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quarta-feira, 10 de abril de 2019

O Conhecimento Teosófico

Escrito por Leonardo Coimbra



«O obstáculo ao entender algumas frases de Leonardo Coimbra provém de certos termos que não são usados pelos iletrados, termos que, não sendo oriundos da terminologia científica, provêm do vocabulário lógico ou do vocabulário metafísico. Leonardo Coimbra usou e abusou dos adjectivos com inicial maiúscula, substantivando-os e dando-lhes portanto um alcance metafísico e mitológico de que viviam sem oportunidade em tempos de positivismo dominante. Nada e Tudo, Absoluto e Infinito, são palavras usuais na língua portuguesa que o leitor pode ouvir em frases feitas ou em lugares comuns, sem se escandalizar no seu uso normal, comparativo e superlativo. Transformadas em substantivos, e escritas com inicial maiúscula, logo evocam os usos da ortografia alemã, e a mentalidade do povo germânico que tende a transformar as ideias em mitos.

Associar e dissociar as palavras, eis o segundo momento, ou o segundo movimento, que se oferece ao pensador. A originalidade de Leonardo Coimbra patenteia-se na associação por analogia, acto mental que o filósofo criacionista opunha aos raciocínios de indução e dedução, assentes numa espécie de princípio de inércia, segundo o qual é dada ao espírito a faculdade de repetir indefinidamente as mesmas operações.

Deveremos notar que o raciocínio preferido pelo filósofo Leonardo Coimbra é a analogia, proveniente da metáfora linguística ou da hipótese científica, em sua semelhança com o verso poético. A analogia nem sempre é desenvolvida em proporção, ou seja, até à exibição de quatro termos, pois aparece numa forma elíptica que é um apelo à inteligência do ouvinte ou do leitor. A inteligência portuguesa também é despertada e excitada em outros textos em que só a díade é enunciada, para que o leitor reconstitua a tríade, indispensável para a inclusão do pensamento filosófico.

Deste primado atribuído à analogia, que alvorece na mentalidade infantil, que se aperfeiçoa e enriquece no decurso da experiência humana, que atinge altura divina no espírito dos poetas, dos filósofos e dos sábios, se infere a crítica que Leonardo Coimbra sempre faz ao pensamento cousado nos sólidos geométricos, à preponderância das formas escolásticas, e à lógica formal, tripartida nos capítulos de conceito, juízo e raciocínio. As apreciações injustas sobre a filosofia de Aristóteles, superficiais, equívocas e falsas, resultam do condicionalismo cultural em que se afundava o cientismo inane do século XIX. Ao reencontrar, na hora do século XX, a doutrina de que o animal racional se explica pelo "homem de sempre", Leonardo Coimbra concedeu aos escolásticos a gratidão do que lhes devia no decurso da sua manobra irreverente, removente, revolucionária.»

Álvaro Ribeiro («Memórias de Um Letrado», I).


«Existimos no Cosmos imediatamente e por mil formas. Assim, contemplando a Aurora, o lento emergir da luz, penetramos no sentido da Origem, sentido sem o qual não é dado ao homem compreender o ser que é e o que se lhe patenteia: "Imaginai um rio - escreve o pensador - de repente solidificado em toda a sua extensão; eis o Universo do homem descrepusculizado da Origem".

Assim, também, quando nos inclinamos para o misterioso ser infantil se nos desperta o sentido de outra origem, a qual, contraditoriamente, nos é também próxima mas não menos remota que a primeira: pois o que está autenticamente na Infância nunca se nos diz e o que em nós está da Infância nunca por completo se diz. Mas a contemplação reflexiva da Aurora, como a de qualquer forma de ser, suscita outras dificuldades, a da sensação e a da imagem; tal como a atenção ao ser infantil ou a qualquer forma ou estádio do humano ser, revela outras ainda, também implícitas naquelas, a da memória e a do amor. Têm apenas sensação e imagem o sentido que lhes atribuímos ou outro? Têm apenas memória e amor o alcance que lhes concedemos, ou outro, mais profundo?

O preço de ser consciente, lembra-nos então Leonardo Coimbra, é cindir, limitar, distinguir. Sensação e imaginação, memória e amor existem originariamente como formas mais profundas de relação com o Ser que por elas exprime no homem tudo quanto pode, mas não tudo quanto é ou sabe. Tal é o sentido do pecado "impropriamente chamado original": pois na criança, como no ser auroral, como em toda a forma inicial de ser ou de consciência, há uma "promessa infinita", que no homem não dá tudo quanto anunciara. Por isso Leonardo Coimbra nos diz ser inviável qualquer cosmologia autêntica sem restituir à sensação como à imaginação, à memória como ao amor, o seu valor originário de "insofismáveis" caminhos do conhecimento. Do Amor e da Morte assinala (…) o imprescritível sentido e valor da iniciação cósmica pelo amor.

Para compreender tudo quanto em várias linhas de visão, alegoria ou conceito o pensador por tais caminhos estabelece, importa introduzir a noção de símbolo ou correspondência simbólica. Sem isso, a Alegria, a Dor e a Graça permanece um livro cerrado. Há, assim, correspondência explícita entre o processo cósmico - aurora, manhã, luz meridiana, tarde, crepúsculo e noite - e o próprio ritmo da vida do homem - nascimento e infância, puberdade, juventude, maturidade, velhice e morte; essa correspondência, aqui mais difícil de determinar, estende-se aos graus e formas da consciência e da razão, da arte, do saber e da acção, do conhecimento e da religião. Neste sentido já antes vimos uma correspondência entre a Aurora, a Infância e a Sensação. No Cosmos vivente, no homem vivente e na consciência, são formas de relação entre o Universo, o homem e o mais íntimo ser de tudo.»

José Marinho («O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra»).






O CONHECIMENTO TEOSÓFICO


A Teosofia aparece a alguns como uma teoria metafísica arbitrária e imaginosa: a orgia duma imaginação desenfreada resolvendo o problema do ser e da realidade ao capricho dos desejos ou das particularidades ideopáticas de seus adeptos.

Para outros é a Teosofia uma síntese filosófica do saber e do sentir, da realidade científica e da idealidade estética e moral, da Natureza e da alma, dos mundos e do homem.

Será então uma hipótese geral sobre a Vida e seu significado, com mais ou menos valor que qualquer outra hipótese filosófica da mesma generalidade, consoante melhor ou pior fizer a unidade a todo o saber experimental.

Desde logo aparece, no entanto, como uma simples hipótese da imaginação poética, pois se os fenómenos a não desmentem inteiramente, de modo algum sugerem uma explicação tão abertamente do tipo alma, tão antropormófica e familiar.

O Universo é antes, e para a percepção humana, um deserto de almas, onde a voz humana se perde sem eco ou companhia.

A concepção que o homem possa fazer desse Universo pela elaboração dos seus dados percepcionais é, quando muito, a de uma esperança heróica, esperança na realidade e no valor do espírito, que em si apreende como a actividade síntese, unidade do disperso da percepção na viva generalidade do conceito.

A percepção (em seu limite ideal, pois ela é sempre penetrada do conceito) seria a passiva matéria da realidade, que a actividade sintética da concepção informa.

E como o homem actua, prevê e acerta, não pode inibir-se da suposição que a exterioridade da matéria de qualquer modo seja parente e amiga da interioridade do espírito, que a informa, organiza e prevê.

Mas só no acto do conhecimento se encontra este lugar de crença e esperança; pois, no conhecido, as almas são pontos singulares, parcos e minúsculos, na vasta imensidade da matéria.

Neste ponto de vista, a hipótese teosófica é o salto sobre o abismo da dúvida, em frente ao qual o pensamento humano heroicamente afirmava.

Salto da afirmação heróica, isto é, da afirmação apesar de tudo, de todas as aparências em contrário, para a afirmação tranquila, obesa e repousada.

Não nos agradaria, pois.

Deixemos os heróis frente à Morte, a Consciência frente à matéria, o ideal frente ao real afirmando ao menos o protesto da parte viva do Ser contra o imenso, o quase total corpo de matéria que o cadaveriza.

A alma foi crescendo pela meditação e agora, mais rica de consciência e vida, volta a olhar o Ser, cujo cadáver diminui de quanto esta se aumentou.

É o terceiro momento da Teosofia, a sua grande afirmação, o seu valor próprio, a sua luminosa palavra na Vida.

E a Teosofia diz que a percepção comum é limitada, encoberta de véus que é possível soerguer.


Saturno irradiando luz violeta

Assim como a ciência tem desvendado um pouco mais dos arcanos da Natureza que a simples percepção, um novo conhecimento afirma que mais e mais é ainda possível desvendar.

A ciência não aumentou as nossas percepções por ter criado novos órgãos percepcionais.

A ciência, muito pelo contrário, em vez de acelerar a evolução do ser humano em possíveis direcções de novidade superior, em vez de adaptar o homem a  possíveis realidades superiores, adaptou as realidades ao homem (e porventura limitando-o), explorando em todos os sentidos possíveis a tradução da realidade no restrito campo das actuais percepções humanas.

É assim que não criou no homem um órgão de visão ultravioleta, antes traduziu as realidades ultravioletas em reacções químicas, visíveis pelo homem dentro da visão normal.

Pode dizer-se dum certo modo que a ciência é exactamente o processo que o homem inventou para se furtar à evolução ou, pelo menos, demorar e limitar o ritmo do seu caminho evolutivo na Natureza. Os animais evoluem adaptando-se e se à sua adaptação interessa nadar hão-de criar os órgãos da natação; o homem inventa o barco e atravessa as águas.

Para o que, nestes, a evolução cria órgãos, o homem inventa instrumentos. E porquê?

Talvez seja porque o homem se tem de adaptar a um destino diferente, a uma natureza superior.

A vida no homem não procura as adaptações mesológicas como nos outros animais, adapta antes o meio ao homem para que, liberto dessa adaptação, ele faça a outra adaptação à supervida, que o interessa?

Se assim é, porque não apareceria a nova percepção adaptada à nova (1) realidade?

A nova percepção oferecia novos dados à teorização conceptual ou científica.

E assim teríamos um novo mundo da percepção em que mais ou menos concordariam os novos seres percipientes, e uma nova ciência em que as teorias seriam mais ou menos valiosas conforme melhor ou pior interpretavam esse mundo da nova percepção.

A nova percepção seria a dos videntes (2) iniciados e dos videntes espontâneos, a nova ciência e teorização daqueles que, entre os videntes, mais explicativas hipóteses soubessem construir.

A Teosofia seria a síntese filosófica que, resumindo o saber exotérico e esotérico, da percepção normal e da nova percepção, desse do Ser a mais compreensiva explicação.

O valor da Teosofia está, pois, na possibilidade ou impossibilidade das novas percepções.

Para disso julgar não temos nós, os não iniciados, categoria; como para julgar da nossa escala cromática não tem categoria um cego.

Eles, os iniciados, a afirmam; a nós somente resta o silêncio dos mudos ou o trabalho da experiência iniciática que nos apontam.

Mas, para sermos justos, devemos, no entanto, considerar que a vidência espontânea, a libertação mnésica e muitos dos fenómenos por Boirac chamados «espiritóides» indicam a presença duma realidade, que nos embebe e não percebemos, e que é bem parecida com a que os teósofos nos dizem aberta à percepção iniciática. De modo que o dever dum espírito verdadeiramente científico, isto é, dum espírito de universal curiosidade e não de idolatria por qualquer tipo de realidade já construída, é de atenta simpatia para a nova luz, que se vem anunciando e pode muito bem ser de melhoramento e alegria para as almas. (in Dispersos. III - FILOSOFIA E METAFÍSICA, Editorial Verbo, 1988, pp. 173-176).


Flama violeta na convergência de mundos paralelos.


Notas: 

(1) Este «nova» refere-se ao estádio actual, sem prejulgar dos antecedentes.

(2) No sentido amplo, sem referência a particulares sentidos e distinguindo percepção de alucinação.


sábado, 16 de março de 2019

Os fenómenos espiritóides, a sobrevivência e a imortalidade

Escrito por Leonardo Coimbra






«A propósito do Espiritismo

Factos isolados nada valem e, como se sabe, nem sequer há o facto puro. Todo o ser é unificação de diversidade, em todo o ser se afirma o indivíduo e o mundo, a mónada e o Cosmos.

Eis o que não é lícito ignorar-se depois de Kant.

Quem já viu uma discussão ingénua (quer dizer entre mentalidades vivas e indisciplinadas) sabe bem que é inútil o argumento do facto bruto, porque não é, nem pode ser, recebido. Quando se diz que contra factos não há argumentos, apela-se para aqueles pretendidos factos, que são a realidade comum, produto do mínimo de elaboração científica, que é a elaboração colectiva.

Uma discussão entre filósofos pode ser útil, quando se defrontam dois espíritos livres, pois, sabendo que a realidade é dialéctica, não se oporão factos, mas argumentos.

Pode ser inútil, quando entre eles se erguer a idolatria do facto, porque, falando dialécticas diferentes, já os factos para eles são diferentes: exemplo frisante a discussão sobre o movimento entre o profundo Bergson e o rectilíneo Dantec.

Os sistemas de factos (que os realizam) são as ciências e as artes. O Sistema é a filosofia.

As ciências fazem uma elaboração no sítio, a filosofia uma elaboração ubíqua. As ciências trabalham numa dimensão, a filosofia passa por sobre as dimensões medindo nelas a sombra do ser. Cada ciência dá, à filosofia, conceitos, que são ainda o diverso resistente para o espontâneo íntimo da unificação. Aqui, e só aqui, os pretendidos factos chegam ao sétimo céu ou plena realidade.

O problema do espiritismo deve ser estudado cientificamente e depois entregue ao filósofo.

Cientificamente tem sido estudado, e é de notar o livro severo e escrupuloso do físico Oliver Lodge.

Cientificamente é demonstrada a telepatia e flutuam, mal acomodados na telepatia, fenómenos complexos como os das comunicações cruzadas, etc.

Mas que valeriam estes factos para um materialista sincero?

Sendo de ordem psicológica, seriam meros epifenómenos das vibrações cerebrais dos induzidos.

E não seria maior dificuldade que a de admitir a evolução biológica pela selecção dos acidentes felizes.

E que valem estes factos para um pensador amorfo, simples chapa fotográfica das vibrações do meio?

Valem como factos, autênticos brutos, que terão o fastígio do milagre e o perigo da superstição.

Só num sistema filosófico de idealismo dialéctico, onde a realidade seja o pensamento e o pensamento a realidade, podem tais fenómenos valer, de valor metafísico e real. Só tal Sistema pode serenamente aguardar tais elaborações científicas, sem repúdio cego, nem recepção desonesta. De outra forma, corremos o risco de desperdício de saber e beleza, quer fechando os olhos com os materialistas, quer, com os espiritistas, fazendo o íntimo espontâneo em permanente afirmação em todo o pensamento, depender de contingentes fenómenos, que nada seriam sem ele.

Póvoa, 22 de Abril de 1913.»

Leonardo Coimbra  («DISPERSOS, III - FILOSOFIA E METAFÍSICA»).





Selo da Ordem Martinista







«A descoberta, em 1784, do sonambulismo lúcido pelos mesmeristas, levou Jean-Baptiste Willermoz (1730-1826), um mercador de seda de Lião que, depois da morte do seu mestre, Martines de Pasqually, tinha fundado, em 1778, a Ordem dos Grandes Profetas, Cavaleiros da Cidade Santa (um deles foi Joseph de Maistre, em Chambéry), a constituir uma sociedade de magnetizadores para obter dos sujeitos sob hipnose "oráculos somníloquos", quer dizer, revelações sobre o outro mundo. Em 1785, ele magnetizou Mlle. Rochete, uma doente de 25 anos, vítima de crises convulsivas, e esta, nos sonos, teve visões das regiões do outro mundo, com os seus lugares de expiação, os seus lugares de purificação e de paz percorridos por "seres felizes" [Jean-Baptiste Willermoz, Les Sommeils (Paris, La Connaissance, 1926)]. De seguida, Willermoz entrou em contacto com um príncipe alemão, Carlos de Hesse, que o convidou, em 1790, a deslocar-se a Hamburgo, e o informou dos seus próprios "oráculos luminosos" realizados fazendo uma pergunta nas trevas, sendo a resposta afirmativa uma iluminação súbita: "Os exercícios mais elementares consistiam em fixar o olhar sobre um objecto, na esperança de que ele aparecesse resplandecente ou que ele fosse rodeado por nuvens luminosas. Um outro exercício consistia em fixar, de noite, um ponto escuro do firmamento, na esperança de ver aparecer uma estrela." [Gérard Van Rijnberk, Épisodes de la vie ésotérique (Lião, Paul Derain, 1948)]. Carlos de Hesse possuía um retrato de Cristo, que acreditava ver iluminar-se quando lhe pedia conselhos; em Dezembro de 1791, este retrato deu-lhe "ordem de escrever", e, a partir daí, ditou-lhe diversas mensagens, como explicações do Apocalipse de São João e do calendário egípcio.

Assim, no fim do século XVIII, a escrita automática sob comando de um Espírito invisível, o interrogatório de um médium em transe, estavam já inventados; foi em 1848 que a família Fox, que vivia numa casa em Hydesville, na Acádia, descobriu o table-moving e o rapping, quer dizer, a arte de fazer girar as mesas e de obter, por batimentos, repostas de além-túmulo a perguntas colocadas. As três irmãs Fox e a sua mãe exploraram comercialmente este procedimento abrindo, em Rochester, um escritório onde se podia, por alguns dólares, conversar com os parentes mortos. Fizeram uma demonstração pública na Universidade de Saint Louis, em 1852, e a epidemia do espiritismo rebentou nesse mesmo ano na América, e atingiu a Europa no ano seguinte. Em França, os seus teóricos mais encarniçados foram, em primeiro lugar, Jules-Eudes de Mirville, que publicou em seis volumes Des Esprits et de leurs manifestations fluidiques (1863-1864), e o barão de Guldenstubbé, autor de uma Pneumatologia, que fundou um círculo de espiritismo composto de "12 pessoas, das quais 6 representam os elementos positivos, e as outras 6 os "elementos negativos ou sensitivos". O médium estava à cabeceira da mesa, completamente isolado, tendo à sua direita as 6 naturezas negativas e à sua esquerda as 6 naturezas positivas: "Para formar a cadeia, é preciso que as 12 pessoas coloquem a mão direita sobre a mesa, e que ponham a mão esquerda do vizinho por cima." [L. Guldenstubbé, Pneumatologie positive et expérimentale (Paris, A. Franck, 1857)]. Seguiam-se certos fenómenos que se atribuíam às almas dos mortos: sacudidelas, batidas misteriosas, visões simultâneas dos participantes, escrita automática, vibrações das cordas de um piano.

Os ocultistas, baseando-se nos textos cristãos que anatemizavam a necromancia, insurgiram-se contra o espiritismo. Consideraram-no mórbido, enquanto divertimento mundano, pretensioso e ineficaz como procedimento de exploração do invisível. Éliphas Lévi atacou-o em La Science des Esprits (1853), opondo, às inépcias proferidas sobre o outro mundo nas sessões espíritas, os ensinamentos da Cabala. Diz que fez, um dia, aparecer por uma conjuração o espectro de Apollonius de Tiane, mas que não tinha dúvidas de que tinha sido uma ilusão devida a "uma verdadeira embriaguez da imaginação". Ridicularizava Guldenstubbé, que colocava folhas de papel branco em diversos locais, e que encontrava neles palavras garatujadas por pretensos espíritos: "Os escritos que obtém não vêm do outro mundo, e é você mesmo quem os traça sem o saber." [Éliphas Lévi, Histoire de la magie (Paris, Germer-Bailler, 1860)]. Éliphas Lévi explicou todos os factos que os espíritos tomavam por intervenções sobrenaturais como efeitos do magnetismo universal.

A partir de 1890, Papus, então chefe do laboratório de hipnoterapia dos hospitais da Caridade, decidiu combater o espiritismo substituindo-o por verdadeiras experiências mediúnicas, com o coronel Alberto de Rochas, administrador da escola politécnica, e o dr. Luys. Eles não se preocupavam com fazer rodar as mesas, com evocar os mortos, mas com o estudo da exteriorização da sensibilidade nos estados profundos da hipnose. Papus desejava aprofundar a noção de astral, que é base do ocultismo. Segundo "a doutrina da Tri-Unidade", o homem tem um corpo astral semelhante ao seu corpo físico: "Os três princípios designados pela ciência oculta como formando o homem são: 1.º, o corpo; 2.º, o mediador plástico (corpo astral); 3.º, a alma. O ocultismo diferencia-se, pois, dos teólogos, por admitir um novo princípio intermediário entre o corpo e a alma. Diferencia-se dos materialistas por ensinar a existência de dois princípios que escapam, no homem, às leis da matéria." [Papus, Traité méthodique de science occulte (Paris, Garré, 1891)]. O corpo astral (que os ocultistas chamam também aerosome, forma fluídica, corpo vital fluídico), une o corpo físico ao espírito; ele é o "obreiro escondido" que realiza as funções da vida vegetativa; radia por vezes em torno do indivíduo, formando uma espécie de atmosfera invisível nomeada aura astral. Pode-se mesmo, graças a um treino pelo regime alimentar e pela respiração, "obter a saída consciente e progressiva do duplo astral para fora do corpo físico" [Papus, Qu'est-ce que l'occultisme? (Paris, Leymarie, 1929)]. Estas diversas propriedades do corpo astral motivam os sonhos, a loucura, o êxtase profético, as visões e a acção à distância.



Gérard Anaclet Vincent Encausse (Papus).



O mundo para lá da realidade física é o plano astral, "o plano das forças invisíveis que circulam entre os astros". É banhado pela "luz astral, que age na Natureza como o corpo astral age no homem". Encontra-se aí uma população complexa, pois se os espíritos são, para os espíritas, as almas dos mortos, os ocultistas vêem neles "os seres que animam as diferentes partes do universo", e distinguem uma hierarquia nos espíritos, sendo uns conscientes e imortais, e os outros inconscientes e efémeros, hierarquia indicada pela escola de Alexandria, Agrippa e Paracelso. O plano astral contém, pois, elementares (espíritos dos defuntos), elementais (espíritos dos elementos), espíritos planetários e mesmo entidades vivas: "Uma ideia deixa o traço das suas actividades boas ou más no plano astral e esta pista pode ser reencontrada muito tempo depois. O mesmo se passa com o indivíduo que deixa, no plano astral, uma imagem da sua passagem terrestre." Papus definiu os elementais como "seres instintivos e mortais, intermediários entre o mundo psíquico e o mundo material", e diz que o mágico pode domesticá-los, pois "o seu papel é análogo ao dos animais no mundo visível" [Papus, Traité méthodique de magie pratique (Paris, Carré, 1893)]. O seu discípulo Marius Decrespe, que qualificava os elementais de "micróbios do astral", apresentou-os como embriões de almas submetidos à fatalidade das forças físicas, privados de razão e de afectividade, carentes de forma: "A visibilidade dos elementais é negativa, pelo que os seus movimentos moleculares são menos rápidos do que os do movimento ambiente. Tornando-se visíveis por incandescência, como as bolas de fogo." [Marius Decrespe, Les microbes de l'astral (Paris, Chamuel, 1895)].

A nova atitude adoptada por Papus e o seu Círculo de Estudos Esotéricos baseava-se na seguinte fórmula: "O sobrenatural não existe… Tudo o que há na Natureza é bem natural." [Considérations sur les phénomènes du spiritisme]. Organizaram "sessões obscuras", assim intituladas porque se passavam na sombra, a fim de ajudar o médium a ver a luz astral: "Essa força vital só pode deslocar-se convenientemente ao abrigo dos raios amarelos e, sobretudo, dos raios vermelhos do espectro solar, que agem sobre ela como a água sobre o açúcar. Eis porque será sempre necessário que seja unicamente iluminado por uma luz onde os raios violetas dominem." Verifica-se, em primeiro lugar, se o médium era receptivo, através de diferentes testes, como a atracção à retaguarda: "Coloquem o sujeito de pé, os dois pés unidos. Coloquem em seguida as vossas duas mãos sobre as omoplatas do sujeito, por detrás dele, e tirem as mãos, suavemente, ao fim de alguns instantes. Se se tratar de uma pessoa muito sensível, os seus ombros seguirão o movimento das vossas mãos e ela, contra a sua vontade, cairá."

Para adormecer o sujeito com o seu olhar, Papus fazia-o sentar diante de si, de costas viradas para a luz. Tomava-lhe as suas mãos, das quais apertava os pulsos, e olhava fixamente a pupila do seu olho direito. Em seguida, reunindo os dois pulsos do sujeito na sua mão esquerda, Papus fazia-lhe com a outra mão passes de alto a baixo, descendo até ao estômago. Largava-lhe os pulsos e continuava os passes com as duas mãos. O sujeito, adormecido, atravessava três fases, a letargia, a catalepsia, e, quando lhe batiam ligeiramente na testa, o sonambulismo lúcido, em que falava e trocava por vezes de personalidade. Para o acordar, usavam-se diversos procedimentos, sendo o mais usual o de lhe soprar fortemente entre os olhos, fazendo simultaneamente passes com as duas mãos, primeiro ao nível do estômago, depois ao nível da cabeça. Noutras "sessões obscuras", o médium, sentado numa poltrona, a cabeça apoiada, adormecia fixando um espelho rotativo durante cerca de meia hora. Estas experiências mediúnicas permitiram a Papus concluir: "os factos atribuídos pelos espíritos aos Espíritos são, para os ocultistas, unicamente os resultados das forças emanadas pelo médium e, algumas vezes, intensificados pela ajuda dos elementais."

No início, as "sessões obscuras" do Círculo de Estudos Esotéricos assemelhavam-se demasiadamente às "investigações psíquicas" de William Crookes, que, em Londres, se fazia mistificar por médiuns fraudulentos como Douglas Home. O sujeito preferido de Papus, Mme. Hannecart, era especialista das levitações e das materializações: quando entrava em transe, os instrumentos de música planavam sobre os assistentes, os objectos mexiam-se sobre a mesa, e mãos luminosas apareciam na escuridão. Um outro sujeito, Corcol, era um "médium de encarnação", tomando sob hipnose a personalidade de um insurrecto fuzilado durante a Comuna. Mas estas experiências duvidosas foram abandonadas pelo estudo da aura astral do médium, o que levou a uma prática curiosa: a fotografia do invisível. O dr. Hippolyte Baraduc, que queria encontrar "um método que mostrasse o invisível fluídico, como o microscópio mostra os materiais infinitamente pequenos", foi um dos seus mais espantosos especialistas. A sua "iconografia do invisível" compreendia psicoícones (imagens fluido-psíquicas que saíam da testa ou da ponta dos dedos de um sujeito em estado de tensão criativa), e numerosas chapas onde o corpo astral se destacava do corpo físico sob a forma de nimbo, vórtice ou linhas irradiantes. Para fotografar as "emanações passionais", colocou uma placa sensível entre os corações de dois amantes abraçados: isso deu "pontos fluídicos" sobre fundo negro. Fotografou também "as vibrações do cosmos, em harmonia com as nossas", a fim de verificar como reagia o plano astral às emoções humanas. Esta actividade experimental do grupo de Papus foi violentamente contestada por René Guénon, em nome do esoterismo, que é um saber tirado da iniciação e não do científico.






Mas isso não impede que, no fim do século XIX, a concepção do invisível se tenha modificado sob o impulso dos ocultistas franceses que combatiam os espíritos anglo-saxónicos. A teoria dos espectros enriqueceu-se com uma nova noção: o fantasma dos vivos, ou forma fluídica saída momentaneamente para o astral. O mundo preternatural é o plano astral, onde evoluem as larvas e toda a espécie de espíritos que não são unicamente almas, como diz Papus: "Eis o que se encontra no mundo invisível com olhos naturais, visível no estado mediúnico: 1) as correntes fluídicas de luz astral carregado; 2) os elementais, forças inconscientes dos elementos; 3) os elementares, restos dos defuntos espíritos dos espíritas; 4) as Ideias tornadas Seres, seres colectivos; 5) os Corpos fluídicos dos médiuns e dos adeptos. Os fantasmas são apenas, para Estanislau de Guaita, "coagulações perfumadas, resíduos mortos ou moribundos de carcaças astrais em via de se desintegrarem no oceano fluídico" e permanecem de preferência "em torno das sepulturas, dos matadouros, dos anfiteatros ou ainda dos esgotos e das solfataras" [Estanislau de Guaita, Clé de la magie noire]. Enfim, admite-se que o corpo astral é capaz, por ascese, de abandonar o corpo físico e de regressar após ter viajado no plano astral: "Os principiantes e os ignorantes são os únicos que podem acreditar que o desdobramento é uma coisa diferente da prática de uma ginástica psíquica."»

Alexandrian («História da Filosofia Oculta»).


«Por volta dos anos 30 foi noticiado que mulheres alemãs hipnotizadas tinham estado em contacto com os mortos. Supostamente, os espíritos dos mortos utilizavam o "magnetismo animal" sobre certos seres vivos - "sensitivos", ou médiuns - para efectivar estas entrevistas, uma explicação popularizada pelo Jornal do Magnetismo, de 1836, por exemplo. O interesse no mesmerismo e no seu potencial espiritualista estava bastante acentuado nos anos 30 e 40, tanto na Europa, como na América.

(…) O lado oculto do mesmerismo, por outro lado, iria ascender e cair na estima popular durante o século XIX. Como foi dito, em meados do século muitos esperavam descobrir nos seus segredos a prova da imortalidade e até o jornal Zoist de Elliotson (fundado em 1843), tendia a inclinar-se para estes problemas mais profundos. Os americanos parece terem sido entusiastas do mesmerismo como um laço com o outro mundo, especialmente na década, mais ou menos, antes de 1848. A meio dos anos 40 Poe publicou o seu Revelação Mesmérica e o terrível Os Factos no Caso de M. Valdemar (no qual a alma de um moribundo fica presa através do mesmerismo), enquanto em 1853 se proclamava que mais de 300 "círculos magnéticos", na cidade de Filadélfia, recebiam mensagens dos mortos. Como de costume, estas sessões ocorriam, supostamente, em casa de "famílias altamente respeitáveis".

O mesmerismo, portanto, ajudava a explicar como funcionava a comunicação espírita e ao mesmo tempo encorajava a crença no sobrenatural. Uma ainda mais forte fonte de inspiração para os indecisos, assim como para os crentes fiéis, no entanto, foi o famoso caso dos Batimentos de Rochester, de 1848. Se bem que por vezes se diga que o moderno movimento espiritualista data de 1848, houve, claramente, "movimentos" antecedentes no século XIX - para não falar em períodos anteriores.

No entanto, graças à propaganda americana, Rochester cativou as imaginações daqueles que procuravam provas daquilo em que queriam acreditar. Da América a febre alastrou ao Continente e à Inglaterra.»

R. C. Finucane («FANTASMAS. Aparições dos Mortos e Transformação Cultural»).





OS FENÓMENOS ESPIRITÓIDES, A SOBREVIVÊNCIA E A IMORTALIDADE


Antes de mais nada, o termo «espiritóide», aplicado aos fenómenos de parapsicologia, é, quanto a nós, de bom espírito metodológico.

O termo é de Boirac: espiritóide quer dizer semelhante a espírito, que na apresentação imediata tem o aspecto de espírito.

Isto assim não envolve na própria linguagem a confusão duma hipótese implícita, deixa a liberdade de pesquisa absolutamente necessária em ciência e marca o aspecto singular desses fenómenos na sua imediata apresentação.


Uma vez explicada a nomenclatura dirá o autor destas linhas que está pessoalmente, isto é, experimental e directamente, a par das pesquisas espiritóides.

Mas como sempre mais ou menos lhe pareceu assistir a um equívoco perigoso, é desse equívoco que pretende tratar.

Vem a consistir esse equívoco no fácil transporte de conclusões de sobrevivência para conclusões de imortalidade.

Ora tal transporte constitui um erro de lógica científica dos mais elementares e graves.

A sobrevivência é de ordem experimental, a imortalidade não o pode ser.

Assim se compreende que os membros duma Igreja, os partidários duma fé revelada, apareçam tantas vezes como ligando medíocre importância às pesquisas espiritóides.

A sobrevivência é um prolongamento no tempo das manifestações actuais duma consciência.

Assim a consciência dum escritor vive na sua obra, mas esta obra é apenas a manifestação do tempo dessa consciência que é o da criação da sua obra. Um escritor morto, que, sem possíveis subterfúgios, desse, no momento A, provas da presença da sua consciência, faria, para esse momento, uma manifestação actual da sua vida consciente, seja, da sua sobrevivência.

A imortalidade ou é uma forma de vida intemporal e não pode cair directamente na experiência temporal, ou é uma presença em todo o tempo e menos ainda poderá ser apreendida pela experiência, que é sempre deste ou daquele tempo.

É lícito, pois, ao pesquisador experimentalista tentar provas de sobrevivência; jamais dará, como simples experimentador, uma só que seja da imortalidade.

E isto vale para o experimentador da fenomenologia espiritóide, como para o real ou pretendido iniciado teosófico, tendo atingido percepções de natureza transensorial.

A um limita-o o tempo da experiência, a outro o tempo da observação.

Assim terá o experimentador de limitar-se, e não é pouco, ao simples problema de sobrevivência.


O problema da sobrevivência


Pode a a experiência dizer-nos alguma coisa sobre o problema do prolongamento da consciência para além da morte?

Teoricamente pode e é uma prova de estúpido orgulho o de tantos homens de cultura de hoje, afirmando tal preocupação como própria apenas do estado de pensamento primitivo dos povos animistas

Praticamente é o problema um dos mais complexos, pois que a experimentação crucial é muito difícil.

A complexidade dos fenómenos espiritóides é tamanha que, pondo já de parte as fraudes voluntárias e involuntárias, são muitíssimas as hipóteses explicativas, que os factos vão sugerindo.

Mas contrariamente às afirmações e aos prejuízos dos ignaros é nessa mesma complexidade que reside a possibilidade das experiências cruciais.

Na opinião do notável físico Duhem, a experiência crucial não é possível em física, opinião que recebe também a confirmação do genial matemático e físico H. Poincaré.

Não há uma experiência crucial, mas pode haver um conjunto de experiências tais que a velha hipótese as não suporte e uma nova hipótese as coordene, explique e acrescente de previsões a seguir verificadas.

O caso é patente quando a velha hipótese fica como uma aproximação da nova, como na teoria de relatividade, que é apenas um formulário onde uma constante suposta infinita na velha teoria tem na nova teoria o valor de 3x10 elevado a 10, valor que, para as nossas medidas, é quase sempre praticamente infinitamente grande.



Leonardo Coimbra



Mas os fenómenos espiritóides são fenómenos suficientemente complexos para que a continuidade das aproximações possa estabelecer-se e passar assim duma hipótese para outra por simples modificações quantitativas.

Nestes fenómenos não se trata de arranjos elementares que a análise encontre para recompor em apertadas sínteses explicativas; são estes fenómenos já de si sistemas orgânicos que a análise não pode desdobrar para além de certos limites. Esses limites marcam em cada caso o grau de riqueza da hipótese que os há-de explicar.

Deste modo, mesmo praticamente, é, pelo menos assimptoticamente, possível chegar à hipótese da sobrevivência, como a única capaz de certos casos, indesdobráveis, irredutíveis à apreensão das outras hipóteses.

Postas de parte as fraudes, as hipóteses mais viáveis são as das simples subconsciências critomnésicas ou até pantomnésicas e as das subconsciências metagnómicas.

É claro que estas hipóteses são por vezes mais complicadas que a simples hipótese da sobrevivência, pois uma pantomnésia ou uma pantognomia são o puro indeterminado.

Limitando, pois, estas hipóteses ao que a experiência tornou verosímil, possível é que fiquem casos aos quais caiba, como nenhuma, a hipótese da sobrevivência.

É o que, por exemplo, tenta mostrar Bozzano no seu livro de crítica às explicações de toda a fenomenologia por Sudre.

As explicações por animismo (não confundir com o animismo dos etnólogos, nem com a doutrina escolástico-tomista) entram nas personalidades múltiplas metagnómicas, abrangendo estas, como é natural, as metamnésicas, etc.

Mas, se é demonstrável a sobrevivência, estará ela demonstrada?

É outro problema a que, no entanto, o precioso livro de Bozzano procura responder.

Quanto a nós, a demonstração será sempre apenas a duma maior ou menor probabilidade, como são todas as demonstrações que tratem de realidades e não duma simples simbólica do real, feita a partir de definições basilares mais ou menos feitas com seres de razão, como nas matemáticas. Mas essa probabilidade pode ir crescendo indefinidamente e é a nossa certeza.

Este o valor dos trabalhos modernos da parapsicologia e, quando mais não desse, motivo de sobra teria já a gratidão dos que acima de tudo querem viver conscientemente, compreendendo e progredindo. Mas de aí à imortalidade o salto é do finito para o infinito e nada poderá dar-nos a experiência.

Se, no entanto, uma Crítica da Ciência nos demonstrar que a sua existência, a da Ciência, implica uma actividade dominadora do tempo e do espaço, que chamaremos actividade espiritual, é então valiosa a visão experimental da sobrevivência como uma confirmação por consequências experimentais nas alturas árduas, severas e quase inacessíveis da reflexão filosófica.

E, desta feita, ficaria arredado também um outro perigo muito vulgar nos teóricos da parapsicologia, qual o de confundir a actividade espiritual com os seus instrumentos e com os seus produtos o que, por vezes, dá ao chamado espiritismo um melancólico aspecto de mitigado materialismo, de ser uma como anemia materialista.

Por vezes, em troca da actividade espiritual servem-nos apenas fantasmas e ectoplasmias, que lembram o desejo de Aquiles de ser moço de lavoura na vida terrena, de preferência a ser rei no triste, apagado, sumido e nevoento reino das sombras (in «DISPERSOS, III - FILOSOFIA E METAFÍSICA», Editorial VERBO, 1988, pp. 177-181).















sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Por Portugal. A Consagração dos Heróis

Escrito por Leonardo Coimbra






«Nascido num país onde é intenso o diálogo entre a alma e a paisagem, mas educado em circunstâncias que prescreviam o método hipotético-construtivo como legítimo caminho para a universalidade, Leonardo Coimbra procurou ultrapassar a contradição mortal do pensamento português. Se esse esforço solidificou numa obra imperfeita, mas por muitos aspectos valiosa, não ficou perdida a inspiração originária que reconhecemos vivente nalgumas páginas admiráveis.

A personalidade de Leonardo Coimbra, pelo que denota de singular na sociedade portuguesa, aparece como digna de exaustivo estudo; mais do que estudar essa personalidade, urge revelar o perene valor cultural e nacional da obra filosófica que realizou; importa iluminá-la e avaliá-la para que o seu conteúdo perdurável entre definitivamente na tradição espiritual da Pátria».

Álvaro Ribeiro («Leonardo Coimbra. Apontamentos de biografia e de bibliografia»).



O homem vive em Deus, quando é instrumento da vontade de amar que atravessa as almas. Duas almas se elevam nas alturas, obedecendo em seu ritmo ao bater ansioso do coração da Pátria! Voam em pleno espaço e, cá em baixo, as nossas orações são, brancura de espuma, o sulco da sua glória!...

As nações, como os homens, valem pela sua contribuição para o progresso espiritual da humanidade. Assim, um povo pequeno e sem grandes relações internacionais pode valer muito pela harmonia da vida social que saiba realizar e seja exemplo para os outros povos; assim, um povo pequeno e até de vida interna pouco perfeita pode muito valer pela grandeza das suas criações filosóficas, religiosas e científicas, que para os outros povos ficam a marcar como estrela polar dos seus rumos de progresso espiritual.

Assim, e dum certo modo, está no primeiro caso a Suíça de hoje; como no segundo estiveram Atenas e Israel. A Bélgica de ontem, frente à Alemanha, deu seu corpo ao sofrimento e à morte, para dar seu espírito ao dever e à lealdade.

Renasceu em beleza; mas, ainda que morta, fosse no espaço da sua geografia e no tempo da sua história, teria, para viver, todo o espaço e todo o tempo em que vivesse a actividade do Espírito.

Portugal foi dos pequenos povos ao serviço do progresso espiritual do homem.

Como chama brotando do coração duma árvore e correndo a incendiar a floresta, brotou uma fé no coração de alguns homens e Portugal foi a dilatação dessa fé, a chama daquele incêndio espiritual.

Ardeu até à beira-mar e, refervendo de encontro às águas do mar salgado, traçou no seu verde corpo os novos caminhos do homem: e a cruz das caravelas foi marcando os caminhos do solo pátrio.

Portugal deu o planeta à humanidade, e, como Bartolomeu, Gama, Cabral e Magalhães, cinturou o planeta num abraço, unindo mais e mais os homens, entreabrindo-lhes os segredos da terra e do céu, alargando as asas da nova imaginação científica.

Tem, pois, a Pátria portuguesa esta glória efectiva de ter contribuído, como o fizeram Atenas, Israel, Roma, Paris, etc., para o progresso espiritual da humanidade.

Esta, a sua Tradição de valor e, perguntar se o presente é digno do passado, é simplesmente querer saber se os esforços espirituais que fizeram o passado ainda existem no presente.

As forças espirituais, e não os moldes em que se informaram, porque continuar a Tradição da audácia marítima não é navegar nas velhas naus das Descobertas, mas foi antes conquistar o submersível e os novos elementos de domínio dos mares.

A Tradição não é a carga inerte das obras do passado, mas o espírito vivo que as criou e que, por isso mesmo que já as criou, terá hoje de criar diferentemente.

É esta Tradição viva, que hoje ergue nas asas da glória os heróis portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, fazendo que o povo, que à humanidade dera um maior convívio pela travessia dos oceanos, aumente infinitamente esse convívio pela descoberta do caminho dos ares.

E a mesma cruz que à frente dos guerreiros lusíadas demarcou o solo da Pátria e riscou o caminho dos ares é a que, mais alta que nunca, procurou, por entre os outros, o caminho das alturas.

Sobre o mar, livro aberto rezando as oitavas da nossa glória, Coutinho e Cabral uniram, pelo céu e numa viagem da Saudade, os corações de duas pátrias que só têm as mesmas palavras para cantar a nova Esperança!

Para Coutinho e Cabral, que levaram o coração da Pátria ao beijo mais próximo do Sol e da Glória, a comovida gratidão do nosso Amor!

(in Leonardo Coimbra, «Dispersos. V. FILOSOFIA E POLÍTICA», Editorial Verbo, 1994, pp. 275-277).



Gago Coutinho e Sacadura Cabral antes de partirem.



Gago Coutinho e Sacadura Cabral a bordo do Lusitânia (1922).






Rota da Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul.



Ao amarar na Baía de Guanabara faz as salvas de ordenança.



Baía de Guanabara vista de satélite da NASA. Baía localizada no estado do Rio de Janeiro, no sudeste do Brasil.


























domingo, 4 de dezembro de 2016

No Altar da Pátria

Escrito por Leonardo Coimbra






O Silêncio é o padre-nosso das almas.

Rezar com os lábios, nem sempre é conversar com Deus.

Fazer o silêncio activo é abrir, em humildade, nossas almas infinitas à majestade da Infinita Presença.

Silêncio!

É o herói que passa: ele vem duplicando de alma seus tangíveis despojos materiais, e, em nosso religioso silêncio, se insinua a vida eterna da Beleza e do Amor, no vil corpo dos nossos egoísmos transitórios.

Silêncio!

No horizonte oculto das nossas almas, em amor feitas uma só alma, assomam vultos de sonho e mistério.

Todos os avós que em sacrifício se deram à Pátria e a Deus, todos os humildes serranos, que, em humilde saudade da terra portuguesa, morderam o pó das terras de França e África, todos os sonhos de bondade e sacrifício formam auréola, arco-íris da Nova Esperança e do Novo Amor!

De joelhos!

E em Nossa Alma seja o Amor tão puro que uma grande Aurora inunde, alague, em luz, as terras de Portugal, e, coluna de mirra, oração lusíada, a Aurora seja incêndio de Amor pelas Alturas!

(in Leonardo Coimbra, Dispersos, V, Filosofia e Política», Editorial Verbo, 1994, p. 266).


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Oração

Escrito por Leonardo Coimbra





Oração de Jesus Cristo no Jardim de Gétsemani



«O pensamento criacionista é um pensamento humano e, portanto, em analogia com o Pensamento criador, é um pensamento diminuto. Ele mal se conhece a si mesmo; é, pois, prenhe de obstáculos. E, como tal, pergunta-se por um Pensamento criador e pode, inclusive, alcançar a "hipótese" da sua existência - intui a existência de um "Pensamento" que cria sem obstáculos, que se eleva a uma perfeita Síntese. Mas, no momento em que ele se propõe conhecer este "Pensamento", vê-se logo limitado por um "Irracional" inatingível em termos de razão humana. Deus é, portanto, esse "Irracional" - esse é o seu nome. "Irracional, porque incomensurável".

"A divisão faz aparecer o número fraccionário. A radicação o número irracional. E, com o irracional, aparece abertamente a ideia de infinito".

Esse "Irracional" apresenta-se, então, como a "ideia" de um incomensurável Infinito; incomensurável, porque não pode ser medido por qualquer fórmula, não pode ser esgotado por "conceitos" ou "acções já realizadas". Deus não se esgota num momento histórico, e não cabe em nenhuma "fórmula" transmutável, pronta para um idêntico resultado - assim, por exemplo, como uma "teoria da relatividade" ou uma fórmula H2O.

O espírito humano é activo, é criação, um incessante mobilismo - esse é o princípio que se impõe ao Criacionismo. Transportar, pois, o espírito humano para um "reino" fora deste mundo (como querem, a seu ver, os intelectualistas) é conhecer um "criado" inerte e imóvel. Aos "intelectualistas" opõe-se o "irracionalismo". Só este pode garantir a liberdade criadora da própria "criação". A "criação" é o "mar imenso e profundo da Vida"».

Miguel Spinelli («A Filosofia de Leonardo Coimbra»). 


«Ao fim de qualquer processo filosófico parece surgir sempre a mesma conclusão: as matemáticas são, de todas as ciências humanas aquelas em que melhor se espelha a mais alta teologia. Substituir a teologia pela metafísica, como fez o iluminismo, ou pela sociologia, como fez o positivismo, no quadro das ciências filosóficas, é impiedade que equivale a embaciar para sempre, o espelho da verdade. Assim interpretamos a admirável analogia que Leonardo Coimbra escreveu em A Alegria, a Dor e a Graça: "O matemático que dispensa a hipótese Deus é como o homem que, junto ao lume do carvão, dispensa o calor do solo"».

Álvaro Ribeiro («As Portas do Conhecimento: Matemática e Metafísica»).




Leonardo Coimbra



«...O problema de Deus é o problema do significado humano ou super-humano mais finito e do significado absoluto da moral. A consciência moral é um acidente humano, ou é a mais estranha realidade e essência? Eis o problema de Deus.

E só assim Deus pode existir sem eliminar as criaturas. De outra forma seriam as criaturas determinismos sem autonomia, máquinas tombadas da absoluta vontade divina. E, como o querer absoluto fora do saber e amar coincide com o capricho, as criaturas seriam caprichos divinos, o que equivale a dizer que não seriam. Eis os motivos por que à velha palavra demos um novo sentido.

A filosofia criacionista não recebe por acção exterior o motivo da inflexão da sua trajectória. Foi a dialéctica científica que a levou à pessoa, que a Arte conserva e engrandece. O pensamento, chegado ao seu foco, reflecte, e a pessoa ainda é a palavra da síntese filosófica.

Não precisamos de sobrepor à síntese objectiva uma síntese subjectiva. A realidade não se divide nas duas coisas - sujeito e objecto. O sujeito e o objecto são vagas anunciações da pessoa activa e livre tendo como instrumentos de acção os determinismos subordinados. A trajectória do pensamento científico inflecte-se naturalmente para a irredutível realidade - a pessoa».

Leonardo Coimbra («O Criacionismo: Síntese Filosófica»).




Oração


Eu adoro e temo o senhor meu Deus, porque Ele é doce e terrível.

Só Ele é: e tudo quanto existe assenta na sua mão poderosa.

Ele espalhou os mares sobre a face da terra e arremessou as montanhas para as alturas dos céus.

Ele pode apertar em sua mão, aniquilando-os, os mundos que uma vez dispersou pelo Espaço.

A voz do trovão e do relâmpago, os clarões da terra incendiada, as lavas que vomitam as feridas da terra, os ventos galopando cortantes, a terra tremendo em seus alicerces e os mares expulsos de seus leitos não custam um estremecimento à sua tranquilidade terrível.

Ele manda, e, no Espaço, os mundos chocando-se fazem um formidável dilúvio de fogo; Ele manda e dos mais profundos pélagos surgem os dorsos corcovados dos planetas; Ele manda e essas mesmas montanhas são poeira tombando de seus alicerces de granito.



O tufão cresce, avança sobre nós, torna em seus invisíveis braços as árvores mais gigantes e arranca-as como penugem de andorinha adormecida; sopra e das casas desmoronadas fogem espavoradas as cinzas do último fogo que reunira a família. Mas o tufão cresce ainda e não são os alicerces dos planetas que estremecem, é o Sol, imensa fornalha ardente que vomita farrapos de fogo maiores que os próprios mundos...

Cresce ainda e não são as cidades da terra e os seus milhões de habitantes que tombam à cólera de seu sopro, e não é o Sol que abre em chaga formidável seu manto de fogo, são os sóis, as nebulosas, os lumes e as monstruosas trevas do Espaço que se chocam e comovem levadas em seu sopro como o cadáver da gaivota na onda da tempestade.

Meu Deus, meu Deus, como é terrível a força do teu braço, como é terrível o assopro da tua cólera.

Não são os montes que saltam em suas bases de rocha, são os mundos que flecham em suas órbitas transviadas.

O caminho passa e quem sabe de que mundos mortos é a poeira que se lhe prende nos cabelos. Os pés do peregrino pisam na terra poeira de mundos mortos, apagados nas densas estepes das alturas.

A criação ri e o raio que lhe doira os cabelos e afeiçoa a boca é uma gota de sangue do nosso melhor Sol agonizante, e ó quantas faces cadavéricas, quantos mundos sem vida já não beijou essa gota de sangue que nos chega agora a cintilar oiro num sorriso de criança?

Meu Deus tua força é terrível e a cólera de teus olhos é mais cortante que o gume duma espada num campo de batalha!

O trovão que nos estala sobre a cabeça é um eco amortecido da tua voz justiceira, a língua de fogo que repassa e funde as rochas e os metais mais fortes é o reflexo apagado do teu olhar ardente"

Onde esconderá Senhor sua cabeça pecadora o homem que teu olhar procure?

- Caim, Caim, que é de teu irmão Abel?

E onde se sumirá Caim de ante a tua face?


Caim matando Abel


Os mundos estão na palma da tua mão, diante de tuas pupilas ardentes.

Mas não são eles, os mundos, obra da tua vontade soberana, não és o senhor deles?

Quem pode pôr barreiras no campo que te pertence? Não terá o oleiro o direito de partir, amassar e reamassar os barros que amodelou?

Os mundos são teus que neles se faça a tua indomável vontade misteriosa.

Mas as almas, Deus meu?

Flores do teu jardim que tua mão semeou na vida e que tua mão vem colher tão cedo...

Que vem fazer a Morte, que é esta vida , às sementes da vida eterna que são as almas?

Ascender na podridão a beleza desse instante?

A simples fosforescência no monturo?

Meu Deus, meu Deus, como são terríveis os caminhos da tua vontade!

E as sementes que são colhidas mal iam desenovelando a morte das criancinhas?

Que estranho cacto vermelho não será a chaga dum coração materno!

As crianças morrem para Deus ter anjos e os corações maternos ficam chagas de luz a gritar no Espaço!

Os mundos que são obra da tua mão omnipotente não te conhecem, ó que importa, pois que os arremesses num ou noutro sentido?

Mas as almas, meu Deus, conhecem-te e conhecem-se; ó para quê semear almas e vir colhê-las antes que abram, para reunir corações e dispersar cadáveres? (in Miguel Spinelli, «A Filosofia de Leonardo Coimbra», Braga, 1981, pp. 271-273).



domingo, 7 de outubro de 2012

A Alegria, a Dor e a Graça (iii)

Escrito por Leonardo Coimbra 




Leonardo Coimbra



«Como, para a ciência moderna, a noção suprema de realidade é a de uma matéria que é pela divisão e pela composição ad infinitum, só o método que procede por divisão e recomposição de partes aparece como adequado; dir-se-ia que aquele factor pelo qual se constitui e se reconstitui indefinidamente a matéria é o mesmo de que a inteligência humana se serve para conhecer e dominar. A ciência antiga, como vimos, dá a matéria como o irracional na própria vida de Deus; é uma substância misteriosa que, por ser a potência de divisão infinita, constitui o elemento básico para as formas que nascem da actividade contemplativa do Espírito. Mas o conhecimento da matéria em si não atraía os antigos por saberem muito bem o que isso significava e até onde poderia conduzir.

Leonardo Coimbra, tendo dado, logo no primeiro livro, a ciência moderna como o mais alto e bem actual momento dialéctico na evolução do espírito humano procurou interpretar a evolução dela com a filosofia no sentido de que esta constituísse a boa e inteligente companheira vigilante que a trouxesse, à mínima ameaça de cousificação, para os caminhos que sobem à montanha de onde se avista todo o universo e se sente todo o seu Mistério. A ciência valeria na medida em que não se esquecesse; a filosofia estava ali ao seu lado para lhe lembrar o verdadeiro, mais alto e profundo sentido das suas descobertas.

Tal posição não se sustentou, foi-se tornando ao longo dos anos mais crítica, até que o filósofo começasse a ver que a ciência pretende outra coisa, pretende, fundamentalmente, garantir pelo pensamento a cousificação.

Poderia tê-lo visto logo de início se tivesse estado mais interessado em ver o que significava a quantificação do que seguir o pensamento na sua actividade de quantificação "progredindo por analogias"».

António Telmo («Viagem a Granada»).


«Ensinou sempre Leonardo Coimbra, mostrou sempre e escreveu sempre de modo a não sacrificar a verdade divina no humano sistema e a não encerrar a vida infinita em qualquer fóssil fórmula, por mais bela ou nobre que parecesse, por mais alta tradição que apresentasse. Muitas vezes nos advertiu, muitas vezes o comunicou em palavra e exemplo; e no seu livro sem dúvida alguma mais original, mais luminoso, mais profundo, mais rico de fecundas perspectivas A Alegria, a Dor e a Graça, advertiu como importa não apenas considerar no estudo da realidade e do homem "a fanerogâmica rútil de sol, mas também a criptogâmica das sombras"».

José Marinho («Estudos sobre o Pensamento Português Contemporâneo»).







«Leonardo Coimbra era demasiado dotado de dons artísticos para poder pensar com serenidade dialéctica constante. A cada instante, o problema, para ele, cede lugar ao drama, o esforço discursivo - ao golpe de veemência. Daí a irregularidade de pathos da sua obra, cheia de dissonâncias ditirâmbicas e espasmos de angústia a interromperem os raciocínios mais exigentes de isenção dos impulsos sentimentais; daí, a tendência para a escalada mística da essencialidade do real, para o ataque dramático das questões. Alguns dos seus livros parecem verdadeiras incursões na selva, tal a sugestão auditiva que eles nos dão do que é característico do estado de alma do explorador no ataque e na presença das grandes espessuras vegetais: a respiração da temeridade, o grito selvático desgarrado, a sensação de perseguição, a felicidade do repouso na penumbra de uma clareira que não se sabe onde fica! Servido de uma imaginação extremamente ágil e inventiva no lançamento de intuições iluminantes a grande distância, - o seu pensamento dificilmente se resigna ao avanço gradual da reflexão, apresentando muitas vezes um ritmo ofegante que fatiga, nomeadamente nos livros em que a sua propensão para o pensamento imaginativo e fragmentário é abandonado à deriva, como sucede por exemplo nesse livro, cheio de tantas belezas e ideias, mas indefinido no conjunto, que se chama A Alegria, a Dor e a Graça. Esta complacência - deve porém dizer-se - para com o seu processo temperamental de pensar, excessivamente elíptico, granular e colorido, não é constante na sua obra de pensamento de maior valor especulativo. Leonardo Coimbra (ao contrário do que muitos cuidam, pois dum modo geral aqueles mesmo que teriam alguma competência para estudarem a sua obra, classificam-no um pouco sumariamente como um "discípulo de Bergson") embora tenha reconhecido sempre que a intuição é a fase germinativa primordial do conhecimento, e igualmente reconhecido que o pensamento aforístico, granular e colorido, é uma expressão fecunda e adequada a essa fase do conhecimento, mostrou expressamente nas suas melhores páginas que Bergson era excessivo em erigir o conhecimento intuitivo em conhecimento supremo, e em relegar o discursivo, por conceitos, como essencialmente vicioso, porque, - opina -, o conceito, longe de ser um detrito era, para si, segundo a sua expressão mesma, como uma espécie de potencial psíquico, com uma grande riqueza de intuição inerente. Por temperamento, pois, de artista, Leonardo Coimbra tendia para pensar por golpes rápidos e iluminantes, por imagens; por preferência reflexiva do pensador, reconhecia que o processo superior de conhecer é o que resulta duma explicitação gradual e aprofundante das intuições, feita por meio da velha dialéctica de análise e síntese de noções, constantemente progressiva e regressiva, depurando a sua substância e reformando a sua forma».

Sant'Anna Dionísio («Leonardo Coimbra»).


«Efectivamente, no estilo de Leonardo Coimbra não há hesitação, dificuldade ou disfarce; toda a sua expressão aparece iluminada na sua nudez plástica, e pronunciada em frases directas, ressumando sinceridade e emoção. Apenas quando Leonardo Coimbra é um lírico, por vezes interrompe o seu pensamento dando lugar a hiatos sucessivos, numa entrecortada religiosidade; mas o discurso continua sempre, torrencial e sincero, por mais profundos ou por mais elevados níveis de consciência, parecendo abandonado o tema em discussão, se bem que sempre com ele relacionado, até reaparecer noutra fórmula mais bela. O leitor atento, inteligente e benévolo não terá dificuldade em interpretar o que, parecendo resultar de incoerência e de dispersão, contém, afinal, uma séria e profunda unidade.

Devemos também a Eudoro de Sousa algumas anotações sobre o uso das imagens no estilo do nosso pensador. Compara o ilustre filólogo a prosa de Leonardo Coimbra com a de Henrique Bergson e mostra que o escritor francês, para persuadir os seus leitores, recorre quase sempre a imagens mecânicas, enquanto o orador português, para entusiasmar os seus ouvintes, projecta sucessivamente imagens biológicas. O estudo de Eudoro de Sousa constitui um valioso argumento para refutar quantos falam do bergsonismo de Leonardo Coimbra.




Henrique Bergson




O estilo de Leonardo Coimbra oferece dificuldades ao leitor mediano porque o pensamento do filósofo não permanece na linha horizontal, mas ora mergulha nas águas profundas do subconsciente, como que desaparecendo num hiato crepuscular, ora reaparece navegando na superfície clara da ontologia consciente, ora adeja pelos elementos superiores, de mais pura luz e de mais subtil fulgor. O leitor vulgar preferia decerto que tal discurso fosse o de um sedentário fiel aos lugares-comuns, e que tal obra fosse desenhada com esquadro e compasso, construída com materiais de resistência experimentada e arquitectada segundo um plano de intento moral e utilitário. Tal não poderia ser o estilo do pensamento dinâmico e filosófico que tanto mais se desprende das contingências morais quanto sabe que a vida do homem é uma viagem de aventura, descobrimento e regeneração.

Leonardo Coimbra, adverso por temperamento a toda e qualquer violência demonstrativa, não se propunha provar, nem agir, nem convencer, nem sequer persuadir. Sentenciando, apenas revelava o que sentia. Toda a sua expressão está, pois, marcada de sinais da sensitividade e da emoção, o que a aproxima da linguagem dos poetas.

Depois do momento admirativo de espanto, o pensador reflectia sobre a palavra e a poesia, considerando não só o poder mágico que o artista apreende, mas, ainda, a bondade religiosa que milagrosamente transmuda as almas, e sobre este problema deixou nas suas obras alguns trechos admiráveis. A quem lhe perguntava sobre a intenção dos seus discursos e dos seus livros, costumava responder que escrevia e falava pela mesma razão que os rapazitos cantam ou assobiam quando, de noite, atravessam sozinhos as florestas temerosas. Num passo célebre de A Luta pela Imortalidade, desce a justificar o carácter entimemático do seu estilo, provando assim estar consciente e senhor dos seus processos:

"O que quero é saber interrogar, não sou homem de afirmações e certezas. Já reparou o leitor que a minha gramática é muito admirativa e interrogativa?

Interrogando e admirando.

Eu era capaz de aderir a uma escola literária que só escrevesse pontos de admiração e interrogação, se não soubesse que isso poderia ser mero formalismo de quem nada admira e nada interroga"».

Álvaro Ribeiro («A Arte de Filosofar»).





A Graça

A graça é a sensação da liberdade. Aparece em toda a parte, onde uma força se liberte e pouse, sobre a tranquilidade da forma, o sorriso do seu excesso.

A graça é o abraço acrescentado ao corpo, a unidade plena possuindo o mundo e sobrenadando à superfície, como essas figuras dos anjos directores de Kepler, guiando os planetas pelo Espaço.



Johannes Kepler



A graça repousa e perpassa, de larga túnica flutuante, no cósmico abraço dos mundos.

Aquele formidável gigante, que sustentava o Céu nos confins do mar, era heróico, retesado de esforço, nenhum sorriso brincava nos seus lábios.

O anjo de Kepler era gracioso, não combatia atritos; era o próprio planeta, elevando sobre si a unidade do seu destino cósmico.

Entre as concepções da fábula, nenhuma revela, melhor que a sereia, a divina essência da graça.

A sereia contraria a beleza pelo artificial casamento da mulher com o peixe; no entanto, uma vaga simpatia pelo elemento canto, voz subida das ondas; é a presença do excesso livre e desinteressado.

A sereia equilibra o mundo físico pelo corpo e ergue sobre esse mundo a flor da voz humana, solta e ilimitada.

A verdadeira graça não é a da sereia, mas a da própria mulher respondendo pelo corpo às comoções siderais; pela palavra e pelo canto, pondo, em cada resposta, um novo sentido de profundidade, reformando cada gesto com uma secreta intenção de amor.

Mas a nossa inércia esquece-se na harmonia plena, e, para prender a atenção, necessário é desarticular os elementos dessa harmonia.

Esta vitória não resulta, porém, da superioridade do eu sobre os outros, da irracionalidade matemática do Ser; é, pelo contrário, a justificação duma unidade de reais possibilidades, duma infinita possibilidade de formas reais, duma liberdade de ligações, de universal comunicabilidade.

O Universo é uma ordenada coexistência.

Nenhum ser se pode esconder ou furtar às actividades que o cercam. No ponto e no instante está o Espaço e está o Tempo.

No indivíduo está a Espécie e, mais além, a própria Vida, ligando-o ao planeta e aos mundos.

O episódio não existe, porque, ao acidente, que passa, assiste a essência que perdura.

A Graça, sendo o sorriso do Universo, que se possui e ama, pode revelar-se no acidente e no indivíduo, no ponto e no instante.

Na agilidade contente do movimento infantil, ou na microscópica magnificência duma diatomácea, trabalha uma força, que, sob o Oceano e o Céu, sem esforço nem diminuição, desdobra o infinito do seu poder, sobrelevando a obra.



A Graça é a sensação da liberdade, porque é, em cada forma, a presença do Infinito, que a criou e sustenta.

(...) O mundo físico é a graça do mundo mecânico, como o pensamento é a graça do mundo físico.

O arco-íris atravessando o céu é a imagem do pensamento divino envolvendo os mundos.

A Alegria é a unidade concreta dum Universo: sociedade pronta e patente; é, pode dizer-se, a realidade do Ser planificada.

A Dor é a nova direcção da Unidade, quebrada em mil destroços, fragmentada e dispersa, buscando para além.

A Graça é, antes da Dor, o sorriso da Alegria; é, depois da Dor, a Unidade reconquistada boiando sobre os destroços, que, por ela, tomam um novo sentido da Alegria, um lúcido corpo de drama, um valor de revelo e exaltação.

A Alegria atinge-se, é a nossa realidade imediata e é também a nossa conquista.

A Graça é, no indivíduo, a presença dum Infinito de qualidade, que tudo abrange e excede.

A Alegria é a vitória, em cada ser, do sentido de concreto universalismo sobre o abstracto individualismo.

A Graça é o próprio Universo que é presente, por dentro e em espírito, em cada parcela - átomo, mundo ou criatura.

A Alegria canta, a Dor procura e atende, a Graça é.

(...) A Graça é a apreensão do universal no particular, e, quando o primeiro sorriso infantil luariza uma face, é a providência amparando a fraqueza, o anjo da guarda que está vigilante.

Quem uma vez sentiu a graça, viu o próprio Deus. Vejam como ela é variável e sempre fácil em cada instante de realização.

Qual de nós, de amorosas comunicações tão estreitas, poderia, com graça, libertar um cordeiro que vai destinado à morte?

E não o fez S. Francisco de Assis?



São Francisco de Assis (Celebração do primeiro presépio ao vivo em Greccio).



É que, nele, a amorosa comunicação vai até ao irmão lobo, ao Sol e à Lua, e, em nós, mal chega aos mais próximos seres humanos.

O que, no humílimo santo, é a presença da amorosa unidade, seria nos outros uma inversão das ligações, uma estúpida separatividade.

É gracioso o jogo de luz que é o brincar dos peixes da água, mas também (e a que distância!) é gracioso o falar de Cristo.

Todavia é sempre um excesso; o excesso sobre a utilidade do instante, sobre todo o Tempo, todo o Espaço, todas as formas e todas as vidas.

Em nenhum caos existiria, pois, a graça, se o Universo fosse um mecanismo, uma mera necessidade, uma absoluta actualização.

A Graça é o sorriso da liberdade.

(...) Os dois escolhos da liberdade humana são a escravidão e a tirania.

A escravidão é a perda do valor pessoal, a abdicação da palavra própria, da realidade da parcela. É, no mundo humano, a direcção da pessoa por uma lei exterior; seria, no mundo físico, a exaustão completa da qualidade, a sua representação em pura quantidade, a supressão em cada massa de sua qualidade de inércia, a integral redução a puro geometrismo.

A tirania é a invasão dos outros por cada um, a direcção do interior alheio pelo inferior individual, a homogeneização do todo pelo fácies duma parcela. A tirania e a escravidão têm um mesmo processo e um fim comum - o homogéneo.

Sonhai um destino para um povo, tirando esse sonho da vossa exclusiva individualidade.

Realizado o sonho, que vai acontecer? Como nada há fora da repetição, tudo vai estagnar em actualização plena, em perpétua identidade.

Recebei passivamente uma forma, que se vos impõe; a mesma identidade estancará a vida, em perfeito automatismo.

A escravidão e a tirania são a mesma coisa, são tentativas niilistas.



Leonardo Coimbra



O Universo existe pelo seu dramático significado social, é como um fluido enchendo e informando um vaso elástico, cuja elasticidade cansa e se demora. As pausas dessa elasticidade são a inexistência, o alvor do Nada.

Pode dizer-se que a realidade é o infinito animando o nada.

É, neste sentido, que se deve entender a criação; e, neste sentido, ela é contínua e permanente.

Se os deuses dormissem, haveria o nada.

Ora, se a grande árvore da vida recebe a seiva numa direcção, mineraliza o resto, e, pelas raízes mortas ou pelas folhas secas, ela há-de estiolar e morrer.

Esta é a explicação de todas as antinomias e contradições do pensamento humano.

A contraprova é a identidade niilista dos extremos da contradição.

(...) Em qualquer direcção que atravesseis o planeta é o Abismo, a Solidão vazia, que se vos oferece.

Se é Dia, o ruído próximo apaga a voz longínqua e nada vereis para além da Terra; se é Noite, o silêncio do planeta alonga-se sobre o abismo e um imenso, um infinito silêncio, pesa sobre a vossa alma aterrada.

Só o sentido cósmico da realidade vos poderá dar a compreensão do planeta e do abismo, rumoroso de astros. Sim; só o significado universal da existência pode fazer ouvir certas vozes, dar verbo a certas ansiedades.

(...) Trazei ao quotidiano, o eterno; à parcela, o todo; ao acidente, a essência.

A fatalidade não é mais que a queda das formas criadoras, o sono da vida, a lâmpada que quer dispensar o sol e se morre à míngua de alimento.

Se deixarmos cristalizar as formas da actividade, ficará esta enclausurada entre os cristais.

Desde a prática metafísica até à prática social de todos os dias, são os produtos da actividade os seus maiores inimigos.

Porque deixou estagnar o Tempo e o Espaço longe da ideia que lhes dá o ser, foi o pensamento humano aprisionado no ponto e no instante.




O materialismo do Tempo e do Espaço, de qualquer absolutismo que ele resulte, aniquila a liberdade, retirando o interior a todas as existências.

(...) Nunca vistes uma criança conduzindo um carrito de mão, a descer uma encosta? Ela o guia; mas, se o abandona à inércia, será imediatamente arrastada.

Assim é a civilização. Ela compõe-se dum conjunto de instrumentos da acção humana, ela é mesmo o depósito da cooperação social, a escravidão do fim aos meios materiais.

Tudo isto é, no plano prático imediato, a repetição do que aconteceu no longínquo plano metafísico.

(...) A estrutura do mundo físico é a inércia.

É, com efeito, a inércia a base da mecânica, e, se quisermos furtar-nos à mecânica, cairemos na energética, onde o conceito principal de energia é ainda definido em termos de inércia.

Ora já vimos que o significado metafísico da inércia, o seu valor realista é somente o da integral comunicabilidade, do equilíbrio social do Ser.

(...) Todo o mundo físico revela, excelentemente, o esboço duma individualização totalizante (para distinguir do falso individualismo das comunicações cortadas) nas formas cristalográficas. Os corpos tendem para uma forma própria, que as condições exteriores podem estorvar, mas sempre aparece um núcleo matematicamente exacto da forma a atingir.

É uma adaptação ao exterior actual duma forma ideal a realizar.

As leis de cristalografia são uma anunciação das leis biológicas.

É, assim, que o esforço dos que pretendem descer a vida e subir o que chamam matéria escolhe o cristal para a chave do mistério.






(...) Em cada ser vivo é presente uma unidade do seu corpo e uma unidade de vida, que o liga em todos os outros seres.

E todas as leis científicas são a procura da ideia platónica de que participa cada realidade singular.

Esta unidade, presente em todos os seres e fenómenos, não é a unidade aritmética, não é contável, nem quantificável. Ela é presente na quantidade e no número, sem ser o número ou a quantidade.

A quantidade dum círculo é a relação entre o seu espaço e o espaço do quadrado comparativo.

Nessa relação, o número soçobra perante a quantidade, até a um novo crescimento idealista.

E o que realiza o espaço circular, senão a sua participação na ideia da equidistância ao centro.

O centro é já o ponto qualificado, virtualmente contendo o próprio círculo. Aritmetizar essa unidade interior é aniquilar a própria quantidade, que tombaria em poeira de pontos sem ordem, isto é, de nada.

Esta Unidade é sempre presente desde a simples existência mecânica aos laços de gravitação, do abraço eléctrico, esboço da alma envolvendo o planeta, dando aos corpos uma polarização, até à unidade da vida criando as formas e à grande unidade moral ligando as pessoas, dando aos seres um destino comum.

Por não ser quantificável, não a esgota também nenhuma quantidade, ela é sempre um excesso sobre todos os seres e fenómenos.

Daí o duplo aspecto da Realidade: ela é contável e descritível, ela é infinita e inominada.

A Realidade é portanto um Irracional criando a razão e a ordem; Irracional porque nenhuma quantidade a pode medir, nenhuma qualidade a pode esgotar. Não quer dizer que a Realidade seja estranha à Razão, mas sim que a Razão cósmica é infinita e activa, isto é, uma sociedade, um conjunto unificado, um sistema de eficazes actividades.

(...) A primeira, a última, a constante realidade é a acção.



É, por isso, que o movimento cria os novos meios da acção, e, sobre este ponto de vista, o espaço e o tempo são criações do movimento.

(...) E é curioso observar que Aristóteles, apesar da alta consideração em que tinha o movimento, houvesse de recorrer à distinção da potência e do acto para fugir aos argumentos eleáticos, quando lhe bastava simplesmente dizer que, sendo o Espaço e o Tempo pelo movimento, não poderiam aqueles inutilizar este.

É que já tinha pecado contra a grande Unidade, deixando o Espaço degradar-se em coisa em si e só por si. Daí um recurso à primitiva unidade, na potência capaz do acto (in ob. cit., pp. 181-198).