quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O Espectro do Umbral

Escrito por Sir Edward Bulwer-Lytton





«Bulwer Lytton, erudito genial, célebre em todo o Mundo pela sua narrativa Os Últimos Dias de Pompeia, não esperava sem dúvida que um dos seus romances, dezenas de anos mais tarde, inspirasse na Alemanha um grupo místico pré-nazi. No entanto, em obras como A Raça que nos há-de suplantar ou Zanoni, pretendia aludir às realidades do mundo espiritual, e mais especialmente do mundo infernal. Considerava-se um iniciado. Através da efabulação romanesca exprimia a certeza de que existem seres dotados de poderes sobre-humanos. Esses seres suplantar-nos-ão e conduzirão os eleitos da raça humana a caminho de uma formidável mutação.











É preciso prestar atenção a esta ideia de mutação de raça, pois viremos a encontrá-la em Hitler, e ainda se não extinguiu. É preciso também dar atenção à ideia dos “Superiores Desconhecidos”. Encontramo-la em todas as místicas negras do Oriente e do Ocidente. Habitando debaixo da terra ou vindos de outros planetas, gigantes semelhantes a esses que dormiriam sob uma carapaça de ouro nas criptas tibetanas, ou então presenças informes e terrificantes, tais como as descrevia Lovecraft, esses "Superiores Desconhecidos" evocados nos ritos pagãos e luciferinos existirão realmente? Quando Machen fala do mundo do Mal, “cheio de cavernas e de habitantes crepusculares”, é ao outro mundo, àquele onde o homem toma contacto com os “Superiores Desconhecidos”, que se refere, como discípulo da Golden Dawn. Parece-nos certo que Hitler partilhava dessa crença. Mais: que ele pretendia ter a experiência de contactos com os “Superiores”.

(...) Não temos a loucura de pretender explicar a história por meio das sociedades iniciáticas. Mas veremos, curiosamente, que tudo teve importância e que, através do nazismo, foi “o outro mundo” que exerceu autoridade sobre nós durante alguns anos. Ficou vencido. Mas não morreu, nem do outro lado do Reno, nem noutros sítios. Isso não é horroroso, a nossa ignorância é que é horrorosa.



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Samuel Liddell MacGregor Mathers

Já fizemos notar que Samuel Mathers fundara a Golden Dawn. Mathers pretendia estar em comunicação com esses “Superiores Desconhecidos” e ter estabelecido os contactos em companhia de sua mulher, irmã do filósofo Henri Bergson. Eis a seguir uma passagem do manifesto aos “Membros da segunda ordem”, que ele escreveu em 1896:

 “A respeito desses Chefes Secretos, aos quais me refiro e de que recebi as instruções da Segunda Ordem que vos comuniquei, nada vos posso dizer. Nem sequer sei os seus nomes terrenos e só muito raramente os vi com os seus corpos físicos... Eles encontram-se fisicamente no tempo e no lugar antecipadamente fixados. Na minha opinião, creio que são seres humanos que habitam a Terra, mas que possuem poderes terríveis e sobre-humanos... As minhas relações físicas com eles mostraram-me quão difícil é para um mortal, por muito evoluído que seja, suportar-lhes a presença. Não quero dizer que, durante esses raros encontros que com eles tive, o efeito em mim produzido tenha sido o de depressão física intensa que se segue à perda do magnetismo. Pelo contrário, sentia-me em contacto com uma força tão terrível que só a posso comparar ao efeito provocado numa pessoa que esteve perto de um relâmpago durante uma violenta trovoada, acompanhado por uma grande dificuldade em respirar... À prostração nervosa de que falei juntavam-se suores frios e perdas de sangue pelo nariz, boca e, por vezes, pelos ouvidos.”



Hitler conversava um dia com Rauschning, chefe do governo de Dantzig, a respeito do problema da mutação da raça humana. Rauschning, que não possuía a chave de tão estranha preocupação, interpretava as frases de Hitler como frases de um criador de gado que procurasse melhorar o sangue alemão.

“Mas não pode fazer outra coisa senão auxiliar a natureza, dizia ele, abreviando o caminho a percorrer! É preciso que a própria natureza lhe dê uma nova variedade. Até agora, só raramente o criador obteve bons resultados, em relação à espécie animal, no desenvolvimento das mutações, quer dizer, em criar ele próprio novos caracteres.

– O homem novo vive entre nós! Já chegou! – exclamou Hitler em tom triunfante. –Isto não lhe basta? Vou dizer-lhe um segredo. Eu vi o homem novo. É intrépido e cruel. Tive medo diante dele.

“Ao pronunciar estas palavras, acrescenta Rauschning, Hitler tremia num ardor extático”.


 

E Rauschning conta também esta cena estranha, a respeito da qual se interroga em vão o doutor Achille Delmas, especialista de psicologia aplicada. De facto, neste caso, a psicologia não se aplica:

“Uma pessoa da intimidade de Hitler disse-me que ele acorda durante a noite soltando gritos convulsivos. Pede socorro, sentado na beira da cama, como que paralisado. É possuído por um pânico que o faz tremer a ponto de sacudir a cama. Profere vociferações confusas e incompreensíveis. Arqueja como se estivesse a sufocar. A mesma pessoa relatou-me uma dessas crises com pormenores em que me recusaria a acreditar se a fonte não fosse de tanta confiança. Hitler estava de pé no seu quarto, cambaleante, olhando em redor com ar desvairado. “É ele! É ele! Ele esteve aqui!”, gemia. Os lábios tremiam-lhe. O suor escorria abundantemente. De súbito pronunciou números sem qualquer sentido, depois palavras, restos de frases. Era pavoroso. Empregava termos curiosamente reunidos, absolutamente extraordinários. Depois, novamente, voltara a ficar silencioso, mas continuara a mexer os lábios. Tinham-no então friccionado, e fizeram-no tomar uma bebida. Depois, subitamente, berrou: “Ali, ali no canto! Está ali!”. Batia com o pé no chão e soltava gritos. Tranquilizaram-no dizendo-lhe que nada se passava de anormal, e ele acalmou-se pouco a pouco. Em seguida, dormira várias horas e voltara a ser quase normal e suportável”.






Deixamos ao leitor o cuidado de comparar as declarações de Mathers, chefe de uma pequena sociedade neopagã do fim do século XIX, e os ditos de um homem que, no momento em que Rauschning os coligia, se preparava para lançar o mundo numa aventura que provocou vinte milhões de mortos. Pedimos-lhe que não despreze esta comparação e a sua lição, a pretexto de que a Golden Dawn e o nazismo são, aos olhos do historiador razoável, coisas completamente diferentes. O historiador é razoável, mas a história não o é. São as mesmas crenças que animam os dois homens, as suas experiências fundamentais são idênticas, a mesma força os impele. Pertencem à mesma corrente de pensamento, à mesma religião. Essa religião ainda não foi verdadeiramente estudada. Nem a Igreja, nem o racionalismo, que é outra igreja, o permitiram. Nós entramos numa época do conhecimento na qual tais estudos se tornarão possíveis porque a realidade desvendará a sua faceta fantástica e ideias ou técnicas que nos pareciam anormais, desprezíveis ou odiosas, apresentar-se-ão úteis para a compreensão de um real cada vez menos tranquilizador.»

Louis Pauwels e Jacques Bergier («O Despertar dos Mágicos»). 



O Espectro do Umbral 


“Vês que guarda está sentado no vestíbulo? Que face vigia o umbral?”

A Eneida, liv. VI, 574

 

Noite profunda. Tudo no velho castelo repousa... Um silêncio sepulcral reina sob as pálidas estrelas.

É o tempo propício. Mejnour, com a sua sabedoria austera. Mejnour, o inimigo do amor. Mejnour, cujos olhos saberão ler no seu coração, negar-lhe-á os segredos prometidos, porque o belo semblante de Filida perturba essa existência. Mejnour virá amanhã! Aproveite esta noite! Não tenha medo! Agora ou nunca! Assim, o intrépido jovem... intrépido, a despeito de todos os seus erros... Assim, com pulso firme, a sua mão abre de novo a porta vedada.

Glyndon colocou a sua lâmpada ao lado do livro, que ainda ali estava aberto. Virou uma folha e outras, mas sem poder decifrar o seu significado, até que chegou ao seguinte trecho:

“Quando, pois, o discípulo está desta maneira iniciado e preparado, deve abrir a janela, acender as lâmpadas e humedecer as suas fontes com o elixir. Mas que tenha o cuidado de não se atrever a tomar muita coisa do volátil e fogoso espírito. Prová-lo, até que, por meio de repetidas inalações, o corpo se tenha acostumado gradualmente ao estático líquido, é buscar, não a vida, mas sim a morte.”

Glyndon não pôde avançar mais nas suas instruções, pois as cifras estavam de novo mudadas. O jovem pôs-se a olhar fixa e seriamente à sua volta, dentro do quarto. Os raios da lua entraram silenciosamente através da cortina quando a sua mão abriu a janela, e assim que a sua misteriosa luz se fixou nas paredes e no solo da habitação, parecia como se tivesse entrado nela um poderoso e melancólico espírito. Depois, preparou as nove lâmpadas místicas no centro do quarto, e acendeu-as uma a uma. De cada uma delas brotou uma chama azul prateado, espalhando no aposento um resplendor tranquilo, mas ao mesmo tempo deslumbrante. Esta luz foi-se tornando, pouco a pouco, mais suave e mais pálida, enquanto uma espécie de fina nuvem parda, semelhante a uma névoa, se espalhava gradualmente pelo quarto. E, subitamente, um frio agudo e penetrante invadiu o coração do inglês e estendeu-se por todo o seu corpo, como o frio da morte. O jovem, conhecendo instintivamente o perigo que corria, quis andar, mas só o conseguiu com grande dificuldade, porque as suas pernas tinham-se tornado rígidas como se fossem de pedra. No entanto, ainda pôde chegar à prateleira onde estavam os vasos de cristal. Apressadamente inalou um pouco do maravilhoso espírito, e lavou as suas fontes com o cintilante líquido. Então, a mesma sensação de vigor, juventude, alegria e leveza etérea que tinha sentido pela manhã substituíram instantaneamente o entorpecimento mortal que um momento antes lhe invadira o organismo, pondo em perigo a sua vida. Glyndon cruzou os braços e, impávido, esperou pelo resultado.



O vapor tinha, agora, assumido a densidade e a aparente consistência de uma nuvem de neve, por entre a qual as lâmpadas luziam como estrelas. O inglês via distintamente algumas sombras que, assemelhando-se, no seu exterior, às formas humanas, moviam-se devagar e com regulares evoluções através da nuvem. Estas sombras eram corpos transparentes, evidentemente sem sangue e contraíam e dilatavam-se como as dobras de uma serpente. Enquanto se moviam vagarosamente, o jovem ouviu um som débil e baixo, porém musical, que se assemelhava a um canto de uma inexprimível e tranquila alegria. Nenhuma dessas aparições reparava nele. O veemente desejo que sentia de se aproximar delas, de ser nelas incluído, de executar um daqueles movimentos de etérea felicidade – pois assim lhe parecia que era a sensação que as acompanhava –, fez com que estendesse os seus braços, esforçando-se por chamar, com uma exclamação, a atenção desses seres, mas apenas um murmúrio inarticulado saiu dos seus lábios. O movimento e a música prosseguiam, como se não houvesse ali nenhum ser mortal. Aqueles seres etéreos, semelhantes a sombras, deslizavam tranquilamente pelo quarto, girando e voando, até que, na mesma majestosa ordem, um atrás do outro, saíam pela janela e perdiam-se na luz da lua. Foi então que, enquanto os olhos de Glyndon os seguiam, a janela se obscureceu com algum objecto, a princípio indistinto, mas que, misteriosamente, foi suficiente para transformar, por si só, em indizível horror o prazer que o jovem experimentara até então. Este objecto foi gradualmente tomando forma. Aos olhos do inglês, parecia ser uma cabeça humana, coberta com um véu preto, através do qual luziam, com brilho demoníaco, dois olhos que gelavam o sangue nas suas veias. Nada mais se distinguia no rosto da aparição, a não ser aqueles olhos terríficos. Porém, o terror que o jovem sentia e que, a princípio, parecia irresistível, aumentou mil vezes ainda quando, após uma pausa, o fantasma entrou devagar no interior do quarto. A nuvem ia-se dissipando à medida que a aparição se aproximava. As lâmpadas empalideciam e tremeluziam inquietas, como tocadas pelo sopro do fantasma. O corpo e o rosto ocultavam-se debaixo de um véu, porém, pela sua forma, adivinhava-se que era uma mulher, embora não se movesse como fazem as aparições que imitam os vivos. Parecia antes arrastar-se como um enorme réptil. Ao aproximar-se da mesa onde se encontrava o místico volume, deteve-se e agachou-se, fixando novamente o olhar, através do ténue véu, sobre o temerário invocador. O pincel mais fantástico e mais grotesco dos monges pintores medievais, ao retratar o demónio infernal, não teria sido capaz de lhe dar o aspecto tão maligno e horrível que se via nesses olhos aterrorizantes. O corpo do fantasma era tão preto, impenetrável e indistinguível, que lembrava uma monstruosa larva.

Porém, aquele olhar ardente, tão intenso, tão lívido e, não obstante, tão vivo, tinha em si algo que era quase humano na sua máxima expressão de ódio e escárnio, algo que revelava que a horripilante aparição não era um mero espírito, mas que tinha bastante matéria para, pelo menos, apresentar-se mais terrível e ameaçadora, como inimiga dos seres humanos encarnados. Glyndon, estarrecido e apavorado, parecia querer agarrar-se às paredes... Os seus cabelos eriçaram-se, os olhos pareciam querer saltar-lhe das órbitas e não se apartaram dos olhos reluzentes do fantasma. Por fim, este falou, com uma voz que falava mais à alma do que ao ouvido:

Entrou na região imensurável. Eu sou o Espectro do Umbral. O que quer de mim? Não responde? Teme-me? Não sou eu a sua amada? Acaso não tem sacrificado por mim os prazeres da sua raça? Quer ser sábio? Em possuo a sabedoria dos séculos inumeráveis. Venha, beije-me, oh querido mortal!

E enquanto o horroroso fantasma dizia estas palavras, arrastava-se cada vez mais para perto de Glyndon, até que se pôs a seu lado, tão próximo que o jovem sentiu no seu rosto o alento do espectro. Soltando um agudo grito, caiu, desmaiado, no chão, e nada mais soube do que ali se passara, pois quando, ao meio-dia do dia seguinte, voltou a si e abriu os olhos, encontrou-se na sua cama. Os raios do sol entravam-lhe no quarto através das persianas da janela e Mestre Paolo, junto ao seu leito, limpava a carabina e associava uma alegre canção calabresa.

(In Sir Edward Bulwer-Lytton, Zanoni, Zéfiro, 1.ª Edição, 2009, pp. 275-277).



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