quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

As seitas na Rússia (i)

Escrito por Leonardo Coimbra



Catedral de S. Basílio


O historiador Pogodine, com Akskov que o cita e outros, afirmou que a liberdade religiosa dada à Rússia de então faria com que metade dos camponeses passasse para o Raskol [aproximação da Igreja ortodoxa russa à Igreja ortodoxa grega num contexto caracterizado pelo intervencionismo do Estado na esfera eclesial] e metade da aristocracia para o catolicismo.

Na Rússia houve sempre judaizantes e seitas como o «Velho Israel» e o «O Novo Israel» que vieram até à actualidade.

A religiosidade russa é toda fortemente impregnada de semitismo, apocalíptica e catastrófica; mas principalmente nas seitas é mais evidente o catastrofismo e, em algumas, é clara a sua origem semita (1).

Já vimos surgir, no século XVI e com as reformas de Nicónio, o grande Raskol.

Mudanças de letras, correcção de uma prece, sinal da cruz feito com três dedos, etc., são os motivos de protesto feitos em defesa do imutável tesouro da tradição sagrada.

O concílio de 1666 que os condena é, para eles, pelo número 666, o sinal claro da Besta e do Anticristo.

É pois com o Apocalipse no pensamento que os velhos-crentes entram em campanha.

Se o Estado, protector e responsável de aqui a pouco, o Anticristo, como servi-lo, conservando pura a consciência?

Pedro Grande vê-se acusado de Anticristo e torpedeado pelo Raskol nos impostos, no serviço militar e em tudo em que a sua oposição se pode fazer sentir.

O Raskol dividiu-se logo em popovtsi ou com padres e bezpopovtsi ou sem padres, conforme admitiam ou não admitiam a sequência dos padres apostólicos na igreja e a possibilidade de transmissão de poderes por imposição das mãos, etc. Os popovtsi arranjavam padres seus para o serviço religioso por intermédio de ordenações feitas por padres ortodoxos fugitivos, ou por meio de contratos com os ortodoxos russos ou ortodoxos de outras igrejas orientais.

Os velhos-crentes tiveram, apesar de todas as perseguições que a dormente igreja ortodoxa fazia por sobressaltos terríveis, uma força enorme em todo o Império, chegando a possuir as melhores casas e fortunas em muitas regiões da Rússia.

O Teatro artístico de Moscovo foi obra de homens ricos do Raskol.

Esta força, não podia, no entanto, ser mais que uma força de relações sociais e compromissos de opinião.

Muitas vezes, personagens colocados em altas posições sociais ou políticas tinham simpatia pela seita; mas, como para ela o Estado era o Mal, só por compromissos morais se podia servir esse Estado - o que de resto, era feito sem convicção nem firmeza.

A não-aceitação da história russa niconiana e petroviana era fatalmente implicada em qualquer forma do Raskol.

Nesta ordem de sentimentos é mais claramente extremista a parte do Raskol, que não admitia padres - a dos bezpopovtsi.

Fugir do mundo, para não aceitar nenhum compromisso com o Anticristo, foi o seu lema, levado por vezes até à loucura do suicídio.



Estrela de Ouro (símbolo do Anticristo).



Nem padres nem sacramentos, a não ser o baptismo e, por vezes, a confissão feita a uma imagem em presença dum ancião.

Desaparecido o casamento, ficava obrigatório ou a castidade, ou a ligação monogâmica ou poligâmica.
Tudo isso se deu.

A poligamia deu em certos grupos uma espécie de prostituição sagrada, que fez aparecer, em reacção, o mais grosseiro ascetismo materialista com a seita dos «castrados».

Desta saiu, no século XVIII, um grupo extremo, pregando o suicídio colectivo em termos como estes: «Salvai-vos fugindo para a solidão e, se a autoridade vos procurar, queimai-vos ou deixai-vos morrer: assim ganhareis a coroa dos mártires».

Estes loucos encerravam-se em granjas e casas, que incendiavam de modo a tornar impossível a saída.

Mais de vinte mil loucos, homens, mulheres e crianças, morreram desta maneira, perecendo, também, das perseguições da autoridade, muitos milhares.

Os velhos-crentes iam emigrando para o Norte, Sudoeste e Sibéria, onde criavam aldeias do tipo comunista.

Esplêndidos colonos, contribuíam assim para a unificação do Norte e da Sibéria.

Catarina permitiu-lhes certas liberdades e a criação de comunidades mesmo em Moscovo.

Nos fins do século XVIII aparece entre eles a propaganda contra a cidade e a defesa dum comunismo, que, filho da vagabundagem psicológica, é como que a apoteose de economia natural.

Aparecem os beguni ou straniki, que são pregadores ambulantes, constituindo uma comunidade. Estes sectários recebem o «baptismo do caminhante», substituindo todos os seus papéis civis, que são queimados, por um papel com uma cruz, dizendo - este é o verdadeiro passaporte visado em Jerusalém.

Contrários ao casamento, davam preferência às ligações livres - pois que o homem casado ficaria entregue ao pecado para sempre.

O número destes vagabundos aumentando, a economia natural não lhes podia bastar e aparecem, ao lado dos homens errantes, os homens hospitaleiros (2), que recebem e alimentam os primeiros. Assim foi a Rússia atravessada por caminhos, aldeias e casas, por uma ingénua propaganda comunista e uma doutrinação religiosa, negadora do valor positivo de toda a organização social, que era, na Rússia, obra do Anticristo.

Os moltchalniki ou mudos, com o único voto de silêncio, constituíam outra derivação dos homens errantes.

Os niémoliaki surgem como que sendo uma ressurreição dos iconoclastas e supõe-se já no reino do Espírito Santo, outros supunham que, desde a chegada do Anticristo, tudo o que é sagrado subiu ao Céu, deixando a Terra vazia de sentido e realidade divina.



Representação alegórica do Espírito Santo (Igreja Ortodoxa Sérvia).



Outras formas heterodoxas, diferentes do Raskol clássico, aparecem na Rússia, tendo quase todas o mesmo fundo comum de desvalorização do histórico e da matéria, de ressurreição daquelas heresias, que vimos florescer na velha Bizâncio.

Os khlesti ou flagelantes, que se chamam também os homens de Deus, dizem, no reinado de Pedro Grande, ter recebido directamente a revelação da boca do próprio Deus. Deus incarnou, e a incarnação chamava-se Daniel Philippovitch.

«Sou o deus anunciado pelos Profetas, é a segunda vez que desço à Terra para a salvação da raça humana, não há outro Deus além de mim»: eis a revelação.

Este Deus teve um filho, chamado Ivan, que era um servo da família Narichkine.

Foi o profeta da seita, escolhendo doze apóstolos.

O khlesti acredita que todo o homem ou mulher pode fazer um Cristo ou uma Mãe de Deus.

O seu ascetismo consiste na proibição de bebidas, assistência às núpcias ou festas, juramento e roubo, casamento e união dos sexos.

Juntavam-se de noite e começavam a cantar e a girar em roda, aumentando pouco a pouco o ritmo até chegarem ao delírio e por vezes à loucura orgiástica.

As práticas dos khlesti foram recebidas nos conventos, casas aristocráticas e até por vezes na corte.

Uma derivante é a dos saltadores, que chegam ao êxtase e delírio, por meio de cantos, gritos e saltos. Alguns, atingido o delírio, iam celebrar o amor de Cristo em lugares escuros e orgias sexuais.

Os cholopats eram francamente comunistas e praticavam o comunismo.

A seita dos «brancas pombas», que já vimos aparecer em reacção ao orgiatismo de outras seitas, surge no fim do século XVIII com um certo Selianov, que se faz chamar «Deus dos deuses e Rei dos reis», ao mesmo tempo que se diz czar de todas as Rússias e reincarnação de Pedro III. Os seus sectários, skoptsi ou castrados, eram milenaristas e acreditavam na Parusia quando o seu número perfizesse uma certa conta. De aí o ardor da sua propaganda.

Os dukhobortsi crêem que Deus existe no homem, e portanto o homem pode e deve fazer, na Terra, o Paraíso.

Pacifistas, vegetarianos, comunistas e partidários da negação dos deveres e funções sociais, recusam o serviço militar, etc.

Tolstoi ajudou a sua emigração para o Canadá.

O luteranismo também exerceu um papel importante nas pressões oficiais sobre a igreja ortodoxa, porque a burocracia russa empregou sempre muitos elementos germânicos, e porque alguns imperadores ou foram directamente ligados à Prússia, ou, com Pedro Grande, tiveram como homens de confiança e direcção, elementos de origem ou cultura luterana.

Seitas protestantes extremistas também se espalharam na Rússia, podendo calcular-se, que, já em pleno bolchevismo, o número dos seus adeptos iria para cinco ou seis milhões.

Já os molokanos, protegidos pelo inquieto Alexandre I, discorreram do Volga até à Sibéria.

Eram também pacifistas e esperavam apocalipticamente o reino do Espírito.

As tendências comunistas dos anabaptistas são conhecidas de todos e a sua existência na Rússia pré-bolchevista e na Rússia bolchevique são de notar.






Satan








Ainda hoje o apocaliptismo dos adventistas e de outras seitas, como as do «Povo de Deus», «Pentecostes», etc., dos que falam em línguas e esperam a pronta conclusão de todas as coisas, mostram bem que o bolchevismo, filho das esperanças escatológicas, não fechou o ciclo dessas esperanças.

O carácter geral de todas as formas religiosas, saídas ou não da igreja ortodoxa, está no sentido apocalíptico das suas esperanças, na sua oposição ao histórico, na fuga e horror do mundo e, por vezes, nas consequências mórbidas e orgiásticas duma falsa disciplina da pureza e isenção. O Raskol foi olhado pelos pensadores russos, alguns até de dentro da igreja ortodoxa, dum modo bem curioso.

Os pensadores russos tinham, em regra, uma certa admiração pelo puritanismo da melhor parte dos velhos-crentes e o próprio Soloviev (3) vê neles uma justa negação erguida em frente da inconsistência ortodoxa.

Sérgio Bulgakoff afirma também o valor místico dos velhos-crentes.

A autocracia, reunindo pela violência e visto que o czar era a «Cabeça da Igreja», não poderia tolerar dissidências. Deste modo as seitas, que, por vezes, eram até protegidas, eram, outras vezes, combatidas ferozmente (4) numa guerra de extermínio.

Nem de certo, podia ser de outra maneira visto que a ortodoxia era o lealismo para com o czar, e, consequentemente, a heterodoxia uma verdadeira traição à majestade do imperador.

Isto não impede, no entanto, que, sincera e ingenuamente, os ortodoxos acusem o Ocidente de violências religiosas e se apresentem como a Igreja da tolerância.

A verdade é que, à parte autênticos erros e maldades consumadas, foi o Ocidente o mestre da tolerância para com os homens e de intolerância para com as ideias.

A ortodoxia russa foi mais a tolerância para as ideias e o esporádico sobressalto da intolerância e crueldade para os homens portadores dessas ideias.

De resto é fácil compreender a sua tolerância ideológica, que resulta da falta duma doutrinação séria, de vontade de ordenação lógica e demonstrativa.

Eis o que nos diz um dos seus teólogos, daqueles poucos pertencentes ao corpo eclesiástico, Philareto (5):

«A verdadeira igreja cristã abraça todas as igrejas particulares, que confessam Jesus Cristo vindo em carne. A doutrina de todas essas sociedades religiosas é, no fundo, a mesma verdade divina, mas que pode estar misturada com opiniões e erros humanos. Por isso há no ensino dessas igrejas particulares uma diferença de mais ou menos pureza.


Cristo Pantokrátor



A doutrina da igreja oriental é mais pura que as outras e pode reconhecer-se que ela é completamente pura, pois que não junta nenhuma opinião humana à verdade divina (6).

Mas, como, de resto, cada confissão religiosa sustenta em absoluto a mesma pretensão de perfeita pureza de fé e doutrina, não nos convém julgar os outros e devemos abandonar o juízo definitivo ao Espírito de Deus que governa as igrejas».

A esta modéstia em face das ideias, correspondia a opressão dos homens pela polícia religiosa, militar e civil do Império.

A influência das seitas foi profunda e extensa na criação do corpo histórico da Rússia.

De resto, já vimos uma opinião insuspeita sobre a imensidade da heterodoxia, e não será uma estatística forçando os números a que nos deu um Raskol de quinze a vinte milhões de almas proselíticas, espalhadas pela vastidão do Império.

Em face delas, a ortodoxia.

A ortodoxia, de que já vimos mais ou menos a organização e até a alma, é um cristianismo que se apresenta a si mesmo, por seus corifeus e representantes oficiais, como essencialmente contemplativo e místico.

Vejamos a doutrina oficial (7) sobre estas características:

«Chama-se mística a experiência interior que permite atingir o mundo espiritual, divino... Para que a mística seja possível é preciso que o homem tenha uma capacidade especial de concepção imediatamente supra-racional e supra-sensível, a capacidade duma concepção intuitiva, que justamente nós chamamos mística».

A seguir o autor explica que não deve confundir-se esta intuição com qualquer psicologismo, mas que deve ter um carácter objectivo - um contacto ou encontro espiritual.

Os leitores ocidentais conhecem o erro, que é o do chamado ontologismo.

Mas logo que nos sentimos em pleno erro, filho da falta duma teoria do conhecimento humano, verificamos a seguir que, afinal, não é nada disto.

O autor confunde apenas a vida mística, no sentido restrito e específico, com toda a vida da Fé. Aqueles contactos não são mais que a vida sobrenaturalizada pela fé e os sacramentos.

A falta duma teoria do conhecimento humano, que dá afirmações eivadas de ontologismo, dá logo a seguir um protesto contra a incarnação da vida sobrenatural.

Eis-nos em pura paisagem platónica pelo vago dum pensamento, que mal admite o esforço da representação intelectual do ser.

A espiritualidade ortodoxa «tende a eliminar a imaginação, que serve ao homem para representar e reviver pelos sentidos as coisas espirituais. As imagens contidas na oração eclesiástica e nos ícones, bem como as dos Evangelhos, bastam para que se possa entrar em espírito (8) nos acontecimentos comemorandos.

«Tudo o que provém da imaginação humana é maculado de subjectividade e, o que é pior, da sua sensualidade - isso para nada serve».

Então o homem é espírito?

Então a imaginação vive destacada e apenas sobreposta à inteligência?

A própria imaginação natural, isto é, sem a sobrenaturalização da Fé ou da Graça mística, pode servir a inteligência - a imaginação dum mégagono será, porventura, impossível ou manchada de sensualidade?



A imperatriz Teodora no Coliseu (óleo de Jean-Joseph Benjamin-Constant).





O monofisismo duma só natureza de bom quilate - a alma - é aqui a presença dum platonismo mais ou menos maniqueísta»(in A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre, Livraria Tavares Martins, 1962, pp. 258-268).


Notas:

(1) É até uma tese já defendida - embora falsa - que o bolchevismo é puro judaísmo. Ele o é em parte pelas origens e por muitos propagandistas. Seria mais interessante, e mais viável até, considerar o bolchevismo como um extremo lógico do Raskol.

(2) Comparar com a organização revolucionária dos séculos XIX e XX.

(3) O Soloviev que acaba por demonstrar que o centro do catolicismo foi, é, e deve ser a igreja romana.

(4) Soloviev, livro citado, págs. 42 e 43. O próprio Dostoiewsky - Casa dos Mortos, et. - os admira.

(5) Século XIX, Soloviev.

(6) O itálico é nosso. Repare-se que isto envolve o conservantismo dogmático dos sete primeiros concílios e a incompreensão (Newman) da evolução na explicitação do dogma.

(7) Sérgio Bulgakoff: L'Orthodoxie. Os itálicos são nossos.

(8) No sentido tomista e não bergsoniano.

Continua


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