segunda-feira, 29 de outubro de 2012

As aparições de Fátima e a filosofia portuguesa (iii)

Escrito por Pinharanda Gomes





«O grave problema filosófico acerca da prioridade da matéria institui-se em diversas leituras, predominando a intendência averroísta e cabalista. António Telmo encaminha a leitura, não no sentido da prioridade, mas no sentido da necessidade: a matéria é isso de que o Espírito carece para se cumprir. Nessa acepção, a matéria interpreta-se como a própria "árvore sephirótica", a genuína madeira (forma vulgar da erudita matéria) que é matéria, mater e mãe, princípio da multiplicação, que se ergue do abismo para se dar à luz do sol, sol esse que é o próprio Espírito. Esta leitura faz compreender o ensinamento maçónico segundo o qual o Grande Arquitecto do Universo edifica o Templo, não com pedra, mas com madeira. Essa madeira é Maria, a matéria pela qual o Espírito humaniza uma pessoa divina, uma hipóstase teótica, através de Maria incarnada no mundo dos corpos. Álvaro Ribeiro, mestre de Telmo, já sublinhara a contiguidade da biografia de Jesus com a ideia de madeira: o pai adoptivo é carpinteiro e, transmite, sem dúvida, a sua profissão ao filho, cuja alma ajudou a carpinteirar, a aperfeiçoar.

(...) O nome dos lugares obriga a repensar o peso do toponímico Fátima, que foi o adoptado pelos fiéis e pelos mais cediços documentos da propaganda e da pastoral. No entanto, Fátima é a jurisdição administrativa dos lugares em que as aparições ocorrem. Lugares nominados em simbologia de fertilidade, de maternidade, de esotericidade matricial e natural: Cova da Iria, Loca do Cabeço, Valinhos. O genuíno lugar sagrado é Cova da Iria, em que a aparição é a de Maria, Mãe de Jesus. Este é o espírito do lugar.

(...) A esta luz consideram-se excedentes os tratados de fundamentalismo fatimista, entre eles, o de Moisés do Espírito Santo, Os Mouros Fatimidas e as Aparições de Fátima, Lisboa, Universidade Nova, 1995, sem prejuízo de notáveis concatenações que o Autor obtém, no plano sócio-etnológico-religioso, que merecem atenção. Não temos dificuldade em aceitar a pastoralidade de Fátima quanto ao diálogo Igreja/Islão, tal como definida em escritos de António de Cértima (O Carisma de Fátima e a Teologia Islâmica, 1967) de Frederico Peirone e da pastoral missionária de D. Eurico Dias Nogueira. Cf. Pinharanda Gomes, A Filosofia Arábico-Portuguesa, Lisboa: Guimarães Editores, 1991, pp. 373 e seguintes».

Pinharanda Gomes («Cidade Nova»).


«Em Os Mouros Fatimidas e as Aparições de Fátima, Moisés do Espírito Santo apresenta uma versão cautelosa dos acontecimentos não só deveras interessante como bem mais verosímil.

Ao contrário do que comummente se crê, não foram árabes quem invadiu a Península Ibérica em 711, mas sim berberes de Marrocos, pertencentes às tribus Macemuda e Zenaga, comandados por um berber, Tarik.



Hamsa ("cinco" ou "mão de Fátima", filha de Mohamed).


Os Macemudas diziam-se descendentes de Fátima, filha de Mohamed, e a sua doutrina era um chiismo primitivo, considerado herético pelo Islão ortodoxo, ou sunita, e que tinha muitos pontos comuns com o gnosticismo, o zoroastrismo e o misticismo cristão. Para os chiitas, a legitimidade da sucessão do Profeta pertence aos descendentes de Fátima, cujo marido, Ali ibn Talib, foi o primeiro Imam, dele descendendo onze imanes. Esta descendência, que podia ser genealógica ou espiritual, implicava a transmissão de um Segredo sobre a chave para a interpretação do sentido secreto e alegórico do Corão. O último Imam, Muhamad al-Muntazar (Mohamed, o Esperado), nasceu, miraculosamente, no ano 255 da Hégira (868 A.D.) e miraculosamente desapareceu cinco anos depois; ocultou-se fisicamente, mas vive, ainda hoje, no seu corpo físico, num mundo supra-sensível, aguardando a chegada da hora da Desocultação Messiânica em que, como Messias, combaterá a injustiça e a decadência moral, após o que virá o Senhor Jesus, filho de Maria, para o Julgamento Final.

Os Macemuda e Zenaga ocuparam a Serra de Aires, onde, naturalmente, deixaram numerosos vestígios toponímicos, quer da sua presença de cinco séculos, quer do seu próprio sistema religioso. Citem-se, a título de exemplo, Moçomodia, uma aldeia de Fátima, que deriva de Macemuda; Zanaga, um bairro de Caixarias, que vem de Zenaga; Fátima, a freguesia, que retirou o seu nome de Fátima, a filha do vali de Alcácer do Sal e protagonista de uma bela lenda dos tempos da fundação de Portugal; Fazarga, um cabeço situado a cerca de dois quilómetros da Cova da Iria, que vem de az-Zagra, a Resplandecente, um dos títulos de Fátima, esta a filha do profeta; Chita, uma ribeira, derivada de chiita; Aljustrel, que virá do hebraico, ou do púnico, ahl ses tr'eli, gente que invoca o regresso de Ali, ou Elias; Madalena, uma corrupção do árabe mahdi i'lana, messias anunciado; Iria, que deriva de riya (lê-se eriía), um grau do sufismo, que significa aparecer, mostrar-se, porque o iniciado sufi começa a ver coisas, etc.

Assim, na opinião deste autor, é muito provável que na região que hoje é a Cova da Iria, sufis das tribus Macemuda ou Zenaga hajam tido várias visões que terão tomado pelo Imam Oculto ou por Fátima, a filha do Profeta. Séculos mais tarde, as visões ter-se-ão repetido na presença de três crianças que tinham acabado de rezar as contas, uma prática semelhante à que os sufis usam para alcançarem o êxtase, cujos relatos contêm a mesma gnose dos fatimidas macemudas: "aparição do Oculto, vulto de luz masculino-feminino de 15 anos, cinco figuras ao lado do sol, sinais no sol", diz Moisés Espírito Santo. Daí que, hoje em dia, os Marroquinos estejam persuadidos de que os Portugueses veneram, na Cova da Iria, Saidatuna Fatemah (Senhora Nossa Fátima), ou Leila Fatemah (Dama Fátima)».

António Monteiro («O que é Fátima?»)





Maria, Mãe e Mestra segundo Álvaro Ribeiro




Quanto às aparições da Cova da Iria, Álvaro parece nada ter escrito de forma inequívoca. Os documentos que nos legou são riquíssimos em termos de Angelologia, de Teologia e de Messianologia, como são algo de singular quanto à natureza e ideal da mulher, acerca da qual escreveu páginas apologéticas sem termo de comparação na nossa cultura. Pensador angélico, sem dúvida, acerca de Fátima foi omisso. No entanto, Francisco da Cunha Leão efectuou, a partir da mariologia alvarina, uma glosa, segundo uma leitura providencialista. Atento aos valores peculiares à tradição popular, Álvaro considerou as devoções marianas, ligando-as à sensibilidade da nossa meiguice e à importância da figura feminina, tanto na poesia como na vida (30). No mínimo estamos certos de um diagnóstico em que acolhe os portugueses como "sedentos de devoções particulares, e contentes com a autorização que o Magistério Eclesiástico concede de publicar e ler as narrativas das aparições maravilhosas e de todos os correspondentes milagres" (31). Álvaro entende que esta aceitação significa o fervoroso desejo de que a intervenção da "Terceira Pessoa da Santíssima Trindade venha, enfim, dar melhor explicação da doutrina revelada" (32), ou seja - as aparições de Maria podem ser olhadas no contexto da pedagogia da fé, ou da educação maternal pelo magistério da fé.

Quem leia os ensaios de propedêutica antropológica de Álvaro Ribeiro, dar-se-á conta de como a condição feminil e de como a missão da mulher - aceite como amante, esposa e mãe - é inteligida por um observador contemplativo e valorante da dignidade e da singularidade da mulher no processo da geração e da redenção do género humano. Nenhum pensador contemporâneo dedicou tão excelsas páginas à mulher como essas que constam do capítulo acerca do amor, no ensaio primacial intitulado A Razão Animada. Segundo Álvaro não há magistério sem amor; o amor é por excelência feminino, de onde o magistério incumbir à mulher, à mãe, tendo o homem, o pai, melhor peso na magistralidade paidêutica. A religião, atributo apodítico do amor, inere muito mais à mulher do que ao homem, de onde Álvaro considerar paradigmática a devoção a Maria, mãe de Jesus. Quem estas palavras escreve pode testemunhar em acto de fidedigna verdade, como, um dia, ouviu de Álvaro a pergunta: "porque é que Nossa Senhora, nas modernas aparições aparece sozinha, como se não fosse mãe?» Não tinha qualquer dificuldade em aceitar os significados da Imaculada e da Assumpção, porque achava estes tópicos nominais como símbolos da excelsitude da missão feminina, mas fazia depender esta excelsitude da missão soteriológico-magistral da mulher, a pontos de entender que a missão do mestre, sendo este masculino, equivalia de algum modo à posse de predicados femininos, antecipando-se ao que já hoje se denomina "maternidade divina". Não se diz pai e mestre, diz-se mãe e mestra, mater et magistra, a mãe e a mestra do homem. Por isso que Álvaro sentisse o que, por suas palavras, se diria constituir a solitude da mãe, sozinha, sem o marido, e sem o filho. Admirava ele a imagem do Perpétuo Socorro, que aceitava como digníssima imagem da missão escatológica da mãe de Jesus. "A predilecção pela imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro explica-se pela razão de que nessa obra de arte está patente a divina maternidade na perfeição dos seus atributos. Não é já a Mãe que amamentou o filho, mas a mãe que o educou e preparou para o seu destino redentor e messiânico. Não é já a maternidade biológica, ainda com sabor pagão, mas a maternidade espiritual, em seu pleno significado educativo... A imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, se bem que contenha os elementos simbólicos do sofrimento humano, deixa indeterminado o exercício fecundo da imaginação" (33). Este olhar para a educadora do homem permite ao filósofo sugestivos tentâmes hermenêuticos à doutrina do pecado original, do mistério da incarnação e da missão redentora do Messias. Aliás, como deixa transparecer em vários dos seus escritos, o mistério da incarnação é menos um facto biológico do que um facto teológico, e isso dá a depreender da dedicatória do livro iniciático A Arte de Filosofar (34) ao poeta que ele considerava como o genuíno poeta do mistério da incarnação, o seu amigo e antigo condiscípulo, José Régio.




Os queixumes do filho são as dores da mãe. Curiosamente, as aparições de Nossa Senhora em Fátima decorrem no chamado ciclo da alegria, que liturgicamente começa logo na segunda-feira de Páscoa com as festas marianas, que se desenvolvem por toda a parte durante o tempo pentecostal e o tempo comum, até ao início do Advento. E, não obstante, a Senhora dos Pastorinhos parece ser Nossa Senhora das Dores ou da Piedade. Trazia uma mensagem de alegria, de esperança, mas o seu coração rebenta de ingente dor: seu filho está muito ofendido pelos pecados dos homens. Ela apresenta ao mundo, através dos Pastorinhos, o seu Jesus crucificado pelos pecados humanos. Ela apresenta o Menino Jesus pregado na Cruz. A Senhora só se identificou como do Rosário em 13 de Outubro de 1917. O bispo de Leiria fundou, em 1928, a Confraria de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, no Santuário, mas não foi por acaso que a congregação fundada pelo Cónego Formigão se chama Servas Reparadoras de Nossa Senhora das Dores de Fátima, e que Lúcia professou a primeira vez com o nome de Irmã Maria das Dores.

A imagem da Senhora das Dores aparece, como que a fechar o ciclo, na aparição de 13 de Outubro, embora esta imagem fique delida pela multiplicação de outras imagens surgentes no mesmo ensejo, incluindo a da Sagrada Família. Consideremos, aliás, que um dos primeiros obreiros de Fátima, o militante católico Alberto Diniz da Fonseca, notário em Torres Novas, um dos "empresários do sobrenatural", como lhe chamava o seu amigo e condiscípulo anti-clerical Tomás da Fonseca - também achava que Fátima era principalmente a Sagrada Família e o Anjo da Paz (35), ainda que a iconografia da pastoral optasse pela representação descrita desde início pelos Pastorinhos, a Senhora, sem companhia visível. Alberto terá as suas dúvidas: não foi ele quem apoiou Gilberto Fernandes Santos a encomendar a primeira imagem para a capelinha, não a da Sagrada Família, mas a da Nossa Senhora das Dores, sem espada, e de branco e ouro revestida?

Fechando: no pensamento de mestre Álvaro, em consonância com o de Leonardo, a virgindade vale pela maternidade. Toda a mãe é virgem, baste que se distinga entre oclusividade fisiológica e virgindade espiritual.


Mostração e demonstração




A crítica de Álvaro Ribeiro ao positivismo envolve os aspectos em que o positivismo contaminou a arte e a técnica de exposição da fé e da ciência divina, incluindo a apologética, em que, no seu entender, surgiram obras em que "Deus aparece como um problema ontológico, Cristo como um problema histórico, a Igreja como um problema sociológico" (36). Assim como admite vários graus de revelação, o magistério alvarino assume que nem todo o saber é adquirido e construído, mas que há um saber herdado por revelação, de onde o mérito concedido ao prólogo de Santo Anselmo, "neque enim quaero intelligere ut credam, sed credo ut intelligam", com que abre o seu admirável compêndio iniciático (37).

Ora, do ponto de vista das teses da "Filosofia Portuguesa", os documentos escritos, mesmo os de natureza jurídica, podem não conter a verdade tal e qual, podendo uma escritura conter uma narrativa decorrente de um acordo prévio das partes, para que os termos sejam aqueles e não outros, quais os da situação real. Sendo assim, a interpretação da história pelos documentos positivos não esgota o conhecimento da história através da qual flui um espírito, imperceptível à provação positiva. Esta limitação, óbvia para a história humana, em que os factos podem significar mais (e menos) do que os próprios factos, devém mais complexa na probação dos acontecimentos espirituais de natureza sobrenatural. Por isso, a tradição da escola rejeita, por excessivos, ou unicamente polemizantes, aqueles documentos escritos que, através de uma dialéctica de facto/contra facto, ou de uma antinomia de como é/ como devia ser, ou de uma sofística de que os factos são os factos, de nada valendo argumentos, - tentam positivizar a revelação sobrenatural, situando-a em termos tais que o teatro, ou encenação aparicional, depende muito mais de uma inteligência estética do humano, do que da inteligência divina, inacessível às razões aduzidas do particular. Deste modo, a aparição dirige-se à pistis, ao entendimento pístico, à capacidade de crença e, por fim, ao próprio dom da fé. São desnecessários os livros comprovativos, pela indução de factos particulares, da veracidade, autenticidade ou falsidade das aparições. Até porque, e no respeito do valor axiológico da subjectividade, só o que vê sabe o que vê: e nenhum outro vê como a sua (do outro) subjectividade vê. A aparição não apela à prova, nem sucede para ser demonstrada: ela é a sua mesma prova, uma mostração que recusa demonstração (38). Foram estas orientações que presidiram ao manifesto, ou declaração de vários escritores, entre eles alguns vinculados ao chamado Grupo da Filosofia Portuguesa (Afonso Botelho, Alexandre Coelho, Francisco da Cunha Leão, Henrique Ruas, entre outros) em que, a propósito de um escrito maledicente, afirmaram: "O mistério de Fátima é superior à história, positiva, ou negativa; e garante, todos os dias, um sinal de esperança na verdade da crença e na crença da verdade" (39).


Notas:

(30) Francisco da Cunha Leão, O Enigma Português, Lisboa, Guimarães Ed., 1961.

(31) Álvaro Ribeiro, Apologia e Filosofia, Lisboa, Guimarães Editores, 1953, p. 50.

(32) Id., ib.

(33) Álvaro Ribeiro, "O Perpétuo Socorro na filosofia da nossa vida", in Miriam, Ano II, n.º 11, Porto, 1955, p. 509, Cf. adiante.

(34) Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar, Lisboa, Portugália Editora, 1955. Uma das mais belas páginas portuguesas sobre os carismas de Maria acha-se em Álvaro Ribeiro, A Literatura de José Régio, Lisboa, S.E.C., 1969, p. 359. "Mais do que a virgindade, o povo admira a maternidade extensiva a todos os homens, conferindo-lhes um suplemento de alma, tal como foi invocada na mais bela oração inspirada que teve por autor S. Bernardo."



São Bernardo de Claraval


(35) Padre Geada Pinto, prefácio a Pinharanda Gomes, O Servo de Jesus Alberto Diniz da Fonseca, Guarda: Liga dos Servos de Jesus, 1988, p. 8; AA. VV., Espiritualidade das Religiosas Reparadoras de Fátima, Braga: Apostolado da Oração, 1997.

(36) Álvaro Ribeiro, Os Positivistas, Liv. Francisco Franco, 1951, p. 106. Cf. António Quadros, "A Filosofia Portuguesa, de Bruno à Geração do 57", in Democracia e Liberdade, números 42/43, Lisboa: I.D.L., 1987, pp. 7-71.

(37) Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar, Lisboa, Portugália Editora, 1955, p. 11. Cf. Pinharanda Gomes, "A Arte de Filosofar", in Álvaro Ribeiro e a Filosofia Portuguesa, Lisboa: Fundação Lusíada, 1955, pp. 193-206.

(38) O elenco de obras demonstrativas ou inquiritivas acerca de Fátima é extenso, tanto em apologética negativa, como em apologética afirmativa. Citem-se, entre outros, os livros de Tomaz da Fonseca e de João Ilharco e, por outro lado, de J. Galamba de Oliveira, o popular Fátima à prova (1946) e de P. Oliveira Faria, Perguntas sobre Fátima e Fátima Desmascarada (1975). José Rodrigues Miguéis, no romance O Milagre segundo Salomé (1975) entrecha a história de uma senhora que, em 1917, noiva de um engenheiro que trabalhava em topografia na Serra de Aire, se apresentava por vezes, como sendo "a senhora de Fátima"!!! O romance romanceia, mas não pretende demonstrar seja o que for: cumpre o aproveitamento de uma "estoria".

(39) Essa declaração, que inserimos em Apêndice, apareceu em diversos jornais em 1972 - tendo sido suscitada pelo livro Fátima Desmascarada (1971).


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

As aparições de Fátima e a filosofia portuguesa (ii)

Escrito por Pinharanda Gomes 




Casa de Teixeira de Pascoaes


Serra do Marão





«O poeta do Marão, referindo-se à religião dos portugueses falou em "Deus sem intermediários". Este não constitui, a nosso ver, o fundamento de um certo anti-clericalismo, anotado por vários escritores e testemunhado pelos tempos fora. A religião dos portugueses, pelo contrário, como dissemos, é mediata, através do mundo e da saudade, propensa a intercessores, disposta a reconhecer e criar santos. Aceita naturalmente o clero mas não lhe suporta o poder temporal como classe nem os possíveis abusos; de modo algum lhe concede o exclusivo da Divindade, porque a intui sem custo e a sente por igual sua - tão sua como do Clero. Daí a exigência em relação aos sacerdotes, enquanto sacerdotes, e a liberdade que sempre tomou de os criticar. Tal atitude não envolve, as mais das vezes, heterodoxia.

O nosso povo é muito sensível aos exemplos vivos da virtude, especialmente nos aspectos de caridade e de justiça - equivalente a amor; logo toma por medianeiros os seus autores, não lhes regateia qualificação de santos, perdoando-lhes humanais fraquezas; nem espera que os canonizem.

A devoção a Santa Maria - a Virgem e a Mãe, comovem-no por igual - e gradações riquíssimas, pluriformes de naturalismo e ternura (Senhoras do Ó, do Leite, de África, de Entre-as-Vinhas, da Silva, etc...) como de invocação angustiosa (dos Remédios, das Dores, das Angústias, da Expectação, do Pranto, da Consolação, da Esperança, da Ajuda, do Socorro, da Piedade, dos Aflitos, dos Mártires), de excelsa virtude e glória (da Pureza, da Purificação, das Neves - mesmo onde não há neve - da Conceição, da Assumpção, dos Altos Céus, da Luz, da Graça, dos Anjos), na linha mítica da sublimação do feminino, constitui um dos traços mais salientes de uma religião entranhada em sentimento. A mensageira ideal, segundo a lei humana do coração, à qual o próprio Deus feito menino obedeceu, outra não pode ser.

Quanto ao caso de Fátima, aceite ou não o factor sobrenatural - de qualquer ângulo sobressai, exigindo reflexão, a espantosa dinâmica realidade espiritual ali surgida colectivamente e que tanto se prende à psique do povo português. Em que medida foi esta influente, ou decisiva, para criar e impor à hierarquia eclesiástica e ao mundo inteiro tamanha polarização de fervor religioso, em que a fé humilde se exalta pela mais contagiosa esperança do apelo à Divindade? De que modo foi influente ou decisiva em sublinhar a intercessão mariana?

Por ela um árido ermo de azinheiras se transfigura em sede sentimental do Catolicismo, em coração de Cristandade, - "altar do Mundo", que é templo sem tecto nem paredes, ora lago de lume, ora nuvem de aves brancas. Dissolução ecuménica da Igreja que deixou de se dizer romana? Pentecostes a congregar de novo os que rodeiam a Virgem - ontem assembleia de apóstolos, agora ajuntamento de nações?


Nossa Senhora de Fátima


O português esquiva-se à rigidez ordenancista e à exteriorização. ("A muita cera queima a Igreja"). Com vivência religiosa intensa ao longo de toda a história contrasta o número pequeno de Santos que houve em Portugal e assim também a escassez de padres. Poderá objectar-se que esta é recente, pois outrora isso não acontecia; há que descontar porém na antiga superabundância de frades, os efeitos de uma pressão económica e social em meio desafecto ao labor utilitário que atirava para a vida eclesiástica muitas pessoas falhas de vocação. Aliás sempre dependemos em certa escala de padres estrangeiros para as nossas missões. Não me recordo em que livro li, registada, a explicação de um galego para o caso: "Somos humanos em demasia..."».

Francisco da Cunha Leão («Ensaio de Psicologia Portuguesa»).


«A par da meditação dos mistérios da vida de Jesus, é notável a preferência que o povo português manifesta pelo culto mariológico. A Imaculada Conceição, a Anunciação e a Assumpção, isto é, os três mistérios diferentes segundo os quais correlacionamos a Mãe com o Filho, tem seu equivalente na incredulidade e cepticismo com que os portugueses recebem as doutrinas que afirmam a irredutibilidade e contradição entre o que chamam matéria e o que chamam espírito. A Mãe de Deus está para nós, não como salvadora, mas como advogada e, na própria missionação portuguesa perpassa o traço azul e branco do seu manto protector e benéfico. Efectivamente, há dois processos de missionação: um a que , poderemos chamar dialéctico, opondo o ser ao não ser e que se propaga pela contradição ou controvérsia, substituindo a religião considerada falsa por aquela que se considera verdadeira. Este, o processo dos espanhóis com sua iconoclastia bárbara e violenta. O outro que poderemos chamar de missionação categorial, consiste em respeitar toda a verdade da religião indígena, alterando apenas aquelas categorias que os impossibilita de serem integrados na catolicidade. Assim as religiões nativas passam a ser membros de um grande todo, dentro do qual se dá a transfusão de um sangue purificador - a alma é sangue - no processo mariológico e cristão da redenção da humanidade. Esta foi a típica missionação dos portugueses, embora houvesse dela afastamentos de lamentáveis excepções.

A missão do homem é ajudar a evolução da natureza, frase que Sampaio Bruno atribui a Novalis. O pensamento deste modo expresso é linha de acção no grande poeta católico cujas comunhões intermitentes se exprimem nos admiráveis poemas que são a "Oração à Luz" e a "Oração ao Pão".


Grande distância separa o verbo vezar do verbo orar. Segundo o nosso pensamento, os sacramentos interiorizam-se na oração. Queremos dizer que os ritos existem e válidos se nos afiguram na medida em que operam a transformação do homem; na distinção do objecto e do sujeito vai toda a distância que pusemos em nossa anterior afirmação, distinção que se anula somente apenas no homem que supera o processo imaginífico, porque ascendeu à imaculada concepção. Efectivamente admitimos a mácula na palavra e no pensar, razão porque nem todas as línguas são sagradas. Mas toda a natureza aspira, na perpetuidade que lhe foi concedida pelo processo de geração e corrupção, à eternidade esplendorosa. Guerra Junqueiro, poeta-profeta, autor dos "Simples" que na "Pátria" nos revela o ideal português, vaticinou em suas obras o aparecimento de Nossa Senhora em Fátima aos três pastores. É certo que nos sujeitamos à crítica dos que não vêem senão a letra na obra do vate. Mas a maternidade de Nossa Senhora é afirmada na, por assim dizer, jesuitificação dos três pastores e na designação do destino desta pátria eleita, cujos representantes, nesse momento, eram três crianças».

Francisco Sottomayor («O Ideal Português perante a Religião»).


«Em "o ideal português perante a Religião", Francisco Sottomayor frisou demoradamente a específica atitude portuguesa perante a religião católica, onde sobressai, fundamentalmente, a meditação dos mistérios cristológicos, por um lado, por outro a predilecção pelas formas do culto mariano. Este, como uma constante ou tendência portuguesa, para o processo alquímico da sublimação da matéria, teve, desde a proclamação do dogma da Imaculada Conceição, até às aparições de Fátima, em nossos dias, uma importância primordial no sentimento religioso português. Para nós, sempre a Virgem Maria é Mãe e ainda em Fátima os pastores prefiguram a Jesus. Por outro lado, entre os portugueses não houve heresiarcas, nem nenhum cisma religioso teve origem em Portugal».

Síntese conclusiva do Colóquio sobre o tema «O que é o Ideal Português», realizado na Casa da Imprensa, de 20 de Junho a 25 de Julho de 1962.




As Profecias de Junqueiro e de Pascoaes

A imagem de Guerra Junqueiro continua na luz crepuscular, ou na penumbra. Quem o acompanhou testemunha que, "nos últimos dias da vida, Junqueiro amava a penumbra" (12), e nela permanece ainda. Uma penumbra projectada pela recusa que a sua obra mereceu a alguns, esses mesmos que professavam já o que ele procurava (13) "e reforçada pelo seu voluntário afastamento cultural e social, como se desejasse esconder-se na sombra de Jesus, que dramaticamente interpelara. O que sabemos do poema A Velhice do Padre Eterno (1885), talvez proceda mais do daguerreótipo crítico ainda vigente, do que de uma nova leitura a uma luz paidêutica. Há quem a interprete como uma viva e faústica interpelação a Cristo e, por concomitância, ao Pai. Nem toda a profecia é júbilo, nem todo o profeta geme, nem toda a admonição chora. Alguma contesta e protesta. Como Leonardo tão bem inteligiu, e como está ostensivo em toda a obra do poeta, Junqueiro é uma alma tão religiosa que pode pecar por excesso. Um excesso que transborda uma congestão de negatividade: o mal é tão presente, o mundo é tão amoral, que a responsabilidade é trespassada dos imperfeitos cristãos para o próprio Cristo. Em nenhum outro texto humano Cristo terá sido tão interpelado, e interpelado segundo a palavra violenta e abjurgatória. Mas quem abjurga se não ama? Se Junqueiro fosse indiferente a Cristo, porque haveria de criar e de escrever o poema? Este, o poema, é um protesto de amor ferido, mas a religiosidade prenhe de messianismo - de Buda a Cristo, como em Sampaio Bruno - permanece intacta no peito do poeta e do pensador da unidade do ser e da superação da natureza pelo Espírito, como provou na Oração ao Pão e na Oração à Luz, verdadeiras orações cristocósmicas e eucarísticas, ocultas sob um prodigioso panegírico ao altar da natureza (14).




Dez são as categorias possíveis para se formular a definição. Junqueiro define A Velhice do Padre Eterno. Exegetas há que a definem tomando como categorias as influências ideológicas da sua época, a partir dos factores complementares ou acidentais, positivismo, evolucionismo, materialismo, naturalismo. Junqueiro define a obra a partir da primeira categoria, a da essência. Ele não diz que A Velhice é um acto de racionalismo evolucionista. Diz, atesta, professa que o poema é uma "expressão de cristianismo exarcebado, ou exasperado" (15). Só isto. Expressão de um perfectismo que chega ao ponto de abjurgar, não os membros do corpo, mas a cabeça, Cristo. Aliás, Junqueiro é uma alma orante. "Toda a alma do poeta, apesar das irregularidades e das vicissitudes, se escala na difícil gradação que vai dos problemas humanos aos segredos naturais e dos segredos naturais aos mistérios divinos" (16) tudo procurando explicar, sobretudo as limitações da Matéria, à luz do divino (17), recorrendo à transposição das formas litúrgico-nomenclaturais da cultura católica para o seu ideal da cidade terrena, como se verifica na admirável mensagem do poeta aos soldados que partiam, em 1917, para a guerra em França (18).

No caso vertente, não se cura de inquirir do catolicismo de Junqueiro. E, no entanto, também se cura disso, em perplexivo paradoxo. Ao apresentar as suas teses sobre "o ideal português perante a religião", que melhor se intitularia "o ideal português perante a religião católica", Francisco Sottomayor, porventura o mais ortodoxo dos católicos que partilhavam, nos meados do século XX, da tertúlia de Álvaro Ribeiro e de José Marinho, afirmou: "Guerra Junqueiro, poeta-profeta, (...) vaticinou em suas obras o aparecimento de Nossa Senhora em Fátima aos três pastores". E justifica-se: "É certo que nos sujeitamos à crítica dos que não vêem senão a letra na obra do vate. Mas a maternidade de Nossa Senhora é afirmada na, por assim, dizer, jesuitificação dos três pastorinhos e na designação desta pátria eleita, cujos representantes, nesse momento, eram três crianças" (19).

Esta nótula é complexa. Em primeiro lugar, exara o futuro de uma exegese que decorre de um diálogo hermenêutico com Álvaro Ribeiro; em segundo lugar, responde às objecções de Álvaro pelo facto de a Senhora ser iconografada sozinha, sem o filho; em terceiro lugar, o autor introduz o termo jesuitificação, para dizer que, naquele instante aparicional, Jesus não viera, e que o seu lugar fora ocupado pelos Pastorinhos, eles mesmos tornados Jesus. Quanto a texto escrito em que Sottomayor haja inteligido a profecia, claro que não o revelou, mas presumimos que ele seja deduzido do contexto geral da obra religiosa de Junqueiro, e do ponto de vista literal, do episódio do sonho do Condestável na cena XXI do poema Pátria: "Já o mundo a meus olhos se adelgaça!.../ Montes, fraguedos, tudo se evapora.../ sonho... sombra vã que passa./ Quase liberto já!... não tarda a hora... / Sorri-me a Virgem!... como vem brilhante!.../ Deus! quanta luz!... que mar de luz! que aurora..." (20).




O mote da "Senhora mais brilhante do que o sol" não carece de Junqueiro para se formular; mas o achado estilístico acontece no seu poema muitos anos antes das confissões, declarações e imputações dos Pastorinhos acerca do que lhes foi dado ver e do que julgaram ter visto. Ou ouvida, que é muito mais importante. Hajamos em vista que Junqueiro navega muito mais no oceano da Teologia Fundamental e da Teologia Moral, deduzindo aquela desta, de modo que reinstitui, não as teses, mas as aflições, as agonias do arcaísmo priscilianista: Deus é a Bondade, mas Satã é a Maldade. Satã é criatura criada pelo mesmo que criou o Bem. Logo, Satã é o mundo, o corpo de Deus mundanal, o pecado. Só por ele está perdido. E só Deus o pode salvar. É necessário violentar o céu para que Satã seja salvo.

Há muita gente que tem a presunção de que os homens precisam de ajudar o Espírito Santo. Que, no acender das luzes, o Espírito tem a luz, mas que os homens devem levar a lucerna. Para que o Espírito lhes dê a luz. Assim como se a inteligência do Espírito só fosse possível mediante a cooperação da humana vontade... mas ninguém sabe o que diz quando diz isto. Depois do pecado original o homem é totalmente indigente. Da sua vontade nada depende. Tudo depende da inteligência do Espírito. A única coisa que se pede aos homens é para abrir as portas, nada mais: "Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações" (21). Presumir que o Espírito actua por impulso humano é presunção. Já foi dada a recompensa. Junqueiro estava muitíssimo ciente deste facto, e de outros. Apresenta-se-nos como um cristão rebelado, perante uma paixão que, no ciclo da história do tempo, parece ter sido inútil, louca. Como S. Paulo sentira em alguns dos seus contemporâneos. Para quê? Sim, para quê?

A lição já fora dada por Leonardo Coimbra, ao ensinar como Junqueiro é a "voz profética e amorosa das falas de Nun'Álvares, pensador-poeta das grandes ansiedades de infinito espalhadas pelos mundos" (22). A geração do "57", a mais próxima de Leonardo, de Álvaro e de Marinho, assumiu Junqueiro como profeta do brilho da Senhora.

Pascoaes aceitou o milagre de Lourdes sem rebuço. Quando o invocou já tinham decorrido mais de seis decénios sobre as aparições a Bernadette de Soubirous, na margem esquerda do rio Gave, enquanto apenas um lustro era passado sobre os alegados fenómenos da Cova da Iria. A invocação ocorre no contexto de uma apologia do amor fraterno, da Caridade, aduzida como filha do sofrimento e da pobreza, mãe do amor, origem e fim de todas as coisas, a causa da divinização de Jesus Cristo, cuja história acha íntegra explicação na sua vinda por uma única causa: a causa do amor. A aparição de Cristo é o necessário absoluto, mas permite reaparições, não Ele mesmo, Cristo, mas mediante escolhidos que, por obras, como que o reincarnaram para memorial à humanidade. Pascoaes considerava Francisco de Assis uma "nova aparição de Cristo". Junto a S. Francisco ele evoca a "humilde e simples pastorinha" a quem apareceu "a Virgem Mãe de Deus descida das Alturas a este vale de lágrimas e dores". Pascoaes deixa a afirmação na interrogativa, mas é claro tratar-se de uma afirmação, porque logo conclui: "Bernadette é irmã de S. Francisco de Assis". O mal apaga-se perante a visão. "A crueldade, a ferocidade e o egoísmo, e todas as guerras e catástrofes diluem-se no espanto luminoso da pastorinha de Lourdes", e, por fim, "todo o sorriso inocente nuns lábios virginais é uma estrela desprendida do manto azul de Nossa Senhora" (23).


Vitral relativo a Bernadette de Soubirous e à Virgem de Lourdes.


Ignoramos se Pascoaes, em 1922, ano em que proferiu estes juízos, já ouvira referências aos Pastorinhos da Cova da Iria. O livro testemunhal do Padre Manuel Nunes Formigão (Visconde de Montelo), intitulado Os Episódios Maravilhosos de Fátima circulava no país desde que, em 19 de Maio de 1921, ficara impresso na Casa Veritas, da Guarda. Conhecia Pascoaes as maravilhas de Fátima? É possível que, no mínimo, ouvisse falar delas, preferindo abstenção quanto a ajuizar dos acontecimentos, mas, a esta distância, difícil seria recusar idêntica apologia à mensagem e, de modo especial, à mensagenzinha de Jacinta, lábios virginais, sorrindo em dor: "Ó Jesus, é tudo por vosso amor e pela conversão dos pecadores" (24). Um Pascoaes tão ciente do peso do mal no mundo e do pecado no coração do homem, seria capaz de recusar a Jacinta os predicados de Bernadette?

Como justificar, nesse caso, a trilogia profético-saudosista de Pascoaes?

A trilogia sacra surge em público entre 1909 e 1912, adentro do tempo literário que a melhor crítica identifica como a segunda fase do poeta (25). Pascoaes ainda espera uma visita da hermenêutica teológica, porque a sua obra de poeta é poética, sem dúvida, mas contém uma teologia in genere, algumas vezes expressa numa teologia fundamental in specie com óbvias incidências da teologia cristã, mormente a arcaica da era patrística, já com laivos de Santo Agostinho, já com veios de Prisciliano. Pascoaes é também um eidos de uma gnose, não sendo agora o momento oportuno para analisar a realidade das duas vertentes vivas da "Filosofia Portuguesa" - o leonardismo e o pascoalismo, que são faces do mesmo rosto renascentista, mas faces diversas na sua unidade fisionómica.

Revertendo à trilogia, ela é constituída pelos poemas Senhora da Noite (1909), Marânus (1911) e Regresso ao Paraíso (1912). Segundo um filósofo que de perto lidou com Pascoaes, Marânus é um texto mariano por excelência, porque nele o Marão (serra, ou montanha) é figurado como radical cósmico, como radical mítico e como radical religioso (26). O poeta transporta Belém para o Marão e suscita o paradigma do "Seio Imaculado da Virgem Maria".

Preferimos inferir que Marânus é o termo médio entre a Senhora da Noite e o Regresso ao Paraíso. Poema da visão da "Virgem Pura", aí a saudade aparece como "irmã da eternidade". Tudo se formata em aparições, como nesse longínquo poema de As Sombras: "Ah, quando o sol, mais alto que o horizonte,/ Tem a máxima força da ilusão,/ E brilha, a prumo, sobre a minha fronte,/ ...É tudo misteriosa aparição" (27). Ao modo do sol do meio dia em Fátima, o cenário está desenhado no contraste da sombra e da luz: a luz não vê, mas faz ver. A luz da luz já não é visão; é a própria luz, visão unívoca. A pastorinha Lúcia dá-nos uma imagem próxima desta visão de Pascoaes, também assumida no conceito de "visão unívoca" segundo José Marinho: "via apenas que estava na luz", "viamo-nos e sentíamo-nos pessoalmente em ela" (28).

O poema Senhora da Noite abre curso para o regresso ao paraíso. É o poema cristológico por excelência, na dor e na assunção de Maria, similada em Vénus:



"... E Vénus, para sempre, em harmonia,
Há-de viver e confundir sem riso
Com as lágrimas de Santa Maria!
E Cristo não morreu; está na cruz,
Amarrado, a sangrar, como no instante
Em que às mãos do Pai rendeu a alma
E o Céu se fez nocturno e trovejante".


O cataclismo sobrevém. E de novo a Mãe:


"E a Virgem Mãe, na sombra (Estrela d'Alva)
De luto e de joelhos? Vêde o Filho
É sempiterna aquela dor que salva".


O poema é uma aparição. Amar o mal, para o redimir é necessário. Amar a Deus e guardar o rebanho. A Mãe é saudade:

"Ó Saudade, ó saudade! Ó Virgem Mãe,
Que sobre a terra portuguesa
Conceberás, isenta de pecado,
O Cristo da esperança e da beleza" (29).


Maria é Eleonora, a filha do Sol. A medianeira de todas as graças, para se regressar ao Paraíso, o acme da perfeição e da felicidade, depois de vencida a procela do vale de lágrimas. Pascoaes anteviu, com Junqueiro, antes dos Pastorinhos, a Cova da Iria?


Notas:

(12) Moreira das Neves, O Grupo dos Cinco, Lisboa, Bertrand, 1945, p. 227.

(13) Aludimos ao Padre Senna Freitas, Autópsia da Velhice do Padre Eterno, S. Paulo, 1986, e às abjurgatórias de Antero de Figueiredo, eventualmente refutadas por Leonardo Coimbra. Cf. L. Coimbra, Guerra Junqueiro, Nova edição com nota prévia de Paulo Samuel, Porto, Lello Editores, 1996; Id., Cartas, Conferências, Discursos, Entrevistas e Bibliografia Geral, Lisboa, Fundação Lusíada, 1994.

(14) Guerra Junqueiro, Oração ao Pão. Oração à Luz. Prefácio de Pinharanda Gomes, Porto, Lello Editores, 1997. A fisionomia espiritual de Junqueiro é agora mais visível, após a notável Antologia Poética, de A. Cândido Franco, Lisboa, Guimarães Editores, 1998.

(15) Guerra Junqueiro, Prosas Dispersas, Porto, Lello&Irmão, 1922, p. 12. "A cruz verdadeira é a do Calvário, a do amor infinito e do infinito perdão. (...) Não pertence à Igreja, pertence a toda a Humanidade". Junqueiro, Horas de Combate, Porto, Lello&Irmão s.d., p. 82.




(16) Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar, Lisboa, Portugália Editora, 1955, p. 176.

(17) Id., ib., p. 177.

(18) Pátria divina de Camões e de Nun'Álvares, santificado seja o vosso nome, Venha a nós o valor e a vossa glória. Seja feita a vossa vontade em nossas almas. Dai-nos em cada dia o pão imortal da vossa esperança, e perdoai, Senhora, os nossos erros. Para nos libertar de toda a fraqueza e de todo o crime, encheremos os corações do vosso amor, Amen". (Jornal República, Lisboa, 13.2.1917).

(19) Francisco Sottomayor, in O que é o Ideal Português, Lisboa, Edições Tempo, s.d. (1962), p. 114. O texto acha-se reproduzido em Francisco Sottomayor, Ensaios de Filosofia Portuguesa, Lisboa, Fundação Lusíada, 1991, pp. 103-110.

(20) Guerra Junqueiro, Pátria (1896), Nova Edição: Porto: Lello Editores, 1996. A Virgem do Sorriso sorrira a Teresinha de Lisieux em 1883. É natural que Junqueiro, em 1896, não conhecesse bem esse sorriso, só tornado público mais tarde, com o início da campanha de canonização de Teresinha pelo Carmelo de Lisieux e, sobretudo, por essa grande personalidade, sua irmã, a Madre Inês de Jesus. Cf. Pinharanda Gomes, Santa Teresinha do Menino Jesus na Devoção Portuguesa, Lisboa: Paulinas, 1998.

(21) Antífona do Ofício Divino.

(22) Leonardo Coimbra, Guerra Junqueiro, ob. cit., p. 96.

(23) Pascoaes, A Caridade, Porto, 1922. Texto in Pascoaes, O Homem Universal e outros Escritos. Fixação do texto, prefácio e notas de P. Gomes, Liv. Assírio e Alvim, Lisboa, 1993, pp. 141-153.

(24) P. Luís Gonzaga Alves da Fonseca, S.I., Nossa Senhora de Fátima, Porto: Liv. Apostolado da Imprensa, 1947, p. 229; Memórias da Irmã Lúcia, Fátima, 1990, a 1.ª Memória, acerca de Jacinta.

(25) Mário Garcia, Teixeira de Pascoaes. Contribuição para o estudo da sua personalidade e para a leitura crítica da sua obra, Braga, Faculdade de Filosofia, 1976; Jorge Coutinho, O Pensamento de Teixeira de Pascoaes, Braga, Faculdade de Filosofia, 1955. Acerca deste excelente estudo, cf. Ângelo Alves, "A Primeira Síntese Global do Pensamento Saudoso de Teixeira de Pascoaes", in Revista Portuguesa de Filosofia, Tomo LIII, 1997, pp. 88-94.





(26) Afonso Botelho, Saudosismo como Movimento, Braga, Faculdade de Filosofia, 1960. Compilado in Afonso Botelho, Da Saudade ao Saudosismo, Lisboa: ICALP, 1990, pp. 131-152.

(27) Teixeira de Pascoaes, "Aparições" in Sombras.

(28) Lúcia, resposta a D. José Pedro da Silva, in Sebastião Martins dos Reis, A Vidente de Fátima dialoga, Braga, 1970. Cf. Pinharanda Gomes, Teodiceia Portuguesa Contemporânea, Lisboa: Liv. Sampedro, 1975, p. 256.

(29) Teixeira de Pascoaes, As Sombras. Senhora da Noite. Marânus. Introdução de Fernando Luso Soares, Lisboa: Círculo de Leitores, 1973.

Continua


terça-feira, 23 de outubro de 2012

As aparições de Fátima e a filosofia portuguesa (i)

Escrito por Pinharanda Gomes




Guerra Junqueiro


«Do ponto de vista da herança cultural, a "Filosofia Portuguesa" admite a presença interactiva de uma ordem trilógica, toda ela de oriente monoteísta e de formulação escolástica: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Do ponto de vista institucional o movimento requer um afastamento equidistante do positivismo agnóstico, do catolicismo ortodoxo e do ensino das instituições públicas, não obrigando a que a pessoa em que o filósofo reside faça profissão de inconfessionalidade, mas o movimento apresenta analogia das suas nomenclaturas com as nomenclaturas da herança católica. O silente meditativo que é Álvaro Ribeiro advertiu-nos do segredo. Ele está plenamente convencido da compatibilidade entre "Filosofia Portuguesa" e "Filosofia Católica", e demonstrou-nos a continuidade de uma escola de apologia desde Pedro Hispano a Leonardo Coimbra. Por fim, garantiu que, apesar de tudo, o catolicismo de Guerra Junqueiro, de Sampaio Bruno e de Leonardo Coimbra, não oferece dúvidas, nem mesmo naqueles escritos que a disciplina ecclesiástica considera negativos, heterodoxos, mesmo heréticos.

A tensão religiosa é predicativo da "Filosofia Portuguesa", que tem revelado uma infusão espiritual, com oriente em Aristóteles, Maimónidas, em Averroes e em Francisco de Assis, de onde o que se entende ser a vocação colombina dos pensadores de algum modo identificados com esta gnose, de carácter contemplativo, e especulativo, simbológico e aponoico, e oposta à escola material, por radicação na escola formal».

Pinharanda Gomes  («A "Escola Portuense"»).


«Contemporâneo da luta entre o positivismo e o catolicismo, ou, paralelamente, entre mecanismo e finalismo, Guerra Junqueiro situou-se no lado da fidelidade às tradições portuguesas. Só assim é lícito interpretar hoje a sua obra satírica e polémica. No entanto historiadores há que, na impossibilidade de apreciarem uma obra de génio, não distinguem as intenções superficiais das intenções profundas.

Sabemos, por exemplo, que em obra de título irreverente, Guerra Junqueiro polemizou contra certo ensino catequístico segundo o qual Deus criou o mundo em seis dias. O poeta não pode considerar ortodoxa a criação como acto único no passado, porque tal doutrina dificilmente se compatibiliza com a criação da alma humana a cada momento do tempo e com o conceito de providência. Imaginar a criação à maneira de um acontecimento que ocorreu em longínquo ponto do espaço e em remoto momento do tempo, imaginá-la em termos de perfeição e não em termos de actualidade, equivale a fazer passar a religião à história.

Descrever a criação do mundo como facto histórico, com os verbos no indicativo e no pretérito, parece-nos inadequada expressão de um mistério, porque a história só começa na inveja, na queda, no pecado original. Também nos parece errónea a confusão entre analogia e catalogia, entre o análogo e o catálogo, o imaginar o homem criado segundo o tratado de anatomia do ilustre Testut. Projectar a figura do homem histórico sobre a forma do homem pré-histórico significa desconhecer a verdade católica de que Deus formou o homem à sua imagem e semelhança, ou desconhecer as consequências teológicas dessa verdade.

O acontecimento histórico a considerar no centro da teologia católica é a encarnação de Cristo. Antes e depois de Cristo não há limites de cronologia de que possamos falar com certeza suficiente, e muito menos poderemos descrever em linguagem positivista o que aconteceu e acontecerá nos conjecturados extremos. Aplicar os esquemas de quantidade, espaço e tempo à ordem dos mistérios divinos será sempre contraproducente em apologética.

A velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro




Segundo a interpretação tomista do Padre Sertillanges, a criação significa apenas o mistério da dependência em que o mundo se encontra em relação com Deus. O cristão crê em Deus criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, mas para transformar a crença em ciência socorre-se da filosofia aristotélica. Sem a noção de actualidade, superior às dimensões do tempo, afigura-se-nos erróneo pensar o criacionismo.

O mistério da encarnação relaciona-se, aliás, com o mistério da maternidade. Guerra Junqueiro, de harmonia com a tradição portuguesa, considerava a maternidade superior à virgindade e, portanto, o casamento superior ao celibato. A moral convencional, contradizendo a sublimação dos instintos naturais em virtudes éticas, aparece subtilmente personificada nas sátiras de Guerra Junqueiro.

Se pudessemos dizer que a maternidade é material e que a paternidade é espiritual, compreenderíamos o lugar que a Pátria ocupa na obra de Guerra Junqueiro. Entre a matéria e o espírito existe, porém, a mediação do verbo, porque só a palavra significante, ascendente e descendente, pode evitar que a dialéctica anule a religiosidade dos seres. A obra de Guerra Junqueiro, exaltando a maternidade, a heroicidade e a santidade, representa para todos nós um dos mais belos casos de inspiração epopeica».

Álvaro Ribeiro («A Arte de Filosofar»).




Milagre e Aparição

O problema da viabilidade percorre a "Filosofia Portuguesa", desde Bruno a José Marinho, começando por ser proposto na ordem natural ou na ordem física, como impossibilidade suscitada pelo positivismo e pela concomitante lei da natureza, que não permite fenómenos fora dessa mesma lei. José Marinho costumava dizer que ignorava o que fosse a lei da Natureza, ou se a Natureza havia proclamado alguma lei, enquanto reconhecia um direito positivo derivado da lei divina. A questão do milagre enquanto fenómeno natural absorve a primeira longa fase do pensamento de Leonardo Coimbra, que assume o milagre como alteração súbita do fluxo dos fenómenos que excede a nossa humana expectativa, pelo que o milagre existe, sendo milagre porque constitui um excesso à relação homem/natureza (1). Por isso, o milagre chama-se milagre. Não é algo que se opõe à natureza, como se propõe no positivismo e no vulguismo, mas algo de secreto que surge na ordem natural, sem a contradizer. Por isso é milagre, miraculum, o que é digno de ser visto e contemplado, mirado, como um inesperado e insólito signum, ou portento, ou ostento, que pode ocorrer mesmo que nenhum ser vivente dele se aperceba. No entanto, neste caso, o signum carece de leitura e de interpretação, porque não é percebido e precisa da relação leccional para o que está fora dele; o fenómeno miraculoso só é dito milagre se for conhecido ou assim entendido, não interessa se por poucos, se por muitos, se só por um só. Leonardo aduz que o milagre não é só possível como "é a própria fonte do ser" (2) de onde deriva que o único milagre necessário é o da criação. Na época em que mais conviveu com Guerra Junqueiro, o autor do poema "Água de Lourdes", e em que o seu afastamento da Igreja se aprofundou, Leonardo achava os milagres de Lourdes desnecessários, porque o grande milagre continua sendo, inegável, irrecusável, irrefutável, o da criação. Por isso, efectuou uma atenta crítica dos tradicionais argumentos a favor da existência de Deus (o físico-teológico, o cosmológico, o ontológico e o teleológico) dando preferência ao terceiro, ou argumento anselmiano, ainda que o considere bem urdida hipótese, quando lhe faltar o complemento perfectivo: a experiência religiosa, ou seja: o argumento ontológico apresenta-se como um dom oferecido à razão, mas a ideia de perfeição divina só a experiência religiosa a pode suscitar enquanto ela for como que uma nova criação da alma humana (3).




Tanto leva a supor que, exarada a necessidade do milagre firmamental ou único necessário, o da criação - e assim se lê também na obra de Basílio Teles" (4) - o milagre sequente só interessa enquanto metanóia, ou seja, como possível fenómeno ocorrente na vida da alma, para a elevar desde as raízes de um corpo pesado, envólucro de carne e de imperfeição, às asas de anjo alado. Se a criação pode insinuar a presença directa da primeira causa ou, no mínimo, das causas segundas, as modificações e as interpelações divinas à semântica criacionista não carecem de causas ínfimas, ainda que delas possa socorrer-se, mas o recurso divino às causas ínfimas nunca é necessário, sendo apenas possível.

O recurso às processões mecânicas é supérfluo, quando se considera que as aparições constituem, para os que as não viram, uma narrativa. Esta é para ler, e não para ver. Ver um filme é diferente de ouvir uma narrativa. Ora, dos acontecimentos da Cova da Iria, o que nos é dado é a narrativa deles segundo o testemunho dos videntes. E essa narrativa pode correlacionar-se com a arte da hagiologia, do legendário sagrado e mesmo da invenção de um maravilhoso cristão, inspirado às crianças. Questionar-se-á: mas então o que se narra é mentira? De modo nenhum. Há mentir e mentar. Quem diria que as visões propostas no canto IX de Os Lusíadas são mentira? O contexto da literatura religiosa permite abordar o milagre sem recurso a outras causas bem mais complexas ou, por deficiência, ínfimas (5).

A coexistência do mal numa criatura, filha do mais perfeito criador, causa a perplexidade da nossa teologia moral, tanto em Basílio Teles, como em Leonardo Coimbra, como em Álvaro Ribeiro, e, ainda mais, no discurso de Sampaio Bruno, em cuja obra prima, A Ideia de Deus, fecha com chave de ouro, com uma prognose do milagre enquanto metanóia, uma revelação sobrenatural descida à positividade da ordem natural, capaz de lhe rectificar o rumo e de garantir uma fé que emerge do cálculo. "Um Cristo virá, cujos prodígios sejam argumentos" (6), porque, mediante a elevação da alma, esta ficará imune à perplexidade da coexistência do mal numa obra de bondade, e o mundo deixará de ser imperfeito para retomar a homogeneidade qualitativa do absoluto criador. Os profetas não se acham ausentes deste itinerário da mente. Bruno admite a profecia como "realidade anómala" (7) e eficaz, sempre que a objectividade corrobora a subjectividade do fenómeno profético. A prognose de uma fé objectiva emerge como corolário da própria objectividade da profecia. Já não se trata de uma questiúncula entre crer ou descrer; a descrença é negativa; a crença é afirmativa. Sendo a fé, já um dom, já um argumento indeclinável, a descrença torna-se inviável, anula-se.




A ideia de milagre concomita a ideia de aparição. Os escritos leonardinos, sobretudo os relativos ao infinito, ao mistério, ao amor, usufruem da ideia de aparição, tanto a maligna - como a tentação demoníaca - como a benigna, o apelo da graça, a brisa graciosa, o encanto do encontro. Teixeira de Pascoaes, parece ir mais longe no exercício poético acerca da aparição. Distinguia ele, por motivos de reduzir o influxo positivista e materialista, entre aparência e aparição. Aparência é o fenómeno no que tem de aspecto exterior, podendo constituir uma ilusão; aparição é visão interna, ou perceptio intima, que brota na intimidade da alma, nem sequer carecendo que se apresente fora dela, ainda que a visão interna, tenda a projectar em dimensão corpórea essa aparição, que não ilude, por ser, nunca ilusão, mas alusão, algo que se vê junto à luz, e não engana. Esta ideia de Pascoaes ressurge, com diversa e opulenta vestimenta no dizer de José Marinho, quanto à teoria do enigma. O enigma é também luz, alusão, e não engana, nem é aparência. "Em sua autenticidade não é dado para interrogar fora: adere radicalmente ao ser" (8) ainda que o espírito o interrogue e não possa deixar de o interrogar. O espírito define-se "como o que interroga" "o ser todo na verdade" e, por isso, interroga também o que adere ao ser na verdade. Contrastando os conceitos, dir-se-ia que o ser aparece à verdade, que a verdade se propõe ao ser, e que o enigma explode em luz nesse encontro comunial de ser e de verdade. A esta união ôntica e aliança poética José Marinho chamou "visão unívoca", a qual se diz do que une, e da qual tudo parte (9). A visão unívoca diferencia-se da teoria, porque esta constitui uma visão assumida num limite, e, por limite, ainda paupera, ou carente. O enigma propõe-se-lhe como via para passar além desse limite, de tal modo que a univocidade videncial já não cura dos singulares, nem dos particulares, mas somente do que, enquanto uno e universal, se intelige na luz que ilumina. A palavra que diz, mais do que a vista que se mostra, é caminho preferencial para a univocidade. Em Álvaro, a doutrina entra, não pelos olhos, mas pelo ouvido! E em Marinho, não há visão sem aparição. A visão é acto de ver, a aparição é o acto de algo se dar à visão. Uma aparição não-visível nunca se chamaria aparição.

Em suas já por demais assinaladas diferenças, o pensamento teorético de Marinho apresenta uma analogia com o sentido antropo-teótico de Álvaro Ribeiro que, do homem, não dá uma definição físico-natural, mas sempre uma definição ôntico-espiritual. Constituído por corpo, alma e espírito, o homem é um espírito, "uma razão animada, mas uma razão impura, que tende a unir-se com a razão pura" (10) mediante a imaginação, a capacidade de criar na mente, ou de imaginar, verbo por Álvaro considerado atributo divino. O Criador imagina a criatura e logo cria. No pensamento alvarino, a imaginação compensa a ausência. Ver pode não traduzir imaginar, mas imaginar induz ver, e ver com perfeição. Anjo caído, razão pura devinda razão animada em corpo, o homem vive na ausência do Grande Ausente, desse que é como se não fosse, que existe como se não existisse, e que não nos fala, apesar de, pela oração, nós falarmos, ou com Ele, ou para Ele. A ausência é uma deficiência, uma causa deficiente, enquanto a presença é causa eficaz. Toda a causa deficiente é uma limitação e, por assim dizer, uma moléstia. Compreendido fica o juízo singular de Álvaro ao considerar a saudade como a carência "daquele que quer ser amado" (11) e os elogios que tece a Teixeira de Pascoaes pela forma como ligou a ideia de Saudade à ideia da Ressurreição, ou à joanina renascença. Todavia, Álvaro mantém a prudência quanto àquilo de que a saudade é capaz: por si mesma, sendo deficiente, é moléstia e, por isso, dela tanto pode sair o acto para a niilização, pelo suicídio, como o acto para a transcendência, pela sublimação, de onde a saudade carecer de presença, de companhia. A dor solicita a alegria.







Notas:

(1) Leonardo Coimbra, Dispersos, III. Filosofia e Metafísica, Lisboa, Ed. Verbo, 1988, p. 107.

(2) Id., ib., p. 108.

(3) Leonardo Coimbra, Dispersos. III. Filosofia e Metafísica, ed. cit., p. 122. Para mais demorada análise  do percurso leonardino cf. L. Coimbra, Cartas, Conferências, Discursos, Entrevistas, Lisboa, Fundação Lusíada, 1994.

(4) Basílio Teles, O Livro de Job, Porto, 1912, p. 184.

(5) É por este motivo, e não outro, que se excluem do âmbito filosófico, as exegeses explicativas que omitem a omnipotência divina e recorrem a soluções de intermediação positiva. Vejam-se as obras de Fina d'Armada (Fátima. O que se passou em 1917, Amadora, 1980 e As Aparições de Fátima e o Fenómeno Ovni, Lisboa, 1995); Joaquim Fernandes (Intervenção extraterrestre em Fátima, 1981) e Seomara da Costa Ferreira (As Aparições em Portugal dos Séculos XIV a XVI: Os Emissários do Desconhecido, 1985) ou as intendências espíritas de Hélio de Lísia. Também se consideram supérfluas as interpretações parapsicológicas como as do Padre Quevedo, porque tudo isso propõe a necessidade de mecanismos. Ora, a simplicidade criacionista divina não carece de tais mecanismos, porque a Deus tudo é possível (Mc., 10, 27) e, quanto à invenção, a imaginação humana pode imaginar um milagre qualquer, isto no caso de o milagre constituir simples narrativa do imaginário.

(6) Sampaio (Bruno), A Ideia de Deus, Porto, Chardron, 1902, p. 174. Cf. Pinharanda Gomes, Teodiceia Portuguesa Contemporânea, Lisboa, Sampedro, 1974.

(7) Bruno, ob. cit., p. 174.

(8) José Marinho, Teoria do Ser e da Verdade, Lisboa, Guimarães Editores, 1961, p. 43.

(9) Id., Prólogo.

(10) Álvaro Ribeiro, A Razão Animada, Lisboa, Liv. Bertrand, 1957, p. 103.

(11) Álvaro Ribeiro, in Filosofia da Saudade. Sel. e org. de Afonso Botelho e António Braz Teixeira, Lisboa, Imprensa Nacional, 1986, p. 246. Cf. D. Duarte, Leal Conselheiro, cap. XXV, sobre a saudade como "amor menencórico".

Continua


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O Perpétuo Socorro na filosofia da nossa vida

Escrito por Álvaro Ribeiro 




Imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima que chorou milagrosamente na cidade de Nova Orleães, Estados Unidos (1972).


«Se bem que o desenvolvimento da filosofia leonardina, em virtude do seu carácter criacionista, se realize em espiral que se torna de mais em mais coincidente com a fé eclesial, é sabido que a doença do filho Leonardo Augusto constituiu para o filósofo uma provação, decerto necessária, para que, não apenas pela assunção dialéctica, mas também pela dor vital, pudesse elevar o acto à perfeição. A doença do filho não explica por si só o que se designa por "conversão" de Leonardo, uma vez que lhe não foi necessário abrogar a obra escrita, mas determinou a melhor inteligência da necessidade da graça segundo a experiência do sofrimento. Pai e Filho liam, ora um, ora outro, o Evangelho de S. João. E declaravam promessas de amor paternal e filial, de modo que Leonardo, esse mesmo que um dia achara supérfluo peregrinar a Lourdes, prometeu peregrinar à Terra Santa, se o filho se curasse. Infelizmente faleceu antes de cumprir a promessa, a qual foi cumprida, anos mais tarde, por seu filho, que a testemunhou por escrito. Em 1935, através de um amigo do povo (um anjo, porque bom mensageiro, cujo nome nunca é demais registar: António Marques Gomes) relacionou-se com o santo Padre Cruz, o qual presidiria à cerimónia do casamento canónico do filósofo, na Capela dos Pestanas, na Rua Gonçalo Cristovão, no Porto, na manhã de 23 de Dezembro de 1935. Nesta casa se hospedava o Padre Cruz nas suas viagens ao Porto (a sua primeira imagem foi exposta na capela da casa) e por lá passou a Irmã Lúcia, quando saiu de Fátima rumo ao Vilar. Leonardo confessara-se e comungara, com sua mulher, enquanto o filho, acompanhado pela fiel criada Adelina da Costa, estava retido no leito.

No dia seguinte, 24 de Dezembro, no lar da Rua Antero de Quental, n.º 572, da cidade do Porto - o lar do casal Leonardo Coimbra! - procedeu-se à administração do sacramento do baptismo ao filho de Leonardo, nessa altura com a idade de 21 anos (nascera em 1914), com motivo de urgência, uma vez que se esperava a sua morte. O sacramento foi administrado pelo pároco de Paranhos e grande figura do clero portuense, Manuel Pereira, na presença da família e também do grande padre portuense, Adriano Moreira Pinto. E os padrinhos, o padrinho, e a madrinha. De padrinho serviu o Padre Cruz. E, de madrinha, apenas Nossa Senhora, invocada sob a celeste menção de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. E, deste modo, Leonardo Coimbra se tornou compadre de Nossa Senhora, desta mesma, daqui, da Senhora deste lugar. Poucos dias depois, enquanto o filho reassumia uma viagem para a saúde física e espiritual, o pai, maduro para o céu, encontrava a morte num brutal acidente de estrada. E, segundo os testemunhos vivos, as suas últimas palavras foram de louvor e de súplica: "Ofereço as minhas dores a Nossa Senhora, pelas melhoras do meu filho"».

Pinharanda Gomes («Cidade Nova»).


«Certo é que o Povo Português durante vários séculos prestou culto superior à Maternidade, à Divina Maternidade, à Mãe de Deus, representando sempre, na grandiosa simbólica, da sua profunda religiosidade, a Virgem Maria na companhia de Jesus. A partir do século XIX, a iconografia oriental e mediterrânea, tão rica de colorido ardente e de figuração concreta, estiliza-se e clarifica-se para a cisão representativa das influências nórdicas, provenientes de Além-Pirenéus. Depois sucede a consequente disjunção da Sagrada Família, passando de teológicos a sociológicos os tradicionais atributos de S. José, na mentalidade impiedosa de quantos operários qualificados e não qualificados se revoltam pela engenharia contra as leis da arquitectura.

Reprodução a óleo em tela da Sagrada Família com o pequeno São João, de Michelangelo.

Referida a toda a humanidade, merecendo por isso o atributo de católica, a religião assume dignidade superior à da política, mas tal verdade não anula a certeza histórica de que cada povo se esforça por elaborar em acumulados pormenores uma interpretação nacional da doutrina ecuménica, para assim reivindicar uma superioridade cultural que legitime a missionação junto de outras gentes. Tal emulação nacionalista tem sido narrada na história política da Europa, e ao estudante será fácil discernir qual a nação que em determinado século conseguiu propor, impor e defender a sua hegemonia espiritual. Ignorando a História de Portugal, - não as figuras, os factos e as datas, como dizem os positivistas que só relacionam efemérides, mas as forças ocultas da nossa autonomia cultural e as causas patentes da nossa independência política, - muitos escritores viram-se perplexos para explicar os factos incontestáveis dos descobrimentos marítimos e da colonização portuguesa. Admitiram uma acção mundial sem preparação prévia de um pensamento nacional, até ao momento de deixarem inserir no quadro de um determinismo histórico, ou de um materialismo histórico, o que resultava da interpretação portuguesa do aristotelismo medieval».

Álvaro Ribeiro («Liceu Aristotélico»).


«Só com Sócrates o homem reflecte sobre a sua própria actividade de pensar, estudando sobretudo ainda a forma de universalismo implicada nas categorias morais.

O consórcio do socratismo com o pitagorismo encontra um génio em que se realiza maravilhosamente, que é Platão.

Com ele a acentuação afectiva muda claramente da imagem para a ideia, embora, e pelos motivos seguintes, a ideia seja ainda uma como imagem aristocratizada».

Leonardo Coimbra («A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre»).



O Perpétuo Socorro na filosofia da nossa vida




Há muita gente que condena o culto das imagens. As pessoas que não compreendem esta forma de devoção argumentam com a suposta lei de que existem três graus, três planos, em todas as religiões: o feiticismo, o politeísmo e o monoteísmo. Assim, na Religião católica o culto pela imagem corresponderia ao feiticismo, o culto pelos santos ao políteísmo, e até o mistério da Santíssima Trindade nos deixaria em dúvida quanto ao carácter monoteísta do Cristianismo. Não é difícil rebater tal argumentação mediante a precisão doutrinal dos conceitos de teologia. Interessa, porém, verificar que às pessoas zeladoras do puro espiritualismo, incompatível com a condição humana, acontece o que a razão prevê sem grande dificuldade: concluem na prática pela abstenção de qualquer acto de culto.

Esta tendência mental para a eliminação das imagens, para a iconoclastia, (palavra que significa quebra de imagens, ou de ícones), afecta de tal modo a sociedade contemporânea que induz até as almas piedosas no erro de exigirem a simplicidade arquitectural e ornamento dos templos, como representação da simplicidade evangélica. O ideal seria, nesse caso, que a igreja se assemelhasse a um amplo e frio salão de conferências. A arquitectura funcional de ornamentação abstracta faria decair a liturgia até ao baixo nível de um cerimonial profano.

Há, infelizmente, quem não compreenda que a beleza das imagens é um factor simpatizante e atraente do culto religioso, mas o lamentável facto nos aponta quão grande é a ignorância da História da Arte. Onde e quando não existem imagens religiosas, as artes plásticas degeneram pelo realismo, tornam-se imitativas, excluem a imaginação.

O puro espiritualismo dos iconoclastas é incomparável com a condição humana. Vivemos a imaginar e sem imagens não pensamos, quer durante o sono, quer durante a vigília. Tal é a lição que Aristóteles nos deixou no livro de Psicologia, lição que facilmente entende quem a relacione com as verdades da revelação divina.

Arguem contra a tese aristotélica alguns autores que distinguem entre imaginação e inteligência, para afirmarem que o homem pode inteligir o que não é capaz de imaginar. Costuma dizer-se, a exemplo de Descartes, que não somos capazes de imaginar um polígono de mil lados, um quiliágono, mas entendemos perfeitamente que ele exista em geometria pela mesma razão que existe um triângulo. Este paralogismo matemático parece provar que a imaginação é limitada e que ilimitada é a inteligência mas apenas estabelece o contraste entre uma lei operativa, caminho indefinidamente aberto à vontade humana, e as condições reais do verdadeiro pensamento. Quanto a nós, a impossibilidade de imaginar um quiliágono é prova de que tal não existe, como não existem objectivamente as entidades matemáticas, o que não quer dizer que lhes neguemos a função que exercem transitoriamente na construção da ciência. Também neste particular seguimos a lição de Aristóteles.




Vivemos a imaginar, e pela imaginação subimos do visível ao invisível ou descemos do invisível ao visível, graças ao incessante relacionar da arte humana com a revelação divina, segundo a verdade prefigurada na escada de Jacob. A teoria da arte concorda com a verdade da religião. Homens, não somos puros espíritos, acompanha-nos a configuração corporal, vivemos entre imagens.

Contemplar uma imagem religiosa é o melhor exercício invisível. Os olhos admiram, prestam atenção aos pormenores diversos que a beleza harmoniza e unifica, para que a visão se transforme a pouco e pouco em intuição. As legendas, as lendas, as palavras, por muito que auxiliem a contemplar a verdade, não valem tanto como o movimento da alma, ou amor, indispensável ao progresso para a união.

A predilecção de muitos devotos pela imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro explica-se não só pela beleza artística do modelo, mais ou menos fielmente reproduzido que oferece à meditação das almas que querem crer e que querem inteligir, dos crentes e dos inteligentes, para assim dizer em termos que recordam a filosofia escolástica de Santo Anselmo. Outras imagens de Maria Santíssima são dignas de veneração nos altares e nos lares, mas não há dúvida de que para as almas de certa família espiritual, entre várias famílias espirituais, a predilecção pelo ícone oriental e seu lampadário possui um significado muito importante que tanto mais se revela e difunde quanto mais a devoção se generaliza. É qualquer coisa de análogo àquele movimento que condiciona e prepara um novo artigo de fé, proclamação de uma verdade universal em termos canónicos de novo dogma. Longe de se comparar a uma divisão entre os crentes, e divisão é o que etimologicamente lembra a palavra seita, manifesta num complexo doutrinal, um enriquecimento, uma multiplicação.




Há uma razão estética, segundo a qual cada imagem de Maria Santíssima nos impressiona tanto mais quanto mais ela nos parece representar, simbolizar, toda a vida da igreja, quer dizer, a manifestação terrestre da sabedoria divina. Se o problema apostólico do nosso tempo é o de tornar a religião amável pela superioridade ética, pela verdade evidente, será difícil encontrar na iconografia cristã alguma imagem de mais sugestivos efeitos sobre o coração dos Portugueses.

Cada devoto terá a sua palavra a dizer neste processo justificativo da sua predilecção pela imagem bizantina, e é possível que na acumulação de razões plausíveis se constitua um capital doutrinário que represente efectivamente, (quer dizer, sem transferência alegórica) a dilatação da fé, a noção que convém não confundir com o aumento social do número dos fiéis.

Não podemos, nem devemos, circunscrever a fé, e muito menos limitá-la por um poliedro como se ela fosse uma palavra. Nem todos os escritores escolásticos assim pensam, porém. Alguns tendem a chamar fideísmo à dilatação da fé, que querem fixa e imóvel até à consumação dos séculos, e preocupando-se apenas com a apologética científica e técnica, inclinando os espíritos para as doutrinas de violências que azedam e amarguram a vida civil. Ora nem todos os homens de boa vontade, que são homens de paz, podem imaginar a coexistência sem o ingrediente dinâmico e aumentativo do ser, que é o amor (1).

Socorro perpétuo. Estas duas palavras incitam e excitam a nossa imaginação; incitam e excitam porque parecem incompatíveis na mesma fórmula, já que todo o socorro se nos afigura transitivo e transitório, já que a perpetuidade tende a ser confundida com a eternidade. A expressão não deixa de ter analogia com o motor imóvel de Aristóteles, pelo que é lícito interrogar-nos sobre a cultura filosófica do artista plástico, autor ou mediador da imagem. As diferentes tradições deixam campo aberto à variedade das conjecturas.


Leonardo Coimbra

Na relação da metafísica para a física, já Leonardo Coimbra usava muitas vezes a palavra socorro nos tropos da sua admirável eloquência. «O mecanismo é, pois, o socorro de Deus levado ao Nada», escreveu o ilustre professor a páginas 268 do livro O Pensamento Filosófico de Antero de Quental; e em um artigo de A Águia, (Janeiro de 1923) afirmou também: «A mecânica é o socorro de Deus mandado ao Nada». Leonardo Coimbra professava então a epistemologia francesa, predominantemente cartesiana, na qual os números aritméticos e as figuras geométricas adquirem um primado ideal que não corresponde à realidade. Todos sabemos, e os artistas plásticos mais do que ninguém, que no mundo das imagens que nos é dado pela Natureza não existem aquelas linhas perfeitas nem os números que as medem: todos sabemos igualmente que as entidades matemáticas nos auxiliam a construir perfeitamente os objectos da civilização que o homem foi a pouco e pouco fabricando, depois de expulso do Paraíso Terrestre. A filosofia cartesiana não explica nem resolve o problema do erro e o problema do mal, conforme demonstrou Sampaio Bruno no livro intitulado A Ideia de Deus; não explica nem resolve por metodologicamente se afastar da revelação e dos mistérios da fé. Mais tarde, quando pensava já em regressar à prática dos sacramentos da Igreja Católica, Leonardo Coimbra viu e ensinou os seus discípulos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto que o cartesianismo está na origem dos impedimentos à compreensão da vida religiosa, e que conviria, portanto, actualizar a cosmologia de Aristóteles.

Socorro perpétuo. Estas duas palavras colidem como as da expressão pecado original. No entanto, a verdade que em teologia católica se exprime pelo pecado original surge inevitavelmente quando se aprofundam as outras doutrinas filosóficas e religiosas. Os pensadores sinceros confessam, por fim, que algo de inexplicável existe na persistência do erro e do mal através de todas as vicissitudes históricas. Nem as utopias coerentes e consequentes eliminam a verdade de que para realizá-las são indispensáveis esforços sobre-humanos, quer dizer, que o homem não se pode salvar a si próprio. Tanto a história como a política nos obrigam a reconhecer que, em adequada ou inadequada linguagem, o homem clama por Deus.

É, certamente, de muito difícil interpretação a doutrina cristã do pecado original. Tão difícil é que para a maioria dos crentes ela oferece apenas um conteúdo ético e jurídico, como se o pecado original tivesse semelhança com um delito a expiar por motivos morais. A palavra pecado assume aqui um significado mortal, mas a nossa imaginação tem de ir para além da morte de que estavam isentos os primeiros pecadores. Sem elemento transcendente, a doutrina do pecado original parece a crentes e descrentes uma historieta edificante, uma lenda ou um mito no significado pejorativo destas palavras. Ora, a verdade é que a doutrina do pecado original não se resume num convite ao baptismo e à penitência. A apologética tem de incitar e excitar a imaginação dos fiéis, porque estes, enquanto não reconhecerem que Adão e Eva perderam a bondade, ou os bons atributos, de que gozam antes de transgredirem a justiça divina, nunca poderá compreender o verdadeiro significado da redenção de Cristo.


Transfiguração, de Rafael Sanzio (Museu do Vaticano).


Não basta permanecer na edificação moral para fazer boa apologética. Urge demonstrar que a moral depende da religião, e principalmente do conjunto das verdades reveladas. O Cristianismo é o alimento e a medicina que pode restituir ao homem decaído os atributos gloriosos de que gozavam plenamente os nossos progenitores.

No livro admirável que tem por título A Alegria, A Dor e a Graça, escrito em plena época de terror positivista, já o filósofo cristão que foi Leonardo Coimbra acentuava estas verdades. Fácil é reconhecer, debaixo de uma simbólica literária, que tal obra abre pela inequívoca referência à Eucaristia e fecha aludindo à mediação de Maria Santíssima. Vale a pena a consultar esses  textos.

Supomos, aliás ser de tradição portuguesa o explicar o mistério da encarnação pelo mistério da redenção ainda que doutrinas diferentes hajam obtido predomínio escolar e popular. Meditar os mistérios é actividade própria dos místicos, actividade difícil que necessita da graça divina. Sabemos, porém, que há graus de misticidade. O mistério da encarnação, possível, previsto e anunciado desde a eternidade, beneficia de imagens mais acessíveis aos crentes. O mistério da Paixão desenvolve-se em representações plásticas e dramáticas que facilmente comovem as almas piedosas. Não assim o mistério da redenção, quando falte o ensino de que o medicamento e o alimento de Cristo valem para restituir ao homem decaído as condições adâmicas, nos termos anunciados pelos Evangelistas e pelos Apóstolos.

O redentorismo é uma doutrina difícil, exactamente por ser uma doutrina superior ao messianismo. Muitos dos nossos poetas que escrevem acerca da vida de Jesus demonstram não ter perfeitamente apreendido a essência do elemento redentor. Nas artes plásticas também falta muitas vezes o símbolo da redenção. Julgamos, todavia, o redentorismo estar na tradição portuguesa, quando aprofundamos os dados recolhidos por folcloristas e etnógrafos. Só a dificuldade de imaginar - de contemplar o invisível -, nos impedirá de prestar as provas desta afirmação: - para o povo português, Cristo redime tudo quanto é natural e humano. Houve, em tempos, um grande movimento cultural em torno das ideias de palingenesia e de saudade do estado adâmico: - foi o movimento dirigido pelo poeta Teixeira de Pascoaes, movimento que significativamente se intitulou de «Renascença Portuguesa». Muito discutida foi a delimitação entre ortodoxia e heterodoxia nas obras dos escritores renascentistas, porque muito difícil é em exegese dizer onde cessa a letra para começar o espírito. A tradição continuou, porém. O melhor ensino dos três melhores professores da Faculdade de Letras da Universidade do Porto valeu exactamente pela fidelidade àquela tradição.

Socorro perpétuo. Todo o problema se concentra agora na imitação de Cristo. Cada homem encarna para redimir. A explicação cristã do nascimento ou do Natal, apresenta uma dignidade incomparável à dos outros cultos religiosos. Agora sabemos que somos criados à imagem e semelhança de Deus, para colaborar na obra de redenção de toda a humanidade. Assim se resolve o problema da liberdade e do destino do homem. Este saber vale mais do que qualquer preceito moral. A teologia do matrimonio, que também é teologia da encarnação, aprofunda-se pela leitura do Génesis, dos Evangelhos e das Epístolas de S. Paulo, e à luz redentorista ilumina como nunca a doutrina ou disciplina da Igreja Católica.

Criação de Eva, de Miguel Ângelo (Capela Sistina).

A criação de Eva explica-se pela finalidade de aperfeiçoar a bondade de Adão entendendo por bondade o conceito bíblico, várias vezes referido. Textos evangélicos concorrem para mostrar quanto o matrimónio vale na doutrina sacramental de Cristo. Mais conhecidos e divulgados são os trechos da Epístola aos Efésios.

Convém, efectivamente, atribuir significação teológica à atitude moral da mulher portuguesa que não reconhece como válido senão o matrimónio cristão e que repudia inteiramente o divórcio. Tão admirável o apego às belas imagens da liturgia, como admirável a dedicação conjugal até à morte, ou até ao fim do mundo. O divórcio não está na separação sentenciada pelo juiz, o divórcio está e manifesta-se em sintomas individuais e sociais como os impedimentos à coabitação (casa própria para casamento), e à comum educação dos filhos no lar.

O futuro do catolicismo em Portugal muito depende da teologia do matrimónio, visto já não ser dos indivíduos, considerados estatisticamente, mas das famílias e das unidades familiares que esperamos a renovação da vida religiosa. À medida que formos esquecendo o princípio místico da relação de Cristo com a Igreja e do simbolismo que essa relação projecta na vida conjugal, a chamada igualdade dos sexos tende a cortar todos os nós e a quebrar todas as articulações que garantem a verdadeira estrutura da família. A doutrina do divórcio é solidária da doutrina da igualdade dos sexos. O engano da opinião pública resulta de só exprimirem doutrina as escritoras feministas, quando as mulheres portuguesas, em inegável maioria, preferem o matrimónio cristão e, consequentemente, o respectivo processo de redenção da humanidade.

A predilecção pela imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro explica-se pela razão de que nessa obra de arte está patente a divina maternidade na perfeição dos seus atributos. Não é já a Mãe que amamenta o filho, mas a mãe que o educou e preparou para o seu destino redentor e messiânico. Não é já a maternidade biológica, ainda com sabor pagão, mas a maternidade espiritual, em seu pleno significado educativo. Exemplo admirável, proposto à contemplação das adolescentes, que aspiram a cumprir o seu destino natural e sobrenatural, mas exemplo também admirável para os adolescentes na época em que com maior preferência perdem a fé, apenas porque ninguém lhes oferece tão adequada imagem da imitação de Cristo. A reflexão nos convence de que a muitas mulheres e a muitos homens, repugna imaginar, em termos comparáveis à paixão de Cristo, a redenção a efectuar nas condições da sociedade contemporânea. Ora a imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, se bem que contenha os elementos simbólicos do sofrimento humano, deixa indeterminado e livre o exercício fecundo da imaginação.


Nossa Senhora do Perpétuo Socorro


Tem sido, aliás, concedida grande liberdade aos devotos da imagem bizantina e, consequentemente, aos estudiosos da patrística grega. Abonamos esta afirmação com a carta de R. P. Superior dos Redentoristas de Paris ao P. E. Bertaud, autor de uma curiosa interpretação esotérica, publicada em 1947 no livro intitulado Études de Symbolisme dans le culte de la Vierge. A leitura dos estudos incluídos nesta obra, além de robustecer as nossas convicções, incitou-nos e excitou-nos a progredir na via especulativa de adequação do pensamento à realidade. Quiséramos nós que todos os devotos aplicassem a sua esclarecida inteligência a exprimir em termos de cultura filosófica e religiosa os frutos da sua imaginação. A variedade unificar-se-ia tão regularmente como os Reis Magos concorreram e convergiram para o mesmo presépio, guiados pela estrela simbólica da fé. Assim se constituiria a base doutrinal para o reconhecimento universal de que Maria Santíssima é, certamente, co-redentora da Humanidade (in Miriam, Ano II, n.º 11, 1955, pp. 504-510).


(1) Para evitar o perigo de serem mal interpretadas estas frases do Autor, tenham em conta as noções expostas nas páginas 483-485 da Revista Miriam do mês de Outubro. - Quando a Igreja define uma verdade como dogma de fé, não inventa essa verdade, simplesmente faz explícita uma verdade contida já nas Sagradas Escrituras ou afirma-nos que foi transmitida pelos Apóstolos e conservada na tradição. (Nota da redacção da Miriam).