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sábado, 7 de janeiro de 2012

Drácula (iii)

Escrito por Bram Stoker










Quando compreendi que estava prisioneiro, uma espécie de cólera selvagem se apoderou de mim. Pus-me a subir e a descer as escadas, tentando abrir todas as portas que encontrava. Mas, ao cabo de longos momentos, tive a convicção de que os meus esforços eram inúteis, e este pensamento destruiu em mim a pouca força de vontade que subsistia ainda. Agora, que recordo as honras que decorreram, compreendo que estou apanhado na armadilha, como um rato. Todavia, depois de ter adquirido a certeza de que ninguém podia libertar-me, recuperei o sangue-frio e sentei-me tranquilamente, calmo como nunca tinha estado. Pus-me a reflectir na minha situação. Não encontrava solução possível. A única conclusão a que chego, mesmo neste momento, é que mais vale não descrever ao conde as minhas angústias. Ele conhece-as, certamente, tão bem como eu, pois sabe que sou seu prisioneiro. É ele o causador do meu cativeiro. Tem sem dúvida as suas razões, que eu não conheço. Mas, se eu lhe falar nisso, esconder-me-á a verdade. Por consequência, será muito mais hábil nada deixar transparecer do que vi e do que descobri. Vou manter os olhos bem abertos, porque terei necessidade, disso estou certo, de toda a minha lucidez.

Tinha chegado a este ponto das minhas reflexões quando ouvi fechar-se o grande portão: o conde tinha regressado. Como ele não se dirigia imediatamente para a biblioteca, aproveitei para voltar sem ruído ao meu quarto. Podem imaginar a minha surpresa quando o encontrei ocupado a fazer a cama. Era seguramente estranho, mas confirmava o que eu supusera desde o princípio: não havia qualquer criado na casa. Todas as minhas dúvidas desapareceram quando, alguns momentos mais tarde, espreitando pelo buraco da fechadura, o vi a pôr a mesa, na sala de jantar. E não me senti mais tranquilo quando esta descoberta me levou a pensar que fora ele quem conduzira a caleça. Mas, se era assim, de onde lhe vinha o poder que lhe permitia fazer-se obedecer pelos lobos, fazer com que deixassem de uivar, esboçando apenas gestos com os braços? Por que razão os meus companheiros de viagem haviam manifestado tanto receio a meu respeito? E que significavam o pequeno crucifixo e as ofertas um tanto ridículas que me tinham feito, os dentes de alho e a rosa seca? Deus abençoe a boa mulher que me prendeu esta cruz em volta do pescoço! Sinto-me mais forte e menos cobarde quando lhe toco. É curioso verificar que, depois de ter considerado aquele objecto como perfeitamente inútil, encontro agora, nele, um socorro eficaz, ao sentir-me só e angustiado. Será dotado de um verdadeiro poder, ou representa apenas uma recordação de horas menos ameaçadoras? Reservo-me para estudar este assunto mais tarde. Por agora, e antes de tudo, tenho de me informar sobre a personalidade do conde Drácula. Depois disso, talvez compreenda melhor o que se passa aqui. Esta noite tentarei fazê-lo falar. Mas terei de agir com grande prudência, para não despertar as suas suspeitas.


Meia-noite. – Tive uma longa conversa com o conde. Fiz-lhe várias perguntas sobre a história da Transilvânia, e ele mostrou-se imediatamente animado ao falar do assunto. Contou-me dos costumes dos habitantes do país. Descreveu-me, sobretudo, as batalhas que ali se tinham travado, e eu teria podido acreditar que ele tomara parte nelas, tal o calor que imprimia às suas palavras. Explicou-me logo a sua atitude, dizendo-me que um boiardo se orgulha sempre da glória dos seus antepassados, e do seu nome. De cada vez em que falava da sua família, dizia «nós», na primeira pessoa do plural, como o faria um rei. Tudo o que me contou era apaixonante. Não posso transcrever aqui, integralmente, tudo o que me disse. Seria demasiado longo. No entanto, encontrava-se aí o heróico passado da sua raça.

- Nós, os Szekelys – dizia ele – temos orgulho da nossa dinastia, porque nas nossas veias corre o sangue dos povos valentes que souberam bater-se como leões para conservar o seu nível senhorial. Foi um Drácula que atravessou o Danúbio para derrubar o turco no seu próprio território. Foi o mesmo Drácula quem transmitiu o seu ardor patriótico a um dos seus descendentes, o qual, mais tarde, invadiu a Turquia. Foi esse quem, depois de ter batido em retirada, voltou sozinho para enfrentar o inimigo, deixando atrás de si o campo de batalha onde jaziam os seus homens, mortos ou feridos. Ele sabia que acabaria por vencer! E não venham dizer-me que procedendo assim ele se comportava como um egoísta, pensando apenas na glória. Que fariam as tropas, se não tivessem um chefe digno desse nome? Como acabaria a guerra, se não houvesse um cérebro e um coração para a dirigir? Sim, jovem, foram os Szekelys e os Dráculas que misturaram o seu sangue, o seu espírito e a sua espada para esmagar o inimigo, o que os Habsburgo e os Romanov foram sempre incapazes de fazer. Mas a era das batalhas passou. O sangue tornou-se, nos nossos dias, uma matéria demasiadamente preciosa; os povos preferem viver na paz, mesmo sem honra. E a glória dos ilustres avós é apenas uma bela história para contar.

Nascia o dia quando ele se calou e nos recolhemos. (Sublinho o facto de que o meu diário se parece terrivelmente com os contos das Mil e Uma Noites, pois tudo pára ao primeiro cantar do galo. Poderia também fazer pensar na aparição, diante de Hamlet, do fantasma de seu pai).






12 de Maio. – Ontem à noite, quando o conde veio procurar-me, pôs-se a fazer-me várias perguntas sobre pontos de direito e sobre a maneira de tratar certos negócios. Para não ficar inactivo, eu tinha precisamente passado o dia a rever alguns livros de estudo sobre cartórios notariais, que já havia consultado em Lincoln’s Inn. Estava portanto em condições de responder com clareza às perguntas do meu hospedeiro.

Perguntou-me se, em Inglaterra, era possível ter dois solicitadores ao mesmo tempo. Disse-lhe que poderia ter dez, se o desejasse, mas era mais sensato ter apenas um só, para um mesmo negócio, e que recorrer a vários solicitadores, ao mesmo tempo, era agir contra os seus próprios interesses. Quando se deu por satisfeito com as minhas explicações, o conde levantou-se bruscamente para me perguntar, sem transição:

- Escreveu novamente a Peter Hawkins, ou a qualquer outra pessoa, depois da sua primeira carta?

Respondi-lhe, com um ligeiro azedume, que não tinha tido a possibilidade de enviar outra carta; como teria podido expedir o meu correio?

- Então escreva imediatamente, meu jovem amigo – disse ele, pousando-me a pesada mão sobre um ombro. – Escreva ao seu amigo ou a quem quiser, indicando que vai ficar aqui durante um mês.

- Faz empenho em que eu aqui fique durante tanto tempo? – perguntei, estremecendo ante a ideia.

- Faço enorme empenho. E não poderia aceitar uma recusa. Quando o seu patrão, o seu chefe – chame-lhe como quiser – se compromete a enviar-me alguém para o substituir, está implícito que posso recorrer aos serviços desse substituto sem me considerar na obrigação de o consultar. Nada há a explicar. Não pensa assim?

Que podia eu fazer, senão inclinar-me? Tinha, antes de tudo, o dever de pensar nos interesses de Hawkins, não nos meus. De resto, durante toda a conversa, alguma coisa no olhar e na atitude do conde me lembrava ser eu um prisioneiro, e que, mesmo que quisesse, não poderia escolher. Não respondi, mas ele compreendeu, pela minha muda aquiescência, que havia ganho. A perturbação que a minha cara traduzia, indicava que era ele o amo. Aproveitou para me dizer, nessa voz adocicada que me subjugava tão facilmente:

- Pedir-lhe-ei, querido e jovem amigo, para não tratar, nas suas cartas, outros assuntos que não digam respeito aos negócios. Mas como suponho que os seus amigos se alegrarão de ter notícias suas, pode anunciar que em breve terão o prazer de o ver junto deles.






Entregou-me três folhas de papel e três sobrescritos. O papel era extremamente delgado, e compreendi imediatamente, pela atitude do conde, que precisava ter cuidado com o que escrevesse, pois era evidente que ele leria o meu correio. Assim decidi não registar, desta vez, senão breves apontamentos, prometendo a mim mesmo que daria mais amplos pormenores a Hawkins e a Mina, logo que me fosse possível fazê-lo. Se necessário, poderia escrever a Mina em caracteres estenográficos, o que embaraçaria o conde se tentasse decifrá-los. Escrevi, portanto, duas cartas insignificantes. O meu hospedeiro cuidou também da sua correspondência, consultando de tempos a tempos os documentos que estavam sobre a sua mesa. Quando terminou, pegou nas minhas duas cartas, juntou-as às suas, pô-las todas sobre a secretária, e saiu. Logo que ouvi fechar-se a porta, levantei-me e fui examinar o correio. Não tive qualquer escrúpulo em fazer isso, pois pensava que, em tais circunstâncias, devia antes de tudo pensar em proteger-me.

Uma das cartas era dirigida ao Sr. Samuel Billington, n.º 7, The Crescent, Whitby; outra a “Herr” Leutner, Varna; a terceira a Coutts & C.ª, Londres, e a quarta a “Herren” Klopstock e Billreuth, baqueiros em Budapeste. A segunda e a quarta cartas não estavam fechadas. Dispunha-me a lê-las quando vi a maçaneta da porta a girar devagarinho. Apenas tive tempo, antes de me sentar, de repor as cartas onde estavam. O conde entrou, pegou no correio, colou cuidadosamente os selos e, voltando-se para mim, disse:

- Tenho muito trabalho a fazer, esta noite. Peço-lhe que desculpe a minha ausência, mas encontrará aqui tudo o que necessitar.

Chegando à porta, parou e voltou-se uma vez mais, para me dizer:

- Faço empenho em o avisar, meu caro amigo. Se alguma vez lhe apetecer deixar o seu quarto, não poderá dormir em qualquer lado. Este castelo é muito antigo e nada prova que não seja assombrado. Feios pesadelos esperam os que adormecem inconsideradamente, ao acaso dos seus passeios. Se, em qualquer altura, se sentir invadido pelo sono, está avisado: volte imediatamente para o seu quarto. Aí poderá dormir à vontade. Mas, se não respeitar o que eu lhe digo agora, então…

Concluiu o seu aviso num tom de ameaça, e fez o gesto significativo de lavar as mãos. Compreendi-o perfeitamente. A única dúvida que me resta, agora, é a que vem de uma reflexão: será possível que um sonho, por mais terrível que seja, possa ser mais atroz do que esta rede cujas malhas misteriosas se fecham pouco a pouco sobre mim? Não, não sonhei…










Um pouco mais tarde, na noite. – Releio as linhas precedentes. Estou perfeitamente de acordo com tudo o que escrevi, mas não tenho já a menor hesitação: estou pronto a adormecer seja onde for, com a condição de que o conde não esteja aí. Tenho a pequena cruz suspensa do pescoço. Penso que, graças a ela, poderei repousar tranquilamente.

Depois da partida do conde, fui para o meu quarto. Esperei durante alguns momentos, e não tendo ouvido qualquer ruído mais, voltei a sair. Dirigi-me para a escada de pedra, de onde podia avistar a ala sul do castelo. Tinha grande necessidade de respirar ar fresco, tanto mais que a obrigação de ficar acordado durante uma parte da noite, como eu julgo prudente fazer aqui, me tinha arrasado os nervos. Contemplei a paisagem magnífica, que o luar tornava tão visível como em pleno dia. A beleza daquela região campestre trouxe-me alguma calma e conforto. Ao debruçar-me de uma janela, a minha atenção foi atraída por qualquer coisa que se movia no andar inferior. Conforme o que eu pudera estudar, da disposição dos compartimentos, parecia-me que o quarto do conde devia ficar exactamente aí. Recuei ligeiramente, a fim de não ser visto, mas continuei a observar.

Quando avistei a cabeça do conde, que aparecia na janela em baixo, não distingui as suas feições, mas reconheci-o perfeitamente pelo movimento dos braços. Era impossível enganar-me: bastava-me ver as mãos dele, que já tivera ocasião de examinar em pormenor, em circunstâncias recentes. Primeiro fiquei interessado, e mesmo divertido, por aquela visão inesperada; por vezes, pouco basta a um prisioneiro para o fazer esquecer a sua penosa situação. Mas em breve o divertimento cedeu lugar ao medo, quando vi o conde emergir completamente da janela e agarrar-se, ao longo da muralha, sobre o vertiginoso abismo. A sua capa estendia-se, de ambos os lados do corpo, semelhando duas grandes asas. Eu não me atrevia a acreditar no que via; comecei por supor que se tratava de um efeito de luz e sombra, provocado pelo luar, mas depressa tive de me render à evidência. O conde, agarrando-se a cada pedra e servindo-se de cada uma das asperezas, descia ao longo da muralha, como o teria feito um lagarto.

Que espécie de homem era ele? Ou que alucinante criatura se dissimulava assim sob o aspecto de um homem? Compreendo melhor ainda, agora, a horrível situação em que me encontro. Tenho medo, um medo instintivo e, no entanto, raciocinado. Mas é-me impossível fugir. O medo sufoca-me, e não ouso pensar no que pode acontecer.


15 de Maio. – Mais uma vez vi sair o conde, deslizando ao longo da muralha como se fosse um lagarto. Percorreu uma centena de pés para a esquerda e desapareceu num buraco, ou numa janela, não sei dizer exactamente. De qualquer maneira, adquiri a certeza de que ele deixou o castelo. E aproveitei-me para explorar este, como ainda não ousara fazê-lo então. Voltei ao meu quarto, peguei num candeeiro e tentei abrir as portas. Todas elas estavam fechadas à chave, e pude verificar que as fechaduras haviam sido mudadas recentemente. Voltei a descer a escada por onde tinha passado no dia da minha chegada. Não tive qualquer dificuldade em fazer funcionar o ferrolho da porta que se encontrava ao fundo do corredor. Com a mesma facilidade consegui tirar as correntes que seguravam essa porta, mas, uma vez mais, verifiquei que estava fechada à chave, e a chave não se encontrava na fechadura. Voltei para trás e pus-me a examinar todas as portas que encontrava. Algumas, abertas, davam acesso a compartimentos que continham apenas velhos móveis poeirentos e roídos pelas traças. Por fim, no entanto, encontrei no alto da escada uma porta que estava simplesmente assente no chão.Os gonzos tinham descaído, e uma simples pressão da mão bastou para a entreabrir. Encontrei-me numa ala do castelo, situada mais à direita da parte que eu já conhecia. Olhei pelas janelas e vi que aquele lado do edifício estava voltado para oeste e para sul. De cada lado cavava-se um impressionante precipício. O castelo foi construído sobre um rochedo, de maneira que, a não ser por um lado, é inacessível. Para mais as janelas, altas mas estreitas, não podem ser alvejadas com uma funda, nem com flechas, nem com qualquer arma. A leste, avista-se um vale em redor do qual se erguem grandes montanhas de encostas abruptas. O candeeiro era inútil, pois um luar brilhante iluminava o compartimento. Mas serve-me, no entanto, pois constitui para mim uma espécie de presença nesta solidão que me gela o coração. Sentei-me diante de uma pequena mesa de trabalho, onde alguma nobre dama de outros tempos talvez se tivesse instalado para escrever uma carta de amor.

Registo neste diário tudo o que me aconteceu depois das últimas notas. Escrevo estenograficamente, o que é um sinal dos progressos realizados no século XIX. E todavia, a não ser que eu me iluda, os séculos anteriores tinham alguma coisa que lhes era própria e que nenhuma inovação moderna poderá destruir: o encanto.

16 de Maio. Manhã. – Deus queira preservar o meu equilíbrio mental, pois nada mais tenho. Para o pouco que me resta viver, já não posso desejar senão uma coisa: não endoidecer. Se é que não endoideci ainda. Mas, se estou são de espírito, não é angustiante pensar que, entre todas as ameaças que se estreitam à minha volta, a mais inquietante é a presença do conde? Em breve será apenas dele que poderei esperar socorros, embora seja levado a servir os seus desígnios. Deus misericordioso? Fazei com que eu conserve a calma, pois se perder o sangue-frio será para o ver substituído pela loucura. Começo a ver claro em certas coisas cujo sentido me tinha escapado até agora. Por exemplo, nunca havia compreendido o que significavam as palavras que Shakespeare pôs na boca de Hamlet:



As minhas tábuas! Depressa, as minhas tábuas!
É preciso que eu inscreva aí… etc.






Mas agora, que o meu espírito despertou, vou também continuar a narrar tudo no meu diário. Inscreverei tudo o que tiver vivido, e talvez que isso me traga algum apaziguamento.

Ao dar-me o seu misterioso aviso, o conde tinha-me assustado. Agora, que penso em tudo o que ele me disse, sinto-me invadido por um espanto ainda maior. Sei que esse homem exercerá sobre mim um terrível ascendente. Contanto que não me deixe apanhar na armadilha das suas palavras.

Depois de ter escrito as últimas linhas do meu diário, senti a necessidade de descansar. Recordava-me muito bem do aviso do conde, mas sentia um evidente prazer em desobedecer-lhe. O luar que me iluminava parecia-me doce e benéfico, e dava-me a ilusão da liberdade. Decidi portanto não voltar às salas onde havia estado até então; já as conhecia demasiadamente bem. E resolvi dormir no quarto que descobrira. Reencontraria a macia atmosfera na qual viviam as belas damas de outrora, as quais passavam o seu tempo a cantar, enquanto esperavam o regresso dos senhores que haviam partido a pelejar em combates distantes. Um sofá, perto da janela, ia permitir-me contemplar a paisagem comodamente estendido.

Devo ter adormecido. Pelo menos suponho isso, mas não tenho a certeza pois os acontecimentos que se desenrolaram me parecem tão reais que, agora, bem instalado neste quarto inundado por um risonho Sol matinal, não consigo acreditar que tenha sonhado. A noite passada, eu tinha a impressão de não estar só. A sala era de facto aquela aonde eu havia entrado: podia ver as marcas dos meus passos na poeira que recobria o chão. Mas, na minha frente, encontravam-se três mulheres jovens. Quando as avistei julguei sonhar, pois elas não projectavam qualquer sombra no chão, apesar de exposta ao luar que entrava pela janela. Aproximaram-se de mim, examinaram-me curiosamente e falaram umas com as outras, em voz baixa. Duas delas eram muito morenas: tinham nariz aquilino – como o conde – e um olhar de fogo que contrastava com os pálidos reflexos lunares. A outra era de maravilhosa beleza, com uma longa cabeleira dourada e olhos que pareciam esplêndidas safiras. Parecia-me conhecer aquela cara, mas foi-me impossível lembrar-me se estava ligada à recordação de um sonho, ou se já a havia encontrado em momento e circunstâncias indeterminadas. Todas tinham dentes de deslumbrante alvura, que formavam verdadeira filas de pérolas de escrínio dos lábios sensuais. Sentia-me pouco à vontade, só de as contemplar, e estava partilhado entre a admiração e a inquietação. Quem sabe se não senti o desejo de roçar com um beijo aqueles lábios voluptuosos? Sem dúvida é absurdo registar aqui esse desejo, pois isto poderá desgostar Mina se alguma vez ler estas linhas. E, no entanto, é a verdade. As três desconhecidas continuavam a dizer umas às outras coisas que eu não ouvia, e depois riam, num riso argentino, musical, que no entanto tinha qualquer coisa de duro e não parecia brotar de lábios humanos. Era um pouco como o tilintar, simultaneamente doce e intolerável, de dois ou três copos que mão hábil fizesse entrechocar. A dama loura abanou a cabeça, com garridice, enquanto as suas companheiras a impeliam para a frente. Uma delas incitou-a:

- Vai! Tu és a primeira, nós seguimos-te. Cumpre-te começar.



Monica Bellucci, uma das "desconhecidas" no filme Drácula, de Francis Ford Coppola (1992).




A outra acrescentou:

- Ele é jovem e forte. Concederá um beijo a cada uma de nós.

Eu não fazia qualquer gesto, e observava a cena por entre as pálpebras semicerradas. Sofria um suplício delicioso. A jovem loura aproximou-se de mim, e debruçou-se tão perto que senti a sua respiração. Tinha um hálito doce, um aroma de mel o qual agia sobre os meus nervos como já o fizera a sua voz. E no entanto alguma coisa de amargo se misturava a essa sensação um tanto mórbida, alguma coisa como um cheiro a sangue.

Eu não abrira os olhos, mas, entre as pestanas, via nitidamente o que se passava: a jovem ajoelhara-se e fitava-me com uma expressão estranha. A sua face traduzia voluptuosidade ao mesmo tempo emocionante e repugnante. Passou a língua pelos lábios. Eu distinguia bem a saliva que lhe escorria pelos cantos da boca. Passeava a língua vermelha sobre os dentes anormalmente agudos. Em breve os seus lábios chegaram à altura dos meus, mas logo desceram e tive a impressão de que iam parar sobre a minha garganta. Mas o movimento interrompeu-se e eu ouvi uma espécie de gorgolejar, o barulho que fazia a sua língua, a lamber-me, como um animal. Senti o seu hálito quente alcançar-me o pescoço. Foi então que a minha pele reagiu, como se uns dedos a tivessem roçado para fazer cócegas. Senti a doce carícia dos seus lábios na minha garganta, e a ligeira mordedura de dois dentes. Mergulhado num êxtase langoroso, fechei os olhos e esperei, com o coração a bater fortemente.

Mas, no mesmo instante, outra sensação veio desencantar-me: tive bruscamente consciência da presença do conde, aparecendo como se tivesse surgido da parede. Abri os olhos, quase involuntariamente, e vi-o agarrar, com a mão poderosa, o pescoço da jovem. Afastou-a num gesto violento. Ela estremeceu de cólera, rangeu os dentes; as suas faces avermelharam-se. Mas o conde!... Eu nunca teria pensado que alguém pudesse exprimir um tal furor. Os seus olhos chamejavam, numa expressão demoníaca. A cara tinha uma lividez cadavérica. Com um gesto brutal, atirou com a desgraçada para a outra extremidade do compartimento. Fez um sinal às duas outras, que imediatamente recuaram. Lembrei-me de o ter visto fazer os mesmos gestos diante dos lobos. Numa voz baixa, que no entanto dava a impressão de ressoar por toda a casa, bradou:

- Como se atreveram a tocar-lhe? Como tiveram a audácia de pousar os olhos nele, quando eu o tinha proibido? Para trás, vão-se embora! Este homem pertence-me! Não se aproximem dele, nunca mais, se não querem que as castigue.

A jovem loura, com um sorriso de garridice provocante, voltou-se para ele e retorquiu:

- Você nunca amou! Nunca ama!

As duas outras tiveram um riso mau, cruel e maquinal. Dir-se-ia manifestações de demónios. O conde, depois de me ter olhado com atenção, disse, num murmúrio:

- Sim, eu também posso amar. E vocês sabem isso. É preciso recordar-lhes o passado? Agora prometo-lhes que, quando já não tiver necessidade dele, poderão beijá-lo tanto quanto quiserem. Mas neste momento tenho de o acordar, porque há trabalho à nossa espera.

- Não teremos então nada, esta noite? – perguntou uma das mulheres, com o seu riso diabólico.



Enquanto fazia a pergunta apontava com um dedo um saco que o conde pousara no chão, e se agitava como se contivesse uma criatura viva. O conde não respondeu, mas moveu a cabeça. No mesmo instante uma das três mulheres deu um salto e abriu o saco. Se os meus ouvidos não me enganaram, distingui um gemido fraco, como o de um recém-nascido que estivesse a ser sufocado. Fiquei horrorizado. Enquanto eu me esforçava para não olhar o saco misterioso, as três desconhecidas desapareceram bruscamente, levando o objecto do meu novo terror. Para onde foram? Não havia qualquer porta próxima, e eu tê-las-ia visto se tivessem passado na minha frente. Sem dúvida haviam aproveitado os raios de luar para deslizarem pela janela, pois, numa visão breve, distingui no exterior as suas três sombras quase imateriais.

Então o espanto apoderou-se de mim, e perdi os sentidos (in ob. cit., pp. 43-56).


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Drácula (ii)

Escrito por Bram Stoker








7 de Maio. – Levanta-se uma nova aurora. Estou bem repousado, e as últimas vinte e quatro horas decorreram sem incidentes. Esta manhã levantei-me tarde. Logo que me vesti, dirigi-me para a sala onde havia tomado a anterior refeição, e encontrei preparado o primeiro almoço. Sobre a mesa, ao lado da cafeteira, estava um cartão com estas palavras:

«Tenho de me ausentar durante um certo tempo. Não me espere. D.»

Depois de ter tomado conhecimento desta mensagem, almocei à minha vontade. Então quis chamar um criado, e procurei, com o olhar, uma campainha. Não havia. Isto pareceu-me tanto mais insólito quanto, numa casa onde se ostentava opulência, a ausência de um objecto de tal utilidade se tornava desconcertante. No entanto, tudo era de inapreciável riqueza: os reposteiros e cortinas eram feitos de tecidos sumptuosos, o serviço da mesa era em ouro finamente cinzelado. E, ao passo que eu vira em Hampton Court cadeiras usadas e roídas pelas traças, as que ali se encontravam – embora da mesma época e do mesmo estilo – estavam ainda em excelentes condições de conservação. Por fim, coisa ainda mais surpreendente, não encontrei um só espelho. Nem mesmo sobre a mesa de “toilette”. Quando quis barbear-me, tive de recorrer ao meu pequeno estojo. Nada de criados. Pelo menos não vi um único. Depois do almoço (não seria antes um jantar? Eram cinco ou seis da tarde, quando o tomei), pus-me a procurar um livro. Não quis aventurar-me pelo castelo sem ter recebido autorização do conde; mas não encontrei ali nem livro, nem jornal, nem mesmo com que escrever. Decidi-me a entreabrir outra porta, e então encontrei-me numa espécie de biblioteca.

Tive a muito agradável surpresa de descobrir uma vasta colecção de livros ingleses, e uma abundância de jornais e revistas de todos os géneros, todos em língua inglesa. Nenhuma das publicações era recente, mas os livros tratavam dos assuntos mais diversos: história, geografia, política, botânica, geologia, direito. Todos diziam respeito à Inglaterra, à vida e aos costumes ingleses. Alegrei-me de encontrar uma tal documentação sobre o meu país.


Enquanto eu examinava todos estes livros, a porta abriu-se e o conde entrou. Cumprimentou-me muito cordialmente, como na véspera, e perguntou-me se eu tinha dormido bem. Depois acrescentou:

- Estou encantado de que tenha vindo a esta biblioteca. Tenho a certeza de que encontrará aqui uma multidão de coisas interessantes. Estes companheiros – e dizendo isto acariciava as lombadas dos livros – têm sido para mim fiéis amigos, e desde há alguns anos, depois de eu ter tido a feliz ideia de ir a Londres, têm-me dado grande número de horas de prazer. Através deles descobri a vossa grande Inglaterra, e descobrindo-a aprendi a amá-la. Gostaria de passear entre a multidão, nas ruas da vossa imponente capital, e perder-me no meio dela, compartilhar das preocupações dos transeuntes, viver com eles até à morte. Mas infelizmente apenas conheço a sua língua pelos livros. Quero crer que, graças a si, meu amigo, conseguirei falá-la.

- Mas, conde – respondi – fala impecavelmente o inglês.

Ele inclinou-se, delicadamente:

- Agradeço-lhe, meu amigo, essa lisonjeira apreciação. Mas receio estar ainda muito longe da meta que a mim próprio fixei. Conheço a gramática e o vocabulário, sim, mas não sei como utilizá-los.

Protestei, por amabilidade.

- Não – continuou ele. – Sei bem que, se estivesse em Londres, não conseguiria fazer-me passar por um inglês. Eis o motivo por que considero não serem suficientes os meus conhecimentos. Bem vê, eu sou um boiardo. Os humildes conhecem-me, para eles eu sou um senhor, um personagem poderoso. Mas um estrangeiro, num país que não é o seu, permanece estrangeiro. Não o conhecem e ninguém se interessa por ele. Eu seria feliz se me considerassem como um cidadão semelhante aos outros e não dissessem, ao ouvir-me falar: «Ah! Mais um estrangeiro!». Fui o senhor, durante bastante tempo para querer continuar a ser. Ou, pelo menos, para que ninguém procure dominar-me. É-me enviado pelo meu amigo Peter Hawkins, de Exeter, para me falar da minha nova propriedade de Londres. Perfeito. Não se importará de ficar algum tempo em minha casa, suponho. Teremos numerosas conversas. Desta maneira poderei fixar as peculiaridades de pronúncia da língua inglesa. Peço-lhe com empenho que não hesite em emendar-me cada vez que eu cometer um erro, ao falar. Lamento ter estado hoje ausente, mas tal como creio ter-lhe dito, tinha vários negócios importantes a arrumar.

Disse-lhe que era perfeitamente natural, e perguntei se me autorizava a frequentar de vez em quando a biblioteca.



Christopher Lee



- Pode andar por onde quiser, neste castelo – disse-me ele – com excepção dos compartimentos que estão fechados à chave e nos quais, bem entendido, não tentará entrar. Tenho boas razões para proceder desta maneira. Estamos na Transilvânia, e a Transilvânia não é a Inglaterra. Os nossos costumes não são os mesmos. Pode ser que algumas coisas lhe pareçam estranhas, mas depressa se habituará.

Pois que a conversa se orientava sobre esse assunto, fiz ao conde algumas perguntas sobre o que já tinha podido notar no seu país, e repeti a narrativa da noite passada no caminho, na sua caleça. Perguntei-lhe por que motivo o cocheiro se apeava de cada vez que via brilhar uma pequena chama azul, e se dirigia imediatamente para ela. O meu hospedeiro explicou-me então que a crendice popular afirmava que durante uma certa noite do ano – a noite em que os espíritos maléficos se tornam senhores do mundo – uma chama azul aparecia nos lugares onde um tesouro se encontrava escondido debaixo do chão.

- Provavelmente foi escondido um tesouro na região que atravessou a noite passada. Mas subsiste uma certa dúvida a tal respeito. Bem vê – continuou o conde – este território foi disputado, durante séculos, pelos valáquios, os saxões e os turcos. Não há uma polegada de chão que não tenha sido fertilizada pelo sangue desses homens, patriotas ou invasores. Foi uma época apaixonante. Os austríacos e os húngaros avançavam contra nós, em hordas selvagens. E os nossos compatriotas – homens, mulheres, crianças e velhos – erguiam-se todos contra eles. Iam esperá-los no alto dos rochedos, de onde faziam chover sobre os inimigos avalanches artificiais de pedras e de rochas. Se os atacantes conseguiam abrir caminho, nada encontravam no país cujos habitantes haviam enterrado profundamente tudo quanto possuíam.

- Mas – perguntei eu – como é possível que tais tesouros tenham permanecido tanto tempo escondidos na terra, quando as pequenas chamas indicam a sua posição a quem passa e se dê ao trabalho de as observar?

O conde sorriu, mostrando uma vez mais as gengivas e os dentes aguçados e estranhos.

- Porque quem passa é poltrão e tolo. Essas chamas apenas ardem uma vez por ano, e nessa noite nenhum homem deste país ousaria arriscar-se a andar por aí, a não ser obrigado. E, caro senhor, mesmo que se arriscasse a sair de casa, essa temeridade de nada lhe serviria, pois seria incapaz de encontrar as pequenas chamas apesar dos pontos de referência que deixasse junto delas. O senhor mesmo não reconheceria os pontos onde viu os pequenos clarões.

- É certo – confessei. – Sem dúvida que os não encontraria.

O conde parecia ter pressa de mudar de assunto.


Bela Lugosi


- E se me falasse um pouco de Londres – disse ele, suavemente – e da casa que compraram para mim?

Pedi-lhe para me desculpar por momentos e sai para ir buscar, a uma das minhas malas, a cópia da escritura de venda. Enquanto punha em ordem os meus papéis, ouvi um tilintar de porcelanas e de pratas, na sala, e quando voltei vi que já haviam levantado a mesa. Uma lâmpada iluminava a biblioteca, pois caía a noite. O conde, estendido sobre um sofá, lia o Guia Inglês de Bradshaw. Assim que me viu, levantou-se para examinar comigo os planos da casa. Fez-me numerosas perguntas sobre a localização e os arredores. Pareceu-me evidente que se havia documentado muito sobre este último ponto, pois sabia muito mais do que eu. Como eu lhe fizesse notar isso, respondeu:

- Não lhe parece que isso me é necessário? Vou encontrar-me só, por lá, e o meu caro Harker Jonathan – desculpe, nós temos o hábito de colocar o apelido antes do nome – não estará a meu lado para me dar a sua preciosa ajuda. Estará em Exeter, a várias milhas de distância, ocupado a tratar de outros negócios com o meu amigo Peter Hawkins. Portanto…

Mergulhámos nos pormenores relativos à propriedade de Purfleet, que ele ia comprar; o conde assinou os papéis necessários, e escreveu uma carta destinada a Hawkins. Depois perguntou-me de que maneira eu tinha encontrado uma propriedade tão agradável. Li-lhe os apontamentos que eu tinha tomado durante a prospecção, e copio-os aqui.

«Em Purfleet, seguindo um caminho transversal, chego diante de uma propriedade que me parece corresponder a todas as condições exigidas pelo nosso cliente. Um velho cartaz indica que a propriedade está à venda. Encontra-se rodeada por velhos muros, muito altos, construídos com grandes pedras, e que há decerto um bom número de anos não têm sido reparados. As portas são de carvalho maciço, e as grades de ferro cobertas de ferrugem.

«A propriedade chama-se Carfax. Este nome é sem dúvida uma alteração da antiga denominação de Quatro Faces, justificada pela exposição dos quatro lados da propriedade aos quatro pontos cardeais. A superfície de conjunto é de cerca de vinte acres. Todo o domínio está cercado por muros. As árvores abundam, e escurecem-no em vários pontos. Há um pequeno lago, alimentado por uma fonte; a água, muito clara, vai deslizar um pouco mais longe, num riacho. O edifício deve datar da Idade Média. As raras janelas são muito altas, e fechadas por grossos varões de ferro. Talvez tivesse sido, noutros tempos, um fortim ao qual estava ligada uma capela. Não tenho a chave que me permitiria entrar nesse anexo da propriedade. Mas fiz várias fotografias dos locais. A parte ainda habitável, actualmente, parece ter sido construída mais tarde, num ponto solitário. Existem apenas algumas casas nos arredores. Uma delas, a mais recente, foi transformada em asilo de alienados. O asilo não é visível do domínio de Carfax».






Quando terminei a leitura, o conde declarou:

- Estou encantado por se tratar de uma casa antiga. Pertenço a uma família muito antiga, e a necessidade de viver numa casa nova deixar-me-ia doente. Alegra-me muito, também, que haja uma capela nas dependências. Nós, que pertencemos à velha nobreza da Transilvânia, sentir-nos-íamos humilhados pensando que os nossos ossos poderiam ser um dia misturados com os do comum dos mortais. Tenho de pensar nisso, porque já não sou novo; não procuro a alegria, e já não sinto a voluptuosidade que inspira aos novos o murmurar de uma fonte. Passei muitos anos a chorar os meus mortos, e o meu coração esqueceu o prazer. As muralhas do meu castelo estão em ruínas, e o vento geme atravessando as seteiras e as janelas. Gosto desta atmosfera e não detesto a solidão, com os meus pensamentos, no meio das sombras.

Estas últimas palavras pareciam não se harmonizar com a expressão da sua cara; o seu sorriso tinha qualquer coisa de hostil e malévolo.

Depois de me ter pedido para lhe entregar os documentos que trouxera, deixou-me. E, como ele não voltasse, comecei a observar os livros que guarneciam o compartimento. Notei um atlas, que ficara aberto num mapa da Inglaterra. Esse mapa parecia ter sido consultado muitas vezes. Olhando-o com mais atenção, vi que estava marcado com pequenos círculos, um dos quais indicava a localização da nova propriedade do conde, a leste de Londres. Dois outros círculos rodeavam a cidade de Exeter e a de Whitby, na costa do Yorkshire.

Tinha decorrido uma larga hora quando o conde regressou.

- Oh! – exclamou ele. – Ainda mergulhado na leitura? Muito bem, mas é preciso não se matar com trabalho. Creio que a sua ceia está pronta…

Tomou-me pelo braço e entrámos na sala vizinha, onde descobri uma apetitosa refeição, já preparada. O conde voltou a desculpar-se, dizendo que jantara durante a minha ausência, e tal como fizera na véspera, sentou-se à mesa e pôs-se a conversar comigo enquanto eu fazia as honras à ceia. Quando acabei, fumei um charuto e as horas deslizaram rapidamente. Devia ser muito tarde, mas eu não ousava chamar a atenção do meu hospedeiro, com receio de lhe desagradar. Fosse como fosse, não tinha sono, pois descansara bastante na noite anterior. No entanto estremeci ligeiramente, como pode acontecer a qualquer um à aproximação da alvorada (ouvi dizer que, frequentemente, os moribundos exalam o seu derradeiro suspiro de madrugada, ou à hora em que muda a maré). De repente, ouvimos cantar um galo, no ar da manhã. O conde Drácula levantou-se bruscamente, admirado:

- Como? Já vem a aurora, novamente? Creia que estou desolado por tê-lo demorado até tão tarde. É preciso que não torne tão interessante a sua conversação, quando me fala de Inglaterra. Se der às suas palavras um tom menos apaixonante, não esquecerei que o tempo voa.






Então, depois de se ter inclinado, saiu rapidamente e deixou-me só.

Regressei ao meu quarto e corri as cortinas. A minha janela dá para o pátio, e vejo o céu iluminar-se pouco a pouco.

8 de Maio. – Quando comecei este diário, receei ter-me alongado demasiadamente. Mas agora sinto-me feliz por ter, desde o princípio da minha instalação no castelo, mencionado uma série de pormenores, pois tudo o que vejo aqui, e tudo o que aqui se passa, é estranho. Reconheço que me sinto pouco à vontade. Gostaria de poder ir-me embora e sair daqui são e salvo. Mas é possível que as noites de vela tenham agido sobre os meus nervos. Se, ao menos, tivesse alguém com quem desabafar! Mas estou só. Além do conde, não há vivalma no castelo. Para me tranquilizar, vou tentar expor os factos tal como se vão desenrolando. Talvez que assim possa impedir a minha imaginação de mergulhar na extravagância. Se não o conseguir, estou perdido. Vou portanto recapitular os incidentes da noite passada, tal como julgo tê-los vivido.

Tinha-me deitado e dormira durante várias horas. Quando acordei, compreendi que não poderia voltar a conciliar o sono, e levantei-me. Eu tinha suspendido o espelho do meu estojo no fecho da janela, e começara a barbear-me quando senti uns dedos tocaram-me num ombro. Reconheci a voz do conde, que me dava os bons-dias, e fiquei admirado por não o ter visto aproximar-se, pois podia, no meu pequeno espelho, avistar todo o quarto e cortei-me de leve, na cara. De momento não notei isso. Depois de ter correspondido aos «bons-dias» do conde, olhei de novo o espelho e tentei compreender como tinha sido possível não o ver chegar. O que é certo, no entanto, é que ele se encontrava muito perto de mim. Bastava-me voltar imperceptivelmente a cabeça, para verificar isso, mas a sua imagem não se reflectira no espelho. Pareceu-me surpreendente, e esse facto veio acrescentar-se a uma multidão de outras coisas misteriosas, acentuando ainda a impressão de mal-estar que eu sentia sempre que me encontrava na presença do conde. Foi então que notei o pequeno corte que tinha feito na cara. Pousei a navalha de barba sobre a pequena mesa, e procurei algodão para estancar o sangue. No mesmo instante os olhos do conde brilharam numa espécie de furor demoníaco, e inesperadamente tentou agarrar-me pelo pescoço. Dei um passo para trás, e a sua mão tocou na pequena corrente da qual estava suspensa a cruz. No mesmo momento operou-se nele uma súbita transformação; a sua cólera dissipou-se com espantosa rapidez, de tal maneira que eu nem ousava acreditar que o vira em tal estado um segundo antes.

- Tenha cuidado – disse-me ele – tenha cuidado quando se ferir. Neste país é muito mais perigoso do que pode julgar.









Pegou no meu pequeno espelho e acrescentou:

- Foi este objecto de desgraça, a causa de tudo. Mais um estúpido brinquedo da vaidade humana… É preciso não o guardar.

Abriu a janela e atirou o espelho para o pátio, onde se quebrou nas lajes. Depois saiu, sem acrescentar uma palavra. Era tanto mais vexatório quanto eu perguntava a mim mesmo como poderia barbear-me, a não ser que utilizasse a tampa do meu relógio, ou a cobertura metálica da taça de barbear.

Nessa manhã, tomei o meu pequeno-almoço durante a ausência do conde. Ainda não o vi comer ou beber. É um homem verdadeiramente singular! Depois da refeição, saí para dar uma volta pelo castelo. Havia uma janela aberta, na escada do lado sul. A vista era magnífica e abarcava uma paisagem maravilhosa. O castelo está construído à beira de um pavoroso precipício. Tenho a certeza de que, se tivesse atirado uma pedra para o abismo, ela não encontraria qualquer obstáculo numa profundidade de mais de mil pés. Até perder de vista, distingue-se um mar de montes verdejantes, por vezes cortados por um desfiladeiro. Aqui e além, fitas prateadas correm entre a espessura verde, ribeiros que deslizam através da floresta e se precipitam nas fundas gargantas.

Mas não tenho coragem para descrever estas belezas naturais; depois de ter admirado a paisagem, continuei a minha inspecção do castelo. Portas e mais portas, por toda a parte surgem portas e todas estão fechadas, com chave ou com ferrolho. Deve ser impossível sair daqui, a não ser que passe pelas janelas que se abrem no alto das muralhas.

O castelo é uma verdadeira prisão, e eu sou um prisioneiro! (in ob. cit., pp. 33-42).



Continua


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Drácula (i)

Escrito por Bram Stoker





Vlad Tepes


«A Golden Dawn, fundada em 1887, era procedente da Sociedade da Rosa-Cruz inglesa, criada vinte anos antes por Robert Wentworth Little, e que angariava partidários entre os mestres mações. Esta última sociedade compreendia 144 membros, entre os quais Bulwer-Lytton, autor de Os Últimos Dias de Pompeia.

(…) Arthur Machen tomara o nome de Filus Aquarti. Havia uma mulher filiada na Golden Dawn: Florence Farr, directora de teatro e amiga íntima de Bernard Shaw. Ali se encontravam também os escritores Blackwood, Stoker, o autor de Drácula, e Sax Rohmer, assim como Peck, o astrónomo real da Escócia, o célebre engenheiro Allan Bennett e sir Gerald Kelly, presidente da Real Academia. Segundo parece, esses espíritos de elite foram marcados de forma indelével pela Golden Dawn
. Como eles próprios confessaram, a visão que tinham do mundo foi alterada e as práticas às quais se entregaram não deixaram de lhes parecer eficazes e exaltantes».


Louis Pauwels e Jacques Bergier («O Despertar dos Mágicos»).



«Os homens fixam as noções que lhes foram ensinadas… e não querem afastar-se delas. Esse é o defeito da ciência. Você não acredita, por exemplo, na reencarnação, nem na materialização dos espíritos? Nem na transmissão de pensamento?».


Van Helsing




Introdução

Draculea é a designação romena referente a uma figura histórica do século XV, mais particularmente a Vlad III, um poderoso voivoda ou príncipe da Valáquia, também conhecido por Vlad Tepes (Tsepesh), “O Empalador”. Ora, essa designação significa “filho do dragão” (drac, em romeno), ou filho de Vlad Drakul, que pertencera à Ordem do Dragão (Societas Draconistrarum, em latim), fundada, em 1431, pelo Sacro Imperador Romano Sigismundo (rei da Hungria). De resto, Drakul também pode significar, na língua romena, "demónio" ou "vampiro".

Consta que Vlad III ainda figura na qualidade de herói popular na Roménia e na Moldávia, quanto mais não seja por ter conduzido uma política de independência perante o avanço do Império Otomano na Europa. Além disso, ergueu grandes mosteiros, não obstante a ferocidade usada contra o inimigo turco, que mandaria empalar ou enterrar até meio corpo para, por fim, esmagar-lhe a cabeça, quando não mesmo tirar partido de outras práticas de crueldade inusitada, a que nem os seus conterrâneos escapariam.

Enquanto símbolo do Astral, o Dragão foi, desde a Antiguidade, celebrado nas montanhas dos Cárpatos e na vizinha e lúgubre Transilvânia. De facto, esta «morada de eleição» também ficou conhecida como a «Terra do Dragão», mais particularmente localizada na Bessarábia, a este da embocadura do Danúbio. Aliás, já Heródoto a tivera na conta de um lugar habitado por mágicos e feiticeiros capazes de se transformarem nos mais estranhos e pitorescos animais.






Digno de nota é, pois, o devido folclore em que ocorrem expressões como ordog, pokol ou sregocia, que significam, respectivamente, Satã, inferno e bruxa. Por sua vez, vrolok, em eslovaco, e vlkoslak, em sérvio, constituem expressões que significam, aproximadamente, lobisomem e vampiro. Seja como for, o símbolo do Dragão não fora um atributo exclusivo dessa região, posto que, ainda antes da chegada dos Ários, transitara do Mediterrâneo ao vale do Ganges, na Índia.

Há, decerto, quem veja uma correspondência simbólica entre o Dragãoa pedra filosofal, que também pode, por seu turno, simbolizar a quintessência do Astral. E daí a relação estabelecida entre o Drácula de Bram Stocker e Saint-Germain (1), ambos «condes ou príncipes da Transilvânia», além de companheiros da já mencionada Ordem do Dragão. Enfim, trata-se de uma relação em que a ficção se mescla com elementos susceptíveis de aturada indagação histórico-filosófica.

Por outro lado, tudo parece indicar que Bram Stoker, na qualidade de membro da Golden Dawn, encontrara nessa sociedade de iniciação neopagã, fundada em 1887, a fonte de inspiração necessária para redigir a sua obra-prima. De facto, vários são os elementos esotéricos que larga e profundamente impregnam essa obra, como por exemplo:

1. O sangue como manifestação do princípio vital da alma individuada, tal como, aliás, transparece no Fausto de Goethe;

2. A não-reflexão do conde Drácula no espelho, tão brutalmente repudiada pelo próprio: «Foi este objecto de desgraça a causa de tudo. Mais um estúpido brinquedo da vaidade humana… É preciso não o guardar». (Ora, curiosamente, Fernando Pessoa, ainda que num outro contexto, diria por sua vez: «O criador do espelho envenenou a alma humana»);






3. A total incapacidade de amar do conde Drácula, assacada por uma das três sombras imateriais em termos lapidares: «Você nunca amou! Nunca ama!».

Depois, há um outro episódio que, embora precedendo a cena do espelho, convém ter igualmente presente: é quando Jonathan Harker, percorrendo numa caleça a estranha quão ameaçadora escuridão que o levará ao castelo do seu anfitrião, supõe, no momento em que o cocheiro se apeia em direcção a uma chama azul, ser joguete de uma ilusão de óptica. Ou seja: o cocheiro, não obstante permanecer entre a chama e Jonathan Harker, permanecera «translúcido».

Quanto ao amor, é não menos curiosa a resposta de Drácula perante o riso cruel e maquinal vindo de três sombras em forma lunar ou feminina: «Sim, eu também posso amar. E vocês sabem isso. É preciso recordar-lhes o passado?»

De resto, para Jonatham Harker, quase tudo se passaria por entre pálpebras semicerradas, ou na forma de um estado hipnótico de sonho ou pesadelo invulgar. Aliás, não fora por acaso que Bram Stoker, reportando-se ao «País Médio», fizera questão de, por esse modo simbólico, assinalar parte do caminho percorrido por Harker em direcção ao castelo de seu misterioso anfitrião, e por onde a caleça «dava a impressão de sobrevoar o terreno, tal era a velocidade com que seguia».






Entretanto, perante o que define e caracteriza um vampiro, fiquemos então com um dos trechos mais significativos do romance epistolar de Bram Stoker:


«DIÁRIO DE MINA HARKER


30 de Setembro. – Depois de jantar, reunimo-nos todos no gabinete do Dr. Seward. O professor [Van Helsing] fez-me sentar à sua direita e pediu-me para lhe servir de secretária. Depois falou:

- Meus caros amigos, creio chegado o momento de lhes explicar contra que espécie de adversário temos de combater. Depois, estarão em melhores condições de tomar as suas posições de combate. Vamos enfrentar um vampiro, como sabem. Que os vampiros existem, é um facto inegável. Mesmo que não tivéssemos tido o doloroso exemplo dos últimos dias, encontraríamos provas no passado. Se eu me tivesse mostrado menos incrédulo desde o princípio, se eu tivesse sabido o que hoje sei, talvez a nossa pobre Lucy estivesse ainda viva, neste momento. Pois que é demasiado tarde, temos de nos esforçar, pelo menos, por evitar novos dramas. Saibam que “nosferatu” não morre depois de ter mordido a sua vítima, como a abelha que fere e deixa o seu ferrão na ferida. Depois de ter sugado a sua presa, o vampiro torna-se mais vigoroso. Aquele a quem temos de combater possui a força de vinte homens. Por muito curioso que possa parecer, apoia-se sobre a necromancia que é, como se sabe, a arte de predizer o futuro evocando os mortos. Estes, se ele se aproxima, estão à sua mercê e obedecem-lhe. É uma verdadeira fera, é um demónio sem coração nem piedade. Pode por vezes dominar os elementos e tem um poder irresistível sobre os animais, tais como o rato, o mocho, o morcego e o lobo. É capaz de aumentar ou diminuir de tamanho, à vontade, e pode desaparecer diante dos nossos olhos, como se não existisse. Como iremos encurralá-lo e, quando chegarmos a esse ponto, como o destruiremos? Esse é o problema. É uma tarefa difícil, e pode ser uma luta cruel. Eu sou velho, e o perigo de um fim trágico não me assusta. Mas os meus amigos são novos, já sofreram demasiado e merecem melhores dias. Ousarão medir-se com ele?







Todos nos apressámos a responder afirmativamente, e fizemos uma espécie de pacto que selámos apertando-nos as mãos. Depois de ter colocado o seu pequeno crucifixo sobre a mesa, o professor continuou:

- Não nos faltam os meios de defesa. Temos por nós a vantagem do número, visto que o vampiro é sempre só. Temos também o apoio da ciência. E, qualquer que possa ser ainda a nossa incredulidade, temos de nos referir igualmente às tradições e às superstições. Não é por superstição que os homens acreditam nos vampiros? Qual de entre nós, neste século céptico e materialista, teria admitido a existência de vampiros, há menos de um ano? E todavia, desde que o homem existe, o vampiro manifestou sempre a sua presença. Viram-no na antiga Grécia, na antiga Roma, mostrou-se na Alemanha, na França, nas Índias, na China e mesmo entre algumas das quatro penínsulas a que os gregos chamavam “khersonesos”, mormente a de Malaca. Por toda a parte foi temido. Acompanhava as hordas dos hunos, dos eslavos, dos saxões e dos magiares que invadiam o Ocidente. A sua vida prolonga-se durante tanto tempo quanto pode beber sangue humano, e quando bebe sangue jovem consegue mesmo rejuvenescer. Quando não encontra uma presa, não come; Jonathan verificou isso durante a sua estada no castelo Drácula. Mas o vampiro possui uma outra faculdade muito mais extraordinária, a de poder criar uma espécie de neblina à sua volta. Aparece então, à luz, transformado em partículas de poeira, o que permitiu a Jonathan distinguir as três mulheres, no castelo, e à infeliz Lucy deslizar como fumo pelos interstícios da porta do jazigo. O vampiro pode transformar-se em morcego e em lobo. Finalmente, vê na escuridão, o que não é um dos seus menores privilégios. Possui todos estes dons, e no entanto não pode tudo, tem de obedecer a certas leis. Quando entra numa casa, por exemplo, pode voltar quando quiser, mas é preciso que, da primeira vez, seja chamado. Todos os seus poderes cessam com a aurora, para só voltarem com a noite. Não pode deixar o lugar onde repousa, senão dentro de certos limites, a não ser que se transporte numa sepultura não abençoada, como a do suicida Whitby. Finalmente – e isto pode ser-nos útil para as nossas pesquisas – um ramo de roseira brava, ou de flores de alho, impedem-no de se deslocar. Uma bala disparada sobre ele, no seu caixão, transformá-lo-ia num morto definitivo. Se lhe cravarem uma arma no coração, alcança a paz eterna. Esta é-lhe igualmente concedida se lhe separarem a cabeça do tronco. Em conclusão, o que nós temos de fazer é obrigá-lo a ficar no seu caixão, para o destruir de vez. Como o conde é dotado de grande astúcia, pedi ao meu amigo Arminius, da Universidade de Budapeste, para me ajudar a conhecê-lo melhor, fornecendo-me algumas informações sobre os seus antecedentes. Foi sem dúvida um voivoda que ilustrou o nome de Drácula, batendo os turcos depois de atravessar o rio que constituía a fronteira do seu país. A propósito, os vampiros só podem atravessar a água na maré cheia. De qualquer modo, os Drácula deixaram atrás deles, durante séculos, uma reputação de guerreiros corajosos e inteligentes. Estas qualidades persistem, mas infelizmente o seu último descendente serve-se delas contra nós. Os Drácula – precisa Arminius – eram uma nobre raça, mas a acreditar em certas narrativas da época, alguns deles tinham relações com o diabo. O maligno ensinava-lhes os seus segredos, nas montanhas que dominam o lago de Hermanstadt. Um velho manuscrito, encontrado recentemente, refere-se a um Drácula como sendo um “wampyr”. Todos nós conhecemos demasiado bem a significação desta palavra. Mas nada impede que, se a raça produziu grandes homens, o monstro aproveite esta alta ascendência para se esconder atrás de tudo o que a recorda e permaneceu puro…» (in Drácula, Amigos do Livro, pp. 211-214).



Christopher Lee



O romance de Bram Stoker também acabou por ser adaptado ao teatro e ao cinema. Em 1922 surgiu o primeiro clássico do horror em filme (Nosferatu), do realizador expressionista alemão, Murnau. Depois, seguir-se-ia, com a aparição do sonoro, A Marca do Vampiro (1935), de Tod Browning, O Pesadelo de Drácula (1958), de Terence Fisher, e ainda, no mesmo ano, aquele que seria o primeiro de uma série de filmes de horror protagonizados por sir Christopher Lee, intitulado Drácula. De resto, um outro actor ficara igualmente ligado à personagem criada por Bram Stoker, como o italiano Bela Lugosi, a ponto de chegar a dormir num caixão para se meter na pele do monstro.

Por fim, outras produções cinematográficas viriam à baila, entre as quais Noite Horripilante (1985), Entrevista com o Vampiro (1994), com a participação de Brad Pitt, Tom Cruise e António Banderas, seguida, num registo mais marcial ou coreográfico, por uma trilogia que, baseada numa série de banda desenhada (Blade/Marvel Comics), contaria com o desempenho de Weslley Snipes no papel de Blade (1998, 2002 e 2004).

Enfim, posto isto, debrucemo-nos então sobre a personagem criada por Bram Stoker, de cujo romance passamos a transcrever os Capítulos II e III.


(1) Cf. Jean Robin, La Véritable Mission du Comte de Saint-Germain, Guy TRÉDANIEL Éditeur, Collection «Initiation et Pouvoir», 1986. Quanto a Saint-Germain, consta que teria confessado «ao seu último amigo, o príncipe Carlos de Hesse, que era filho do príncipe Rakoczy, da Transilvânia, e da sua primeira mulher, uma Tekely» (cf. António Monteiro, A Ordem Rosacruz, Publicações Europa-América, p. 84). O conde de Saint-Germain, envolvido em denso mistério, fora, de facto, uma personagem real do século XVIII que encantou a corte de Luís XV, os salões de Paris e a alta aristocracia personificada pelo «marechal de Belle-Isle, [o] marquês de Beringhen, de la Poulinière, bem como [por] damas, como a velha marquesa de Urfé (que possuía um laboratório de alquimia), Madame Gerzy, Madame Marchais, princesa de Montauban, etc. O próprio rei Luís XV dedicou-lhe profunda amizade e a sua célebre amante, Madame de Pompadour, incentivava as suas visitas» (in A. Monteiro, ob. cit., p. 86). No entanto, «é impossível seguir um rasto estritamente histórico desta personagem do século XVIII. Annie Besant sabia, na verdade, quem era Saint-Germain, e, de certa maneira, o conde foi sincero quando se referira à sua infância e à fuga pelas florestas, com a cabeça a prémio. Foi, de facto, uma das encarnações de Christian Rosenkreuz.







O Ego que encarnou nestas duas personagens tinha sido, anteriormente, Lázaro, o amigo de Jesus; mais tarde foi Francis Bacon e, hoje em dia, está encarnado num descendente de uma velha família principesca da Europa Central, que, curiosamente, se celebrizou na época de Saint-Germain e que vive nos seus domínios, com cerca de quarenta anos, tranquila e discretamente.

E agora, ainda a propósito de Sir Francis Bacon, morto em 1626 e cujo corpo foi misteriosamente substituído por uma boneca de chumbo, conforme se verificou, mais tarde, ao abrir-se o túmulo: terá sido este filósofo o verdadeiro autor das famosas obras de teatro atribuídas a William Shakespeare, ele próprio Irmão Leigo da Ordem Rosacruz e seu amigo íntimo. Segundo Roger Facon, nos princípios deste século, o coronel Fabian, chefe dos serviços criptográficos do exército americano, bem como o general Cartier, seu homólogo francês, teriam decifrado, em textos de Shakespeare, as seguintes revelações de Bacon:

"Ainda que cercado, ameaçado, espiado, escrevi esta história completamente cifrada, plenamente convencido, em minha alma e consciência, de que o mundo inteiro quererá saber a verdade. O meu principal objectivo é escrever a história secreta da minha própria vida, simultaneamente com uma história verídica da época".

Mais adiante:

"Algumas obras já publicadas, e de que sou o autor, trazem o nome de William Shakespeare; como já produzi um certo número de peças para o seu teatro, continuarei a fazê-lo, pois que ele actua como se fosse escravo da minha vontade. O meu nome não acompanha nenhuma das peças, mas muitas vezes aparece em cifra, que espíritos hábeis traduzirão"» (in ob. cit., pp. 88-89).

Miguel Bruno Duarte




Drácula


DIÁRIO DE JONATHAN HARKER

5 de Maio


Creio que adormeci, pois sem isso como poderia deixar de ficar impressionado com o admirável aspecto deste castelo? De noite, o pátio parecera-me de grandes dimensões. De cada lado, diversas passagens conduziam para arcos imensos, e eram provavelmente essas arcadas que davam, ao conjunto, uma grandeza majestosa. Durante todo o dia não tive ocasião para voltar a ver o pátio.

Quando a caleça parou, o cocheiro ajudou-me a descer, e de novo senti a sua força prodigiosa. A sua mão era como uma tenaz de aço, e se tivesse querido, esmagar-me-ia o braço com a maior das facilidades. Pegou nas minhas bagagens, pousou-as a meu lado e voltou a subir para o seu lugar. Os cavalos partiram imediatamente e a caleça desapareceu sob um dos arcos que a escuridão parcialmente envolvia. Encontrei-me diante de uma porta muito antiga, com grossos pregos de ferro. Notei confusamente que o enquadramento da porta era de pedra maciça, esculpida mas muito gasta pelo tempo e pelas intempéries.

Bela Lugosi

Fiquei um tanto indeciso, perguntando a mim mesmo o que devia fazer: não havia sineta nem aldraba com que pudesse avisar da minha presença. Poderia tentar gritar, mas era pouco verosímil que me ouvissem para além daquelas paredes espessas e das janelas dissimuladas na escuridão. Esperei, durante um tempo que me pareceu longo. Sentia-me novamente invadido por um receio inexplicável, que me mergulhava na angústia. Em que curioso caminho me havia metido, e diante de quem iria encontrar-me? Em que sinistra aventura me arriscara inconsideradamente? Decerto não era um incidente habitual na vida de um empregado de solicitador, que vinha para negociar, com um desconhecido, a compra de uma propriedade situada nos arredores de Londres. Empregado de solicitador! Mina não teria gostado disso. Solicitador, de facto. Algumas horas mais cedo havia sido informado do bom êxito do meu exame. Era, naquele momento, um verdadeiro solicitador! Esfreguei os olhos e belisquei um braço, para me convencer de que não estava a viver um pesadelo. Não seria a primeira vez que eu adormecia, ao cabo de um dia de trabalho intenso. Mas naquele momento estava bem acordado, e como sentia a dor dos beliscões, não podia haver enganos. Portanto, não havia dúvidas de que me encontrava nos Cárpatos. Tudo o que me restava era esperar o nascer do dia.

Encontrava-me neste ponto das minhas reflexões quando ouvi passos pesados que se aproximavam da porta, vindos do interior. Por uma fenda, avistei ao mesmo tempo um raio de luz. Ouvi ruído de correntes; uma chave girou com dificuldade na fechadura que, sem dúvida, não funcionava havia muito tempo. E a grande porta abriu-se.

Vi diante de mim um impressionante velho, de compridos bigodes brancos. Estava vestido de preto, dos pés à cabeça, sem a mais pequena nota de cor nas suas roupas. Segurava na mão uma lanterna de prata, na qual brilhava a luz que nenhum vidro protegia, e que oscilava, projectando em volta grandes sombras móveis. Com um gesto amável, o velho convidou-me a entrar e disse-me, num excelente inglês que todavia tinha estranhos acentos:

- Seja bem-vindo. Entre à vontade.

Não deu um só passo ao meu encontro e ficou hirto, imóvel como se o acolhimento que me dera o houvesse petrificado. Mas, assim que transpus o limiar, precipitou-se e tomou-me a mão, com tal força que quase me fez gritar de dor. Além disso, o contacto deu-me a impressão de ter tocado num pedaço de gelo. A mão dele parecia mais a de um morto do que a de uma criatura viva. Repetiu:

- Seja bem-vindo. Entre à vontade. E consinta em deixar em minha casa um pouco da felicidade que traz!







O aperto de mão, brutal, lembrou-me o do cocheiro cuja cara eu não tinha visto. Perguntei a mim mesmo se não estaria a falar com a mesma personagem. Para acabar com as dúvidas, disse bruscamente:

- O conde Drácula?

- Sim, sou Drácula e renovo os meus cumprimentos de boas-vindas, Harker. Entre, a noite está fria e deve ter necessidade de se restaurar.

Enquanto falava, pousou a lâmpada sobre uma base e foi buscar as minhas malas. Antes que eu tivesse tempo para me antecipar, trouxe-as para o corredor.

Tentei protestar, mas ele insistiu:

- Não, caro senhor. É meu convidado. É tarde, e todos os meus criados descansam. Vou conduzi-lo, pessoalmente, aos seus aposentos.

Quis absolutamente levar as minhas malas e subiu uma grande escada de caracol, tomando depois por um corredor ao fundo do qual abriu uma pesada porta. Senti-me imediatamente reconfortado por me encontrar numa sala acolhedora onde estava uma mesa posta. A lenha ardia na chaminé, alegrando a casa.

O conde parou, pousou as minhas malas no chão, fechou a porta e, atravessando a sala, abriu outra porta que comunicava com um pequeno quarto octogonal, iluminado por uma única lâmpada e sem qualquer janela. O conde abriu ainda outra porta e convidou-me a precedê-lo. Tive então uma agradável surpresa; encontrei-me num grande quarto de dormir, brilhantemente iluminado e aquecido, como a sala, por um fogo de lenha que decerto fora aceso pouco antes. Foi ainda o meu hospedeiro quem trouxe as minhas bagagens, dizendo-me, antes de fechar a porta:

- Depois de uma viagem tão fatigante deve ter necessidade de cuidar da sua “toilette”. Encontrará aqui tudo aquilo de que precisar. Quando estiver pronto, volte à outra sala onde a ceia estará preparada.






A luz, o calor, o cortês acolhimento do conde, formavam um conjunto muito agradável que rapidamente dissipou as minhas angústias. Eu tinha recuperado todo o meu sangue-frio, mas estava meio morto de fome. Assim, depois de uma “toilette”, voltei à sala onde estava a mesa posta.

Encontrei a refeição preparada. O meu hospedeiro, apoiado num ângulo da enorme chaminé, fez um gesto amável na direcção da mesa e disse-me:

- Queira sentar-se e cear, meu caro senhor. Desculpar-me-á por não compartilhar da sua refeição, mas tinha jantado pouco antes da sua chegada, e agora ser-me-ia difícil acompanhá-lo.

Entreguei-lhe a carta que Hawkins me encarregara de lhe levar. Abriu-a, leu-a pausadamente e, com um agradável sorriso, restituiu-ma para que eu a lesse por minha vez. Uma passagem da carta deu-me verdadeiro prazer:

Lamento vivamente que um ataque de gota – a doença que constantemente me martiriza – me prive do prazer de o visitar pessoalmente, mas tenho a sorte de poder fazer-me substituir por alguém que tem toda a minha confiança. É um jovem enérgico, sempre senhor das suas acções e que é a discrição personificada. Quase que cresceu no meu cartório. Está pronto a receber a suas instruções e a segui-las sempre que quiser dar-lhas.

O conde aproximou-se da mesa, e ele mesmo levantou a tampa de uma travessa. Tive então a ocasião de apreciar um excelente frango assado. A este prato de óptimo gosto vieram acrescentar-se um saboroso queijo, uma salada e uma garrafa de velho vinho de Tokay, do qual bebi apenas dois copos. Eis o resumo completo da minha primeira refeição no castelo. O conde fez-me diversas perguntas sobre a maneira como decorrera a minha viagem. Narrei-lhe em pormenor todos os incidentes que a haviam entretecido. E, quando acabei a minha narrativa, tinha acabado também a minha ceia.


O meu hospedeiro convidou-me a aproximar-me do lume e ofereceu-me um charuto, desculpando-se por ele próprio não fumar. A dizer a verdade, era aquela uma excelente ocasião para o observar. E, de entrada, achei que tinha uma expressão particularmente cruel.

Na sua cara notava-se, antes do mais, um nariz aquilino, de narinas bastante largas; a testa, alta e convexa, coroava-se por uma cabeleira que só era abundante em volta da cabeça, pois a parte da frente estava bastante desguarnecida. As sobrancelhas juntavam-se sobre o nariz e pareciam sobrepor-se, tão densas eram. A boca – ou o que eu podia ver dela, sob os compridos bigodes – tinham uma expressão quase brutal, descobria dentes invulgarmente brancos e agudos, que sobressaíam dos lábios. Estes eram de um vermelho vivo, o que indicava uma vitalidade extraordinária num homem de tal idade. As orelhas, sem cor, terminavam em bico; o queixo, voluntarioso, traduzia uma determinação e uma energia pouco comuns. Mas o que mais impressionava, na cara dele, era a extrema palidez.

Logo de princípio eu havia notado as mãos dele. Tinham-me parecido compridas e finas, quando as cruzara sobre os joelhos. Mas agora que as via de mais perto e não estavam iluminadas pelos reflexos do lume, pareciam-me espessas e grosseiras, com dedos curtos. Uma coisa me pareceu estranha: as palmas das mãos estavam cobertas de pêlos. Quanto às unhas, estavam cortadas em bico. Assim, quando o conde se debruçou para mim, não pude reprimir um breve estremecimento. No momento em que ele ia tocar-me, senti uma espécie de repulsa que me esforcei por disfarçar, mas que o meu hospedeiro notou. Recuou um passo, esboçando um sorriso que me pareceu de mau agoiro. O sorriso permitiu-me ver melhor os seus dentes salientes. Ele foi tranquilamente retomar o seu lugar no ângulo da chaminé. Ficámos calados. Olhei maquinalmente para a janela e vi surgir as primeiras claridades da aurora. Um estranho silêncio pesava sobre todas as coisas, mas prestando atenção pareceu-me distinguir ao longe os uivos dos lobos, que subiam das profundidades do vale. Os olhos do conde puseram-se a brilhar, enquanto ele comentava:


- Ouve-os? São os filhos da noite. Que música agradável! Suponho que ele leu alguma surpresa na minha expressão, porque acrescentou imediatamente:

- Ah, meu caro senhor! Um habitante das cidades nunca poderá compreender as reacções de um caçador.

Com estas palavras, levantou-se e mudou de assunto:

- Deve estar fatigado. O seu quarto está pronto e, amanhã, poderá dormir tanto tempo quanto quiser. Pelo que me diz respeito, serei obrigado a ausentar-me até ao princípio da tarde. Portanto, durma bem e tenha belos sonhos!

Depois, inclinando-se sempre tão cortesmente como quando da minha chegada, abriu a porta do pequeno quarto octogonal e afastou-se para me deixar passar. Entrei no meu quarto…

Eis-me mergulhado num oceano de dúvidas e receios. Sinto-me envolvido num turbilhão de impressões contraditórias. Nem sequer ouso confessar a mim próprio, abertamente, que tenho medo. Deus me defenda, ainda que não seja senão para não entristecer os que me são queridos (in ob. cit., pp. 27-33).














Continua