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segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Conde de Cagliostro (ii)

Escrito por Camilo Castelo Branco





Conde de Cagliostro



Admitido assim aos mistérios da seita, não deixou, em todo o tempo que residiu em Londres, de frequentar aquelas diversas lojas; porém, antes de sair dali, comprou a um livreiro alguns manuscritos que diziam ou pareciam ser de um tal Jorge Cofton, por ele inteiramente desconhecido. Viu que tratavam da maçonaria egipciana, mas com um sistema que tinha muito de mágico e supersticioso.

Propôs-se então o nosso Cagliostro criar, debaixo destes traços, um novo rito de maçonaria, tirando-lhe, porém, (disse ele), quanto tinha de mau, que vinha a ser a superstição e a mágica. Com efeito, levou a bom termo o seu desígnio, e o rito por ele fundado e propagado em tantas partes do mundo grandemente contribuiu para a sua celebridade. Disse-se noutra parte qual o impulso desta sua determinação, que foi abrir uma fonte copiosa de contribuições, já em dinheiro, já em jóias e roupas. Quem já nada cria em matéria de fé, que temor podia ter no meio da multiplicidade das seitas maçónicas? Pensou unicamente em realizar, à sombra desta novidade, mais estrondosas extorsões.

Para que se possa compreender tudo o que no decurso de tantos anos e de tantos lugares obrou nesta matéria, é necessário expor o plano do sistema, ou rito egipciano, por ele instituído, cotejando-o fielmente com o livro que ele compôs, e que apresentou como um código completo. Indo-se buscar a sua casa, solenemente o reconheceu e confessou que por ele sempre se tinha regido no exercício da maçonaria; que este mesmo livro lhe serviu de norma às iniciações que fizera em diversas lojas, e que vários exemplares deixara nas Lojas-Madres que fundou em diferentes cidades, como veremos.

Os leitores distinguirão bem, sem a ajuda das nossas reflexões, qual e quanta seja a malícia do seu autor, e a fraude que esconde debaixo das mentirosas divisas de piedade, de caridade e de subordinação às leis. Estes são os caracteres da sua impiedade infalivelmente superior e do mais detestável de todos os sistemas maçónicos. O livro, escrito em francês, tem o ressaibo de seu idioma. Cagliostro seria capaz de tanto? Certamente que não. É certo, pelo que consta, que ele inventou e forneceu matéria, porém, para escrever, serviu-se de pessoa de talento, não menos cega que ele em coisas de fé, animada dos encantos de sua vaidade, de seus discursos e operações.

Prometeu ensinar a seus sequazes o sistema e conduzi-los à perfeição por meio da regeneração física e moral, e assim fazer-lhes encontrar a matéria-prima ou a pedra filosofal, e a inocência, que consolidam no homem as forças da mais sã mocidade, tornando-o imortal; mais uma vez de posse disto, o homem adquire um Pentágono que o restitui ao estado de inocência primitiva, perdido pelo pecado original.

Finge Cagliostro que a maçonaria egipciana foi iniciada por Enoch e Elias, que a propagaram por diversas partes do mundo, e que, devido ao giro dos anos, se tinha degradado muito da sua primitiva pureza e esplendor. Aquela já tinha sido reduzida pelos homens a uma simples murmuração, e a outra pelas mulheres a uma total destruição, por não terem ordinariamente lugar na comum maçonaria. Enfim, o zelo do Grão-Copta (nome próprio dos sumos sacerdotes egipcianos) propunha restituir ao seu primitivo lustre a maçonaria, num e noutro sexo.

Expõem depois os estatutos os requisitos que devem exigir-se aos que querem ser admitidos aos três distintos graus, funções e catecismo dos aprendizes, companheiros e mestres, e o número de que comporá cada classe; os sinais distintivos com que se devem reconhecer entre si; os oficiais a quem cabe presidir e convocar a sociedade; o tempo de suas respectivas reuniões; a criação de um tribunal encarregado de julgar as questões que possam ocorrer entre lojas e as faltas de seus respectivos membros; aquele estreito vínculo de união com que são obrigados a proteger-se os irmãos em particular, e todas as lojas em geral, e as muitas cerimónias que se devem observar rigorosamente, assim na admissão dos indivíduos a cada um dos três graus indicados, como nas celebrações das lojas.




Em tudo isto há seu tanto ou quanto do sacrilégio, da profanação, da superstição e da idolatria que praticam as outras seitas da maçonaria ordinária; invocações do santo nome de Deus; prostrações e adorações à venerável cabeça da loja; sopros, aspirações, incensos, perfumes, exorcismos aos candidatos e aos vestidos que hão-se envergar, emblemas da sacrossanta Trindade, da Lua, do Sol, da plaina, do esquadro, e outras mil semelhantes iniquidades, bem conhecidas de todos. Na maçonaria de que tratamos, há alguma coisa ainda que, pela novidade, apresenta a mais abominável extravagância.

Já falámos do Grão-Copta, fundador ou restaurador da maçonaria egipciana, e diremos, a propósito, que Cagliostro não recuou em insinuar que, debaixo deste nome, estava a sua pessoa, e, com efeito, todos assim o reconheciam. Neste sistema, o Grão-Copta é igual ao Eterno Deus: a ele se rendem os actos mais solenes de adoração; a ele se atribui a autoridade de comandar os anjos; ele se invoca em todas as ocorrências; tudo se obra em virtude do seu poder, que se assegura ser-lhe singularmente comunicado por Deus. Porém, ainda há mais: em diversas cerimónias que se realizam nesta maçonaria, está prescrita a reza do Veni Creator Spiritus, o Te Deum e alguns Salmos de David. Chega a tal extremo a temeridade, que no salmo Memento Domini David, et omnis mansuetudinis ejus, o nome de David é substituído pelo do Grão-Copta!

Nenhuma religião é excluída da sociedade egípcia: o hebreu, o calvinista, o luterano, o católico, podem indiferentemente ser admitidos, porque acreditam na existência de Deus e na imortalidade da alma, e acham-se já alistados na maçonaria ordinária. Os homens que chegam ao grau de mestres tomam o nome dos antigos profetas, e as mulheres o das sibilas. O juramento que se exige aos primeiros é o seguinte: Eu prometo, obrigo-me e juro de não revelar jamais os segredos que me forem comunicados neste Templo, e de obedecer cegamente aos meus superiores. O das mulheres é concebido assim: Eu, juro em presença do grande Eterno Deus, de minha mestra, e de todas as pessoas que me ouvem, de não revelar jamais, nem fazer entender, escrever nem fazer escrever, tudo quanto se passa aqui à minha vista, condenando-me a mim mesma, no caso de imprudência, a ser castigada segundo as leis do grande fundador e de todos os meus superiores: prometo igualmente a mais exacta observância dos outros seis mandamentos que me impuseram: o amor de Deus; o respeito a meu soberano; a veneração pela religião e pelas leis; o amor a meus semelhantes; uma reverência sem reserva à nossa ordem, e a mais cega submissão aos regulamentos e leis do nosso rito, que me sejam comunicados por minha mestra. Ao passar ao terceiro grau de mestre ou mestra renova-se o juramento, porém o livro não refere a forma.

É sabido que na maçonaria ordinária há o costume de dar ao iniciando dois pares de luvas, um para si, e outro para que o dê à senhora que mais estima. O Grão-Copta, adoptando semelhante costume, junta a particularidade de se cortarem às mulheres, no acto da entrada, uns poucos de cabelos, que lhes restituem acabada a função, os dêem ao homem que mais estimam. Particulares e sacrílegas são igualmente as formas com que se admitem candidatos à posse de seus respectivos graus. Referiremos somente o que respeita à mulher aceite ao grau de aprendiza, e outra correspondente ao homem que sobe ao grau de companheiro. Na primeira, a mestra dá um sopro na cara da candidata, prolongando-o desde a fronte até à barba, e pronunciando estas palavras: Eu vos dou este sopro para fazer brotar e penetrar em vosso coração a verdade que nós possuímos; eu vo-lo dou para fortificar em vós a parte espiritual; eu vo-lo dou para confirmar-vos na fé de vossos irmãos e irmãs, segundo as obrigações que tendes contraído. Nós vos criamos filha legítima da verdadeira adopção egípcia e da loja, etc.; nós queremos que vós sejais reconhecida nesta qualidade por todos os irmãos e irmãs do rito egipciano, e que vós gozeis das mesmas prerrogativas; nós vos damos o poder para ser desde agora em diante e para sempre mulher franco-maçon e livre. Quanto aos homens que sobem ao grau de companheiro, o mestre fala-lhes assim: Pelo poder que tenho do Grão-Copta, fundador da nossa Ordem, e pela graça de Deus, eu vos confiro o grau de companheiro e vos constituo custódio de novos conhecimentos, os quais vos participaremos em os nomes sagrados de Xalion, Melion e Talhagramaton.






No caderno da seita dos iluminados, impresso em Paris no ano de 1789, refere-se que estas últimas palavras foram sugeridas por Cagliostro, como santas e arábicas, de um certo jogador de peloticas, que dizia estar assistido de um espírito, que era alma de um hebreu cabalista, o qual por arte mágica tinha morto o padre antes da vinda de Jesus Cristo.

Os maçónicos ordinários têm por protector S. João Baptista, e por isso o homenageiam, ao contrário do rito de Cagliostro, onde é S. João Evangelista (neste dia foi Bálsamo preso em Roma) o festejado, dizendo ele que em virtude da grande afinidade que há entre o Apocalipse e as diversas passagens do mesmo rito. Delas convém aqui falar, para plena inteligência da impiedade do sistema e das operações em que continuamente se exercitou, como veremos.

Na passagem dos homens ao grau de mestres prescreve-se a seguinte execranda função: toma-se um menino ou menina que esteja no estado de inocência (a que se dá, respectivamente, o nome de pupilo ou pomba), a qual recebe, comunicado pelo venerável, o poder de que, antes da queda do homem, estava investida, e em especial o de mandar os sete espíritos puros que dizem existentes no trono divino e que regem os sete planetas, assim nomeados no sistema ou livro de que vimos tratando: Anael, Rafael, Gabriel, Uriel, Zobiaquel, Anaquiel.

Conduzida a pupila à presença do venerável, esta dirige, juntamente com os membros da loja, orações a Deus para que se digne permitir-lhe o exercício do poder que lhe foi comunicado pelo Grão-Copta, a fim de que possa obrar segundo os mandamentos do venerável e servir de mediadora entre ele e os espíritos que se chamam intermediadores. Depois, vestida com um hábito talar branco, adornada de faixa de turquesa e cordão encarnado, e aspirada com um sopro, encerram-na num Tabernáculo, que é um lugar apartado do Templo, armado de branco, tendo por fora uma porta de entrada, pela qual se há-de ouvir a voz e, no interior, uma pequena mesa onde ardem três velas. Renova o venerável as orações, e começa a exercer aquele poder que diz ter recebido do Grão-Copta, obrigando os sete anjos a comparecer perante a pomba. Quando esta anuncia a sua presença, aquele ordena-lhe, em virtude do poder que Deus conferiu ao Grão-Copta e o Grão-Copta lhe comunicou a ele, que pergunte ao anjo Anael se o candidato tem os méritos e os requisitos necessários para se elevar ao grau de mestre, e, sendo a resposta afirmativa, passa a outras cerimónias e funções necessárias para a elevação do iniciando.

A mesma cerimónia se prescreve para a elevação das mulheres ao magistério, mas com alguma diferença; à pomba, colocada, como se disse, no Tabernáculo, é-lhe ordenado que faça comparecer um só dos sete anjos e que lhe pergunte se será permitido levantar o véu com que está coberta a inicianda. Seguem-se outras supersticiosas cerimónias, e depois o venerável diz à pomba que mande comparecer os outros seis anjos, aos quais se dirigirá nos seguintes termos: Pelo poder que o Grão-Copta conferiu a minha mestra, e pelo que eu dela obtive, ordeno-vos, anjos primitivos, que consagreis estes hábitos, fazendo-os passar por vossas mãos. São estes hábitos os vestidos e insígnias da Ordem, e juntamente uma coroa de rosas secas. Quando a pomba verifica que os anjos realizaram a consagração, ordena-se-lhe que faça comparecer Moisés, a fim de que também abençoe os ditos vestidos, e tenha nas mãos a coroa de rosas durante o resto da cerimónia. Depois lançam-se pela janela do Tabernáculo os vestidos, as insígnias, e, entre elas, as luvas que levam escrito no meio: eu sou homem; e tudo entrega à candidata, Seguem-se outras perguntas à pomba, especialmente para dizer se sim ou não Moisés teve sempre na mão a coroa, e, respondendo que sim, põe-se-lhe na cabeça. Finalmente e após outras práticas igualmente sacrílegas, faz-se uma outra pergunta à pomba: se Moisés e aos sete anjos foi grata a promoção. Invocada a vinda do Grão-Copta para que também a abençoe e aprove, fecha-se a loja.



Moisés, o "salvo das águas"



Não será importuna uma breve digressão, que possa servir de desengano àqueles que porventura tenham tido a desgraça de cair nesta cegueira. O Grão-Copta, o restaurador da maçonaria egipciana, o conde de Cagliostro, mostra em diversas partes do seu sistema ter em grande conta o patriarca Moisés. No entanto, o próprio Cagliostro declarou espontaneamente terá alimentado sempre em seu ânimo uma insuperável antipatia contra o mesmo Moisés. Em sua opinião, Moisés foi um ladrão, por ter tirado aos egipcianos seus vasos; e, em face dos mais claros argumentos com que o refutaram, procurando convencê-lo do seu erro, pérfida e obstinadamente sustentou seu modo de ver, o que faz supor ter visos de verdade o que foi dito por sua mulher - que a antipatia de seu marido por Moisés procedia de origem mui diversa, qual era a de ele não comparecer a seus trabalhos maçónicos. No entanto, amara sempre os hebreus como a si mesmo, e costumava dizer que é a gente mais bela do mundo.

Mas voltemos ao nosso intento.

O fim da sua maçonaria, como por mais de uma vez temos dito, consiste na perfeição do homem, meio pelo qual promete conduzir os sequazes à regeneração moral e física, depois que tenham subido ao grau de mestres. Para obter uma e outra, prescreve duas distintas quarentenas, que vêm a ser: um retiro de quarenta dias pela primeira vez, e uma cura corporal de outro tanto tempo, pela segunda. As práticas impostas para uma e para a outra formam um complexo que é uma demonstração triunfante da iniquidade do sistema. A descrição que vamos fazer justificará a nossa proposição.

O que pretende obter a regeneração moral, que significa a inocência primitiva, deve subir a uma montanha altíssima, à qual dará o nome de Sinai, e no seu cume construirá um pavilhão, dividido em três planos ou estâncias, que se denominará Sião. A câmara superior medirá dezoito pés quadrados, tendo quatro janelas ovais por cada lado, cada uma só porta de entrada. A segunda câmara, situada no meio, será perfeitamente redonda, sem janelas, e capaz de acomodar treze pequenas camas; uma só lâmpada, colocada no meio, alumiará, e não haverá ali móvel algum que não seja necessário. Esta segunda câmara chamar-se-á Arazat - nome da montanha sobre a qual se assentou a arca, em sinal de repouso que está reservado só aos maçons eleitos de Deus. - Finalmente, a terceira câmara terá capacidade conveniente para servir de refeitório e, ao redor, três gabinetes; em dois deles guardar-se-ão as provisões e tudo o mais que preciso for, e no terceiro os vestidos, as insígnias e os instrumentos maçónicos da arte, segundo Moisés.

Juntas as provisões e os instrumentos necessários, encerram-se treze mestres no pavilhão, sem mais poderem sair durante quarenta dias, que é quanto demoram os labores e trabalhos maçónicos, observando em cada dia a mesma distribuição de horas: seis serão empregadas na reflexão e repouso; três na oração e holocausto ao Eterno, que consiste em dedicar-se todo a si mesmo com a maior força do coração, tendo em vista a maior Glória de Deus; nove nas sagradas operações, tais como a preparação da carta virgem e a consagração dos instrumentos que devem fazer-se todos os dias; as últimas seis na conversação e restabelecimento das forças perdidas, tanto físicas como morais. Passado que seja o dia trigésimo terceiro destes exercícios, começarão os encerrados mestres a gozar do favor de comunicar visivelmente com os sete anjos primitivos, e conhecer o selo e a cifra de cada um destes entes imortais. Um e outro serão por eles mesmos provados na carta virgem, composta, ou da pele de um cordeirinho recém-nascido, purificado em pano de seda, ou da secundina de uma criatura do sexo masculino, nascido de uma hebreia, purificada igualmente, ou de papel ordinário, benzido pelo fundador.



Este favor durará até ao dia quarenta, no qual, concluídos os labores, começará cada um a gozar do fruto deste retiro, isto é, cada um recebe, de per si, o Pentágono, ou a carta virgem, sobre a qual os anjos primitivos imprimiram suas cifras e selos.

Fortificado com isto, e feito assim mestre e cabeça do exército, sem socorro de algum mortal, seu espírito encher-se-á de fogo divino, e seu corpo ficará puro como o do menino mais inocente; sua penetração não terá limites; seu poder será imenso; não aspirará a outra coisa mais que a um perfeito repouso para chegar à imortalidade e poder dizer de si: Ego sum qui sum.

Além do Pentágono sacro, terá outros sete diferentes, dos quais poderá dispor a favor de sete pessoas, homens ou mulheres, que sejam de sua maior estimação. Estes Pentágonos secundários só têm impresso o selo de um dos sete anjos; portanto, quem o possui não pode exercer império sobre outro que não seja este, e fá-lo-á não em nome de Deus, como possuidor do primeiro Pentágono, senão em nome do mestre de quem o recebeu, obrando por seu poder, do qual pelo outro ignora o princípio.

Vejamos agora o seguimento da regeneração, ou perfeição física, com a qual pode a pessoa chegar, ou à espiritualidade de 1557 anos, ou prolongar a vida sã e tranquila até que Deus o queira chamar a si. Quem aspira a tal perfeição, deve, cada cinquenta anos, retirar-se no plenilúnio de Maio, com um amigo ao campo, e ali, encerrado numa cela ou alcova, sofrer, durante quarenta dias, uma dieta rigorosa, com escassos alimentos, consistindo em sopas ligeiras, ervas tenras, refrigerantes, laxativos, e bebidas de água destilada ou da chuva de Maio. No décimo sétimo dia deste retiro, feita uma pequena sangria, tomará certas gotas brancas, que não explica de que sejam compostas, seis pela manhã e seis de tarde, acrescentando mais duas pelo dia adiante, até ao dia trinta e dois, em que procede a uma pequena sangria ao nascer do Sol; no dia seguinte mete-se na cama até concluir a quarentena, e ali sobe ao primeiro grau da matéria-prima, aquele mesmo que Deus criou para tornar o homem imortal e que este perdeu pelo pecado, não podendo reavê-lo senão pelo favor do Eterno ou pelos exercícios maçónicos. Tomado este grau, o que houver de ser renovado perde o conhecimento e a fala por três horas e, convulsionado, exsolve-se numa grande transpiração e evacuação; depois, tornando a si e mudando a cama, há-de ser confortado com uma substância composta de uma libra de carne sem gordura e várias ervas refrigerantes.

Se o confortivo o põe em bom estado, no dia seguinte dá-se-lhe o segundo grau de matéria-prima numa tigela de substância, cujos efeitos, ao contrário da primeira, lhe ocasionarão uma grande febre com delírio, caindo-lhe a pele, os cabelos e os dentes. No dia seguinte, trinta e cinco, se o doente tem forças, tomará banho, nem quente nem frio, que não pode exceder uma hora. No dia trinta e seis, num vaso de vinho velho e generoso, tomará o terceiro grau de matéria-prima, que o porá num sono doce e muito sossegado. É então que nasce outra vez a pele e começam a aparecer os dentes e o cabelo. Tornando a si, deve entrar num novo banho aromático, e lavar-se, no dia trinta e oito, num banho de água ordinária, na qual se deitará nitro. Tomado o banho, vestir-se-á e passará pela sala, tomando, no dia trinta e nove, algumas gotas do bálsamo do grão-mestre em duas colheres de vinho tinto.

No dia quarenta, finalmente, sairá de casa, já de todo renovado. Para complemento da história, não deixaremos de advertir que um e outro método estão prescritos, igualmente para as mulheres, e que, na parte correspondente à regeneração física se manda, a cada uma delas, retirar para a montanha ou para o campo com a única companhia de um amigo, o qual deve prestar-lhe todos os ofícios necessários, em particular aqueles que correspondem à crise da cura corporal.













É esta a trama do seu sistema ou maçonaria egipciana, que muito pela rama explanamos, a fim de corresponder à brevidade que prometemos. Da outra análise que sobre o dito sistema se tem feito, resulta, iniludivelmente, a sua impiedade, superstição e sacrilégio; porque, além de reunir em si tudo o que há de pior nas comuns maçonarias, tem ainda, a torná-lo mais repulsivo, essa indigna sedução tendente a inspirar aos homens o sistema físico e moral, investindo cara a cara, e sem rebuço, com os dogmas mais sólidos da religião (in ob. cit., pp. 44-52).


sábado, 25 de junho de 2011

O Conde de Cagliostro (i)

Escrito por Camilo Castelo Branco








«José Bálsamo, mais conhecido pelo título de conde de Cagliostro, veio também a Portugal, disfarçado sob o título de conde de Stephens. Este famoso aventureiro era um cavalheiro da indústria que se filiou na Maçonaria com a intenção de utilizar em seu proveito a Maçonaria de Adopção [Ramo da Maçonaria Moderna destinada às mulheres]. Para esse fim fundou em Paris, em 1782, uma Loja que tomou o nome de Loja-Mãe de Adopção da Alta Maçonaria Egípcia. Era presidida pela esposa de Cagliostro e ele próprio tomava nela o título de Grande Copta.

Cagliostro entrou em contacto com as melhores famílias de Lisboa; mas apesar disso não conseguiu escapar ao faro de Manique, que ordenou a sua expulsão. Seguiu então para Itália e, tendo sido detido em Roma, em 1790, morreu na prisão em 1795».


Manuel Borges Grainha («História da Franco-Maçonaria em Portugal»).



José Bálsamo, Conde Alexandre de Cagliostro, nasceu em Palermo a 8 de Junho de 1743. Consta haver tido por mestre um alquimista de nome Altotas, como ter
 ainda sido o restaurador da Maçonaria Egípcia. Foi, além disso, considerado um charlatão por se atribuir a virtude de comandar os anjos, quando não obrar em nome do Deus eterno. Seja como for, o ocultista italiano produziu funda impressão na corte de Luís XVI, logrando, inclusive, ter o seu nome estampado num dos mais notáveis romances de Alexandre Dumas, onde nos é dado entrever, por intermédio de José Bálsamo, uma futura imagem da morte de Maria Antonieta numa garrafa de cristal.

Envolvido no processo do colar, o afamado ocultista retirou-se para Roma onde, por incumbência do Santo Ofício, lhe fora atribuída a pena capital, depois transformada em prisão perpétua. De resto, a resolução definitiva ficara a cargo de Pio VI, conforme se averba no seguinte passo:

«José Bálsamo, réu confesso e convencido de muitos delitos, e incurso nas censuras e penas publicadas contra os hereges formais, dogmatizantes, heresiarcas, mestres e sequazes da magia supersticiosa, e igualmente nas censuras e penas estabelecidas tanto nas constituições apostólicas de Clemente XI e de Benedito XIV contra aqueles que de qualquer modo favoreçam e promovam a sociedade e conventículos dos franco-maçons, como no édito da Secretaria de Estado contra os que em Roma ou outro qualquer domínio Pontifício tiveram nela parte: usando de graça especial, comuta-se-lhe a pena de relaxá-lo ao braço secular (pena de morte) em cárcere perpétuo numa fortaleza, onde deverá ficar estreitamente retido, sem esperança de obter mais graça; mas, tendo abjurado de todos os erros na prisão em que actualmente se encontra, determino que seja absolvido das censuras, impondo-se-lhe as devidas e saudáveis penitências.

Quanto ao livro manuscrito
, que tem por título Maçonaria Egipciana, solenemente o condeno, porque contém ritos, proposições, doutrinas e sistemas que conduzem à sedição e à destruição da religião cristã, e é supersticioso, blasfemo, ímpio e herético, pelo que deve ser publicamente queimado pelo ministro da Justiça, juntamente com os instrumentos pertencentes à mesma seita. Com uma nova constituição apostólica se confirmarão e renovarão, não só as constituições dos Pontífices predecessores, mas também o referido édito da Secretaria de Estado, que proíbem a sociedade e conventículos dos franco-maçons, mencionando em especial a seita egípcia e a outra vulgarmente chamada dos iluminados, estabelecendo-se contra todas as pessoas que nelas se juntem, ou por qualquer modo as auxiliem, as mais graves penas corporais».

Ora, uma tal sentença, que para Camilo Castelo Branco «corresponde plenamente a todos os ditames da justiça, da equidade, da prudência, da religião e da tranquilidade pública, não menos para o estado Pontifício, que para o mundo inteiro», queda inserta no seu livro José Bálsamo, O Conde de Cagliostro. Camilo é, pois, peremptório, a respeito de quem toma por charlatão, impostor, ateísta, sacrílego, materialista, incrédulo e sobretudo indigno do santo matrimónio por ministrar a Lourença Feliciana, sua mulher, a máxima com que amiúde a corrompia para obter jóias e dinheiro: Que o adultério não era pecado numa mulher que se entregava por interesse, não por amor, a outro homem.





No seu livro, Camilo não destrinça a Maçonaria operativa da Maçonaria especulativa. Por outras palavras, não distingue a Maçonaria medieval, corporativa e mesteiral da Maçonaria iluminista e racionalista transviada em facções, regras, ritos e lojas de perfil ou feição protestante. No entanto, averba o carácter impiedoso inerente a várias espécies de Maçonaria, como a da já referida Maçonaria Egípcia fundada ou restaurada por José Bálsamo, ou a que, congeminada pelos iluminados e atreita à destruição da catolicidade e das monarquias, dá pelo nome de estreita observância; finalmente, temos a Maçonaria da alta observância, aparentemente propensa à arte hermética mas, no fundo, subversiva e revolucionária.

Não há, pois, como fugir ao facto de a Maçonaria ter decaído e degenerado nos dois últimos séculos. Exemplo disso é o Grande Oriente Lusitano, o mesmo que, em nome da democracia e da república positivista, começou por alçar uma estátua ao feroz e cruel Marquês de Pombal, para, assim, na história mais recente - que é a história espúria do jacobinismo, do ataque à Igreja Católica e da pregação socialista - ter igualmente contribuído para amordaçar Portugal na teia de poderes e organizações internacionais. Mas essa é outra história que transcende o contexto histórico em que jaz o ilustre novelista de Oitocentos.

Resta então atender, ainda que brevemente, ao Conde de Cagliostro, segundo Camilo Castelo Branco.

Miguel Bruno Duarte





EM QUE SE DÁ UMA BREVE IDEIA DA MAÇONARIA EM GERAL, E UMA DESCRIÇÃO EM PARTICULAR DA MAÇONARIA EGÍPCIA


«Muitas vezes [José Bálsamo] usou também de um misterioso silêncio; mas a alguns que lhe perguntavam por seu nome, ou por sua condição, tomava o partido de responder: Ego sum qui sum; e quando apertavam muito com ele sobre esta matéria, o mais em que condescendia era pôr por escrito a sua cifra figurada numa serpente, que tinha na boca uma maçã trespassada com uma seta».


... A maçonaria é um agregado de pessoas vulgares e de costumes soltos, que se juntam em sociedade, ou, para melhor dizer, em sítio determinado. No ano de 1723, foi pela primeira vez impresso em Londres o livro das suas constituições por Guilherme Hunter: ali se lê, que naquela cidade e seus arrabaldes se contavam já vinte casas particulares destes sectários, cada uma das quais tinha seu decano, e mandava todos os anos um deputado a uma assembleia para a eleição de um superior a quem todos estavam sujeitos.

A maior preocupação dos seus dirigentes foi ocultar a verdadeira origem ou modelo que se propuseram seguir, para melhor dissimular seu objectivo e fim, que no referido livro impresso em Londres, se diz ser o de fazer florescer a arquitectura. Depois, inicia-se a história por Adão, criado à imagem de Deus, que é o grande arquitecto do Universo: no decurso do tempo Moisés e Salomão recebem o nome de grandes mestres, e assim continua discorrendo, idade por idade, por todas as nações do mundo e primeiros monarcas, especialmente aqueles que têm sido amantes e protectores da Arquitectura.

Em outros livros, impressos, em particular, por aqueles que quiseram defender esta seita, intentou-se trazer sua origem, ou de alguns Templários que ficaram refugiados na Escócia, os quais, por motivos de cruzadas, achando-se muitas vezes misturados com os infiéis, se viram obrigados a convir em certos sinais para reconhecerem-se, ou de Tomás Cramnero, que se fez chamar Flagellum Principum e que no ano de 1558 foi bispo apóstata favorecido de Ana Bolena e depois queimado, ou de Oliveiro Cromwel, a quem chamavam o famoso libertador dos reinos, ou do antigo rei Artur.

As casas de reunião denominam-se lojas. Seguindo sempre a alegoria da arte mecânica, tem diversas classes e graduações: uns são moços, outros trabalhadores, outros mestres; e assim se distinguem os moços, que por outro nome são aprendizes, companheiros e mestres. Em muitas lojas há maiores graus, e são: arquitecto, mestre e outros semelhantes. Dos veteranos, isto é, dos graus mais elevados, escolhem-se os oficiais, que têm diversos títulos, como de secretário, irmão terrível, venerável e outros. As lojas pertencentes a um mesmo rito todas se comunicam entre si, e correspondem-se com uma loja-madre, cujo caporal, ou presidente, se chama grande oriente, e este envia a todas as suas instruções e oportunos regulamentos.


Os membros de uma classe celebram suas reuniões e realizam as suas funções separadamente das outras; daqui vem que os aprendizes não sabem, nem devem saber, o que fazem os companheiros, nem estes o que pertence aos mestres. Para conservar um tal sistema, os indivíduos da seita reconhecem-se entre si por alguns sinais recíprocos, e toques de mãos, e também por algumas palavras proferidas alternadamente, sílaba por sílaba: e assim cada uma das classes tem distintos sinais, toques, e palavras. Umas e outras mudam também segundo a variedade dos ritos das lojas.

De um grau sobe-se a outro, com intervalo de tempo. Muitas e complicadas são as cerimónias que se fazem para o recebimento, e respectivo acesso aos graus, que sempre têm lugar na loja. Em diversos livros impressos encontra-se o plano; (...) Ali há muito de ridículo, mas muito mais de superstição, de profanação: e de abuso das coisas sagradas. Três circunstâncias são aqui assinaladas principalmente. A primeira: a obrigação que contraem os indivíduos, de profundo e inviolável segredo, debaixo de um terrível juramento. A segunda: a cega obediência que prometem a qualquer ordem do seu superior. A terceira: uma incorporação e reunião entre eles, que, superando ainda os vínculos de uma natural fraternidade, um ocorre prontamente às necessidades do outro, em qualquer lugar, tempo, e circunstâncias.

Qual deva ser o resultado destas combinações, cada um de per si mesmo pode prevê-lo. Alguém que fez suas observações sobre o carácter dos seus componentes, e especialmente dos seus caporais, julga-os a todos ou ineptos em ciências, ou depravados nos costumes, ou incrédulos da verdadeira fé. Quem tiver conhecimento de algum, facilmente avaliará a importância desta reflexão. Nós, deixando de parte todas as especulações, falaremos de puro facto, e sem mistério. Por muitas denúncias voluntárias, de prisões, de testemunhas e outras apuradas notícias, que com os respectivos documentos se conservam em nossos arquivos, vê-se claramente que os seus ofícios de sociedade são mentirosos, suas especulações falsas; alguns professam uma descarada irreligião, e outros tratam de sacudir o jugo da subordinação e destruir as monarquias. Este é, indubitavelmente, o fim a que todas obedecem, porém nem a todas, nem a todos, nem a um mesmo tempo se comunica o grande segredo, sem que primeiro os caporais e directores tenham esquadrinhado bem o coração e regulado as inclinações de cada indivíduo. Antes procuram cativar-lhes os ânimos com a lisonja de descobertas portentosas ou podem remir o homem das suas misérias, concedendo-lhes o uso daquelas paixões, que permitem dar relevo a todo o infame prazer. Isto não pode causar admiração, sabendo-se que ali domina o partido democrático, que tem por fito atacar e destruir as monarquias.

É, portanto, bem recomendável a vigilância e zelo dos Romanos e Pontífices em ter condenado e proscrito esta sociedade. A santa memória de Clemente XII na sua Constituição, que começa In Eminenti, publicada aos 6 de Abril de 1738, fulminou sobre ela e seus respectivos adeptos excomunhão ipso facto incurrenda, sem alguma declaração e reservada ao mesmo Pontífice, Preter quam in mortis articulo... À pena espiritual juntou também a Constituição o terror das penas temporais, mandando todos os ordinários, superiores eclesiásticos e inquisidores da fé velar sobre tais sectários e castigá-los condignamente: Tam quam de haeresi vehementer suspectos.

Clamem a todo o gritar os incrédulos que isto foi um fanatismo da Religião. O amor e a observância dela, foi uma das causas que animou aquele sábio Pontífice a pensar de tal modo, vendo os gravíssimos danos que adviriam especialmente de uma reunião de pessoas de todas as seitas, e a importância de um juramento de profundo segredo, que só entre eles é conhecido; e viu com Cecílio Natel sobre Minúncio Félix, que honesta semper publico audent selera secreta sunt. Reflectiu que os conventículos sempre foram interditados por todas as leis, assim canónicas como civis, e que em qualquer domínio ou governo os reconhecem perniciosíssimos à tranquilidade pública e à segurança do Estado.






Desta forma procurou Clemente XII cuidar no bem universal de todo o mundo. Porém, nos seus estados fez ainda mais: quis que se publicasse, como se publicou, um édito com data de 14 de Janeiro de 1739, no qual, debaixo de irremissível pena de morte, proibiu reunir-se, escrever-se ou falar-se da Sociedade dos Livres-Muratores, como perniciosa, suspeita de heresia e sedição, sujeitando à mesma pena o que solicitasse ou intentasse ser nela admitido, ou lhe prestasse ajuda, favor, conselho ou casa; impõe finalmente a todos a obrigação de revelá-lo, sob pena de incorrer nas penas corporais e pecuniárias a arbítrio, em caso de transgressão.

O imortal Benedito XIV, animado do mesmo zelo, na ocasião do concílio universal, ano de 1750, compreendeu quanto se tinha propagado a desordem e o dano produzido pelos chamados pedreiros-livres, e soube-o com aquela certeza que lhe subministraram as sinceras confissões de muitos estrangeiros, os quais, passando a Roma para conseguir indulgências, recorreram a ele para obterem a absolvição da excomunhão fulminada na bula de seu predecessor. Este confirmou-a também e publicou-a de novo per extensum, como sua Constituição, que começa: Providas Romanorum Pontificum de 18 de Maio de 1751.

As potestades seculares, antes e depois, têm pensado do mesmo modo. Deixemos, pois, as rigorosas proibições feitas no ano de 1737 em Manheim, pelo sereníssimo Eleitor Palatino, em Viena, em 1743, em Espanha e Nápoles em 1751, em Milão em 1757, em Mónaco em 1784 e 1785, e também em outros tempos na Sabóia, Génova, Veneza, Ragusa, e outras. Não nos limitaremos só aos países apostólicos, mas também trataremos dos outros.

Por um irrefragável documento conservado nas actas do Santo Ofício, consta que a Porta Otomana, no ano de 1748, foi informada de que um francês criara, em Constantinopla, lojas de pedreiros-livres, isto em casa de um mercador inglês, tendo também convidado os turcos para nelas ingressarem. O capitão Baxá deu ordens terminantes para que a sociedade fosse encerrada, presos os seus adeptos e incendiada a casa. Tomada a tempo esta disposição, foi tal o terror dos sectários, que desbarataram imediatamente o mobiliário e nenhum deles falou mais em tal. Juntamente, foi intimidado o inglês dono da casa para que não tornasse a admitir, se a não queria ver reduzida a cinzas. A Porta Otomana informou do facto os embaixadores das cortes estrangeiras que estavam contentes com a tolerância das igrejas para uso da religião católica; foi também intimado o francês que era superior ou cabeça, para que saísse imediatamente da cidade, e de facto logo embarcou, sem mais se ouvir novas dele.

Parece que o que até aqui se tem dito é bastante para descobrir o disfarce debaixo do qual se quer esconder esta sociedade, e para todos se resolverem seriamente a livrar-se deste contágio.

Se acaso fica na incerteza do que até agora se tem exposto, ouvirá brevemente as coisas que, no presente processo, disse Cagliostro, ao qual não se pode negar um pleno conhecimento da matéria, como quem por tantos anos viveu entre os maçónicos e é considerado por eles como um génio sobrenatural.

Ele disse que são muitas as seitas em que está dividida a maçonaria, mas duas são as mais frequentes: a primeira chama-se da estreita observância, e pertence aos iluminados; a segunda da alta observância. Aquela professa uma absoluta incredulidade, obra magicamente, debaixo do especioso título de vindicar a morte do grão-mestre dos Templários, tendo principalmente por objecto a destruição total da religião católica e das monarquias. A outra, aparentemente, emprega-se em indagar os arcanos da Natureza para aperfeiçoar a arte hermética, especialmente na pedra filosofal; porém, a absoluta subordinação a seu superior e o vínculo do juramento do segredo, indicam que os seus fins são combater o estado e a tranquilidade pública.






Nesta segunda classe, confessou Cagliostro ter-se adscrito em Londres, e igualmente sua mulher, tendo ambos tido suas patentes; Cagliostro pagou a sua com cinco guinéus. Num mesmo dia foram admitidos aos três graus que compõem a loja, que vem a ser, como já se disse: aprendiz, companheiro e mestre, e receberam os arneses pertencentes ao ministério, isto é, mandil, faixa, estola, esquadro, compasso e outros mais. À mulher deram uma cinta ou liga, dizendo-lhe que era aquela a insígnia da ordem, e nela estavam escritas estas três palavras: união, silêncio, virtude, e lhe foi mandado que devia dormir aquela noite com ela, cingindo-a a si. Refere largamente Cagliostro as funções e cerimónias observadas na admissão aos ditos graus. Já dissemos que o plano anda impresso em vários idiomas (...). Antes do aceite, exigem-se algumas provas de valor do indivíduo que deve ser admitido. Nas que deu Cagliostro, duas foram capazes de mover, não sabemos se o enfado, se o riso. Primeiramente estava na sala uma corda atada de um lado a outro, sendo ele obrigado a dar um salto para, com a mão, se agarrar a ela, ficando assim obrigado por algum espaço de tempo; mas, como era pesado, isto custou-lhe, sentindo alguma dor e ficando-lhe a mão extensa. Depois taparam-lhe os olhos e deram-lhe uma pistola descarregada, mandando-lha carregar com pólvora e bala, o que fez; porém, quando ouviu que a devia disparar contra a testa, como era natural mostrou toda a repugnância. Foi-lhe então tirada com desprezo das mãos e levaram-no a ir prestar juramento. Na solenidade e importância deste, induziram-no a que descarregasse, como já lhe tinham mandado, a dita pistola, que em seguida lhe deram. Com efeito, descarregou-a, estando também com os olhos tapados, e sentiu o golpe na cabeça sem lhe fazer a menor lesão; ele observou, em outras admissões, que esta experiência era uma ficção, porque, quando se dá ao iniciando, pela segunda vez. a pistola, esta está descarregada, e quando vai dispará-la, outro dispara a carregada, e outro, com um ligeiro instrumento, dá um golpe na cabeça do vendado, que desta forma fica julgando que o tiro lhe acertou, admirando-se por ficar ileso.

A forma do juramento que pronunciou é a seguinte: Eu, José Cagliostro, em presença do grande arquitecto do Universo, e na de meus superiores, como também da respeitável sociedade em que me acho, obrigo-me a fazer tudo quanto me for mandado por eles, e portanto juro, debaixo das penas estabelecidas pelos ditos meus superiores, obedecer-lhes cegamente, sem perguntar o motivo, e de não revelar os segredos, nem por palavra nem por escrita, nem os arcanos que me forem comunicados (in José Bálsamo, Conde de Cagliostro, Hugin, 2001, pp. 39-44).

Continua


segunda-feira, 11 de abril de 2011

O Marquês de Pombal e o Terramoto

Escrito por Camilo Castelo Branco








«Se lessem este livro ["O Perfil do Marquês de Pombal"], diriam que não é assim que modernamente se escreve a história. Pode ser; mas a verdade é assim que se escreve. Factos, com os documentos na mão. Bosquejei a biografia dum homem feroz e não me esqueci de assinalar o maior número de acessórios e contingências que o fizeram tão cruel. Se ele podia ser melhor e fazer mais do que fez, diga-o a crítica: escusa, porém, de me observar que poderia ser pior, porque eu, quod absurdum, não creio».

Camilo Castelo Branco



Os pindaristas do marquês de Pombal, a meia volta, vêm com o terramoto a terreiro, como quem desembainha a melhor lâmina de Toledo. Pretendem, ao que parece, convencer-nos de que, sem Sebastião José de Carvalho, a terça parte de Lisboa, arrasada pelas convulsões e pelo incêndio, nunca mais se levantaria. Dão ao ministro uns ares míticos de Anfião que, ao toque da sua lira, arrastava as pedras que muito de compasso se iam dispondo na construção dos muros de Tebas. Eles sabem perfeitamente que as providências legisladas nesse desastre confluíram de diversas juntas civis, eclesiásticas e técnicas. Ouviram-se os alvitres de diversos indivíduos, e o primeiro consultado foi um a quem o rei perguntou: - O que há-de agora fazer-se? - «Enterrar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos» - respondeu o marquês de Alorna; mas o vulgo dos apologistas do marquês não permite que algum luso, tirante Sebastião de Carvalho, pudesse dar resposta tão ática e profundamente conceituosa.

O ministro na sua posição oficial fez o que lhe cumpria. Não fugiu de Lisboa. Nenhum dos seus colegas fugiu. Se fugisse, algum dos seus cooperadores seria investido da sua autoridade e do expediente que as circunstâncias aconselhavam a qualquer inteligência mediana. Permanecendo entre as ruínas, ou, mais literalmente, na barraca da Calçada da Ajuda, onde se não sentiam os grandes abalos, cumpriu o seu dever, demais a mais com a satisfeita complacência de quem nada perdera no terramoto. Nem havia termo médio no exercício das suas funções: ou ser aquilo que foi - um colaborador enérgico das providências, ou abandonar o posto e a responsabilidade.

Eu não me sinto muito penetrado de admiração pelas primeiras providências, de modo a considerá-las uma explosão de génio. Aquilo de fazer conduzir das províncias violentamente levas de operários para caboucarem nas ruínas - o cerco posto aos galegos fugitivos para os fazer trabalhar com o tagante à vista -, a tomadia dos cereais e outros víveres nas províncias, forçando os proprietários a vender por preços ínfimos o pão necessário para o seu custeio agrícola - estas medidas despóticas comovem menos que uns espectáculos que ninguém relembra com receio de desluzir a glória absoluta do marquês. Enquanto Sebastião de Carvalho, de luneta no olho, e as costas direitas no respalado da poltrona presidencial, assistia às conferências, viam-se por entre os escombros da casaria arrasada os párocos e as religiões salvando os moribundos e sepultando os mortos. D. João de Bragança, irmão do duque de Lafões, por entre o acervo do pedregulho, arrancou da morte muita gente entalada nos vigamentos abatidos. Sampaio, um monsenhor da Patriarcal, com as pessoas que lhe seguiram o exemplo, sepultou duzentos e quarenta cadáveres, e conduziu os feridos aos hospitais. Pelos arrabaldes de Lisboa andavam vários fidalgos com os seus médicos curando os feridos. Os mosteiros abriram espontaneamente as suas cercas para hospitais, e os frades davam aos feridos o seu pão e os seus desvelos de enfermeiros e consoladores. Os cónegos regrantes e os oratorianos receberam em S. Vicente e nas Necessidades muitas famílias desvalidas a quem sustentaram e abrigaram, nas suas cercas. Os filhos bastardos de D. João V recolheram no paço e no jardim de Palhavã mais de duas mil pessoas, que alimentaram e vestiram durante muitos meses. Outros fidalgos, nestes extremos de caridade, empenharam os seus haveres desfalcados pela desgraça comum. Parte do palácio dos Távoras no Campo Pequeno constituiu-o a marquesa em hospital de que ela foi a mais caridosa enfermeira. O enterro dos cadáveres que ameaçavam a conflagração da peste foi a providência suma a que, sem estímulos do ministro, acudiram os nobres e os prelados para darem exemplo à arraia-miúda que fugia com um prudente medo do azorrague pombalino, que activava as providências. As ordens expedidas com referência a hospitais não eram do ministro: eram dos homens técnicos, da junta de facultativos que superintendia nessa espécie, e comunicava ao ministério as suas deliberações. A IV Providência, que manda sair para vinte léguas distantes da corte os amancebados com a suas mancebas, essa, sim, não se compreende que um estadista português a concebesse sem ter no crânio, por transfusão, um pedaço de cérebro de Richelieu com outro pedaço encefálico de Colbert.


Cardeal Richelieu


O escopo deste degredo dos viciosos era apagar o raio da vingança divina sobre Lisboa por causa dos tais indisciplinados do Tridentino. Também mandou prender e degredar para Angola uns profetas, imbecilizados pelo terror, que andavam pelas ruas repetindo o que o patriarca João Manuel dizia nas pastorais: que por causa dos pecados da devassa Lisboa se abalara a terra - que fizessem penitência. A ordem que manda enforcar os ladrões estava no Livro V; e, se não estivesse, em tal conjuntura, qualquer aguazil de corregedor a proporia; mandar, porém, que os 200 ladrões enforcados estivessem suspensos nos patíbulos, às esquinas de Lisboa, até o tempo os consumir, foi um alvitre, sobre supérfluo, nocivo, porque aumentava as possibilidades da peste pela podridão dos cadáveres insepultos. As providências para desentulhos e outras operações concernentes ao desbarranco das ruínas, são do senado; e, quando fossem do ministro, nada têm que as recomende à admiração da posteridade. Os alvitres respectivos às freiras desenclaustradas, aos frades, ao culto, e às procissões penitenciárias promanaram do patriarcado.

O essencial da Providência XII são os Actos de sua Majestade para aplacar a ira divina. É o mesmo que faziam os tais profetas mandados para Angola. Estes pobres idiotas, como não tinham à sua devota disposição as gargantas dos cónegos, cantavam eles em notas gemebundas a sua penitência.

Por escassez de capital não tinha razão de afligir-se o ministro. Havia abundância de dinheiro e de víveres. O erário régio não se tinha perdido. O cofre dos orfãos que estava em S. Roque passou para o erário. Os cofres da Casa da Moeda, dos três Estados, e dos Defuntos e Ausentes tiraram-se das ruínas. De Inglaterra, no mês imediato ao da catástrofe, veio, como brinde de Jorge II, em seis navios de guerra, um generoso donativo. Os anglófobos, quando verberam a pérfida Albião, fingem que não sabem o facto humilhante de ter recebido Portugal, mediante Sebastião José de Carvalho, a quem o presente foi dirigido -, 270 000 cruzados, 200 000 alqueires de farinha, 200 000 de trigo, 6 000 barricas de carne salgada, 4 000 de manteiga, 11 000 de arroz, 5 000 sacas de bolacha, e toda a espécie de instrumentos de ferro para desentulhar e construir, assim como milhares de sapatos (Relações Políticas e Diplomáticas de Portugal, tom. XVIII, p. 363). O ministro de França, por esse tempo, anunciava ao duque de Choiseul que tinham chegado de Espanha dous carros de dinheiro.

Foram rejeitadas as ofertas de França, excepto arquitectos e alvenéis para a reedificação dos estabelecimentos públicos. Com superabundância de dinheiro, de braços, de engenheiros peritíssimos como Carlos Mardel, Eugénio dos Santos e Manuel da Maia, e de funcionários inteligentes e activos em todos os distritos da administração, realmente a estatura de Sebastião José de Carvalho, vista a olho nu, pouco se avantaja à dos seus cooperadores na fácil obra de remover entulhos com os braços do exército, e reedificar prédios à custa dos seus donos. Dizem que dera um novo feitio à cidade. Pudera não dar! Maravilha seria que a reconstruísse pelo traçado em que o terramoto a encontrou! Estranhas calinadas.


Lisboa tinha sofrido desde 1309 até 1755 onze terramotos mais ou menos destruidores. No de 1551 arrasaram-se duzentas casas e morreram duas mil pessoas. No de 1597 submergiu-se o Alto do Monte de Santa Catarina com três ruas e cento e dez edifícios. Mas o de Janeiro de 1531 é comparável ao de 1755, porque abateram mil e quinhentas casas e não se calculou os milhares de vítimas. Pois os cronistas do reinado de D. João III, entendendo que os ministros não mereciam a imortalidade pelo facto de cumprirem o seu dever, providenciando no enterro dos mortos e no remédio dos vivos, escassamente relatam o sucesso. Garcia de Resende deixou na sua Miscelânea a relação poética do grande terramoto, em que nem sequer alude a Pedro de Alcáçova, o Pombal daqueles tempos (...).

Por mais calamitosas provações passaram Lisboa e os ministros a quem corria a obrigação de as remediar. Houve pestes mais devastadoras que os terramotos. Na de 1569 morriam no decurso de alguns meses entre quinhentas e seiscentas pessoas por dia. Os operários caiam mortos pela fome. Já não havia terra para sepulturas. Parte dos sessenta mil que morreram enterraram-se nas lojas das próprias casas. Enquanto o rei em Sintra prometia levantar um pomposo templo a D. Sebastião, advogado da peste, Diogo Lopes de Sousa, governador da Casa do Cível, e D. Martinho Pereira, vedor da fazenda, esforçavam uma inútil coragem, na cidade, a pé firme, no âmago do incêndio da peste, abrindo casas de saúde e tirando recursos prodigiosos, sem violências nem alcavalas, do meio da miséria geral. Dez anos depois, o guarda-mor da saúde Diogo Salema providenciou contra outro flagelo desolador, que matou em Lisboa quarenta mil pessoas, vinte mil em Évora e cem mil em todo o Reino. Luta desabrida com a fatalidade irreparável devia ser a desses homens chamados a remediar infortúnios como se deparam nos quadros desses dias de angústia! Um jesuíta, enfermeiro dos empestados, o padre Manuel Fernandes, pintou um desses quadros com esta pungente simplicidade: Cortava o coração ver os filhinhos depois da morte das mães irem para o degredo (quarentena) com seus crucifixos na mão, lamentando sua orfandade. Por outra parte ir ferida, caminhando para a casa de saúde, a se curar, uma viúva com seis criancinhas, de longe chorando após ela, e, quando a pobre ia caminhando aos poucos pela força do mal, se assentava para descansar, pondo os olhos naquele orfão rebanho, quando o deixava só entregue nos braços da divina Providência, aconteceu com os olhos fitos em tão lamentável objecto expirar; e, assim, era consolação para as mães morrerem-lhe os filhos primeiro, por não deixarem tanto desamparo. E às vezes se achavam as criancinhas vivas mamando nos peitos das mães mortas (1).

Isto é que eram horrendos conflitos! Os ministros incumbidos de providenciarem contra um inimigo incessante e implacável deviam de ver-se em transes bem mais apertados que Sebastião de Carvalho, que tinha às suas ordens milhares de contos e milhares de braços para desosbtruir as rimas dos cadáveres, terraplenar os alicerces da nova cidade, mandar aos proprietários dos terrenos que edificassem de novo, se quisessem, e vender por conta do tesouro os chãos cujos proprietários não apareciam reclamando. Os dinheiros do erário eram tão de sobra que Sebastião José de Carvalho os emprestava aos seus amigos que queriam edificar. O quarteirão de casas que os Bertrands possuíram e legaram aos seus herdeiros na Rua Garrett foi assim construído. O primeiro Bertrand veio pobre para Portugal, enriqueceu protegido por Sebastião José de Carvalho, administrador liberalíssimo do erário, ao mesmo tempo que os fidalgos despendiam as suas casas quebrantadas no amparo das famílias indigentes. Não sei se Carvalho ganhou com o terramoto; perder é que decerto não perdeu. A sua casa da Rua Formosa ficou intacta.

O parvoeirão do rei disse que era isso uma prova de que Deus protegia o seu ministro; e o conde de Óbidos respondeu: - Certo é, senhor; mas semelhante protecção acharam também em Deus os moradores da Rua Suja.


(1) Padre António Franco, Imagem da Virtude em o Noviciado de Coimbra, p. 589.