Escrito por Sir Edward Bulwer-Lytton
«Bulwer
Lytton, erudito genial, célebre em todo o Mundo pela sua narrativa Os Últimos Dias de Pompeia, não esperava
sem dúvida que um dos seus romances, dezenas de anos mais tarde, inspirasse na
Alemanha um grupo místico pré-nazi. No entanto, em obras como A Raça que nos há-de suplantar ou Zanoni, pretendia aludir às realidades
do mundo espiritual, e mais especialmente do mundo infernal. Considerava-se um
iniciado. Através da efabulação romanesca exprimia a certeza de que existem
seres dotados de poderes sobre-humanos. Esses seres suplantar-nos-ão e
conduzirão os eleitos da raça humana a caminho de uma formidável mutação.
É
preciso prestar atenção a esta ideia de mutação de raça, pois viremos a
encontrá-la em Hitler, e ainda se não extinguiu. É preciso também dar atenção à
ideia dos “Superiores Desconhecidos”. Encontramo-la em todas as místicas negras
do Oriente e do Ocidente. Habitando debaixo da terra ou vindos de outros
planetas, gigantes semelhantes a esses que dormiriam sob uma carapaça de ouro
nas criptas tibetanas, ou então presenças informes e terrificantes, tais como
as descrevia Lovecraft, esses "Superiores Desconhecidos" evocados nos ritos
pagãos e luciferinos existirão realmente? Quando Machen fala do mundo do Mal, “cheio
de cavernas e de habitantes crepusculares”, é ao outro mundo, àquele onde o
homem toma contacto com os “Superiores Desconhecidos”, que se refere, como
discípulo da Golden Dawn. Parece-nos
certo que Hitler partilhava dessa crença. Mais: que ele pretendia ter a
experiência de contactos com os “Superiores”.
(...)
Não temos a loucura de pretender explicar a história por meio das sociedades
iniciáticas. Mas veremos, curiosamente, que tudo teve importância e que,
através do nazismo, foi “o outro mundo” que exerceu autoridade sobre nós
durante alguns anos. Ficou vencido. Mas não morreu, nem do outro lado do Reno,
nem noutros sítios. Isso não é horroroso, a nossa ignorância é que é horrorosa.
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| Samuel Liddell MacGregor Mathers |
Já
fizemos notar que Samuel Mathers fundara a Golden
Dawn. Mathers pretendia estar em comunicação com esses “Superiores
Desconhecidos” e ter estabelecido os contactos em companhia de sua mulher, irmã
do filósofo Henri Bergson. Eis a seguir uma passagem do manifesto aos “Membros
da segunda ordem”, que ele escreveu em 1896:
“A respeito desses Chefes Secretos, aos quais me refiro e de que recebi as instruções da Segunda Ordem que vos comuniquei, nada vos posso dizer. Nem sequer sei os seus nomes terrenos e só muito raramente os vi com os seus corpos físicos... Eles encontram-se fisicamente no tempo e no lugar antecipadamente fixados. Na minha opinião, creio que são seres humanos que habitam a Terra, mas que possuem poderes terríveis e sobre-humanos... As minhas relações físicas com eles mostraram-me quão difícil é para um mortal, por muito evoluído que seja, suportar-lhes a presença. Não quero dizer que, durante esses raros encontros que com eles tive, o efeito em mim produzido tenha sido o de depressão física intensa que se segue à perda do magnetismo. Pelo contrário, sentia-me em contacto com uma força tão terrível que só a posso comparar ao efeito provocado numa pessoa que esteve perto de um relâmpago durante uma violenta trovoada, acompanhado por uma grande dificuldade em respirar... À prostração nervosa de que falei juntavam-se suores frios e perdas de sangue pelo nariz, boca e, por vezes, pelos ouvidos.”
Hitler
conversava um dia com Rauschning, chefe do governo de Dantzig, a respeito do
problema da mutação da raça humana. Rauschning, que não possuía a chave de tão
estranha preocupação, interpretava as frases de Hitler como frases de um
criador de gado que procurasse melhorar o sangue alemão.
“Mas
não pode fazer outra coisa senão auxiliar a natureza, dizia ele, abreviando o
caminho a percorrer! É preciso que a própria natureza lhe dê uma nova
variedade. Até agora, só raramente o criador obteve bons resultados, em relação
à espécie animal, no desenvolvimento das mutações, quer dizer, em criar ele
próprio novos caracteres.
–
O homem novo vive entre nós! Já chegou! – exclamou Hitler em tom triunfante. –Isto
não lhe basta? Vou dizer-lhe um segredo. Eu vi o homem novo. É intrépido e
cruel. Tive medo diante dele.
“Ao
pronunciar estas palavras, acrescenta Rauschning, Hitler tremia num ardor
extático”.
E
Rauschning conta também esta cena estranha, a respeito da qual se interroga em
vão o doutor Achille Delmas, especialista de psicologia aplicada. De facto,
neste caso, a psicologia não se aplica:
“Uma
pessoa da intimidade de Hitler disse-me que ele acorda durante a noite soltando
gritos convulsivos. Pede socorro, sentado na beira da cama, como que
paralisado. É possuído por um pânico que o faz tremer a ponto de sacudir a
cama. Profere vociferações confusas e incompreensíveis. Arqueja como se
estivesse a sufocar. A mesma pessoa relatou-me uma dessas crises com pormenores
em que me recusaria a acreditar se a fonte não fosse de tanta confiança. Hitler
estava de pé no seu quarto, cambaleante, olhando em redor com ar desvairado. “É
ele! É ele! Ele esteve aqui!”, gemia. Os lábios tremiam-lhe. O suor escorria
abundantemente. De súbito pronunciou números sem qualquer sentido, depois
palavras, restos de frases. Era pavoroso. Empregava termos curiosamente
reunidos, absolutamente extraordinários. Depois, novamente, voltara a ficar
silencioso, mas continuara a mexer os lábios. Tinham-no então friccionado, e
fizeram-no tomar uma bebida. Depois, subitamente, berrou: “Ali, ali no canto!
Está ali!”. Batia com o pé no chão e soltava gritos. Tranquilizaram-no
dizendo-lhe que nada se passava de anormal, e ele acalmou-se pouco a pouco. Em
seguida, dormira várias horas e voltara a ser quase normal e suportável”.
Deixamos ao leitor o cuidado de comparar as declarações de Mathers, chefe de uma pequena sociedade neopagã do fim do século XIX, e os ditos de um homem que, no momento em que Rauschning os coligia, se preparava para lançar o mundo numa aventura que provocou vinte milhões de mortos. Pedimos-lhe que não despreze esta comparação e a sua lição, a pretexto de que a Golden Dawn e o nazismo são, aos olhos do historiador razoável, coisas completamente diferentes. O historiador é razoável, mas a história não o é. São as mesmas crenças que animam os dois homens, as suas experiências fundamentais são idênticas, a mesma força os impele. Pertencem à mesma corrente de pensamento, à mesma religião. Essa religião ainda não foi verdadeiramente estudada. Nem a Igreja, nem o racionalismo, que é outra igreja, o permitiram. Nós entramos numa época do conhecimento na qual tais estudos se tornarão possíveis porque a realidade desvendará a sua faceta fantástica e ideias ou técnicas que nos pareciam anormais, desprezíveis ou odiosas, apresentar-se-ão úteis para a compreensão de um real cada vez menos tranquilizador.»
Louis Pauwels e Jacques Bergier («O Despertar dos Mágicos»).
O Espectro do Umbral
“Vês
que guarda está sentado no vestíbulo? Que face vigia o umbral?”
A Eneida, liv. VI, 574
Noite
profunda. Tudo no velho castelo repousa... Um silêncio sepulcral reina sob as
pálidas estrelas.
É
o tempo propício. Mejnour, com a sua sabedoria austera. Mejnour, o inimigo do
amor. Mejnour, cujos olhos saberão ler no seu coração, negar-lhe-á os segredos
prometidos, porque o belo semblante de Filida perturba essa existência. Mejnour
virá amanhã! Aproveite esta noite! Não tenha medo! Agora ou nunca! Assim, o
intrépido jovem... intrépido, a despeito de todos os seus erros... Assim, com
pulso firme, a sua mão abre de novo a porta vedada.
Glyndon colocou a sua lâmpada ao lado do livro, que ainda ali estava aberto. Virou uma folha e outras, mas sem poder decifrar o seu significado, até que chegou ao seguinte trecho:
“Quando, pois, o discípulo está desta maneira iniciado e preparado, deve abrir a janela, acender as lâmpadas e humedecer as suas fontes com o elixir. Mas que tenha o cuidado de não se atrever a tomar muita coisa do volátil e fogoso espírito. Prová-lo, até que, por meio de repetidas inalações, o corpo se tenha acostumado gradualmente ao estático líquido, é buscar, não a vida, mas sim a morte.”
Glyndon
não pôde avançar mais nas suas instruções, pois as cifras estavam de novo
mudadas. O jovem pôs-se a olhar fixa e seriamente à sua volta, dentro do
quarto. Os raios da lua entraram silenciosamente através da cortina quando a
sua mão abriu a janela, e assim que a sua misteriosa luz se fixou nas paredes e
no solo da habitação, parecia como se tivesse entrado nela um poderoso e melancólico
espírito. Depois, preparou as nove lâmpadas místicas no centro do quarto, e
acendeu-as uma a uma. De cada uma delas brotou uma chama azul prateado,
espalhando no aposento um resplendor tranquilo, mas ao mesmo tempo deslumbrante.
Esta luz foi-se tornando, pouco a pouco, mais suave e mais pálida, enquanto uma
espécie de fina nuvem parda, semelhante a uma névoa, se espalhava gradualmente
pelo quarto. E, subitamente, um frio agudo e penetrante invadiu o coração do
inglês e estendeu-se por todo o seu corpo, como o frio da morte. O jovem,
conhecendo instintivamente o perigo que corria, quis andar, mas só o conseguiu
com grande dificuldade, porque as suas pernas tinham-se tornado rígidas como se
fossem de pedra. No entanto, ainda pôde chegar à prateleira onde estavam os
vasos de cristal. Apressadamente inalou um pouco do maravilhoso espírito, e
lavou as suas fontes com o cintilante líquido. Então, a mesma sensação de
vigor, juventude, alegria e leveza etérea que tinha sentido pela manhã
substituíram instantaneamente o entorpecimento mortal que um momento antes lhe
invadira o organismo, pondo em perigo a sua vida. Glyndon cruzou os braços e,
impávido, esperou pelo resultado.
O
vapor tinha, agora, assumido a densidade e a aparente consistência de uma
nuvem de neve, por entre a qual as lâmpadas luziam como estrelas. O inglês via
distintamente algumas sombras que, assemelhando-se, no seu exterior, às formas
humanas, moviam-se devagar e com regulares evoluções através da nuvem. Estas
sombras eram corpos transparentes, evidentemente sem sangue e contraíam e
dilatavam-se como as dobras de uma serpente. Enquanto se moviam vagarosamente,
o jovem ouviu um som débil e baixo, porém musical, que se assemelhava a um
canto de uma inexprimível e tranquila alegria. Nenhuma dessas aparições
reparava nele. O veemente desejo que sentia de se aproximar delas, de ser nelas
incluído, de executar um daqueles movimentos de etérea felicidade – pois assim
lhe parecia que era a sensação que as acompanhava –, fez com que estendesse os
seus braços, esforçando-se por chamar, com uma exclamação, a atenção desses
seres, mas apenas um murmúrio inarticulado saiu dos seus lábios. O movimento e
a música prosseguiam, como se não houvesse ali nenhum ser mortal. Aqueles seres
etéreos, semelhantes a sombras, deslizavam tranquilamente pelo quarto, girando
e voando, até que, na mesma majestosa ordem, um atrás do outro, saíam pela
janela e perdiam-se na luz da lua. Foi então que, enquanto os olhos de Glyndon
os seguiam, a janela se obscureceu com algum objecto, a princípio indistinto,
mas que, misteriosamente, foi suficiente para transformar, por si só, em
indizível horror o prazer que o jovem experimentara até então. Este objecto foi
gradualmente tomando forma. Aos olhos do inglês, parecia ser uma cabeça humana,
coberta com um véu preto, através do qual luziam, com brilho demoníaco, dois
olhos que gelavam o sangue nas suas veias. Nada mais se distinguia no rosto da
aparição, a não ser aqueles olhos terríficos. Porém, o terror que o jovem
sentia e que, a princípio, parecia irresistível, aumentou mil vezes ainda
quando, após uma pausa, o fantasma entrou devagar no interior do quarto. A
nuvem ia-se dissipando à medida que a aparição se aproximava. As lâmpadas
empalideciam e tremeluziam inquietas, como tocadas pelo sopro do fantasma. O
corpo e o rosto ocultavam-se debaixo de um véu, porém, pela sua forma,
adivinhava-se que era uma mulher, embora não se movesse como fazem as aparições
que imitam os vivos. Parecia antes arrastar-se como um enorme réptil. Ao
aproximar-se da mesa onde se encontrava o místico volume, deteve-se e
agachou-se, fixando novamente o olhar, através do ténue véu, sobre o temerário
invocador. O pincel mais fantástico e mais grotesco dos monges pintores medievais,
ao retratar o demónio infernal, não teria sido capaz de lhe dar o aspecto tão
maligno e horrível que se via nesses olhos aterrorizantes. O corpo do fantasma
era tão preto, impenetrável e indistinguível, que lembrava uma monstruosa
larva.
Porém,
aquele olhar ardente, tão intenso, tão lívido e, não obstante, tão vivo, tinha
em si algo que era quase humano na sua máxima expressão de ódio e escárnio,
algo que revelava que a horripilante aparição não era um mero espírito, mas que
tinha bastante matéria para, pelo menos, apresentar-se mais terrível e
ameaçadora, como inimiga dos seres humanos encarnados. Glyndon, estarrecido e apavorado,
parecia querer agarrar-se às paredes... Os seus cabelos eriçaram-se, os olhos
pareciam querer saltar-lhe das órbitas e não se apartaram dos olhos reluzentes
do fantasma. Por fim, este falou, com uma voz que falava mais à alma do que ao
ouvido:
Entrou
na região imensurável. Eu sou o Espectro do Umbral. O que quer de mim? Não
responde? Teme-me? Não sou eu a sua amada? Acaso não tem sacrificado por mim os
prazeres da sua raça? Quer ser sábio? Em possuo a sabedoria dos séculos
inumeráveis. Venha, beije-me, oh querido mortal!
E enquanto o horroroso fantasma dizia estas palavras, arrastava-se cada vez mais para perto de Glyndon, até que se pôs a seu lado, tão próximo que o jovem sentiu no seu rosto o alento do espectro. Soltando um agudo grito, caiu, desmaiado, no chão, e nada mais soube do que ali se passara, pois quando, ao meio-dia do dia seguinte, voltou a si e abriu os olhos, encontrou-se na sua cama. Os raios do sol entravam-lhe no quarto através das persianas da janela e Mestre Paolo, junto ao seu leito, limpava a carabina e associava uma alegre canção calabresa.
(In Sir Edward Bulwer-Lytton, Zanoni, Zéfiro, 1.ª Edição, 2009, pp. 275-277).

















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