Escrito por Álvaro Ribeiro
«O
positivismo, que é uma das mais rigorosas ortodoxias, entre aquelas que parecem
asseguradas pela uniformidade de argumentação, não pode inteiramente anular a
atitude pessoal de cada um dos seus seguidores. Diferentes atitudes foram
tomadas para com a obra de Augusto Comte pelos próprios discípulos franceses, e
a divergência doutrinal chegou a exprimir-se nas opostas escolas de Laffite e de
Littré. Entre os positivistas das outras nacionalidades europeias a doutrina
foi sofrendo interpretações diversas até gradualmente se confundir com aqueles
sistemas filosóficos que mais consentâneos parecem com as tradições culturais e
com os hábitos dos povos.
Não
é, pois, lícito dizer de tal ou tal escritor que foi ou não positivista, apenas
porque a sua obra condiz com a definição de positivismo que se encontra nos
compêndios escolares. Com efeito, se definirmos o positivismo pela atitude de
recusa à metafísica, conforme é corrente em livros franceses, dificilmente
encontraremos discípulo de Augusto Comte que quadre perfeitamente na
classificação. Com a fácil crítica de que sempre a metafísica subjaz no
pensamento filosófico, poderíamos concluir que não houve verdadeiros
positivistas em Portugal.
Enumerar
os principais positivistas, desde Teófilo Braga a Alfredo Pimenta, deixando o
leitor na convicção de que todos esses escritores deram aos mesmos problemas as
mesmas soluções, seria simplificar de maneira contrária à verdade. As
semelhanças interessam menos do que as diferenças quando se trata de averiguar
em que medida foi autêntico e profundo o positivismo português. O historiador
terá, por isso, que efectuar um trabalho difícil, minucioso e, por vezes, de
resultados pouco compensadores.
Em
nota a uma página da sua História das
Ideias Republicanas em Portugal, publicada em 1880, já Teófilo Braga dizia
serem positivistas muitos dos mais ilustres professores e escritores. Entre
eles menciona nominalmente os seguintes: "Drs José Falcão, Bernardino Machado,
Correia Barata, Zeferino Cândido, Emídio Garcia, na Universidade de Coimbra;
Rodrigues de Freitas, Alexandre da Conceição, Consiglieri Pedroso, Alves da
Veiga, Ramalho Ortigão, Bento Moreno, Júlio de Matos, Pedro Gastão Mesnier,
Laborde Barata, Teixeira Bastos, Vicente Pinheiro, Dr. Alves de Sá, Bettencourt
Raposo, Horácio Ferrari, Dr. Augusto Rocha, João Diogo, Moreira de Sousa, J.
A. Vieira". Nem todas estas então ilustres personalidades se dedicaram, com
competência e vagar, a assuntos de filosofia.
No
seu trabalho tão prestimoso Para a
História da Filosofia em Portugal, em que explica e justifica o ensaio de bibliografia que tem servido a
várias gerações de estudiosos, Fidelino de Figueiredo escreve: "...o sr. Teófilo
Braga torna-se chefe de um grupo pertinaz que porfiará em propugnar o
positivismo, não só como filosofia, mas como política e como culto cívico. A
revista de Coimbra, O Instituto, é o
repositório preferido para os escritos de filosofia, mas os comtistas
reunindo-se fundam o seu orgão próprio, O
Positivismo, que durou de 1878 a 1882. Ali colaboram Teófilo Braga,
Teixeira Bastos, seu discípulo dilecto, Júlio de Matos, Consiglieri Pedroso,
Augusto Rocha, Bettencourt Raposo e Cândido de Pinho. Comteana foi também a
orientação de outras revistas, como a Era
Nova e a Revista de Estudos Livres.
O fisiologismo entra em moda como doutrina psicológica e surgem os primeiros
estudos de sociologia, sob o estímulo do sistema de Comte. Albino Geraldes apresenta
uma condensação do darwinismo; e o materialismo, não prudentemente como método,
mas unilateral e intolerantemente como filosofia, invade os espíritos e domina
o ensino secundário reformado em 1882 e 1895; não o ensino superior porque a
escola de D. Pedro V, com Sousa Lobo e depois com Jaime Moniz, constituiu um
reduto do espiritualismo. E de lá saiu a reacção, depois chefiada pelo Prof.
Manuel Ferreira Deusdado" [Fidelino de Figueiredo – Estudos de Literatura – Quarta série – Lisboa, 1924 – Págs. 125-126].
Vê-se,
pois, que grande foi o número de personalidades ilustres que deliberada ou
involuntariamente acompanhavam o apostolado de Teófilo Braga. A dificuldade,
para o historiador, está exactamente em arrancar do esquecimento alguns nomes
dignos de sobrevivência e em escolher, entre os mais conhecidos, aqueles que
devem figurar em primeiro plano. Confessamos não ter vencido essa dificuldade e
limitamo-nos a desenvolver o que sobre os positivistas portugueses encontramos
no livro do ilustre professor Fidelino de Figueiredo.
(...)
A polémica entre o espírito teológico e o espírito jurídico, embora nem sempre
apareça com a evidência desejável para elucidação dos historiadores, agrava-se
notavelmente depois da Idade Média. A
filosofia de Kant, que representa a conclusão e o remate da Idade Moderna, não
pode ser compreendida senão como vitória da razão iluminista sobre o pensamento
especulativo, vitória depois em política representada pela legislação
napoleónica. O romantismo anglo-germânico, isto é, o que de novo o pensamento
filosófico exprime no século XIX, para defender e exaltar a liberdade dos
homens e dos povos, recorre inevitavelmente às tradições étnicas e religiosas.
(...)
Teixeira Bastos foi aluno de Teófilo Braga no Curso Superior de Letras. Grato
pelo ensino do mestre, o discípulo manifestou, na vida pública, raros
sentimentos de fidelidade ao pensador que seguia e admirava. Teixeira Bastos
foi, por isso, o maior auxiliar de Teófilo Braga na divulgação do positivismo.
Vemos
os nomes de mestre e discípulo na direcção de revistas que substituíram e
continuaram O Positivismo. Mantiveram
A Era Nova e a Revista de Estudos Livres como excelentes meios de propaganda do
positivismo entre os espíritos de escol. De 1881 em diante, com a fundação de O Século, de que Sebastião de Magalhães
Lima foi director e Teixeira Bastos redactor efectivo, o positivismo passou a
ser difundido entre as classes menos cultas.
(...)
Teixeira Bastos, não satisfeito com a influência do Curso Superior de Letras,
pretendia que também nos liceus o ensino fosse integralmente positivista.
Escreveu, por isso, algumas críticas aos compêndios de filosofia adoptados no
seu tempo, utilizando sempre o argumento de que os autores não conheciam de
leitura directa a obra de Augusto Comte. Mas o seu intento era mais radical,
preconizava que a disciplina de filosofia fosse eliminada do plano das escolas
de ensino secundário.
A disciplina de filosofia, tal como era então ministrada, parecia aos olhos dos positivistas uma sobrevivência da velha teologia e da retardatária metafísica, enfim, uma inútil e prejudicial disciplina adjacente no quadro do liceu que já era inteiramente positivista quanto ao ensino das ciências e das letras. Se consultarmos a bibliografia de Ferreira Deusdado, que neste particular é mais completa do que a de Fidelino de Figueiredo, e, também, os sucessivos programas do ensino liceal, verificaremos que, na disciplina de filosofia, nunca chegou a ser oficialmente imposta a ortodoxia de Augusto Comte. Nem sequer durante os anos em que a ideologia triunfante poderia dominar todos os serviços do Estado, conseguiram os positivistas que nos liceus a filosofia fosse eliminada, ou substituída pela sociologia, de acordo com o plano de unificação dos conhecimentos humanos.
A
tradição liberal resistiu à corrente socialista. Manteve-se o preceito de que o
ensino da filosofia é indispensável nas escolas que os governos liberais haviam
instituído com o nome de liceus. Digno de observação é, porém, que tal ensino, indispensável
aos alunos encaminhados para os cursos superiores, não foi ministrado aos
estudantes das escolas técnicas e profissionais.
Teixeira
Bastos, reconhecendo dificuldade de fazer valer suas opiniões de pedagogista,
decidiu-se a neutralizar com este trabalho a má influência dos professores do
liceu. Escreveu um livro de divulgação com o aspecto de compêndio escolar.
Completava, pois, com o livro didáctico, a propaganda jornalística.
Referimo-nos,
assim, à célebre obra Princípios de
Filosofia Positiva –, extraídos do Curso de Filosofia Positiva de Augusto
Comte, – que foi publicada em dois volumes pela Livraria Magalhães Moniz, do
Porto, em 1883. O primeiro volume começa por um livro intitulado Preliminares, dividido em dois capítulos
que tratam de "Considerações gerais sobre a filosofia positiva e da Hierarquia
das Ciências", e contém os livros referentes às ciências matemática, astronomia, física, química e biologia. O
segundo volume é quase todo dedicado à sociologia
e termina por um livro de "Conclusões gerais".
Este
trabalho, fundamentalmente de divulgação, aparece porém associado a intuitos
políticos que o autor legitima através de longas considerações históricas.
Depois de se referir a acontecimentos contemporâneos, escreve: "Sob o aspecto
científico e sob o aspecto filosófico, Portugal recebe, cada vez com a maior
intensidade, os raios fecundantes do saber positivo, que se desenvolve nos
países estrangeiros, se pelo seu lado não contribui com trabalhos decisivos
sobre qualquer ramo dos conhecimentos humanos" [Teixeira Bastos – Princípios de Philosophia Positiva –
Lisboa, 1883 – 1.º volume, p. XIX].
Não
satisfeito com essa luz vinda do exterior, Teixeira Bastos escreve mais
adiante, para justificar o seu trabalho de divulgador: "Temos tido por vezes o
desgosto de constatar que alguns dos positivistas portugueses só conhecem
Augusto Comte pelos trabalhos de Littré e de outros autores franceses,
citando-o em segunda mão, o que os leva a cair em contradições desastradas. Por
outro lado os excelentes resumos de Miss Martineau, de De Blignières e de Jules
Rig, mais espalhados do que a obra grande, são contudo pouco conhecidos em
Portugal, onde o positivismo se tem propagado quase nominalmente" [Idem – Pág. XXXV].
Esta observação pessimista denuncia a falta de ortodoxia e até de disciplina partidária entre os positivistas portugueses. Quanto a nós, ela confirma o que dissemos sobre o desinteresse pela filosofia da história, e pela filosofia da política, entre aqueles que começam a opor o cientismo, criteriosamente agnóstico, ao materialismo, doutrina metafísica. Raros eram, pois, os que acompanhavam na integridade da doutrinação o pensamento de Teófilo Braga.»
Álvaro Ribeiro («Os Positivistas»).
«Nas
suas conferências doutrinais de Lisboa, em 1922, e do Funchal e de Coimbra, em
1925, Oliveira Salazar sustentara que o Estado, ainda que o não quisesse, não podia deixar de ter um conteúdo
ideológico, moral, doutrinário. E na sua entrevista às Novidades, de 1 de Maio de 1929, o ministro desvendara os grandes
princípios que propunha à ditadura: inventariar os vícios e os erros da
sociedade portuguesa, e extirpá-los; destruir a mentira, a hipocrisia e a
injustiça social na vida colectiva; liquidar os decadentes que se revelassem
incapazes de regeneração; retomar as grandes linhas da civilização cristã e
latina; afirmar um nacionalismo extremado; e caldear nesta visão todos os
materiais vivos do país, e todos os homens, sem curar se provinham das
direitas, das esquerdas ou do centro. Em fórmulas singelas, e acaso herméticas,
era um vasto programa. E subentendia pelo menos estes conceitos básicos:
fomentar riqueza, para resolver o problema económico; nivelar as classes,
mantendo-as sem privilegiar nenhuma, para resolver o problema social; abolir os
partidos e cristianizar o Estado, para resolver o problema político. Sem que
alguém se apercebesse, Oliveira Salazar retoma as encíclicas de Leão XIII; e,
fazendo-as reverdecer e remoçar, mergulha nas raízes ideológicas que são as
suas desde os tempos do Colégio da Via
Sacra, do CADC, do Imparcial, e
da nova escola de Coimbra, proclamada
pelo Padre Gonçalves Cerejeira havia uma dúzia de anos. Fora um caminho
ideológico e doutrinal para o 28 de Maio:
e é uma revolução. Desejava-se esta, sem dúvida. Mas ao cabo de três anos e
meio, a ditadura ainda procura como realizá-la. Num aspecto havia acordo entre
os homens da nova situação: não se fizera o 28
de Maio para que, depois de esforços e sacrifícios, se regressasse ao passado.
E no entanto, quando se interrogavam sobre o futuro, esbarravam no vácuo
ideológico: sob o ponto de vista doutrinal, era indigente a ditadura. Oliveira
Salazar indica a maneira de preencher esse vazio: e surge competente, lúcido,
íntegro, severo: e impelido por uma fé, animado por certezas íntimas, servido
por vontade sem quebras, sabia muito bem o que queria e para onde ia.
Porque
revolucionária, é radical esta posição. Suscitava apoio, e mesmo entusiasmo, em
largas camadas do país. Além da opinião pública, davam-lhe a sua adesão, antes
de mais, os militantes católicos, os conservadores liberais, os republicanos
moderados. Mercê da actuação de Carmona, as forças armadas mantinham-se fiéis à
ditadura. E também a aceitavam muitos monárquicos. Mas avultava igualmente a
oposição. Em círculos militares restritos, sobretudo entre os oficiais
comprometidos na situação anterior, não deixava de se perguntar com insistência
crescente para onde se ia. A alta roda económica e financeira, que receara os
tumultos e a insegurança, e uma vez que julgava estarem restabelecidos a ordem
e o crédito, hesitava em aplaudir um estado de coisas que vinha cercear os seus
privilégios, contrariar os seus hábitos, retirar-lhe posições. E opunham-se por
fim todos os saudosistas, os democráticos, os parlamentaristas, os partidários
de uma revolução vinda da esquerda.
Destes
últimos provinha o combate mais aguerrido. Não haviam desaparecido todos os
grandes chefes do regime anterior. Mas muitos estavam inutilizados, ou
exilados, ou dispersos. Manuel Teixeira Gomes, antigo Presidente da República,
expatriara-se voluntariamente, minado de desgosto e frustração; vivia isolado
na Argélia, na cidadezinha de Bougie; abeirava-se dos setenta anos; era um
ático, um clássico, um esteta; e reeditava o seu Agosto Azul, escrevia os seus
Regressos, dirigia Cartas a Columbano,
elaborava as suas Novelas Eróticas.
Brito Camacho, acaso o maior homem de Estado potencial do seu tempo, dobrava a
esquina dos sessenta e sete, e aposentara-se politicamente: compunha volumes de
memórias e dedicava-se à ficção em Gente
Vária e Cenas da Vida. João
Chagas, homem ardente e jornalista de nervo e turbulento, está morto há quatro
anos; António José de Almeida, o grande tribuno romântico e ingénuo,
encontrava-se gravemente enfermo; Álvaro de Castro falecera havia pouco; e
Teófilo Braga, patriarca das letras, do socialismo, e da república, tinha
morrido pelos inícios de 1924, desenganado dos homens, da vida, das
instituições. Mas outros grandes nomes mantinham-se activos. Bernardino
Machado, duas vezes Presidente da República, abeirava-se dos setenta e oito
anos; permanecia activo, todavia; e da sua casa de Beyris, no sul de França,
escrevia, conspirava, intrigava. Afonso Costa está exilado em Paris: atrás de
si, em Portugal, deixara um rasto de devoção fanática nalguns e de ódio cego
noutros: ainda relativamente novo, com escassos cinquenta e oito anos, exerce
advocacia entre Londres, Bruxelas e Paris: e do seu quarto do Hotel Vernet, ou
do seu escritório no Boulevard Malesherbes e depois no Faubourg de
Saint-Honoré, desenvolve uma incansável diligência política para restauração da
república parlamentar. Norton de Matos, antigo ministro da Guerra e
alto-comissário em Angola, vai nos sessenta e dois anos: e está exilado em
Londres. E igualmente irrequietos se encontram no estrangeiro outros vultos
democráticos mais novos: José Domingues dos Santos, que fora chefe do governo
entre 1924 e 1925; Jaime Cortesão, nos seus quarenta e cinco anos, poeta,
deputado, intelectual de primeira grandeza; António Sérgio, apenas um ano mais
velho, ensaísta, pensador, nacionalista pedagógico [Quando director da
Biblioteca Nacional, Jaime Cortesão reunia habitualmente no seu gabinete um
núcleo de amigos: António Sérgio, Raul Proença, Aquilino Ribeiro, entre outros.
Esse grupo, que pelo alto talento dos seus membros exerceu grande influência
intelectual e mental, ficou conhecido pelo grupo
da biblioteca, e encontrou a sua expressão política, literária e ideológica
na Seara Nova]; Jaime de Morais, médico, oficial de Marinha, antigo
governador-geral da Índia, e que habitava em Madrid; e outros ainda, de menor
nomeada. Mas se todos estes se encontravam dispersos pelo estrangeiro, ou em
contactos a distância, ou em reuniões ocasionais, outros permaneciam em
Portugal. Cunha Leal, nascido como Salazar em 1889, chefiava a União Liberal
Republicana, reivindicava o retorno ao parlamentarismo sem os excessos
anteriores: mas era um moderado, um homem de lei e ordem: e dirigia o Banco de
Angola. E Sá Cardoso, antigo chefe do governo; Adalberto de Sousa Dias, oficial
distinto; Hélder Ribeiro, que fora ministro da Guerra e da Instrução; Rego
Chaves, que ocupara as Finanças: todos se viam afastados dos seus postos de
oficiais, mas não abandonam a oposição. Nesta atitude eram acompanhados por
outros, desde Álvaro Poppe a Prestes Salgueiro, desde João Soares a Sarmento
Beires, desde Agatão Lança a Utra Machado. E todos se mantinham fiéis a
convicções de que não abdicam, a uma luta em que não cedem, até a sacrifícios
de que não se eximem.
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| Gomes da Costa no 28 de Maio de 1926. Ver aqui e aqui |
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| Oliveira Salazar e o Marechal Gomes da Costa |
Simplesmente, estes homens nada possuem agora para oferecer ao país. Propunham de novo um projecto antigo: o regresso ao regime de assembleia. Mas fora este que precisamente conduzira ao 28 de Maio. Para mais, aqueles homens não assumiam, nem o dever lho impunha, a responsabilidade pessoal por erros praticados e vícios permitidos. Todavia, não tomando essa atitude, estavam por esse modo responsabilizando as instituições e a estrutura do Estado. Tornava-se portanto inviável, porque não encontraria aceitação, dar ao país o que este repudiara havia pouco. Também não podiam apresentar-se num rumo político considerado direitista: porque justamente as direitas, desde o início, haviam chamado a si a ditadura: e portanto, se o tentassem, não teriam crédito na opinião pública ou estariam a aderir à situação ditatorial. Desta forma, e com a repugnância de muitos, das suas reuniões de exílio, e dos golpes e conspirações que procuravam concertar com elementos do interior do país, emergia um esboço de república que, se triunfante, caminharia rapidamente para a extrema-esquerda, porque apenas em forças deste matiz político encontraria decidido apoio. Este facto tornava-se patente: e daqui resultava, por outro lado, que algumas forças conservadoras e centristas, que recusavam o seu aplauso à ditadura, não o davam também ao aliciamento que de fora os homens antigos procuravam organizar. Era o caso típico dos monárquicos: uma parte estava com a ditadura, na esperança de que esta repusesse o trono: outra parte, sem essa esperança, mantinha-se alheia, ou até a hostilizava, sem no entanto enfileirar com os homens do sistema anterior. E assim, se o governo ditatorial mantivesse a sua firmeza, administrasse com competência, e formulasse um novo esquema político nacional, poderia condenar ao esgotamento e ao insucesso os adversários».
Franco
Nogueira («Salazar – Os tempos áureos – 1928-1936», Vol. II).
O ÚLTIMO ROMÂNTICO
(1843-1924)
O
Estado Português ainda não pagou a gratidão devida a Teófilo Braga. Dizemos o Estado,
para que o substantivo maiusculado seja também concreto, e, portanto, vulnerável
à crítica mais penetrante da inteligência definida. Não dizemos a Pátria,
porque já morreram os pais dessa realidade conceitual a que os imaginários
atribuíram a perfeita, mas última, acepção de República.
Sim,
a verdade é que foi Teófilo Braga um dos
últimos «pais da Pátria». Toda a actividade espiritual desse homem obscuro,
modesto, malsinado se resume, sem receio de erro, numa série de livros que
representam cinco decénios de pensamento actual e actuante, manifestado em
lições, conferências e discursos. Ao proceder como historiador das principais
expressões da alma nacional, Teófilo Braga teve em mão milhares de documentos
sobre os quais exerceu o seu juízo analítico e reflexivo, para explicar em
termos fáceis de narrativa imaginosa a luta do nosso pensamento pátrio e
varonil contra as sucessivas invasões das
legiões estrangeiras.
Foi
certamente Teófilo Braga o último romântico, não só na acepção dada pelos
literatos em contraste com o termo clássico, mas na exactidão histórica de quem
defendeu o princípio cultural das nacionalidades, inspirado na tradição do
medievalismo. A sua posição retardatária, irreverente, fora de moda, conferiu
às páginas dos seus melhores livros uma característica que poderemos dizer
anacrónica, e que por seu tanto afasta os leitores menos pacientes e menos
diligentes. Dir-se-á que Teófilo Braga pertenceu muito mais à família
espiritual de Alexandre Herculano e Almeida Garrett do que à de Antero de Quental, Oliveira Martins e
Eça de Queirós.
Um
homem que dedicou sua vida a demonstrar a liberdade, a autonomia e a independência do pensamento português merece uma posição de relevo na história da nossa
filosofia. Foi Teófilo Braga um filósofo romântico, mas, disciplinado pelo
racionalismo de Augusto Comte, resistiu, como «homem de um só livro», aos
ataques petulantes dos literatos seus contemporâneos. A feição historicista que
imprimiu aos seus escritos de arte – produto da vontade, do sentimento e da
memória – não turvou nem obscureceu a inteligência poderosa de um génio atraído
pela estética do sublime, a ética do amor, a ideia do infinito.
Seria
inútil dizer que as obras dos homens superiores, sem excepção histórica de
Homero a José Régio, estão por vezes maculadas de erros, enganos e lapsos, se
não fosse vulgar, banal, superficial apontar os deslises trémulos que Teófilo
Braga deixou nos manuscritos e nos impressos. Muitos dos livros teofilinos,
hoje ilegíveis, assinalam o criminoso desleixo dos editores na prática das
indústrias gráficas. Certo é, porém, que sem o exemplo do Mestre muitos dos
«críticos» das obras maiores e menores não teriam sido motivados por legítimo
espírito de emulação e de competição, enriquecendo e complicando a bibliografia
neste nosso país, onde a cultura nem sempre é inspirada pelo culto da verdade.
Desde
1872, ano em que Teófilo Braga prestou as melhores provas públicas no concurso
para professor da terceira cadeira do Curso Superior de Letras, onde foi mestre
de nacionalismo integral, começaram a surgir os émulos, os rivais e inimigos de
alguém que conseguia subir de decénio para decénio, os graus daquele trono
intelectual que culminaria na alta dignidade de presidente do governo
provisório da República Portuguesa. Como explicar, se não pela força invisível
do espírito, que ao doutrinador do pensamento republicano, assimilado por
doutores e professores, enfim, ao promotor da República, tivesse sido concedida
a justiça, rara na História Política, de ser aclamado, coroado e consagrado com
aquele símbolo de soberania e de supremacia que só o génio divinamente
inspirado merece? Se Teófilo Braga havia ensinado a sucessivas gerações de
estudantes de letras o que é o ideal republicano – ou, melhor, em que é que o
ideário republicano difere das outras ideologias políticas, convergentes ou
divergentes – lógico é admitir que a propaganda e a proclamação da República
foram devidas predominantemente a quem viveu pensando, falando e escrevendo
sempre acerca da verdade e da realidade da Pátria.
É
de assinalar que, para Teófilo Braga, o patriotismo não era apenas uma virtude
militar. O seu apelo aos oficiais do exército e da armada que não tomaram parte
na revolução é um notável documento de inteligência perspicaz e previdente. É
a escola, e não o quartel, o verdadeiro templo do patriotismo.
Proclamada
a 5 de Outubro de 1910, a República Portuguesa não foi fundamentada nem
institucionalizada na essência estrutural que havia sido teorizada por José
Félix Henriques Nogueira e doutrinada por Teófilo Braga. Excepção característica
e notável é a série de leis, decretos, portarias e despachos que o Governo
Provisório, pelo Ministério do Interior, expedia para reformar a instrução
pública, porque ela foi o produto matemático da acção inteligente dos
professores positivistas que haviam sido habilitados pelo Curso Superior de
Letras. O indefectível republicanismo de Augusto Comte, já nitidamente firmado
na legislação brasileira, assegurava a articulação coerente de um sistema de
ensino público que haveria de durar até aos nossos dias.
A
restante legislação do Governo Provisório contém já traços, indícios e
vestígios de um progressivo afastamento doutrinal dos homens que não acatavam a
lição histórica e a experiência política do Mestre e não tardaria a explodir na tripartição empírica dos
deputados eleitos ou votados.
A
verdade é que na Assembleia Nacional Constituinte venceu a nomenclatura
jurídica da Universidade de Coimbra, com sua interpretação errónea
da supremacia do poder civil, sua divisão absurda dos poderes do Estado, seu
desacerto das instituições fictícias com as estruturas reais, sua formulação
imaginária dos direitos dos cidadãos. A nova República assentaria na lealdade
militar das forças armadas, o que abriria novamente a carreira ao messianismo
dos generais, causa permanente de perturbação pública na vigência da Monarquia
liberal como da República unitária. Quem ler o diário das sessões da Assembleia
Nacional Constituinte verificará e admirará que os temas, as teses e os
teoremas da ideologia republicana eram ignorados por uns e repudiados por
outros, de modo tal que o articulado da lei fundamental da Pátria foi votado,
aprovado e redigido, por assim dizer, no zigue-zague contraditório e
beligerante.
![]() |
Ex-libris da Renascença Portuguesa, da autoria de António Carneiro |
É
de aceitar e de compreender o azedume com que Teófilo Braga falava e escrevia
acerca dos deputados e dos ministros que assumiam a responsabilidade de
administrar uma República que apresentava «contas certas e bem documentadas»,
como prova admirável da honestidade dos seus servidores, mas que, pressionada
pelos elementos reaccionários, ia a pouco e pouco deixando de ser solidária com
a Pátria, cuja fisionomia espiritual parecia já vulnerada pela invasão das
novas ideologias estrangeiras. Muitos dos «intelectuais» da Renascença Portuguesa e do Integralismo Lusitano, discordantes do
regime político que os bacharéis em Direito pela Universidade de Coimbra haviam
imposto à população republicana, viam ainda em Teófilo Braga o mestre admirável
que bem merecia ser venerado como «pai da Pátria». Mas a República já não era
uma ideia, um ideal, um ideário, uma ideologia que merecesse o respeito das
instituições de ensino público, e os estudantes já não eram, a bem dizer,
republicanos.
A
comemoração anual do 5 de Outubro, praticada de diversos modos, mas sem
interrupção pelos decénios fora, referia como «facto histórico» a eleição de
Teófilo Braga; mas reservava seus louvores para os outros ministros do Governo
Provisório, pelo que omitia, e portanto não explicava, a dedução sumária da
doutrina que promoveu o acontecimento celebrado em artigos de jornais,
conferências académicas e sessões de oratória. De notar é que os próprios
historiadores, cuja deontologia cultural obriga a respeitar a relação
filosófica de causa a efeito, originavam a proclamação da República na
actividade secreta dos carbonários, na conspiração interna dos quartéis, ou na
descida dos revolucionários civis aos tumultos da rua. Valorando ou
desvalorando o acontecimento, pondo juízos morais onde deveriam estar juízos
políticos, tanto os escritores monárquicos como os escritores republicanos,
faltavam à investigação filosófica, ensinavam erro, fraude e mentira.
O
liberalismo religioso, político e económico, brilhantemente defendido pelos
nossos mais ilustres publicistas do século XIX, perdera a força doutrinária e a
vigência intelectual ao fim de dez anos da legislação republicana. É que a
liberdade só pode ser defendida e ensinada pela filosofia. Na falta de uma
verdadeira cultura que ascenda ao supremo culto, instalam-se facilmente as
heresias que limitam, mutilam ou anulam a liberdade humana.
O
democratismo limita a liberdade para assegurar o predomínio ou o domínio, da
«maioria esmagadora» sobre a minoria resignada. Operando pela contagem de
votos, contradiz o princípio da eleição. É a tirania sem recurso nem apelo,
fixada nas tábuas intangíveis da lei constitucional.
Os
velhos republicanos repetiam a lamentação elegíaca de que «esta não é a
República que nós sonhámos», parecendo ignorar que tal sonho havia sido a
vigília de Teófilo Braga. Ouviam dizer que «o liberalismo faliu», e liam nas
abreviaturas correntes da democracia orgânica, do socialismo corporativo e da
heresia comunista o aviso claro de qualquer nova ideologia, bem escrita bem
pensada. As novas gerações entravam no século de Lenine, Mussolini e Hitler,
quando a República Portuguesa não passava já de mera fórmula administrativa ou
burocrática, lugar comum de ambições, invejas e vaidades.
![]() |
| Ver aqui |
Aconteceu
o que os monárquicos liberais calcularam, previram e profetizaram. A República,
como instituição liberal, pouco mais durou do que um decénio. Contra os
princípios liberais que legitimaram a destituição das ordens, ou das classes,
privilegiadas, para afirmação real da supremacia do poder civil, habituaram-se
os novos políticos a consentir na presidência da República um militar de
carreira, se a eleição resultasse da esmagadora maioria dos votos.
A
História da República, quando escrita por homens que nasceram depois de 1920,
baseia-se em documentos cuja verdade só as testemunhas puderam interpretar, e
enferma de preconceitos que tornam impossível a investigação imparcial do
progresso democrático, socialista e comunista que foi sendo praticado a coberto
de fraseologias, aparentemente contrárias e contraditórias, ou assentes nas
ficções jurídicas que durante todo o século XX foram ensinadas na Universidade
de Coimbra. Uma dessas ficções é a do positivismo jurídico, a qual designa a
eliminação da filosofia do direito, o que não corresponde ao Sistema de Política Positiva, elaborado
pelo filósofo Augusto Comte. Sem a leitura prévia, e propedêutica, dos
prestimosos livros de Teófilo Braga será impossível interpretar e entender a
verdade natural e sobrenatural que pode ressaltar da certeza evidenciada nos
documentos históricos.
Eis
porque nos parece lícito e oportuno solicitar a quem de direito a publicação
integral das obras de Teófilo Braga. Ninguém, como o último romântico, soube
interpretar a História do Povo Português
nos seus aspectos fonético, prosódico, versicular, ortográfico, literário,
político, científico, filosófico e religioso como o Mestre admirado, venerado e
respeitado do Curso Superior de Letras. Muitos escribas lhe corrigiram os erros,
mas nenhum foi mais sábio, porque Teófilo Braga, além de dominar a ciência do
seu tempo, possuía a qualidade de ser inteligente, que é a aptidão para
mobilizar o saber.
Tem a cidade de Lisboa, no alto do parque chamado de Eduardo VII, o lugar ainda vago para a estátua catedral de alguém que mereça a gratidão da Pátria. Várias personalidades históricas foram já designadas pelos edis ou vereadores que porventura entenderam o significado excelso da palavra Capital, mas nenhum alcaide se atreveu a decidir e a executar. Hoje todos nós compreendemos que no trono das estátuas municipais, acima do discutido Marquês de Pombal, só um filósofo como Teófilo Braga merece ser lembrado em imagem a quantos admirem as últimas belezas da Lisboa esquecida, demolida ou destruída.
Bibliografia. IN MEMORIAM DE TEÓFILO BRAGA, Imprensa Nacional, Lisboa, 1934.
(In Escola Formal, revista mensal, segundo número, Julho 1977, pp. 2-4).


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