quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A Alegria, a Dor e a Graça (ii)

Escrito por Leonardo Coimbra




«O ateísmo é, filosoficamente, um caso de analfabetismo, sem que da comparação com o analfabeto resulte depreciação injusta das virtudes e das razões do ateu. Nenhum homem culto pedirá que lhe mostrem a existência de Deus pelos processos das ciências de observação e de experimentação, nem solicitará que lhe demonstrem a essência de Deus por subtilezas da razão discursiva. O homem culto ou letrado obsta a que se torne imediata e patente aos nossos olhos a divindade; o homem culto ou letrado toma o ateísmo por conclusão necessária do agnosticismo.

Aliás, entre os Portugueses, não há o costume de negar a essência ou realidade, nem a existência ou aparição, do verdadeiro Deus. Pelo contrário, o que perturba e torna perplexo o pensamento do lusíada é que a existência de Deus seja compossível com a existência do mal. O mal na consciência humana, e o mal que os homens uns aos outros transmitem, por pensamentos, palavras e obras, - eis o que causa perturbação, perplexidade e escândalo de todos quantos afirmam a existência de Deus».

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


«"A morte - dizia [Leonardo Coimbra] já num dos seus primeiros ensaios de integração deste facto irredutível - é o facto mais brutal e absurdo da Natureza: uma consciência vai seguindo na curva da sua ascensão: quando precisamente vai no ramo superior dessa curva vem a Morte e oculta essa consciência. Desaparecimento absurdo e trágico". - E no entanto Leonardo Coimbra tinha uma acentuada propensão para admitir a imortalidade como uma grande esperança; por vezes mesmo como uma realidade "evidente". Apesar disso (sempre tivemos ao menos essa impressão) era um homem que vivia no terror secreto da Morte. Esse medo era mais forte que todas as esperanças temperamentais ou dialecticamente fundamentadas do seu espírito. Debalde a sua inteligência lhe afirmava que a morte é uma aparência: intimamente, com inteira e vital sinceridade, a sua personalidade total aspirava à Vida, desejando a convivência concreta dos homens concretos, desejando e amando o ar, o sol, a terra, a casa, a mesa, a companheira, o filho. Na sua mais grossa raiz temperamental era, em suma, um homem preso a esta margem. A outra temia-a mesmo, quando, lutando contra o espírito negativo, coloca na boca de um dos seus defensores esta justificação: "A Vida é um impulso, um esforço heróico para a consciência. Para que se não automatize e degrade esse esforço são precisas frescas e juvenis tropas de assalto. Eis a função cósmica da Morte"».

Sant'Anna Dionísio («Leonardo Coimbra»).


«Se o paganismo vibra de infantil Alegria naturalista, o cristianismo é a Alegria reconquistada, o sol depois da tempestade, a dignidade e certeza da vida, de olhos abertos e atentos na face da morte.

A Dor é o caminho da redenção.

(...) Leprosos, paralíticos, endemoninhados, bordam os caminhos de Cristo; e tantas vezes a sua palavra, toda perfume, enlevo e mimo, se interrompe para que as mãos toquem gangrenas.

Eu também acredito que Jesus veio em testemunho de Deus, e, por isso mesmo, sofreu como ninguém, sondou a Dor até àquele ponto onde ela se transfigura em imortal Alegria».

Leonardo Coimbra («A Alegria, a Dor e a Graça»).




A Dor

(...) Compreender o Universo, medir os mundos, assistir, repetindo-o, ao movimento que os anima e abraça, e ser o espelho de imagens jamais contempladas!


Pensai numa casa abandonada onde, há séculos, o mesmo espelho reflecte a solidão das paredes, a muda poeira do passado. É isto, no instante, a miniatura do Universo no Tempo!

O nada eterno, o zero infinito.

Tudo passa, morre e repete-se.

(...) Ir pela vida fora amorosamente enlaçados, a cantar pelos caminhos, tomando as flores para palavras, o céu e a terra para formas do nosso sentimento, da nossa fome de comunicação, e, de repente, ficarmos sós na estrada sob um céu vazio no meio duma natureza, que, emudecida, cala e nos ignora.

Outros hão-de vir?

Mas de que servem eles, se na estrada fatal ninguém permanecerá!

O planeta é a estrada do abismo; e, se pela gravidade ele sabe conservar os corpos, as almas vão desaparecendo na treva exterior, perdidas para o convívio e presença comunicativa.

O que é a consciência? Um clarão entre duas sombras? Só, então, o Universo toma consciência de si na alma do homem? Tem a terra o estranho privilégio do único foco que, por dentro, ilumina e aquece o todo?

Que solidão!

O homem passa na Terra exilado e só, ao lado dos animais e das árvores, das rochas, do mar, de todas as cegas e mudas indiferenças que o acompanham; o planeta passeia no Infinito, no meio de milhões de astros desertos, corpos de luz apagada, a miraculosa flor da consciência.




A consciência vem do nada para esse nada regressar? Se assim fosse!

Mas do nada não compreendemos o seu nascimento, e ao nada não admitimos a sua volta.

Para onde vão, pois, as almas?

Serão as consciências o trágico brinquedo dum Deus, que as acende e apaga como uma criança tonta de alegria simples? Mas pode Deus apoucar-se?

Sendo consciência, poderia ele aniquilar as consciências?

É a consciência um nada embriagado de ser?

(...) O Universo, reduzido a uma pura mecânica, seria um sistema de massas materialmente ligadas. Nada haveria de ideal neste sistema, nenhum laço de unidade o faria propriamente um Universo.

Esta realidade é a intuição subjacente a todas as metafísicas abstracções mecanicistas. É um processo curioso de suprimir o problema da consciência, que, afinal, volta a aparecer no fim como um milagre sem realidade mecânica, mas, em todo o caso, existente.

O epifenomenismo da consciência é um bastardo da mancebia do realismo ingénuo e primitivo com a monotonia dum pensamento apaixonado pelo rigoroso determinismo da mecânica.

Seria a demonstração por absurdo da existência da memória ou consciência.

(...) Se o Universo tem um foco onde se apreende e possui, ele é tão afastado da nossa realidade quotidiana que, em deslumbramento ou cegueira da sua luz, atravessamos a vida em incerta e dolorosa penumbra.

(...) O verdadeiro Deus, que da nossa cooperação aproveitasse, que ao nosso amor desse a eficiência plena do seu progressivo resgate, seria aquele, que o nosso saudoso escritor J. Sampaio (Bruno) atinge na interferência dum renovado platonismo com a brutalidade da existência do mal: Deus amante e amado, unidade de amor e aspiração, que, através das consciências, se vai elevando, subindo e resgatando.


Sampaio Bruno


(...) A ideia última é a do Supremo Bem; e Deus será, mais que o infinito da força, a bondade infinita, o perfeito e universal amor.

Como o mal é uma realidade, e J. Sampaio o não quer mesmo sujeitar a duvidosas interpretações, este Deus terá sofrido uma misteriosa queda, para cujo resgate em todo o Universo trabalham as consciências, em amorosa e sábia cooperação.

Mas esta misteriosa queda, feita simplesmente para síntese do mal do mundo e da bondade de Deus, não é compreensível.

O mal existe como facto, mas terá ele realidade bastante a determinar um sistema dos mundos?

Não estará o mal exactamente na escravidão com que o olhamos, na falta de interpretação capaz de o explicar?

O mal é a desarmonia, um desconcerto, onde se esperava encontrar o acordo e a ordem.

(...) A morte dos animais nem sequer tem o aspecto, que para o homem lhe dá o conhecimento.

A Natureza é indiferente ao espectáculo do seu desaparecimento, porque nada há neles de precioso em consciência ou ser individual.

A existência animal é simplesmente exemplar e a sua repetição espontânea e sem esforço.

(...) As consciências, ou almas, são plenas realidades eficientes, inatingíveis na sua pura essência espiritual pelas dores e maldade da aparência temporal.

A alma existe, o Universo tem um sentido espiritual; sob a névoa do Tempo está a substancialidade do eterno.

Então mais pungente irrompe a interrogação dolorosa: - «Para onde vão as almas?»




(...) Para o homem primitivo nunca a ausência era tão dolorosa como o tem de ser para nós.

As almas desaparecidas viviam em torno dele, na própria atmosfera que respirava. A família continuava unida, porque os mortos não fugiam.

Eles tinham mil ocasiões de intervenção nos negócios dos vivos, eram-lhes presentes a todas as horas. Companheiros de caça e de guerra, muitas vezes o seu auxílio era precioso e eficaz.

Era qualquer coisa como procurar alguém num terreno desconhecido, e receber a cada momento manifestações de certos sinais de origem desconhecida.

Hoje não há terrenos desconhecidos no planeta, e, no Universo, é tal a penetração, que o homem fez nos seus caminhos, que mal pode acreditar em ignorados recessos.

A resposta, no entanto, tem de ser igual.

Se as almas existem por si, elas irão para o nosso Espaço, animando outros corpos, para fora do nosso Espaço e para sempre desligadas dele, ou para fora, mas com possibilidades de manifestação dentro desse Espaço.

(...) Na velha Índia julgava-se que as almas percorriam um ciclo de vidas, animando sucessivamente corpos diferentes.

Esta doutrina da transmigração foi recebida pelos pitagóricos e ainda hoje tem inúmeros adeptos.

Entre os filósofos ocidentais, Schopenhauer foi profundamente influenciado pelas ideias do samsara e do nirvana.




Estátua gigante de Buda em Hong Kong



Experiências muito recentes do coronel de Rochas ofereceram o pretexto de rejuvenescimento da doutrina. Em transe hipnótico, uma rapariga conta-lhe a vida, do presente para o passado, com uma notável continuidade, e, sem parar nos limites da sua vida individual, continua com outros personagens.

Em cada indivíduo a consciência seria um ponto central duma vasta realidade, normalmente oculta, e que, por vezes, irrompe à luz da superfície.

Não só haveria em cada consciência um prolongamento misterioso, mas a riqueza da memória não se teria perdido, permanecendo virtual e pronta, em certas condições, para uma segura actualização.

Que é assim nos limites da vida individual, é coisa averiguada e certa.

As recordações sepultadas sob um esquecimento de muitos anos erguem-se subitamente numa crise da vida, num grande perigo, numa aflição ou dor que quebre o equilíbrio da nossa adaptação.

Recordações de cuja posse nunca se tivera conhecimento brotam sem solicitação consciente.

Todos os dias ouvimos e lemos sem clara consciência mil episódios, que, às vezes, na penumbra do sono ou do despertar, nos aparecem com insistência opressiva.

É clássico o caso duma mulher falando uma língua, que nunca conscientemente aprendera.

Somos, por assim dizer, os canais duma memória ou consciência infinitamente mais rica que a parte ao longo desses canais fluindo e tendo, para nós, um brilhante corpo de realidade.




Quem não tem sentido que a vida social o vai limitando, obrigando-o a cada passo a uma escolha entre as tantas virtualidades que possui, para abandonar algumas e prosseguir desfalcado e cada vez mais pobre?

(...) É claro que, numa Natureza realista e cheia, o indivíduo só pode existir como forma parcelar do todo.

O Universo é contínuo e pleno, material como o corpo do oceano. Os indivíduos têm de ser, como as ondas, gestos do todo, formas talhadas no seu corpo, subidas de sua idêntica imensidade. Morrer é regressar ao informe, ao contínuo e absoluto homogéneo.

Os indivíduos são as vagas subindo em corpo de espuma, tombando e voltando erguidas à realidade dum novo corpo; o Nirvana é o imenso oceano calmo e silencioso.

Quem não encontrou na consciência uma realidade viva bem diferente de tudo o que o não é, ou antes, de tudo o que o não parece, há-de mais tarde ou mais cedo diluí-la no mundo, perdê-la na Unidade abstracta do Ser.

(...) Cada ser conhece imediatamente o Espaço como um ponto de impenetrabilidade que é a sua afirmação de coexistência, conhece o Tempo como o caminho da tendência, a distância entre o desejo e a acção.

Este conhecimento vago precisa-se pelo movimento, que dá ao Espaço e ao Tempo a sua mais alta organização.

Suprimi-vos e, convosco, o movimento. Que resta? A teimosia sensualista vai dizer-nos que resta a matéria em extensão. Se, no entanto, sob as palavras buscais realidades, ides ver um vazio ilimitado onde a extensão, condensando-se, se anula.

É que cada ser tem a sua melhor realidade no movimento, que o liga no Universo; e o Espaço e o Tempo mais não são que as formas elementares dessa unidade.

(...) As unidades são, portanto, essenciais na arquitectura ideal do Cosmo e tanto mais reais quanto mais e melhor representam, no ponto, o Universo, resumem, no particular, o total, que o anima. A consciência é, assim, a flor cujas raízes penetram todo o Cosmo, erguendo-o e reintegrando-o no perfume da meditação.

Eis porque um Nirvana não responde à ansiedade com que procuramos o lugar das almas.




Há uma doutrina, bem próxima das primeiras crenças populares, que coloca as almas em invisível convivência e possível comunicação com a nossa vida. É o espiritismo. Apoiado em certas experiências, só excepcionalmente com valor científico, ele pretende dar a resposta à nossa angustiosa interrogação.

Há casos em que parece que almas de mortos se manifestam por comunicações medianímicas. A sua identificação é sempre feita por processos insuficientes (1), atendendo a um possível conhecimento telepático ou criptomnésico do médium.

As suas comunicações são, porém, sempre banais e nunca superiores à pobre vida terrestre.

As notícias do além colhidas deste modo estão muito abaixo dos pensamentos, que, na vida planetária, os espíritos sérios têm produzido.

A dificuldade desta doutrina está, pois, na pequena elevação espiritual que apresenta. Entre alguns pensamentos de Epicteto ou Marco Aurélio, para não ir a Job, Isaías ou Cristo, e as melhores revelações do pretendido espiritismo, há, da parte destas últimas, uma tal inferioridade de substancialismo e viva intimidade que elas mais parecem estranhos episódios psicológicos.

(...) Ver o Universo por dentro, ter uma exultante plenitude da cósmica consciência social, eis o destino das almas, que sempre viveram para Deus e em Deus.

As consciências não se perdem, antes se alarga e aprofunda o abraço da sua compreensão. E compreender é imediatamente amar, porque é achar no todo a universal participação, a ligação completa e perfeita. Nenhuma dissolução aniquiladora, nenhuma perda da memória comunicativa, da universal existência. O tempo não é uma ilusão de formas, que tenha por oposta realidade uma eternidade adormecida. Ele é já a vitória da consciência sobre o corpo, da ligação que se conhece e estima sobre a unidade inconsciente. Será, em eternidade, a memória perfeita e absoluta, foco da realidade de onde dimanam os abraços que a unem, a conservação de tudo o que existe com universal e substancial existência.

Como Deus é a fonte e a harmonia do Mundo, é a eternidade, a origem e a sentinela do Tempo.

Abstraindo do dogmatismo teológico, que organizou esse além na intenção de uma certa justiça, de obediência e sem reciprocidade, tem valor metafísico esta doutrina das almas. Tem, desde logo, um maior mistério e transcendência.

(...) Mas, apesar de compreensível e bela, a nova realidade das almas é-nos dolorosamente estranha.



Se demoramos a visão, aparece-nos como uma esbatida paisagem selenita, a germinação das sementes sob os amortecidos olhos do luar.

Por mais que o nosso pensamento se acomode a esse mundo, é tal a fome de concreta e vigorosa presença que este é, para nós, uma incoercível ronda de fantasmas.

Há uma hora do dia em que todos somos tímidos fantasmas vagabundos. É no adeus do crepúsculo, quando a luz morre e os contornos erram.

Nas máscaras fenece a certeza fisionómica; trevas fantásticas encovam-se nas órbitas, correndo pelos rostos como fogos-fátuos de sombra.

Se fixamos um corpo, ele furta-se numa obstinação aflitiva à apreensão do olhar.

É um mundo fantástico de incerteza em que mal distinguimos a face do amigo, que nos acompanha, da recordação dos outros, que nos deixaram.

É a hora da dúvida, dos encantamentos e das bruxas. O povo tem as suas visões e ele sabe que a essa hora o Invisível abriu as suas portas.

Ar de intranquilidade e insubsistência, que, nas cidades, mal vive curtos momentos.

E, na aldeia, os vizinhos que cresceram a par connosco, aparecem com caras desconhecidas.

Um rancho, que vem do trabalho cantando, é de repente estranha multidão emudecida. Contam-se em silêncio e mal acertam. Quem sabe se irá alguém a mais?

É a hora da Iniciação no Mistério ou na Morte. Como é hesitante e fugidia! Só o povo tem olhos virgens, a pôde ver; o letrado riu-se das bruxas... (in ob. cit., pp. 116-117; 120-123; 130-133; 135-137; 142; 147-152).


(1)  São muito notáveis as experiências do ilustre físico Lodge, sendo algumas altamente sugestivas da hipótese espiritual: «The Survival of Man, a Study in Unrecognised Human Faculty». Ver o nosso livro «A Luta pela Imortalidade».





Continua


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