos» executantes, único factor que retém a atenção do «olhar medíocre» dos descontentes, o valor do trabalho de chefia dos poucos cérebros criadores (empresários, organizadores, administradores, inventores e engenheiros), embora seja cada vez mais elevado, queda incompreendido e ignorado [1]. Essa incompreensão nota-se menos na América, que é uma nação pragmática, e mais na Alemanha, país de «poetas e pensadores». A frase idiota: «todas as rodas parariam de girar se tal fosse a vontade do Braço Poderoso» obnubila a mente dos linguareiros e escrevinhadores. Para parar a engrenagem das máquinas, bastaria que nelas caísse um simples carneiro... Mas inventar essas máquinas e pô-las em marcha, assegurando assim a subsistência desse tal «braço poderoso», é algo que apenas pode ser concretizado pela minoria dos que são congenitamente dotados para tal. Esses chefes incompreendidos e detestados, que formam um conjunto de personalidades fortes, têm, contudo, características psicológicas bem diferentes. Não perderam o sentimento secular do predador que segura nas suas garras a vítima, ainda palpitante, tal o sentimento de Cristóvão Colombo, quando viu surgir terra no horizonte; tal o sentimento de Marco António, ao contemplar em Filipe as legiões inimigas caindo na ratoeira. Tais momentos, pontos altíssimos da experiência humana, são também disfrutados pelo construtor, quando vê um majestoso paquete ser lançado à água, ou pelo inventor, quando a sua mais recente máquina inicia o seu trabalho com perfeição, quando se eleva nos ares o primeiro «zeppelin».

Mas o que é intrínseco à tragédia dos tempos actuais é justamente o facto de o pensamento humano, que desencadeara o processo técnico, já não ser capaz de apreciar o alcance e as consequências dos actos a que dá origem. A técnica tem-se tornado tão esotérica como as matemáticas superiores, (de que, aliás, se serve). As teorias da física, partindo da abstracção dos fenómenos, levaram o seu requinte ao ponto de mesmo sem tomarem claramente consciência disso, terem penetrado os limites fundamentais do entendimento humano[2]. A mecanização do Mundo entrou já numa fase de tensão extremamente perigosa. A própria face da Terra, com as suas plantas, seus animais e seus homens, já não é a mesma. Em escassas dezenas de anos, muitas das grandes florestas desapareceram, transformadas em papel de jornal; provocaram-se modificações climatéricas que põem em perigo a economia rural de populações inteiras[3]. Por causa do homem, numerosas espécies animais encontraram a quase total extinção, como é o caso exemplar do bisonte; e raças inteiras têm sido sistematicamente exterminadas, pouco faltando para o seu desaparecimento total – caso dos índios americanos e dos aborígenes da Austrália.

Todos os seres orgânicos sucumbem perante a crescente mecanização. Um mundo artificial invade o mundo natural, envenenando-o gradualmente. A Civilização converteu-se, por si-própria, numa máquina que faz, ou tenta fazer, tudo mecanicamente. Já não conseguimos pensar senão em termos de cavalos-vapor. Não podemos olhar uma cascata sem mentalmente a transformarmos em energia eléctrica. Somos incapazes de contemplar o gado que pasta nos campos sem contabilizarmos o rendimento da sua carne. Não sabemos já admirar a beleza do artesanato dos povos ainda simples, pois logo queremos substituir os seus processos manuais por técnicas modernas. Seja isso viável ou absurdo, o pensamento técnico quer realizar. O luxo mecanicista é a consequência de uma distorção mental. Em última análise, a máquina tornou-se num símbolo análogo ao ideal que lhe esteve na origem – o perpettum mobile. Mas este é uma necessidade espiritual e intelectual, não vital.

Aliás, a máquina mostra-se já, em muitos aspectos, contraditória com a prática económica; os sinais antecipados desse divórcio começam a manifestar-se por todo o lado. Através da sua multiplicação e do seu requinte cada vez mais acentuado, a máquina começa a provocar consequências inversas aos objectivos para que foi construída. Nos grandes aglomerados urbanos o automóvel, devido à sua proliferação, anulou o seu próprio valor utilitário; já nos deslocamos mais depressa a pé... Na Argentina, em Java e em muitas outras regiões a simples charrua do pequeno lavrador, puxada por um cavalo, já demonstrou que proporciona uma rentabilidade superior a grandes máquinas da agricultura mecanizada, achando-se em vias de expulsar esta última. Em muitas regiões tropicais o homem negro ou amarelo, com seus processos primitivos de trabalho, já concorre perigosamente com a técnica moderna das plantações adoptadas pelo homem branco. E até o trabalhador industrial da velha Europa e da América do Norte experimenta um certo mal-estar, uma adesão renitente ao trabalho que executa.



Claro que é absurdo falar, como foi moda no século XIX, no esgotamento das minas de carvão nos próximos séculos, e das consequências de tal eventualidade. Mas, no século XIX, época de enraizado materialismo, não era fácil pensar de outra forma que não fosse materialmente. Mesmo sem ter em conta que o petróleo e a energia hidráulica estão sendo cada vez mais utilizadas como fontes energéticas substitutas do carvão, é óbvio que o pensamento técnico rapidamente descobriria outros recursos possíveis. Aqui, do que se trata, é que é completamente vão querer antecipar tanto as coisas, em relação ao futuro, porque a própria técnica da Europa e da América irá acabar antes disso. Não subsistem dúvidas de que não será um insignificante pormenor como ausência de matéria-prima (lato sensu) que comprometerá essa transformação gigantesca. Enquanto existir a Inspiração que anima essa técnica, ela estará no seu apogeu e apta a produzir sem falha os meios adequados aos seus fins.

Mas durante quanto tempo permanecerá ela no auge? Só para manter os nossos processos técnicos ao nível actual, são necessários uma centena de milhar de cérebros excepcionais, organizadores, inventores e engenheiros. Todos eles tem de ser talentos fortes e até criativos, entusiasmados pelas suas tarefas graças a um dispendioso processo de formação, que exige muitos anos. Na realidade, é justamente essa vocação que tem atraído irresistivelmente, durante os últimos cinquenta anos, a fina flor dos indivíduos mais dotados e fortes de toda a juventude de raça branca; já em crianças se divertiam com brinquedos técnicos. Nas famílias e classes sociais da cidade (cujos filhos são, neste ponto, os que interessa considerar), uma tradição de conforto e cultura constituía a base normal de formação destes frutos tardios do pensamento técnico.

Mas nestes últimos decénios tem sido patente que tal estado de coisas começou a alterar em todos os países onde a grande indústria se instalou de há longa data. O pensamento Fáustico começa a sentir náuseas da máquina. Está a propagar-se uma lassitude, uma espécie de pacifismo na luta contra a Natureza. Os homens viram-se para modos de vida mais simples e próximos da Natureza; consagram mais tempo aos desportos que às experiências técnicas. As grandes cidades estão a parecer-lhes odiosas, e eles aspiram a evadir-se da opressão esmagadora das actividades sem alma, do jugo da máquina, da atmosfera rígida e glacial da organização técnica. E são precisamente os talentos fortes e criadores que voltam, deste modo, as costas aos problemas práticos das ciências, para se lançarem na especulação pura. O ocultismo e o espiritismo, as filosofias hindus, a curiosidade metafísica oculta em manto cristão ou pagão, que ao tempo de Darwin não passavam de objectos a desprezar, ressurgem agora. Esta era a índole de Roma no século de Augusto. Desgostosos da vida, os homens afastam-se da civilização, procuram refugiar-se em regiões primitivas, na vagabundagem e no suicídio. Inicia-se a fuga dos chefes natos perante a máquina[4]. Todo o grande empreendedor, seja qual for a esfera da sua actividade, tem inúmeras ocasiões para constatar a quebra de qualidades intelectuais naqueles que tenta recrutar. Ora o esmagador desenvolvimento técnico do século XIX só foi possível pela constante elevação do nível intelectual. Por isso, mesmo que não se dê uma diminuição, um simples estado de estagnação é já perigoso, constitui um sinal precursor do fim, por muito numerosas e treinadas que possam ser as Mãos para o trabalho.



Nova Iorque, Manhattan. Ver aqui

E que acontece a essas «Mãos»? A tensão entre o trabalho de chefia e o de execução atinge o seu paroxismo, aproxima-se da catástrofe. A importância desse trabalho de direcção e o valor económico de toda a Personalidade autêntica que nela participa têm aumentado ao ponto de se tornarem imperceptíveis e incompreensíveis para a maioria daqueles que ocupam cargos subalternos. Mas ao outro nível, ao nível dos que trabalham manualmente, o indivíduo deixou de ter a mínima importância. Apenas os números contam. O pleno conhecimento deste irrevogável estado de coisas, e ainda explorado financeiramente e envenenado, é de tal modo desconsolador que, em reacção conforme à natureza humana, os homens revoltam-se contra o papel que a maioria deles foi obrigado a desempenhar pela máquina – e não, como se julga, pelos seus possuidores. E assim se inicia, das mais variadas formas, desde a chantagem sob a forma de greve ao suicídio, a amotinação das Mãos contra o seu destino, contra a Máquina, contra a vida padronizada, finalmente contra todos. A organização do trabalho, tal como tem existido, durante milhares de anos, baseado na «acção colectiva combinada» e na distinção entre dirigentes e dirigidos, entre cérebros e mãos, está sendo pulverizada desde os alicerces. Mas a «Massa» não é mais que um ente que nega, que recusa o conceito de organização; a «massa» nunca é, por si-mesma, capaz de organizar a vida. Um exército sem oficiais jamais deixa de ser uma mera horda desordenada e inútil[5]. Um montão de tijolos esboroados e de sucata não pode tomar o lugar de um edifício. Essa amotinação, espalhada pelo mundo inteiro, ameaça pôr termo à própria possibilidade do trabalho técnico rentável. Os chefes podem encontrar solução na fuga; mas aqueles que eles conduziam, tornados inúteis, ficam perdidos. E o simples facto de serem muito numerosos os condena à morte.

O terceiro e mais sugestivo sintoma da derrocada incipiente reside naquilo que se poderia designar por traição para com a técnica. O que vou afirmar é do conhecimento público, mas nunca foi considerado sob todos os seus ângulos e como tal, seu fatal significado nunca foi patenteado. A enorme superioridade de que disfrutámos, durante a segunda metade do século XIX, na Europa Ocidental e na América, baseada no poderio económico, político, militar e financeiro, assentava, em última instância, no monopólio incontestado da indústria. E as grandes indústrias não eram viáveis sem estarem conjugadas com as jazidas carboníferas desses países nórdicos. A função do resto do mundo era absorver os produtos finais dessas indústrias; a política colonial foi sendo constantemente fundamentada, no plano prático, na abertura de novos mercados e de novas fontes de matérias-primas, e, nunca o desenvolvimento de novos centros de produção. Sem dúvida existem jazidas de carvão noutros lugares, mas só os engenheiros de raça branca sabiam como lidar com ele. Éramos possuidores exclusivos, não só de matérias-primas, como de cérebros e técnicas capazes de as valorizar. É isto que está na base do nível de vida luxuoso do trabalhador branco, cujo rendimento, comparado com o do trabalhador «moreno»[6], é principesco; esta circunstância foi omitida pelo marxismo, omissão que agora lhe causa grande dano. Actualmente, a compensação natural para este facto começa a evidenciar-se com o problema da falta de postos de trabalho. O nível elevado dos salários do trabalhador branco, que pode pôr em perigo a sua vida, deve-se ao monopólio que os chefes industriais souberam criar em seu redor[7].

Mas eis que, cerca do final do século XIX, a cega Vontade de Domínio começa a cometer erros cruciais. Em vez de guardarem zelosamente a sua técnica, que era a sua melhor arma, os povos brancos ofereceram-na complacentemente a outros povos, por esse mundo fora, utilizando as mais diversas formas de divulgação oral e escrita. Perante o espanto admirativo de Indianos e Japoneses, compraziam-se e envaideciam-se. Instaurou-se assim a famosa «descentralização da indústria», motivada pelo desejo de aumentar os lucros com a transferência da produção para as regiões de colocação dos produtos. E foi assim que, em vez de uma exportação, em exclusividade, dos produtos acabados, os povos de raça branca começaram a exportar os seus segredos, os seus métodos, os seus processos, os seus engenhos e organizadores. Os próprios inventores começaram a emigrar, porque o socialismo, ao querer submetê-los ao seu jugo, expulsou-os. De repente, os «morenos» penetraram rapidamente nos nossos segredos; compreenderam-nos e utilizaram-nos com pleno rendimento. Em trinta anos, também os Japoneses se tornaram técnicos de primeira ordem; na sua guerra contra a Rússia demonstraram uma tal superioridade técnica que dela até seus professores extraíram ensinamentos. Hoje, por todo o lado – Extremo Oriente, Índias, América do Sul, África do Sul – existem, ou estão em vias de existir regiões industriais que, graças ao baixo nível de salários auferidos pelos seus trabalhadores, nos vão colocar face a uma concorrência mortal. Os intangíveis privilégios das raças brancas foram disseminados ao acaso, esbanjados, divulgados. Os não-iniciados prenderam nas suas malhas os iniciadores, e talvez os venham a ultrapassar, graças à aliança entre a manha dos «morenos» e a sua atávica maturidade intelectual, resultante das suas civilizações muito antigas. Em todas as regiões onde existem carvão, petróleo e hulha branca podem ser forjadas armas apontadas ao coração da própria civilização Fáustica. Aqui começa a vingança do mundo explorado sobre os seus senhores. As multidões incontáveis de Mãos da raça de cor, tão capazes como as Mãos das outras raças, mas muito menos exigentes, corroeram a organização económica dos Brancos até aos seus alicerces. Os hábitos de vida do trabalhador branco, luxuosos se comparados ao do Kulí, serão a sua perda, pois o seu trabalho, mais dispendioso, chegará a ser indesejável. As enormes massas humanas concentradas nas regiões carboníferas setentrionais, cidades e regiões inteiras com seus complexos industriais, os capitais aí investidos, tudo isso vê surgir a probabilidade de uma derrota nesta competição. O centro de gravidade da produção afasta-se constantemente, tal como se desvaneceu, após a primeira Guerra Mundial, o respeito das raças de cor pelos Brancos. Estas são as condições que estão na base da irremediável falta de trabalho que reina entre os Brancos. Não se trata apenas de uma simples crise, mas do início da catástrofe.

Muralha da China vista do espaço

Para esses povos de cor, onde incluímos também os Russos, a técnica Fáustica não surge, de modo algum, como uma necessidade interior. Só o homem Fáustico pensa, vive e sente nas suas formas. Para ele, isso é uma necessidade espiritual, não uma mera resposta a necessidades económicas; são as vitórias que essa técnica propicia aquilo que realmente conta – «navigare necesse este, vivere non est necesse». Para as massas de cor, pelo contrário, a técnica não passa de uma arma na sua luta contra a civilização fáustica, arma semelhante a um ramo que se corta da árvore depois de cumprida a sua tarefa. Essa técnica mecanicista desaparecerá com a Civilização Fáustica e, um dia, os seus despojos serão espalhados, esquecidos, as nossas vias férreas e paquetes jazerão olvidados, como as estradas romanas ou a Muralha da China; as nossas cidades gigantes e os nossos arranha-céus quedarão em ruínas, como as construções de Memphis e da Babilónia. A história dessa técnica dirige-se célere para o seu fim inelutável. Será corroída e devorada a partir do seu interior, como todas as grandes formas de culturas. Porém, ignoramos quando e como tal acontecerá.

Ruínas da cidade antiga de Memphis, no Egipto. Ver aqui e aqui


Muralhas de Babilónia em 1970

Ἀχιλλεύς

Confrontados com tal destino, uma só concepção da vida é digna de nós, aquela que já foi designada por «Escolha de Aquiles»: mais vale uma vida breve, plena de acção e brilho, que uma vida longa mas vazia. O perigo é tão grande, para cada indivíduo, para cada classe, para cada povo, que tentar ocultá-lo é deplorável. O tempo não pode deter-se; não há retrocessos prudentes, nem renúncias cautelosas. Só os sonhadores poderão acreditar em tais saídas. O optimismo é cobardia. Nascidos nesta época, temos de percorrer até final, mesmo que violentamente, o caminho que nos está traçado. Não existe alternativa. O nosso dever é permanecermos, sem esperança, sem salvação, no posto já perdido, tal como o soldado romano cujo esqueleto foi encontrado diante de uma porta de Pompeia, morto por se terem esquecido, ao estalar a erupção vulcânica, de lhe ordenarem a retirada. Isso é nobreza, isso é ter raça. Esse honroso final é a única coisa de que o homem nunca poderá ser privado.

(In Oswald Spengler, O Homem e a Técnica, Guimarães Editores, Segunda Edição, Lisboa, 1993, pp. 107-119).



[1] Decadência do Ocidente, Tomo III, cap. V, n.º 7.

[2] Decadência do Ocidente, Tomo II, cap. IV, n.º 14 e 15.

[3] Acerca deste assunto leia-se, por exemplo, Fairfield, Osborn, La Planète au pillage, Payot, 1949.

[4] Dentro em pouco, só estarão disponíveis talentos de segunda ordem, meros epígonos de uma grande época.

[5] Aquilo que o regime soviético tem tentado fazer não passa de um regresso, com nomes diferentes à organização política, militar e económica que tinha destruído.

[6] Com  esta designação abrangemos os habitantes da Rússia e de certas regiões do sul e sudoeste da Europa.

[7] Sem que tenhamos de ir mais longe, basta lembrar a tensão que existe a propósito dos salários, entre trabalhadores rurais e operários metalúrgicos, que testemunha o que afirmamos.






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