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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O "Xarajibe" de Silves (ii)

Escrito por Garcia Domingues




Castelo de Silves


As residências do Xarajibe ficariam no interior do castelo e prolongar-se-iam para oeste, ocupando a zona de uma moradia com amplos quintais, hoje aí existente. Ainda no século passado, como se pode provar por fotografias, havia uma comunicação bem saliente, entre o castelo e os edifícios a ocidente, agora desaparecida.

Também a volta em meia-lua de fachada ocidental do castelo nos parece indicar que alguma coisa aí havia de diferente que estabeleceria comunicação com outra zona fortificada. Não nos parece difícil admitir que dentro do castelo de Silves houvesse moradias. O castelo de Silves é hoje constituído por uma vasta cerca rodeada de torres e muralhas que terminam superiormente por um friso de ameias e seteiras intervaladas e conjugadas.

A cerca tem sobre si três metros de entulho, em profundidade, aí colocado depois do terramoto.

Apesar disso notam-se vestígios de edifícios. Além da cisterna mourisca, presentemente meio soterrada, há, logo à entrada, restos de outros torreões, à esquerda indícios de um edifício de dois andares, ao centro sinais de um enorme paredão que dividia o castelo em duas partes, e, ao fundo, duas salas soterradas a que impropriamente se chamou celeiros, silos ou masmorras e que comunicam entre si por uma elegante ogiva apontada.

E, abaixo desta camada de terreno, não existirão ainda vestígios de mais antigos edifícios?

Se o castelo de Silves tem dentro de si residências, não é impossível que essas residências constituíssem parte das moradias do Xarajibe. A parte principal do palácio, no que se refere a pátios e jardins ficaria para ocidente, rodeada por uma forte alcáçova. Nesta zona têm sido encontrados preciosos restos de cerâmica árabe.




A localização do Xarajibe, no castelo, embora ocupando maior extensão amuralhada, é o que nos parece mais natural, se bem que ainda problemático (8). Se isso se verificasse, o Xarajibe, afinal, existiria ainda hoje e, se bem que com muito menos fama, continuaria a constituir o orgulho da cidade, como no tempo de Al-Mu’tamid e de Al-Mu’tazz.

O castelo de Silves é visitado insistentemente por turistas portugueses e estrangeiros, como, há pouco, pelo Marechal Mannerheim que muito o admirou e dele quis levar perpétua recordação.

Desde quando existiu o Xarajibe e quem o fundou?

Não se fala do Xarajibe em tempos anteriores a Al-Mu’tamid. Al-Mu’tamid é o primeiro a empregar essa expressão na sua conhecida poesia. Isso não quer porém dizer que ele não existisse com anterioridade.

Se tivesse sido Al-Mu’tamid o seu construtor, a tradição não deixaria de o mencionar. O Xarajibe existia antes de Al-Mu’tamid. Na crónica anónima dos «Muluk At-tauaif», recentemente publicada por Lévi-Provençal, refere-se que o último príncipe dos Beni-Mozaine de Silves, foi assassinado «no seu palácio» (9). Este palácio, em nosso entender, não seria outro senão o «castelo» (alcácer), e, portanto, o futuro Xarajibe.

Esta designação de Xarajibe teria sido dada ao castelo pelo próprio Al-Mu’tamid cujo espírito poético se preocuparia, naturalmente, em criar para o castelo uma designação também poética.

Se o Xarajibe ficava no castelo, teremos para ele uma história muito remota que vai além da época romana. Todavia, o castelo árabe devia ter sido construção mais recente.



É muito natural que só tivesse surgido na época da guerra dos muladis, século X, quando no Algarve, os Iáhias se revoltaram contra Córdova e Becre Ibn Iáhia foi residir para Silves.

Sabe-se que este Becre instalou em Silves, além de tropas disciplinadas, uma Chancelaria e um Conselho de Estado. Por Al-Mu’tamid temos conhecimento de que o Xarajibe devia possuir um harém.

Ora o palácio árabe consta essencialmente de três partes: o harém, o mexuar e o divã. Mexuar e divã são palavras que tanto podem designar a instituição como o edifício em que se instala.

Ao instalar em Silves uma Chancelaria (mexuar) e um Conselho de Estado (divã), não teria Becre dessa forma dado início ao futuro palácio do Xarajibe acondicionando construções já existentes que depois seriam modificadas e ampliadas pelos Beni-Mozaine e pelos Abádidas?

É o que julgamos mais natural. Admitimos, portanto, que nas origens do Xarajibe esteja a dinastia dos Iáhias de Santa Maria do ocidente (Faro) e, sobretudo, aquele Becre Ibn Iáhia que deslocou a sua corte e a sua capital cultural para a cidade do rio Arade (Odarade ou Widrade, como lhe chamaram os autores cristãos).

Até quando existiu o Xarajibe?

Existia ainda no século XII, a quando da acidentada vida de Ibn Qasî. Depois, perde-se a memória do Xarajibe, mas é muito natural que tivesse persistido até à conquista portuguesa.

No que se refere às formas arquitectónicas do Xarajibe, nada se sabe, a não ser que, muito provavelmente, possuiria varandas de que lhe veio o nome e átrios e terraços, como se diz na descrição de Al-Mu’tazz.

Quanto à sua escultura decorativa, Dozy interpreta as expressões «leões» e «cavalos» que surgem, respectivamente, na poesia de Al-Mu’tamid e na evocação de seu filho, como estátuas de leões e de cavalos que existiriam no Xarajibe.

As estátuas não estão muito de acordo com as prescrições do Alcorão, mas, na verdade, apareceram noutros palácios como no Azáhra dos arredores de Córdova e na Alhambra de Granada.


Al-Zahra


Também o Xarajibe possuía estátuas?

É possível, mas não nos parece certo. Em abono desta tese encontra-se, porém, a autoridade do insigne arabista que foi Dozy.

Quais as cenas históricas que se passaram no interior do Xarajibe?

Admitindo que o Xarajibe se situasse no próprio castelo, sabemos que foi aí morto o último príncipe dos Beni-Moizane, depois de uma resistência heróica.

Al-Mu’ tamid e Ibn Ammar instalaram-se no Xarajibe e passaram a fazer aí a sua conhecida vida de poesia e de festas. Aí se devia ter verificado a cena de terrores referida por Almarracuxi (10).

Uma noite, Ibn Ammar dorme no mesmo quarto que Al-Mu’tamid. Altas horas sonha que Al-Mu’tamid se levanta contra ele e o quer matar. Ibn Ammar acorda e fica estupefacto com a nitidez do sonho. Torna a adormecer e tem o mesmo sonho, acordando, de novo, mais emocionado. À terceira vez, deixa-se sugestionar pela força persuasiva do sonho e, aterrado, foge.

De manhã, Al-Mu’tamid dá pela falta dele. Procura-o e manda procurá-lo, por toda a parte, no palácio.

Finalmente, Ibn Ammar é encontrado, escondido ao lado da porta de saída e tiritando de medo. Al-Mu’tamid pergunta-lhe o que se passou. Ibn Ammar explica-lho. Com todo o carinho, fraternal, Al-Mu’tamid leva-o, de novo para os seus aposentos, pretendendo convencê-lo de que tudo fora um sonho, sem valor. Nessa altura, mal sabiam que o sonho se havia de cumprir e que Ibn Ammar seria morto por Al-Mu’tamid num acesso de ira, deste.

Mais tarde, elevado Al-Mu’tamid ao trono de Sevilha, o Xarajibe seria habitado por Ibn Ammar e, depois, por Al-Mu’tazz.



D. Afonso Henriques



Passada a época dos abádidas e a dos almorávidas, vem para Silves, a de Ibn Qasî. Conforme o depoimento de Ibn Alabar, o Xarajibe foi então residência do Mahdi dos Múridas. Não se teria a cena da recepção à embaixada de Afonso Henriques desenrolado no interior do Xarajibe? De qualquer modo aí se passou a da morte do grande Mahdi.

Tratando-se do castelo, sabemos que resistiu com a maior bravura, em 1189, e com idêntica valentia, em 1191.

Se a «Crónica da conquista do Algarve» não fantasia demais, rendeu-se a D. Paio Pérez Correia, depois deste ter entrado na cidade, com as suas tropas, pela porta da Azóia.

Também a lenda tomou conta do Xarajibe e do castelo onde deve ter existido.

Ao castelo se atribui a lenda das amendoeiras. Um rei mouro teria mandado plantar amendoeiras nos montes à volta, para dar a sua esposa, uma cristã do norte, a impressão da neve a que se havia acostumado e sem a qual vivia em nostalgia intensa.

Desaparecidos os mouros de Silves, ficou aí outra lenda, símbolo de saudade e de tragédia, a lenda da moura que surge na cisterna do castelo, na noite de São João, à meia-noite, numa barquinha de oiro com remos de prata, entoando hinos dolentes da sua raça banida.

Será a moura do castelo uma última recordação do Xarajibe?

Mas o próprio Xarajibe tinha consigo, possivelmente, uma lenda incomparavelmente mais bela, mais sedutora e apaixonante. No parecer de Dozy, que interpreta à letra as palavras de Al-Mu’tazz, existiam no Xarajibe amuletos ou talismãs cuja presença constituía a segurança e a riqueza do palácio e cujo afastamento significaria a sua ruína e perdição.

Os talismãs do Xarajibe colocam-nos em pleno mundo oriental e medieval das «Mil e uma noites». Uns pequenos objectos, talvez estatuetas de antigos deuses, talvez jóias preciosas, talvez coisas de significação cabalística, gozavam desse poder estranho de fazer a grandeza e a glória do palácio e da dinastia que o habitasse.

Se assim foi, por que motivo e quem teria retirado do Xarajibe esses talismãs para que ele se houvesse afundado e desaparecido na voragem dos tempos?

E por onde andarão esses talismãs que não são procurados e ajuntados para que o Xarajibe possa ressurgir no máximo da sua grandeza e do seu brilhantismo?

Pelos seus talismãs o Xarajibe se integra na mentalidade mágica dos árabes e confirma a impressão de mistério e de magia que o castelo, onde devia ter existido, comunica a quem o admira sobretudo de oriente nos magníficos poentes de sangue, fogo e oiro.

Quem hoje, do Monte da Jóia, em frente da cidade, contempla o castelo de Silves, com as suas torres altas e muralhas vermelhas, as suas ameias, adarves e seteiras, em recortes heráldicos, os seus terraços e varandins que descansam sobre torres ligadas aos panos dos muros por arcos gigantescos, não duvida de que nos seus interiores possa ter havido elegantes residências principescas, capazes de entusiasmar e de dar vida e colorido à existência juvenil de um príncipe poeta luso-árabe do século XI, com o refinamento de espírito dum humanista do renascimento e a elevação sentimental dum romântico de nobre quilate.



Ibn Arabi



Como não duvidará de que tenha sido o forte alcácer em que viveu o grande Mahdi dos Múridas que depois de ter prometido a salvação universal pelo Islão, do Cabo do Algarve aos campos de Almeria e de Sevilha, aí pereceu num lago de púrpura, por haver firmado solene e firme pacto de aliança com o rei cristão Ibn Errick, legando no entanto, à posteridade, o maior tratado de filosofia e de teologia mística e ascética muçulmanas, concebido e redigido por homens do Garbe, tão notável que Ibn Arabi, o mais profundo e subtil pensador religioso do islamismo o estudaria em Tunes, anos passados, como uma das suas fontes mais apreciadas (in ob. cit., pp. 46-50).


Notas:

(8) Para a solução definitiva do problema seria interessante o conhecimento da carta em que Mohamede Ibn Abdelar descreve a tomada de Silves por Al-Mu’tamid. Essa carta deve figurar na edição completa do «Calaíde Al-Iquiane», de Ibn Cacane e na «Cosmografia» de Casuíni.

(9) Lévi-Provençal publicu a tradução francesa em apêndice à última edição da «Histoire des Mussulmans d’Espagne», de Dozy.

(10) O texto árabe da «História dos Almóhadas» de Abdalhuaíde Almarracuxi foi publicado por Dozy, em 1881, em Leyde e a sua tradução francesa, por E. Fagnan, em 1893, na cidade de Argel.


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O "Xarajibe" de Silves (i)

Escrito por Garcia Domingues




Silves


O palácio do Xarajibe, de Silves, foi no Ocidente, uma autêntica visão das «Mil e uma noites».

Cantaram-no os poetas com o mais alto requinte, adornaram-no os artistas com obras de estranho lavor, celebraram-no os historiadores, como encantadora residência principesca.

Dessa harmonia chegam até nós os ecos apagados, num suave murmúrio… E o Xarajibe esplende, de novo, rebrilhando em vivos fulgores.

Ficaram célebres as suas noites de festa e música, de poesia e dança, de encantamento sem par; as suas tardes suaves e mornas, de doces afagos, de reflexos violetas e de branda penumbra; os seus dias claros e ardentes de tragédia e de luta em que os pátios e os mosaicos das salas se tingiram do sangue da vingança e do crime; as suas madrugadas de terrores, de suspeitas e de alucinações; as suas manhãs de iluminura aureoladas pela esperança de novas e felizes alianças; as suas horas de fogo e de guerra em que tudo se joga e tudo se ganha ou perde.

Evocar o Xarajibe é evocar uma época, um estilo de vida – a época e o estilo de vida dos luso-árabes.

Um dia, era ainda rapaz, encontrando-me com um sacerdote que, durante longos anos, havia vivido e estudado no Oriente, na Síria, ele me perguntou:

– Donde és?

– De Silves – respondi.

Brilharam-lhe nos olhos rápidos lampejos de surpresa, de emoção e de alegria.

– De Silves? – disse –. És da terra do Xarajibe!

E imediatamente, como se mola estranha o movesse, me chamou para junto de si e me comunicou:

«A tua terra tem uma linda história do tempo dos Árabes. Nela se passaram coisas extraordinárias; o palácio do Xarajibe que aí existiu, encerra misterioso sortilégio.

Procura-me porque te quero contar a história da tua terra».

Fiquei surpreendido e meio atónito, perante as palavras do venerando ancião. Nada ou pouco então sabia dessa história, mas compreendi que no seu espírito pairava uma estrela e que essa estrela se chamava Xarajibe.

Passaram-se os anos. O digno e culto sacerdote foi envelhecendo. Nunca tive ocasião de o ir ouvir. Um dia, chegou-me a notícia da sua morte. Além do pesar, foi como se um pano de ferro tivesse corrido sobre esse pequeno mundo.



Que enorme tesouro de cultura sobre Silves e o Xarajibe não teria recolhido esse notável sacerdote nos seus infatigáveis estudos de língua árabe, de literatura e de história, prosseguidos anos e anos, nos melhores centros culturais do Oriente, como Beirute, Damasco e Jerusalém?

Com a sua morte desapareceram, talvez, segredos, agora, na prática, indesvendáveis. Contentemo-nos, sobre o Xarajibe, com o pouco que sabemos. Esse pouco chega, no entanto, para nos dar uma imagem esplendorosa do magnífico palácio, mais ainda enaltecido pelo prestígio da poesia e da lenda.

A mais antiga referência que temos ao Xarajibe parece-nos ser a que se encontra na poesia de saudação a Silves, de Al-Mu’tamid, dirigida a Ibn Ammar.

Al-Mu’tamamid e Ibn Ammar tinham passado a sua juventude em Silves, numa existência que se distribuía entre os prazeres espirituais da poesia, da música e do estudo, os do harém e os da caça.

Subindo ao trono de Sevilha por morte de seu pai, Al-Mu’tadid, Al-Mu’tamid dá a escolher ao seu incomparável amigo, Ibn Ammar, o lugar do reino que pretende.

Ibn Ammar escolhe o valiato do Algarve, com a capital em Silves e parte para esta cidade onde faria entrada solene, com uma pompa que os historiadores árabes classificam de «verdadeiramente real».

É por essa altura que Al’Mutamid lhe dirige a poesia em que surge a mais antiga referência ao Xarajibe:



Eia! Saúda os meus lares, em Silves, ó Abu Becre
E pergunta-lhes se conservam memória de mim, como penso.
Saúda o Palácio do Xarajibe da parte dum donzel
Que perpetuamente suspira por esse palácio.
Morada de leões e de brancas gazelas
que ora parece um covil, ora um gineceu!
Quantas noites não passei, à sua sombra, divertindo-me
com mulheres de largas ancas e cintura delicada,
brancas e morenas que faziam na minha alma
o efeito de espadas refulgentes e de lanças escuras!
E a noite, deliciosamente passada, junto do açude do rio
Com a donzela cuja pulseira semelhava a curva da corrente…
Ela continuamente me embriagava, ora com o vinho dos seus olhares,
Ora com o da sua taça, ora com o dos seus lábios.
As cordas do seu alaúde, feridas pelo plectro, faziam-me estremecer
Como se ouvisse melodias de espadas nos tendões do colo inimigo.
Ao deixar cair o manto, descobria seu corpo, ramo de salgueiro
Brilhante, como quando do botão surge a flor!



Al-Mu'tamid



Esta poesia que ficou célebre na literatura hispano-árabe, não só pela forma, como pela delicadeza de inspiração e pela beleza de imagens, foi-nos conservada pelo historiador Ibn Cacane no seu «Calaíde Al-Iquiane» (Colares de Oiro), no capítulo dedicado a Al-Mu’tamid (1).

Existem dela numerosas traduções em latim, em francês e em espanhol e também, versões portuguesas dessas traduções (2).

Apresentamos aqui uma tradução portuguesa – supomos que a primeira – que tem apenas o mérito de se aproximar o mais possível do texto árabe.

Até há tempos, esta poesia era o único trecho poético em que se falava do Xarajibe. Foi a partir dela, sobretudo, que se começou a formar a concepção do que seria realmente esse palácio.

Tivemos a oportunidade de encontrar, lendo os «Scriptorum Arabum Loci de Abbadidis» de Dozy, uma verdadeira e completa descrição do Xarajibe que seria muito mais importante se fosse objectiva e não tão poética, mas que mesmo assim encerra incontestável valor.

Devemo-la igualmente ao historiador Ibn Cacane que relata o que lhe contou Al-Mu’tazz, no capítulo dedicado ao príncipe Arradi.

Mas, quem era este Al-Mu’tazz? Al-Mu’tazz era, como Arradi, um filho de Al-Mu’tamid. Em dado momento foi nomeado vali de Silves para onde partiu. Governou Silves a contento não só da classe elevada como da gente do povo. Finalmente regressou a Sevilha e o pai premiou com as maiores honras a excelência do seu governo

Desejando Ibn Cacane fazer a biografia de seu irmão Arradi que tanto brilhou pela cultura enciclopédica e pelo talento poético e cujos saraus literários de Sevilha ficaram célebres, procurou ouvi-lo.

E é a propósito da cena passada com Arradi na noite em que o homenagearam que Al-Mu’tazz evoca o Xarajibe de Silves.

Depois de narrar que partiu para governador de Silves, recorda a poesia de seu pai Al-Mu’tamid e, citando o verso em que se fala do Xarajibe, descreve o palácio da seguinte forma:

«Este palácio do Xarajibe chegara então ao mais alto cimo da magnificência e do esplendor

Era semelhante ao mais ínclito da cidade de Bagdade, no Iraque (3).


Bagdad


Corriam nele os nobres cavalos dos seus átrios e brilhavam nos seus terraços os relâmpagos das coisas que mais se poderia desejar e ele oferecia.

A fortuna, na verdade obediente, irradiava dele, desde aquele momento em que começava a viagem da manhã até ao fim da viagem da tarde, isto naqueles dias em que não eram afastados desse palácio os talismãs que constituíam a sua segurança.

E não faltavam, sequer, ao palácio, cálices com as flores da juventude.

Esta cidade (de Silves) tinha-o como o local onde alegremente vivia a sua múltipla esperança e como a mais alta das suas riquezas.

Ao que se acrescentava a beleza do panorama, a fragrância dos perfumes e das brisas e a disposição alegre e luxuriante dos jardins e dos tufos de arvoredo.

Além do mais, era esta cidade quase rodeada pelos seus dois rios como por um colar, do mesmo modo e no mesmo local em que o homem costuma usar o cinturão» (4).

Tem esta descrição, entre outros, o mérito de nos revelar que Silves era então quase rodeada por dois rios, o que presentemente não sucede, nem facilmente se poderia conceber.

Circunstâncias fortuitas permitiram-nos verificar que Al-Mu’tazz devia ter inteira razão. Existiu, certamente, ao norte de Silves, um braço de rio, oriundo do Enxerim, que vinha desaguar ao porto da Azóia, no actual jardim da Senhora dos Mártires. O autor diz «quase», porquanto o rio na sua parte central se encontrava quase sempre seco, oferecendo passagem por enormes bancos de pedra que ainda existiam no século passado, segundo testemunho de pessoas antigas, fidedignas.

A propósito da descrição de Al-Mu’tazz, Ibn Cacane cita igualmente uma ligeira composição de Ibn Alabana, dirigida ao prícipe abádida. Por ela se pode supor que Ibn Alabana esteve em Silves e que teve possivelmente conhecimento da descrição de Al-Mu’tazz.

Silves


Dizem assim os versos de Ibn Alabana:



Não sabes, Al-Mu’tazz Bilá,
Que encontrando-me no palácio real
Da cidade (de Silves)
Me vi num jardim
Por onde o rio passava?
Notei porém que não era um rio
Em torno do qual,
A relva criasse um verde tapete,
Mas sim uma espada cujo cinturão
Se fizera verde.


Mas esta ideia do Xarajibe não teria sido uma criação poética de Al-Mu’tamid, perpetuada e engrandecida por seu filho Al-Mu’tazz?

É bem evidente que se o enaltecimento do Xarajibe se pode atribuir, em parte, à mentalidade poética dos abádidas, a existência do palácio não merece dúvidas.

Al-Mu’tamid, dirigindo-se a Ibn Ammar, não diria «Saúda o Xarajibe», se este não tivesse existência real. Al-Mu’tazz, regressado de Silves, traz nos olhos a imagem do Xarajibe e não encontra outra coisa para falar senão dele. Seria demasiada imaginação supor-se que esse palácio não tivera existência e que um historiador como Ibn Cacane não se havia apercebido disso.

A atestar a existência do Xarajibe está Ibn Alabar que, referindo-se a um acontecimento completamente diverso e de outro século, a morte de Ibn Qasî, Mahdi dos Múridas, escreve: «assassinaram-no (a Ibn Qasî) no mês de «jumada I.ª» de 546, no Alcácer do Xarajibe onde vivia» (5).

Abulfeda, historiador árabe ocidental, do século XIV, afirma por seu lado: «é em Silves que existe o Palácio do Xarajibe».

Para nós, a contra-prova mais importante é a de Ibn Alabar. Ibn Alabar é quase contemporâneo dos acontecimentos que relata e serviu-se das melhores fontes, dando-nos pormenores sobre Ibn Qasî, Ibn Al-Múndir e Ibn Uázir. Mostrou-se sempre muito bem documentado sobre as coisas do ocidente da Península. Além disso, a citação do Xarajibe ocorre ocasionalmente no seu texto. Não teve aí a preocupação de enaltecer ou de diminuir, mas apenas a de relatar com exactidão o como, o quando e o onde.

Está formada e arreigada a tradição de se falar do «Palácio do Xarajibe».

Na verdade, porém, o que encontramos no árabe é «Alcácer Axarajibe» que se traduz por «Castelo das Varandas» (7).

Era o Xarajibe um palácio ou um castelo?

Em nosso entender, um misto de palácio e de castelo. Os castelos tinham no seu interior residências senhoriais e todo o palácio de valor era rodeado de obras de fortificação que permitiam a sua defesa. Para sermos exactos devíamos dizer o «Castelo do Xarajibe», mas, atendendo a que deu margem a autêntica vida palaciana e a que possuía ornamentos de vivenda, não nos parece descabida e até se nos afigura própria a designação de palácio.

E surge, naturalmente, a pergunta, – onde ficava em Silves, o Xarajibe?


Alhambra de Granada (Portal).


Houve quem o tentasse localizar nos mais diversos pontos. Imaginou-se que ficaria fora da cidade, como a Alhambra de Granada. Chegou-se a localizá-lo na montanha pedregosa, ao fim da Oliveira da Carrilha.

Presentemente inclinamo-nos para a sua localização no próprio castelo de Silves. A designação de «alcácer» ou «castelo» está a indicá-lo. Não cremos que a cidade de Silves tivesse, nesses tempos recuados, outro castelo superior ao actual.

Relatando a morte de Ibn Qasî, Ibn Alcátibe, o elegante historiador granadino, parece discordar de Ibn Alabar quando nos diz que Ibn Qasî foi morto no «forte», mas na realidade ele apresenta-nos mais um argumento em favor da tese de que o Xarajibe era precisamente no castelo. O castelo podia ser indiferentemente designado por «caçr» (Ibn Alabar), ou por «hiçn» (Ibn Alcátibe).

E a configuração presente do castelo de Silves, apesar de se tratar de um restauro da reconstrução portuguesa do século XIV, parece confirmar a designação de «das Varandas», pela multiplicidade de açoteias, terraços e varandins (in Atlântico, Revista Luso-Brasileira, 1947, Nova Série, n. 4, pp. 42-46).


Notas:

(1) O texto árabe do «Calcaíde Al-Iquiane de Ibn Cacane foi reproduzido por Dozy em «Historia Abbadidarum», p. 39. Na continuação esta obra tomou o título «Scritorum Arabum Loci Abadidis».

(2) A tradução latina de Dozy encontra-se em «Historia Abbadidarum», p. 83 e a tradução francesa do mesmo autor em «Histoire des Mussulmans d’Espagne», IV, 146, ed. de Leyde de 1861. García Gómez tem duas traduções para o espanhol, uma livre em «Casidas de Andalucia», pp. 79-81, outra mais à letra, em «Poemas Arábigo-andaluces», p. 74. Esta última tradução é a mais exacta que conhecemos. Oliveira Parreira apresentou duas versões portuguesas da tradução francesa de Dozy em «Os Luso-Árabes», uma em verso, vol. I, pp. 347-9, outra em prosa, vol. II, pp. 286-7. Com base na tradução mais à letra de García Gómez elaborou Mário Guerra Roque uma versão portuguesa, em verso, muito elegante, que foi incluída na nossa «História Luso-Árabe», pp. 147-8.






(3) Henri Pérès em «La Poésie Andalouse en Arabe classique, au XI.º siècle» afirma que o autor pretende referir-se ao palácio «Zaura», considerado o mais célebre de Bagdade.

(4) Dozy em «Historia Abbadidarum», texto árabe: I, 170; tradução latina: I, pp. 178-9.

(5) Esta passagem da «Al-Hullat Assiirra» de Ibn Alabar, foi transcrita por Dozy, em «Notices sur quelques manuscripts arabes», p. 200 e traduzida pelo Dr. David Lopes, em «Os Árabes nas obras de Alexandre Herculano», p. 333.

(6) Abulfeda em «Takwin Al-buldan», texto árabe apresentado por Reynaud e Slane, p. 197, tradução francesa de Reynaud e Guyard, p. 237.

(7) A palavra «xarajab» faz no plural «xarâjîb». Significa: balcão, terraço, varanda.

Continua


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Lendas de Silves

Escrito por Garcia Domingues 




Silves



Introdução


É já sabido que o Al-Gharb, o Ocidente do Andaluz, configura o que nós hoje, Portugueses, chamamos o Algarve. Trata-se, pois, de um ponto geográfico que, vertendo para o mar Verde, surge como o contraponto do Andaluz oriental cujas águas correm para o mar Azul. Outrora descrito como o paraíso de que então falavam os poetas andaluzes em suas epístolas para Bagdade e Damasco, o Algarve, malgrado a sua crescente descaracterização urbanística, continua a maravilhar e a espelhar o Céu cujo sol reverbera o corpo em terra dos verdes e das águas.

Mas não só de luminosidade física está o Algarve pleno e radiante, pois, qual narrativa entretecida de alegorias, metáforas e símbolos, o que mais surte, no subconsciente poético do Garbe, é a imaginação erótica e amorosa em clima de alegria, festividade e tradição. É como se, num universo paralelo ao d'As Mil e uma Noites, despontasse uma sabedoria unitiva do mais alado platonismo com o mais sensual e concreto aristotelismo. Enfim, tudo aí concorre para, por um lado, reatar o património ariano e semita da virtude feminina de que a “moura encantada”, em terra algarvia, constitui a expressão de uma singular e profunda tradição popular, e, por outro, para concitar um menos árido e dogmático saber no domínio das subtilezas quodlibéticas entre judeus, muçulmanos e cristãos.



Castelo de Silves



De facto, o carácter alegórico e mitológico da mulher ideal transparece neste universo único e singularmente português. Aliás, é esse mesmo universo que permite realizar a instância analógica que, do visível ao invisível, ou do natural ao sobrenatural, invoca, em nós, o acto de conceber que vai da sensualidade do amor carnal ao beijo espiritual capaz de quebrar o encanto da Bela Adormecida. Por outras palavras, incita-nos à velada compreensão de como a matéria-prima, insubstancial e insubstante, transita à existência por virtude do princípio criador e substancial representado na forma e no acto.

Ora, que melhor modo senão o lendário para entrever como o encanto é, de alguma forma, a «prisão» da luz na sombra? Daí as lendas de Silves conforme averbadas por Garcia Domingues no seu Guia Turístico da Cidade e do Concelho de Silves.

Miguel Bruno Duarte





Lenda das Amendoeiras


É muito antiga esta lenda das amendoeiras e foi atribuída a muitas regiões. Parece que tem a sua origem mais remota na Pérsia, país tradicional de campos de amendoeiras e de gentileza. No entanto, ela surge também na Turquia e no Próximo Oriente. Em Espanha ela foi atribuída às cidades de Córdova e de Sevilha, em relação com Al-Mu’tamid. Mais exactamente, aplicada aos amores de Al-Mu’tamid e de Romaiquia, tudo indica que foi referida a Silves. É esse parecer da distinta investigadora espanhola Rubiera Mata, que procurou enquadrá-la com maior rigor interpretativo.






Uma princesa nórdica morreria de saudades por não ver a neve, paisagem própria da sua terra. Para lhe agradar, um rei do sul que a raptara teria mandado cobrir os campos de amendoeiras cujas flores alvas lhe lembrariam a neve.


Lenda da Moura Encantada


Depois da reconquista cristã formou-se no povo de Silves uma lenda recolhida no século passado.
Na noite de São João, à meia-noite, aparece na Cisterna Grande do Castelo de Silves uma moura encantada navegando sobre as águas num barco de prata com remos de ouro e entoando hinos da sua raça. É uma princesa que aguarda a chegada de um príncipe da sua fé que pronuncie as palavras mágicas necessárias para a desencantar.


Lenda do Mouro de Chapéu da Aba Larga


Há também no Castelo de Silves uma lenda de um mouro encantado. Ele apareceria, com o seu chapéu de aba larga, de manhã, na parte norte do Castelo, desafiando as pobres lavadeiras que iam lavar às pequenas toalhas de água que por aí surgiam. De um modo geral, as lavadeiras faziam-lhe surriada e ele vingava-se desencadeando sobre elas chuva de pedra.

Quando no Castelo foram inventadas as prisões, o mouro desapareceu. No entanto os presos diziam que todas as noites sentiam, pela meia-noite, um estremecimento em todo o Castelo e ouviam, até de madrugada, o mouro remexendo em papéis velhos.

Castelo de Silves









Lenda da Zorra Berradeira


É também lenda muito antiga de Silves a da Zorra Berradeira. Segundo esta lenda havia no Odelouca uma Zorra Berradeira que durante a noite atroava os ares com os seus berros. A Zorra Berradeira era um verdadeiro monstro com o aspecto de cabra. Tinha silvos de fúria. Os seus berros, de noite, anunciavam desgraça iminente. Ninguém os queria ouvir. Contavam-se casos de pessoas que os tinham ouvido e logo lhes haviam sucedido tremendas infelicidades, sobretudo mortes de pessoas queridas.


Lenda da Velha das Castanhas


Na zona da Atalaia, junto da foz do Odelouca e em frente da Ilha de Nossa Senhora do Rosário, existe uma furna conhecida como a Furna Velha das Castanhas. Diz-se que vivia aí uma velha muito feia e má que estava sempre assando castanhas. Quando algum barco aí passava, descendo o rio, deviam os que fossem nele, lançar-lhe uma moeda, sem o que a velha fazia bruxaria e metia o barco no fundo.

Esta lenda parece ter origem num imposto de portagem mas, por outro lado, liga-se com a da Zorra Berradeira, pois a furna também tinha o nome de Furna da Zorra.


Lenda do Pego do Pulo


O Pego do Pulo, segundo informação que tomámos, fica junto da Fonte Nova, na curva que o rio Arade faz, depois do Cais, para tomar o rumo de Matamouros.

Diz a lenda que aí morreu o último Senhor árabe de Silves, Aben Afan, quando procurava a salvação na fuga.



 Ponte romana de Silves sobre o rio Arade.



Homens antigos de Silves asseguravam que à meia-noite, na noite de São João, se ouvia nitidamente, nesse local, o ruído do galope do cavalo de Aben Afan até ao Pego e depois alguém bradar: «Salta meu cavalo!». Finalmente ouvia-se o estrondo da queda do cavalo na água e o estertor do cavalo e do cavaleiro, enquanto se distinguia o tropel de outros cavalos com seus cavaleiros, fugindo aos portugueses que os perseguiam.


Lenda do Monte das Cabeças


O Monte das Cabeças fica situado em frente do Enxerim, a oriente da ribeira do mesmo nome. Segundo uma lenda antiga era o local de um cemitério mouro e na noite de São João, à meia-noite, os que aí repousavam eram visitados pelos seus parentes também já falecidos. Aí surgiam então cenas de festas macabras que só podiam ser presenciadas por quem fosse muito corajoso. Essas festas só terminavam ao alvorecer. Uma lavadeira do século passado assegurava que presenciara uma delas, verdadeiramente horrorosa.

Tendo passado pelo local há pouco tempo, foi-nos afirmado, por gente do povo, que aí tinha havido uma força no tempo das guerrilhas e que muita gente aí teve os seus últimos dias (Garcia Domingues, Guia Turístico da Cidade e do Concelho, Câmara Municipal de Silves, 2.ª edição, 2002, pp. 63-65).


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

"Vocês argumentam muito!" (ii)

Entrevista a Garcia Domingues




Castelo de Silves


De novo, a conversa muda de direcção sem motivo aparente, aliás como acontece em todos os diálogos. Garcia Domingues é um estudioso do pensamento árabe que é uma das três tradições portuguesas conjuntamente com a cristã e a hebraica. As palavras do nosso interlocutor mais uma vez nos surpreendem:

L – Os árabes contribuíram para a formação de Portugal?

GD – Em meu parecer, os muçulmanos não influenciaram a formação da nossa Pátria, pois no pensamento árabe do tempo não se distinguiam figuras de relevo, como poetas, filósofos e teólogos.

Se os árabes contribuíram em algum aspecto para a definição da nossa nacionalidade foi apenas no que respeita ao território e aos aspectos demográficos. Não há influência nítida e demonstrável do pensamento árabe no Norte. Não encontrei verdadeiramente essa influência… Engraçado, sou arabista e pareço um anti-árabe.

L – Existia algum diálogo entre cristãos e muçulmanos?

GD – Não, nunca houve um verdadeiro diálogo. O que aconteceu foi uma coexistência que, raro em raro, não foi pacífica.

L – Mas os moçárabes facilitaram a Reconquista, até mesmo a conquista do Algarve. Muitos deles, entre os quais um tal Garcia Rodrigues, frequentavam as cortes dos chefes mouros e dos Cheikes dando a conhecer os pontos fracos das suas defesas. Como sabem, o Conde Sesnando que tinha sido durante muito tempo primeiro ministro da Taifa de Sevilha, auxiliou o Rei Fernando Magno na conquista de Coimbra.

A ajuda desses povos foi de tal modo importante que quando o Rei D. Afonso Henriques fez prisioneiros moçárabes gerou um protesto dos monges de Santa Cruz de Coimbra.


L – Podemos entender que há uma realidade de Portugal mesmo antes da conquista?

GD – Estou convencido de que sim. Antes da formação do Reino deram-se eventos que determinaram a constituição de substractos etnográficos que facilitaram as conexões que lhe deram unidade e origem.

No território ocidental sempre existiu uma tendência para se criarem forças independentistas. Houve durante muito tempo a Taifa de Badajoz que incluía Beja, Évora, Santarém, Lisboa, Coimbra e Viseu que foi ocupada pelos Reis de Castela e, posteriormente, recuperada pelos Almorávidas. Por outro lado, existira antes o Reino dos Suevos, que correspondeu a todo o nordeste peninsular até à região de Coimbra.


Estes Estados correspondem em muito, ao actual território português e, nesse sentido, pode-se afirmar que são o prenúncio da formação do território português, pois influenciaram profundamente a unidade geográfica e populacional da região.

Mas penso que a determinação do território português partiu da consciência dos Barões durienses que se reuniram em redor de D. Afonso Henriques. Não é possível conceber que o Reino de Portugal tenha sido constituído por um garoto de catorze anos e pela vontade dos Barões que passavam todo o tempo a lutar entre si.



Estátua de D. Afonso Henriques








A verdade é que houve uma série de enleios, de complicadas uniões políticas. Se os moçárabes não tivessem acompanhado o movimento dos Barões durienses, Portugal não existia.

L – Mas se essa realidade não residia no território, no povo ou na língua, temos de admitir que ele deriva de um plano mais próximo do filosófico que de um plano político…


GD – Sim, essa realidade era espiritual. Lembro-lhes que o Cristianismo já existia há muitos anos na Península e que, por exemplo, na época dos romanos foi criada a seita de Prisciliano, cuja influência se fez sentir nas regiões nortenhas onde existiam pequenos núcleos de culto e cultura religiosa. Decerto que contribuíram para essa unidade.

L – Parece-nos, contudo, que a origem de Portugal se pode colocar num plano espiritual, mas nunca num plano religioso já que não havia uma harmonia religiosa.

GD – No plano religioso e eclesiástico é claro que houve problemas. Por exemplo, a oposição de Braga a Santiago de Compostela contribuiu para a formação da nacionalidade.

Também não devemos deixar de considerar a contribuição das ordens religiosas para a construção da nossa Pátria. As ordens de Cluny e de Cister. Digamos, o Cristianismo fez desaparecer muitos cultos e, noutros casos, assimilou-os.

L – Afirmou que os árabes não tiveram influência na formação de Portugal. Contudo, a língua portuguesa possui elementos muçulmanos…

GD – Não, não. A língua portuguesa é moçarábica. Não podemos esquecer que a região de Coimbra era um importante centro moçarábico. Os moçárabes são cristãos de cultura antiquíssima da Península Ibérica.

Os problemas da língua pátria relacionam-se com o aparecimento do cristianismo peninsular. Há palavras que evoluíram especialmente no moçárabe. Por exemplo, há uma terra perto de Vila Real de Santo António chamada Caçela. Esta palavra vem do latim Castella, que significa castelos. No castelhano, a palavra evolui para castilla. Portanto, não é deste castilla que resulta Caçela. A passagem do ST para o ç só se verificou no moçárabe, o que prova a influência moçarábica. Forneço-lhes outro exemplo: no Algarve diz-se grizéus, nome dados às ervilhas verdes. Gri significa verde acinzentado no sul de França e na costa levantina de Espanha. Daí vem griziu que dá grizeu, o que só aconteceu no moçárabe. A influência é mais moçárabe do que árabe…

L – É possível relacionar o messianismo português com o pensamento árabe?

GD – Não o relaciono com o árabe, mas antes com o hebraico. Os árabes têm a ideia do Mahdi.




Ver aqui



O messianismo sebastianista é um valor nacional extraordinário. É uma prova de sobrevivência de Portugal. O sebastianismo é popular, nasceu de circunstâncias trágicas e pavorosas. No entanto, não o concebo como uma mística religiosa universal.

L – Revertendo às relações entre o Islamismo e o Cristianismo. Hoje, existe diálogo entre estas duas religiões?

GD – Sim. A prova é que se está a realizar. O ponto de contacto tem sido a Espanha e as famosas reuniões de Córdova. Nestas iniciativas fazem-se ofícios religiosos cristãos e muçulmanos no mesmo espaço físico, a Mesquita Catedral de Córdova, embora em separado.

A Igreja Católica sempre se recusou a participar nos congressos de religiões que se realizavam em Chicago porque não considerava os outros cultos como realidades positivas no domínio religioso. De tal modo assim era, que julgava uma ideia herética o diálogo entre religiões.

Depois do Vaticano II, a hierarquia eclesiástica modificou a sua posição e levou a efeito os encontros de Assis que contou com budistas que, até então, não eram considerados. Penso que a mudança de atitude se deve à II Guerra Mundial e à insistência dos intelectuais europeus, que procuram conhecer o mundo muçulmano.

L – Considera esse diálogo possível no domínio da teologia?

GD – Há uma coisa em comum: a unidade de Deus. Até certo ponto entre cristãos e muçulmanos pensa-se que se está adorando o mesmo Deus, um Deus único anunciado por Abraão, que se relaciona igualmente com o judaísmo. Portanto, parece tratar-se da mesma divindade. Na realidade, entre Cristianismo e Islamismo existem semelhanças que permitem o aproximar das duas religiões, apesar de as concepções teológicas e simbólicas divergirem.

No entanto, penso que esse diálogo tem um sentido político. A Europa não vê com bons olhos a união do mundo muçulmano à União Soviética.


Aliás, a escolástica foi influenciada pelo pensamento árabe, e até houve doutores em Paris que defendiam as ideias de Aristóteles segundo a interpretação de Averróis. Recordo que S. Tomás de Aquino conheceu os textos árabes de Aristóteles.

O historiador espanhol Miguel Asín Palacios, a maior figura do arabismo peninsular, tentou demonstrar a influência da mística islâmica na mística cristã. Pessoalmente, não descortino essa influência no misticismo português.

Mais uma vez a conversa muda de orientação. Recuando no tempo. Voltámos à filosofia.




Colunas na Sé Catedral de Silves



L – A sua tese de doutoramento causou um certo mal-estar nos meios universitários. O senhor é apontado como um dos responsáveis pela introdução em Portugal do pensamento germânico contemporâneo…

GD – É verdade. Quando apresentei a minha tese, o ensino universitário ignorava a filosofia alemã e as correntes mais modernas do pensamento. Exposições sobre o pensamento germânico não existiam. Mais do que isso: a metafísica tinha sido desprezada pelos programas inventados por Matos Romão. Nem Vieira de Almeida queria a disciplina de metafísica.

A minha tese provocou uma espécie de revolução…

L – Cremos que também um dos primeiros divulgadores do pensamento de Heidegger…

GD – Um dia, Delfim Santos chamou-me a atenção: “Você não está a interpretar bem o pensamento de Heidegger”. De qualquer modo, considero que neste filósofo alemão a ideia de ontologia tem muita importância, mais até do que a ideia do Nada ou a sua posição ateísta.


Na minha perspectiva, a filosofia heideggeriana é uma filosofia da existência e da realidade, ou melhor, é uma real ontologia. Mas a ontologia é ainda insuficiente… Heidegger corresponde a um esforço de investigação do pensamento que não conduz a qualquer conclusão.

A noção de ser é difícil de conceber. Não sei o que seja. É preciso muita coragem para explicitar este conceito.

Julgo que a filosofia tem de se preocupar com as relações entre o ser e o devir. É desta reflexão que resulta a metafísica moderna.


Heidegger


L – Segundo Álvaro Ribeiro, o ser é um verbo…

GD – Não, não é só o verbo.

L – Álvaro Ribeiro dizia nas tertúlias que Heidegger sempre que descobria uma palavra, escrevia um tratado de filosofia…

GD – Não concordo muito com os filologismos de Heidegger, mas devemos atender a uma realidade: uma ideia ou conceito é muitas vezes formado a partir de palavras. Ora, temos de analisar como é que foram formados. Em filosofia tem-se que atender sempre à filologia, a uma filosofia da linguagem.

Há a análise da palavra e dos termos, por assim dizer, no domínio da gramática e, depois, existem as relações entre os conceitos e as ideias, e as correlações, tudo no mundo do pensamento. O pensamento não é a língua.

L – Nos nossos dias, a ética tem sido desvalorizada a favor da moral. Que significado atribui a esta realidade?

GD – Hoje, despreza-se a ética, o que equivale a uma decadência do pensamento, ou se quisermos, a um vácuo. É pavoroso!

A moral pública não é, em verdade, uma moral e muito menos pode garantir uma ética. Mas é evidente que o Estado tem de ter normas convencionais ligadas aos costumes.

Em relação à ética não sabemos qual o padrão a seguir. Devemos, contudo, investigar, pois é essa a finalidade do pensamento. É possível manter uma ética independente da religião?

L – Podemos relacionar o que acaba de dizer com o Diabo?

GD – O Diabo é uma insinuação no sentido do mal, de algo que é errado em termos de ética. É um anjo mau que aflige? Do ponto de vista teológico pode ser que sim. Os muçulmanos admitem espíritos diabólicos e duendes.


No catolicismo, o Diabo é um princípio errado.



Arcanjo S. Miguel calcando o Demónio.



Posso conceber que haja comunicação com o mundo espiritual e com os espíritos. Se existe uma influência com determinado sentido nefasto, dizemos que estamos em presença de uma instigação diabólica.

L – Para si, o que é a morte?

GD – Segundo Aristóteles, a morte é a extinção das funções vitais, mas haveria algo de substancial no indivíduo que perduraria para além dos tempos. É muito estranha esta teoria segundo a qual os homens não são eternos, porque de acordo com Platão e as perspectivas platonizantes, os seres humanos poderiam ser eternos. Se nós sempre existimos e vamos existir, então não há dificuldade porque estamos em transição.

Agora, é difícil conceber como é que, de repente, se apareça e, depois, se desapareça, mas continuando a existir.

De qualquer modo, a teoria clássica de todas as religiões é que fomos criados por Deus e possuímos uma alma imortal. Não só as religiões, mas todo o homem quando pensa não pode imaginar que morra sem deixar vestígios. Todas as religiões admitem que o espírito continua para além da vida terrena.


Para os místicos é simples: a alma junta-se a Deus de onde provém. A maioria dos homens são místicos.

L – Nos tempos modernos tem sentido falar-se em experiência mística? Pode-se relacionar a fenomenologia com a mística?

GD – Penso que sim. A fenomenologia não é um caminho para a mística, mas facilita a compreensão dos seus problemas. A comunicação com o mundo espiritual é de todos os tempos. A interrogação é esta: qual é esse mundo transcendente que está sobre nós?

Finalmente, o nosso anfitrião faz uma pausa, indiciando que estava a chegar ao fim esta conversa. Apenas acrescentou: “ Vocês argumentam muito”. Para o bem e para o mal, pensámos nós, na nossa juventude… (ob. cit., pp. 31-35).




terça-feira, 2 de novembro de 2010

"Vocês argumentam muito!" (i)

Entrevista a Garcia Domingues








Conversar significa, muitas vezes, converter, conversão. Os que nela participam expõem argumentos persuasivos, tentando que todos cheguem a um mínimo entendimento indispensável ao convívio e ao diálogo. Nesse trânsito, o pensamento detém-se, não raras vezes, na oposição entre premissas e na contradição entre conclusões, com objectivo de prosseguir na vereda mais adequada à sua finalidade: a verdade. Por conseguinte, não são de estranhar que algumas contradições poisem nestes diálogos.

Numa tarde cinzenta, Garcia Domingues recebeu-nos em sua casa (o João Luís Ferreira, o Elísio Gala, o Paulo Perloiro e o Francisco Moraes Sarmento), lá para os lados da Av. Almirante Reis. Levávamos connosco bons motivos de conversa: o nosso anfitrião é, entre nós, uma autoridade no domínio do pensamento árabe. Por outro lado, queríamos saber do homem que introduziu em Portugal a filosofia germânica contemporânea. Sem embargo, a estas razões, sobrevinha uma outra: a conversão de Leonardo Coimbra ao Cristianismo, assunto que tem gerado alguma polémica entre os discípulos do seu magistério filosófico.

Garcia Domingues é autor de várias obras sobre a filosofia alemã e o pensamento árabe, entre as quais se destacam os seguintes títulos:
A Filosofia da Angústia em Martinho Heidegger (1938), O Pensamento Alemão (1942), A História Luso-Árabe (1945), A Influência Árabe-Islâmica no Ultramar (1955), Filosofia e Mística dos Luso-Árabes (1960) e O Garbe Extremo do Andaluz e “Portugal” nos Historiadores e Geógrafos Árabes (1960).

O nosso interlocutor conviveu, ainda, com Miguel Asín Palacios, tido como a maior figura do arabismo peninsular e com o filósofo existencialista, Gabriel Marcel. Deste último, recorda-nos a visita que fez a Lisboa: “Quando Gabriel Marcel chegou a Lisboa organizou-se com intelectuais portugueses. Lá estava, entre outros, o Almada Negreiros. Sentámo-nos no chão em círculo ao modo islâmico. Assim, ficámos toda a tarde a conversar.

Durante o diálogo que mantivemos com Garcia Domingues os árabes estiveram sempre presentes. Surpreendeu-nos a refutação que fez da influência árabe em Portugal. Surpreendente porque sempre ouvimos aos nossos mestres estas palavras: «existem três tradições, a cristã, a hebraica e a islâmica». E a sua contribuição para a formação da nossa Pátria; e na gesta das Descobertas? Questões que de imediato expusemos ainda enlevados de espanto. Perante a nossa reacção Garcia Domingues rematou: “Sou arabista e pareço anti-árabe”. Outro aspecto que nos remeteu para o islamismo foi a apologia da guerra como factor determinante da evolução das sociedades. Mais tarde emendámos a conclusão. A divulgação do pensamento germânico em Portugal muito deve ao nosso anfitrião, recordámo-nos. Sobre este assunto ainda uma última advertência ao leitor: para a geração da Leonardo a guerra nada diz. Dela só temos as imagens brutais da história e os episódios contados em serões de família.

Silves















Durante três horas, as perguntas sucederam-se e o diálogo correu sem pausas, nem silêncios. Razões houve para que assim acontecesse. Garcia Domingues não é um defensor do positivismo. Sem embargo, durante a conversa recorreu a argumentos e ideias positivizantes, o que muito nos admirou. Depois, no sossego das nossas casas, arriscámos uma explicação: Garcia Domingues tem vocação de historiador. Recorre a factos e usa-os contra os argumentos. Trata-se, por assim dizer, de um artifício que faz resvalar o historiador para a positividade do passado perfeito. O vício positivizante, que exerce algum fascínio nos divulgadores da cultura, é uma muleta e, na maioria das vezes, uma espécie de âncora que impede o pensamento de viajar até às causas finais.

Quando se deu por finda a nossa conversa, Garcia Domingues aditou: «Foi a minha entrevista mais filosófica. Vocês argumentam muito!». Para terminar esta introdução, que já vai longa, evoquemos os tempos em que Garcia Domingues participava, mais como ouvinte do que aderente dos ideais dos nossos filósofos, nas tertúlias da filosofia portuguesa. Tudo começou, quando ainda estudante de filosofia conheceu Leonardo Coimbra no Porto. O acaso levou-o a encontrar-se com este pensador após a sua primeira comunhão, uma conversão que tem provocado alguma polémica entre os discípulos do magistério leonardino. Foi pela recordação desses tempos que começámos a nossa conversa…


Leonardo – O senhor conheceu Leonardo Coimbra. Que recordações guarda deste pensador português?

Garcia Domingues – Ainda era estudante de filosofia, quando o ouvi pela primeira vez. Foi na inauguração da estátua de Antero de Quental, no Jardim da Estrela, ocasião em que discursou perante uma “multidão enorme”. Observei, admirado, que Leonardo Coimbra dominou toda a assembleia constituída por alunos de filosofia. Feito difícil, pois eram pessoas que não eram ignorantes nos assuntos versados, nem se deixavam envolver por um discurso qualquer.



Garcia Domingues



Lembro-me de um grupo de estudantes de esquerda, chefiados por Agostinho Fortes, que se preparou para o assobiar e apupar. Às tantas, o professor exclamou para a sua rapaziada: “Com este diabo não fazemos nada. Vamos embora, vamos embora!”

Efectivamente, não se podia fazer nada: todo o ambiente estava enlevado pelo discurso de Leonardo. Até ele próprio… Com grande elevação poética proferia uma oratória astral com astros, sois e luas. De facto, era um orador exímio. Na minha vida, ouvi muitos discursos famosos, mas o de Leonardo Coimbra foi um dos mais empolgantes.

Mais tarde, um amigo comum levou-me ao escritório do Ângelo César, no Porto, onde lhe fui apresentado, assim como ao Teixeira de Pascoaes. Durante a conversação, a minha impressão de juventude foi confirmada.

L – O senhor encontrou-se com Leonardo Coimbra logo após a sua conversão ao Cristianismo, assunto que tem provocado acesa polémica entre os seus discípulos. O que nos pode dizer sobre isso?

GD – É verdade. Por acaso, encontrei-me com o filósofo portuense após a sua primeira comunhão. Era de manhã, por volta do meio-dia, quando nos cruzámos na Av. dos Aliados do Porto.

Creio que Leonardo estava inquieto com alguma coisa… Desde início manifestou a sua alegria e regozijo por ter comungado. Disse-me logo: “Sabe, vim agora de comungar na Igreja”.



Leonardo Coimbra



Durante o diálogo convenci-me de que se tratava de uma acção sincera, Aliás, não foi de estranhar. O pensamento leonardino evoluía no sentido do Cristianismo como indicavam as suas conversas, apesar de se desconhecerem as suas intenções quanto a uma real conversão.

L – Para além de Leonardo Coimbra, conheceu alguns elementos do grupo da filosofia portuguesa e, até, chegou a frequentar as tertúlias. Como foram esses tempos?

GD – Foi o Eudoro de Sousa que me introduziu na tertúlia da filosofia portuguesa. Ao tempo reunia-se no café situado na esquina da Av. da Liberdade com a Praça da Alegria. Nessa altura, conheci o José Marinho, que tinha acabado de ser demitido das funções que desempenhava no Liceu de Viseu.

O nosso interlocutor refere-se à demissão de José Marinho provocada por um texto que escreveu a propósito de um telegrama de felicitações a Salazar enviado pelos professores daquela escola por causa do atentado que sofreu e do qual saiu ileso. Nesse trecho, assinado por mais dois colegas, formulava-se o desejo de que a governação do Chefe de Estado não desse motivo a acções terroristas. Garcia Domingues deixava-nos, entretanto, a sua opinião sobre aquele filósofo português:

GD – O Marinho era professor de Latim, mas a sua preocupação era a filosofia. Se aprofundasse as ideias elementares que concebia viria a ser um verdadeiro filósofo.

Mais tarde conheci Álvaro Ribeiro. Este pensador já defendia a existência de filosofias nacionais e empenhava-se no esclarecimento da refutação das teses positivistas. Álvaro Ribeiro era um idealista? Talvez não. Digamos antes, que era um espiritualista.

Ao longo do tempo mantive contacto com o grupo da filosofia portuguesa, onde apareciam outros rapazes, até o Orlando Vitorino que conhecia de outros lados, quando ele era funcionário do Secretariado Nacional de Informação. O Orlando preparava na altura uma tese intitulada Fenomenologia do Mal que nunca cheguei a conhecer.






Trata-se da tese apresentada, em 1951, às provas de licenciatura do Curso de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras de Lisboa. A tese foi reprovada por um júri presidido por Vieira de Almeida e constituído por Délio Santos, Virgínia Rau e Mário de Albuquerque. Este chumbo deu origem a um inquérito nas páginas da revista Ler no qual participaram algumas das personalidades mais representativas da «geração de 50». Vitorino Nemésio disse a propósito: «É o nosso primeiro contestatário». A tese foi publicada em 1970 na Teoremas acompanhada por um prefácio a que o autor deu o título A Idade do Corpo. Após este curto esclarecimento, o nosso anfitrião continuou a recordar os tempos em que participava nas tertúlias:

GD – Lembro-me, também, do Amorim de Carvalho, discípulo de um dos maiores pensadores da Europa do tempo. Ele ofereceu-me a sua tese de doutoramento na Sorbonne que versava sobre o problema estético ou a ciência da estética.

Um dos últimos trabalhos do seu mestre Jankétévitch, La Philosophie Première, é bastante interessante, se bem que não concorde por completo com as suas teses. Este filósofo tenta uma filosofia primeira não ontológica.

Nas tertúlias encontrei-me, ainda, com António Quadros, cuja obra tenho acompanhado de longe com atenção e simpatia. O último livro deste pensador sobre filosofia da história é arrojada…

Neste lance, mudámos de rumo à conversa. A filosofia da história deu-nos o pretexto para abandonarmos as lembranças e entrámos no assunto que nos levou até Garcia Domingues. Um de nós atalhou:

L – Quais são os princípios que devem presidir a uma teoria da história?

GD – Essa é uma pergunta tremenda, não é? Julgo que é possível conceber uma filosofia da história. A história não existe sem o socorro de um pensamento que a estruture. Conceitos como o de tempo ou espaço participam sempre na história e são, por assim dizer, a sua garantia. Ora, estas noções são discutidas no domínio da filosofia.

L – Hegel afirmava que a história não é profecia, nem nos permite dizer o que vai acontecer às civilizações. Nunca podemos afirmar em que sentido se movimenta a história. Só depois dos eventos se realizarem será correcto dizer algo.




GD - No meu tempo de estudante, a filosofia da história estava eivada pelas teses evolucionistas. Hoje, já não é assim: como podemos conceber uma tese evolucionista se observamos que os povos evoluem independentemente uns dos outros, conflituando-se mutuamente e obtendo diferentes resultados? O evolucionismo não se pode aplicar à história: tanto pode haver uma evolução como uma involução. Diria que existem evoluções diferentes para cada povo e civilização.

A filosofia da história tem de ser uma interpretação que se aplique e resulte para todos os casos.

L – Portanto, o movimento dos povos não se sujeita aos determinismos?

GD – Isso mesmo. A evolução dos povos não se subordina a nenhum determinismo. A história depende de um poder conflituando, dos seus resultados. O futuro depende do conflito entre civilizações…

Estranhamos a concepção do mundo baseada na guerra e no conflito. O idealismo alemão é pessimista e defende o primado da violência, de luta e do conflito. Caminhos divergentes dos da filosofia portuguesa que é optimista e realista. Acredita no homem e faz da verdade a sua estrela polar. A valorização da violência afigura-se-nos primeiro, como anti-natural, e depois, como anti-social. De propósito lembramos os dizeres do nosso Sampaio Bruno: «o pessimismo é o motivo determinante da má filosofia». Perante o nosso espanto, Garcia Domingues, recorre a exemplos:

GD – Basta haver uma guerra ideológica e social para se extremarem as posições em confronto. Por exemplo, onde existe mais fé católica é na Alemanha e na Suiça, porque há um permanente conflito com os protestantes. O confronto torna a fé viva e acentua as diferenças, embora haja contágios.

Existe um aspecto na Igreja de hoje que revela uma influência do protestantismo que não corresponde a coisa alguma. É quando o padre diz: «Cumprimentem-se!», imperativo logo seguido pela assembleia.

Ensinaram-me que era em Itália que existia maior fervor católico. Ora, penso o contrário. Do ponto de vista religioso é uma nação paganizada.

Reparem neste aspecto: o Papa quando chega à varanda a população bate palmas, à semelhança do que acontecia na antiga Roma com os Imperadores. Por outro lado, os cardeais usam as cores dos antigos senadores. A Igreja mantém, por conseguinte, as tradições da velha Roma Imperial.

Coliseu de Roma










L – A ideia que expôs não deriva de uma perspectiva dialéctica da história?…

GD – É uma perspectiva dialéctica, mas não é hegeliana.

Entendo a dialéctica ao modo dos gregos segundo o qual o filósofo vai de ideia a ideia até chegar a uma proposição conclusiva. A dialéctica é trânsito lógico e razoável, o que nada tem a ver com a teoria hegeliana, nem mesmo com a de Marx. Aliás, a chamada dialéctica marxista é algo que não se compreende. No marxismo não há dialéctica e a sua aplicação à realidade histórica é incompreensível. Em Hegel é tão-só fantasia. A ideia de tese, antítese e síntese defendida por este filósofo alemão é algo sem sentido, nem se entende.

No domínio da filosofia da história existem outros pensadores mais aceitáveis como Spengler a Toynbee.

L – Somos levados a concluir pelas suas palavras que só existe uma teoria da história a nível mundial. Por conseguinte, nega a cada povo uma filosofia da história, uma finalidade?

GD – A filosofia da história é uma filosofia universal. Agora, cada povo possui o seu próprio espírito, aquilo que os alemães designam Volksgeist.

O filósofo que está a filosofar tem de vencer o relativismo da interpretação do povo em que se insere. Senão a sua teoria não teria significado e ficaria diminuída na mera subjectividade.

L – Mas não é possível intuir nos acontecimentos históricos, literários, enfim, culturais, uma finalidade para cada Nação? É por acaso que os eventos se dão?

GD – Não, não acho. Há certas constantes em cada povo. A finalidade vêmo-la após os acontecimentos.

L – Segundo as suas afirmações, as Descobertas não tinham qualquer finalidade? Nem a da constituição do V Império?

GD – Há uma mistificação da história das Descobertas, à qual estão a associar conotações políticas para justificar certa política anti-patriótica desenvolvida pelo Estado. Actualmente, os nossos dirigentes políticos têm vergonha de afirmar que fizemos a expansão, porque estão a encolher Portugal. Nós, Portugueses, estamos a voltar a casa, perdido o Ultramar.



Infante de Sagres (quadro de Malhoa).




Brasão de Armas do Infante D. Henrique



Não descobrimos nada. Não partíamos para resolver este problema: o que existe para além do mar? Nunca fizemos uma coisa destas. O que houve foi a expansão, um fenómeno de expansão. A primeira acção consistiu na tomada de Ceuta, uma vez que tínhamos chegado ao Algarve. Só depois, o Infante D. Henrique se instalou em Sagres, dando início às navegações até aos Açores e Madeira. O desejo de ultrapassar o território que possuíamos deu origem à expansão do domínio político, religioso e económico. Fomos à procura da cana-de-açucar, à procura do ouro e dos produtos exóticos. O que não significa que não houvesse pessoas que contribuíram para a expansão com a preocupação das Descobertas que resultam da ambição.

É evidente que se fizeram algumas, mas foram sempre secundárias em relação às finalidades da expansão. As navegações determinaram o desenvolvimento das ciências naúticas e a invenção de instrumentos novos, como o nónio de Pedro Nunes.

A expansão é algo de muito natural aos povos. Principalmente se há uma explosão demográfica…

L – No entanto, os Portugueses de Quinhentos não eram assim tantos…

GD – Certo. Mas as possibilidades da criar fontes de riqueza eram menores do que existem nos nossos dias. A expansão era encarada como uma possibilidade de vida.

L – Esse movimento não tinha uma finalidade superior?…

GD – Sim, de acordo, há uma finalidade, mas só foi percebida posteriormente pela história. É com a história que se formam as ideias nacionais e os ideais de um povo que, porventura, podem indicar uma finalidade. Por assim dizer, os povos nascem, crescem e morrem. Criam uma espécie de força própria. Entre nós, foi a força expansiva. Mas essas ideias mudam, embora se verifiquem determinadas constantes. Já existiam povos no território antes da formação de Portugal, mas só no século XV surgiu a vocação da marinhagem.

L – Os árabes contribuíram para essa gesta?

GD – Essa influência foi diminuta. Os árabes preocupavam-se bastante com os limites geográficos dos territórios e da astronomia, e os seus conhecimentos foram úteis às navegações. A propósito recordo aos senhores, a famosa lenda dos Aventureiros de Lisboa segundo a qual navegadores árabes aventuraram-se no mar oceano, procurando o seu fim. É mentira.

No século XI após as invasões normandas, o Amir de Córdova ordenou a constituição de uma poderosa esquadra muçulmana, sediada em Sevilha, que começou a ser construída em diversos pontos da região compreendida entre Almeria e Huelva.

Mesquita de Córdova




Por essa altura, formou-se na Alfama de Lisboa um núcleo de resistência aos normandos. A sua acção consistia na vigilância costeira assinalando a passagem dos barcos que pretendiam atacar populações do Sul. É claro que nessas missões, digamos assim, de espionagem, alguns navios tanto se afastaram da costa que se perderam. Um desses almirantes deu com as Canárias. Deste modo, nasceu a ideia lendária de que os navegadores partiam para encontrar o mar com fim. Mas essa não foi uma preocupação real.

A ideia de expansão e de navegação surgiu mais tarde, já com o território português definido. Os Portugueses foram navegadores e marinheiros.

Quanto ao Quinto Império tenho a dizer o seguinte: um mito! Trata-se de uma magicação do Padre António Vieira que não corresponde a coisa alguma.

L – Por conseguinte, não concebe um reino do espírito?

GD – Não acredito num reino do espírito ligado à política. Fixar o espírito a uma nação é criar um messianismo à semelhança do povo hebraico. Trata-se de uma ideia que não corresponde a qualquer realidade religiosa.

L – Não terá sido no espírito que Portugal fundou o seu Império?

GD – A fé e o Império, diz Camões. Fé e Império andavam espalhando…

L – Camões não diz a política e o Império…

GD – Concordo. A expansão portuguesa é religiosa e a evangelização é, na verdade, um dos seus aspectos mais importantes. Podemos até afirmar que foi o motor deste empreendimento.

Nos navios viajavam sempre sacerdotes, frades, aliás, como acontecia com os espanhóis. O modo de actuar destes últimos foi brutal. De resto, Las Casas demonstrou num dos seus livros a obra destrutiva dos espanhóis em relação aos Maias e Astecas. É claro que os Portugueses também fizeram das suas, mas não era de forma sistemática. De uma forma geral, respeitávamos os modos de vida social, cultural e religiosa que encontrávamos.

L – A Igreja impediu a realização da obra missionária dos jesuítas portugueses no Japão. Não será isto um indício de que Roma interferia negativamente na expansão?


Fuji-san (Japão).


GD – Não creio. Muitos missionários no Oriente para conseguirem a conversão daqueles povos ao Cristianismo admitiam certos rituais e práticas. Tratava-se de uma questão política.

Ora, esta atitude era considerada pela Santa Sé algo de perigoso. Na verdade, podia-se subverter o Cristianismo e as ideias cristãs.

L - Qual a finalidade dos Portugueses nos nossos dias?

GD – Agora? Não creio que voltemos a lançar os barcos ao mar. Já não somos um povo de marinheiros.

Querem-nos fazer crer que a integração na Comunidade Económica Europeia é uma finalidade que não se resume a uma intenção política e económica, como se fosse a nova descoberta.

De modo nenhum se pode concordar com a unidade política da Europa ou com as teses defendidas pelo Sr. Delors e traduzidas para a língua portuguesa pelos nossos actuais políticos.

Não discordo com a adesão de Portugal à CEE, mas a criação dos Estados Unidos da Europa é uma ideia fatal para as tradições dos povos e dos pequenos estados. Um governo central na Europa fará desaparecer por completo as unidades culturais de todo o velho continente. A ideia dos EUE, se se concretizar, marca o início de a outra história, uma história de desastres (in Leonardo, Ano I, n.º 4, Dez. de 1988, pp. 25-31).













Continua