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domingo, 16 de janeiro de 2011

Palavras do Condestável (iii)

Compilação de textos de Henrique Barrilaro Ruas






V. Amigos e companheiros:

1 - "(...) E, porque há dias que vós sois meus companheiros e eu hei provado vosso bom desejo acerca de meus feitos, por en vos faço saber esta cousa (...) E aqueles de vós a que prouguer de comigo em ele saltarem, ter-lhe-ei a grande bem e extremado serviço; os outros a quem nom prouguer podem-se ir pera u quiserem e fazer de seus corpos o que por mais seu proveito sentirem. E, porque minha tençom é de me ir pera ele [o Mestre] e o servir em ela, por em vos disse se vos prazia de serdes em elo meus companheiros". (F.L., Cr. I, 74-75).

2 - "Amigos e irmãos, bem sabeis a tenção pera que acá saímos (...) E rogo-vos que (...) vos praza de serdes membrados de vossas honras (...)". (Cr. Cond. 29-30).

3 - "(...) e eu leixarei aqui [com irmão D. Pedro, no tempo das guerras de D. Fernando] todolos meus, que nom quero comigo levar senom cinco ou seis companheiros com nossas armas sem outras azêmelas". (Cr. Cond. 35-36).

4 - "Amigos, nenhum nom duvide de mim (...)". (F.L., Cr. I, 181).

5 - "Amigos (...) minha vontade é, com a ajuda de Deus, em companha de vós outros, de os ir buscar ante que entrem (...) E espero na mercê de Deus que nos dará deles tam bom vencimento per que sempre de vós ficará honrada fama e boa nomeada (...)". (F.L., Cr. I, 174).

6 - "Amigos, eu nom sei mais que diga, do que vos já tenho dito; pero ainda vos quero responder (...) Quanto é ao que dizeis (...) Na outra cousa em que duvidais segundo parece (...) e, pera vós verdes que é assi, se a vós praz de em esta obra sermos todos companheiros, eu vos juro e prometo que eu seja dianteiro (...) e assi podereis ver a vontade que eu neste feito tenho (...) mas, nom embargando isto, se vossa tençom é todavia qual me dissestes, aqueles que se quizerem ir pera suas casas e lugares, vam-se com Deus; cá eu com esses poucos de bons portugueses que comigo vêm (...)" (F.L., Cr. I, 176).

7 - "Ora, amigos, eu vos rogo quer os que comigo quiserdes ir a esta obra, que vos passeis da parte além deste regato de água; e os que nom quiserdes ficai desta outra parte". (F.L., I, 76).

8 - "Ó Irmãos, amigos! E pera vós é fazerdes tal obra? Leixardes tanta honra como vos Deus tem prestes, e falecerdes do que prometido tendes (...)?" (F.L., Cr. I, 177; cf. Cr. Cond. 67).

9 - "E sequer vós, Gil Fernandes, que eu pensava e penso que sois um dos bons servidores que o Mestre meu Senhor em esta terra tem, tal míngua mostrais vós em tal obra como esta?" (F.L., Cr. I, 177; cf. Cr. Cond. 67).

10 - "Nembrai-vos bem de quatro cousas, e afirmai-as em vossos corações. A primeira, que vos encomendeis a Deus e à Virgem Maria sua Madre, que nos queira ajudar contra nossos imigos, (...) e firme fé que assi há-de ser. A segunda, como vindes aqui defender-nos e vossas casas e bens (...). A terceira, como sois aqui per servir vosso senhor e alcançar grande honra que a Deus prazerá de vos dar mui cedo. A quarta, que firmeis em vossos entendimentos de sofrer todo o trabalho e aperfiar na peleja, nom uma hora, mas um dia se mester for". (cf. F.L.; cf. Cr. Cond. 92).

11 - "Amigo meu, eu vos agradeço vosso bom conselho (...)". (F.L., Cr. I, 321; cf. Cr. Cond. 92).

12 - "Senhor, vossa mercê seja tal cousa nom fazer, porque os que de mim terras tinham bem mas hão servidas, e não era bom galardom haver-lhas assi de tirar (...)". (cf. Cr. Cond. 158).

13 - "(...) E eu vos rogo de serdes em esto meus companheiros. E, se algum de vós tiver alguma dúvida de o não poder fazer, assi mo diga logo". (cf. Cr. Con. 159).


VI. Adversários:





1 - "(...) E, considerando como o Mestre D. Fernando Ançores vos há feitos alguns desserviços [ao Rei D. Fernando] em vossa terra, em esta guerra que a Vossa Mercê há com El-Rei de Castela; como eu nom som em tal estado nem de tanta gente, nem de tal maneira que lho pudesse contrariar; e vendo como João Ançores é bom cavaleiro e rijo, e é seu filho, o qual muito ama, cuidei de o requestar, como de feito fiz, par a me matar com ele, dez por dez (...)". (Cr. Cond. 24-25).

2 - "(...) sobre essa intençom que ele [o Conde Mayorgas] diz (...) e se me ele nega (...) e que porende o Reino pertence ao Mestre, meu Senhor (...), que eu lhe poerei o corpo sobrelo, e lho farei conhecer, quer um per um, ou dous por dous, ou quantos ele quiser (...)". (F.L., Cr. I, 138; cf. Cr. Cond. 52).

3 - "Rui Gonçalves, (...) que se percebem bem pera a batalha e rogo-vos, Rui Gonçalves, amigo, que tanto façais por o meu amor, que vos vades com este recado o mais depressa que puderdes (...) cá entendo que nom podereis ir tam aginha que eu com a ajuda de Deus nom seja deles mui cerca". (F.L., Cr. I, 179; cf. Cr. Cond. 69).

4 - "Cavaleiro amigo, ora vós í-vos com Deus, e dizei vós a meu amigo Pedro Sarmento e a esses capitães que som em sua companhia, que se venham ao caminho quando quiserem, e i me acharõm prestes como eles desejam". (F.L., Cr. I, 297). V. também o texto n.º 4 do parág. 3.

5 - "Amigo meu, vós sejais mui bem-vindo com tais novas como estas, que me nom podíeis ora trazer outras com que me tanto prouvesse, salvo se me trouvéreis recado que El-Rei de Castela me mandava desafiar. E vós dizei ao Mestre [de Alcântara] meu senhor e amigo que me praz muito com sua desafiaçom". (Cr. Cond. 132-33).

6 - "(...) o Mestre [de Santiago de Castela], meu senhor e meu amigo, não nos havia de deixar passar por esta terra, que nos nom pusesse a batalha. Ora há mester que nos façamos prestes para ela. E quem nos tam boas novas trouxe, razão é que haja boa alvíçara". (Cr. Cond. 133).

7 - "(...) ao virtuoso e bom tanto é guardar a verdade ao imigo como ao amigo (...)". (Cr. Cond. 97).

8 - "Senhor [D. Diniz, Infante de Portugal, quando se intitulava Rei de Portugal] (...) me encomendo em vossa graça e mercê, e vos faço saber (...) E, hoje este dia à feitura desta carta, cheguei aqui a Castelo Branco. E envio-vo-lo dizer, por serdes delo certo. E rogo-vos e peço-vos que nom hajais nojo um pouco vos deter, porque, Deus querendo, eu serei convosco daqui a três dias pouco mais ou menos". (Cr. Cond. 174).

9 - "Senhor amigo, (...) a mim foi dito que vós tendes feito vosso ajuntamento de vossa gente para me vir buscar (...) E saberdes que me prouve e praz serdes assi prestes como dizem que sodes; porque dias há que esta mesma vontade tinha eu de vos ir buscar (...) E porque, outrossim, esta terra [Évora, em Junho] é muito quente, e por vos escusar de trabalho, vos rogo quanto posso que vos sofrades, e nom cureis de vir trabalhar. Porque, prazendo a Deus, eu entendo de ser onde quer que vós fordes, tan toste e mais do que vós vir. E por vos entanto avisardes de algumas cousas se vos pera esto cumprem, vo-lo faço saber". (Cr. Cond. 174).


VII. Arte Militar:




Batalha de Aljubarrota








1 - "Senhor, a mim me parece muita gente mal acaudelada, e que pouca gente com bom capitam bem acudelada os poderia desbaratar". (cf. Cr. Cond. 56).

2 - "(...) minha vontade é de em outro dia lançar uma cilada aos da frota (...)". (cf. Cr. Cond. 28).

3 - "(...) per causa que avenha, nunca tornedes as costas. E, pera esso, com ajuda de Deus, eu serei o primeiro que eles toparei, e vós seguide-me e fazede como eu fizer, e certos sede que os Castelãos não vos sofrerão, se em vós sentirem esforço de bem fazer, mas logo volverão as costas, que não têm esperança de outro acorro, e assim nos ajudaremos deles (...)". (Cr. Cond. 29-30).

4 - "Deus, que vos deu a cidade, vos dará o castelo". (cf. F.L., Cr. I, 80).

5 - "(...) E sobre tais cousas como estas convém de havermos nosso conselho (...) E, porque, fazendo-se este conselho presente(s) quantos aqui somos, seria cousa muito devassa e logo sabudo pelos de fora, que pouco convém a poucos guerreiros; poren me semelha boa ordenança que, quando tais cousas coms as semelhantes vierem, onde cumprir vosso conselho, que eu o fale com alguns de vós, pera com vosso acordo ordenarmos o que vos melhor parecer. E, se eu escolhesse alguns de vós outros, crendo que eles tinham avantagem pera seguir seu acordo, logo aqueles que som seus iguais se haveriam por descontentes e sempre seriam anojados tendo que, com desprezamento, os nom fizera do Conselho, nom os havendo por tam bons, e porem me parece que é bem que os de Lisboa escolham antre si quais lhe prouguer com que fale meus segredos, e isso mesmo os de Évora e de Beja e de outros lugares se os i houvesse, e desta guisa eu haverei meu conselho com eles como cumpre, e eles vos podem depois razoar o que é pera descobrir, e requerer-vos quais quer cousas que a cada uns de vós outros pertençam (...) Além desto vos encomendo que nossa ajuda e acorro seja de tal guisa feita aos nossos naturais, que andando nós pela terra pola defender, eles nom sentam de nós tal dano como recebem de seus imigos; doutra guisa a mim conviria tornar a elo fazendo-vos algum desprazer, o que eu nom queria por cousa que fosse". (F.L., I, 172).

6 - "(...) minha vontade é, com ajuda de Deus, em companha de vós outros, de os ir buscar ante que entrem, e pelejar com eles. (...)". (F.L., Cr. I, 174; cf. Cr. Cond. 65).

7 - "(...) já muitas vezes aconteceu os poucos vencerem muitos, porque todo vencimento é em Deus e nom nos homens (...)". (F.L., Cr. I, 176).

8 - "(...) Nem por levarem alguns dos gados nom é cousa que nos monte. Porque em terra somos que bem nos entregaremos prazendo a Deus". (Cr. Cond. 135).




VIII. Questões de Estado:

- V. texto n.º 1 do parág. 2.

1 - "Isto é obra de Deus, que se quer lembrar do Reino de Portugal; pois os da Cidade querem tomar o Mestre por seu Regedor e Defensor, para defender o reino, de El-Rei de Castela, que é fama que vam pera entrar nele". (F.L., Cr. I, 73; cf. Cr. Cond. 44).

2 - "Tais menagens nom som de guardar, poisque El-Rei [de Castela] quebra os tratos. Todolos fidalgos podem ser em ajuda do Mestre sem nenhum prasmo, o qual bem poderia juntar mil homens de armas e muitos homens de pé (...)". (F.L., Cr. I, 73).

3 -"(...) o Mestre, meu senhor, e nós outros Portugueses com ele (...) fazemos justa guerra por defensom de nossos corpos e haveres, e (...) El-Rei de Castela, mal e como nom deve, entrou em este reino ante do tempo que devera, britando os trautos que teúdo era de guardar, por a qual razom perdeu todo quanto dereito em ele havia e (...) porende o reino pertence ao Mestre, meu Senhor, (...) como filho d'El-Rei Dom Pedro que é (...)". (F.L., Cr. I, 138).

4 - "Peço-vos por mercê que me deis poder que possa dar os bens de quaisquer pessoas que vossa voz nom tenham; e, dados por mim primeiro que por vós, que a minha dada seja mais valiosa; e que possa dar dinheiro de graça e fazer quaisquer mercês e acrescentamentos, como cada um merecedor for". (cf. F.L., Cr. I, 168). V. texto n.º 5 do parág. 7.

5 - "Digo-vos, senhor Conde [D. Álvaro Pires de Castro] que, pois vós ficastes com meu Senhor o Mestre, e vontade boa tendes de o servir, que tais razões e aconselho como esse que vós dais, nom é bom nem comunal, nem ele vo-lo deve de crer, ante deve de ir per seu feito em diante e nenhuma cousa tornar atrás. (...) deve continuar sua defensom, e de todos aqueles que lhe som sujeitos (...)". (F.L., Cr. I, 145; cf. Cr. Cond. 56).

6 - "Ora, Senhor, vós não tendes aqui outrem que seja contra vosso serviço, nem que torve de vós serdes rei, salvo este roncador de Martim Vasques; e, se vós quiserdes, eu vos despacharei de seu estorvo". (F.L., Cr. I, 411). V. texto n.º 10 do parág. 3. V. texto n.º 12 do parág. 5* (in ob. cit., pp. 66-71).


* Utilizei para Fernão Lopes, a edição da Liv. Civilização (1983); para a Cr. do Condestável, a edição de Mendes dos Remédios. A obra do Pe. Valério Corseiro é: A Vida de Beato Nuno Alvarez Pereira (1919).







sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Palavras do Condestável (ii)

Compilação de textos de Henrique Barrilaro Ruas






II. A Pátria:

1 - "Que há-de ser do Reino, que assim fica deserto? Quem o há-de defender de alguns se contra ele quiserem ir?" (cf. F.L., I, 10; cf. Cr. Cond. 41).

2 - "Deus não queira que por dádivas e largas promessas vá contra a terra que me criou; mas antes despenderei meus dias e espargerei meu sangue por amparo dela". (cf. Cr. Cond. 47).

3 - "Não cumpre que por vosso aso se perca a Cidade, e o Reino seja posto em aventura. A qual coisa, pois verdadeiro português, sois, não vos deve consentir o coração". (...) (cf. F.L., Cr. 181).

4 - "Tais menagens nom som de guardar, pois que El-Rei [de Castela] quebra os tratos. Todos os fidalgos podem ser em ajuda do Mestre sem nenhum prasmo, (...) E mais vale pôr-se o Mestre em aventura com eles todos e pelejar com El-Rei de Castela que ficarem sujeitos a Castela (...)". (cf. F.L., Cr. 1, 73).

5 - "Portugal sempre foi Reino e isento por si e não sujeito a Castela, e ora não é a razão de o ser". (F.L., Cr. 1, 73).

6 - "(...) temos justa querela e razão dereita para defender nossa terra (...)". (F.L., Cr. I, 172).

7 - "(...) ainda que fosse contra todos los reis do mundo, ele [o Mestre] deve de continuar a sua defensão e de todos aqueles que lhe som sujeitos (...)" (F.L., Cr. I, 174; cf. Cr. Cond. 65).

8 - "(...) que defender vossa terra e bens, o que dereitamente sois teúdos de fazer". (F.L., Cr. I, 174; cf. Cr. Cond. 65).

9 - "Na outra cousa em que duvidais segundo parece, que é a vinda de meus irmãos em sua campanha, isto nom temais per nenhuma guisa, nem Deus nom quisesse que nenhum per mim fosse enganado; cá eu nom os hei por meus irmãos em esta parte, pois que vêm por destruir a terra que os gerou; e nom digo contra meus irmãos, mas em verdade vos juro que, ainda que i viesse meu padre, eu seria contra ele (...)" (F.L., Cr. I, 176; cf. Cr. Cond. 66).

10 - "Ah! Portugueses! Pelejai, filhos e senhores, por vosso rei e por vossa terra!" (Cr. Cond. 124).


III. O Rei:

1 - "Senhor [D. Fernando], a Vossa Mercê saiba que, por eu ser como sou, vosso criado, e pelas muitas mercês que meu padre e meu linhagem e isso mesmo eu hei de vós recebidas, e entendo de receber mais ao diante, hei [correcção de "em"] grande desejo de vos servir em tal causa que Vossa Mercê se houvesse de mim por bem servido. (...)" (Cr. Cond. 24-25).

2 - "Senhor irmão [D. Pedro], a mim parece que todalas cousas do mundo vos devia[am] esquecer e leixar, por todavia serdes na batalha com vosso rei do que vós e vosso padre e nós e todo nosso linhagem tantas mercês havemos recebidas. (...) parece-me que é bem de lhe serdes obediente e cumprirdes seu mandato. (...)" (Cr. Cond. 35-36).

3 - "Senhor [o Mestre de Avis], grandes dias há que eu muito desejei e desejo de vos servir, e nom foi minha ventuira de o até este tempo poder fazer; e, porque ora vós sois em tal ponto e estado que cuido que poderei cobrar o que tanto desejava, eu vos ofereço [a] mim e meu prove serviço, com mui boa vontade, e vos peço por mercê que, daqui em diante, me hajais por todo vosso quite, servindo-vos de mim todalas cousas, como d'homem que pera ello serei mui prestes". (F.L., Cr. I, 76; cf. Cr. Cond., 46).



O Mestre de Avis, D. João I



4 - "O Mestre fez bem e o que devia, em vingar a desonra d'El-Rei seu irmão e se pôr a defensor do reino que seus avós com tanto trabalho ganharam. (...)" (F.L., Cr. I, 73).

5 - "Meu Senhor o Mestre nom é razom que lhe ponha o corpo (...) e que porende o Reino pertence ao Mestre, meu Senhor, (...) como filho d'El-Rei Dom Pedro que é, (...)" (F.L., Cr. I, 138).

6 - "(...) tem [o Mestre] coraçom e razom de o fazer, e nenhum outro há em Portugal pertencente para ello senom ele; e todolos bons portugueses têm razom de o servir e ajudar e seguir o que começado tem, despendendo com ele os corpos e haveres atá morte. E Deus que o a esta chamou encaminhará seus feitos de bem em melhor, e o tragerá em sua guarda, e ao fim que ele deseja (...)". (F.L., Cr. I, 145; cf. Cr. Cond. 56).

7 - "Se o Mestre meu Senhor faz com El-Rei [de Castela] algumas avenças de qualquer guisa que seja, eu o conheço por tal e tão bem, que ele nom faria nenhuma preitesia salvo com sua honra e de todolos seus. (...)". (cf. F.L., cr. i, 287).

8 - "Desta vez, meu senhor o Mestre será rei, a prazer de Deus, e a pesar de quem pesar». (F.L., Cr. I, 423).

9 - "Dizei a El-Rei meu Senhor que eu nom som homem de muitos conselhos, e, pois uma vez por ele foi determinado, como ele bem sabe, de não deixar passar El-Rei de Castela [sem] todavia lhe pôr batalha, que eu desta tenção não me entendendo de mudar nem tornarei um pé atrás, mas dizei-lhe que peço por mercê que me deixe ir meu caminho, cá eu, com estes poucos e bons homens portugueses que comigo vão, lha entendo de pôr. Se sua mercê for de ir lá, mande-me dizer, e aguardá-lo-ei em Tomar". (F.L., Cr. II; in Val. Cordeiro, op. cit. 109; cf. Cr. Cond. 119).

10 - "Senhor [D. Dinis, filho de D. Pedro e de D. Inês], a mim é dito que vós sodes vindo com muitas gentes ao Reino de meu Senhor El-Rei, a fazer guerra e mal e dano. E ainda o pior, que é que por onde vós vindes vos chamais Rei de Portugal, do que muito me maravilho. (...)". (Cr. Cond. 184-85).


IV. Família:

1 - "Senhor, vós me falais em casamento, cousa de que eu nom era avisado; poren vos peço por mercê que me deis lugar para cuidar em ello, e assi vos poderei responder". (F.L., Cr. I, 69; Cr. Cond. 9).

2 - "Minha vontade nom é de em nenhuma guisa casar" (cf. Cr. Cond. 10).

3 - "Praz-me de o fazer, pois que a meu padre apraz e vóz haveis por bem" (cf. Cr. Cond. 10).

4 - "Senhor irmão, bem sabeis (...) E por em vos peço por mercê que me deis lugar e licença para eu me, com a ajuda de Deus, dela me desembargar". (Cr. Cond. 23).

5 - "Senhor irmão, (...) vos peço, senhor, por mercê, que me dedes lugar para ser ela [batalha projectada, entre D. Fernando e o Rei de Castela] (...)" (Cr. Cond. 35-36).

6 - "Nós [ele e o irmão Fernão] não temos prol nem honra de aqui mais estar. E por en é bem que nos vamos pera as posadas. Mas, ante que nos vamos, eu quero fazer que estes que nos pouco prezaram e de nós escarneceram, que fiquem escarnecidos". (Cr. Cond. 38).






7 - "E, porque eu hei por novas certa que o prior do Hespital meu irmão (...) e outros senhores (...) som prestes para entrarem em esta terra (...), minha vontade é, com a ajuda de Deus, (...) de os ir buscar (...) e pelejar com eles. (...)" (F.L., Cr. I, 174; cf. Cr. Cond. 65; v. também o texto n.º 9 do parág. 2).

8 - "Rui Gonçalves, (...) em breve vos respondo assi: que vós digais ao Prior meu irmão que eu, neste feito, nom quero seu conselho, nem Deus nom querrá que o haja de crer do que me manda dizer (...)". (F.L., Cr. I, 179; cf. Cr. Cond. 69).

9 - "Mas maravilho-me muito de vós [o irmão Pedro] haver tão pouco tempo que andais com os Castelãos, e saberdes já tantas castelanias". (cf. F.L., Cr. I, 287).

10 - "A Senhora D. Izabel minha netinha faça Deus santa. (...) mas vós, minha linda, nom leixo de vos querer como à vida. (...) sendo uns e outros pedaços da alma (...) sodes a vossa madre (...) e nom digo al senom enviar-nos a minha bênçom, e a de Deus vos cubra, minha linda". (É uma das cartas publicadas pelo Pe. Pereira de Santana, em 1745; v. Pe. Valério Cordeiro, op. cit., 164 n; cf. Pe. Silva Tarouca, loc. cit., 140).

11 - "(...) E dizei a meu irmão Mestre de Calatrava [D. Pedro] que de mim não cure e cure de si, que entendo haverá mal de passar, do que a mim muita pesa, por não querer crer, no começo destes feitos, o que lhe disse (...)" (cf. Cr. Cond. 123) 'Senhor, eu vos peço por mercê que, pois lhe dou [a d. Afonso, futuro duque de Bragança] o condado de Barcelos, que o façais conde (...)" (cf. Cr. Cond. 199).

(in ob. cit., pp. 62-66).




Continua


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Palavras do Condestável (i)

Nota introdutória e compilação de textos de Henrique Barrilaro Ruas







Ruínas da nave da igreja do Convento do Carmo de Lisboa































Quereria corresponder à generosa intenção de quem me convidou a participar activamente neste colóquio, oferecendo aos estudiosos do Carmo e aos portugueses em geral o discurso do próprio Nun'Álvares (Comemoração dos 600 anos da Fundação do Convento do Carmo em Lisboa. Actas do Colóquio Comemorativo, Lisboa, Associação dos Arqueólogos, 1989, pp. 73-86). Tantas vezes me tem sido dado falar do Santo Condestável - e só hoje, afinal, me acolho a esta sua Casa, para o propor à contemplação e à amizade dos seus irmãos em Pátria. Bem é que seja ele a falar, e eu não passe de escriba.

Parto da ideia, que me serve de hipótese de trabalho e ao mesmo tempo de guia espiritual, de que é legítimo ter por autêntico - não direi cada palavra, mas o discurso global que os cronistas seus contemporâneos lhe atribuem. A gelada desconfiança com que os historiadores pegam, a medo, esses textos, já de há muito me pareceu sem verdadeiro fundamento. Embora geralmente se diga que a estenografia (ou notas tironianas) caiu em desuso durante a Idade Média, parece bem possível supor que alguns dos clérigos ou outros homens cultos que desde cedo acompanharam o fronteiro de Ante Tejo e Odiana, o membro do Conselho de Regedor do Reino, o Condestável e Mordomo-Mor de El-Rei, o Conde de Barcelos, de Ourém e de Arraiolos, o íntimo da Família Real - algum entre tantos fosse tendo o cuidado de recolher, com melhor ou pior técnica, as palavras de D. Nuno. Fernão Lopes refere-se, como é sabido, a vários autores que se dedicaram a escrever os feitos do Herói. Definitivamente desterrada (será possível dizê-lo?), a tese identificadora do autor da Crónica de D. João I, o trabalho de cotejar ambas as Crónicas, seguindo, por vezes, a aguda análise do grande historiador dos nossos Reis e do nosso Povo, creio eu que permite uma conclusão aproximada da verdade - verosímil - como tantas coisas em História! Por outro lado, há na massa de discursos e proposições atribuídas ao Condestável, sem esquecer as simples exclamações, os clamores de incitamento bélico, quase diríamos o seu fresco riso e o suave cântico da sua alma em prece - há em tudo isso, e também nas cartas que com alguma felicidade dele se puderam conservar, uma tão perfeita unidade, uma harmonia tão acolhedora, que soa a falso o sorriso do céptico.

Dir-me-ão que há regras precisas e exigentes, para escrever história. E há. Mas tomara eu conseguir apresentar-vos, minhas Senhoras e meus Senhores, uma sombra que fosse das duas Crónicas!...

O que vou provar a V. Exas. não é, como me perdoarão que ainda não seja, um trabalho completo e de inteiro rigor. Gostaria de ter ainda ocasião de tentar uma análise de tudo quanto, nessas duas obras exemplares, nos traz, em discurso directo e mesmo no indirecto, a fala ou a escrita do Condestável. A esses trechos se juntaria, somente, a breve e mal tratada epistolografia - e, como é óbvio, as fontes diplomáticas. Por hoje, vou apenas cuidar de justapor e depois encadear e de algum modo ordenar com certa lógica e um aceno de hierarquia axiológica - as palavras do Conde Santo que vão sangrando as páginas das suas Crónicas. Só raramente atendi ao discurso indirecto, tratando de ver o direito desse avesso. E tive presentes, para me estimularem e guiarem, algumas das obras modernas dedicadas à biografia do Condestável, com preferência para aquela que julgo ser a mais científica: a do Pe. Valério Cordeiro, que entendo mereceria uma reedição actualizada. Muito devo também ao eruditíssimo e exigentíssimo estudo do Pe. Carlos da Silva Tarouca, "O 'Santo Condestável' Pode Ser Canonizado?", publicado na Brotéria de Agosto-Setembro de 1949.

Vamos ouvir Nun'Álvares. Dele escreveu Fernão Lopes: "Nun'Álvares era de pouca e branda palavra e seu gasalhado e doces razões contentava muito a todos" (I, 173 da ed. Civilização); e ainda: "(...) com boas palavras, com gesto ledo e prazível" (I, 180 id.). E o Cronista, depois de falar do "evangelho português", esclarece: "A qual pregação, Nun'Álvares e os seus, por palavra e obra, fizeram tão cumpridamente, que alguns deles, como depois vereis, foram mortos por a defender" (30 id.). A palavra que havemos de escutar é daquelas raras palavras em que o sangue e o espírito estão presentes, ensinam e comandam, recordam e vivificam. Sequiosos dessa água viva, perdidos como estamos no dilúvio da palavra morta, peçamos ao Espírito Santo (cuja festa de avizinha), que nos renove interiormente para que a palavra viva do Seu Servo não morra ao entrar em nós.


Os Textos







I. Diante de Deus e da Imagem de Deus:

1 - "Amigos! Eu vos quero contar um segredo e grande feito que trago cuidado em meu coraçom, o qual é este: assim é que eu vejo, no meu entendimento, um poço mui alto e mui profundo, cheio de grande escuridão; e bem me diz a vontade que non há homem que nele salte que d'ele possa escapar, salvo por grande milagre, querendo-o Deus livrar d'ele por sua mercê. E nom posso com meu coraçom se nom todavia que salte em ele. (...) Amigos! O poço mui alto e escuro que vejo ante meus olhos é a grande demanda que o Mestre dizem que quer começar por defensom destes reinos contra El-Rei de Castela. E entendo que quem com ele em ela entrar que lhe será grave e mui perigoso, nem é ainda de cuidar que d'ela escape, salvo per graça de Deus". (F.L., Crónica de D. João I, I, 74-75).

2 - "Isto é obra de Deus, que se quer lembrar do reino de Portugal (...)". (Cr. do Condestável, 44).

3 - "Deus que Vos deu a Cidade, Vos dará o Castelo". (F.L., Cr. I; cf. Cr. Cond., 49).

4 - "Outrossim porque nós temos justa querela e razom dereita para defender nossa terra, crendo que Deus é justo juiz, cheguemo-nos a Ele que nos ajude; e, se assi fezermos tendo firme esperança em Deus, poucos de nós venceram muitos". (F.L., Cr. I, 172).

5 - "E Deus que o a esto chamou encaminhará seus feitos de bem em melhor, e o trará em sua guarda, e à fim que ele deseja (...)". (F.L., Cr.I, 145; cf. Cr. Cond., 56-57).

6 - "Amigos! Nenhum nom duvide de mim; e todos aqueles que me ajudardes, Deus seja aquele que vos ajude; e, se eu aqui morrer per vossas culpas e míngua, Deus seja aquele que vos demande minha morte". (F.L., Cr. I, 181).

7 - "(...) minha vontade é, com ajuda de Deus, em companha de vós outros, de os ir buscar ante que entrem, e pelejar com eles. E espero na mercê de Deus que nos dará deles tão bom vencimento (...)". (F.L., Cr. I, 174; cf. Cr. Cond., 65).

8 - "Amigos! Eu nom sei mais que diga, do que vos tenho dito; pero ainda vos quero responder a esto a que me dissestes. (...) todo vencimento é em Deus e nom nos homens. (...); mas, não embargando isto, se vossa tenção é todavia qual me dissestes, aqueles que se quiserem ir pera suas casas e lugares, vam-se com Deus (...)". (F.L., Cr. I, 176; Cr. Cond., 66).

9 - "Ora, amigos, eu vos rogo que os que comigo quiserdes ir a esta obra, que vos passeis da parte além deste regato d'água; e os que nom quiserdes, ficai desta outra parte". (F.L, Cr. I, 176).

10 - "Oh! Irmãos, amigos! E pera vós é fazerdes tal obra? Leixardes tanta honra como vos Deus tem prestes (...)". (F.L., Cr. I, 177; cf. Cr. Cond., 67).

11 - "(...) eu, da intençom que tenho tomada, nom me mudarei em nenhuma guisa, senom com a ajuda de Deus levá-la em diante (...)". (F.L, Cr. I, 179; cf. Cr. Cond., 69).

12 - "Nom me parece bem nem aguisado tomar dinheiros de nenhuma pessoa, salvo daquela a que se entenda servir (...)". (F.L., Cr., I, 248).









13 - "Desta vez, meu Senhor o Mestre será rei, a prazer de Deus (...)". (F.L., Cr. I, 423).

14 - "Amigo meu! Eu vos agradeço bom conselho; mas esta cousa Deus a fará melhor do que vós dizeis; e, para vós não verdes esto que assi sonhastes, eu vos mando que fiqueis e nom vades comigo; per esta guisa vós nom vereis vosso sonho cumprido, nem prazerá a Deus que será assi". (F.L., Cr. I, 321).

15 - "À Senhora Dona Izabel, minha netinha, faça Deus Santa. (...)". (Carta atribuída ao Santo Condestável por antigos cronistas; datada de 11 de Abril de 1429; in Valério Cordeiro, 164 n).

16 - "Afonso Pires amigo! Ora prouvesse a Deus de serem aqui as gentes de todo o reino de Castela, cá, com a graça de Deus, tanto haveríamos maior honra. (...)". (Cr. Cond., 134-35).

17 - "Ora prouvesse a Deus que, de tanta terra me a mim Deus e meu senhor El'Rei há feito mercê, eu nom tevesse nenhuma cousa: e tal cousa nom fosse feita". (Cr. Cond., 373).

18 - "Pela nossa fé santa, de verdade e com boa e desejada vontade". (Cr. Cond., 24).

(in S. Nuno de Santa Maria, Nuno Álvares Pereira, Antologia de documentos e estudos sobre a sua espiritualidade, Selecção e Apresentação de J. Pinharanda Gomes, Zéfiro, 2009, pp. 59-62).



Detalhe da porta principal com tímpano e arquivoltas (Mosteiro de Santa Maria da Vitória, Batalha).




Nave central e Capela-mor




Claustro real






Capela do Fundador



Abóbada da Capela-mor



Abóbada



Interior da Igreja







Continua