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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O Consórcio Mundial (ii)

Escrito por Henri Massis






































«Em 22 de Junho de 1941 as tropas alemãs atravessam a fronteira com a  União Soviética, e atacam com poderosos meios militares. É a guerra germano-russa. De há semanas que, no segredo das chancelarias, se acentuavam os indícios do conflito iminente. Salazar não sente qualquer surpresa. Diz a Pedro Theotónio: esse conflito "tive-o sempre por fatal". Não acreditava que duas revoluções, como a comunista e a nacional-socialista, pudessem desenvolver-se a paredes-meias; e a Alemanha, se queria resolver o problema da alegada falta de espaço, apenas poderia fazê-lo a Oriente. Mas para além do agravamento da guerra e dos seus perigos, há que ver o futuro. Ora "eu não vejo a guerra através da guerra; vejo a guerra através da paz. Quer dizer: o que me preocupa mais não é saber quem vence ou como vai vencer, mas que paz se fará, com que princípios se constituirá a futura paz. Neste campo, pode perguntar-se se o fim da guerra é a destruição da unidade alemã ou se esta unidade, acabada de realizar por Hitler, não é uma vantagem europeia". Neste contexto, julga "precipitado" o discurso com que Churchill saúda a entrada da Rússia na luta. Sem dúvida: aproveitar a força russa para combater a Alemanha é perfeitamente compreensível. Mas importaria não esquecer que a União Soviética colaborou na partilha da Polónia, e fora para defesa deste país que a Grã-Bretanha entrara em guerra; e que Moscovo invadira a Finlândia, e se apossara dos Estados Bálticos, e da Bessarábia; e tudo isto era contrário aos fins da guerra afirmados por Londres. Parecia deste modo que Churchill não deveria ter oferecido a sua "solidariedade", conclui Salazar. Posta a questão em tais termos, Salazar receia que a opinião ocidental se sinta dividida, e que em alguns países, como a Espanha, cause uma impressão desfavorável à causa britânica e do Ocidente em geral. Em qualquer caso, da guerra germano-russa, e a menos que a sua duração seja breve e termine pela derrota de Moscovo, resulta a inevitabilidade de o Japão, pela acção do Pacto Tripartido e em virtude da sua política imperial, entrar também no conflito, e o facto arrastará fatalmente os Estados Unidos. Na América do Sul, serão imediatas as repercussões, e com dificuldade se vê que a África se possa eximir a estas. Salazar encara a situação com o pessimismo mais cru: considera como um imperativo, todavia, poupar Portugal à catástrofe e tentar, contra a evidência mais luminosa, que da provação mundial saía o país intacto».

Franco Nogueira («Salazar», III).


«De repente, em 1941, tudo muda para Churchill. O destino oscila. Com a  entrada da URSS na guerra, a 22 de Junho, e dos Estados Unidos, a 7 de Dezembro, a Inglaterra não só deixa de estar isolada frente a Hitler, mas está de novo situada no próprio coração de uma coligação planetária. Nesta guerra, transformada em guerra mundial, é a Grã-Bretanha que passa a constituir o centro nevrálgico da "Grande Aliança" - como Winston a baptizou, em memória da coligação organizada contra Luís XIV, na época do seu antepassado Marlborough. Durante quatro anos, Churchill vai desempenhar em simultâneo o papel de empresário, actor e artista deste empreendimento colossal destinado a derrubar as forças do Eixo. E é a esta tarefa que ele consagra a maior parte da sua energia e da sua acção, esforçando-se por impulsionar e por dominar uma nova geopolítica caracterizada pela "divisão ternária do mundo", para retomar uma expressão de Shakespeare.

No Outono de 1939, apesar da entrada do Exército Vermelho na Polónia, e da partilha do país entre Alemães e Soviéticos, Churchill tinha-se distinguido por uma moderação surpreendente frente à política do Kremlin. Em vez de se unir à vaga de condenações indignadas que arrastava os seus compatriotas, o Primeiro Lorde do Almirantado tinha adoptado uma linguagem matizada e prudente, deixando a porta aberta a eventuais inflexões, ou até mesmo a futuras mudanças de direcção. Foi assim que, no seu primeiro discurso radiodifundido pela BBC, a 1 de Outubro, ao mesmo tempo que sublinhava que a política de Estaline era ditada, antes de mais, pelos interesses nacionais da URSS, Winston tinha dado a entender que o enigma russo - "quebra-cabeças envolvido em mistério no interior de um enigma", tinha ele precisado, numa fórmula que se tornaria célebre [War Speeches, t. I, p. 162] - não podia dissimular o facto de que era impossível à União Soviética tolerar que a Alemanha de Hitler tentasse dominar os Balcãs e o Sudeste Europeu. Daí a ideia de que os interesses antagónicos entre os dois gigantes totalitários provocariam, mais tarde ou mais cedo, um conflito entre ambos. Em Outubro, de 1940, frente aos seus conselheiros militares assombrados, Winston atrevera-se mesmo a afirmar, como uma presciência magnífica, que deviam estar preparados para que a Alemanha viesse a atacar a URSS em 1941.




Mas é sobretudo, na Primavera de 1941 que, à luz das informações provenientes dos Ultra, Churchill deixa de ter dúvidas sobre a iminência de uma poderosa ofensiva alemã ao leste europeu. No início de Abril, ordena ao Embaixador britânico em Moscovo, Sir Stafford Cripps, que transmita com urgência uma mensagem de advertência ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, Molotov. Cripps, porém, hesita; depois, após uma chamada à ordem do Primeiro-ministro, envia uma nota ao Ministro-adjunto, Vychinski. Cada vez mais convencido da proximidade do confronto, Churchill informa Roosevelt, tanto mais que, a 12 de Junho, os serviços britânicos decifraram uma mensagem enviada de Berlin para Tóquio, pelo Embaixador do Japão, anunciando a iminência da campanha contra a União Soviética. Na véspera do ataque, enquanto passeava nos Chequers, o Primeiro-ministro declara ao seu secretário Colville que, se Hitler se atrevesse a invadir o inferno, ele próprio faria um pacto com o diabo [John Colville, The Fringes of Power, p. 480]».

François Bédarida («Winston Churchill»).


«(...) a partir de 1933 são tomadas decisões fatais para a Alemanha e para a Europa. Os objectivos são os indicados no Mein Kampf: a criação de uma Eurásia de confins orientais indefinidos; um entendimento com a  Inglaterra para o condomínio mundial, em competição com os Estados Unidos e talvez com uma Ásia oriental de hegemonia japonesa; a Alemanha é a base deste arranjo do globo, que deve anunciar a criação de uma nova civilização «ariana» e de um homem novo que recupere antigas e perdidas virtudes; os Hebreus que opõem a esta perspectiva o seu sonho de domínio mundial são marginalizados (posição até 1941) e punidos depois de terem mobilizado a aliança antiariana (posição de 1941 em diante).

Rosenberg e Frank, do grupo Thule, terão papéis decisivos nesta marcha para Leste, o primeiro como responsável em 1941 dos territórios russos ocupados e o segundo já desde 1939 como governador da Polónia. Hess e os dois Haushofer colaborarão nesta estratégia com um entrelaçamento de geopolítica e de astrologia. Himmler quer transformar as SS numa ordem na qual a iniciação se entrelaça com a crueldade. Também aqueles que no vértice nazi têm uma diferente formação cultural, são influenciados pela de origem ocultista. Göring, pragmático, tem alguma condescendência pelas teorias dos émulos de Horbiger. Gobbels, expressão do nazismo "social" de Röhm e dos irmãos Strasser, interessa-se por Nostradamus e pelos astrólogos. Até o gélido von Ribbentrop se entrega a fantasias a propósito do duque de Windsor.













Este grupo é porém caracterizado pelo realismo político. Está de acordo em destruir os concorrentes externos e também internos (20 de Junho de 1934) na base de cálculos precisos (por exemplo a ideia de Röhm de fazer da SA a base de um exército "popular" em antítese à Reichwehr faria perder à NSDAP o seu apoio, ainda decisivo na época). Imposta uma política económica que, graças a Hjalmar Schacht (que será depois marginalizado), assume por meados dos anos trinta algumas características keynesianas, com a dívida pública usada para derrotar a ocupação não só em função do rearmamento, mas também com investimentos civis (as auto-estradas, os bairros citadinos) e o melhoramento do nível de vida (até ao Volkswagen).

O realismo político entrelaça-se, porém, com o prosseguimento dos fins últimos, que não foram abandonados com a transformação das seitas ocultistas no grande partido. E desenha-se assim o primeiro desencontro entre os nazis e os grupos conservadores que os levaram ao poder para fins mais limitados (a grande indústria, os grandes agrários do Leste, o exército) e depois uma dissenção no próprio círculo restrito de vértice sobre os fins e sobre as formas da política mundial. O problema é aquele que Hitler expôs no Mein Kampf e que agitará a Alemanha nazi até aos seus últimos dias: como obter o consenso da Inglaterra na criação da Eurásia (que Mackinder identificou com o declínio do império britânico), garantindo-lhe um grande futuro numa base de igualdade com o Terceiro Reich?».

Giogio Galli («Hitler e o Nazismo Mágico. As Componentes Esotéricas do III Reich»).


«Na Europa os americanos bateram-se contra os alemães na qualidade de aliados dos soviéticos mas na Ásia combateram praticamente sós. Receberam alguma ajuda da Grã-Bretanha mas o maior peso, no Extremo Oriente, foi suportado unicamente por eles. A URSS, aqui, não só não se conduziu como aliada como permaneceu de relações amigáveis com o Japão, mantendo a sua embaixada em Tóquio e uma importante rede de espionagem - um autêntico exército de espiões. O Japão conservou igualmente a sua embaixada em Moscovo. De 7 de Dezembro de 1941, data do ataque a Pearl Harbor, a 9 de Agosto de 1945 a Rússia soviética manteve-se alheada do conflito e só deu conta dele nesta data, quando a derrota se consumou e a rendição japonesa já não era senão uma questão de dias. Então, a URSS declarou guerra, entrou na Manchúria, invadiu o norte da China, a Coreia do Norte e outros pontos de apoio nevrálgico administrados pelos japoneses.

Assim, sem ter disparado um tiro, e depois de apenas cinco dias de "combates" fictícios, a União Soviética, com o completo acordo do governo americano, recolheu todos os frutos da capitulação do Império do Sol Nascente. Comunizou a China e apoderou-se - para além da Manchúria - da Mongólia Exterior e de Sin-Kiang (três províncias que representam um terço da China).






(...) Que se medite bem neste pormenor: depois de somente cinco dias de pseudo-combate... Ora o próprio Estaline admitiu que, sem contar com os bens de equipamento, 2/3 do material de guerra utilizado pelo seu país - no conflito europeu - provinha dos Estados Unidos. Tudo isto prova que nenhum homem sensato imaginará, um só minuto, que os americanos se obstinaram, durante quatro anos, a lutar, com êxito, contra os japoneses para libertar o Pacífico do seu domínio, para remeterem os louros aos soviéticos; que os Estados Unidos terão atacado por toda a parte as consideráveis forças japonesas disseminadas nas ilhas do Pacífico, desafiando a sua frota poderosa e o seu exército distribuído em mais de uma centena de ilhas afastadas umas das outras, à custa de 200 000 mortos, sem contar com a perda da maior parte da sua aviação e da sua marinha, absorvendo milhões de dólares, para acabar por abandonar os frutos da sua vitória à tirania implacável do país dos sovietes. Entretanto, Estaline que, como dissemos, dependeu da ajuda americana, pôs de pé os seus planos, triunfou completamente e abandonou a cena, mantendo na algibeira, tranquilamente, uma fatia da Ásia. Como pôde acontecer esta coisa tão inacreditável?»

Deirdre Manifold («Fátima e a Grande Conspiração»).


«Se entre americanos e russos existe vocação comum, é ela, por certo, a de exploradores, caçadores e colonos que uns e outros obstinadamente manifestaram desde o princípio da sua história. Existem muitas outras semelhanças entre os Estados Unidos e a Rússia, semelhanças que os escritores alemães muitas vezes sublinharam. Para Spengler há em primeiro lugar "a mesma extensão que exclui a possibilidade de ataques eficazes dos inimigos; há depois o socialismo de Estado, ou antes o capitalismo de Estado, quase semelhante à fórmula existente na Rússia, representado pelo conjunto dos trusts que dirigem e regulam toda a produção e o seu escoamento, (...) correspondente às organizações económicas russas. O lema dos sovietes: A Ásia para os asiáticos, corresponde exactamente nos seus pontos essenciais à concepção da doutrina de Monroë: Toda a América para o potencial económico dos Estados Unidos".

Quanto a Keyserling, depois de notar que a "atmosfera psíquica da América se parece com a da Rússia e com a da Ásia sententrional", observa: "A psicologia de um Gengis Can, que devastou o mundo num furacão, de um Pedro o Grande ou de um Lenine, que ditaram a sua vontade pessoal a milhões de homens, ou a de um presidente de trust americano, que considera 'sem Deus' toda e qualquer nação que não lhe compra o seu petróleo, são, neste particular, absolutamente idênticas"».

Henri Massis («A Nova Rússia»).





A URSS e os Estados Unidos


Conferência de Ialta


A aliança da Grã-Bretanha e dos Estados-Unidos com a URSS suscita numerosas polémicas na imprensa inglesa e americana. Escritores que viveram na Rússia Soviética, como R. Lyons e Max Eastman não deixaram de exprimir os receios que certa propaganda yankee a favor do bolchevismo lhes inspirava. A título documentário, reproduzimos aqui o artigo que o colaborador de J. Littlepage, o célebre jornalista americano Dewaree Bess, co-director do Saturday Evening Post, publicou no Daily Mail sobre este assunto:

«Muitos americanos têm como certo que a Rússia os ajudará a combater o Japão, depois de vencida a Alemanha. Outros americanos supõem que a Rússia aceitará de bom grado os planos americanos sobre o mundo do pós-guerra. Ideias perigosas, pois nas realidades conhecidas pouco há que as justifique. Quais são os factos?

O primeiro é que actualmente o governo soviético é o mais independente do mundo.

Os russos não tomaram fosse com quem fosse nenhum compromisso particular de natureza a entravar a sua liberdade de acção, quer quanto à guerra quer quanto à Europa do pós-guerra.

A sua adesão às disposições vagas e gerais da "Carta do Atlântico" foi apenas atitude de cortesia, não comprometimento.

Mesmo na altura em que a sua situação militar era mais sombria, os dirigentes russos recusaram ligar-se fosse de que maneira fosse, em contrapartida do auxílio que aceitaram dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha.

Pelo contrário os russos pediram concessões à Grã-Bretanha pouco depois da invasão do seu país pela Alemanha. Pediram que lhes reconhecessem as suas pretensões sobre os três Estados Bálticos e sobre parte da Finlândia e parte da Roménia, e sempre insistiram pela regulamentação futura da questão das fronteiras polacas. Noutros termos: procuraram obter da Grã-Bretanha mais ou menos as mesmas concessões que exigiram a Hitler em 1939.



Visto que manifestaram tão claramente os seus desejos, primeiro nas negociações com Hitler e depois nas que têm tido com a Grã-Bretanha, ninguém terá o direito de se surpreender se os russos ocuparem de novo todos os territórios que ocuparam em 1928 e 1940 e os incorporarem na União Soviética.

Do ponto de vista russo, essas reivindicações territoriais são moderadas. Restabelecem simplesmente as fronteiras do Império dos Czares na Europa eliminando os Estados "tampões" criados pelo Tratado de Versalhes entre a Rússia e a Europa...

Os estados da Europa Ocidental estão hoje unidos mais estreitamente do que nunca e esperam da Rússia a sua libertação. Durante uma viagem nos Balcãs, na primavera de 1941, pude ver em que larga escala a Rússia despertava a simpatia dos eslavos vencidos na Checoslováquia, na Jugoslávia, e até na Polónia anti-russa e entre os búlgaros aliados da Alemanha.

É portanto inevitável que, se vencer a guerra, a Rússia exerça em todos esses países mais influência do que aquela que os anglo-americanos possam esperar exercer.

Está aí uma perspectiva da Europa do pós-guerra que os construtores de planos de paz anglo-americanos ignoram. A ideia de que a combinação anglo-amnericana, com a colaboração consultiva de todos os governos exilados em Londres, pode decidir de antemão o que acontecerá na Europa, não é de forma alguma justificada pelos factos.

Os russos não tiveram qualquer intervenção na paz que se seguiu à guerra de 1914-18. Consideremos a enorme diferença da situação presente.

A França e a Itália deixaram de ser grandes potências. E desta vez a vitória na Europa não significará o fim da luta para os americanos e para os ingleses, visto que nessa altura terão de empenhar-se seriamente na guerra contra o Japão.

É quase certo, por outro lado, a menos que o Japão tome a iniciativa de invadir as províncias russas do pacífico, que a Rússia estará em paz nessa altura, ao passo que os Estados-Unidos e a Grã-Bretanha estarão ainda em guerra.



A posição da Rússia é quase perfeita na guerra do Pacífico. Se puder continuar a manter em respeito os japoneses, não terá a menor necessidade de entrar nessa guerra. Se os japoneses a atacarem, pode contar com o auxílio que lhe podemos prestar, sabendo que temos para a auxiliar contra o Japão as mesmas egoístas razões que nos levam a auxiliá-la contra a Alemanha.

Se os russos decidem que lhes convém arredondar as suas fronteiras estratégicas no Extremo Oriente, tal como decidiram em relação às suas fronteiras europeias, podem entrar na guerra na Ásia quando melhor lhes parecer e ocupar os territórios que ambicionarem como quinhão nos despojos.

E que significará isso quanto à Ásia do pós-guerra? Pode prever-se que os russos têm plena liberdade para consolidar os seus postos ameaçados na Mongólia e no Turquestão chinês e, querendo, para alargar as suas posições à Manchúria e à Coreia.

Isso significa que a influência russa na China, exercida por meio dos comunistas chineses, tem mais probabilidades de aumentar que de diminuir. E isso parece demonstrar que, enquanto a China não puder ser organizada num moderno Estado industrial, a Rússia Soviética tornar-se-á a maior potência da Ásia do pós-guerra.

É portanto evidente que a Rússia ocupa poderosa e independente posição em relação às guerras que grassam actualmente na Europa e na Ásia, e também em relação ao mundo do pós-guerra.

Nós, americanos, só podemos traçar o nosso caminho dando-nos conta por completo do poder penosamente adquirido pela Rússia.

Os russos estão prontos a negociar connosco em tempo de paz, tal como connosco colaboraram em tempo de guerra, mas deram claramente a entender que todos os arranjos e combinações devem obedecer às condições da Rússia. E essas condições são sempre definidas com nitidez».

Em primeiro lugar, a Rússia recusa comprometer-se de antemão a quebrar o seu pacto de não-agressão com o Império Nipónico.






Em segundo lugar, a Rússia exige que lhe deixem as mãos livres para os arranjos do pós-guerra em todos os territórios limítrofes das fronteiras russas.

Em terceiro lugar, a Rússia espera que a sua associação com os americanos e os britânicos para os projectos de segurança mundial tenha lugar em pé de igualdade; a Rússia está, aliás, em situação de o exigir. Isto significa que não dará o seu apoio a qualquer forma de imperium anglo-americano, ainda que disfarçado. Contra a perspectiva de um imperium desse género, os russos constroem metodicamente o seu imperium, fortalecendo-se assim para o jogo de equilíbrio de potências, se tal jogo continuar a ser jogado no mundo depois da guerra.

Quando se examinam todos os testemunhos, vê-se que o futuro do mundo não será determinado principalmente pela opinião pública americana, como muita gente entre nós loucamente espera.

Não é apenas vão, mas positivamente pernicioso, imaginar as Nações Unidas como grande e feliz família que faz as mesmas guerras pelos mesmos objectivos.

Os russos anunciaram claramente que combatem não só pela Rússia mas também pelo regime soviético, que não é simplesmente - como certos americanos tentam fazer-nos crer - outra versão do regime americano de democracia e de livre iniciativa.

O regime soviético é um regime de partido único que não aceita qualquer oposição, encarregando-se a polícia de suprimir toda e qualquer oposição política. O regime soviético é o Estado proprietário, explorando todas as coisas: todos os cidadãos soviéticos trabalham para o Estado.

O regime demonstrou o seu valor nos tempos de guerra e nada, absolutamente nada, permite supor que os dirigentes soviéticos tenham a intenção de modificar, cedo ou tarde, os seus princípios fundamentais ou de se associarem a quaisquer projectos para estabelecer a livre iniciativa em escala mundial.

Além disso, e ainda que tal não nos agrade, somos obrigados a reconhecer que a Rússia vitoriosa possuirá situação geográfica, potencialidade militar e influência política para fazer em grande parte do mundo mais ou menos o que muito bem entender (1). E, naturalmente, aos russos sorri muito mais a ideia de expandir o seu sistema do que o nosso.

O melhor que nós, americanos, podemos portanto esperar, se quisermos ser razoáveis, é que possamos chegar a um compromisso com os russos - bem como com os nossos outros aliados» (in ob. cit., pp. 257-264).




(1) De dia para dia, a opinião americana adquire cada vez mais consciência das ameaças que para os Estados Unidos comportaria o poder crescente e firmado dos Sovietes. A inquietação que provocam nasceu deste raciocínio: «Não será contraditório ter querido quebrar uma hegemonia europeia, a hegemonia alemã, e ter ajudado a criar uma hegemonia mundial, o império russo?» Depois os americanos deram a esta interrogação resposta ainda mais directa:

«No dia em que os Sovietes estiverem livres da guerra europeia serão os árbitros da guerra do Pacífico. Se tomassem partido pelo Japão não teríamos mais remédio, por muito grande que fosse o nosso poderio, senão metermo-nos em casa. Se tomassem partido contra o Japão - mas nenhum indício permite pensá-lo, antes pelo contrário - seria para nos abrirem as portas da Ásia?»

Com efeito, o Japão para se garantir do lado da Sibéria oriental e poder concentrar o seu esforço nas frentes do Pacífico e da Birmânia, não cedeu há pouco à Rússia Soviética os petróleos da parte norte da Sacalina? A propósito deste novo acordo que estreitou mais ainda os laços entre a URSS e o Japão, o que não pôde deixar de agradar à Alemanha, o New York Daily Mirror escreveu no seu editorial:

«Caminhamos a passos largos para uma Ásia dominada pelo Japão e inimiga da América e da Europa. A excessiva concentração das atenções americanas no teatro europeu e a nossa negligência na guerra contra o Japão traduzir-se-ão provavelmente em grandes revezes. Pode acontecer que a Inglaterra perca a Índia, a sua possessão mais rica. Outro acontecimento sério é constituído pela aparente intenção da Rússia de se pegar de razões com a China».

Começaram os americanos a compreender a realidade do perigo russo-asiático?


domingo, 9 de dezembro de 2012

O Consórcio Mundial (i)

Escrito por Henri Massis








«"Tudo me leva a crer que os planos da Administração para a Rússia irão receber o maior apoio do Congresso, bem como a plena aprovação da opinião pública nos Estados Unidos". Numa palavra, William Franklin Sands, na qualidade de secretário executivo de uma empresa cujos directores detinham o maior prestígio em Wall Street, apoiou enfaticamente os bolcheviques e a sua Revolução já depois de esta ter começado. E enquanto director do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque, Sands contribuiu justamente com 1 milhão de dólares para os bolcheviques…

(…) O ouro foi praticamente o único meio pelo qual a União Soviética podia pagar as suas aquisições no exterior, e cujo embarque os banqueiros internacionais puderam facilitar. A exportação do ouro russo, na forma inicial de moedas de oiro imperiais, começara desde logo em 1920 para a Noruega e a Suécia. Tais moedas foram, por sua vez, transportadas para a Holanda e a Alemanha com vista a novos destinos, incluindo os Estados Unidos».

Antony Sutton («Wall Street e a Revolução Bolchevique»).


«Com a passagem do tempo, o roubo das grandes empresas, o escândalo da crueldade e das mentiras absurdas que nos contam graças à dieta noticiosa que nos alimenta todos os dias, só podem aumentar à medida que os recursos financeiros diminuem. No mundo pós-Guerra Fria, o papel da Rússia tem sido fundamental. Quem obtiver os recursos deste país fica com a chave da supremacia global. Assim, destabilizar o estado russo tornou-se o objectivo dos Senhores das Sombras, após o colapso da União Soviética em Dezembro de 1991.

Os EUA empreenderam um enorme esforço para ajudarem a antiga União Soviética a fazer a transição para o capitalismo. Acabou por se revelar que o esforço tinha como intenção retirar grandes quantidades de riqueza do país. Segundo um memorando interno do FBI, escrito pelo agente especial do Tesouro, Philip Wainwright, mas assinado apenas como "Mr. X", o objectivo na Rússia era bastante simples: "Havia a possibilidade de uma jihad económica ocidental e privada estar organizada no sentido de acabar com os poderes dos dirigentes comunistas destruindo o instável rublo".

Por outras palavras, a União Soviética - que possui a maior riqueza mineral do mundo, enormes reservas de ouro e pedras preciosas, a maior reserva de petróleo do planeta, quantidades incontáveis de níquel, platina e paládio, e mais madeira do que a Amazónia, já para não falar de uma imensa acumulação de armas da era soviética - ia ser destituída dos seus bens. A estratégia consistia em mergulhar o país na anarquia, ao ponto de a Rússia não conseguir opor-se às operações militares dos EUA, destinadas a garantir o domínio das reservas de petróleo e gás natural na Ásia Central. O plano desenvolvido, tal como fez ressoar o antigo Conselheiro de Segurança Nacional durante a presidência de Jimmy Carter, fazia parte do golpe criminoso mais espectacular alguma vez engendrado contado por Zbigniew Brzezinski, no seu livro de 1997, The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives.






No período que levou ao seu colapso, saíram grandes quantidades de riqueza da URSS através de camiões carregados de rublos. Muitas dessas riquezas foram utilizadas em complexas operações de trocas, em que milhares de milhões de narco-dólares eram branqueados a favor da máfia da Calábria, Ndrangheta. Um grande número de bancos ocidentais importantes, como o US Treasury, Harvard Endowment, Bank of New York, Goldman Sachs, os gigantes bancários de Massachusetts, Fleet Financial e Bank of Boston, pilharam até 500 mil milhões de dólares. Outro participante foi a CIA, cujo objectivo principal consistia em destruir a moeda soviética. Ndrangheta, uma das organizações criminosas mais temidas do mundo, tem fortes ligações financeiras com os negócios de tráfico de drogas de cartéis criminosos colombianos e mexicanos. Desde o desmembramento da União Soviética, a máfia russa juntou-se às operações calabresas, proporcionando uma raiz oriental ao já lucrativo negócio da cocaína e da heroína.

(...) A máfia russa, conhecida como Vorovskoi Mir, ou "Mundo dos Ladrões", uma federação informal de mafiosos soviéticos, percebeu de imediato que a "retirada" do comunismo anunciava um glorioso mundo novo de ordem criminosa que a favorecia.

Um  ano após a saída de Mikhail Gorbatchov, tinham surgido mais de 2 600 "clãs do crime" (mais de três milhões de criminosos no total) que se tinham espalhado rapidamente por todo o antigo império soviético, de acordo com um relatório de investigação escrito por um grupo de membros do prestigiado Instituto Hoover. Quarenta deles igualavam ou ultrapassavam a dimensão das máfias tanto siciliana como americana. Em conjunto, constituem o empreendimento criminoso mais poderoso do planeta.

Com efeito, a directiva secreta do PCUS enfatizava a necessidade de forjar uma ligação com a mafiya através dos vastos recursos do antigo KGB. Isso aconteceu no início da década de 1990. Os primórdios do reinado de Ieltsin.

Em 1997, a União Soviética estava morta há seis anos. Emergira um novo mundo em que só os EUA tinham a categoria de superpotência. Porém, a Rússia ainda permanecia uma ameaça - um potencial bloqueio à completa imposição da vontade económica e militar dos EUA. Em The Grand Chessboard de Zbigniew Brzezinski, publicado em 1997, a "Rússia" e as "vitais reservas de energia" são referidas mais amiúde do que qualquer outro país ou assunto.

Uma vez mais, os imperativos da energia e o domínio geopolítico iriam desempenhar um papel primordial na vida de centenas de milhares de pessoas.

Foi no "quintal" da Rússia, as repúblicas da Ásia Central da antiga União Soviética, que Brzezinski reparou que seria necessário agir para monopolizar as reservas de energia do mundo. A História da humanidade tem revelado, desde sempre, que o domínio do centro da Eurásia é a chave para dominar o globo. O Azerbeijão, que contém as riquezas da Bacia do Mar Cáspio e da Ásia Central, é determinante. A independência dos estados da Ásia Central pode ser praticamente insignificante desde que o Azerbaijão fique sob controlo total de Moscovo.

Zbigniew Brzezinski


Embora os motivos se tenham alterado permanece basicamente ao longo de 20 séculos, a importância estratégica da região permanece basicamente igual. Bzerzinski explicou o tema dominante a condicionar a política americana: "Uma potência que domine a Eurásia controlaria duas das três regiões mais avançadas e economicamente mais produtivas do mundo. Se olharmos para o mapa também verificaremos que o controlo da Eurásia, acarretaria automaticamente a subordinação de África, tornando o Hemisfério Ocidental e a Oceania geopoliticamente periféricas do continente central do mundo. Cerca de 75 por cento da população mundial vive na Eurásia, o local onde se encontra a maior parte da riqueza física do mundo, tanto nos seus empreendimentos como no subsolo. A Eurásia é responsável por 60 por cento do PIB mundial e por cerca de três quartos dos recursos energéticos do mundo"».

Daniel Estulin («Os Senhores da Sombra»).





A URSS e os capitais estrangeiros

(...) a formidável industrialização da URSS, executada em sistema fechado, aumentou singularmente a sua potencialidade financeira. Vivendo a autarquia talvez ainda mais perfeita que a dos Estados Unidos, a Rússia satisfaz as necessidades dos seus habitantes e recorre cada vez menos aos capitais estrangeiros.

Já em 1929 W. Fisher escrevia: «A industrialização da URSS visa limitar o número dos concessionários e arrefecer o interesse dos investidores de capitais. O trust do Azerbaijão, a bacia do Donetz ou a cidade de Moscovo são empresas poderosamente ricas, remuneradoras e solváveis que, se operassem fora do país, poderiam facilmente emprestar a Londres, a Nova-Iorque, a Amesterdão, etc. Mas, em caso de desfalecimento, de falência ou de insolvência, nenhum banco americano, britânico ou holandês, poderia apropriar-se dessas empresas de Bacú, de Sacti ou de Moscovo, que são propriedade do Estado e que os comunistas nunca permitirão que sejam alienados aos capitalistas estrangeiros. A preocupação capital da política bolchevique foi sempre repelir toda e qualquer cooperação com os Estados burgueses que pudesse tomar «a forma de dominação económica». Já em 1922 Tchitcherine empregou o mesmo argumento perante o Komintern para rejeitar o estabelecimento em Moscovo de um poderoso banco europeu: O Consórcio - disse ele a tal respeito - poria a República em perigo.

A partir de 1929, a velocidade extremamente rápida do seu desenvolvimento levou a URSS a prosseguir na sua expansão económica por meio dos seus próprios recursos. Com efeito, o monopólio do comércio externo é fundamental para o sistema económico e social da Rússia comunista. Esse monopólio torna o governo no único exportador e importador de todo o país».

A este respeito o jornalista inglês Negley Farson escreveu no Daily Mail em 1 de Outubro de 1943:

«Houve um período - de 1921 a 1936, pouco mais ou menos - em que os russos precisaram de créditos. E obtiveram-nos apesar da política. Hoje, porém, já não precisam disso, e, se bem examinarmos todos os factores em jogo, estão provavelmente em situação de, se assim desejarem, nunca mais comprarem mercadorias a crédito. O motivo principal deste estado de coisas é, bem entendido, a sua absoluta independência em matéria de exportações e de importações. Deve também entrar-se em conta com o facto da Rússia ser a maior fonte de aprisionamento de ouro do mundo. Quando os russos precisarem de qualquer coisa, pagá-la-ão - e nós ficaremos muito contentes por lha vendermos. Isso suprime a principal arma da diplomacia britânica de antes-da-guerra: "Os checos lutam com dificuldades? Emprestemos-lhes 15 milhões de libras esterlinas. Os gregos lutam com dificuldades? Pois bem, emprestemos-lhes 5 milhões de libras". O sabre de madeira expedido com cada uniforme de embaixador - era esse o mal fundamental da diplomacia britânica. Mas o sabre de madeira partiu-se. Não é possível empregar o crédito contra a Rússia vermelha». E o autor concluía: «"A Rússia é a a única das quatro grandes nações aliadas que talvez possa tornar-se isolacionista com toda a segurança"».








A URSS, potência do ouro

A URSS possui as maiores reservas de ouro do mundo, tanto em areias auríferas como em minas. A parte mais rica em ouro é o leste do país: a Sibéria, os Urais, o Altai, o Extremo Oriente. Na taiga polar há inúmeros jazigos. Cada ano trás novos descobrimentos e a produção de ouro da URSS desenvolve-se rapidamente.

Foi no Verão de 1927 que, pouco disposto a aceitar os ensinamentos de Marx e de Lenine a respeito do metal precioso, Estaline decidiu criar a indústria soviética do ouro. «O descobrimento do ouro - dizia - abriu o oeste dos Estados Unidos à agricultura e à indústria... Vede o que se passou na Califórnia. O mesmo processo deve aplicar-se aos nossos mercados. Começaremos por apetrechar as minas de ouro, e depois, gradualmente, passaremos a explorar e a tratar outros minérios, carvão, ferro, cobre, etc. E simultaneamente desenvolveremos a agricultura».

Assim, segundo o testemunho do americano J. Littlepage, o trust do ouro - criado, entre outras razões, para fomentar o estabelecimento de colonos na Sibéria - saiu da imaginação de Estaline. O chefe da URSS queria ouro porque sabia quanto poderia ser útil ao governo e dar solidez à economia da Rússia; mas é facto que considerou este problema também como «construtor de império». E o prodigioso desenvolvimento da Sibéria durante os últimos quinze anos deve-se à corrida soviética para o ouro - «a mais ordenada da história».

Os sovietes ocupam hoje o segundo lugar entre os produtores mundiais de ouro. «Vi-os - disse Littlepage -  elevarem-se a essa posição em poucos anos, ultrapassando os Estados Unidos e o Canadá e colocando-se logo abaixo da África do Sul. E não vejo qualquer motivo que possa impedi-los de ocuparem indefinidamente esse lugar. Sei, pelas minhas próprias observações, que os sovietes poderiam aumentar muito substancialmente a produção de ouro, num futuro próximo, se quisessem».

E o antigo engenheiro-chefe do trust do ouro russo na Sibéria acrescentou:

«Os sovietes, que são em potência os maiores vendedores de ouro do mundo, têm tanto interesse em manter o seu preço como a Inglaterra e os Estados Unidos - os dois principais compradores desse metal -, porque a produção de ouro tornou-se extremamente importante na economia soviética, permitindo a Moscovo comprar no Ocidente objectos que doutra forma teria de pagar com produtos de maior utilidade social, a menos que preferisse passar sem eles.

Os sovietes investiram somas colossais e fizeram esforços gigantescos na sua indústria do ouro de 1928, e foi essa uma das razões porque milhões de homens, de mulheres e de crianças soviéticas tiveram de passar fome, de andar mal vestidos e de sofrer toda a espécie de privações, porque as máquinas, o apetrechamento industrial e os serviços de técnicos estrangeiros foram pagos, durante certo tempo, com produtos agrícolas e lacticínios de que as populações russas tinham de privar-se.

Estaline e os seus colaboradores calcularam, aparentemente, que todos esses sacrifícios valiam a pena, não só pelas compras que o ouro permitiria efectuar no estrangeiro, mas também pela sua utilidade potencial, em caso de guerra.

Durante anos, os chefes da Rússia basearam os seus cálculos na convicção de que seriam arrastados em breve para uma guerra. É por isso muito verosímil que tenham feito grandes reservas de ouro para fortalecer a sua posição militar». («La Recherche des Mines d'Or de Sibérie», Paris, 1939, pp. 241-244).

Grandes produtores de ouro, os sovietes promoverão necessariamente uma política monetária fundada sobre o estalão-ouro. Assim, esse Estado socialista e proletário dispõe-se a desempenhar o papel da grande potência capitalista que é de facto.

Uma delegação de cinquenta e dois peritos financeiros soviéticos, presidida pelo vice-presidente do Banco do Estado, foi em 1943 a Washington para dar apoio efectivo aos planos de moeda-ouro dos Estados Unidos.










O professor Varga, conselheiro financeiro da Comissão Central para a planificação económica da União Soviética, esclareceu que Moscovo não queria nem participar numa regulamentação monetária internacional nem introduzir a moeda-ouro nos territórios da União. Os sovietes mantêm-se fiéis ao princípio do monopólio do comércio externo e rejeitam todo e qualquer projecto que limite a sua independência comercial e  monetária. Mas o Kremlin veria com bons olhos «os outros Estados voltarem tanto quanto possível à moeda-ouro» - o que quer dizer que a União Soviética «anti-capitalista», está interessada em que o ouro mantenha o seu poder internacional de pagamento.

O «regresso ao ouro» apresenta ainda outro interesse para Moscovo: tendo o ministro dos Negócios Estrangeiros dos Estados Unidos, Cordell Hull, prometido o apoio da América para a reconstrução da Rússia, Estaline assegurou que os sovietes «reembolsariam escrupulosamente» os créditos que a esse título lhes fossem abertos. Portanto, se os Estados Unidos vierem a exportar para a Rússia Soviética, esta, nos termos do standard-ouro, não pagará em mercadorias mas sim com o metal acumulado. E paralelamente, custeará as importações necessárias com a sua forte produção periódica de ouro «sem ter de se prender politicamente nem de fazer concessões especiais aos Estados capitalistas»» (in «A Nova Rússia», Livraria Tavares Martins, Porto, 1945, pp. 250-256).

Continua


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A Rússia regressa às nascentes (ii)

Escrito por Henri Massis



No tempo dos Romanov a Rússia apresentava-se como a guarda-avançada da Europa na Ásia; a Rússia bolchevista, porém, voltou a ser o que era na época dos grandes «cans» tártaros e mongóis: a guarda-avançada da Ásia na Europa. Levar a Rússia a regressar às suas nascentes – foi a ideia mestra de Lenine, simplificador audacioso que soube aproveitar o desconcerto da consciência europeia para restituir o seu país ao seu verdadeiro destino. E por isso o povo russo nele reconheceu o descendente daqueles grandes autocratas que governaram com os olhos postos na Ásia, cuja sucessão Pedro o Grande interrompera.

Nas suas camadas obscuras, a velha Rússia nunca aceitou as ideias importadas da Europa pelos czares. Como asiáticos que eram, os russos nunca se sentiram ligados aos destinos históricos das outras raças do Oeste; e a luta entre «eslavófilos» e «ocidentalistas», cujos sangrentos episódios enchem os anais da Rússia moderna, é de certa maneira a prefiguração do grande drama de que somos espectadores. Esse problema é o problema russo por excelência. Nele se reencontram todos os temas e todos os agravos de que a propaganda bolchevista se apropriou para despertar nas almas a velha fibra asiática – factores que as fatalidades conjugadas da natureza e da história impuseram a esse grande povo de nómadas que de um lado se apoia na China e do outro na Alemanha, e que parece não saber para que mundo nasceu. «Nunca marchámos com os outros povos – dizia Tchaadaiev; não pertencemos a nenhuma das outras famílias do género humano. Não somos nem do Oriente nem do Ocidente, nem nos dizem respeito as tradições de um ou do outro».


O Passado Russo

A «provação histórica» da Rússia, atraída alternadamente por pólos contrários, várias vezes arrojada da Europa para a Ásia e da Ásia para a Europa, é exprimida pela sua literatura num interminável lamento; e dir-se-á que o eco do seu monótono queixume se perde nas lonjuras da infinda planície.

Exilado nos confins de todas as civilizações do mundo, fora das regiões em que as luzes da fé e da ciência primitivamente se concentraram, longe das fontes donde manaram durante tantos séculos, esse povo sofreu antes de mais nada a sua solidão. No seu grande corpo informe que se alonga por milhares de «verstas» até às estepes asiáticas donde, pelos séculos fora, surgiram sucessivas hordas de saqueadores, nada é sólido, limitado, determinado e tudo se iguala e se confunde. Soloviev via na ausência da pedra – da pedra que deu solidez aos nossos edifícios e precisão às relações interiores dos nossos Estados e dos nossos povos – o factor que privara o camponês russo do sentido da continuidade e do esforço. Nenhuma delimitação nítida entre as regiões do seu enorme país. Ausência de moradias estáveis que fosse penoso abandonar; apenas cabanas de madeira incessantemente destruídas pelo fogo. Daí a sua indiferença pela propriedade individual, esse vago sentimento comunista que é feito menos de desinteresse do que de imprevidência e de relaxamento. Dir-se-ia que nada o prende sobre o solo e que qualquer coisa o fascina sem cessar, chamando-o para outro lado, para a miragem perturbante do indefinido horizonte. Paralelamente, as suas amarras à própria vida são também indecisas e flutuantes. Esse nomadismo, essa falta de fixidez, essa necessidade de mudar de lugar, esse famoso espírito boisak – formam o traço característico do povo russo (14).

Ao contrário dos nossos, os seus camponeses não sentiram a combativa aspiração de se firmarem no ponto escolhido e de influenciarem, segundo os seus interesses, o meio que os cercava. Máximo Gorki podia ainda escrever em 1920: «O homem do Ocidente, logo que começa a andar, vê por toda a parte resultados monumentais do trabalho dos seus antepassados. Dos canais da Holanda até às vinhas do Vesúvio, do grande labor da Inglaterra às potentes fábricas da Silésia, toda a terra da Europa lhe aparece abundantemente marcada pelas encarnações grandiosas da vontade organizada dos homens, que se impôs o arrogante objectivo de submeter as forças elementares da natureza aos racionais interesses humanos. Com as suas mãos, o homem domina a terra; é efectivamente o seu senhor. A criança do Ocidente suga essa impressão, que nela forma a consciência do valor humano, o respeito pelo seu trabalho e o sentimento da sua importância pessoal como herdeiro dos prodígios do esforço e da obra dos seus melhores» (15). E Gorki concluía: «Na alma do camponês russo não saberiam nascer tais ideias, sentimentos idênticos, semelhantes apreciações. A planura sem fim onde se perdem os seus lugarejos de madeira, cobertos de colmo, tem a perniciosa propriedade de esvaziar o homem, de secar-lhe os desejos. O camponês sai dos limites da sua aldeia, olha à sua volta, e depressa sente que esse vazio inunda a sua alma. Em parte alguma avista traços duradouros do trabalho e da criação… Ao redor a planície ilimitada e ao centro um pobre, ínfimo homem, atirado àquela terra fastidiosa para executar tarefas de forçado. E o homem sacia-se desse sentimento de indiferença que mata a capacidade de pensar, que impede a lembrança da vida passada e que não deixa extrair a menor experiência das ideias» (16).














O povo russo é um povo sem experiência histórica. Não teve Idade Média; faltou-lhe a longa e laboriosa educação dos povos europeus. Primeiro a barbárie brutal, lutas de tribo contra tribo que continuaram dois ou três séculos depois de terem terminado no Ocidente; a seguir, o cristianismo viciado pelo espírito do Baixo Império; depois, ante que pudesse germinar essa semente, surgiu a invasão mongol, o refluxo para a Ásia – que voltou a assenhorear-se da sua presa. Seguiram-se quatrocentos anos de dominação estrangeira, sob o jugo feroz dos grandes «cans» tártaros que amoldavam os seus vassalos aos costumes degradantes do despotismo oriental. Tal foi a mocidade desse povo, colonizado pelos invasores asiáticos mal saiu do paganismo.

A Rússia não conheceu a adolescência das nações, essa época das grandes paixões colectivas, de exuberante actividade, de exaltado jogo das forças morais, cuja memória se transmite às gerações futuras que dela tiram lição e proveito. Viveu os seus primeiros anos numa espécie de imóvel entorpecimento, mantendo-se em caótica fermentação até o limiar dos tempos modernos. «Ainda nos encontramos» - dizia Turgueniev - «no período gaseiforme».

Por isso o contributo do povo russo à civilização foi quase nulo. Não deve esquecer-se que a Rússia está apenas a uns cinco séculos da invasão dos bárbaros, ao passo que a velha Europa sofreu a mesma crise já há mais de catorze séculos. Uma tal civilização mil anos mais antiga interpõe incomensurável distância entre os costumes das nações. É esta diferença fundamental o traço dominante que isola o povo russo, situando-o num ambiente rarefeito e separando-o dos destinos históricos do resto da humanidade.

Tchaadaiev exprimiu melhor que ninguém o infeliz destino da sua raça, localizada como que fora do tempo e do alcance da cultura universal do género humano (17): «Vindos ao mundo como filhos ilegítimos, sem herança e sem ligação com os homens que nos precederam à face da terra, nada temos nos nossos corações dos ensinamentos anteriores às nossas próprias experiências. O que é hábito e instinto nos outros povos, temos nós de meter às marteladas nas nossas cabeças. Somos a bem dizer, estrangeiros a nós próprios. Marchamos no tempo por forma tão singular que, à medida do nosso avanço, a véspera foge-nos para sempre – consequência natural duma cultura de importação e de imitação. Entre nós não há desenvolvimento íntimo, progressão natural; as ideias novas varrem as antigas, porque não provêm delas: surgem não se sabe donde. Porque não acolhemos senão ideias feitas, não marca as nossas inteligências o sulco inapagável que todo o movimento progressivo grava nos espíritos e que faz a sua força. Crescemos, mas não amadurecemos».

Assim, a inteligência russa não encontrou em parte alguma o património de ideias hereditárias, de noções adquiridas que ligam o presente ao passado e fornecem ao espírito possibilidade de acção fecunda (18). Estranha situação a desse povo, para quem parece nula a experiência dos tempos, como se a lei da humanidade tivesse sido abolida para si, e que somente se ajustou ao movimento do pensar humano quando despertou do seu longo torpor, imitando os outros povos cegamente mas por forma desajeitada e superficial. Foram-lhe impostos todos os factos importantes da sua história e recebeu de fora quase todas as novas ideias que abraçou. Como poderia ser diferentemente? Se Pedro o Grande tivesse encontrado na sua nação uma história rica e fecunda, tradições vivas, instituições profundamente arreigadas, não teria hesitado em a cortar do seu passado? E não teria, pelo contrário, nelas procurado as bases da regeneração do seu país? (19) Viu, porém, que lhe faltava quase completamente qualquer «base histórica», visto que a história de um povo não se compõe somente de uma série de factos que se sucedem no tempo, mas também de um encadeado de ideias inscritas profundamente nas almas. Na história deve circular um pensamento e um princípio que se desenvolvam ao longo dos sucessos e lhes dêem orientação e sentido.



Pedro, o Grande (1672-1725).




A Religião Russa


A religião, mesmo quando considerada somente do ponto de vista da ordem humana, é a grande força que imprime à história o carácter geral pelo qual um povo toma consciência da sua vocação própria e se associa ao fim que ela propõe à sociedade inteira. Donde provirá que a Rússia, de certa maneira, fosse privada dos benefícios do cristianismo, ao passo que os outros países da Europa lhe devem todos os elementos do seu progresso social? A única tradição que possuiu, em lugar de a associar aos empreendimentos da cristandade, isolou-a ainda mais subtraindo-a à influência do poder moral que transformava o mundo.

Quem quiser compreender o estranho destino do povo russo deve interrogar a sua história religiosa, porque, até ao último século, a religião foi a única língua em que pôde exprimir-se. E aos que pretendem que a Rússia não saberia escapar à influência da cultura europeia, responde-se-lhes como Dostoievsky: «Há uma cultura que não temos necessidade de ir buscar à nascente ocidental, porque é de raiz russa… Afirmo que o nosso povo se cultivou há muito, desde que assimilou a essência da doutrina cristã», E Dostoievsky acrescentava: «Objectar-me-ão: o povo russo não conhece a doutrina cristã e não ouve qualquer prédica. Trata-se, porém, de uma objecção vazia de sentido: o povo russo sabe tudo, tudo o que é preciso saber, embora lhe possa acontecer ficar reprovado num exame de catecismo. Instruíu-se nas igrejas onde, durante séculos, ouviu orações e hinos que valem mais do que os sermões» (20).

Basta dizer que se o coração do povo russo é sensível às comoções religiosas – a sua devoção e o seu misticismo testemunham-nos – compreende mal a doutrina de Cristo e os dogmas da Igreja. Por isso não devemos espantar-nos de que, privado há séculos, por culpa dos seus chefes espirituais, de luzes doutrinais verdadeiramente vivificantes, e deixado sem qualquer firme direcção moral e religiosa salvo quanto à execução mais ou menos estrita da parte exterior do culto, se tivesse entregue a superstições que lhe mascaram a verdadeira fé, abrem a sua alma a mórbidos terrores, a inquietações irracionais que o abalam dolorosamente (21).

As mais singulares aberrações, espalhadas por inumeráveis seitas, partilharam a sua alma atormentada e ávida; não houve absurdo ou imoralidade que não encontrasse prosélitos e adeptos entre esse povo infeliz e ignorante. Era decerto nessas monstruosas heresias que pensava Joseph de Maistre ao escrever a uma senhora russa: «É preferível negar o mistério do que abusar dele… Os sacramentos são a vida do cristianismo e o elo sensível dos dois mundos; mas o exercício dessas sagradas práticas, quando não for acompanhado por ensino independente, vigoroso e puro, provocará horríveis abusos que produzirão por sua vez a verdadeira degradação moral» (22).

Pammakaristos


Ora o povo russo nunca recebeu semelhante ensino, em que se manifestasse a vida dogmática do cristianismo e, ao mesmo tempo, a sua acção sobre os espíritos e sobre as almas. Nunca os seus guias religiosos lho ministraram. Durante centenas de anos não teve qualquer instrução religiosa (23). Com efeito, não se pode falar de cultura a propósito do ritualismo quase exclusivamente formalista da Igreja ortodoxa, para quem a tradição bizantina foi apenas um princípio de estagnação e de hostilidade ao desenvolvimento. «A Igreja ortodoxa refugiou-se, disse Rozanov (24), numa espécie de angra inacessível a qualquer movimento, ao passo que os povos da Europa ocidental, embarcados no navio romano, penetraram num oceano infinito, prenhe de actividade, de perigos, de poesia e de fermentação criadora, a que se misturou um negro e duro trabalho interior».

Separada pelo cisma de Fócio da fraternidade universal, apartada durante largo tempo dos centros do mundo cristão pela dominação mongol, desviada tanto das antigas fontes cristãs como das nascentes da Antiguidade pelo emprego da liturgia eslavónia (25), não possuindo linguagem comum nem autoridade soberana, a Igreja russa ficou fora do grande movimento unitário em que a ideia católica se formou. Estranha, de certa maneira, aos novos destinos do género humano, não soube engendrar uma doutrina por sua própria conta, nem um princípio cuja influência contribuísse não somente para o progresso da civilização geral mas também para o da humanidade russa. Há duas coisas distintas no cristianismo, embora ambas tendam para o mesmo fim sobrenatural: uma é a sua acção sobre a pessoa humana, a outra a sua acção sobre a sociedade. Pode dizer-se que a inferioridade da vida pública e da vida civil do povo russo provêem em parte da imobilidade intelectual da sua Igreja.

Com efeito, a sua história religiosa completamente absorvida pela revisão literal dos Livros Santos, epilogando sem cessar sobre o Obriad, sobre a forma e o significado da cruz, sobre a ortografia do nome de Cristo ou sobre o número dos prósferos, não pode comparar-se com as grandes controvérsias no pensamento cristão no Ocidente. O clero russo pouco se preocupa com problemas doutrinais; as definições, as deduções lógicas, tudo o que desdenhosamente intitula de «racionalismo latino», inspira-lhe desconfiança. Semelhante desprezo condena simultaneamente a ciência humana e a ciência divina; não deve por isso causar espanto a ausência de teólogos ou de filósofos originais russos. Por esse motivo caíram em desuso a prédica, a direcção, todas as instituições por meio das quais o cristianismo serviu os progressos da moral e da inteligência. Fica-se com a impressão de que o Oriente, cansado pelas suas numerosas heresias, acabou por desconfiar da Palavra viva. Não enunciar o dogma tornou-se o meio de não o alterar.

Nada mais impreciso, aliás, que as fronteiras doutrinais dessa «pravoslávia» que nenhum magistério incontestado dirigia. «Se surgisse um diferendo sobre a matéria puramente teológica, dizia a Srª Swetchine ao pensar no jansenismo e no quietismo que dividiram a França no século XVII, a que tribunal recorreria a Igreja ortodoxa? De tudo isto derivou uma espécie de entorpecimento espiritual que afectou não só a sua vida especulativa mas também as profundezas da sua vida religiosa até ao próprio ideal da santidade.

«Nem pela originalidade do seu carácter ou da sua obra, e ainda menos pela sua influência na história ou na civilização, podem os santos russos igualar-se aos santos da Igreja latina ou sequer aos de uma só nação católica como a Itália, a França, a Espanha. Em vão se procuraria entre eles qualquer figura para opor a um Gregório VII ou a São Bernardo, a um Tomás de Aquino, a um Francisco de Assis, a Francisco de Sales ou a um Vicente de Paula» (26). Essa «falta de personalidade dos bem-aventurados e dos santos russos» não derivará da concepção especificamente asiática do monacato ortodoxo? Em nenhum país o papel dos monges foi mais importante do que na Rússia; mas em parte alguma a sua influência foi menos fecunda. Para o povo, o modelo do religioso era o anacoreta do deserto, o estilita sobre a sua coluna, o gimnosofista cristão coberto pela comprida barba, que figura ainda nas pinturas dos conventos moscovitas, ou os santos sepultados vivos nas catacumbas de Kiev. «Não foi a necessidade de se unirem para melhor enfrentarem a luta, mas o amor da solidão, a renúncia ao mundo e aos seus combates que povoaram outrora os inumeráveis mosteiros da Rússia. Muitos, talvez a maior parte dos monges russos não tinham em vista a actividade intelectual, nem o trabalho manual, nem a caridade, nem o apostolado; pareciam muito mais próximos dos lamas tibetanos do que dos filhos de São Domingos ou de São Bento. Por isso a Rússia não produziu nada que se possa comparar às grandes figuras de monges pacíficos ou guerreiros, homens de acção, escritores e até governantes, que tanto influíram no mundo latino. A Rússia teve monges mas não teve ordens religiosas» (27).



S. Bento de Núrsia



Assim se explicam muitas lacunas do desenvolvimento histórico da Rússia. Nunca soube o que fossem essas grandes controvérsias que enchem a história do Ocidente, essas lutas terríveis entre crenças em que a vida inteira dos povos, guiados pelos seus doutores e pelos seus apóstolos, se tornava uma ideia, um sentimento de potencialidade incomparável. «Podem filósofos superficiais fazer todo o alarido que quiserem a propósito das guerras de religião ou das fogueiras acesas pela intolerância, mas nós» - disse Tchaadaiev - «não podemos senão invejar a sorte dos povos que, nesse choque de opiniões, nesses sangrentos conflitos pela causa da verdade, adquiriram um mundo de ideias de que nos é impossível captar sequer uma imagem».As lutas religiosas que dilaceraram a Rússia, suscitando verdadeira multidão de seitas, nunca tiveram por origem sérias questões de dogmática e moral. No Ocidente, a maior parte das heresias nasceram de audácias do juízo próprio – revoltas do espírito ou do orgulho, - e todas pretenderam justificar-se perante a razão por uma ideologia subversiva da Verdade revelada. Oportet haeresis esse: o pensamento católico tornou-se mais nítido, de certa maneira, nestas controvérsias; e os próprios obstáculos que encontrou puseram à prova a sua força e contribuíram para o seu desenvolvimento, porque nunca se encerra para ele o período das definições doutrinais. Na Rússia há muito fora fechado, e as divisões que perturbaram a ortodoxia não provieram do desregramento do pensar individual nem da ânsia de novidades mas da teimosia, do apego aos velhos usos, do chamado espírito de reverência. Não é o racionalismo que se encontra na raiz das suas heresias. O raskol, a mais famosa de todas, é também a que melhor revela o seu extremo tradicionalismo naturalmente hostil ao verdadeiro progresso religioso. O raskolnik, o estaróvero, é o moscovita que repudia a Europa para continuar asiático. Esses refractários personificam «a oposição da Rússia ao Ocidente, a resistência de um povo, isolado pela geografia e pela história como encerrado na sua própria imensidade, nada conhecendo e nada querendo conhecer a seu próprio respeito» (28).


Rússia e Ocidente

Essa resistência – cuja origem já apontámos – foi posta completamente a nu por Pedro o Grande que transformou uma revolta teológica em revolta social e civil, estabelecendo a divisão no seu império (29). E assistimos, nestes últimos vinte anos, ao epílogo da luta em que o Velho Russo, tornado revolucionário por conservadorismo, levou definitivamente a melhor sobre o reformador «maldito» (30).

É de certo modo desconcertante essa defesa instintiva e pertinaz da Rússia contra o homem que pretendeu ligá-la à ordem ocidental. Teria obscuramente previsto as desordens que essa «europeização», […] ia introduzir na sua vida histórica que mal começara ainda? Teria sentido que Pedro o Grande obrigando os seus vassalos a uma história artificial e falsa e persuadindo-os de que eram o que não são, impedi-los-ia de virem a ser o que poderiam ser?

O criador da Rússia moderna era, porém, suficientemente russo para o sentir; atribuem-se-lhe estas palavras significativas: «Necessitamos da Europa durante algumas décadas, mas depois será preciso virar-lhe as costas». Inteligência predisposta para todas as ciências e para todos os progressos materiais, Pedro I considerava o Ocidente um velhote caduco que dispunha de poderosos instrumentos aos quais inteiramente devia a momentânea superioridade que desfrutava sobre a Moscóvia ignorante e desprovida. Tratava-se, portanto, apenas de lhe surripiar os seus segredos para que o jovem império nascente substituísse o velho mundo agonizante (31). Com efeito, fosse qual fosse o prestígio que a seus olhos tivesse a técnica europeia, Pedro o Grande só provisoriamente podia ser «ocidentalista». A sua reforma, todavia, foi mais longe do que previra pois consumou a ruptura entre o povo russo e a classe superior mais ou menos europeizada. Assim, a sociedade russa foi como que «uma colónia europeia perdida no meio dos bárbaros». E era isso que levava Jean-Jacques Rousseau a dizer: «Pedro o Grande quis logo de entrada fazer dos seus vassalos alemães e ingleses, quando devia ter começado por fazê-los russos».






Os Romanov tinham efectivamente a possibilidade de tratar o mundo russo à maneira dos Carolíngios e dos Selêucidas; optaram porém pelo regime moderno do Ocidente. Ao seu povo primitivo, ainda na idade da infância intelectual, deram a conhecer as artes e as ciências de uma civilização adiantada, a cultura, a ética social, o materialismo das cidades europeias (32). Subitamente e sem preparação puseram-no na escola dos Enciclopedistas franceses e depois na da filosofia alemã. Nunca lhe haviam ensinado o catecismo e pretendiam iniciá-lo nos mistérios do hegelianismo integral. Quando a Rússia abriu as suas portas à influência do exterior entraram por elas, em catadupas, os erros da Europa já corrompida, contra os quais nenhuma defesa encontrava em si própria.

«Começámos a civilizar-nos directamente pela perversão», dizia Dostoievsky (33). Para evitarem os estragos que necessariamente produziria faltava aos russos esse conjunto de noções gerais que, com a forma de sentimentos e de ideias, inundam o próprio ar que respiramos e determinam o nosso ser moral antes de nascermos até. Nem tradição nem crítica (34), nem experiência nem previsão; apenas uma espécie de naturismo místico que os predispunha a sofrer o ascendente das mais elementares negações. Do Contrato Social e das antinomias de Kant ao «eu» absoluto de Stirner e ao materialismo histórico de Karl Marx, não houve quimera que não acolhessem com verdadeiro e sombrio ardor logístico.

(…) A profecia fez-se realidade. Regressando às suas nascentes, a Rússia soviética virou-se primeiro para o Oriente, para esse Oriente de que a Rússia tem o instinto, herdado do rude dominador tártaro; e virou-se para o Oriente para dizer a povos perfeitamente aptos para entender a sua mensagem: «A Rússia estende a mão à Ásia, não para que ela adira ao seu ideal nem para que partilhe as suas concepções sociais, mas porque lhe são necessários os oitocentos milhões de asiáticos para derrubar o imperialismo e o capitalismo europeus». Estas palavras pronunciadas por Zinoviev no Congresso de Bacú em 1920, não eram, aliás, senão o comentário da famosa frase de Lenine: «Voltemo-nos para a Ásia; levaremos a melhor sobre o Ocidente pelo Oriente».

Assim, o bolchevismo ia realizar à sua maneira o velho sonho tantas vezes formulado pelos eslavófilos e pelos nacionalistas russos (35). «Seria útil para a Rússia, dizia já Dostoievsky, esquecermos durante certo tempo Petersburgo e voltarmos a nossa alma para o Oriente»; e, pouco antes da sua morte, o autor do Crime e Castigo pronunciava estas palavras proféticas: «Se quiséssemos dedicar-nos à organização da nossa Ásia, grande renascimento nacional veríamos na Rússia».A cada recuo no Ocidente seguem-se avanços da Rússia na Ásia. Logo que tomou conta do poder, o governo soviético procedeu à mudança de «frente», consecutiva à derrota. Repelido da convivência dos países ocidentais, tratou de se pôr imediatamente à testa do movimento de independência e de libertação que fermentava em toda a Ásia. Revoltado contra o Ocidente, contra os seus ideais e as suas instituições, viu rapidamente o temível partido que poderia tirar de um mundo estanque, anterior à civilização romano-cristã, e da potencialidade de destruição nele armazenada. «Em contacto pelas suas fronteiras com os muçulmanos da Turquia, da Ásia Menor, da Pérsia, do Afeganistão, em contacto com os caminhos da índia, com a Mongólia, o Tibete e a China, a Rússia dos Sovietes, depois do malogro do seu assalto contra a Europa, bateu em retirada para a Ásia onde preparou nova ofensiva contra a Europa: a ofensiva do mundo asiático» (36).

E dir-se-á que estão próximos os tempos anunciados por Renan «em que o Eslavo, como o Dragão do Apocalipse cuja cauda varre a terça parte das estrelas, arrastará após si o rebanho da Ásia Central, a antiga clientela dos Gengis Cans e dos Tamerlões» (in ob. cit., pp. 24-51).






Notas:

(14) «O camponês russo» – diz Brian-Chaninov - «está mais próximo do chinês, do anacoreta tibetano, do pária hindu, do que do camponês europeu».

(15) O espectáculo dos monumentos da velha Europa inspirava aos intelectuais russos precursores dos bolchevistas sentimentos semelhantes, em que se descobre uma ponta de despeito. «Esta região viveu muito» - observava Herzen. «Vêem-se dezenas de séculos debaixo de cada pedra aparelhada, por detrás de cada ideia feita. Para lá das espáduas de cada europeu vê-se uma longa fila de figuras imponentes, no género da procissão das sombras no Macbeth… Os seus foscos monumentos dão à Europa aristocrática fisionomia, afrontosa para quem não possui avoengos tão esplendentes! Nós, os citas, sentimo-nos mal, por vezes, no meio desta herança de riquezas, entre este legado de ruínas» (Lettres de France et d’Italie, p. 9. «Westminster» - dirá Lenine - «não vale um par de botas, um tractor ou uma máquina de brocar aço!».

(16) Máximo Gorki, Lénine et le paysan russe, p. 110.

(17) Cf. Oeuvres choisies de Pierre Tchaadaiev, publicadas pelo Padre Gagarine, S.J., 1862.

(18) «Respeitar o passado?» - dizia Herzen. - «Mas o ponto de partida da moderna história russa não é a negação absoluta da tradição? Somos independentes porque não possuímos nada que possamos amar… Não temos nem recordações que nos liguem nem herança que imponha deveres».

(19) Cf. Tchaadaiev, ob. cit., p. 133: «Pedro o Grande herdou apenas papel em branco, no qual traçou com o seu punho vigoroso estas palavras: Europa e Ocidente; e desde então pertencemos à Europa e ao Ocidente».

(20) Dostoievsky insiste nesta ideia em certo trecho do Diário de um escritor: «Diz-se que o povo russo conhece mal o Evangelho, ignora as regras fundamentais da fé! Sem dúvida; mas conhece Cristo e trá-lo no seu coração desde sempre… Será possível conhecer o verdadeiro Cristo sem conhecer a doutrina? Essa é outra questão. O conhecimento de Cristo pelo coração está patente, porém, no nosso povo que se orgulha das suas crenças ortodoxas, isto é, de ser o que pratica a religião de Cristo com mais verdade, com mais ortodoxia. Repito: pode salvar-se muita coisa inconscientemente» (cf. La Confession de Stavroguine, trad. Halpérine-Kaminsky, pp. 151-152).

(21) Cf. Brian-Chaninov, La Tragédie moscovite.

(22) Joseph de Maistre, Un honnête homme ne doit-il jamais changer de réligion?, p. 34, Paris, 1839.

(23) O povo lia apenas a Tchetia-Muneia, o martirológio dos santos em língua eslavónia.

(24) Rozanov: L’Église russe, Paris, 1912.

(25) «Não é apenas no espaço, isolando-o tanto do Ocidente como do resto do Oriente, mas também no tempo, à margem das civilizações clássicas, que o eslavónio eclesiástico contribuiu para o isolamento e para a estagnação da Rússia». Anatole Leroy-Beaulieu, L’Empire des Tsars et les Russes, t. III; La Réligion, Paris, 1899. Em Kiev, no entanto, o ensino foi ministrado em latim, do século XVII ao século XIX.

(26) A. Leroy-Beaulieu, ob. cit., p. 140.

(27) A Leroy-Beaulieu, ob. cit., pp. 225-226.





(28) Anatole Leroy-Beaulieu, ob. cit., p. 340. «O clero russo tem sempre os olhos postos no Oriente e nunca quis aceitar a sua europeização» (G. Plekhanoff, Introduction à l’histoire sociale de la Russie, p. 93).

(29) «O obstáculo fundamental que a Rússia encontrou no caminho que levava à europeização e à cultura foi o esmagador predomínio da província iletrada sobre a cidade, do individualismo animal do camponês e da ausência quase completa no seu ser de sentimentos sociais». Gorki, ob. cit.

(30) A revolução bolchevista, no começo, derrubou por toda a parte as estátuas de Pedro o Grande, que encarnava aos seus olhos exactamente o que era necessário destruir. Mais tarde, na altura da Nep e da industrialização, o fundador da Rússia moderna foi alvo de novo culto. O filme de propaganda de Alexis Tolstoi consagrado a Pedro I, patrocinado por Estaline, foi o sinal dessa reviravolta.

(31) É neste ponto que Pedro o Grande foi precursor dos bolchevistas. Cf. Apêndice.

(32) Cf. Spengler, Des Untergang des Abendlandes, t. III, p. 232.

(33) Diário de um escritor, p. 173; e Dostoievsky acrescenta: «Muitos enigmas se erguem à nossa frente, ao ponto de nos meter medo e expectativa das suas soluções. É de prever que a civilização pervertirá o povo. Tudo indica que o progresso trará consigo não só a luz mas também tantas falsidades, tantas inquietações e maus costumes que somente depois de muitas gerações, talvez apenas depois de novo período de duzentos anos, poderá germinar a boa semente; entretanto, terríveis coisas nos estão reservadas, a nós e a nossos filhos».

(34) Daí a falta de tacto e de aprumo, de método e de lógica que nos choca nas obras do génio russo: «Desconhecemos o silogismo do Ocidente» - escreveu Tchaadaiev. «As melhores ideias, por falta de ligação ou de sequência, paralisam os nossos cérebros, deslumbrantemente estéreis… Nas nossas cabeças absolutamente nada existe que tenha carácter geral – nelas tudo é individual, flutuante e incompleto». O russo não possui o sentido da causalidade.

(35) A «grande ideia asiática» parece saída, aliás, da «grande ideia eslava», cara a Dostoievsky. Tchaadaiev já em 1840 resumia assim os temas da propaganda dos eslavófilos: «Somos os meninos bonitos do Oriente, proclamam. Que necessidade temos nós do Ocidente? O Ocidente será porventura a pátria da ciência e de todas as coisas profundas? É o Oriente que encontramos por toda a parte, o Oriente a que outrora fomos buscar as nossas crenças, as nossas leis, as nossas virtudes… O velho Oriente vai desaparecendo, mas nós somos os seus herdeiros naturais. E é entre nós que vão realizar-se as grandes e misteriosas verdades cuja guarda foi confiada ao Oriente desde a origem das coisas».

Os «eurasianos», sucessores dos eslavófilos, e que se recrutaram depois da Revolução de 1917 entre os emigrados, professavam as mesmas teorias: «Não nos considereis filhos da Europa, escrevia então o Príncipe Trubetzkoi. A Europa não é a nossa mãe… A senda do nosso evidente destino dirige-se para o Oriente… A Rússia cometeu o pecado de menosprezar o seu orientalismo e de se deixar ludibriar por ilusões ocidentais».O historiador russo Brian Chaninov salientava, aliás, que as conversões ao bolchevismo, por princípio ou por patriotismo, se verificavam então sobretudo entre os neo-eslavófilos, entre os «eurasianos».

(36) Albert Sarraut










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