«Ninguém identifica língua com lógica, ninguém admite que entre uma e outra haja paralelismo. A língua é em todas as culturas mais rica e mais concreta do que a lógica, a língua depende muito mais da vida emocional do que a lógica mais predisposta para a intelecção. São, por isso, relações de convergência e de divergência, que não de paralelismo, as que o estudioso poderá discernir entre a lógica e a língua.
A dissociação entre a língua portuguesa e a lógica portuguesa está evidente no ensino das disciplinas triviais. A gramática, a retórica e a dialéctica, disciplinas que directa ou indirectamente, com esta ou outra designação, sempre existem no ensino público, encontram-se no nosso país submetidas a uma nomenclatura que parece internacional por estar ainda vigente em alguns países cultos, mas que representa apenas um passado morto, quer dizer, o contrário da tradição. Entre a língua portuguesa e a lógica portuguesa está positivamente situado o obstáculo maior à autonomia da nossa cultura.»
Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).
«A contradição do universalismo abstracto
- Um dos grandes argumentos - recentemente invocado em afirmações culturais de diversa origem contra a existência das filosofias nacionais e, consequentemente da filosofia portuguesa, é o de que o pensamento é universal… O que diz o Sr. Dr. sobre este tema?
- Compreendo e respeito o ponto de vista, mas não me é possível perfilhá-lo. A simples experiência quotidiana ensina que o universal é recebido pelo espaço e pelo tempo. Além dessas limitações naturais, históricas e geográficas, existem hoje limitações técnicas, artificiais, como o falso ideal de um absurdo humanitarismo abstracto, que alguns querem impor pela força, para substituir o ideal da fraternidade universal. Ora repare que até os irmãos são diferentes.
- E quem diz irmãos...
- ... diz raças. Para os que perfilham um abstracto universalismo, será uma contradição existirem as raças humanas e as raças serem diferentes umas das outras, o que implica necessariamente uma distinção entre superiores e inferiores ou, o que é o mesmo, mais atrasadas e mais adiantadas. E dentro das raças há os povos, com as suas características étnicas.
Sabe qual é o melhor processo de combater a resistência das raças e dos povos, em vista a um qualquer totalitarismo?
- Diga, Sr. Dr. ...
- É negar-lhes o direito à existência, negar que verdadeiramente existam, negar a evidência. Ora a verdade é diferente deste paradoxo. Existem a etnografia, a etnologia e a antropologia cultural a confirmar uma verdade que resiste a todas as revoluções.»
O que convém saber hoje
A «Filosofia Portuguesa»
Em 1943, Álvaro Ribeiro publicava um opúsculo – que foi aliás o seu primeiro livro – a que deu o título de «O Problema da Filosofia Portuguesa». A tese que o livro expunha e argumentava, que era a que se exprimia no título, provocou um escândalo imediato, que se iria prolongar durante mais de uma década. Como era possível – perguntava-se – imaginar maior ousadia, ou até maior estultícia, do que essa de usar uma expressão tal «filosofia portuguesa»? Como era possível dizer, da filosofia, que é portuguesa? O espanto – logo seguido de refutações, sarcasmos e desdéns, dizia-se fundado, em primeiro lugar, num facto histórico – o de em Portugal não haver nem nunca ter havido filósofos – e, depois, na contradição, erro ou absurdo de afirmar de alguma, qualquer filosofia que era nacional. É certo, reconhecia-se, que são correntes, nos livros mais sérios e respeitáveis, expressões como filosofia francesa, filosofia inglesa, filosofia alemã. Tais expressões não passariam, porém, de simples modos didácticos e pedagógicos de dizer e nunca ninguém teria pensado que pudessem elas corresponder a um conceito, isto é, que a determinação nacional fosse uma determinação filosófica. E até um pensador, com a seriedade e a reflexão, de António Sérgio, perguntava ironicamente: «Filosofia portuguesa. Porque não, também, filosofia minhota ou algarvia?». E como a questão, no escândalo ou polémica que levantou, ocupava e perturbava a actualidade cultural, e os alunos da secção de filosofia das Faculdades de Letras forçavam os professores a terem sobre ela uma opinião, das cátedras ergueu-se, com relevo para as vozes de Vieira d’Almeida e Délio Santos, um coro de invectivas e sarcasmos que caíam, não só em cima do modesto homem que é Álvaro Ribeiro, mas também em cima dos discípulos de Leonardo Coimbra (personalidade que sempre foi o fantasmático pesadelo do ensino universitário), entre os quais se contava Álvaro Ribeiro que seguro de si, do seu pensamento e da superioridade intelectual da sua tese sobre os argumentos que contra ele dirigiam, tranquilamente os ia refutando. Mostrava que as designações correntes de «filosofia francesa» ou «inglesa» ou «alemã», não resultavam apenas de uma facilitação didáctica para o ensino da história da filosofia; antes correspondiam a características e determinações conceptuais, com valor e significado filosófico, pois alguma coisa de propriamente filosófico é comum, por exemplo, aos filósofos ingleses e os distingue do racionalismo cartesiano da filosofia francesa ou do idealismo kantista da filosofia alemã. Quanto ao argumento de que a universalidade própria da filosofia seria incompatível com o particularismo inevitável das nacionalidades, o de que os povos, como nações e estados, criam e formam decerto virtudes suas, hábitos seus, costumes e até uma ciência do direito, mas nunca puderam arrogar-se a pretensão de possuir uma filosofia só deles, uma lógica ou uma metafísica próprias, a esse argumento podia Álvaro Ribeiro responder com textos como este, de Hegel: «Se acontece que um povo tenha de renunciar, por exemplo, à ciência do seu direito político, aos seus costumes, seus hábitos e virtudes, porque tudo isso se tornou desactualizado, também pode acontecer – e o facto não é menos curioso e de ter-se em conta – que um povo tenha de abandonar a metafísica que lhe é própria…» (Hegel, prefácio à 1.º edição da «Ciência da Lógica»).
Vinha, depois, o argumento de que não se poderia falar, e muito menos pensar, numa filosofia portuguesa pelo simples e imbatível facto de em Portugal não haver filósofos. A este argumento historicista (o mais utilizado pela erudição universitária), a resposta foi, por um lado, também historicista e, por outro lado, conceptual. Com efeito, a negação da existência de filósofos entre os portugueses era, não o reconhecimento de um facto investigado, mas a confissão de uma ignorância condenável. Equivalia a dizer que em Portugal não havia literatura antes de Teófilo Braga ter feito a investigação e história dela, ou que antes da «história» de Alexandre Herculano Portugal não existia. Aliás, na época (entre 1946 e 1957), os meios culturais portugueses mais judicativos e críticos, e por isso os mais activos, entretinham-se a condenar e negar toda a afirmação que surgisse (não só filosófica como a que estamos vendo, mas literária e artística em geral) com o fundamento de uma espécie de idiossincrasia nacional que se revelava na inexistência histórica do género a que pertencia a afirmação criticada e condenada. Citava-se muito o disparate francês «les français n’ont pas la tête épique» para nos obrigarem a reconhecermos – e nos conformarmos com isso – a asserção ignara, dada como facto indiscutível, de que os portugueses não tinham «cabeça dramática» – e que seria portanto vão algum deles tentar escrever uma peça de teatro –, nem «cabeça romancista», e portanto vão tentar escrever um romance, nem «cabeça filosófica», nem «cabeça plástica», nem «cabeça musical»… Declarava-se, com todo o à-vontade, que a história da nossa cultura – reduzida aos nossos Lusíadas e a um formigueiro de líricos – nada que valesse a pena continha quanto a teatro, artes plásticas, a música. Um dos escritores mais sérios da época, José Bacelar, publicava na «Seara Nova» um opúsculo, nesse argumento falsamente histórico baseado, sobre «A inviabilidade de um Romance Português», e a sua tese utilizava-a Gaspar Simões para fundamento dos seus juízos críticos sobre os romances que iam aparecendo.
Foi a polémica sobre a «filosofia portuguesa» que veio «limpar» esta situação lamentável e tornar possível que, hoje, a propósito de Branquinho da Fonseca, de Fernando Namora ou de Cardoso Pires, já não pese essa condenação crítica, muito nacionalista, rasa e prévia, de não serem coisa nenhuma porque o romance português nunca teria sido coisa nenhuma. Ou a propósito das peças de teatro de José Régio, de Bernardo Santareno e de Orlando Vitorino. Ou da pintura de Almada Negreiros, de Vieira da Silva e de António Areal. Ou da música de Joly Braga Santos, de Álvaro Cassuto e de Jorge Peixinho. Os companheiros de Álvaro Ribeiro realizaram uma campanha decisiva contra o historicismo que, durante largas décadas, abafou e estrangulou a nossa cultura. O facto histórico é um facto morto, sem valor real, sem significado para o presente e para o futuro. Uma virtualidade é uma latência que não carece de ser patenteada para ser real. Negar uma virtualidade só porque ela ainda se não manifestou, é o estúpido atentado da ignorância contra a liberdade e a vida. Deleita-se na ciência dos mortos e é uma necrologia, o historicismo. Vive da morte, que cultua, e da ignorância que alimenta.
Mas nos mesmos domínios do historicismo, a prova desta ignorância foi entretanto feita, em rápidos sinais, por Álvaro Ribeiro, seus companheiros e discípulos. Ele próprio, num segundo opúsculo publicado, revelou a autenticidade e amplitude filosófica de um pensador já então esquecido, Sampaio Bruno; ao opúsculo de Álvaro Ribeiro, seguiram-se os livros sobre Sampaio Bruno, de Amorim de Carvalho e Joel Serrão (ambos, caso curioso, adversários da tese da filosofia portuguesa); num outro opúsculo, Delfim Santos fazia reconhecer uma tradição filosófica portuguesa, e caracterizava-a como um «constante aristotelismo»; Afonso Botelho ligava a reflexão primordial de D. Duarte com o pensamento considerado filosoficamente de Pascoaes; Orlando Vitorino elaborava e interpretava a abundante bibliografia das «Traduções Portuguesas de Filosofia»; o alemão Lothar Thomas publicava uma monumental bibliografia da filosofia portuguesa; João Ferreira apresenta, entre 1957 e 1961, uma série de propostas para servirem de fundamento à investigação, não só histórica mas especulativa da nossa filosofia, proposta que reúne no livro «Existência e Fundamentação Geral do Problema da Filosofia Portuguesa»; Pinharanda Gomes, discutindo as propostas de João Ferreira, dedica-se actualmente à elaboração de uma vasta «História da Filosofia Portuguesa».
O movimento adquiriu assim tal poder e dinamismo que, em 1961, Orlando Vitorino considerava que «o problema da filosofia portuguesa» como questão cultural, como assunto de polémica, era já anacrónico. E José Marinho, com um mais fundo sentido da ironia do que os seus adversários, podia responder-lhes, brincando: «Porque não filosofia portuguesa? Porque não laranjas em Setúbal?». Finalmente, como sempre acontece, a mesma universidade silenciou sua hostilidade sarcástica dos bons tempos de Vieira d’Almeida (hoje reduzido a veneranda memória de um grupúsculo de socialistas políticos), e admitiu o ensino catedrático da filosofia portuguesa: mas na bibliografia que recomenda aos alunos sob a epígrafe «o problema da filosofia portuguesa» não inclui as obras essenciais que são os livros de Álvaro Ribeiro nem sequer aquele que, estando na origem deste movimento, tem o mesmo título daquela epígrafe. E das regiões extra-universitárias da cultura que mais hostilizaram o movimento, um dos seus mais sérios representantes, Alberto Ferreira, reconhecia, há poucos meses, num artigo de jornal, que o grupo da filosofia portuguesa é o que de mais válido hoje existe na vida intelectual do nosso país.
Assim a «filosofia portuguesa», como motivo de polémica, está pois definitivamente esclarecida. Sua força proveio, não das discussões que provocou (nem nelas reside seu significado), não da veracidade e «importância» com que Álvaro Ribeiro viu, pensou e exprimiu o «problema», mas da sua fecundidade. Com efeito, a partir dela se constituiu uma escola de pensamento e formação filosófica, a única existente entre nós, com um magistério sem cessar exercido por Álvaro Ribeiro e José Marinho. Um magistério deambulante, de estilo grego e socrático, sem assento em cátedras e que não se encerra em instituições, mas percorre as tertúlias de café, participa em colóquios (desde os que fazem à porta fechada alguns grupos de amigos até aos que se promovem em salas de teatro cheias de espectadores), atende e orienta jovens isolados, se introduz nas aulas liceais, se projecta, como acontecia em vida de Delfim Santos, nos ambientes de estudantes universitários, até se chega a ver presente nos meios barulhentos, desconfiados e ambiciosos da política e se amplia literária e artisticamente em livros, jornais, revistas, obras de teatro, realizações plásticas e em filmes.
Álvaro Ribeiro é, hoje, como ele gosta de se chamar, um sexagenário. Tem 67 anos. Vive, como sempre viveu, muito modestamente de um secundário emprego oficial. Está todas as tardes, quase todos os serões, numa pequena leitaria da Avenida Almirante Reis. Senta-se a uma mesa com uma pasta cheia de papéis e um livro. Se alguém aparece, fecha a pasta, guarda o livro e fica a ouvir. Ouve sempre mais do que fala. Ao falar, o que diz dirige-se de um jacto ao que é essencial. Se ninguém aparece, lê e escreve. Está sempre a preparar um novo livro. Pensa como o coração bate: sem cessar.
In Jornal da Madeira, n.º 1, Funchal, Outubro, 1970, pp. 10-11 (Suplemento A Ilha).

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