domingo, 26 de dezembro de 2010

A questão das «filosofias nacionais»

Escrito por António Quadros




António Quadros


Uma questão que particularmente incomoda muitos dos nossos expositores de ideias, historiadores ou pensadores de mérito, é a da insígnia sob que conscientemente se colocaram alguns dos discípulos de Leonardo Coimbra, principalmente Álvaro Ribeiro e José Marinho, influentes na chamada geração do 57 e nalguns pensadores de gerações subsequentes: a da «filosofia portuguesa».

Pareceu-lhes insólito, ou escusado ou deturpante do carácter por assim dizer substantivo do pensamento filosófico, o acrescentar-lhe uma propriedade, uma qualidade, um adjectivo. Tudo como se no fundo concebessem que o substantivo é o nome designativo de uma substância, que, por si próprio sendo, sub-estando aos modos de estar, não admite adjectivação.

A seu ver, o substantivo de filosofia esgotaria pois o seu ser; ele, como o absoluto Ser, não teria de estar; seria um radicalmente substante ou substantivo.

Mas não é, não pode em boa lógica ser assim.

É que sendo uma actividade mental humana, fenomenológica e histórica, a filosofia não se coloca no plano da substância, mas no da estância. Ela expressa, digamos, o trânsito intelectual de estância para a substância, do ôntico para o ontológico, do particular para o uno através do universal; universal que não se pode confundir com o uno, porque é adunação para o uno, a partir do estar ou do como estar, em caminhar do plano a plano, versus unum.

Assim, o que há sob o estar, é algo, um núcleo essencial que só se pode inteligir, humanamente, no estar, em esforço mental de o transcender ou de o aproximar, embora com todos os limites impostos pelas categorias.

Ora o que é estar? O estar é, podemos dizer, o como do ser no mundo dos fenómenos, isto é, o como de ser no mundo sub-numenal. O estar é, por outro lado, o ser sujeito às categorias, o que viu antes de mais ninguém Aristóteles: lugar, tempo, situação, relação, quantidade, qualidade, hábito, acção e paixão.

Assim o que eu sou como substância, como essência (utilizemos as categorias segundo Aristóteles, porque neste contexto não carecemos de uma especial reflexão sobre elas), é o interior e também o transcendente, mas que não atinjo sem como tal me assumir e conhecer, ao meu ser modal e categorial, ou por outros palavras ao meu estar.

Assim (e releve-se o tipo das analogias empregadas) o que eu sou só se me dá através do meu estar e do meu estando: eu sou a um nível aquele que está nesta cidade, neste país (o ser-aqui de Heidegger, o lugar de Aristóteles); noutro nível, sou aquele que está nesta época, neste tempo; e aquele que está nesta determinada situação, por exemplo social, cultural, profissional; e também aquele que está numa dada relação familiar, política, associativa, etc.; e ainda aquele que está na vida como um individuado, um diferente, um eu entre muitos, mas também muitos entre muitos, porque o meu ser é simultaneamente plural e uno, heterónimo de mim próprio e homónimo, sou eu para mim, sou ele para os outros, sou nós na categoria de relação, sou também um grão de areia, unidade estatística como tal em certo plano definível; sou aquele que se qualifica pelo seu carácter, psicologia, personalidade e valor; sou aquele que não só está numa época, mas está nela durando (recordemos Bergson), exercendo uma acção permanente (tradução feita por Silvestre Pinheiro Ferreira à categoria aristotélica geralmente conhecida por hábito), isto é, afirmando uma continuidade variável mas em geral fiel a uma singular direcção; sou aquele que está segundo uma paixão ou paixões, paixão vital, paixão amorosa, paixão religiosa, paixão política, paixão de persistência na própria identidade e sua realização intensa...









Vejamos agora que se pensar é nível de ser, parte de ser, modo de ser, então não se confunde com o ser como substância, como essência: cai, pois também, sendo trânsito mental, do ser-acidental e categorial para o ser que sub-está e daqui para o ser que é, - no plano do estar.

Nestas condições, pensar não é uma parte de ser isolável das categorias ou acidentes da substância, isolável da estância, pensar participa também da estância. Não eu penso, logo sou; mas eu penso como sou e estou, ou como sou, estando; o meu pensar é um pensar-estar, por muito que seja um pensar, na filosofia, possuído da paixão de saber, que é paixão de ultrapassar as condições categoriais, de transcender o estar e atingir a substância, o que sub-está e daí o o que é e ultimamente O que é, o Ser sem relativo, a que os religiosos chamam Deus. Mas aos humanos só foi dado, só é porventura dado, pese à ilusão do progresso científico totalizante, um aproximar-se multímodo, relativo, sempre distanciado, embora evolutivo, da verdade almejada.

É por isso que naturalmente, filosofia é um substantivo que exige adjectivo. O adjectivo não é o epíteto, mesmo se originalmente os dois termos, nas suas respectivas origens latina e grega, tiveram significação semelhante.

Por outras palavras, quando escrevemos filosofia portuguesa, não acrescentamos um epíteto a um substantivo, isto é não empregamos o qualificativo de portuguesa para adornar, vestir, animar ou embandeirar o substantivo filosofia.

O que na realidade fazemos ao adjectivar a filosofia portuguesa, ou lusa, ou luso-brasileira, ou ibérica, ou ibero-americana, ou europeia, ou ocidental (o que vem tudo a dar (logicamente falando) ao mesmo, havendo só uma ampliação dos grupos humanos segundo as suas afinidades), é:

Primeiro («adjectivo restritivo»), restringir a filosofia, como substantivo abstracto, como substantivo abstracto de um imaginário pensar inespacial, ao concreto e ao intrínseco do pensamento segundo a categoria do lugar ou do ser-aqui, determinante do próprio das estruturas culturais diferenciadas, categoria em última análise expressa nas línguas, veículos inescapáveis da concepção filosófica.

Segundo («adjectivo determinativo»), determinar a modificação sofrida pelo substantivo abstracto (filosofia), na vivência circunstancial ou no acidente do lugar (os portugueses, Portugal), apontando um conteúdo qualificado.

E terceiro («adjectivo explicativo»), explicar que a propriedade ou qualidade representada no adjectivo é afinal, não contingente, mas necessária; não extrínseca mas intrínseca; não efémera, mas essencial.

Quer dizer não há filosofia em abstracto: toda a filosofia é, porque categorial, porque movimento da estância, ao mesmo tempo individuada, situada, temporalizada, qualificada, etc., relevando cumulativamente de um anseio de saber, superativo das determinantes categorias, transcendentalizante da condição de ser-estar.


Gottfried Wilhelm Leibniz


A sabedoria das nações diz-nos que há a filosofia platónica, a filosofia de Platão, filosofia individuada, a sua e de mais ninguém, irrepetível, em via intelectual que parte da sua experiência e inteligência singulares; e diz-nos também que há a filosofia indiana, ou a filosofia grega, ou a filosofia alemã, ou a filosofia inglesa, que se distinguem perfeitamente por suas linhas mestras, seus interesses dominantes, suas características, suas escolhas principais ou suas lacunas também; e diz-nos ainda que há a filosofia clássica, ou a filosofia medieval, ou a filosofia seiscentista ou a oitocentista; e não deixa de nos dizer que há as filosofias idealistas ou as filosofias voluntaristas, as filosofias pessimistas ou as optimistas, as filosofias angustiadas ou as de esperança, as filosofias de escola ou as criacionistas, as filosofias da negação ou as da afirmação: um Platão ou um Hegel, um Schopenhauer ou um Leibniz, um Kierkeggard ou um Marcel, um S. Tomás de Aquino ou um Leonardo Coimbra, um Nietzsche ou um Aristóteles são bons exemplos de tais concreções adjectivantes.

Sempre adjectivada, a filosofia. Segundo as categorias. E sempre segundo análogos princípios: elevar para o concreto o substantivo abstracto, conferir conteúdo humano e dinâmico ao nome estático e formal.

Filosofia portuguesa?

Naturalmente, porque lhe é de natureza exprimir a filosofia, em seu movimento mental, o todo do ente que pensa, sujeito às categorias, individuado, temporalizado, parte integrante de uma estrutura cultural situada, de uma paideia nacional e civilizacional, que o marca e para a qual ao mesmo tempo ele contribui criadoramente.

Ser grego é pensar grego. Lapidarmente, assim resumia Heidegger toda a questão.

Ser português é pensar português, análoga e necessariamente.





Porque, se há um ser português, isto é, um colectivo plural e contudo unívoco na sua singularidade, um ser português com seu inconsciente arcaico e mítico, com suas características e constantes repetidamente, embora evolutivamente afirmadas na linha sinuosa de um devir histórico de oito perseverantes séculos e meio, com sua expressão na literatura e na arte ou com sua tradução na língua, depósito supremo de arcanos, de riqueza lógica, de ideias-mães com peso metafísico -, então ele não deixará nunca de qualificar e personalizar a filosofia daqueles portugueses que, em liberdade de pensamento, em vez de se deixarem submergir pela erudição historiográfica ou pelo domínio das escolas sistemáticas ou ideológicas, são capazes de abrir os seus próprios caminhos na floresta das ideias.

Pensar português, no acordo com o ser português que o filósofo assume sempre que não tombe na tentação e na facilidade da alienação estrangeirada, é afinal a única via filosófica criativa ou criacionista que nos está aberta. O mesmo é dizer que o diálogo universal das ideias não é contraditório, ao contrário é consequente com o não sair o filósofo de si, como ente individuado mas participe de um colectivo unívoco. O pensador estrangeirado e por isso a nosso ver estéril é efectivamente aquele pretendente ao saber que se afastou da sua estrutura cultural e que, à força de adaptar o seu pensamento a uma linguagem filosófica alheia ou traduzida, renunciou à sua própria fortuna linguística e filológica, para compor obras que por isso mesmo, não paradoxalmente, rescendem fortemente a pensamento traduzido. O pensador estrangeirado é afinal o que saiu de si para ser um outro que nunca poderá ser, a menos que por completo se desintegre do organismo cultural que é o seu de origem. No limite, já não será então um estrangeirado, mas um estrangeiro, o que é perfeitamente aceitável, implicando no entanto o completo domínio de uma língua alheia e a perfeita integração na sua cultura histórica de eleição, passando pois a pertencer de direito a esta.

A importância essencial da língua, não só na expressão, mas também na criação filosófica, implica, no plano do pensamento, que se possa em rigor falar, por exemplo, numa filosofia anglo-americana, hispano-americana - ou luso-brasileira. A filosofia portuguesa, com sua tradição multissecular, seria assim a matriz de uma filosofia já trans-nacional, com raízes comuns e com desenvolvimentos um pouco diferentes, mas fraternos, nas nações de fala lusa.

Martinho Heidegger


É o motivo porque, para Álvaro Ribeiro, não há filosofia sem filologia. Esta é, digamos, o terreno onde se finca o filósofo para o seu voo metafísico, é o seu meio, o seu veículo. A língua portuguesa não é menos apta, disse, do que as línguas filosóficas mais conhecidas: o que muitas vezes faltou, foi o talento ou o génio dos pensadores para a assumir e activar. Heidegger vai mais longe (em «Que é pensar?», «Was heisst Denken?») quando diz que uma língua é o próprio pensamento. Assim, a filosofia portuguesa seria a língua portuguesa. O que equivale a dizer: filósofo português é o pensador que assume a língua portuguesa. É quase exactamente a ideia de Teixeira de Pascoaes, quando em A Arte de Ser Português, caracteriza a alma e o pensamento do nosso povo pelos seus vocábulos intraduzíveis. No mesmo sentido dizia também o filósofo alemão que só se pode traduzir grego para grego (in A Filosofia Portuguesa, de Bruno à Geração do 57 seguido de o Brasil mental revisitado, extraído do n.º 42/43 - Julho/Dezembro 1987 - da Revista Democracia e Liberdade).


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