domingo, 20 de janeiro de 2019

Na Assembleia Nacional também se combate

Escrito por Ernesto Palma







1. Organograma dos deputados 


Na Assembleia Nacional, os 144 deputados que representam os 10 milhões de deputantes que todos nós passamos por ser, agrupam-se em diversas ou conversas correntes de opinião que não chegam a ser ideologias nem a constituir partidos, mas que dia após dia, um tanto graças a discursos, intervenções e votos que vão fazendo e distribuindo naquela Assembleia, outro tanto por virtude da opinião que, cá fora, se vai formando das opiniões dos deputados, vai adquirindo a forma de quadros de um organograma.

Agrupam-se, num dos quadros, aqueles deputados que, nas conversas cá de fora, se designam por ultras. Acontece, porém, que salvo uma única excepção, ninguém lá dentro como cá fora, se deixa designar por ultra. A excepção que, por única, é corajosa e franca, é o deputado Casal Ribeiro. Foi ele quem, referindo-se à enigmática SEDES, afirmou que nada se sabe desse agrupamento que se diz puramente economista mas se regulamenta segundo determinações políticas e, aprovado pelo Governo, constitui um factor de confusão. Ora ele, pelo contrário, diz bem alto aquilo que é, e, portanto, quando de si se trata todos podem saber o que há a contar. As duas observações são lógicas e verdadeiras.

No lado contrário ao dos ultras, ninguém se situa ou afirma situar-se. Na Assembleia, claro. Porque, cá fora, assim como ninguém é ultra, assim toda a gente é contra os ultras. E resta, então, a populosa gama dos medianeiros, dos do centro, topografia paradoxal pois, definindo-se o centro e o meio como o que fica entre dois extremos, ao extremismo que lá está não corresponde senão o vazio no lugar onde deveria estar o extremismo contrário.

Nesta gama, pois, de paradoxais medianeiros, procura-se distinguir sucessivamente:

1. Os que se mantêm fiéis a um salazarismo que entendem dever continuar sem evoluir são muito poucos, esses mesmos, com o receio de poderem ser confundidos com os ultras.

2. Os que, segundo a fórmula do Chefe do Governo, são por um salazarismo que continua mas evolui. Constituem o modo oficial de ser marcelista e o seu principal representante deveria ser, logicamente, o deputado que foi designado, pelo Governo, como líder da Assembleia Nacional, Franco Nogueira. A imagem que, entretanto, se formou de Franco Nogueira, leva a alargar a este segundo quadro do organograma o receio da confusão com os ultras.

3. Os que, no outro balanceamento do ponteiro marcelista, querem a evolução descomprometida da continuação. Neste quadro figuram os deputados que representam o predomínio do economismo sobre a política, como Magalhães Mota. E foi nele que se salientou a personalidade mais firme desta legislatura, o deputado Camilo de Mendonça, campeão (sem ironia) do nordeste transmontano.

4. Os que, para lá da continuação que ignoram, e para lá da evolução que esquecem, são apresentados como reformistas e progressistas, que é a versão actual da famosa ordem e progresso do republicanismo positivista da belle époque. Entre eles se encontram as personalidades mais brilhantes, mais juvenis e joviais, mais abertas, como o médico Miller Guerra, o empresário-jornalista Francisco Balsemão e o católico post-concílio Sá Carneiro. Todos eles se fizeram já notar, não só entre as solenes bancadas da Assembleia como cá fora: Miller Guerra afirmou-se o campeão (também sem ironia) do reformismo universitário, propugnando o rejuvenescimento das universidades existentes e a criação de novíssimas universidades. Fê-lo num «aviso-prévio» muito discutido que, entre a discussão, permitiu uma bem meditada intervenção do deputado Aguiar e Silva e um veemente elogio da contestação estudantil do ISCEF e do professor daquele instituto, candidato a deputado pela CDE, Francisco de Moura. O empresário-jornalista Francisco Balsemão que vê, naturalmente, os jornais darem grande relevo às suas, embora apressadas e raras, intervenções na Assembleia. Deve registar-se que esta espécie de publicidade de que dispõe o deputado, não deixa de provocar certos ciúmes em seus colegas e pares. Quando, recentemente, a família Balsemão negociava a venda das suas acções do «Diário Popular», risonhamente se ironizava, entre as bancadas da Assembleia, que Francisco Balsemão, deixava de vender jornais para vender o jornal. E é muito curioso lembrar que quando foi pela primeira vez eleito Governador da Califórnia, o actor Ronald Reagan, F. Balsemão publicava no seu jornal um indignado artigo insurgindo-se contra um processo eleitoral que permite escolher para Chefe de um Estado um homem que, por ser actor, dispõe de uma máquina publicitária montada. Sempre, na verdade, os políticos invejaram os actores. E vice-versa.

5. À esquerda deste último quadro, o organograma está vago: ou a preencher um dia ou definitivamente vazio.










2. Vamos escolher um caso concreto 


A melhor maneira, a mais segura e científica, de apreciar a capacidade do organograma, é observar o seu funcionamento através de exemplo concreto. O exemplo foi-nos recentemente oferecido: a discussão da Lei do Cinema. Não o deixemos fugir e observemos como as coisas se passaram.

Já no n.º 2 de A ILHA pudémos informar os nossos leitores de que o que estava em causa na Lei do Cinema, era:

a) A regulamentação legal de uma actividade que, há cerca de 12 anos, se encontrava sem legislação própria.

b) A capacidade de resistência do país e das suas instituições aos grupos de pressão, com origem estrangeira e natureza económica, que conseguiram manter, durante esses 12 anos, legalmente irregulamentada uma actividade de ampla e profunda influência sobre as populações.

c) A medida do interesse das instituições e do país – representado na Assembleia Nacional – por uma actividade que, além de económica, constitui um poderoso veículo de formação mental das populações. Suspensa a anterior legislação por volta de 1958, logo se constituiu uma Comissão para estudar o projecto de uma nova lei que só com o actual Governo, ficou concluído e passou, das mãos do Governo, para a Câmara Corporativa. Como se sabe, os Projectos-Lei, antes de serem discutidos na Assembleia Nacional, são apreciados pela Câmara Corporativa que sobre eles dá o respectivo parecer que pode ir até à proposta de um texto completamente remodelado. Foi o que aconteceu a este Projecto-Lei do Cinema. O texto que o Governo apresentou, tinha os seguintes núcleos estruturais:

1. Criação de um Instituto Português do Cinema dispondo dos meios para promover a produção cinematográfica.

2. Regularização oficial do preço dos bilhetes.

3. Condicionamento da instalação de empresas cinematográficas.

4. Modos de promover a produção cinematográfica.


3. O caso concreto também serve para conhecermos a Câmara Corporativa 


O parecer da Câmara Corporativa foi espantosamente exemplificativo dos extremos até onde pode chegar a sua proposta de alteração do projecto governamental de uma lei. A Câmara Corporativa é constituída por representantes das actividades empresariais e profissionais, agremiadas e sindicalizadas, e os seus pareceres são, como na Assembleia Nacional, estudados e preparados por comissões cujos membros são escolhidos entre os representantes daquelas actividades abrangidas pelo assunto de que se ocupa o parecer. No caso da lei do cinema, destruída e inexistente como está, há mais de 12 anos, toda a produção nacional, seria inevitável que só se pudesse representar na Câmara Corporativa o que de cinematográfico existe em Portugal, isto é, a distribuição e exibição de filmes estrangeiros. O parecer da Câmara Corporativa iria pois, inexoravelmente, traduzir a defesa dos interesses desse sector ou desse predomínio, opondo-se a todas as medidas que o Governo tinha preparado no Projecto-Lei para promover uma produção nacional. Os extremos a que o parecer da Câmara Coporativa chegou, ultrapassaram, todavia, todas as previsões. Este facto mais significativa torna a observação do procedimento da Assembleia Nacional ao deparar perante si dois textos, um do Governo outro da Câmara Corporativa, que eram essencialmente contraditórios. Consideremos o parecer da Câmara quanto a núcleos fulcrais do Projecto-Lei que há pouco resumimos:

1. Admitindo a criação do Instituto Português do Cinema, a Câmara Corporativa propunha:

a) Que não ficasse ele integrado em nenhum organismo do Estado.

b) Que o seu Presidente fosse o Presidente dos Grémios do Cinema que, dada a situação actual, é o representante dos valores económicos e culturais estrangeiros.

2. Em nome «da livre iniciativa que deve existir nas actividades cinematográficas», a Câmara Corporativa propunha que os preços dos bilhetes nada tivessem a ver com qualquer espécie de condicionalismo social.

3. Sobre o condicionamento das empresas cinematográficas, a C. C. propunha:

a) Que se não autorizasse a instalação de novas salas de exibição nas localidades onde já exista alguma.

b) Que se não autorizasse a formação de novas empresas distribuidoras.

c) Que se sujeitasse a autorização prévia a instalação de novas empresas de estúdios e laboratórios.



4. Os modos de promover a produção cinematográfica foram objecto do mais subtil tratamento pela Câmara Corporativa. Analisemos alguns pontos:

a) A «continuação» é o velho cavalo de batalha em todos os países invadidos e esmagados pela importação cinematográfica estrangeira. O cinema é uma arte internacional e raros países têm possibilidades de, sem condicionarem a exibição de filmes importados, competirem com 3 ou 4 grandes indústrias americanas e europeias. A forma mais eficaz e justa de estabelecer esse condicionamento é a «contingentação». Consiste ela em determinar o número de filmes nacionais que cada sala tem a obrigação de exibir por um número fixado de filmes estrangeiros. No Brasil, por exemplo, a contingentação é de 1 filme nacional para 4 estrangeiros; na Espanha, de 1 para 3.

O estabelecimento da contingentação imediatamente tem suscitado o aparecimento e desenvolvimento do cinema nacional. No Brasil, em quatro anos, a indústria saltou de uma produção irrisória para a produção de 120 filmes em 1970.

Pois bem: a contingentação estava prevista no Projecto-Lei apresentado pelo governo e foi ela aprovada pela Assembleia Nacional. Mas, no caminho do governo para a Assembleia, a Câmara Corporativa repudiou-a e, em seu lugar, propôs... o quê? A proibição de se criarem novas empresas distribuidoras (Base XXV do Projecto-Lei)!!!

b) Por contingentação de uns tantos filmes estrangeiros por uns tantos filmes nacionais, o leitor só pode entender que os números são o que são, e que um filme é um filme. Ingénuo leitor! A Câmara Corporativa pretendeu insinuar (Base XXVI) que na contingentação se não deve distinguir entre curtas e longas metragens, donde resultaria, evidentemente, que um breve documentário nacional logo daria direito à exibição de algumas dezenas de longas metragens estrangeiras!


4. As principais figuras que entram em campo 


Logo que o parecer da Câmara Corporativa foi conhecido, o desânimo e a desesperança inundaram os meios interessados em ver dar, aos cidadãos portugueses, essa forma de expressão que o cinema é. E deve notar-se que esses meios não são apenas os dos humildes artistas e modestos profissionais, mas também os de certas autoridades oficiais, como aquelas, por exemplo, que estudaram e elaboraram o Projecto-Lei que o parecer da Câmara Corporativa ameaçava tornar ineficaz e nulo.

Mas ao parecer da Câmara Corporativa sucedia-se a discussão na Assembleia Nacional. Previamente, uma comissão de parlamentares – a Comissão de Educação – estudaria o Projecto-Lei e o corporativo parecer. A Comissão é presidida por Veiga de Macedo, antigo subsecretário da Educação e Ministro das Corporações. É um homem de 53 anos, de cabelos precocemente brancos, um toque honesto de província no vestuário e na pronúncia e um respeito raro, talvez singular em políticos, pela cultura. Foi esse respeito que o levou a fazer, na tribuna parlamentar, o elogio de José Régio com uma citação de Álvaro Ribeiro, que o Presidente da Assembleia, Amaral Neto, não deixou passar sem uma irónica observação de estranheza. Quando membro do Governo, obteve a colaboração de escritores, cineastas e actores, sobretudo para a Campanha de Educação de Adultos. Iniciou assim, no Governo, o recurso intensivo aos instrumentos de grande publicidade e informação o que, nos corredores ministeriais, os velhos funcionários identificavam, a sorrir, com um desejo ostensivo de exibição que os seus sucessores vieram a ultrapassar largamente e sem justificação de estarem a fazer uma campanha popular.

Ao minucioso estudo que o deputado Veiga de Macedo fez da Lei do Cinema não terá sido estranha a saudade dessa antiga colaboração, do convívio que ela lhe deu e do reconhecimento daquilo que, brincando, se diz nos bastidores teatrais: que neste país só os actores e alguns políticos trabalham deveras. São também os artistas e os políticos as «classes» que atingem maior longevidade. Efeitos do trabalho, do contacto com as multidões, dos aplausos todos os dias? De qualquer modo, a Lei do Cinema subiu, bem estudada, à tribuna parlamentar. Na «discussão na generalidade» ainda algumas intervenções, ingénuas umas, demasiado «sábias» outras, interromperam o orador. Entre as ingénuas, contou-se a de um deputado que se pronunciou contra a dobragem dos filmes estrangeiros, por causa dos surdos [sic!]. Entre as demasiado «sábias», contou-se a de Francisco Balsemão que, na linha do liberalismo neocapitalista, reivindica-se, em termos pouco definidos, liberdade para o cinema. A ninguém damos autoridade para defender, mais do que a nós, a liberdade do cinema. Mas demasiado bem sabemos como é que os liberalistas de ontem e de hoje, utilizam isso a que chamam liberdade. O mesmo parecer da Câmara Corporativa tinha acabado de nos dar mais um exemplo: recusando, em nome da liberdade, a regulamentação oficial dos preços dos bilhetes, mas exigindo, sem apelar para a liberdade, o controle do cinema de amadores (Base XIII) e a proibição de novas empresas distribuidoras. A intervenção de Francisco Balsemão obteve grande relevo nos jornais dessa tarde.




















5. Como alinharam os deputados 


Ultrapassada a «discussão na generalidade», a Assembleia Nacional entrou na «discussão na especialidade», aquela em que se analisam as Bases da Lei, uma a uma, palavra a palavra, e se aprovam os textos definitivos pelo processo dos votos.

A discussão prolongou-se por 4 sessões. Dos 144 deputados, assistiram à 1.ª sessão 95, à 2.ª e 3.ª 104, à 4.ª 87. Segundo as informações que colhemos, é esta a frequência habitual às sessões da Assembleia. Todavia, como adiante veremos, os jornais de Lisboa afirmaram, com relevo, que a frequência foi, neste caso, muito diminuta.

Entre os 44 deputados que, em média, faltaram às sessões que analizamos, figuraram alguns dos mais representativos das correntes de opinião dominantes na Assembleia. O deputado Melo e Castro que dirigiu, como presidente executivo da União Nacional, a campanha eleitoral em que foram escolhidos todos os actuais deputados, esteve ausente a todas as sessões. Ausente também em todas as sessões, o empresário-jornalista Francisco Balsemão que, no entanto, subscreveu as propostas defendidas pelo deputado Magalhães Mota. Franco Nogueira, líder da Assembleia, faltou a 3 das 4 sessões. Miller Guerra, que intervém frequentemente em todas as questões de carácter cultural, faltou a 2 sessões. Camilo de Mendonça, Sá Carneiro, Henrique Tenreiro e Casal Ribeiro, faltaram a 1 sessão. Os principais representantes das diversas correntes de opinião, não dedicaram, pois, ao assunto um interesse pleno.

Todas as propostas apresentadas e justificadas por Veiga de Macedo foram aprovadas sem oposição. Dos 98 deputados que, em média, estiveram presentes, apenas dois deles, Magalhães Mota e Reboredo e Silva, se fizeram ouvir. O último, apenas para falar à margem do assunto em discussão. Disse discordar da designação de «Conselho Administrativo» que, na sessão anterior a que ele não assistira, fora aprovada para designar o escalão supremo do I. P. C. Os nossos leitores poderão encontrar no n.º 1 de A ILHA as razões que temos para aplaudir esta intervenção.

Magalhães Mota foi mais activo: interveio em 2 sessões, deu colaboração à Comissão presidida por Veiga de Macedo e apresentou duas propostas: uma referente à Base XXII que autoriza a dobragem de filmes e outra destinada a proibir a projecção de filmes publicitários. Ambas eram assinadas por ele, por F. Balsemão, por Sá Carneiro e pelo redactor do «Jornal da Madeira», Eleutério Aguiar. A segunda, sobre a proibição de filmes publicitários, teve de ser retirada da mesa pois existe e está em vigor – embora não se execute! – uma disposição legal que a determina. A primeira, que foi aprovada, liberta os distribuidores – exibidores (ou seja: os filmes estrangeiros) da obrigação da dobragem que só traria vantagens à indústria e à arte do cinema nacional. Tais vantagens seriam as seguintes:

a) Maior volume de trabalho para os nossos estúdios e laboratórios.

b) Maiores possibilidades de trabalho e apuramento de dicção para os nossos artistas.

c) Melhor possibilidade de apreciação para os espectadores: os filmes portugueses – que não são legendados – oferecem-se aos espectadores integralmente, enquanto os filmes estrangeiros – legendados – desviam ¾ do tempo de espectação para a leitura das legendas. O espectador é por isso um crítico atento quando vê um filme português e um crítico desviado quando vê – melhor, quando lê – um filme estrangeiro.


6. A Imprensa falseia o jogo 


Logo no início, a imprensa deu sinal de como ia considerar a discussão na Assembleia Nacional. Quando, como dissemos já, afirmou e deu relevo à afirmação de que a habitual assistência às sessões que se verificou era uma frequência diminuta. Daí deduziria o leitor de que os deputados se mostravam desinteressados do assunto, que, portanto, o assunto não devia interessar a ninguém. Assim se desviava a atenção da opinião pública a que as instituições e o governo não podem deixar de ser sensíveis.

Aliás, já anteriormente, o «Diário de Notícias», principal orgão da nossa imprensa (120 000 exemplares de tiragem, equivalente a 500 000 leitores) fizera a sua campanha discreta sobre a inoportunidade da Lei do Cinema, como os nossos leitores podem verificar pela ILHA, n.º 4.

Desde início, portanto, a Imprensa se colocou ao lado dos distribuidores-exibidores, isto é, ao lado do cinema estrangeiro, dos interesses criados, da colonização do país. Há excepções, é claro... mas tão débeis, quase inaudíveis...

O noticiário, depois, foi comprovando o inicial propósito. O problema da contingentação quase não foi noticiado e, no que foi, sem qualquer relevo. A maior «caixa» dada a toda a longa discussão parlamentar, coube à intervenção – significativa – de Francisco Balsemão. Quando, portanto, o deputado Miller Guerra veio, duas semanas mais tarde, alertar a opinião, a Assembleia e o Governo sobre o que se está a processar no mundo da Imprensa – a sua concentração nas mãos de... dois? um?... potentados económicos – a dependência dos potentados económicos já era patente no «tratamento» jornalístico da discussão parlamentar que escolhemos para observarmos como funciona a Assembleia Nacional. Contaram-nos, entretanto, que, em conversa nos Passos Perdidos, um jornalista teria falado a Veiga de Macedo na compra de jornais pelos potentados económicos, o que vai colocar a Imprensa nas mãos da plutocracia. «Vai colocar? – Teria respondido Veiga de Macedo. O que se está a passar é apenas uma mudança de mãos. E podemos até pôr a nossa esperança em que ela fique em melhores mãos».




7. As fendas na muralha 


A Assembleia Nacional aprovou, pois, a Lei do Cinema. Depois de aprovadas, as leis são regulamentadas; e depois executadas. Da execução e da regulamentação pode depender tudo. Se a lei – composta, como dizem os juristas, de letra e de espírito – permitir que pela letra se faça o que não condiz com o seu espírito, tudo se pode perder e ficar inútil o bom trabalho da Assembleia Nacional. Os «corvos da burocracia» são hábeis em descobrir e alargar as fendas da letra por onde atacam o espírito. Ora é preciso reconhecer que algumas fendas esta Lei do cinema deixou a descoberto. Limitemo-nos ao ponto crucial: a contingentação. Aí reside todo o segredo dos interesses criados onde a colonização campeia. Aí, portanto, se hão-de procurar as fendas.

A primeira ia sendo lá deixada por uma das duas propostas do deputado Magalhães Mota, também assinada por Francisco Balsemão e Sá Carneiro. Diria ela que os filmes nacionais a exibir obrigatoriamente não deveriam ter sido produzidos há mais de três anos. Veiga de Macedo aceitou tal proposta, mas acrescentando que tal limitação só se aplicaria quando não houvesse em exibição filmes estrangeiros também produzidos há mais de três anos. A fenda não ficou totalmente colmatada, mas já foi alguma coisa.

Outra fenda reside na Base XXV, aquela onde «se excluem do contingente dos filmes nacionais aqueles que o I. P. C. considere não apresentarem nível técnico e artístico bastante». Também aqui seria imprescindível um aditamento análogo ao que Veiga de Macedo juntou à proposta de M. Mota e que, confiamos, lhe virá a ser feito na regulamentação da Lei. Com efeito, a exclusão prevista destina-se a prevenir abusos industriais; mas só será justa se apenas se verificar quando não haja em exibição nenhum filme estrangeiro de nível técnico ou artístico inferior ao filme português cuja exclusão se considere.

Mas a mesma regulamentação poderá também deixar fendas a descoberto. E, então, tudo dependerá da execução. A Lei entrega a execução a um novo organismo, o Instituto Português do Cinema. Este instituto, e com essa mesma designação, foi proposto, há 13 anos, no jornal «57», em artigos largamente fudamentados, assinados por Orlando Vitorino, António Quadros e Afonso Botelho. A proposta foi, então, entusiasticamente defendida pelo jornal «O Século». Mas, durante 13 anos, não foi considerada nem pelo Governo, nem pelos organismos corporativos, nem pelas instituições do Estado. Reaparece, agora nesta Lei, embora diminuído das funções escolares, oficinais e estéticas que os seus propositores nele incluíam.

Do I. P. C., orgão executivo da Lei, dependerão, pois, as condições para a afirmação de um cinema português, isto é, as condições para que aos portugueses não seja vedado, como tem sido, o acesso à forma de expressão mais característica do nosso tempo. A Câmara Corporativa bem o teve em conta quando propôs que a sua presidência fosse entregue ao presidente dos Grémios do Cinema. A Assembleia Nacional também o teve em conta quando repudiou tal proposta. Foi a primeira fase da luta pelo comando.


8. Conclusão e fecho 


O leitor que termine esta leitura, terá de concluir que a Assembleia Nacional fez um bom trabalho. Dado, porém, que a chamada «discussão» parlamentar consistiu num longo monólogo de um único deputado, apenas cortado por duas brevíssimas interrupções de outro deputado, o leitor ver-se-á obrigado a também concluir que o bom trabalho foi realizado pela oratória de um só deputado, apoiado sem dúvida numa comissão, e pela aprovação taciturna dos demais 143 parlamentares. Temos, assim, que o deputado Veiga de Macedo estudou minuciosamente a Lei e revelou um profundo conhecimento da actividade cultural a que ela se refere; e temos, na taciturnidade da Assembleia, a manifesta compreensão e confiança de 143 deputados.

Que acontecerá, porém, quando outro assunto cultural seja apresentado aos parlamentares e o seu estudo não seja entregue a Veiga de Macedo?


Texto de Orlando Vitorino, in Jornal da Madeira, Funchal, 25 de Março de 1971, pp. 1-3 (suplemento "A Ilha", n.º 6). Assinado como Ernesto Palma.


1.ª representação em Portugal de Jacob e o Anjo, concretizada pela Companhia do Teatro Popular de Lisboa, a 22 de Maio de 1968, no Teatro da Estufa Fria, numa encenação de Orlando Vitorino, com cenários e figurinos de Pinto de Campos. Alguns intérpretes foram: Augusto de Figueiredo, Andrade e Silva, Ricardo Alberty, Madalena Sotto, Henrique Viana, Alves da Costa, Assis Pacheco…


sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

A verdade que eu sei

Escrito por Henrique Veiga de Macedo








Não quero em mim a saudade
do que fui… do que passei;
meu sentimento é vontade
- saudade do que serei.

Eu servi sempre a verdade,
uma verdade que sei;
em mim há continuidade;
na essência nada mudei.

O meu ideal de amanhã
será o da mocidade:
Deus que o deu, sempre o dará.

Não há, pois, que ter saudade,
a não ser do que serei
… nessa verdade que eu sei.


Lisboa, 22 de Janeiro de 1983.






terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Brexit Betrayal and the EU Liars Club

Written by William F. Jasper








"When it becomes serious, you have to lie." So quipped Jean-Claude Juncker, in one of his moments of candor. Juncker is, of course, president of the European Commission, and as such is the chief Eurocrat overseeing the sabotage of Brexit, including the deceitful “negotiation” charade with British Prime Minister Theresa May. Juncker’s infamous quote above is but one of many such admissions by him and his coterie of Eurocrat confreres underscoring the obvious fact that lying, secrecy, and deception are standard operational procedure for the EU elites, as we demonstrate below.

Juncker appears to have made a career of lying. In 2013, he was forced to resign as prime minister of Luxembourg after being caught in a spying and corruption scandal involving Luxembourg’s security agency, SREL. At the time, Juncker was Europe's longest-serving head of government, having been prime minister since 1995. He was thus responsible for overseeing SREL’s illegal activities, which included phone taps of politicians and pay-to-play access. He insisted that he knew nothing about these activities. The scandal — the investigation of which is still ongoing — did not preclude him from moving up to the EU’s top executive post, however. Indeed, the SREL skullduggery is likely to have been a feather in his cap, seen as a requisite virtue by the denizens of Brussels. After all, he had already proven himself a dedicated servitor of “The Project,” as EU insiders have cryptically referred to their budding superstate for the past several decades. While serving simultaneously as the prime minister and finance minister of Luxembourg, Juncker was the first permanent president of the Eurogroup, which is composed of the finance ministers of those EU member states that have adopted the euro as their currency. That lengthy stint (2005-2013) not only earned him the title of “Mr. Euro,” but also enabled him to play key roles in major EU schemes to usurp and centralize power.

Juncker was a central player, for instance, in the debt crises in Greece, Ireland, Portugal, and Spain. And he helped push through enormous bailouts for the “Too-Big-To-Fail” megabanks that had, in the first place, caused the crises with their fraudulent loan practices — banks such as Goldman Sachs, infamously known as the “vampire squid” for its notorious predatory practices. Goldman Sachs is also known as “Government Sachs,” since it has been extraordinarily successful in rotating its “former” executives in and out of top government posts, particularly in the United States and the European Union. This past November Goldman Sachs CEO Lloyd Blankfein hopped on the Project Fear II bandwagon again, claiming Brexit is causing much hand-wringing among nervous CEOs and suggesting there should be a re-vote on Brexit. His effort to sabotage Brexit is hardly surprising since, according to Reuters, “Goldman Sachs donated a six-figure sum to the campaign to keep Britain inside the European Union in 2016.”

But, back to Juncker and his penchant for lying. It is essential to remind ourselves of this in order to understand: 1) the “process” of the Brexit negotiations between Team May and Team Juncker; 2) the false claims and assurances by both sides — while both are actually the same pro-EU/pro-Remain side, and; 3) the deceptive, intentionally ambiguous text of the May/Juncker Withdrawal Agreement, which has been denounced by critics across the board as a betrayal and “Brexit in name only.”

Remember Juncker’s admission: "When it becomes serious, you have to lie." When he made that statement in 2011, it was to a closed-door meeting of members of the European Movement International (EMI). He, undoubtedly, considered the audience to be a friendly group of fellow globalists, and probably thought that the “Chatham House rules” of secrecy applied. He also, most likely, did not know that his comments were being videotaped and might soon come back to haunt both him and the entire effort to transform the EU into the United States of Europe, a fully empowered super-state crushing into oblivion the few residual sovereign powers of its member states. The context of Juncker’s confession about lying-as-policy involved the Greek debt crisis, and specifically, his lying about secret meetings and agreements. In the same session with his EMI comrades, he defended the preference for discussing Eurozone policies (such as the bank bailouts and bail-ins that rob from the taxpayers and depositors to benefit Juncker’s banking elite pals) in secret. “I am for secret, dark debates,” he said.






See here, here and here


“We continue step by step until there is no turning back.”


Well, Brexit is very serious business indeed, so lies and deception were to be expected, and the U.K./EU negotiations have taken place (and continue to the present) in “secret, dark debates.”

Juncker was confronted about his admitted lying in an interview with Der Spiegel, Germany’s leading news magazine. Der Spiegel, which is reliably liberal-left, internationalist, and pro-EU, nevertheless challenged him to reconcile his statement with his claim that he is a Christian who believes in the Ten Commandments:

SPIEGEL: Are you familiar with the Eighth Commandment?

Juncker: Of course. Thou shalt not bear false witness against thy neighbour.

SPIEGEL: Apparently you don't take it very seriously. More than two weeks ago, you denied a report by SPIEGEL ONLINE about a secret meeting of several European Union finance ministers to discuss the situation in Greece, even though the official limousines were already pulling up in Luxembourg.

Juncker: The most important commandment is not to inflict harm on others. Although it isn't stated quite that way in the Ten Commandments, it follows from them….

SPIEGEL: With this false denial, you not only harmed your own credibility, but that of European financial policy as well….

SPIEGEL: Are you saying that, as a finance minister in the age of global capital markets, you cannot tell people the truth?

Juncker: I do not have a ready answer to your question. My main concern is to protect people from detriment. That's why I feel practically compelled to make sure that no dangerous rumors begin to circulate. I'm certainly not going to go to confession because of a false denial. God understands more about the financial markets than many who write about them….

SPIEGEL: When secret meetings are held and the truth isn't always being told, people gain the impression that there must be something wrong with this Europe.

Juncker: People understand perfectly well that politicians have to discuss sensitive issues behind closed doors…. I chose to produce a small wave of outrage over a white lie.

White lie? Lying about secret darkroom policies that purloin tens of billions of euros and transfer them to others is a mere harmless “white lie”? The deception by EU elites doesn’t always involve explicit lying. Here’s another infamous quote from Juncker: “We decide on something, leave it lying around and wait and see what happens. If no one kicks up a fuss, because most people don’t understand what has been decided, we continue step by step until there is no turning back.” He said this regarding the introduction of the single currency, the euro. But it also accurately describes the process by which Brussels has assiduously, stealthily extended its control through the EU “integration” process.

Juncker and his fellow globalists used a combination of outright lying and stealth deception to foist the Treaty of Lisbon on the peoples of the EU after the attempt to approve the EU Constitution failed. In 2005, French and Dutch voters rejected the proposed Constitution, realizing it was a blatant grab for power and a vicious blow to national sovereignty. Irish voters also rejected it, but were forced to vote again, until enough voters were either intimidated or bribed to approve it. And the EU elites, who prattle endlessly about the virtues of democracy, suppressed every other effort for a national referendum on the subject. Nevertheless, since the Constitution required unanimous assent, the French and Dutch “nays” scuttled the Constitution. But not for long. The EU autocrats merely resurrected the Constitution, redubbed it the “Treaty of Lisbon” and approved it as a treaty.

Juncker grudgingly acknowledged the validity of critics’ charges that the treaty is a semi-disguised attack on national sovereignty. “Of course there will be transfers of sovereignty,” Juncker said, as reported by The Telegraph on July 3, 2007. “But would I be intelligent to draw the attention of public opinion to this fact?”









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Lisbon Treaty — Juncker’s “Sleeping Beauty” 


After the Brexit vote, EU leaders decided to rush ahead with their push for new powers for Brussels, especially regarding the creation of a full-fledged EU military. Juncker used the metaphor of Sleeping Beauty in a clear reference to the EU’s tried-and-true tactic of hiding trap-door clauses in the legalese of their treaties and agreements, and then letting them lie dormant until a strategically propitious future date when they can be “awakened” and sprung for maximum effect.

In a December 11, 2017 press release, Juncker stated: “In June I said it was time to wake up the Sleeping Beauty of the Lisbon Treaty: permanent structured cooperation. Six months later, it is happening. I welcome the steps taken today by Member States to lay the foundations of a European Defence Union.”


The Toynbee Imperative 


Although public-opinion surveys have long shown that trust in politicians has never been particularly strong, many voters still find it difficult to believe that their rulers are regularly, flat-out lying to them, directly to their faces, on the most important issues of the day. However, the systematic treachery of EU leaders is making it inescapably more obvious that they are operating under rules of treachery that we might refer to as the “Toynbee Imperative.”

In a speech entitled “The Trend of International Affairs Since the War,” delivered in June 1931 in Copenhagen, Denmark, to the annual conference of the Institutions for the Scientific Study of International Relations, Arnold J. Toynbee stated: “It is just because we are really attacking the principle of local sovereignty that we keep on protesting our loyalty to it so loudly.... I will merely repeat that we are at present working, discreetly but with all our might, to wrest this mysterious political force called sovereignty out of the clutches of the local national states of our world. And all the time we are denying with our lips what we are doing with our hands.”

Dr. Toynbee (1889-1975) was no run-of-the-mill intellectual; he is widely considered to be one of the most influential historians/philosophers of the 20th century. His importance largely derives from his position for many years as the official historian and oracle for the Royal Institute of International Affairs (RIIA, also known as Chatham House), the sister organization of the globalist Council on Foreign Relations (CFR).

Leading members of the RIIA and CFR were the main architects and prime movers not only in the effort to create the United Nations as a platform for eventual world government, but also in the effort to create the United States of Europe as a regional step in that direction. Together, the RIIA-CFR brain trust comprises the central nervous system of the Deep State leviathan that is threatening to extinguish all freedom on this planet by dismantling all checks and balances against global centralized power. And every step along the way they have employed the Toynbee Imperative of lying audaciously.

We can point, for instance, to British Prime Minister and Conservative Party leader Edward Heath, when he led Britain into the European Economic Community (as the EU was then known) in 1973. “There are some in this country who fear that in going into Europe we shall in some way sacrifice independence and sovereignty,” Heath stated in a TV broadcast in January 1973. “These fears, I need hardly say, are completely unjustified.” Heath, of course, as documents now prove, was lying — denying with his lips what he was doing with his hands. He was a knowing, willing participant in treason against his own country. Three years earlier, in 1970, Prime Minister Heath was the primary speaker at a glittering banquet celebrating the 50th anniversary of the founding of the RIIA. (He was also at that time an honorary president of the Institute.) He praised the RIIA for its “outstanding” contributions and insisted “successive British governments have been deeply indebted to the Institute for all it had achieved.”

Prime Minister Theresa May is treading the same RIIA-CFR path as Heath and successive PMs — particularly John Major, Tony Blair, Gordon Brown, and David Cameron. So it is hardly surprising that she has also adopted Toynbee’s prescription of deliberate deception to promote her Brexit-in-name-only “Withdrawal Agreement.” (in The New American, 07 January, 2019).




















sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

A operação de Camarate

Confissão de Fernando Farinha Simões








Março 2012

Eu, Fernando Farinha Simões, decidi finalmente, em 2011, contar toda a verdade sobre Camarate. No passado nunca contei toda a operação de Camarate, pois estando a correr o processo judícial, poderia ser preso e condenado. Também porque durante 25 anos não podia falar, por estar obrigado ao sigilo por parte da CIA, mas esta situação mudou agora, ao que acresce o facto da CIA me ter abandonado completamente desde 1989. Finalmente decidi falar por obrigação de consciência.

Fiz o meu primeiro depoimento sobre Camarate, na Comissão de Inquérito Parlamentar, em 1995. Mais tarde prestei alguns depoimentos em que fui acrescentando factos e informações. Cheguei a prestar declarações para um programa da SIC, organizado por Emídio Rangel, que não chegou contudo a ir para o ar. Em todas essas declarações públicas contei factos sobre o atentado de Camarate, que nunca foram desmentidos, apesar dos nomes que citei e da gravidade dos factos que referi. Em todos esses relatos, eu desmenti a tese oficial do acidente, defendida pela Polícia Judiciária e pela Procuradoria-Geral da República. Numa tive dúvidas de que as Comissões de Inquérito Parlamentares estavam no caminho certo, pois Camarate foi um atentado. Devo também dizer que tendo eu falado de factos sobre Camarate tão graves, e do envolvimento de certas pessoas nesses factos, sempre me surpreendeu que essas pessoas tenham preferido o silêncio. Estão neste caso o Tenente Coronel Lencastre Bernardo ou o Major Canto e Castro. Se se sentissem ofendidos pelas minhas declarações, teria sido lógico que tivessem reagido. Quanto a mim, este seu silêncio só pode significar que, tendo noção do que fizeram, consideraram que quanto menos se falar no assunto, melhor.

Nessas declarações que fiz, desde 1995, fui relatando, sucessivamente, apenas parte dos factos ocorridos, sem nunca ter feito a narração completa dos acontecimentos. Estávamos ainda relativamente próximos dos acontecimentos e não quis portanto revelar todos os pormenores, nem todas as pessoas envolvidas nesta operação. Contudo, após terem passado mais de 30 anos sobre os factos, entendi que todos os portugueses tinham o direito de conhecer o que verdadeiramente sucedeu em Camarate. Não quero contudo deixar de referir que hoje estou profundamente arrependido de ter participado nesta operação, não apenas pelas pessoas que aí morreram, e cuja qualidade humana só mais tarde tive ocasião de conhecer, como do prejuízo que constituiu, para o futuro do país, o desaparecimento dessas pessoas. Naquela altura, contudo, Camarate era apenas mais uma operação em que participava, pelo que não medi as consequências. Peço por isso desculpa aos familiares das vítimas, e aos portugueses em geral, pelas consequências da operação em que participei.

Gostaria assim de voltar atrás no tempo, para explicar como acabei por me envolver nesta operação. Em 1974 conheci, na África do Sul, a agente dupla alemã, Uta Gerveck, que trabalhava para a BND (Bundesnachristendienst) – Serviços de Inteligência Alemães Ocidentais, e ao mesmo tempo para a Stasi. A cobertura legal de Uta Gerveck é feita através do Conselho Mundial das Igrejas (uma espécie de ONG), e é através dessa fachada que viaja praticamente pelo Mundo todo, trabalhando ao mesmo tempo para a BND e para a Stasi. Fez um livro em alemão que me dedicou, e que ainda tenho, sobre a luta de liberdade do PAIGC na Guiné Bissau. O meu trabalho com a Stasi veio contudo a verificar-se posteriormente, quando estava já a trabalhar para a CIA. A minha infiltração na Stasi dá-se por convite da Uta Gerveck, em 1976, com a concordância da CIA, pois isso interessava-lhes muito. Uta Gerveck apresenta-me, em 1978, em Berlim Leste, a Marcus Wolf, então Director da Stasi. Fui para esse efeito então clandestinamente a Berlim Leste, com um passaporte espanhol, que me foi fornecido por Uta Gerveck. 0 meu trabalho de infiltração na Stasi consistiu na elaboração de relatórios pormenorizados acerta das “toupeiras” infiltradas na Alemanha Ocidental pela Stasi. Que actuavam nomeadamente junto de Helmut Khol, Helmut Schmidt e de Hans Jurgen Wischewski. Hans Jurgen Wischewski era o responsável pelas relações e contactos entre a Alemanha Ocidental e de Leste, sendo Presidente da Associação Alemã de Cooperação e Desenvolvimento (ajuda ao Terceiro Mundo), e também ia às reuniões do Grupo Bilderberg. Viabilizou também muitas operações clandestinas, nos anos 70 e 80, de ajuda a grupos de libertação, a partir da Alemanha Ocidental. Estive também na Academia da Stasi, várias vezes, em Postdan-Eiche.

Relativamente ao relato dos factos, gostaria de começar por referir que tenho contactos, desde 1970, em Angola, com um agente da CIA, que é o jornalista e apresentador de televisão Paulo Cardoso (já falecido). Conheci Paulo Cardoso em Angola com quem trabalhei na TVA – Televisão de Angola na altura.

Em 1975, formei em Portugal, os CODECO com José Esteves, Vasco Montez, Carlos Miranda e Jorge Gago (já falecido). Esta organização pretendia defender, em Portugal, se necessário por via de guerrilha, os valores do Mundo Ocidental.

Através de Paulo Cardoso sou apresentado, em 1975, no Hotel Sheraton, em Lisboa, a um agente da CIA, antena, (recolha de informações), chamado Philip Snell. Falei então durante algum tempo com Philip Snell. O Paulo Cardoso estava então a viver no Hotel Sheraton. Passados poucos dias, Philip Snell, diz-me para ir levantar, gratuitamente, um bilhete de avião, de Lisboa para Londres, a uma agência de viagens na Av. de Ceuta, que trabalhava para a embaixada dos EUA. Fui então a uma reunião em Londres, onde encontrei um amigo antigo, Gary Van Dyk, da África do Sul, que colaborava com a CIA. Fui então entrevistado pelo chefe da estação da CIA para a Europa, que se chamava John Logan. Gary Van Dyk, defendeu nessa reunião, a minha entrada para a CIA, dizendo que me conhecia bem de Angola, e que eu trabalhava com eficiência. Comecei então a trabalhar para a CIA, tendo também para esse efeito pesado o facto de ter anteriormente colaborado com a NISS – National Intelligence Security Service (Agência Sul-Africana de Informações). Gary Van Dyk era o antena, em Londres, do DONS – Department Operational of National Security (Sul-Africana).






Regressando a Lisboa, trabalhei para a Embaixada dos EUA, em Lisboa entre 1975 e 1988, a tempo inteiro. Entre 1976 e 1977, durante cerca de um ano e meio vivi numa suite no Hotel Sheraton, o que pode ser comprovado, tudo pago pela Embaixada dos EUA. Conduzia então um carro com matrícula diplomática, um Ford, que estacionava na garagem do Hotel. Nesta suite viveu também a minha mulher, Elsa, já grávida da minha filha Eliana. O meu trabalho incluía recolha de informações e contra informações, informações sobre tráfico de armas, de operações de combate ao tráfico de droga, informações sobre terrorismo, recrutamento de informadores, etc. Estas actividades incluem contactos com serviços secretos de outros países, como a Stassi, a Mossad, e a “Boss” (Sul-Africana), depois NISS – National Information Secret Service, depois DONS e actualmente SASS. Era pago em Portugal, recebendo cerca de USD 5.000 por mês. Nestas actividades facilita o facto de eu falar seis línguas. Actuei utilizando vários nomes diferentes, com passaportes fornecidos pela Embaixada dos EUA em Lisboa. Facilitava também o facto de eu falar um dialecto angolano, o kimbundo.

A Embaixada dos EUA tinha também uma casa de recuo na Quinta da Marinha, que me estava entregue, e onde ficavam frequentemente agentes e militares americanos, que passavam por Portugal. Era a vivenda “Alpendrada”.

A partir de 1975, como referi, passei a trabalhar directamente para a CIA. Contudo, a partir de 1978, passei a trabalhar como agente encoberto, no chamado “Office of Special Operations“, a que se chamava serviços clandestinos, e que visavam observar um alvo, incluindo perseguir, conhecer e eliminar o alvo, em qualquer país do mundo, excepto nos EUA. Por pertencermos a este Office, éramos obrigados a assinar uma cláusula que se chamava “plausible denial” que significa que se fôssemos apanhados nestas operações com documentos de identificação falsos, a situação seria por nossa conta e risco, e a CIA nada teria a ver com a situação. Nessa circunstância tínhamos o discurso preparado para explicar o que estávamos a fazer, incluindo estarmos preparados para aguentar a tortura. Trabalhei para o “Office of Special Operations ” até 1989, ano em que saí da CIA.

Para fazer face a estes trabalhos e operações, as minhas contas dos cartões de crédito do VISA, American Express e Dinners Club, tinham, cada uma, um planfond de 10.000 USD, que podiam ser movimentados em caso de necessidade. Estes cartões eram emitidos no Brasil, em bancos estrangeiros sedeados no Brasil, como o Citibank, o Bank of Boston ou o Bank of America. Entre 1975 e 1989, portanto durante cerca de 14 anos, gastei com estes cartões cerca de 10 milhões de USD, em operações em diversos países, nomeadamente pagando a informadores, políticos, militares, homens de negócios, e também traficantes de armas e de drogas, em ligação com a DEA (Drug Enforcement Agency). Existiram outros valores movimentados à parte, a partir de um saco azul, “em cash”, valores esses postos à disposição pelo chefe da estação da CIA, no local onde as operações eram realizadas. Este saco azul servia para pagar despesas como viagens, compras necessárias, etc.

Posso referir que a operação de Camarate, que a seguir irei transcrever custou a preços de 1980 entre 750.000 e 1 milhão de USD. Só o Sr. José António dos Santos Esteves recebeu 200.000 USD. Estas despesas relacionadas com a operação de Camarate, incluíram os pagamentos a diversas pessoas e participantes, como o Sr. Lee Rodrigues, como seguidamente irei descrever.

Entre 1975 e 1988, participei em vários cursos e seminários em Langley, Virgínia e Quantico, pago pela CIA, sobre informação, desinformação, contra-informação, terrorismo, contra-terrorismo, infiltrações encobertas, etc., etc.

Trabalhei em serviços de infiltração pela CIA e pela DEA (Drug Enforcement Agency), em diferentes países, como Portugal, El Salvador, Bolívia, Colômbia,Venezuela, Peru, Guatemala, Nicarágua, Panamá, Chile, Líbano, Síria, Egipto, Argélia, Marrocos, Filipinas.

A minha colaboração com a DEA, iniciou-se em 1981, através de Richard Lee Armitage. Em 1980, Richard Armitage viria também a estar comigo e com o Henry Kissinger em Paris. Richard Lee Armitage era membro do CFR (Council on Foreign Relations) e da Organização e Cooperação para a Segurança da Europa (OSCE), criada pela CIA. Richard Armitage era também membro, na altura, do Grupo Carlyle, do qual o CEO era Frank Carlucci. O Grupo Carlyle dedica-se à construcção civil, imobiliário e é um dos maiores grupos de tráfico de armas no Mundo, junto com o Grupo Haliburton, chefiado por Richard “Dick” Cheney. O Grupo Carlyle pertence a vários investidores privados dos EUA, por regra do Partido Republicano. Este Grupo promove nomeadamente vendas de armas, petróleo e cimento para países como o Iraque, Afeganistão e agora para os países da primavera árabe.






Frank Carlucci






Ver aqui


A lavagem do dinheiro do tráfico de armas e da droga, era feito, na altura, pelo Banco BCCI, ligado à CIA e à NSA – National Security Agency. O BCCI foi fundado em 1972 e fechado no princípio dos anos 90, devido aos diversos escândalos em que esteve envolvido.

Oliver North pertencia ao Conselho Nacional de Segurança, às ordens de William Walker, ex-embaixador dos EUA em El Salvador. Oliver North seguiu e segue sempre as ordens da CIA, dependente de William Casey. Oliver North está hoje retirado da CIA, e é CEO de vários grupos privados americanos, tal como Frank Carlucci.

Da DEA conheci Celerino Castilho, Mike Levine, Anabelle Grimm e Brad Ayers, tendo trabalhado para a DEA entre 1975 até 1989. Da CIA trabalhei também com Tosh Plumbey, Ralph Mcgehee – tenente coronel da NSA, actualmente reformado. Da CIA trabalhei ainda com Bo Gritz e Tatum. Estes dois agentes tinham a sua base de operações em El Salvador, (onde eu também estive durante os anos 80, durante o tráfico Irão-Contras), desenvolvendo nomeadamente actividades com tráfico de armas. Uma das suas operações consistiu no transporte de armas dos EUA para El-Salvador, que eram depois transportadas para o Irão e a Nicarágua. Os aviões, normalmente panamianos e colombianos regressavam depois para os EUA com droga, nomeadamente cocaína, proveniente de países como a Colômbia, Bolívia e El Salvador, que serviam para financiar a compra de armas. Esta actividade desenvolveu-se essencialmente desde os finais dos anos 70 até 1988.

A cocaína vinha nomeadamente da Ilha Normans Cay, nas Bahamas, de que era proprietário Carlos Lheder Rivas. Carlos Rivas era um dos chefes do Cartel de Medellin, trabalhando para este cartel e para ele próprio. Carlos Rivas era, neste contexto, um personagem importante, sendo o braço direito de Roberto Vesco, que trabalhava para a CIA e para a NSA. Roberto Vesco era proprietário de Bancos nas Bahamas, nomeadamente o Colombus Trust. Carlos Rivas fazia toda a logística de Roberto Vesco e forneciam armas a troco de cocaína, nomeadamente ao movimento de guerrilha Colombiano M19. Roberto Vesco está hoje refugiado em Cuba.

O dinheiro das operações de armas e de droga são lavadas no Banco BCCI e noutros bancos, com o nome de código “Amadeus“. Há no entanto contas activas nas Bahamas e em Norman’s Cay, nas Ilhas Jersey, que gerem contas bancárias, nomeadamente para o tráfico de armas para os “Contras” da Nicarágua, e para o Irão.

Como acima referi, muito desse dinheiro foi para bancos americanos e franceses, o que em parte explicará por que é que Manuel Noriega foi condenado a 60 anos de prisão, tendo primeiro estado preso nos EUA, depois em França, e actualmente no Panamá. Foi preso porque era conveniente que estivesse calado, não referindo nomeadamente que partilhava com a CIA, o dinheiro proveniente da venda de armas e da venda de drogas. Noriega movimentava contas bancárias em mais de 120 bancos, com conhecimento da CIA. Noriega fazia também parte da operação Black Eagle, dedicada ao tráfico de armas e de droga, que em 1982 se transformou numa empresa chamada Enterprise, com a colaboração de Oliver North e de Donald Gregg da CIA. Em face do grau de informações e de conhecimento que tinha, é fácil de perceber porquê se verificou o derrube e a prisão de Noriega. Devo dizer que estou pessoalmente admirado que não o tenham até agora “suicidado“, pois deve ter muitos documentos ainda guardados. Noriega tinha a intenção de contar tudo o que sabia sobre este tráfico, nomeadamente sobre os serviços prestados à CIA e a Bush Pai, tendo por isso sido preso. Washington e a CIA são assim veículos importantes do tráfico de armas e de droga, utilizando nomeadamente os pontos de apoio de South Flórida e do Panamá.

No início dos anos 80 conheci um traficante do cartel de Cali, de nome Ramon Milian Rodriguez, que depôs mais tarde perante uma comissão do Senado Americano, onde falou do tráfico de armas e de droga, do branqueamento de dinheiro, bem como das cumplicidades de Oliver North neste tráfico às ordens de Bush Pai e do Donald Gregg.

Muito do dinheiro gerado nessas vendas foi para bancos americanos e franceses. Este dinheiro servia também para compras de propriedades imobiliárias. Por estar ligado a estas operações, Noriega foi preso pelos EUA.

Foi numa operação de droga que realizei na Colômbia e nas Bahamas, em 1984, onde se deu a prisão de Carlos Lheder Rivas, do Cartel de Medellín, em que eu não concordei com os agentes da DEA da estação de Miami, pois eles queriam ficar com 10 milhões de dólares e com o avião “lear-jet” provenientes do tráfico de droga. Não concordando, participei desses agentes ao chefe da estação da DEA de Miami. Este chefe mandou-lhes então levantar um inquérito, tendo sido presos pela própria DEA. A partir de aí a minha vida tornou-se num verdadeiro inferno, nomeadamente com a realização de armadilhas, e detenções, tendo acabado por sair da CIA em 1989, a conselho de Frank Carlucci. O principal culpado da minha saída da CIA e da DEA foi John C. Lawn, director da estação da DEA e amigo de Noriega e de outros traficantes. John Lawn encobriu, ou tentou encobrir, todos os agentes da DEA que denunciei aquando da prisão de Carlos Rivas. Após a minha saída da CIA, Frank Carlucci continuou contudo a ajudar-me com dinheiro, com conselhos e com apoio logístico, sempre que eu precisei até 1994.






Regressando contudo à minha actividade em Portugal, anteriormente a Camarate e ao serviço da CIA, devo referir que conheci Frank Carlucci, em 1975, através de duas pessoas: um jornalista Português da RTP, já falecido, chamado Paulo Cardoso de Oliveira, que conhecera em Angola, e que era agente da CIA, e Gary Van Dyk, agente da BOSS (Sul-Africana) que conheci também em Angola. Mantive contactos directos frequentes com Frank Carlucci, sobretudo entre 1975 e 1982, de quem recebi instruções para vários trabalhos e operações. Os meus contactos com Frank Carlucci mantêm-se até hoje, com quem falo ainda ocasionalmente pelo telefone. A última vez que estive com ele foi em Madrid, em 2008, na escala de uma viagem que Frank Carlucci realizou à Turquia.

Em Lisboa, também lidei e recebi ordens de William Hasselberg – antena da CIA em Lisboa, que além de recolher informacões em Lisboa actua como elo de ligação entre portugueses e americanos. Tive inclusivamente uma vida social com William Hasselberg, que inclui uma vida nocturna em Lisboa, em diferentes bares, restaurantes, e locais públicos. William Hasselberg gostava bastante da vida nocturna, onde tinha muito gosto em aparecer com as suas diversas “conquistas” femininas. Trabalhei também com outros agentes da CIA, nomeadamente Philip Agee. Neste âmbito, trabalhei em operações de tráfico de armas, e em infiltrações em organizações com o objectivo de obter informações políticas e militares. “Billie” Hasselberg fala bem português, e era grande amigo de Artur Albarran. Hasselberg e Albarran conheceram-se numa festa da embaixada da Colômbia ou Venezuela, tendo Albarran casado nessa altura, nos anos 80, com a filha do embaixador, que foi a sua primeira mulher.

Das reuniões que tive com a embaixada americana em Lisboa, a partir de 1978, conheci vários agentes da CIA. O Chefe da estação da CIA em Portugal, John Logan, oferece-me um livro seu autografado. Conheci também o segundo chefe da CIA, Sr. Philip Snell, Sr. James Lowell, e o Sr. Arredondo. Da parte militar da CIA conheci o cor. Wilkinson, a partir de quem conheci o coronel Oliver North e o coronel Peter Bleckley. O coronel Oliver North, militar mas também agente da CIA e o coronel Peter Bleckley, são os principais estrategas nos contactos internacionais, com vista ao tráfico e venda de armas, nomeadamente com países como o Irão, Iraque, Nicarágua, e o El Salvador. Na sequência do conhecimento que fiz com Oliver North , tive várias reuniões com ele e com agentes da CIA, por causa do tráfico e negócio de armas. Estas reuniões tiveram lugar em vários países, como os EUA, o México, a Nicarágua, a Venezuela, o Panamá. Neste último país contactei com dois dos principais adjuntos de Noriega, José Bladon, chefe dos serviços secretos do Panamá, que me disse que praticamente todos os embaixadores do Panamá em todo o Mundo estavam ao serviço de Noriega.

Blandon pediu-me na altura se eu arranjava um Rolls Royce Silver Spirits, para o embaixador do Panamá em Lisboa, o que acabei por conseguir.

Em meados de 1980, Frank Carlucci refere-me, por alto, e pela primeira vez, que eu iria ser encarregue de fazer um “trabalho” de importância máxima e prioritária em Portugal, com a ajuda dele, da CIA, e da Embaixada dos EUA em Portugal, sendo-me dado, para esse efeito, todo o apoio necessário.

Tenho depois reuniões em Lisboa, com o agente da CIA, Frank Sturgis, que conheço pela primeira vez. Frank Sturgis é uma pessoa de aspecto sinistro e com grande frieza, e é organizador das forças anti-castristas, sediadas em Miami, e é elo de ligação com os “contra” da Nicarágua. Frank Sturgis refere-me então, que está em marcha um plano para afastar, definitivamente, (entenda-se eliminar) uma pessoa importante, ligada ao Governo Português de então, sem dizer contudo ainda nomes.

Algum tempo depois, possivelmente em Setembro ou Outubro de 1980, jogo ténis com Frank Carlucci quase toda a tarde, na antiga residência do embaixador dos EUA, na Lapa. Janto depois com ele, onde Frank Carlucci refere novamente que existem problemas em Portugal para a venda e transporte de armas, e que Francisco Sá Carneiro não era uma pessoa querida dos EUA. Depois já na sobremesa, juntam-se a nós o General Diogo Neto, o Coronel Vinhas, o Coronel Rebocho Vaz e Paulo Cardoso, onde se refere novamente a necessidade de se afastarem alguns obstáculos existentes ao negócio de armas. Todos estes elementos referem a Frank Carlucci que eu sou a pessoa indicada para a preparação e implementação desta operação.

Em Outubro de 1980, há um jantar no Hotel Sheraton onde participo eu, Frank Sturgis (CIA), Vilfred Navarro (CIA), o General Diogo Neto e o Coronel Vinhas (já falecidos), onde se refere que há entraves ao tráfico de armas que têm de ser removidos. Depois há um outro jantar também no Hotel Sheraton, onde participam, entre outros, eu e o Coronel Oliver North, onde este diz claramente que “é preciso limar algumas arestas” e "se houver necessidade de se tirar alguém do caminho, tira-se", dando portanto a entender que haverá que eliminar pessoas que criam problemas aos negócios de venda de armas. Oliver North diz-me também que está a ter problemas com a sua própria organização, e que teme que o possam querer afastar e “deixar cair”, o que acabou por acontecer.







Pezarat Correia


Franco Charais (à esquerda). Ver aqui, aqui e aqui


Há também portugueses que estavam a beneficiar com o tráfico de armas, como o Major Canto e Castro, o General Pezarat Correia, Franco Charais e o empresário Zoio. Sabe-se também já nessa altura que Adelino Amaro da Costa estava a tentar acabar com o tráfico de armas, a investigar o fundo de desenvolvimento do Ultramar, e a tentar acabar com lobbies instalados. Afastar essas duas pessoas pela via política era impossível, pois a AD tinha ganho as eleições. Restava portanto a via de um atentado.

Passados alguns dias, recebo um telefonema do Major Canto e Castro (pertencente ao Conselho da Revolução), que eu já conhecia de Angola, pedindo para eu me encontrar com ele no Hotel Altis. Nessa reunião está também Frank Sturgis, e fala-se pela primeira vez em “atentado“, sem se referirem ainda quem é o alvo. Referem que contam comigo para esta operação. O Major Canto e Castro diz que é preciso recrutar alguém capaz de realizar esta operação.

Tenho depois uma segunda reunião no Hotel Altis com Frank Sturgis e Philip Snell, onde Frank Sturgis me encarrega de preparar e arranjar alguns operacionais para uma possível operação dentro de pouco tempo, possivelmente dentro de 2 ou 3 meses. Perguntam-me se já recrutei a pessoa certa para realizar este atentado, e se eu conheço algum perito na fabricação de bombas e em armas de fogo. Respondo que em Espanha arranjaria alguém da ETA para vir cá fazer o atentado, se tal fosse necessário. Quem paga a operação e a preparação do atentado é a CIA e o Major Canto e Castro. Canto e Castro colabora na altura com os Serviços Secretos Franceses, para onde entrou através do sogro na época. O sogro era de Nacionalidade Belga, que trabalhava para a SDEC, os serviços de inteligência franceses, em 1979 e 1980. Canto e Castro casou com uma das suas filhas, quando estava em Luanda, em Angola, ao serviço da Força Aérea Portuguesa. Em Luanda, Canto e Castro vivia perto de mim.

Tendo que organizar esta operação, falo então com José Esteves e mais tarde com Lee Rodrigues (que na altura ainda não conhecia). O elo de ligação de Lee Rodrigues em Lisboa era Evo Fernandes, que estava ligado à resistência moçambicana, a Renamo. Falo nessa altura também com duas pessoas ligadas à ETA militar, para caso do atentado ser realizado através de armas de fogo.

Depois, noutro jantar em casa de Frank Carlucci, na Lapa, na mansarda, no último andar, onde jantamos os dois sozinhos, Frank Carlucci diz abertamente e pela primeira vez, o que eu tinha de fazer, qual era a operação em curso e que esta visava Adelino Amaro da Costa, que estava a dificultar o transporte e venda de armas a partir de Portugal ou que passavam por Portugal, e que havia luz verde dada por Henry Kissinger, e que essa ordem me seria dada directamente em Paris.

Poucos dias depois vôo com Philip Snell para Paris, ficando no Hotel Baltimore, na Avenida Bis Kleber. Philip Snell faz uma reserva para um alto cargo dos EUA, no Hotel George V. Depois, juntamente com Philip Snell, desloco-me ao restaurante Fouquet's, nos Champs Elisées, onde me encontro com Henry Kissinger e Oliver North. Cumprimento ambos, referindo que sou "o homem deles em Lisboa".

Três semanas antes do atentado, Canto e Castro e Frank Sturgis, referem pela primeira vez, que o alvo do atentado é Adelino Amaro da Costa. O Major Canto e Castro afirma que irá viajar para Londres. Frank Sturgis pede-me que obtenha um cartão de acesso ao aeroporto para um tal Lee Rodrigues, que é referido como sendo a pessoa que levará e colocará a bomba no avião.

Recebo depois um telefonema de Canto e Castro, referindo que está em Londres e para eu ir ter lá com ele. Refere-me que o meu bilhete está numa agência de viagens situada na Av. da República, junto à pastelaria Ceuta. Chegado a Londres fico no Hotel Grosvenor, ao pé de Victoria Station. Canto e Castro vai buscar-me e leva-me a uma casa perto do Hotel, onde me mostra, pela primeira vez, o material, incluindo explosivos, que servirão para confeccionar a “bomba” nesta operação. Essa casa em Londres, era ao mesmo tempo residência e consultório de um dentista indiano, amigo de Canto e Castro. Canto e Castro refere-me que esse material será levado para Portugal pela sua companheira Juanita Valderrama. O Major Canto e Castro pede-me então que vá ao Hotel Altis recolher o material. Vou então ao Hotel acompanhado de José esteves, e recebemos uma mala e uma carta da senhora Juanita. José Esteves prepara então uma bomba destinada a um avião, com esses materiais, com a ajuda de Carlos Miranda.

O Major Canto e Castro volta depois de Londres, encontra-se comigo, e digo-lhe que a bomba está montada. Lee Rodrigues é-me apresentado pelo Major Canto e Castro. Alguns dias depois Lee Rodrigues telefona-me e encontramo-nos para jantar no restaurante Galeto, junto ao Saldanha, juntamente com Canto e Castro, onde aparece também Evo Fernandes, que era o contacto de Lee Rodrigues em Lisboa. Fora Evo Fernandes que apresentara Lee Rodrigues a Canto e Castro. Lee Rodrigues era moçambicano e tinha ligações à Renamo. Nesse jantar alinham-se pormenores sobre o atentado. Canto e Castro refere contudo nesse jantar que o atentado será realizado em Angola. Perante esta afirmação, pergunto se ele está a falar a sério ou a brincar, e se me acha com “cara de palhaço”, fazendo tenção de me levantar. Refiro que, através de Frank Carlucci, já estava a par de tudo. Lee Rodrigues pede calma, referindo depois Canto e Castro que desconhecia que eu já estava a par de tudo, mas que sendo assim nada mais havia a esconder.








Dezembro de 1981: Frank Sturgis com Daniel Chipenda e Vítor Fernandes.


Possivelmente em Novembro, é-me solicitado por Philip Snell que participe numa reunião em Cascais, num iate junto à antiga marina (na altura não existia a actual marina). Vou e levo comigo José Esteves. Essa reunião tem lugar entre as 20 e as 23 horas, nela participando Philip Snell, Oliver North, Frank Sturgis, Sydral e Lee Rodrigues e mais cerca de 2 ou 3 estrangeiros, que julgo serem americanos. Nesta reunião é referido que há que preparar com cuidado a operação que será para breve, e falam-se de pormenores a ter em atenção. É referido também os cuidados que devem ser realizados depois da operação, e o que fazer se algo correr mal. A língua utilizada na reunião é o inglês. José Esteves recebeu então USD 200.000 pelo seu futuro trabalho. Eu não recebi nada pois já era pago normalmente pela CIA. Eu nessa altura recebia da CIA o equivalente a cinco mil dólares, dispondo também de dois cartões de crédito Diner’s Club e Visa Gold, ambos com plafonds de 10.000 dólares.

Lee Rodrigues pede-me então que arranje um cartão para José Esteves entrar no aeroporto. Para este efeito, obtenho um cartão forjado, na mouraria, em Lisboa, numa tipografia que hoje já não existe. Lee Rodrigues diz-me também que irá obter uma farda de piloto numa loja ao pé do Coliseu, na Rua das Portas de Santo Antão. A meu pedido, João Pedro Dias, que era carteirista, arranja também um cartão para Lee Rodrigues. Este cartão foi obtido por João Pedro Dias, roubando o cartão de Miguel Wahnon, que era funcionário da TAP. Apenas foi necessário mudar-se a fotografia desse cartão, colocando a fotografia de Lee Rodrigues.

José Esteves prepara então em sua casa no Cacém, um engenho para o atentado. Conta com a colaboração de outro operacional chamado Carlos Miranda, especialista em explosivos, que é recrutado por mim, e que eu já conhecia de Angola, quando Carlos Miranda era comandante da FNLA e depois CODECO em Portugal. José Esteves foi também um dos principais comandantes da FNLA, indo muitas vezes a Kinshasa.

Depois do artefacto estar pronto, vou novamente a Paris. No Hotel Ritz, à tarde, tenho um encontro com Oliver North, o Cor. Wilkinson e Philip Snell, onde se refere que o alvo a abater era Adelino Amaro da Costa, Ministro da Defesa.

Volto a Portugal, cerca de 5 ou 6 dias antes do atentado. É marcado por Oliver North um jantar no Hotel Sheraton. Nesse jantar aparece e participa um indivíduo que não conhecia e que me é apresentado por Oliver North, chamado Penaguião. Penaguião afirma ser segurança pessoal de Sá Carneiro. Oliver North refere que Penaguião faz parte da segurança pessoal de Sá Carneiro e que é o homem que conseguirá meter Sá Carneiro no Avião. Penaguião afirma, de forma fria e directa que Sá Carneiro também iria no avião, “pois dessa forma matavam dois coelhos de uma cajadada!” Afirma que a sua eliminação era necessária, uma vez que Sá Carneiro era anti-americano, e apoiava incondicionalmente Adelino Amaro da Costa na denúncia do tráfico de armas, e na descoberta do chamado saco azul do Fundo de Defesa do Ultramar, pelo que tudo estava, desde o início, preparado para incluir as duas pessoas: Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. Fico muito receoso, pois só nesse momento fiquei a conhecer a inclusão de Sá Carneiro no atentado. Pergunto a Penaguião como é que ele pode ter a certeza de que Sá Carneiro irá no avião, ao que Penaguião responde de que eu não me preocupasse pois que ele, com mais alguém, se encarregaria de colocar Sá Carneiro naquele avião naquele dia e naquela hora, pois ele coordenava a segurança e a sua palavra era sempre escutada. No final do jantar, juntam-se a nós os três o General Diogo Neto e o Coronel Vinhas.

Fico estarrecido com esta nova informação sobre Sá Carneiro, e decido ir, nessa mesma noite, à residência do embaixador dos EUA, na Lapa, onde estava Frank Carlucci, a quem conto o que ouvi. Frank Carlucci responde que não me preocupasse, pois este plano já estava determinado há muito tempo. Disse-me que o homem dos EUA era Mário Soares, e que Sá Carneiro, devido à sua maneira de ser, teimoso e anti-americano, não servia os interesses estratégicos dos EUA. Mário Soares seria o futuro apoio da política americana em Portugal, junto com outros lideres do PSD e do PS. Aceito então esta situação, uma vez que Frank Carlucci já me havia dito antes que tudo estava assegurado, inclusivamente se algo corresse mal, como a minha saída de Portugal, a cobertura total para mim e para mais alguém que eu indicasse, e que pudesse vir a estar em perigo. Isto é a usual “realpolitik” dos Estados Unidos, e suspeito que sempre será.

Três dias antes do atentado há uma nova reunião, na Rua das Pretas no Palácio Roquete, onde participam Canto e Castro, Farinha Simões, Lee Rodrigues, José Esteves e Carlos Miranda. Carlos Miranda colaborou na montagem do engenho explosivo com José Esteves, tendo ido várias vezes a casa de José Esteves. Nessa reunião são acertados os últimos pormenores do atentado. Nessa reunião, Lee Rodrigues diz que ele está preparado para a operação e Canto e Castro diz que o atentado será a 3 ou 4 de Dezembro. Nessa reunião é dito que o alvo é Adelino Amaro da Costa. No dia seguinte encontramo-nos com Canto e Castro no Hotel Sheraton, e vamos jantar ao restaurante “O Polícia”.

No dia 4 de Dezembro, telefono de um telefone no Areeiro, para o Sr. William Hasselberg, na Embaixada dos EUA, para confirmar que o atentado é para realizar, tendo-me este referido que sim. Desse modo, à tarde, José Esteves traz uma mala a minha casa, e vamos os dois para o aeroporto. Conduzo José Esteves ao aeroporto, num BMW do José Esteves.






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Já no aeroporto, José Esteves e eu entramos no aeroporto, por uma porta lateral, junto a um posto da Guarda Fiscal, utilizando o cartão forjado, anteriormente referido. Depois José Esteves desloca-se e entrega a mala, com o engenho, a Lee Rodrigues, que aparece com uma farda de piloto e é também visto por mim. Depois de cerca de 15 minutos, sai já sem a mala, e sai comigo do aeroporto. Separamo-nos, mas mais tarde José Esteves encontra-se novamente comigo no cabeleireiro Baeta, no centro comercial Alvalade.

Depois José Esteves aparece em minha casa com a companheira da época, de nome Gina, e com um saco de roupa para lá ficar por precaução. Ouvi-mos depois o noticiário das 20 horas na televisão, e José Esteves fica muito surpreendido, pois não sabia que Sá Carneiro também ia no avião.

Afirma que fomos enganados. Telefona então para Lencastre Bernardo, que tinha grandes ligações à PJ e à PJ Militar, e uma Ligação ao General Eanes. Lencastre Bernardo tem também ligações a Canto e Castro, Pezarat Correia, Charais, ao empresário Zoio a José António Avelar que era ex-braço direito de Canto e Castro. José Esteves telefona-lhe, e pede para se encontrar com ele. Este aceita, pelo que, pelas 23 horas, José Esteves, eu, e a minha mulher Elza, dirigimo-nos para a Rua Gomes Freire, na PJ, para falar com ele. José Esteves sobe para falar com Lencastre Bernardo que lhe tinha dito que não se preocupasse, pois nada lhe sucederia. Passámos contudo por casa de José Esteves pois este temia que aí houvesse já um conjunto de polícias à sua procura, devido a considerarem que ele estava associado à queda do avião em Camarate. José Esteves ficou assim aliviado por verificar que não existia aparato policial à porta de sua casa. Vem contudo dormir para minha casa.

Alguns dias depois falei novamente com Frank Carlucci. A quem manifestei o meu desconhecimento e ter ficado chocado por ter sabido, depois de o avião ter caído, que acompanhantes e familiares do Primeiro Ministro e do Ministro da Defesa também tinham ido no Avião. Frank Carlucci respondeu-me que compreendia a minha posição, mas que também ele desconhecia que iriam outras pessoas no avião, mas que agora já nada se podia fazer.

Em 1981, encontro-me com Victor Pereira, na altura agente da Polícia Judiciária, no restaurante Galeto, em Lisboa. Conto a Victor Pereira que alguns dos atentados estão atribuídos às Brigadas Revolucionárias, relacionados com a colocação de bombas, foram porém efectuados pelo José Esteves, como foram os casos dos atentados à bomba na Embaixada de Angola, de Cuba (esta última com conhecimento de Ramiro Moreira), na casa de Torres Couto, na casa do prof. Diogo Freitas do Amaral, na casa do Eng. Lopes Cardoso, e na casa de Vasco Montez, a pedido deste, junto ao Jumbo em Cascais, para obter sensacionalismo à época, tendo José Esteves espalhado panfletos iguais aos da FP25. Não falei então com Victor Pereira sobre Camarate. Tomei conhecimento no entanto que Victor Pereira, no dia 4 de Dezembro de 1980, tendo ido nessa noite ao aeroporto da Portela, como agente da PJ, encontrou a mala que era transportada pelo eng. Adelino Amaro da Costa. Nessa mala estavam documentos referentes ao tráfico de armas e de pessoas envolvidas com o Fundo de Defesa do Ultramar. Salvo erro, Victor Pereira entregou essa mala ao inspector da PJ Pedro Amaral, que por sua vez a entregou na PJ. Disse-me então Victor Pereira que essa mala, de maior importância no caso de Camarate, pelas informações que continha, e que podiam explicar os motivos e as pessoas por detrás deste atentado, nunca mais voltou a aparecer. Esta informação foi-me transmitida por Victor Pereira, quando esteve preso comigo na prisão de Sintra, em 1986. Não referi então a Victor Pereira que, como descrevo a seguir, eu tinha já tido contacto com essa mala, em finais de 1982, pelo facto de trabalhar com os serviços secretos na Embaixada dos EUA.

Também em 1981, uns meses depois do atentado, eu e o José Esteves fomos ter com o Major Lencastre Bernardo, na Polícia Judiciária, na Rua Gomes Freire. Com efeito, tanto o José Esteves como eu, andávamos com medo do que nos podia suceder por causa do nosso envolvimento no atentado de Camarate, e queríamos saber o que se passava com a nossa protecção por causa de Camarate. Eu não participo na reunião, fico à porta. Contudo José Esteves diz-me depois que nessa conversa Lencastre Bernardo lhe referiu que, numa anterior conversa com Francisco Pinto Balsemão, este lhe havia dito ter tido conhecimento prévio do atentado de Camarate, pois em Outubro de 1980, Kissinger o informou de que essa operação ia ocorrer. Disse-lhe também que ele próprio tinha tido conhecimento prévio do atentado de Camarate. Disse-lhe ainda que podíamos estar sossegados quanto a Camarate, pois não ia haver problemas connosco, pois a investigação deste caso ia morrer sem consequências.

A este respeito gostaria de acrescentar que numa reunião que tive, a sós, em 1986, com Lencastre Bernardo, num restaurante ao pé do edifício da PJ na Rua Gomes Freire, ele garantiu-me que Pinto Balsemão estava a par do que se ia passar em 4 de Dezembro. No restaurante Fouchet’s, em Paris, Kissinger tinha-me dito, “por alto”, que o futuro Primeiro Ministro de Portugal seria Pinto Balsemão.

É importante referir que tanto Henry Kissinger como Pinto Balsemão eram já, em 1980, membros destacados do grupo Bilderberg, sendo certo que estas duas pessoas levavam convidados às reuniões anuais desta organização.









Deste modo, aquando da conversa com Lencastre Bernardo, em 1986, relacionei o que ele me disse sobre Pinto Balsemão, com o que tinha ouvido em Paris, em 1980. Tive também esta informação, mais tarde, em 1993, numa conversa que tive com William Hasselberg, em Lisboa, quando este me confirmou de que Pinto Balsemão estava a par de tudo.

Em finais de 1982, pelas informações que vou obtendo na Embaixada dos EUA, em Lisboa, verifico que se fala de nomes concretos de personalidades americanas como tendo estado envolvidas em tráfico de armas que passava por Portugal. Pergunto então a William Hasselberg como sabem destes nomes. Ao fim de muitas insistências minhas, William Hasselberg acaba por me dizer que a PJ entregou, na embaixada dos EUA, uma mala com os documentos transportados por Adelino Amaro da Costa, em 4 de Dezembro de 1980, e que ficou junto aos destroços do avião, embora não me tenha dito quem foi a pessoa da PJ que entregou esses documentos. Peço então a William Hasselberg que me deixe consultar essa mala, uma vez que faço também parte da equipa da CIA em Portugal. Ele aceita, e pude assim consultar os documentos aí existentes, que consistiam em cerca de 200 páginas. Pude assim consultar este Dossier durante cerca de uma semana, tendo-o lido várias vezes, e resumido, à mão, as principais partes, uma vez que não tinha como fotografá-lo ou copiá-lo.

Vejo então, que apesar do desastre do avião, e da pasta de Adelino Amaro da Costa ter ficado queimada, e ter sido substituída por outra, os documentos estavam intactos. Estes documentos continham uma lista de compra de armas, que incluía nomeadamente RPG-7, RPG-27, G3, lança-granadas, dilagramas, munições, granadas, minas, rádios, explosivos de plástico, fardas, kalashiskovs AK-47 e obuses. Referia-se também nesses documentos que para se iludir as pistas, as vendas ilegais de armas eram feitas através de empresas de fachada, com os caixotes a referir que a carga se tratava de equipamentos técnicos, e peças sobresselentes para máquinas agrícolas e para a construção civil. Esta forma de transportar armas foi-me confirmada várias vezes por Oliver North, no decorrer da década de 80, até 1988, e quando estive em Ilopango, no El Salvador, também na década de 80, verifiquei que era verdade.

Nestes documentos lembro-me de ver que algumas armas vinham da empresa portuguesa Braço de Prata, bem como referências de vendas de armas de Portugal e de países de Leste, como a Polónia e a Bulgária, com destino para a Nicarágua, Irão, El Salvador, Colômbia, Panamá, bem como para alguns países Africanos que estavam em guerra, como Angola, ANC da África do Sul, Nigéria, Mali, Zimbawe, Quénia, Somália, Líbia, etc. Está também claramente referido nesses documentos que a venda de armas é feita através da empresa criada em Portugal chamada “Supermarket” (que operava através da empresa mãe “Black-Eagle”).

Nos referidos documentos vi também que as vendas de armas eram legais através de empresas portuguesas, mas também havia vendas de armas ilegais feitas por empresas de fachada, com a lavagem de dinheiro em bancos suíços e “off-shores” em nome dos detentores das contas, tanto pessoas civis como militares.

As vendas ilegais de armas ocorriam por várias razões, nomeadamente: Em primeiro lugar, muitos dos países de destino, tinham oficialmente sanções e embargos de armas. Em segundo lugar, os EUA não queriam oficialmente apoiar ou vender armas a certos países, nomeadamente aos contra da Nicarágua, ou ao Irão e ao Iraque, a quem vendiam armas ao mesmo tempo, e sem conhecimento de ambos. Em terceiro lugar, a venda de armas ilegal é mais rentável e foge aos impostos. Em quarto lugar, a venda de armas ilegal permite o branqueamento de capitais, que depois podiam ser aproveitados para outros fins.

Entre os nomes que vi referidos nestes documentos figuravam:


José António Avelar
Coronel Vinhas
General Diogo Neto
Major Canto e Castro
Empresário Zoio
General Pezarat Correia
General Franco Charais
General Costa Gomes
Major Lencastre Bernardo
Coronel Rebocho Vaz
Francisco Pinto Balsemão


Francisco Balsemão e Lencastre Bernardo eram referidos como elementos de ligação ao grupo Bilderberg e a Henry Kissinger. Francisco Balsemão pertence também à loja maçónica “Pilgrim”, que é anglo-saxónica, e dependente do grupo Bilderberg. Lencastre Bernardo tinha também assinalada a sua ligação a alguns serviços de inteligência, visto ele ser, nos anos 80, o coordenador na PJ e na Polícia Judiciária Militar.

Entre as empresas portuguesas que realizavam as vendas de armas atrás referidas, entre os anos 1974 e 1980, estavam referidas neste Dossier:

– Fundição de Oeiras (morteiros, obuses e granadas);
– Cometna (engenhos explosivos e bombas);
– OGMA (Oficinas Gerais Militares de Fardamento e OGFE (Oficinas de Fardamento do Exército);
– Browning Viana S.A.;
– A. Paukner Lda, que existe desde 1966;
– Explosivos da Trafaria;
– SPEL (Explosivos);
– INDEP (armamento ligeiro e munições);
– Montagrex Lda, que actuava desde 1977, com Canto e Castro e António José Avelar [sic]. Só foi contudo oficialmente constituída em 1984, deixando, nessa altura, Canto e Castro de fora, para não o comprometer com a operação de Camarate. A Montagrex Lda operava no Campo Pequeno, e era liderada por António Avelar que era o braço direito de Canto e Castro e também sócio dessa empresa. O escritório dessa empresa no Campo Pequeno é um autêntico “bunker”, com portas blindadas, sensores, alarmes, códigos nas portas, etc.

Canto e Castro e António Avelar são também sócios da empresa inglesa BAE-Systems, sediada no Reino Unido. Esta empresa vende sistemas de defesa, artilharia, mísseis, munições, armas submarinas, minas e sobretudo sistemas de defesa anti-mísseis para barcos.

Todos estes negócios eram feitos, na sua maior parte, por ajuste directo, através de brokers – intermediários, que recebiam as suas comissões, pagas por oficiais do Exército, Marinha, Aeronáutica, etc.


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Ao centro: Vasco Gonçalves e Rosa Coutinho. Ver aqui, aqui e aqui




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Nestes documentos era referido que, como consequência destas vendas de armas, gerava-se um fluxo considerável de dinheiro, a partir destas exportações, legais e ilegais. Estes documentos referiam também a quem eram vendidas estas armas, sobretudo a países em guerra, ou ligados ao terrorismo internacional. Era também referido que todas estas vendas de armas eram feitas com a conivência da autoridade da época, nomeadamente militares como o General Costa Gomes, o General Rosa Coutinho (venda de armas a Angola) e o próprio Major Otelo Saraiva de Carvalho (venda de armas a Moçambique). Vi várias vezes o nome de Rosa Coutinho nestes documentos, que nas vendas de armas para Angola utilizava como intermediário o general reformado angolano, José Pedro Castro, bastante ligado ao MPLA, que hoje dispõe de uma fortuna avaliada em mais de 500 milhões de USD, e que dividia o seu tempo entre Angola, Portugal e Paris. O seu filho, Bruno Castro, é director adjunto do Banco BIC em Angola.

No referido Dossier estavam também referidos outros militares envolvidos neste negócio de armas, nomeadamente o Capitão Dinis de Almeida, o Coronel Corvacho, o Varela Gomes e o Carlos Fabião.

Todas estas pessoas obtinham lucros fabulosos com estes negócios, muitas vezes mesmo antes do 25 de Abril de 1974 e até 1980. Era referido que estas pessoas, nomeadamente militares, que ajudavam nesta venda de armas, beneficiavam através de comissões que recebiam. Estavam referidos neste Dossier os nomes de “off-shores”, que eram usadas para pagar comissões às pessoas atrás referidas e a outros estrangeiros, por Oliver North ou por outros enviados da CIA. Estas “off-shores” detinham contas bancárias, sempre numeradas.

Esta referência batia certo com o que Oliver North sempre me contou, de que o negócio das armas se proporciona através de “off-shores” e bancos controlados para a lavagem de dinheiro.

Vale a pena a este respeito referir que no negócio das armas, empresas do sector das obras públicas aparecem frequentemente associadas, como a Haliburton, a Carlyle, ou a Blackwater, (empresa de armas, construção e mercenários), entre outras. Esta relação está referida, há anos, em vários relatórios, nomeadamente nos relatórios do Bribe Payer Index (índice internacional dos pagadores de subornos), que é uma agência americana. A indicação deste tipo de práticas foi desenvolvida mais tarde, pela Transparency International e pelo Comité Norte-Americano de Coordenação e Promoção do Comércio do Senado Americano, que referem que há muitos anos, mais de 50% do negócio e comércio de armas em Portugal, é feito através de subornos. Os americanos sempre usaram Portugal para o tráfico de armas, fazendo também funcionar a Base das Lajes, nos Açores, para este efeito, nomeadamente depois de 1973, aquando da guerra do Yom Kippur, entre Israel e os países árabes. Este tráfico de armas deu origem a várias contrapartidas financeiras, nomeadamente através da FLAD [Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento], que foi usada pela CIA para este efeito. A FLAD recebeu diversos fundos específicos para a requalificação de recursos humanos.

Não vi contudo neste Dossier observações referindo que estas vendas de armas eram condenáveis ou que tinham efeitos negativos. Havia contudo uma pequena nota, em algumas folhas, de que se devia tomar cuidado com tudo o que aí estava escrito, e que portanto se devia actuar. Havia também na primeira página um carimbo que dizia “confidential and restricted”.

Estas vendas de armas continuaram contudo depois de 1980. Tanto quanto eu sei, estas vendas de armas continuaram a ser realizadas até 2004, embora com um abrandamento importante a partir de 1984, a partir do escândalo das fardas vendidas à Polónia.

No referido Dossier, estavam também referidas personalidades americanas envolvidas no negócio de armas, nomeadamente Bush (Pai), Dick Cheney, Frank Carlucci, Donald Gregg, vários militares, bem como a empresa Blackwater. São ainda referidas empresas ligadas aos EUA, como a Carlyle, Haliburton, Black-Eagle Enterprise, etc., que estavam a usar Portugal para os seus fins, tanto pela passagem de armas através de portos portugueses, como pelo fornecimento de armas a partir de empresas portuguesas. Tirei apontamentos desses documentos, que ainda hoje tenho em meu poder.

A empresa atrás referida, denominada Supermarket, foi criada em Portugal em 1978, e operava através da empresa mãe, de nome Black-Eagle, dirigida por William Casey, (membro do CFR (Council on Foreign Relations), ex-embaixador dos EUA nas Honduras e também com ligações à CIA). A empresa Supermarket organizava a compra de armas de fabrico soviético, através de Portugal, bem como a compra de armas e munições portuguesas, referidas anteriormente, com toda a cumplicidade de Oliver North. Estas armas iam para entrepostos nas Honduras, antes de serem enviadas para os seus destinos finais. Oliver North pagou muitas facturas destas compras em Portugal, através de uma empresa chamada Gretsh World, que servia de fachada à Supermarket. Mais tarde, cerca de 1985, quando se começou muito a falar de Camarate, Oliver North cancelou a operação “Supermarket, e fechou todas as contas bancárias.






















Devo ainda referir que William Hasselberg e outros americanos da embaixada dos EUA, em Lisboa, comentaram comigo, várias vezes o que estava escrito neste Dossier. Relativamente a Hasselberg isso era lógico, pois foi ele que me deu o Dossier a ler. Posteriormente comentei também o que estava escrito neste Dossier com Frank Carlucci, que obviamente já tinha conhecimento da informação nele contida.

Tanto William Hasselberg, como membro da CIA, como outros elementos da CIA atrás referidos e outros, comentaram várias vezes comigo o envolvimento da CIA na operação de Camarate e neste negócio de armas. Lembro-me nomeadamente que quando alguém da CIA, me apresentava a outro elemento da CIA, dizia frequentemente “this is the portuguese guy, the one from Camarate, the case in Portugal with the plane!”.

As vendas de armas, a partir e através de Portugal, foram realizadas ao longo desses anos, pois era do interesse político dos EUA. A CIA organizou e implementou estas vendas de armas em Portugal, à semelhança do que sucedeu noutros países, pois era crucial para os EUA que certas armas chegassem aos países referidos, de forma não oficial, tendo para isso utilizado militares e empresários portugueses, que acabaram também por beneficiar dessas vendas.

Como anteriormente referi, William Casey e Oliver North estavam, nas décadas de 70 e 80, conluiados com o presidente Manuel Noriega, no escândalo Irão -contras (Irangate). Foi sempre Oliver North que se ocupou da questão dos reféns americanos no Irão, bem como da situação da América Central. Recebeu pessoalmente por isso uma carta de agradecimentos de George Bush Pai, Vice-Presidente à época de Ronald Reagan.

Devo dizer a este respeito que John Bush, filho de Bush Pai, então com 35 anos, a viver na Flórida, pertencia em 1979 e 1980 ao “Condado de Dade”, que era e é uma organização republicana, situada em South Flórida, destinada a angariar fundos para as campanhas eleitorais republicanas. John Bush era um dos organizadores de apoios financeiros para os “Contra” da Nicarágua.

Conheci também Monzer Al Kasser, um grande traficante de armas que tinha uma casa em Puerto Banus em Marbella, e que me foi apresentado, em Paris, por Oliver North, em 1979. Era um dos grandes vendedores de armas para os “Contra” na Nicarágua, trabalhando simultaneamente para os serviços secretos sírios, búlgaros e polacos. Na sua casa em Marbella, referiu-me também que, por vezes, o tráfico de armas era feito através de África, para que no Iraque não se apercebessem da sua proveniência, pois também vendiam ao mesmo tempo ao Irão e mesmo a Portugal. Este tráfico de armas, que estava em curso, desde há vários anos, em 1980, é o começo do caso Camarate.

Através de Al Kasser conheci, em Marbella, no final de 1981, outro famoso traficante de armas, numa festa em casa de Monzer, que se chamava Adrian Kashogi. Kashogi, como pude testemunhar em sua casa, tinha relações com políticos e empresários europeus, árabes e africanos, por regra ligados ao tráfico de armas e drogas.

Sou preso em 1986, acusado de tráfico de drogas. Esta prisão foi uma armadilha montada pela DEA, por elementos que nessa organização não gostavam de mim, por eu ter levado à detenção de alguns deles, como referi anteriormente. Fui então levado para a prisão de Sintra. Estou na prisão com o Victor Pereira, que aí também estava preso. Sei, em 1986, que estavam a preparar para me eliminar na prisão, pelo que peço à minha mulher Elza, para ir falar, logo que possível, com Frank Carlucci. Em consequência disso, recebo na prisão a visita de um agente da CIA, chamado Carlston, juntamente com outro americano. Estes, depois de terem corrompido a direcção da prisão, incluindo o director, sub-director e chefe da guarda, bem como um elemento que se reformou muito recentemente, da Direcção Geral dos Serviços Prisionais, chamada Maria José de Matos, conseguem a minha fuga da prisão. Contribui ainda para esta minha fuga, mediante o recebimento de uma verba elevada, paga pelos referidos agentes americanos, por esta directora-adjunta da Direcção Geral dos Serviços Prisionais. Estes agentes americanos obtêm depois um helicóptero, que me transporta para a Lousã, onde fico cerca de 20 dias. Vou depois para Madrid, com a ajuda dos americanos, e depois daí para o Brasil. As despesas com a minha fuga da prisão custaram 25.000 euros, o que na época era uma quantia elevada.

Só mais tarde no Brasil, depois de 1986, é que referi a José Esteves que sabia que Sá Carneiro ia no avião, contando-lhe a história toda. José Esteves responde então que nesse caso tínhamos corrido um grande risco. Eu tranquilizei-o, referindo que sempre o apoiei e protegi neste atentado. Dei-lhe apoio no Brasil no que pude. Assegurei-lhe também o transporte para o Brasil, obtendo-lhe um passaporte no Governo Civil de Lisboa, entreguei-lhe 750 contos que me foram dados, para esse efeito, pela embaixada dos EUA, em Lisboa, e arranjei-lhe o bilhete de avião de Madrid para o Rio de Janeiro. Na viagem de Lisboa para Madrid, José Esteves foi levado por Victor Moura, um amigo comum. No Rio de Janeiro ajudei-o a montar uma loja, numa roulote. Como trabalhava ainda para a embaixada dos EUA, em Lisboa, estas despesas foram suportadas pela Embaixada. Ficou no Brasil cerca de dois anos. Eu, contudo, andava constantemente em viagens.

José Esteves recebe depois um telefonema de Francisco Pessoa de Portugal, onde Francisco Pessoa o aconselha a voltar a Portugal, e a pedir protecção, a troco de ir depor na Comissão de Inquérito Parlamentar sobre Camarate. Esse telefonema foi gravado, mas José Esteves nunca chegou a obter uma protecção formal.

Telefono a Frank Carlucci, em 1987, pedindo-lhe para falar com ele pessoalmente. Ele aceita, pelo que viajo do Brasil, via Miami, para Washington. Pergunto-lhe então, em face do que se tinha falado de Camarate, qual seria a minha situação, se corria perigo por causa de Camarate, e se continuarei, ou não a trabalhar para a CIA. Frank Carlucci responde-me que sim, que continuarei a trabalhar para a CIA, tendo efectivamente continuado a ser pago pela CIA até 1989. Frank Carlucci confirma nessa reunião que puderam contar com a colaboração de Penaguião na operação de Camarate, e que ele, Frank Carlucci, esteve a par dessa participação.

Em 1994, foi-me novamente montada uma armadilha em Portugal, por agentes da DEA que não gostavam de mim, por causa da referida prisão de agentes seus, denunciados por mim. Nesta armadilha participam também três agentes da DCITE – Portuguesa, os hoje inspectores Tomé, Sintra e Teófilo Santiago. Depois desta detenção, recebo a visita na prisão de Caxias de dois procuradores do Ministério Público, um deles, se não estou em erro, chamado Fernando Ventura, enviados por Cunha Rodrigues, então Procurador-Geral da República. Estes procuradores referem-me que me podem ajudar no processo de droga de que sou acusado, desde que eu me mantenha calado sobre o caso Camarate.

















Por ser verdade, e por entender que chegou o momento de contar todo o meu envolvimento na operação de Camarate, em 4 de Dezembro de 1980, decidi realizar a presente Declaração, por livre vontade. Não podendo já alterar a minha participação nesta operação, que na altura estava longe de poder imaginar as trágicas consequências que teria para os familiares das vítimas e para o país, pude agora, ao menos, contar toda a verdade, para que fique para a História, e para que nomeadamente os portugueses possam dela ter pleno conhecimento.

Não quero, por último, deixar de agradecer à minha mãe, à minha mulher Elsa Simões, que ao longo destes mais de 35 anos, tanto nos bons como nos maus momentos, sempre esteve a meu lado, suportando, de forma extraordinária, todas as dificuldades, ausências, e faltas de dedicação à família que a minha profissão implicava. Só uma grande mulher e um grande amor a mim tornaram possível este comportamento. Quero também agradecer à minha filha Eliana, que sempre soube aceitar as consequências que para si representavam a minha vida profissional, nunca tendo deixado de ser carinhosa comigo. Finalmente quero agradecer à minha mãe que, ao longo de toda a minha vida me acarinhou e encorajou, apesar de nem sempre concordar com as minhas opções de vida. A natureza da sua ajuda e apoio, tiveram para mim uma importância excepcional, sem as quais não teria conseguido prosseguir, em muitos momentos da minha vida. Posso assim afirmar que tive sempre o apoio de uma família excepcional, que foi para mim decisiva nos bons e maus momentos da minha vida.

Lisboa, 26 de Março de 2012
Fernando Farinha Simões
B.I. n.º 7540306