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quarta-feira, 16 de maio de 2012

«Iluminismo cristão» (iii)

Escrito por Papus (Gérard Encausse)








«Agora, com a minha máquina, eu cortarei a sua cabeça num piscar de olhos, e você nunca sentirá isso!».

Discurso pronunciado pelo mação Joseph-Ignace Guillotin na Assembleia Constituinte de Paris a 1 de Dezembro de 1789.


«Para Gaston Martin, a doutrina revolucionária não nasceu nas lojas, mas partilhava com elas um fundo deísta, um anti-clericalismo, uma crença no progresso e na indefinida perfectibilidade humana por meio da ilustração; e além do mais, a maçonaria não só formava parte dum panorama intelectual mais amplo, como também contribuiu para que a revolução passasse "da teoria à prática", fixando "os métodos próprios para assegurar a realização das suas doutrinas".

Os matizes que Martin assinala podem parecer irrelevantes, mas a sua descrição reflecte a forma de actuação da maçonaria em quase todas as agitações políticas, desde o século XVIII até, pelo menos, à primeira metade do século XX:  a irmandade mostra-se solidária com as doutrinas "progressistas" e colabora para o seu triunfo.

(...) A maçonaria, em linhas gerais, não escondeu a sua participação activa e até "preponderante", mas não existem indícios de que aquele "grande e salutar movimento" tivesse sido planeado atrás das colunas do pórtico maçónico, e ainda que fossem excepções, até houve maçons que se opuseram ao avanço da Revolução. Aquele movimento teve muitos ingredientes. De facto, por assombroso que possa parecer, as tendências galicanas da coroa francesa, que escavavam as suas raízes mais de três séculos antes, uma coroa cada vez mais centralizadora e com uma concepção laicista do poder político, tinham feito mais para preparar a chegada da Revolução do que os remetentes conventículos maçónicos. Os juristas revolucionários sentiam-se plenamente herdeiros dos seus antecessores, os juristas galicanos, que tinham sustentado as teorias absolutistas do poder em prejuízo da filosofia social da Igreja: a Revolução foi a consequência natural do desenvolvimento dos princípios absolutistas. Outro princípio que também nasceu à sombra da coroa gaulesa foi o do nacionalismo, sobretudo a partir da política do Cardeal Richelieu e da sua obra póstuma, o Pacto de Vestefália.

Como diria Richard M. Weaver, "as ideias têm consequências"».

José Antonio Ullate Fabo («O Segredo da Maçonaria Desvendado»).


«O Grande Oriente de França esteve sempre nas mãos dos três "I": Ignorantes, Imbecis e Intrigantes».

Albert Pike (Carta ao Visconde de Jonquière).







«Pelo seu ambiente familiar, pelos amigos, pela época e a terra em que viveu, se alguma fé religiosa poderia ele ter abraçado, ela seria, sem dúvida alguma, a maçonaria. E poderíamos acrescentar a essas circunstâncias a de existirem afinidades esotéricas entre o pensamento de Bruno e os fundamentos e aspirações da maçonaria. Apesar de tudo isso, o pensador portuense nunca esteve filiado em qualquer loja. É ele quem o diz: "filho de maçon, com altos graus na Ordem, eu nunca pertenci à Maçonaria. Respeito a sua tradição histórica; e sei que os serviços que ela prestou à causa da liberdade na Europa e na América a tornam digna de veneração a todos os espíritos progressivos [...]. Todavia - quero ter a coragem de dizê-lo, consoante ainda mui rapaz me atrevi a dizê-lo a meu próprio pai - em regra, e como princípio geral superior -, não simpatizo com associações secretas; e não simpatizo com associações secretas porque é força da sua essência que elas façam prevalecer sobre a ideia de justiça para todos a ideia da protecção para alguns; e assim, sacrifiquem o direito do profano à iniquidade do iniciado, com cuja causa o laço da  misteriosa solidariedade se aperta" ["A Voz Pública" de 26 de Janeiro de 1902].

(...) quem "esotericamente definiu o ternário sagrado" foi o abade de Saint-Martin ["O Brasil Mental"], e Saint-Martin teria bebido em fontes misteriosas - o ensino de Martínez de Pascualis, judeu português ou espanhol, autor do tratado da Reintegração dos Seres, que "instituíra um rito cabalístico, o qual introduzira nalgumas lojas maçónicas de França, em Marselha, Tolosa e Bordéus"  ["O Encoberto"]. Quer isto dizer, por conseguinte, que o "ternário sagrado" teria origens simultaneamente mística e judaica. O messianismo judaico teria sido aqui o veículo dessa revelação, obra, em última análise, do verbo divino...».

Joel Serrão («Sampaio Bruno»).


«O abandono da Maçonaria vulgar correspondeu à descoberta do "martinismo", em cujos "mistérios", teóricos e práticos Joseph de Maistre foi iniciado pelo citado Willermoz, discípulo, como Saint-Martin e, por morte deste, seu continuador da chefia da Ordem.

(...) [No] capítulo sobre a Tradição Portuguesa, diz-nos Álvaro Ribeiro ter sido "Sampaio Bruno o pensador que mais inteligentemente no-la revelou". Com efeito, em O Encoberto, depois de ter estudado a influência de Saint-Martin, na Revolução Francesa, ao expor a doutrina esotérica pela tríade de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, escreve assim:

"O ternário sagrado! Saint-Martin, seu inventor e promotor!" 

Mas, sem embargo da sua peculiar originalidade, cumpre não esquecer que Saint-Martin começara por ser discípulo d'outrem, d'um desses homens extraordinários que grava a sua personalidade na sua época; e esse homem era português, "misterioso português", consoante (realista, romanescamente) se compraz em lhe chamar o biógrafo crítico do philosophe inconnu, o sr. Matter. Português-judeu, cristão-novo, "de raça oriental e de origem insólita, mas tornado cristão à laia como assim se tornavam os gnósticos dos primeiros séculos". Quem?




"Quanto mais se estuda Saint-Martin, com o tratado de seu mestre, Da Reintegração, à vista, tanto mais se sente, em toda a sua profundidade, a influência do teurgista de Portugal sobre o mais célebre dos seus discípulos de Bordéus".

O tratado de Pascoal Martins, Da Reintegração, é, de seu título completo, Tratado da Reintegração de Todos os Seres nos Seus Princípios Primitivos.

(...) Não se deduz de tudo isto que haja um exclusivo de identidade entre a tradição portuguesa e o martinismo. Este terá sido durante o século XVIII e para a Europa Central a expressão oportuna dessa tradição. Mas a relação pode constituir o fio que nos conduza à cabala pelo judaísmo, à gnose pelo cristianismo, à sabedoria sufi pelo islamismo. "Três tradições concorrem na formação do pensamento português: a judaica, a cristã e a islâmica". A filosofia portuguesa terá por fim realizar a sua síntese católica.

(...) "Heterodoxia" e "ortodoxia" são relativos entre si. Se houvesse incompatibilidade da doutrina, do dogma e dos sacramentos da Igreja de Christo com a kabbalah, como teria sido possível a obra catolicíssima de Joseph de Maistre, guia oculto da Ordem maçónica martinista? Joseph de Maistre não se afasta um yod da ortodoxia e, no entanto, outra coisa está por debaixo. Não será uma relação análoga que o próprio Filho do Homem estabelece entre o Novo e o Velho Testamentos?».

António Telmo («Filosofia e Kabbalah»).





Os adversários do Martinismo e as suas objecções

Apesar dos fracos recursos materiais, os progressos da Ordem Martinista foram rápidos e consideráveis. Mas o seu sucesso originou três tipos de adversários: 1.º os materialistas ateus, representantes do Grande Oriente de França; 2.º os clérigos; 3.º as sociedades e indivíduos que combatem Cristo e procuram diminuir a sua obra, aberta ou ocultamente.


Os Clérigos

Os ataques dos clérigos são mais desleais e mais directos. (...) Apesar de todas as afirmações e evidências contrárias, é-lhes impossível admitir que os ocultistas (e nós em particular) não consagrem ao diabo algum culto secreto. Por conseguinte, os Martinistas devem ocultar o seu objecto; todos aqueles que ousam defender Cristo mantendo o clero no seu devido lugar, que vende Cristo todos os dias ao mercador do templo, escapam, segundo esses bons clérigos, às mais terríveis evocações de Satã e dos mais ilustres demónios.

É muito difícil convencer escritores clericais que o clero e Deus possam agir independentemente um do outro; que podemos perfeitamente admitir a bondade de Deus e a cobiça material do clero (que age dizendo ser em seu nome), sem as confundir um instante que seja. Segundo eles, atacar um inquisidor é atacar Deus.






Os Martinistas querem ser cristãos, livres de toda a dependência clerical; as acusações de satanismo farão balançar-lhes os ombros, pedindo perdão ao Céu para aqueles que os caluniam injustamente.

A esse respeito, ouviremos novamente a grande farsa de Léo Taxil sobre o tema dos ocultistas diabólicos? Veremos sob o seu verdadeiro aspecto essa bizarra sociedade secreta do Labarum, cujos dignitários são nossos conhecidos? Ouviremos como Taxil deve estar disposto a organizar uma nova mistificação baseada na Maçonaria Feminina? Não seria melhor tolerar o insulto, a calúnia, o descrédito, sem responder de outra maneira a não ser pelo perdão e pelo esquecimento?

Cada novo ataque, sendo injusto e vil jamais fica sem recompensa e vale ao Martinismo um novo sucesso. Eis a verdadeira manipulação das leis ocultas e o verdadeiro uso das faculdades espirituais do homem. Quando acusamos os escritores clericais de enganar o público ingénuo, que aceita as suas afrontas, e de empregar processos polémicos, indignos do autor de respeito, poder-se-ia acreditar que existe da nossa parte certa animosidade e tendência para o exagero. Para evitar essa dúvida, iremos submeter alguns desses processos ao próprio leitor, para o seu julgamento. Escolheremos a última deslealdade cometida. O autor ficará certamente muito feliz por ser apresentado ao público. Chama-se Antonini, professor do Instituto Católico de Paris, e o seu livro intitula-se A Doutrina do Mal.

Nessa obra, fala-se muito de Satã, de Lúcifer, do Diabo e do seu culto secreto. Entretanto, falta a esse autor a veia do excelente Taxil; ele é, ademais insonso e sem imaginação. Não temos mais esse bom Bitru, de quem Taxil extraiu parte do apêndice para oferecê-lo aos Jesuítas, que o aceitaram com reconhecimento. Fica bem entendido que os ocultistas (benzei-vos), e em particular o vosso servidor, passam uma boa parte do seu tempo na companhia do Diabo, fazendo anagramas, para os quais o Sr. Antonini tem imensa dificuldade em encontrar a chave. (...)


Os adversários de Cristo

Os Clérigos acusam, pois, os Martinistas de evocar Satã ou algum outro demónio nas suas reuniões secretas, que jamais existiram a não ser na sua imaginação. Outras sociedades que pretendem estudar o Ocultismo e «desenvolver as faculdades latentes no homem», sem crer, de resto, na existência do diabo, hipocritamente fazem circular cartas acusando os Martinistas de praticar "Magia Negra".






Ora, a prática da Magia Negra consiste em fazer o mal consciente e covardemente; nada é mais distanciado do objectivo e dos processos essencialmente cristãos do Martinismo de todos os tempos. Os Martinistas não praticam magia, nem a branca, e muito menos a negra. Estudam, oram e perdoam as injúrias da melhor maneira possível.

Os Rosa-Cruzes sempre combateram os feiticeiros, aproveitadores da ignorância e do cepticismo popular, para exercerem os seus poderes sobre vítimas inocentes, prevenindo abertamente todos aqueles a quem tinham dado o baptismo da luz. Esse trabalho foi sempre oculto, realizado através da prece.

Os Martinistas, como os Rosa-Cruzes, sempre defenderam a verdade, agindo sem subterfúgios, publicando os seus actos e as suas decisões. Pelo contrário, aqueles que difamam na sombra, ocultando-se quando se vêem descobertos, escrevendo circulares hipócritas e caluniando sorrateiramente os Martinistas, temendo a sua lealdade, não merecem senão piedade e o perdão. Vendo as faculdades latentes manifestadas através desses processos, somos levados a mostrar a esses homens que a Magia Nagra começa pela difamação anónima, tão geradora de larvas no plano mental quanto a baixa feitiçaria do camponês iletrado no plano astral.


Martinismo e Franco-Maçonaria

Os escritores que se ocuparam do Martinismo, sobre tudo os clérigos, confundiram muitas vezes com uma má fé voluntária o Martinismo com a Franco-Maçonaria. O Martinismo, não exigindo nenhum juramento de obediência passiva dos seus membros e não lhes impondo nenhum dogma (muito menos o dogma materialista ou clerical) deixa-os inteiramente livres nas suas acções; ele é independente da Franco-Maçonaria como ordem, tal como é praticada actualmente em França.

Como toda a ordem de iluminados, o Martinismo dá acesso, nalgumas reuniões, a Franco-Maçons instruídos (sobretudo a membros do Rito Escocês) quando possuem pelo menos o grau 18 (Rosa-Cruz); mas essas relações limitam-se a uma simples questão de delicadeza. Os Martinistas contemporâneos não agem de maneira diversa nas mesmas circunstâncias, como agiram os seus antepassados dos Conventos de Gaules e de Wilhemsbad.






Portanto o nome cabalístico de Cristo e o reconhecimento do Verbo Criador na mente, em todos os seus actos, o Martinismo só pode manter relações com potências maçónicas que trabalhem segundo a constituição dos Rosa-Cruzes Iluminados, que fundaram a Franco-Maçonaria. Todo o rito que subtrai Deus das suas pranchas e transforma, sem referências tradicionais, o simbolismo que lhe confiaram, não existe mais para os Martinistas, assim como também para todos os iniciados de um centro real e sério.

Eis porque o Grande Oriente de França, que está distanciado da verdadeira e universal Franco-Maçonaria, não deve ser confundido com o Martinismo, como os clérigos procuram fazer.


O Grande Oriente e as suas Origens

O Grande Oriente de França nasceu de uma insurreição de alguns dos seus membros contra as constituições e a hierarquia tradicionais da Franco-Maçonaria. Algumas linhas de explicação são aqui necessárias.

A Franco-Maçonaria foi fundada na Inglaterra por homens que faziam parte de uma das potentes fraternidades secretas do Ocidente: a Confraria dos Rosa-Cruzes. Esses homens, sobretudo Ashmole, tiveram a ideia de criar um centro de propaganda onde pudessem formar, sem que se soubesse abertamente, membros instruídos para a Rosa-Cruz. Assim, as primeiras lojas maçónicas foram mistas e compostas por obreiros reais e por obreiros da inteligência (livres maçons). Os primeiros trabalhos de Ashmole datam de 1646; mas  foi somente em 1717 que a Grande Loja de Londres foi constituída. Foi essa Loja quem forneceu as cartas regulares às Lojas francesas de Dunkerque (1721), Paris (1725), Bordeaux (1732), etc.

As lojas de Paris multiplicaram-se rapidamente, nomearam um Grão-Mestre para França, o Duque D'Antin (1738 a 1743), sob a influência do qual foi idealizada e publicada a Enciclopédia, como veremos adiante. Eis a origem real da revolução realizada inicialmente no plano intelectual, passando após ao plano formal.

Em 1743, o Conde de Clermont sucedeu ao Duque D'Antin como Grão-Mestre e tomou a direcção da Grande Loja Inglesa da França. Esse Conde de Clermont, muito negligente para se ocupar seriamente dessa sociedade, nomeou como substituto um mestre de dança, Lacorne, indivíduo intrigante e de costumes deploráveis. Esse Lacorne fez entrar nas lojas uma grande quantidade de indivíduos da sua espécie, o que originou a cisão entre a loja constituída por Lacorne (Grande Loja Lacorne) e os antigos membros que formavam a Grande Loja de França (1756).

Após uma tentativa de reconciliação entre as duas facções rivais (1758), o escândalo tornou-se tão grande que a polícia interveio e fechou as lojas de Paris.







Lacorne e os seus adeptos aproveitando-se desse acontecimento, obtiveram o apoio do Duque de Luxemburgo (15 de Junho de 1761) (9). Fortes por esse apoio, conseguiram entrar na Grande Loja de onde tinham sido banidos. Fizeram nomear uma comissão de controle, cujos membros foram previamente comprados. Ao mesmo tempo, os irmãos do Rito Templário (Conselho dos Imperadores) associaram-se em segredo às intrigas dos comissários e, em 24 de Dezembro de 1772, um verdadeiro golpe de estado maçónico foi dado pela supressão da inamovibilidade dos presidentes das Lojas e pelo estabelecimento do regime representativo. Revoltados vitoriosos fundaram, desse modo, o Grande Oriente da França. Um maçon contemporâneo pôde escrever: «Não é demais dizer que a revolução maçónica de 1773 foi a precursora e o estopim da Revolução de 1789» (10).

O que é necessário enfatizar é a acção secreta dos irmãos do Rito Templário. Foram eles os verdadeiros fomentadores das revoluções; os demais não passaram de dóceis agentes. Assim, o leitor poderá compreender a nossa afirmação: O Grande Oriente nasceu de uma insurreição. Retornemos sobre dois pontos: a) A Enciclopédia (Revolução Intelectual); b) A História do Grande Oriente de 1773 a 1789.


A Enciclopédia

Dissemos que os factos sobre os quais os historiadores se baseiam foram, na maioria dos casos, consequência de acções ocultas. Ora, pensemos que a revolução não seria possível se esforços consideráveis não tivessem sido feitos precedentemente para orientar num novo caminho a intelectualidade de França. É agindo sobre os espíritos cultivados, criadores da opinião, que se prepara a revolução social. Iremos encontrar, agora, uma prova decisiva sobre esse facto.

Em 25 de Junho de 1740, o Duque D'Antin, Grão-Mestre da Franco-Maçonaria de França, pronunciou um importante discurso onde veio a anunciar o grande projecto em curso, como demonstra a seguinte citação:

«Todos os Grão-Mestres da Alemanha, Inglaterra, Itália e de outros países, exortam todos os sábios e artesãos da Fraternidade a se unirem para fornecer os materiais de um dicionário universal das artes liberais e das ciências úteis, excepto teologia e política. Já se começou a obra em Londres; e pela reunião dos nossos irmãos, poder-se-á conduzi-la à perfeição em poucos anos».

Amiable e Colfavru, nos seus estudos sobre a Franco-Maçonaria no séc. XVIII, compreenderam perfeitamente a importância desse projecto, pois, após terem falado da Enciclopédia Inglesa de Chambers (Londres 1728), acrescentaram:

«Bem mais prodigiosa foi a obra publicada em França, contendo 28 volumes in-fólio, sendo 17 com texto de 11 com gravuras, aos quais foram acrescentados, em seguida, cinco volumes complementares, obra cujo autor principal foi Diderot, secundado por uma plêiade de escritores de elite. Mas não lhe bastava ter colaboradores para a boa execução da sua obra; foi-lhe necessário potentes protectores. Como poderia ter sido protegido sem a Franco-Maçonaria?».

«Além disso, as datas aqui são demonstrativas: o Duque D'Antin pronunciou o seu discurso em 1740; sabe-se que, desde 1741 Diderot preparava a sua grande empresa. O privilégio indispensável à publicação foi obtido em 1745. O primeiro volume da Enciclopédia apareceu em 1751».





Assim a revolução já se manifestava em duas etapas: a) Revolução Intelectual, originada da Enciclopédia, com apoio da Franco-Maçonaria Francesa, sob a alta impulsão do Duque D'Antin (1740); b) Revolução Oculta nas lojas, promovida em grande parte pelos membros do Rito Templário executado por um grupo de Franco-Maçons expulsos, depois amnistiados pelo Duque de Luxemburgo (1773) e pela presidência do Duque de Chartres.

A revolução patente na sociedade, isto é, a aplicação à sociedade das constituições das lojas não tardou. Retomemos a história do Grande Oriente no ponto onde a deixámos. Uma vez constituída, a nova potência maçónica apelou a toda as lojas para ratificar a nomeação do Duque de Chartres como Grão-Mestre.

Ao mesmo tempo (1774), o Grande Oriente instalava-se no antigo noviciado dos Jesuítas, à rua do Pot-de-Fer, procedendo à expulsão das ovelhas sarnentas. Cento e quatro lojas aderiram ao novo estado de coisas; mais tarde, 195 (1776); finalmente, em 1789 havia 629 lojas em actividade.

Mas um facto, em nossa opinião considerável, produziu-se em 1789. Os capítulos do Rito Templário tornaram-se oficialmente aliados ao Grande Oriente, chegando a fundir-se com ele. Vimos como os Irmãos desse rito ajudaram à revolta de onde nasceu o Grande Oriente. (...)


O Rito Templário e o Escocismo

A Franco-Maçonaria, como vimos, foi estabelecida na Inglaterra por membros da Fraternidade dos Rosa-Cruzes, desejosos de constituir um centro de propaganda e recrutamento para a sua ordem. A Franco-Maçonaria inglesa possuía somente três graus: Aprendiz, Companheiro e Mestre. Como consequência, a Franco-Maçonaria Francesa e o Grande Oriente, o seu ramo principal, eram formados por membros possuidores apenas dos três primeiros graus. Mas, logo homens determinados desejaram ter recebido uma iniciação superior, de acordo com os mistérios da Fraternidade dos Rosa-Cruzes. Os ritos criaram-se concedendo graus superiores ao grau de Mestre, chamados altos graus.

O espírito dos ritos dos graus superiores, assim criados, era naturalmente diferente daquele da maçonaria propriamente dita. Foi assim que Ramsay instituiu o Sistema Escocês, cuja base era política e cujo ensinamento tendia a fazer de cada Irmão um vingador da Ordem do Templo (11). Eis porque demos o nome de Rito Templário a essa criação de Ramsay.

As reuniões dos irmãos detentores de altos graus passaram a denominar-se não mais lojas, mas capítulos. Os principais capítulos estabelecidos em França foram:

1.º - O Capítulo de Clermont (Paris 1752), de onde saiu o Barão de Hund, criador da alta maçonaria alemã ou iluminismo alemão;

2.º - Após o Capítulo de Clermont, nasceu o Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente (Paris, 1758), do qual certos membros, separando-se dos seus Irmãos, formaram;

3.º - Os Cavaleiros do Oriente (Paris, 1763), cada uma dessas potências expedia cartas de lojas e os principais Irmãos (Tshoudy, Boileau, etc.) criaram ritos especiais no interior da França.

Em 1782, o Conselho dos Imperadores e os Cavaleiros do Oriente uniram-se para formar o Grande Capítulo Geral da França, cujos principais membros tinham contribuído para a constituição do Grande Oriente pelas suas intrigas. Assim, também vemos em 1786, esses Irmãos realizarem a fusão do Grande Capítulo Geral da França. Qual foi o resultado dessa fusão? Os membros do Grande Capítulo, bem disciplinados, perseguindo um objectivo preciso e sendo inteligentes, puderam dispor do número fornecido pelo Grande Oriente.





Compreende-se agora a génese maçónica da Revolução Francesa. A maior parte dos historiadores confunde esses membros do Rito Templário, verdadeiros inspiradores da revolução (12), com os Martinistas (in ob. cit., pp. 44-48;54-58).


Notas:

(9) Veja Ragon. Ortodoxia Maçónica, p. 56.

(10) Amiable e Colfavru, Op. Cit.

(11) Em 19 de Março de 1314, Jacques de Molay, Grão-Mestre da Ordem do Templo, foi queimado numa pequena Ilha do Sena, em Paris, por ordem do rei de França, Philippe, o Belo, com o consentimento do Papa Clemente V. A Ordem do Templo foi exteriormente destruída e os seus bens confiscados pelo rei de França. A Ordem, no entanto, permaneceu oculta, sendo continuada na Escócia sob a direcção do Cavaleiro D'Aumout. Este, segundo S. de Guaita, teria constituído as bases da Franco-Maçonaria e continuado a iniciação oculta, que mais tarde tomou o nome de Fraternidade Rosa-Cruz (N.T.).

(12) Alguns autores pretendem que o internamento de Luís XVI, no Templo, foi decidido pelos Irmãos do Rito Templário.


domingo, 13 de maio de 2012

«Iluminismo cristão» (ii)

Escrito por Papus (Gérard Encausse)








«No Congresso Espiritualista Maçónico de 1908, René Guénon esteve presente como secretário da mesa. Mas abandonou o Congresso, logo após a sessão de abertura, chocado com uma frase do discurso de Papus: "As sociedades futuras serão transformadas pela certeza de duas verdades fundamentais do espiritualismo: a sobrevivência e a reencarnação"».

António Carlos Carvalho (in pref. a R. Guénon, «A Crise do Mundo Moderno»).


«O iluminismo, doutrina da luz interior, é de tipo oriental. Segundo o iluminismo, a verdade não resulta da prática docente; descobre-se na alma humana, afastando os obstáculos corporais, passionais e intelectuais, segundo um procedimento de que ainda há eco em Sócrates. A alma humana tem de ser libertada da doutrina que estabelece a distinção entre o Criador e a Criatura, do princípio da individualidade natural, para que se realize a adunação mística ou búdica.

Dentro da ortodoxia católica o iluminismo teve como altos representantes Santo Agostinho e S. Boaventura, em cuja doutrina predominam os termos de contemplação, intuição e visão beatífica, posto que o objecto da filosofia e o fim ulterior do homem é o amor de Deus. O iluminismo propende, porém, para a heterodoxia, como no caso do quietismo de Madame Guyon, ressalvado por Fénelon, para o abandono dos sacramentos e da doutrina que os justifica, num mundo aberto à acção do homem.

Esta dilatação da fé, dilatação da luz, e consequentemente da liberdade, tendia a impelir para o domínio da teologia, ortodoxa ou heterodoxa, tudo quanto não pode ser demonstrado pela razão natural. Este alargamento da fé, por adesão a objectos intelectuais que não são dados da Revelação, nem estão contidos na Sagrada Escritura, tendia para o fideísmo, doutrina da subjectividade infinita que na Alemanha haveria de obter grande número de adeptos».

Álvaro Ribeiro («Filosofia Escolástica e Dedução Cronológica»).


«Proclamam acaso os professores que se aprenda e fixe o que eles pensam, e não as doutrinas mesmas, que eles julgam comunicar falando? Pois quem será tão estultamente curioso que mande o seu filho à escola, para que ele aprenda o que o professor pensa? Ora depois de terem [os professores] explicado por palavras todas essas doutrinas, que declaram ensinar, incluindo a da virtude e a da sapiência, então aqueles que são chamados discípulos, consideram consigo mesmos se se disseram coisas verdadeiras, e fazem-no contemplando, na medida das próprias forças, aquela Verdade interior de que falámos. É então que aprendem.

(...) "não chamemos mestre a ninguém na terra, pois que o único Mestre de todos nós está nos Céus" (Mateus, 23, 8-10). O que quer dizer - nos Céus - Ele próprio o ensinará, Ele que também pelos homens, por meio de sinais e de fora, nos incita a que nos voltemos para Ele no nosso interior, para sermos ensinados. A vida venturosa é conhecê-lo e amá-lo. Todos proclamam que a buscam, mas poucos são os que podem alegrar-se de a ter verdadeiramente encontrado».

Santo Agostinho («O Mestre»).


«A França é no Invisível a filha mais velha da Europa, devendo, por conseguinte, manter no seu seio o centro da iniciação. Mas, a maioria das lojas maçónicas francesas afastaram-se da iniciação, atendo-se aos compromissos maléficos da política, descendo de grau em grau até se tornarem centros activos de ateísmo e de materialismo.

Tendo abandonado o estudo dos símbolos, que estavam incumbidos de transmitir às gerações futuras, e tendo feito , sob protesto de anticlericalismo, uma guerra incessante a toda a crença e a todo o ideal, os Franco-Maçons franceses tornaram-se logo indignos de serem contados entre os membros da grande família maçónica universal».

Papus («Martinesismo, Martinismo, Willermosismo e Franco-Maçonaria»).




2.2. O Willermosismo

Dos discípulos de Pasqually dois merecem particularmente a nossa atenção pelas obras que realizaram: Jean-Baptiste Willermoz, de Lyon, e Louis-Claude de Saint-Martin. (...) Willermoz, negociante Lionês, era maçon quando começou a sua correspondência iniciática com Martinez de Pasqually. Habituado à hierarquia maçónica, aos grupos e às Lojas, concentrou a sua obra de realização no sentido do trabalho em grupo. Tendeu, pois, a constituir Lojas de Iluminados enquanto Saint-Martin dirigiu os seus esforços para o trabalho individual.




A obra capital de Willermoz foi a organização de congressos maçónicos, os Conventos, permitindo aos Martinistas desmascarar previamente a obra fatal dos Templários e apresentar o Martinismo sob o seu real aspecto de universalismo integral e imparcial da Ciência Hermética.

Quando foi iniciado por Martinez, Willermoz era venerável da loja A Perfeita Harmonia de Lyon, cargo que ocupou entre 1752 e 1763. Essa loja filiava-se com a Grande Loja de França. Em 1760, uma primeira selecção foi realizada e todos os membros portadores do grau de Mestre constituíram uma grande Loja de Mestres de Lyon tendo Willermoz como Grão-Mestre. Em 1765, uma nova selecção foi realizada através da criação do Capítulo de Cavaleiros da Águia Negra, colocados sob a direcção do Dr. Jacques Willermoz, irmão mais novo de Jean-Baptiste. Ao mesmo tempo, este abandonou a presidência da Loja ordinária e da Loja de Mestres, em favor do Ir/Sellonf, para colocar-se na chefia da Loja dos Elus Cohens, formada com os melhores elementos do Capítulo. Sellonf, Jacques Willermoz e Jean-Baptiste formaram um Conselho Secreto, tendo os irmãos de Lyon sob tutela.

Constata-se nos documentos depositados no Supremo Conselho da Ordem Martinista, vindos directamente de Willermoz, que as reuniões, reservadas aos membros portadores do título de Iluminado, eram consagradas à oração colectiva e às operações, permitindo a comunicação directa com o Invisível. Possuímos todos os detalhes necessários para a realização dessa comunicação; mas esses rituais devem ficar reservados exclusivamente ao Comité Director do Supremo Conselho. Podemos revelar, contudo, lançando grandes luzes sobre muitos pontos, que os iniciados davam o nome de Filósofo Desconhecido ao ser invisível com o qual se comunicavam. Foi ele quem ditou, em parte, o livro Dos Erros e da Verdade de Saint-Martin, que somente adoptou esse pseudónimo mais tarde, por ordem superior. Provamos essa informação no nosso volume consagrado a Saint-Martin.

A mais alta espiritualidade, a mais intensa submissão às vontades do Céu, as mais ardentes orações a Nosso Senhor Jesus Cristo jamais deixaram de preceder, de acompanhar e de encerrar as reuniões presididas por Willermoz (4). Apesar disso, os clérigos ainda desejam ver um diabo peludo e cornudo em toda a influência invisível e se estão dispostos a confundir tudo o que for supra-terrestre com influências inferiores, só poderemos lamentar uma posição desse tipo, que possibilita toda a espécie de mistificação e de jocosidade. O Willermosismo, assim como o Martinesismo e o Martinismo, sempre foi foi cristão mas nunca clerical. Ele dá a César o que é de César e a Cristo o que é de Cristo, jamais vende Cristo a César.

O Agente ou Filósofo Desconhecido ditou 166 cadernos de instrução, possibilitando a Saint-Martin copiar os principais. Entre todos esses manuscritos, cerca de 80 foram destruídos nos primeiros meses de 1790 pelo próprio Agente, para evitar que caíssem nas mãos de enviados de Robespierre, que se esforçou por obtê-los.


2.3. Os Conventos





Em 12 de Agosto de 1778, Willermoz anunciou o Convento de Gaules, realizado em Lyon entre 25 de 27 de Dezembro do mesmo ano. Esse convento tinha como objectivo apurar o sistema escocês e destruir todos os maus gérmens introduzidos no sistema pelos Templários. Sob a influência dos Iluminados de todo o País, saiu dessa reunião a primeira condenação do plano de vingança sangrenta, preparado em silêncio dentro de algumas lojas. O resultado dos trabalhos desse convento está contido no Novo Código das Lojas Rectificadas de França, mantido nos nossos arquivos e publicado em 1779.

Para se compreender o grande esforço realizado no sentido da união dos maçons é necessário lembrar que o mundo maçónico estava em plena anarquia.

O Grande Oriente de França fora fundado em 1772 graças à usurpação da Grande Loja por Lacorne e seus seguidores, dirigidos ocultamente pelos Templários. Estes, após terem estabelecido o Capítulo de Clermont, foram transformados em 1760 no Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente; em 1762, em Cavaleiros do Oriente, entrando, finalmente, no Grande Oriente através de Lacorne.

Graças à sua influência, o sistema de lojas foi profundamente modificado; em todos os lugares o regime parlamentar, realizando as eleições dos seus oficiais, substituiu a antiga unidade e autoridade hierárquica. Com a desordem causada por essa revolução, que se estendera por toda a parte, os Martinistas intervieram no sentido de trazerem a reconciliação para todos. Eis a razão desse primeiro convento de 1778 e dos seus esforços para impedir as dilapidações financeiras que se faziam em toda a parte.

Encorajado por esse primeiro sucesso, Willermoz convocou, a partir do dia 9 de Setembro de 1780, «todas as grandes lojas escocesas da Europa ao Convento de Wilhemsbad, perto de Hanau» (5). O Convento de Wilhemsbad foi aberto numa terça-feira, no dia 16 de Julho de 1782, sob a presidência de Ferdinand de Brunswick, um dos chefes do Iluminismo Internacional. Desse convento saiu a Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa de Jerusalém e uma nova condenação do sistema Templário.

Como se observa, o Willermosismo tendeu sempre para o agrupamento de fraternidades iniciáticas, para a constituição de colectividades de iniciados dirigidas por centros activos de novo ligados ao iluminismo. Não tem razão quem pensa que Willermoz abandonara as ideias dos seus mestres; pensar isso é conhecer mal o seu carácter elevado. Sempre até à morte, ele quis estabelecer a Maçonaria sob bases sólidas, dando como objectivo aos seus membros a prática da virtude e da caridade; mas sempre procurou fazer das lojas e dos capítulos, centros de selecção para os grupos de Iluminados. A primeira parte da sua obra era clara, a segunda oculta; é por isso que as pessoas mal informadas podem não ver Willermoz sob a sua verdadeira personalidade.

Após a tormenta revolucionária, tendo o seu irmão Jacques Willermoz sido guilhotinado, juntamente com todos os seus iniciados, havendo ele próprio escapado por milagre ao mesmo infortúnio, foi ainda ele quem reconstituiu a Franco-Maçonaria espiritualista, graças aos rituais que pôde salvar do desastre.


Louis-Claude de Saint-Martin e o Martinismo





Além dos estudos ligados ao Iluminismo, começados juntos a Martinez e desenvolvidos com Willermoz, Louis-Claude de Saint-Martin ocupou-se activamente da Alquimia. Ele possuía em Lyon um laboratório organizado para esse fim. (...) Tendo estendido o seu raio de acção, Saint-Martin foi obrigado a fazer certas reformas dentro do Martinesismo. Os autores clássicos da Maçonaria deram o nome do grande realizador à sua adaptação e designaram sob o nome de Martinismo o movimento proveniente de Louis-Claude de Saint-Martin. É muito divertido ver certos críticos, que nos abstemos de qualificar, esforçarem-se por fazer acreditar que Saint-Martin jamais fundou qualquer ordem.

A Ordem de Saint-Martin foi introduzida na Rússia sob o reino da Grande Catarina, sendo tão difundida ao ponto de ser mencionada numa peça de teatro encenada na corte. É à Ordem de Saint-Martin que se ligam as iniciações individuais, referidas nas memórias da baronesa de Oberkierch. O autor clássico da Franco-Maçonaria, o positivista Ragon, que não simpatizava com os ritos dos Iluminados, descreve nas páginas 167 e 168 de sua Ortodoxia Maçónica as mudanças operadas por Saint-Martin para constituir o Martinismo (6).

Sabemos que esses críticos não merecem ser levados a sério, principalmente por Saint-Martin ter desprezado a Franco-Maçonaria positivista, facto que nunca perdoaram. O mesmo Martinez, que remeteu a Maçonaria para o seu verdadeiro papel de escola elementar e de centro de instrução simbólica inferior. Em suma, quando desejam negar factos históricos, ridicularizam-nos.

Aqueles que os críticos universitários denominavam Teósofo de Amboise foi um realizador bastante prático, sob uma aparência mística. Empregou assim como Weishaupt (7) a iniciação individual. Foi graças a esse procedimento que a Ordem obteve facilidade de adaptação e de extensão, que muitos ritos maçónicos invejam. Saint-Martin não se dedicara à difusão da Cavalaria Cristã de Martinez, o que desencadeou violentos ataques endereçados contra a sua obra, a sua personalidade e a sua vida. (...)


Martinismo e Materialismo





A obra perigosa de Cagliostro não foi a única que Saint-Martin procurou combater. Ele também concentrou todos os seus esforços para lutar contra o progresso dos Filósofos, que se esforçavam por precipitar a Revolução espalhando por toda a Europa os princípios do ateísmo e do materialismo. Foram ainda os Templários (8) que conduziram esse movimento organizado, como nos indicam os trechos extraídos de Kirchberger:

«A incredulidade formou actualmente um clube muito bem organizado. É uma grande árvore que faz sombra numa parte considerável da Alemanha, que porta muitos maus frutos e que projecta as suas raízes até à Suíça. Os adversários da religião cristã têm as suas afiliações, os seus observadores e a sua correspondência muito bem montada; para cada departamento, têm um provincial que dirige os agentes subalternos; têm os principais jornais alemães sob controle, que constituem a leitura favorita do clero, que não gosta mais de estudar; os nossos jornais censuram artigos, aos quais dão a sua versão e criticam os demais; se um escritor quer combater o despotismo, enfrentará uma enorme dificuldade para encontrar um editor que queira encarregar-se do seu manuscrito. Eis o método para a parte literária; mas têm muitos outros para consolidar o seu poderio e enfraquecer aqueles que sustentam a boa causa».

«Se há uma vaga de instrução pública qualquer, ou se existe um senhor com necessidade de um instrutor para os seu filhos, eles têm três ou quatro personagens prontos que se apresentam ao mesmo tempo por canais diferentes; dessa maneira, estão quase sempre certos de vencer. Eis como é frequentada a Alemanha, e para onde enviamos os nossos jovens para estudar».

«Pesquisam também para colocar os seus protegidos nos gabinentes dos ministros da corte alemã; têm também os seus apadrinhados dentro dos conselhos dos príncipes e noutros lugares».

«Um segundo método que empregam é aquele de Basílio... a calúnia. Esse método torna-se para eles cada vez mais fácil, na medida em que a maior parte dos eclesiásticos protestantes são, infelizmente, os seus agentes mais zelosos; como essa classe tem mil maneiras de penetração em todos os lugares, podem espalhar os rumores que causam efeito, antes que se tenha tido conhecimento da coisa e tempo de se defender».

«Essa coalizão monstruosa custou trinta e cinco anos de trabalho ao seu chefe, que é um velho homem de letras de Berlim, e, ao mesmo tempo um dos livreiros mais célebres da Alemanha. Ele redige desde 1765 o primeiro jornal desse país; chama-se Frederic Nicolai. Essa Biblioteca Germânica foi também amparada pelos seus agentes, pelo espírito da Gazeta Literária de Viena, que é muito bem feito e que circula em todos os países onde a língua alemã é falada. Nicolai influencia ainda o jornal de Berlim e o Museu Alemão, dois veículos muitos acreditados. A organização política e as sociedades afiliadas foram estabelecidas quando os jornais inocularam suficientemente o seu veneno. Eles marcharam lentamente, mas com passo seguro. Actualmente o seu progresso é tão assustador e a sua influência tão grande, que não existe mais nenhum esforço que possa resistir-lhes; somente a Providência tem o poder de nos libertar dessa peste».






«No início, a marcha dos Nicolaistas foi muito silenciosa; associavam as melhores cabeças da Alemanha à sua Biblioteca Universal; os artigos científicos eram admiráveis; os temas de obras teológicas ocupavam sempre uma parte considerável de cada volume. Esses temas eram compostos com tanta sabedoria, que os nossos professores da Suíça recomendavam-nos nos seus discursos públicos aos nossos jovens eclesiásticos. Mas, pouco a pouco, eles expeliam o seu veneno, embora com bastante cautela. Esse veneno foi reforçado com endereço certo. Mas, por fim, tiraram a máscara e, em dois de seus jornais afiliados, esses celerados ousavam comparar o nosso Divino Mestre ao célebre impostor tártaro Dalai Lama (...). Esses horrores circularam na nossa terra, sem que ninguém em toda a Suíça desse o menor sinal de descontentamento. Então, em 1790, escrevi numa gazeta política, à qual estava anexa uma folha onde se escrevia tudo; despertei a indignação pública contra esses iluminadores, Aufklarer, ou esclarecedores, como se denominavam. Enfatizei a atrocidade e a profunda asneira dessa blasfémia».

«Neste momento, esses indivíduos causam uma influência negativa mais fraca através dos seus escritos do que pelas suas filiações, pelas suas intrigas e pelas suas infiltrações nos postos; de sorte que a maior parte do nosso clero, na Suíça, é corrompida moralmente até ao miolo dos ossos. Faço, por minha parte, tudo o que posso pelo menos para retardar a marcha desses indivíduos. Algumas vezes obtive sucesso, noutros casos os meus esforços foram impotentes, porque são muito adestrados e porque o seu número chama-se legião» (in ob. cit., pp.18-21; 25-26; 32-34).


Notas:

(4) «Conheci muitos Martinistas, tanto em Lyon como em diferentes cidades das províncias meridionais. Longe de parecerem ligados às opiniões dos filósofos modernos, demonstravam desprezo pelos seus princípios. A sua imaginação, exaltada pela obscuridade dos escritos do seu patriarca, deixava-os expostos a todo o género de credulidade. Embora muitos fossem distinguidos por talentos e conhecimentos, tinham o espírito amiúde ocupado com fantamas e prodígios. Não se limitavam a seguir os preceitos da religião dominante; mas livravam-se das práticas de devoção em uso na classe menos instruída. Em geral, os seus costumes eram bastantes regulares. Constatava-se grande mudança de conduta naqueles que, antes de adoptar as opiniões dos Martinistas, tinham vivido na dissipação e na procura dos prazeres» (Neunier, Influências dos Iluminados na Revolução, Paris, 1822, 8, p. 157).

(5) Ragon, Ortodoxia Maçônica, p. 162.

(6) Ficamos surpresos por ver o judicioso autor da História da Fundação do Grande Oriente de França ter o prazer de diminuir O Escocismo reformado de Saint-Martin, no qual só encontra «superstições ridículas e crenças absurdas». Não ignoramos que a maior parte das cópias existentes desse rito estão bastante alteradas, podendo induzir ao erro o homem mais instruído, mas, assinalemos: 1.º que grandes luzes e o talento de escrever asseguram a Saint-Martin um lugar distinto entre os Sectários particulares; 2.º que foi pelo menos uma empresa louvável, ultrapassando o círculo estreito desse labirinto e pelo orgulho; 3.º que a filiação dos graus de Saint-Martin apresenta, aparentemente, um sistema bastante coerente, um conjunto que pode conduzir facilmente todo o iniciado na arte real. Finalmente, cada grau em particular supõe um conhecimento profundo da Bíblia, que ninguém possuía melhor do que ele próprio dos textos originais, conhecimento bastante raaro entre os maçons. Poder-se-ia talvez apenas censurar-lhe de ser muito preso aos detalhes (De L'Aulnaye, Le Thuilleur Géneral).

(7) Veja Cartas à Caton Zwach, de 16.2.1781.




(8) Esses templários que, segundo Papus, organizaram um movimento subversivo que culminou com a Revolução Francesa, só tem o nome dos antigos Templários, construtores do Templo Místico de Salomão. Os primeiros originaram-se do Sistema Escocês instituído por Ramsay em 1728, «cuja base era política e cujo ensinamento tendia a fazer de cada Irmão um vingador da Ordem do Templo». Os antigos Templários originavam-se da Ordem do Templo, fundada em Jerusalém em 1118 por Hugues de Payens e Geoffroi de Saint-Omer e sete Cavaleiros, sob a espada do 67º sucessor de São João, o Evangelista. Exteriormente, tinham como objectivo proteger os peregrinos que se dirigiam ao Santo Sepulcro de Jerusalém; ocultamente, o objectivo era obter a Iluminação, como toda a ordem iniciática digna desse nome (N.T.).

Continua


quinta-feira, 10 de maio de 2012

«Iluminismo cristão» (i)

Escrito por Papus (Gérard Encausse) 








«A tradição portuguesa, a esperança de que o Cristianismo reintegrará o Homem e a Natureza no Reino de Deus, durante o século XVIII passa a exprimir-se em termos diferentes dos que ficaram estabelecidos na nomenclatura da teologia católica e da filosofia aristotélica. A obra de Pascoal Martins, vertida maravilhosamente na cultura da Europa Central, dá-nos ainda uma síntese admirável, das tradições peninsulares...».

Álvaro Ribeiro («A Arte de Filosofar»).


«Comecemos pela teosofia ou teoria. Pretendendo ser uma história oculta da humanidade, é um emanatismo, isto é, aceitação de que todos os seres derivam ou emanam dum ser único que é Deus. Da primeira emanação resultam essências espirituais existindo na esfera divina ou superceleste. Alguns espíritos, porém, prevaricaram, pretendendo, à semelhança de Deus, fazer emanar de si seres espirituais. Deus separou então os espíritos que não prevaricaram daqueles que prevaricaram: os primeiros permaneceram na esfera divina ou superceleste, e os segundos foram colocados na esfera celeste - guardados por um "espírito menor", Adão, última emanação divina: "os próprios anjos eram submetidos à sua grande virtude e seus poderes". Mas Adão foi tentado e enganado pelos espíritos que ele guardava: "Adão, tu tens inato em ti o verbo da criação em todos os géneros..." "Porque não operas a potência da criação divina que é inata em ti?..." Adão executou "fisicamente" a sua criminosa e frustrada cópia de emanação que ele era, uma forma de matéria tenebrosa e completamente oposta à sua, dando origem aos homens. Foi o pecado de Adão. Foi a Queda. Punido, Adão decaiu da esfera celeste para a esfera terrestre, sujeito à condição da matéria corruptível que ele mesmo criou. Trata-se, pois, duma versão esotérica dos primeiros capítulos do Génesis, em que o antagonismo (ou confusão) dos sentidos de emanação e de criação parece estar, mais de raiz do que supõe Rijnberk, para lá das divergências terminológicas dos manuscritos, quanto ao emprego das palavras criar e emanar em passos intercorrespondentes. Esta mesma divergência terminológica parece indicar o impreciso da doutrina porque "emanação opõe-se à criação". Mas reatemos. Não obstante as tentações demoníacas dos "homens" - produtos do pecado de Adão -, aparecem, entre eles, seres encarregados de trabalhar pela "reconciliação" em Deus (ou com Deus?), espíritos menores eleitos, nascidos "apenas pela vontade e operação divinas" e que se encarnam por devotamento para com os homens. É a doutrina da "reintegração", que Martinez teria ido buscar aos manuscritos do árabe Al-Rachath».

Amorim de Carvalho («O Positivismo Metafísico de Sampaio Bruno»).


«O método de Swedenborg para obter as visões era muito particular. Conheceu apenas três ou quatro vezes o raptus, a impressão de sair de si. Estava acostumado ao deliquim, estado cataléptico, que o fazia cair para a frente, rosto contra o chão, e perder, por vezes, a consciência. Entregava-se quotidianamente às "visões representativas", de olhos abertos (in aperti oculi status). Não aceitava que o considerassem um alucinado: segundo os seus princípios anatómicos, o nervo óptico dependia da vista interior (visus spiritus), sem a qual os olhos não poderiam ver nada no exterior. Desenvolvendo misticamente esta visão interior, penetrava-se no invisível. Para atingir este poder, Swedenborg praticava a suspensão respiratória, em função da sua teoria das relações entre o cérebro e os pulmões. Acreditava que o espírito possuía uma "respiração interna" que subsistia depois da morte, e da qual se sentiam os efeitos se se suspendia a repiração externa. Os pensamentos "voam para o interior do corpo" no momento da inspiração, e são expulsos durante a expiração. Se se inspira com sabedoria o poder espiritual é aumentado. Enquanto conversava com os anjos, Swedenborg esforçava-se por ficar o mais possível sem nenhum movimento respiratório. Os seus desmaios - os seus deliquia, como ele dizia - deviam-se justamente ao facto de ele reter demasiado a respiração.

(...) As viagens extáticas de Swedenborg não se fazem na sua cabeça, mas no centro da sua cabeça, tornado um verdadeiro orgão do movimento. Durante os seus trânsitos extra-terrestres, as suas conversas de além-túmulo, experimenta sensações no occipício, na têmpora esquerda ou direita, na língua, num dos seus olhos. Quando os espíritos de Mercúrio lhe falam, ouve-os com o seu olho esquerdo».

Alexandrian («História da Filosofia Oculta»).







«É impossível aos anjos enunciar uma única palavra de uma língua humana».

«A linguagem do anjo ou do espírito com o homem é ouvida de uma maneira tão sonora como a linguagem do homem com o homem; mas é entendida só por ele, e não por aqueles que estão presentes».

Swedenborg («Do Céu e das suas maravilhas, assim como do Inferno segundo o que pude entender e ver»).


«...A inovação de Martines de Pasqually foi afirmar que não se sabia antecipadamente que ser apareceria no momento da evocação: o que surgisse seria a Coisa, uma "forma gloriosa" que emanava do mundo celeste e do mundo superceleste, podendo ser um som ou um hieróglifo luminoso».

«...o Eleito Cohen procurava os passes, quer dizer, os traços luminosos da passagem da Coisa. Martines de Pasqually chamava passes às luminosidades brancas, ou azuladas, ou avermelhadas, que passavam rapidamente sob os seus olhos. Era-se avisado da sua eminência ao sentir "pele de galinha por todo o corpo". Obter um passe provava que se tinha estabelecido contacto com o mundo supercelestial, e certos adeptos não esperavam nada de melhor. Durante o trabalho, cada um usava o seu "escudo" (talismã triangular), pois se arriscava a ser atacado pelos demónios. Podia também ser vítima de uma penosa tracção da Coisa. O abade Fournié, que foi, durante muito tempo, secretário de Martines de Pasqually, numa invocação em que se encontrava sozinho, sentiu uma tracção "por uma mão que lhe batia através do corpo", e confessou 25 anos mais tarde: "Daria de bom coração todo o universo, todos os prazeres e a sua glória, com a garantia de os gozar durante um milhar de milhões de anos, para evitar ser atingido daquela maneira novamente"».

(...) Segundo Papus, que possuía documentos secretos da Ordem, os Eleitos Cohen obrigavam-se a "um triplo treino: alimentar, para o corpo físico; repiratório, para o corpo astral; musical e psíquico, para o Espírito". Era necessário abster-se toda a vida de comer carne de pombo, tal como rins, gordura e sangue de qualquer animal. Devia jejuar-se durante onze horas antes de começar a Invocação dos três dias, podendo apenas beber-se água (mas não café nem licor). As experiências resultavam melhor quando Martines de Pasqually assistia, tanto o seu ascendente iniciático influenciava os seus próximos: "Nas primeiras sessões, os novos discípulos admitidos a tomar parte nos trabalhos do mestre, verão a Coisa realizar misteriosas acções. Sairão de lá entusiasmados e aterrorizados, como São Martinho, ou ébrios de orgulho e de ambição como os discípulos de Paris. Produziram-se aparições, seres estranhos, de uma essência diferente da natureza humana, tomaram a palavra". Mas os adeptos, entregues a si próprios, não obtinham esse género de maravilhas: Willermoz passou 10 anos até ver a Coisa. Martines escreveu-lhe, em 7 de Abril de 1770: "A Coisa é, por vezes, muito dura para aqueles que a desejam muito ardentemente antes do tempo indicado. Seja constante, será recompensado". Outros desencorajaram-se e voltaram-se contra o seu iniciador».

Alexandrian («História da Filosofia Oculta»).





1. Os Iluminados Cristãos

1.1. A Rosa-Cruz

É impossível compreender a essência do Martinismo de todas as épocas, se não estabelecermos antes a diferença fundamental existente entre uma Sociedade de Iluminados e a Maçonaria. Uma Sociedade de Iluminados liga-se ao Invisível por um ou pelos seus vários chefes. O seu princípio de existência tem a sua origem num plano supra-humano; toda a sua organização administrativa faz-se de cima para baixo. Os membros da fraternidade obedecem aos seus chefes, obrigação que se torna ainda mais importante à medida que os membros entram no círculo interior.






A Maçonaria não está ligada ao Invisível por nenhum vínculo. O seu princípio de existência tem a sua origem nos seus membros e em nada mais. Toda a sua organização administrativa faz-se de baixo para cima, com selecções sucessivas por eleição.

Do que foi dito, infere-se que esta última forma de Fraternidade nada pode produzir para fortificar a sua existência a não ser cartas constitutivas e papéis administrativos, comuns a toda a sociedade profana; enquanto as Ordens de Iluminados baseiam-se, sempre, no Princípio do Invisível que as dirige.

A vida privada, as obras públicas e o carácter dos chefes da maioria das fraternidades de Iluminados demonstram que esse Princípio Invisível pertence ao plano Divino, sem relação alguma com Satã ou com outros demónios, como insinuam os clérigos, assustados com o progresso dessas sociedades.

A Fraternidade de Iluminados mais conhecida, anterior a Swedenborg, a única da qual se pode falar no mundo profano, é a dos Irmãos Iluminados da Rosa-Cruz, cuja constituição e chave serão dadas dentro de alguns anos. Foram os membros dessa Fraternidade que decidiram criar sociedades simbólicas, encarregadas de conservar os princípios da Iniciação Hermética, originando os diversos ritos da Franco-Maçonaria. Não se pode estabelecer confusão alguma entre o Iluminismo, centro superior de estudos Herméticos, e a Maçonaria, centro inferior de conservação, reservado aos iniciados. Só entrando nas Fraternidades de Iluminados é que os Franco-Maçons podem obter o conhecimento prático desta Luz, momento em que, então, sobem de grau em grau.


Swedenborg

Através dos esforços constantes dos Irmãos Iluminados da Rosa-Cruz, o Invisível concedeu um impulso considerável à Humanidade através da iluminação de Swedenborg, o célebre sábio sueco.

A missão de realização de Swedenborg consistiu, basicamente, na constituição de uma cavalaria laica de Cristo, encarregada de defender a ideia cristã, dentro da sua pureza primitiva, e de atenuar, no Invisível, os deploráveis efeitos das corrupções, das especulações de fortuna e de todos os processos caros ao Príncipe deste Mundo, realizados pelos Jesuítas, sob as cores do Cristianismo.

Swedenborg dividiu a sua obra de realização em três secções:

- Secção do ensinamento, constituída pelos seus livros e pelo relato das suas visões;

- Secção religiosa, constituída pela aplicação ritualística das suas doutrinas;

- Secção responsável pela tradição simbólica e pela prática, constituída pelos graus iniciáticos do Rito Swedenborgeano.

Neste momento, esta última secção interessa-nos particularmente. Ela foi dividida em três secções secundárias: a primeira era elementar e maçónica; a segunda preparava o recipiendário para o Iluminismo; a terceira era activa.












(…) Observa-se, além disso, que o único verdadeiro criador dos altos graus foi Swedenborg; graus esses que estão exclusivamente ligados ao Iluminismo e foram directamente hierarquizados e constituídos por Seres Invisíveis. Mais tarde, falsos maçons procuraram apropriar-se dos graus do Iluminismo e não conseguiram senão expor a sua ignorância.

Com efeito, a posse do grau de Irmão Iluminado da Rosa-Cruz não consiste na propriedade de um pergaminho ou de uma faixa sobre o peito; prova-se somente pela aquisição de poderes espirituais activos, que o pergaminho e a faixa apenas podem indicar.

Ora, entre os iniciados de Swedenborg, houve um a quem o Invisível prestou assistência particular e incessante, um homem dotado de grandes faculdades de realização em todos os planos. Esse homem, Martinez de Pasqually, recebeu a iniciação do Mestre em Londres, sendo incumbido de difundi-la em França.


2. Os Iluminados

2.1. O Martinesismo

Foi graças às cartas de Martinez de Pasqually que pudemos fixar a ortografia exacta do seu nome, violado até então pelos críticos (1); foi ainda graças aos arquivos que possuímos e ao apoio constante do Invisível, que lográmos demonstrar que Martinez jamais teve a ideia de transportar a Maçonaria para os princípios essenciais, que sempre desprezou, como bom iluminado que foi. Martinez passou metade da sua vida combatendo os nefastos efeitos da propaganda sem fé desses pedantes de lojas, desses pseudo-veneráveis que, abandonado o caminho que lhes fora fixado pelos Superiores Incógnitos, quiseram tornar-se pólos do Universo e substituir a acção de Cristo pelas suas e os conselhos do Invisível pelos resultados dos escrutínios da multidão.

Em que consistia o Martinesismo? Na aquisição pela pureza corporal, anímica e espiritual, dos poderes que permitem ao homem estabelecer contacto com os Seres Invisíveis, denominados anjos pela Igreja, atingindo não apenas a sua reintegração pessoal, mas também a reintegração de todos os discípulos de vontade.






Martinez chamava à sala de reuniões todos os que lhe pediam a luz. Traçava os círculos ritualísticos, escrevia as palavras sagradas, recitava as suas orações com humildade e fervor, agindo sempre em nome de Cristo, como testemunharam todos aqueles que assistiram às suas operações, como testemunham ainda todos os seus escritos. Então, os seres invisíveis apareciam resplandecentes de luz. Agiam e falavam, ministravam ensinamentos elevados e instigavam à oração e ao recolhimento; tudo isso ocorria sem médiuns adormecidos, sem êxtase, sem alucinações doentias.

Quando a operação terminava, e após a saída dos Seres invisíveis, Martinez dava aos seus discípulos os métodos necesssários para chegarem por si mesmos à produção dos mesmos resultados. Só quando os discípulos obtinham sozinhos a assistência real do Invisível é que Martinez lhes outorgava o grau de Rosa-Cruz, como mostram as suas cartas com evidência.

A iniciação de Willermoz, que durou mais de dez anos, a de Louis Claude de Saint-Martin e a de outros, mostram-nos que o Martinesismo foi consagrado a outros objectivos, além da prática da Maçonaria Simbólica. Basta não ser admitido no pórtico de um centro real de Iluminismo, para confundir os discursos dos veneráveis com os trabalhos activos dos Rosa-Cruzes Martinistas.

Martinez quis inovar tão pouco que conservou integralmente os nomes dados pelos Invisíveis e transmitidos por Swedenborg. Seria justo, então, utilizarmos a denominação de Swedenborgismo adaptado em vez do Martinesismo (2).

Martinez considerava a Franco-Maçonaria como uma escola de instrução elementar e inferior, como prova Mestre Cohen que diz: «Fui recebido Mestre Cohen, passando do triângulo aos círculos». Isto quer dizer, traduzindo os símbolos: «Fui recebido Mestre Iluminado, passando da Franco-Maçonaria à prática do Iluminismo». Pergunta-se igualmente ao Aprendiz Cohen: «Quais são as diferentes palavras, sinais e toques convencionais dos Eleitos Maçons Apócrifos?». E ele responde: «Para o Aprendiz, Jakin, a palavra de passe é Tubalcain; para o Companheiro, Boaz, a palavra é Schiboleth; para o Mestre, Macbenac, a palavra é Giblin».

Era necessário possuir pelos menos sete dos graus da Maçonaria para tornar-se Cohen. A leitura mesmo superficial dos catecismos é clara a esse respeito. Martinez procurava desenvolver cada um dos membros da sua ordem através do trabalho pessoal, deixando-lhes toda a liberdade e toda a responsabilidade pelos seus actos. Ele seleccionava com o maior cuidado todos os iniciados, conferindo os graus apenas a uma real aristocracia da inteligência.






Os iniciados, uma vez recrutados, reuniam-se para trabalhar em conjunto; essas reuniões eram feitas em épocas astrológicas determinadas. Assim se constituiu uma cavalaria de Cristo, cavalaria laica, tolerante e que se afastava das práticas habituais dos diversos cleros.

Procura individual da reintegração por Cristo, trabalho em grupo, união de esforços espirituais para ajudar os principiantes; tal foi, em resumo, o papel do Martinesismo. Esta Ordem recrutava os seus discípulos directamente dos profanos, como foi o caso de Saint-Martin, ou, mais habitualmente, entre os homens já titulares de altos graus maçónicos.

Em 1574, Martinez estava ligado:

1. À Franco-Maçonaria oriunda da Inglaterra, constituindo a Grande Loja Inglesa de França (após 1743), que deveria, em breve, tornar-se a Grande Loja da França (1756), dando lugar às intrigas do mestre de dança Lacorne. Esssa Maçonaria era absolutamente elementar e era constituída apenas pelos três graus azuis (Aprendiz, Companheiro e Mestre); actuava sem pretensões e formava um excelente centro de selecção.

2. Paralelamente a essa Loja Inglesa, existia sob o nome de Capítulo de Clermont, um grupo que praticava o sistema templário que Ramsay acrescentou em 1728 à Maçonaria com os seus graus designados "Escocês, Noviço, Cavaleiro do Templo", etc. Uma outra explicação é necessária: um dos representantes mais activos da iniciação templária foi Fénelon. Nos seus estudos sobre Cabala estabelecera várias relações com vários Cabalistas e Hermetistas. Após «a sua luta com Bossuet» (3), Fénelon foi forçado a fugir do mundo e a exilar-se, momento em que preparou, com o maior cuidado, um plano de acção que deveria mais tarde proporcionar-lhe a vingança.

O cavaleiro de Ramsay foi cuidadosamente iniciado por Fénelon e incumbido de excutar esse plano com o apoio dos Templários, que obteriam ao mesmo tempo a sua vingança. O cavaleiro de Beneville estabeleceu em 1754 o Capítulo de Clermont, com os seus graus templários. Ele perseguia um objectivo político e uma revolução sangrenta que Martinez não podia aprovar, como nenhum outro cavaleiro do Cristo aprovaria. Assim como Martinez, todos os discípulos da sua ordem, entre os quais Saint-Martin e Willermoz, combateram energicamente esse rito templário, que alcançou parte dos seus fins em 1789, e em 1793, quando mandou guilhotinar a maioria dos chefes Martinistas. Mas não nos antecipemos.

3. Além dessas duas correntes, havia outros representantes do Iluminismo em França. Citemos, em primeiro lugar, Dom Pernety, tradutor da obra O Céu e o Inferno de Swedenborg, fundador do sistema dos Iluminados de Avignon (1766) e importante personagem na constituição dos Filaletes (1773). É necessário ligar ao mesmo centro a obra de Benedict de Chastenier, que lançou em Londres em 1767 as bases do seu Rito Iluminados Teósofos, que brilhou particularmente a partir de 1783.

O Iluminismo criou vários grupos interligados por objectivos comuns e por Mestres Invisíveis oriundos da mesma fonte, que se reuniram posteriormente no plano físico. De Martinez de Pasqually vem a obra mais fecunda nesse sentido, pois foi a ele que o céu deu poderes activos, recordados pelos seus discípulos com admiração e respeito.


Do ponto de vista administrativo, o Martinesismo seguirá exactamente os graus de Swedenborg, como podemos constatar pela simples leitura da carta de Martinez de 16 de Junho de 1760. Com efeito o grau de Mestre Grande Arquitecto resume os três graus da terceira secção (in Papus, Martinesismo, Willermosismo, Martinismo e Franco-Maçonaria, Hugin, 2001, pp. 13-18).


Notas:


(1) Papus, Martinez de Pasqually, Paris, 1895.

(2) «É dito nos mistérios do Rito de Swedenborg que o homem, uma vez integrado por uma vida santa e exemplar na sua dignidade primitiva, uma vez tendo recuperado os seus direitos primitivos, através de trabalhos úteis, aproxima-se então do seu Criador, conhecendo uma via nova, especulativa, animada pelo sopro Divino: ele é iniciado Elu Cohen: nas suas instruções que recebe, aprende as Ciências Ocultas em todas as suas partes, que lhe fazem conhecer os segredos da Natureza, a alta Química, a Ontologia e a Astronomia» (Revhelline, 2.º vol., p. 434, citado por Ragon, Orthodoxie Maçonnique).

(3) Bispo francês (1627-1704), orador de grande reputação. Preceptor do príncipe herdeiro sob Luís XVI. Combateu os protestantes e condenou o Quietismo de Fénelon. Este, arcebispo de Cambria (1651-1715), pelas suas críticas ao rei de França, foi obrigado a submeter-se e a retirar-se no seu arcebispado. O Quietismo foi uma doutrina mística combatida pela Igreja. Apoiava-se nas obras do padre espanhol Molinos e ensinava que a perfeição cristã é obtida pelo amor de Deus e pela anulação da vontade inddividual (sic!).

Continua