segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Gnósticos e revolucionários

Escrito por Olavo de Carvalho





Eric Voegelin



O Globo, 21 de julho de 2001

No começo do século XIX, muitos historiadores das religiões estavam conscientes dos elos de continuidade entre a heresia gnóstica dos primeiros séculos da Era Cristã e as filosofias iluministas e românticas. Por uma triste ironia, justamente no momento em que essas filosofias, logo a seguir, se transmutaram em movimentos ideológicos de massas, a consciência daqueles elos desapareceu do horizonte intelectual e o fenômeno totalitário resultante desses movimentos não pôde ser adequadamente compreendido.

Coube ao filósofo alemão Eric Voegelin (1901-1985) o mérito de haver não somente redescoberto a inspiração gnóstica das ideologias totalitárias, mas criado os instrumentos intelectuais para enquadrá-la numa compreensão mais geral da história.

Malgrado a alucinante variedade dos movimentos gnósticos e as diferenças entre suas formulações teóricas, há no fundo de todos eles a unidade de uma cosmovisão, ou no mínimo de um sentimento cósmico comum: a vivência do universo como lugar hostil e do homem como criatura jogada no meio de uma máquina absurda e incompreensível. Em última instância, é a rejeição do julgamento que Deus fez da Sua própria criação no último dia do Gênesis, quando Ele olhou o cosmos e “viu que era bom”. Para os gnósticos, a ordem cósmica é essencialmente má e ao homem não resta senão o caminho da fuga ou da revolta. Ao longo dos oito volumes de sua “History of political ideas” e dos cinco da obra inacabada “Order and History” (ambas publicadas pela University of Missouri Press), Voegelin demonstrou que dessa visão inicial emergiram os desenvolvimentos mais variados, desde a total rejeição da vida mediante o ascetismo à outrance dos cátaros, passando pelo sonho dos alquimistas elisabetanos de “corrigir a natureza”, até as utopias políticas modernas da Revolução Francesa e dos movimentos comunista, nazista e fascista, com suas ambições prometéicas de sociedade planejada, Estado onipotente e felicidade coletiva a ser alcançada por meio de um morticínio redentor.

O gnosticismo, assim compreendido, não é só uma revolta contra o catolicismo em particular, mas contra toda visão tradicional da ordem social como expressão da ordem divina da alma e do cosmos. A transformação de uma corrente esotérica em poderoso movimento de massas que dominou a história dos dois últimos séculos observou-se principalmente no Ocidente, em razão das guerras religiosas que, a partir do século XVI, romperam a unidade da sociedade cristã e eliminaram a religião como poder público, instituindo o moderno Estado leigo que, erigido sobre um vácuo espiritual, acabou por se revelar impotente para resistir à invasão dos movimentos gnósticos de massa. Refluindo para o Oriente, esses movimentos devastaram ali as religiões tradicionais (ortodoxa, judaica, budista, confuciana e islâmica, principalmente), manifestando da maneira mais patente a sua natureza universalmente antiespiritual e não apenas anticatólica em especial.

Mas é inevitável que toda grande descoberta no reino das idéias venha seguida de perto por alguma versão paródica que ao mesmo tempo a imita e inverte o seu sentido.






Assim, não demoraram a aparecer, no ambiente católico de extrema-direita, doutrinários que, explorando indícios fortuitos de semelhanças entre algumas idéias gnósticas e elementos de doutrina judaica, islâmica, budista, etc., apresentaram uma nova versão da revolução gnóstica. Esta já não seria uma aberração voltada contra toda a visão normal e tradicional, mas a aliança dos gnosticismos do Oriente e do Ocidente numa conspiração universal contra a Igreja Católica.

Nunca ocorreu a esses gênios da parasitagem intelectual perguntar-se por que, na guerra de todos contra a Igreja Católica, esta foi, das religiões tradicionais, a que menos vítimas deu à sanha dos revolucionários gnósticos. Mesmo diante dos horrores da perseguição sofrida na França, no México, na Espanha, na Polônia, em Cuba; mesmo diante da evidência de tantos “Catholic martyrs of the twentieth century” meticulosamente coletada pelo historiador Robert Royal (New York, Crossroad, 2000), não há como nivelar, em números, o morticínio dos católicos ao dos ortodoxos, judeus, muçulmanos e budistas sacrificados na Rússia, na Alemanha, na China, no Tibete e não sei mais onde pela máquina genocida da revolução gnóstica. A religião chinesa, em particular, pode-se considerar hoje virtualmente expulsa da história pela brutal doutrinação materialista que bloqueou o acesso de mais de um bilhão de seres humanos às noções religiosas e metafísicas mais elementares.

Ora, essas religiões não-católicas são precisamente aquelas que, segundo a caricatura extremista da teoria de Voegelin, constituiriam, mediante uma aliança com o materialismo militante, o outro braço da revolução gnóstica voltada contra a Igreja Católica. Se elas fossem realmente isso, então restaria explicar por que, em vez de coordenar-se num assalto conjunto a Roma, elas escolheram primeiro destruir-se a si mesmas.

Não, a Igreja Católica não é o único, nem, hoje em dia, o principal alvo do ataque gnóstico. Ela sofreu muito, está muito dividida e corroída pelos vermes gnósticos da “teologia da libertação”. Mas ela é — ainda — uma sólida fortaleza contra a destruição do espírito tradicional e da visão normal do homem no cosmos. Tão importante é o seu papel estratégico, que mesmo ocasionais hesitações da sua parte bastaram para dar ao inimigo a oportunidade de avanços e conquistas formidáveis, como se viu na ascensão do nazismo, que ela poderia ter impedido se agisse em tempo, ou nos espetaculares sucessos que o comunismo obteve nas próprias fileiras católicas durante as décadas de 60 e 70, na esteira das confusões paralisantes que se seguiram ao Concílio Vaticano II. Jogar a Igreja contra as demais religiões massacradas pela fúria das ideologias totalitárias é fazer causa comum com o inimigo de toda religião e de toda espiritualidade. É ressuscitar em escala universal os conflitos inter-religiosos que, no começo dos tempos modernos, só puderam ser apaziguados mediante o advento do Estado leigo que abriu as portas à invasão das ideologias gnósticas. Muitos podem colaborar com isso por inocência e boa-fé, pois o amor sincero à Igreja nem sempre vem acompanhado de uma visão abrangente e adequada da história. Mas outros sabem perfeitamente bem para quem trabalham e aonde querem chegar. Quando ouvir um desses, caro leitor, não se deixe iludir por pretextos piedosos e por uma linguagem de sacristia: ele é a voz da velha revolta gnóstica que, disfarçada de devoção cristã, tenta dividir para reinar.



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João Paulo II



quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Comunismo e Terrorismo

Escrito por Rémi Kauffer





Ivan IV, o Terrível



A Opríchnina por Nicolai Nevrev. Os últimos momentos do boiardo Feodorov, preso por traição. Para zombar de suas supostas ambições do título do Czar, o nobre recebeu os trajes de Czar antes da execução.



Ivan IV abraçando seu filho, depois de o ter morto num ataque de raiva (pintura de Elya Repin).



«Quanto mais Ivan oprimia o país, mais sentia que era odiado. Quanto mais se sentia odiado, mais determinado estava a descobrir quem conspirava contra a sua vida. A ansiedade impedia-o de dormir e via maus presságios por todo o lado. Moscovo já não era um local seguro e Ivan mudou-se novamente para Aleksandrovskaia Sloboda, para um palácio defendido com fossos e muralhas. O interior do sinistro palácio reflectia os quatro aspectos diferentes da personalidade de Ivan. Alguns dos quartos estavam soberbamente decorados, outros faziam lembrar celas monásticas e, por fim, os quartos subterrâneos, estavam divididos em várias masmorras.

Delirante de fervor piedoso, Ivan escolheu os 300 Oprichnik mais agressivos e instalou-os no palácio, que transformou num mosteiro. Aqueles homens, anunciou ele, seriam os seus monges, e ele seria seu abade. Todos os irmãos usavam uma sotaina preta sobre as vestes incrustadas de ouro. Ivan acreditava sinceramente ter criado uma nova ordem monástica.

Seguiam um horário rígido, que incluía um serviço de quatro horas, o almoço e uma curta sesta. Em seguida, Ivan e os seus homens visitavam as masmorras para uma tortura vespertina e para as execuções. Celebravam regularmente missas rituais seguidas por orgias de violação e tortura. Frequentemente, Ivan actuava como mestre de cerimónias em que, com tenazes quentes e bem afiadas, arrancava as costelas das vítimas pelo peito. A licenciosidade embriagada alternava com actos apaixonados de penitência. Depois de se arrojar ao chão diante do altar com tanta veemência que a testa lhe sangrava e ficava coberta de cicatrizes, Ivan erguia-se e lia sermões acerca das virtudes cristãs aos seus embriagados assistentes, enquanto durante as pantagruélicas sessões que se seguiam aos sermões, eram encenados entretenimentos para o divertir. Maliuta-Skuratov, um dos mais cruéis e mais devassos da irmandade, obrigava aterrorizadas camponesas nuas, de cabelos ao vento e seios a baloiçar, a caçar galinhas enquanto os Oprichnik disparavam setas. Após uma pequena sesta, Ivan voltava à Igreja para rezar. Elevando a sua alma, ouvia Deus sussurrar-lhe ao ouvido os nomes das próximas vítimas a sacrificar. Era de joelhos, entre orações, que transmitia as suas ordens sangrentas.

Aos 34 anos, Ivan tornara-se um símbolo de terror. As suas fúrias tornavam-se mortíferas através de um bastão de madeira cuja ponta de aço usava para mutilar ou matar. Costumava chicotear quem o ofendesse. O príncipe Boris Telupa foi torturado com um comprido e afiado pau que lhe entrou pela parte de baixo do corpo e saiu pelo pescoço, tendo sobrevivido 15 horas durante as quais falou com a mãe, que fora trazida para assistir à cena. Após a morte do filho, a mãe foi baleada e os cães esfomeados do czar devoraram o cadáver. Ninguém estava imune à maldade de Ivan. O seu tesoureiro, Nikita Funikov, foi cozido num caldeirão. As alucinações de Ivan eram tão extremas que, em 1567, pediu asilo político à rainha Isabel I, oferecendo-se simultaneamente para casar com ela».

Miranda Twiss («Os Grandes Monstros da História»).


«Ao longo de todo o século XX, a reflexão sobre a violência revolucionária foi dominada pela experiência fundadora da Revolução Francesa, a qual conheceu, em 1793-1794, um episódio de violência intensa que adoptou três formas principais. A mais selvagem surgiu com as "matanças de Setembro", durante as quais mais de mil pessoas foram assassinadas em Paris por amotinados, sem que tivesse havido qualquer intervenção governamental ou de qualquer partido. A mais conhecida baseava-se na instituição do Tribunal Revolucionário, dos Comités de Vigilância (de delação) e da guilhotina, que enviaram para a morte 2625 pessoas em Paris e 16 600 em toda a França. Oculto durante muito tempo, o terror praticado pelas "colunas infernais" da República tinha por missão liquidar Vendeia, fazendo dezenas de milhar de mortos entre uma população desarmada. Estes meses de terror mais não foram, no entanto, do que um episódio sangrento, que se inscreve como um momento numa trajectória de mais longa duração, simbolizada pela criação de uma república democrática, com a sua Constituição, a sua Assembleia e os seus debates políticos. Quando a Convenção se afirmou, Robespierre foi derrubado e o Terror acabou.




























Maria Antonieta





Brasão de Maria Antonieta














François Furet mostra-nos, no entanto, como surgiu então uma certa ideia de Revolução, inseparável de medidas extremas: "O Terror é o governo do medo, que Robespierre teoriza como governo da virtude. Criado com a finalidade de exterminar a aristocracia, o Terror torna-se um meio de submeter os malvados e combater o crime. É por isso mesmo, um aliado da Revolução, inseparável desta porque só ele permite a construção futura de uma República de cidadãos. [...]  Se não é ainda possível a existência de uma República de cidadãos livres, é porque os homens, pervertidos pela história passada, são maus; através do Terror, a Revolução, essa história inédita, inteiramente nova, criará um homem novo".

Sob certos aspectos, o Terror prefigurava a atitude dos bolcheviques - a manipulação das tensões sociais pela facção jacobina, a exacerbação do fanatismo ideológico e político e a condução de uma guerra de extermínio contra um campesinato revoltado. Robespierre colocou incontestavelmente a primeira pedra no caminho que mais tarde havia de conduzir Lenine ao terror. Ou não afirmou ele na Convenção, quando da votação das leis do Prairial: "Para punir os inimigos da Pátria, é suficiente saber da sua identidade. Não se trata de castigá-los, mas de destruí-los"?

[...] Desde o início do século que, no seio da Internacional, se distinguia uma ala extremista à qual pertencia a facção mais dura dos socialistas russos, os bolcheviques, liderados por Lenine. Embora ligados à tradição europeia do marxismo, os bolcheviques mergulhavam também as suas raízes no terriço do movimento revolucionário russo. Ao longo do século XIX, este último manteve uma estreita afinidade com uma violência minoritária, cuja primeira expressão radical se deve ao famoso Serguei Netchaiev, no qual Dostoievski se inspirou para pintar Piotr Vierkhovienski, personagem do revolucionário do seu famoso romance Os Demónios; em 1869, Netchaiev redigiu um Catecismo do Revolucionário, onde se definia: "Um revolucionário é um homem antecipadamente perdido; não tem interesses particulares, negócios privados, sentimentos, ligações pessoais, bens, e nem sequer um nome. Tudo nele é totalmente absorvido por um único interesse que exclui todos os outros, por um único pensamento, por uma paixão - a revolução. No seu íntimo, não apenas por palavras mas também por actos, rompeu todos os laços com a ordem pública, com todo o mundo civilizado, com todas as leis, conveniências, convenções sociais e regras morais do mundo em que vive. O revolucionário é um inimigo implacável desse mundo e só continuará a viver para mais seguramente o destruir".

Em seguida, Netchaiev especificava os seus objectivos: "O revolucionário não se integra no mundo político e social, no mundo dito culto, e só lá vive com a esperança da sua mais completa e rápida destruição. Nunca será um revolucionário se mostrar compaixão seja pelo que for, neste mundo". E, imediatamente, visiona a acção. "Toda esta sociedade imunda deve ser dividida em duas categorias. A primeira compreende os condenados à morte imediata. [...] A segunda deverá abranger os indivíduos aos quais a vida é concedida provisoriamente, a fim de que, através dos seus actos monstruosos, incitem o povo à insurreição inelutável".

Netchaiev teve seguidores. A 1 de Março de 1887, deu-se um atentado contra o czar Alexandre III; falhou, mas os seus autores foram presos; entre eles contava-se Alexandre Ulianov, irmão mais velho de Lenine, que foi enforcado juntamente com quatro dos seus cúmplices. O ódio de Lenine por este regime estava profundamente enraizado e foi aliás Lenine pessoalmente quem, à revelia dos membros do Bureau Político, decidiu e organizou o assassínio da família imperial dos Romanov, em 1918.









Grigori Rasputin




Príncipe Félix Yussupov, participante na morte de Rasputin.




Rasputin: post-mortem











Na opinião de Marin Malia, este acto de violência por parte de uma facção da intelligentsia, "regresso imaginário à Revolução Francesa, marcou a chegada à cena mundial do terrorismo como táctica política sistematizada (muito diferente do terrorismo do atentado solitário). E foi assim que a estratégia populista da insurreição vinda das bases (massas), conjugada com o terror vindo de cima (das elites que as guiavam), conduziu a Rússia a uma legitimação da violência política que ultrapassava a legitimação inicial dos movimentos revolucionários da Europa Ocidental, de 1789 a 1871".

Esta violência, marginal, alimentava-se todavia da violência que ao longo dos séculos atravessou a vida da Rússia e que, como sublinha Hélène Carrère d'Encausse no seu livro Le Malheur Russe: "Este país, no seu infortúnio sem par, surge como um enigma aos olhos dos que investigam o seu destino. Foi ao tentar esclarecer as origens profundas deste infortúnio secular que um vínculo específico nos pareceu ligar - sempre para o pior - a conquista ou a conservação do poder e o uso do assassínio político, individual ou colectivo, real ou simbólico. [...] Esta longa tradição mortífera formou sem dúvida alguma uma consciência colectiva onde a esperança de um universo político pacificado não tem lugar".

O czar Ivan IV, cognominado "o Terrível", não tem ainda treze anos quando, em 1543, manda o seus cães despedaçarem o príncipe Chuiski, seu primeiro-ministro. Em 1560, a morte da mulher lança-o numa fúria vingativa; vê em cada pessoa um potencial traidor, extermina, em círculos concêntricos, todos os próximos dos seus inimigos reais ou imaginários. Cria uma guarda de corpo, a opritchnina, que tem todos os poderes e exerce o terror individual e colectivo. Em 1572, liquida os membros do opritchnina, antes de assassinar o seu próprio filho e herdeiro. E é durante o seu reinado que se institui a servidão dos camponeses. Pedro o Grande não se mostra mais brando, nem com os inimigos declarados da Rússia, nem com a aristocracia, nem com o povo; e também ele assassinou com as próprias mãos o seu filho e herdeiro.

De Ivan a Pedro, a Rússia conheceu um dispositivo específico que ligava a vontade de progresso emanante de um poder absoluto a uma servidão cada vez mais acentuada do povo e das elites ao Estado ditatorial e terrorista. Vassily Grossman escreveu a propósito da abolição da servidão, em 1861: "Este acontecimento, como o século seguinte veio demonstrar, foi ainda mais revolucionário do que o advento da Grande Revolução de Outubro. Este acontecimento abalou os alicerces milenares da Rússia, alicerces em que nem Pedro nem Lenine tocaram: a sujeição do progresso à escravatura". E, como sempre, só foi possível manter esta escravatura durante séculos através da aplicação contínua de um alto grau de violência permanente.

Tomas Masaryk, um homem de Estado de grande cultura, fundador da República checoslovaca em 1918, grande conhecedor da Rússia revolucionária por lá ter vivido entre 1917 e 1919, estabeleceu imediatamente a relação entre as violências czarista e bolchevique. Em 1924, escrevia: "Os Russos, os bolcheviques e os outros, são filhos do czarismo. Foi dele que receberam, durante séculos, a educação e a formação. Conseguiram suprimir o czar, mas não acabaram com o czarismo. Continuam a usar o uniforme czarista, ainda que ao avesso. [...] Os bolcheviques não estavam preparados para uma revolução administrativa, positiva, mas apenas para uma revolução negativa. Quer isto dizer que, por fanatismo doutrinal, pobreza de espírito e falta de cultura, cometeram um grande número de destruições supérfluas. Censuro-lhes especialmente o facto de, a exemplo dos czares, terem um verdadeiro prazer em matar".

Os Romanov visitando um regimento durante a Grande Guerra.



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Esta cultura da violência não era própria dos meios do poder. Quando as massas camponesas se revoltavam, a matança dos nobres e o terror selvagem estavam na ordem do dia. Duas destas revoltas deixaram marca na memória russa: a de Stepan Razin, entre 1667 e 1670 e, sobretudo, a de Pugatchev, que, entre 1773 e 1775, encabeçou uma vasta insurreição camponesa, fez tremer o trono de Catarina a Grande e deixou um rasto sangrento ao longo de todo o vale do Volga, antes de ser preso e executado em condições atrozes - esquartejado, cortado em pedaços e lançado aos cães.

A acreditar em Máximo Gorki, escritor, testemunha e intérprete da miséria russa anterior a 1917, esta violência emanava da própria sociedade. Em 1922, ao mesmo tempo que reprova os métodos bolcheviques, redigiu um longo texto premonitório:

"A crueldade - eis o que toda a minha vida me espantou e atormentou. Onde se encontra a origem da crueldade humana? Reflecti muito a este respeito e não compreendi, nem nunca hei-de compreender. [...] Hoje, depois da terrível demência da guerra na Europa e dos acontecimentos sangrentos da revolução, [...] devo salientar que a crueldade russa não parece ter diminuído; dir-se-ia que as suas formas não se alteram. Um analista do princípio do século XVII conta que no seu tempo se praticavam estas torturas: 'A uns, enchiam-lhes a boca de pólvora e deitavam-lhe fogo; a outros, introduziam-lhes a pólvora por baixo. Furavam os seios das mulheres e, passando cordas através das feridas, penduravam-nas'. Em 1918 e 1919, fazia-se o mesmo no Don e no Ural: introduziam no ânus de um homem um cartucho de dinamite e faziam-no explodir. Julgo ser exclusivo do povo russo - como o sentido de humor o é dos ingleses - o sentido de uma crueldade especial, uma crueldade de sangue-frio, como que desejosa de experimentar os limites da resistência humana ao sofrimento e de estudar a persistência e a estabilidade da vida. Sente-se na crueldade russa um refinamento diabólico; há nela qualquer coisa de subtil, de requintado. Não é possível explicar esta particularidade usando palavras como psicose ou sadismo, palavras que, no fundo, nada explicam. [...] Se estes actos de crueldade fossem apenas a expressão da psicologia pervertida dos indivíduos, poderíamos nem sequer falar dela: seria da alçada do psiquiatra e não do moralista. Mas aqui refiro-me apenas ao divertimento colectivo pelo sofrimento. [...] Quais são os mais cruéis? Os Brancos ou os Vermelhos? Provavelmente, tanto uns como os outros, porque todos são russos. De resto, nesta questão de grau de crueldade, a história responde claramente: o mais activo, é o mais cruel".

[...] A Guerra Mundial e a tradicional violência russa permitem, é certo, compreender melhor o contexto no qual os bolcheviques chegaram ao poder; não explicam, no entanto, o caminho extremamente brutal que adoptaram logo de início e que contrastava singularmente com a revolução iniciada a 17 de Fevereiro, a qual tinha nos seus começos um carácter largamente pacífico e democrático. O homem que impôs esta violência, assim como impôs ao seu Partido a tomada do poder, foi Lenine.

Lenine instaurou uma ditadura que depressa se revelou terrorista e sanguinária. A violência revolucionária deixou então de aparecer como uma violência reactiva, reflexo de defesa contra as forças czaristas desaparecidas havia meses, mas como uma violência activa, que despertou o velho hábito russo da brutalidade e da crueldade e atiçou a violência latente da revolução social. Embora o Terror Vermelho só tenha sido "oficialmente"inaugurado a 2 de Setembro de 1918, existiu um "terror antes do terror"; e a partir de Novembro de 1917, Lenine dedicou-se a organizar o terror, e isto na ausência total de qualquer manifestação de oposição por parte dos outros partidos ou das diferentes componentes da sociedade. No dia 4 de Janeiro, dissolveu a Constituição, eleita por sufrágio universal - pela primeira vez na história da Rússia -, e mandou disparar sobre os seus defensores que protestavam na rua.

















Esta primeira fase terrorista foi imediatamente denunciada, com grande vigor, por um socialista russo, o chefe dos mencheviques, Yuri Martov, que, em Agosto de 1918, escrevia: "Desde o momento em que conseguiram chegar ao poder, e tendo já abolido a pena de morte, os bolcheviques começaram a matar. A matar os prisioneiros da guerra civil, como fazem todos os selvagens. A matar os inimigos que se renderam após o combate, contra a promessa de que seriam poupados. [...] Depois destas matanças organizadas ou toleradas pelos bolcheviques, o próprio poder assume a tarefa de liquidar os seus inimigos. [...] Depois de terem exterminado sem julgamento dezenas de milhares de indivíduos, os bolcheviques levam a cabo as execuções... dentro das normas. Foi assim que criaram um novo Supremo Tribunal Revolucionário para julgar os inimigos do poder soviético".

Martov tinha sombrios pressentimentos: "A besta lambeu o sangue quente do homem. A máquina de matar pessoas pôs-se em marcha. MM. Medvedev, Bruno, Peterson, Kareline - os juízes do tribunal revolucionário - arregaçaram as mangas e tornaram-se magarefes. [...] Mas o sangue clama por sangue. O terror político instaurado pelos bolcheviques em Outubro espalhou sobre a Rússia os seus sangrentos vapores. A guerra civil contribui com as suas atrocidades, rebaixando os indivíduos à selvajaria e à ferocidade; cada vez mais se esquecem os grandes princípios de verdadeira humanidade, desde sempre inerentes à doutrina do socialismo". Martov invectiva Radek e Rakovsky, dois socialistas que tinha aderido aos bolcheviques, um judeu polaco, o outro romeno-búlgaro: "Vieram a nossa casa para cultivar a nossa antiga barbárie, usada pelos czares, para incensar o velho altar russo do assassínio, para levar a um grau ainda desconhecido, mesmo no nosso selvagem país, o desprezo pela vida alheia, para finalmente organizarem a obra panrussa da carrascocracia. [...] O carrasco voltou a ser a figura central da vida russa!"

Contrariamente ao Terror da Revolução Francesa que, com excepção da Vendeia, só atingiu uma pequena faixa da população, o terror de Lenine visava todas as formações políticas e todas as camadas da população: nobres, grandes burgueses, militares, polícias, mas também democratas-constitucionais, mencheviques, socialistas-revolucionários, e até o povo em geral, camponeses e operários. Os intelectuais foram especialmente maltratados, e a 6 de Setembro de 1919, após a detenção de várias dezenas de conhecidos cientistas, Gorki dirige a Lenine uma carta furiosa: "Para mim, a riqueza de um país, a força de um povo, mede-se pela quantidade e qualidade do seu potencial intelectual. A revolução só tem sentido se favorecer o crescimento e o desenvolvimento deste potencial. Os homens de ciência devem ser tratados com a máxima cortesia e respeito. Mas nós, para salvarmos a pele, cortamos a cabeça ao povo, destruímos o nosso cérebro".

A brutalidade da resposta de Lenine esteve à altura da lucidez da carta de Gorki: "Faríamos mal assimilando as 'forças intelectuais' do povo às 'forças' da intelligentsia burguesa. [...] As forças intelectuais dos operários e dos camponeses crescem e amplificam-se na luta para derrubar a burguesia e os seus acólitos, os pequenos intelectuais miseráveis, lacaios do capitalismo, que se pretendem o cérebro da nação. Na realidade, não é um cérebro, é merda". Esta anedota sobre os intelectuais é um primeiro indicativo do profundo desprezo que Lenine votava aos seus contemporâneos, incluindo os espíritos mais eminentes. Do desprezo, depressa passou ao assassínio.

[...] Generalizando o seu pensamento, Trotski fala da "implacável guerra civil que grassa por todo o mundo". Considera que o planeta entrou numa época "em que a luta política se transforma rapidamente em guerra civil", em que cedo se confrontarão apenas "duas forças: o proletariado revolucionário, liderado pelos comunistas, e a democracia contra-revolucionária, encabeçada por generais e almirantes". [...] Por outro lado, Trotski, como Lenine, tem uma forte tendência para generalizar a importância do caso russo, ele próprio interpretado de uma forma caricatural. Os bolcheviques estão convencidos de que, pelo facto de ter-se desencadeado na Rússia - largamente por culpa deles próprios - uma guerra civil, ela vai - e deve - estender-se à Europa e ao mundo inteiro. É todavia sobre este duplo erro de interpretação que, durante décadas, vai ser construída a justificação do terror comunista.















Baseado nestas premissas, Trotski tira conclusões definitivas: "Podemos e devemos explicar que durante a guerra civil exterminamos os guardas brancos para que eles não exterminem os trabalhadores. Portanto, o nosso objectivo não é suprimir vidas humanas, mas, pelo contrário, preservá-las. [...] O inimigo deve ser posto na impossibilidade de fazer mal, o que, em tempo de guerra, só pode traduzir-se na sua eliminação. Na revolução, como na guerra, trata-se de quebrar a vontade do inimigo, de forçá-lo a capitular aceitando as condições do vencedor. [...] A questão de saber a quem vai pertencer o poder neste país, ou seja, se a burguesia deve viver ou morrer, não se resolverá pela invocação dos artigos da Constituição, mas pelo recurso a todas as formas de violência". Encontramos na escrita de Trotski as expressões que fundamentam, em Ludendorff, a concepção da guerra total. Os bolcheviques, que se julgavam grandes inovadores, eram na realidade dominados pela sua época e pelo ultramilitarismo ambiente.

[...] A 26 de Fevereiro de 1922, a imprensa publicou um decreto do governo ordenando "a confiscação imediata nas igrejas de todos os objectos preciosos de ouro ou de prata e de todas as pedras preciosas que não sirvam directamente para o culto. Estes objectos serão entregues aos orgãos do Comissariado do Povo para as Finanças, que os transferirá para o fundo da Comissão Central de Ajuda aos Famintos". As operações de confiscação iniciaram-se nos primeiros dias de Março e foram acompanhadas por numerosos incidentes entre os destacamentos encarregados de retirar os tesouros das igrejas e os fiéis. Os mais graves ocorreram, a 15 de Março, em Chuia, uma pequena cidade industrial da província de Ivanovo, onde a tropa disparou contra a multidão de fiéis, matando uma dezena de pessoas. Lenine aproveitou esta chacina para reforçar a campanha anti-religiosa.

Numa carta endereçada aos membros do Bureau Político a 19 de Março de 1922, explicitava, com o cinismo que o caracterizava, como a fome podia ser aproveitada para "atingir mortalmente o inimigo na cabeça":

"No que respeita aos acontecimentos de Chuia, que vão ser discutidos pelo Bureau Político, penso que deve ser tomada desde já uma decisão firme, no quadro do plano geral da luta nessa frente. [...] Se tivermos em conta o que nos relatam os jornais a propósito da atitude do clero face à campanha de confiscação dos bens da Igreja, mais a tomada de posição subversiva do patriarca Tikkon, torna-se perfeitamente claro que o clero Cem Negros se prepara para pôr em execução um plano elaborado tendo em vista infligir-nos neste preciso momento uma derrota decisiva. [...] Penso que o nosso inimigo está em vias de cometer um erro estratégico monumental. Com efeito, o momento actual é excepcionalmente favorável para nós, e não para eles. Temos noventa e nove por cento de possibilidades de atingir mortalmente o inimigo na cabeça com um êxito total, e de garantir posições, para nós essenciais, para as próximas décadas. Com toda a gente esfomeada que se alimenta de carne humana, com as estradas juncadas de centenas, de milhares de cadáveres, é agora e só agora que podemos (e consequentemente devemos) confiscar os bens da Igreja com uma energia feroz, implacável. É precisamente agora e só agora que a esmagadora maioria das massas de camponeses pode apoiar-nos ou, mais exactamente, pode não estar em situação de apoiar esse punhado de clérigos Cem Negros e de pequenos-burgueses reaccionários... Poderemos assim conseguir um tesouro de várias centenas de milhões de rublos-ouro (pensem nas riquezas de certos mosteiros!). Sem este tesouro, nenhuma actividade estatal em geral, nenhuma edificação económica em particular, e nenhuma defesa das nossas posições é concebível. Devemos, custe o que custar, apropriarmo-nos desse tesouro de várias centenas de milhões de rublos (talvez até vários milhares de milhões!). Só agora tudo isto pode ser feito com êxito. Tudo indica que não atingiremos os nossos fins numa outra altura, pois só o desespero engendrado pela fome pode provocar uma atitude cúmplice, ou pelo menos neutra, das massas para connosco... Por isso chego à conclusão categórica de que é este o momento para esmagar o clero Cem Negros da maneira mais decisiva e mais implacável, com uma tal brutalidade que eles a recordem durante décadas. Vejo a execução do nosso plano de campanha da seguinte maneira: só o camarada Kalinine tomará publicamente medidas. Em caso algum deverá o camarada Trotski aparecer na imprensa ou em público [...] Será necessário enviar a Chuia [...] um dos membros mais enérgicos e mais inteligentes do Comité Executivo Central com instruções verbais de um dos membros do Bureau Político. Estas instruções estipularão que a sua missão é prender o maior número possível de membros do clero, de pequenos-burgueses e de burgueses, nunca menos de várias dezenas, que serão acusados de participação directa ou indirecta na resistência violenta contra o decreto sobre a confiscação dos bens da Igreja. Ao regressar da sua missão, esse responsável dará contas seja ao Bureau Político completo, seja a dois dos seus membros. Com base nesse relatório, o Bureau Político dará, verbalmente, directivas precisas às autoridades judiciárias, a saber, que o processo dos rebeldes de Chuia deve ser conduzido o mais rapidamente possível, tendo como único resultado a execução, por fuzilamento, de um número importante de Cem Negros de Chuia, mas também de Moscovo e de outros centros clericais [...] Quanto maior for o número de representantes do clero reaccionário e da burguesia reaccionária passados pelas armas, melhor será para nós. Devemos dar imediatamente uma lição a toda essa gente de tal maneira que nunca mais pensem sequer em opor-nos qualquer espécie de resistência durante as próximas décadas...".








[...] A intelligentsia representa um outro grupo vítima do Grande Terror sobre o qual dispomos de uma informação relativamente abundante. Depois da sua constituição como grupo social reconhecido, a intelligentsia russa estivera, desde meados do século XIX, no centro da resistência ao despotismo e à subserviência do pensamento. Era natural que a depuração a atingisse muito particularmente, na continuidade das primeiras vagas de repressão - por comparação muito moderadas - de 1922 e de 1928-1931. Em Março-Abril de 1937, uma campanha de imprensa estigmatizou o "desviacionismo" no domínio da economia, da história, da literatura. Na verdade, todos os ramos do saber e da criação foram visados, servindo frequentemente os pretextos doutrinais e políticos de capa a rivalidades e ambições. Assim, no que respeita à história, os discípulos de Pokrovski, morto em 1932, foram todos detidos. Os professores, obrigados a continuarem a fazer conferências públicas, e portanto susceptíveis de influenciarem um vasto auditório de estudantes, eram particularmente vulneráveis; a mais insignificante das suas afirmações podia ser captada por denunciantes zelosos. Universidades, institutos e academias foram dizimados, nomeadamente na Bielo-Rússia (onde 87 dos 105 académicos foram presos como "espiões polacos") e na Ucrânia. Nesta república, ocorrera em 1933 uma primeira depuração de "nacionalistas burgueses": vários milhares de intelectuais ucranianos foram presos por terem "transformado em antros de nacionalistas burgueses e de contra-revolucionários a Academia Ucraniana das Ciências, o Instituto Chevtchenko, a Academia Agrícola, o Instituto Ucraniano do Marxismo-Leninismo, assim como os comissariados do povo para a Educação, para a Agricultura e para a Justiça" (discurso de Postyshev, a 22 de Junho de 1933). A grande depuração de 1937-1938 concluía, aqui, uma operação começada quatro anos antes.

Os meios científicos que tinham uma relação, mesmo que distante, com a política, a ideologia, a economia ou a defesa foram igualmente atingidos. As maiores sumidades da indústria aeronáutica, como Tupolev (o construtor do famoso avião [ver aqui]), foram presas e enviadas para uma dessas unidades de pesquisa do NKVD descritas por Soljenitsyn em O Primeiro Círculo. Foram igualmente presos: a quase totalidade (27 em 29) dos astrónomos do grande observatório de Pulkovo; a quase totalidade dos estatísticos da Direcção Central da Economia Nacional, que acabavam de efectuar o recenseamento de Janeiro de 1937 anulado por "profunda violação dos fundamentos elementares da ciência estatística e das instruções do governo"; numerosos linguistas, que se opunham à teoria, oficialmente aprovada por Estaline, do "linguista" marxista Marr; várias centenas de biólogos, que rejeitavam o charlatanismo do "biólogo oficial", Lysenko. Entre as vítimas mais conhecidas contavam-se o professor Levit, director do Instituto médico-genético, Tulaikov, director do Instituto dos Cereais, o botânico Ianata e o académico Vavilov, presidente da Academia Lenine das Ciências Agrícolas, preso a 6 de Agosto de 1940 e falecido na prisão em 26 de Janeiro de 1943.

Acusados de defenderem pontos de vista "estrangeiros" ou "hostis", de se afastarem das normas do "realismo socialista", escritores, publicistas, gente do teatro e jornalistas pagaram um pesado tributo à Iejovschina. Cerca de dois mil membros da União dos Escritores foram presos, deportados para campos ou executados. Entre as vítimas mais célebres figuravam o autor dos Contos de Odessa e de Cavalaria Vermelha, Isaac Babel (fuzilado a 27 de Janeiro de 1940), os escritores Boris Pilnyak, Iuri Olecha, Panteleimon Romanov, os poetas Nikolai Klyuev, Nikolay Zabolotsky, Osip Madelstam (morto num campo de trânsito siberiano a 26 de Dezembro de 1938), Gurgen Maari, Titsian Tabidze. Foram igualmente presos músicos (o compositor Jeliaiev, o maestro Mikoladze), pessoas do teatro, na primeira linha das quais o grande encenador Vsevolod Meyerhold. No início de 1938, o teatro Meyerhold foi encerrado por ser "estranho à arte soviética". Tendo-se recusado a fazer publicamente a sua autocrítica, V. Meyerhold foi preso em Junho de 1939, torturado e executado a 2 de Fevereiro de 1940.









No decurso destes anos, as autoridades tentaram"liquidar definitivamente" - para usar uma expressão em voga na época - os "últimos resquícios clericais". O recenseamento anulado de Janeiro de 1937 tinha revelado que uma [vastíssima] população - cerca de 70% - apesar das pressões de ordem diversa sobre ela exercida, respondera positivamente à pergunta "É crente?"; por isso, os dirigentes soviéticos decidiram lançar um terceiro e último assalto contra a Igreja. Em Abril de 1937, Malenkov enviou uma nota a Estaline, na qual considerava ultrapassada a legislação sobre os cultos e propunha a revogação do decreto de 8 de Abril de 1929, que, conforme explicava, tinha criado "uma base legal para a montagem, por parte da facção clerical mais activa e pelos membros das seitas, de uma organização ramificada de sessenta mil indivíduos hostis ao poder soviético. É tempo", concluía, "de acabar com as organizações clericais e com a hierarquia eclesiástica". Milhares de sacerdotes e a quase totalidade dos bispos retomaram o caminho dos campos, mas, desta vez, muitos deles foram executados. Das vinte mil igrejas e mosteiros ainda em actividade em 1936, menos de mil continuavam abertas ao culto no início de 1941. Quanto ao número de servidores do culto oficialmente registados, elevar-se-ia, no princípio de 1941, a 5665 (dos quais mais de metade provenientes dos territórios bálticos, polacos, ucranianos e moldavos incorporados em 1939-1941), enquanto, em 1936, o seu número era superior a 24 000.

[...] Logo que subiu ao poder, Lenine sonhou propagar o incêndio revolucionário à Europa, e depois ao mundo inteiro. Este sonho ia, de resto, ao encontro do famoso slogan do Manifesto do Partido Comunista de Marx, de 1848: "Proletários de todos os países, uni-vos!" À primeira vista, correspondia também a uma necessidade imperiosa:a revolução bolchevique não poderia manter-se no poder nem desenvolver-se se não fosse protegida, apoiada e seguida por outras revoluções em países mais desenvolvidos - Lenine pensava principalmente na Alemanha, com o seu proletariado muito organizado e as suas enormes capacidades industriais. Esta necessidade conjuntural depressa se transformou num verdadeiro projecto político: a revolução mundial.

Na época, os acontecimentos pareciam dar razão ao líder bolchevique. A desagregação dos impérios alemão e austro-húngaro, consequência da derrota militar de 1918, provocou na Europa uma convulsão política, a par de um enorme turbilhão revolucionário. Antes que os bolcheviques pudessem tomar qualquer iniciativa que não fosse verbal e de propaganda, a revolução pareceu surgir espontaneamente no rasto das derrotas alemã e austro-húngara.

[...] No preciso momento em que Béla Kun e os seus camaradas tentavam fundar uma segunda república dos sovietes, Lenine tomou a iniciativa de criar uma organização internacional susceptível de levar a revolução ao mundo inteiro. A Internacional Comunista - também denominada por Komintern, ou ainda Terceira Internacional - foi fundada em Moscovo, em Março de 1919, e surgiu de repente como rival da Internacional Operária Socialista (a Segunda Internacional, criada em 1889). No entanto, o Congresso fundador do Komintern respondia mais à satisfação de necessidades propagandísticas urgentes e à tentativa de captar os movimentos espontâneos que abalavam a Europa do que a uma real capacidade de organização. A verdadeira fundação do Komintern deverá ser datada do seu II Congresso, no Verão de 1920, com a adopção de vinte e uma condições de admissão às quais os socialistas que desejassem aderir teriam de submeter-se, integrando assim uma organização extremamente centralizada - "O estado-maior da revolução mundial" - onde o Partido Bolchevique representava já um peso determinante pelo seu prestígio, a sua experiência e o seu poder de Estado (em particular nos domínios financeiro, militar e diplomático).













Logo de início, o Komintern foi concebido por Lenine como um instrumento de subversão internacional entre outros - o Exército Vermelho, a diplomacia, a espionagem, etc. -, e a sua doutrina política era completamente decalcada da dos bolcheviques: tinha chegado a altura de substituir a arma da crítica pela crítica das armas. O manifesto adoptado no II Congresso anunciava orgulhosamente: "A Internacional Comunista é o partido internacional da insurreição e da ditadura do proletariado". Em consequência, a terceira das vinte e uma condições decretava: "Em quase todos os países da Europa e da América, a luta de classes entra num período de guerra civil. Nestas condições, os comunistas não podem confiar na legalidade burguesa. É seu dever criar em todo o lado, paralelamente à organização legal, um organismo clandestino capaz de, nos momentos decisivos, cumprir o seu dever para com a revolução". Fórmulas eufemísticas: "o momento decisivo" era a insurreição revolucionária, e o "dever para com a revolução" era a obrigação de se lançarem na guerra civil. Uma política que não se destinava apenas aos países submetidos a ditaduras, mas se aplicava também aos países democráticos, monarquias constitucionais ou repúblicas.

A décima segunda condição especificava as necessidades organizacionais ligadas à preparação desta guerra civil: "Nestes tempos de guerra civil encarniçadas, o Partido Comunista só poderá desempenhar o seu papel se a sua organização for muito centralizada, se houver uma disciplina de ferro próxima da militar, e se o seu organismo central estiver dotado de plenos poderes, exercer uma autoridade incontestada e beneficiar da confiança unânime dos seus militantes". A décima terceira condição considerava o caso dos militantes que não fossem unânimes: "O Partido Comunista [...] deve proceder à depuração periódica das suas organizações, a fim de afastar os elementos interesseiros e pequeno-burgueses".

Quando do III Congresso, que reuniu em Moscovo em Junho de 1921, com a participação de numerosos partidos comunistas já constituídos, as orientações foram ainda mais precisas. A "Tese sobre a Táctica" indicava: "O Partido Comunista deve inculcar nas mais vastas camadas do proletariado, pela acção e pela palavra, a ideia de que todo o conflito económico ou político pode, numa conjuntura favorável, transformar-se em guerra civil, durante a qual a tarefa do proletariado será tomar o poder político". E as "Teses sobre a Estrutura, os Métodos e a Acção dos Partidos Comunistas" explicitavam longamente as questões da "sublevação revolucionária aberta" e da "organização de combate", que cada partido comunista deveria criar secretamente no seu seio; as teses especificavam que este trabalho preparatório era indispensável, na medida em que "não seria nesse momento a altura própria para formar um exército vermelho regular".

[...] Em 1931, o Komintern publicou, em várias línguas, um livro intitulado A Insurreição Armada, assinado com o pseudónimo de Neuberg - na realidade responsáveis soviéticos -, que abordava as diferentes experiências insurreccionais a partir de 1920. Este livro foi novamente publicado em França no início de 1920. É só com a viragem política da Frente Popular no Verão-Outono de 1934, que esta linha insurreccional é relegada para segundo plano, que, no fundo, não atenuou em nada o papel fundamental da violência na prática comunista. Toda esta justificação da violência, esta prática quotidiana do ódio de classe, esta teorização da guerra civil e do terror encontraram a sua aplicação a partir de 1936 em Espanha, para onde o Komintern enviou muitos dos seus quadros, que se distinguiram nos serviços de repressão comunistas.



Emblema do GRU




Todo este trabalho de selecção, formação e preparação de quadros autóctones da futura insurreição militar era feito em estreita colaboração com os serviços secretos soviéticos, ou mais precisamente, com um dos seus serviços secretos, o GRU (Glavsnoe Razvetdatelnoe Upravlenie, ou seja, Direcção Principal de Informação). Fundado sob a égide de Troski, como 4.ª Repartição do Exército Vermelho, o GRU nunca abandonou totalmente esta tarefa "educativa", mesmo quando as circunstâncias o forçaram, pouco a pouco, a reduzi-la drasticamente. Por surpreendente que pareça, alguns jovens quadros de confiança do Partido Comunista Francês continuavam ainda, no começo dos anos setenta, a treinar entusiasticamente na Rússia (tiro, montagem e desmontagem de armas, fabrico de armas artesanais, transmissões, técnicas de sabotagem), com as Spetsnaz, as tropas soviéticas postas à disposição dos serviços secretos. Inversamente, o GRU dispunha de especialistas militares que podia "emprestar" aos partidos-irmãos em caso de necessidade. Manfred Stern, por exemplo, o austro-húngaro que foi colocado no "M-Apparat" do KPD para a insurreição de Hamburgo de 1923, operou depois na China e na Manchúria, antes de tornar-se o "general Kleber" das Brigadas Internacionais em Espanha.

Estes aparelhos militares clandestinos não eram propriamente formados por "meninos de coro". Os seus membros raiavam por vezes a fronteira do banditismo e alguns desses grupos transformaram-se em verdadeiros bandos. Um dos exemplos mais impressionantes ocorreu durante a segunda metade dos anos vinte com a "Guarda Vermelha" e os "Esquadrões Vermelhos" do Partido Comunista Chinês. Entraram em acção em Xangai, cidade na altura oficialmente considerada o epicentro da acção do Partido. Liderado por Gu Shunzhang, um antigo gangster filiado na sociedade secreta da Faixa Verde, a mais poderosa das duas mafias existentes em Xangai, estes combatentes fanatizados defrontaram os seus congéneres nacionalistas, nomeadamente os "Camisas Azuis" decalcados do modelo fascista, em combates sórdidos, terror contra terror, emboscada contra emboscada, assassínio individual contra assassínio individual. Tudo isto com o apoio particularmente activo do Consulado da URSS em Xangai, que dispunha de especialistas em questões militares, como Gorbatiuk, e de "executores".

[...] Para o poder comunista, as Igrejas representavam o mais importante problema no processo de controlo ou de esmagamento dos organismos da sociedade civil. A sua história e o seu enraizamento eram multisseculares. A aplicação do modelo bolchevique foi mais difícil em certos países do que noutros que conheciam a tradição da Igreja ortodoxa, a tradição bizantina do césaro-papismo, tendendo para a colaboração da Igreja com o poder estabelecido - afirmação que de forma alguma pretende subestimar a repressão sofrida pelos ortodoxos, tanto na Rússia como no conjunto da URSS. No caso da Igreja Católica, a sua organização internacional dirigida a partir do Vaticano representava um fenómeno insuportável para o "campo socialista" emergente. A confrontação entre as duas grandes internacionais da fé, com as suas duas capitais, Moscovo e Roma, era portanto e logicamente, fatal. A estratégia de Moscovo estava bem definida: romper os laços existentes entre as Igrejas católica ou greco-católica e o Vaticano, submetendo-as ao poder e transformando-as em "igrejas nacionais". É o que deixam entender as consultas com os responsáveis soviéticos quando da reunião do Bureau de Informação dos Partidos Comunistas em Junho de 1948, relatada por Rudolf Slansky, secretário-geral do PCC.

Para atingir o seu objectivo - a redução da influência das Igrejas sobre a vida social, submetê-las ao controlo meticuloso do Estado e transformá-las em instrumento da sua política, os comunistas combinaram a repressão, tentativas de corrupção e... limpeza da hierarquia; a abertura de arquivos permitiu desmascarar, por exemplo, na Checoslováquia, numerosos eclesiásticos, nomeadamente bispos, como colaboradores da polícia secreta. Terão alguns querido, com isso, evitar "o pior"?

Catedral de Cristo Salvador nos princípios do século XX.



Demolição da Catedral de Cristo Salvador (Moscovo, 1932).







Catedral de Cristo Salvador reconstruída.




[...] A Igreja Católica Romana - 1 250 000 fiéis - sofreu os primeiros ataques em Maio de 1948 com a prisão de 92 padres. As escolas católicas foram encerradas pelas autoridades, que confiscaram as instituições caritativas e médicas. Em Junho de 1949 foram presos vários bispos da Igreja Romana; no mês seguinte, foram proibidas as ordens monásticas. A repressão culminou em Setembro de 1951 com a autorização de um grande processo político no tribunal militar de Bucareste: numerosos bispos e leigos foram condenados sob a acusação de "espionagem".

Um dos bispos greco-católicos, ordenado secretamente, preso durante quinze anos e que mais tarde trabalhou como operário, testemunha:

"Durante longos anos, suportámos em nome de São Pedro a tortura, os espancamentos, a fome, o frio, a confiscação de todos os nossos bens, o escárnio e o desprezo. Beijávamos as algemas, as cadeias e as grades de ferro das nossas celas como se fossem objectos de culto, sagrados; e a nossa farda de prisioneiros era o nosso hábito de religiosos. Escolhêramos carregar a cruz, apesar de sem cessar nos proporem uma vida fácil em troca da renúncia a Roma. Os nossos bispos, padres e fiéis foram condenados, no seu conjunto, a mais de quinze mil anos de detenção e cumpriram mais de mil. Seis bispos sofreram a prisão por fidelidade a Roma. Hoje, apesar de todas as vítimas, a nossa Igreja possui o mesmo número de bispos que na época em que Estaline e o patriarca ortodoxo Justiniano, triunfalmente, a declararam morta" [Frantisek Miklosko, Nebudete ich moct rozvratit (Não conseguirão destruí-los), Bratislava, Archa, 1991, pp. 272-273].


[...] O inferno de Pitesti

A Securitate, a polícia política romena, utilizou durante os interrogatórios os instrumentos "clássicos" de tortura: espancamentos, pancadas nas solas dos pés, suspensão do tecto pelos pés, com a cabeça para baixo. Em Pitesti a crueldade da tortura ultrapassou em muito estes métodos: foi praticada toda a gama - possível e impossível - de suplícios. O corpo era queimado com cigarros; partes do corpo de alguns prisioneiros começavam a gangrenar, caíam como as dos leprosos; outros eram obrigados a ingerir excrementos e, se os vomitavam, o vómito era-lhes enfiado pela garganta abaixo.

A imaginação delirante de Turcanu encarniçava-se sobretudo com os estudantes crentes, que recusavam renegar Deus. Alguns eram "baptizados" todas as manhãs da seguinte maneira: enfiavam-lhes a cabeça numa tina cheia de urina e fezes enquanto os outros presos recitavam em volta a fórmula do baptismo. Para que o torturado não asfixiasse, levantavam-lhe de tempos a tempos a cabeça da tina para respirar e de novo a mergulhavam no magma repugnante. Um dos que sistematicamente sofreram esta tortura criara o seguinte automatismo, que durou cerca de dois meses: era ele próprio que todas as manhãs imergia a cabeça na tina, para grande chacota dos reeducadores.

Quanto aos seminaristas, Turcanu obrigava-os a oficiar nas missas negras que ele próprio encenava, sobretudo durante a Semana Santa, na vigília pascal. Alguns desempenhavam o papel de meninos do coro, outros de padres. O texto litúrgico de Turcanu era, evidentemente, pornográfico e parafraseava de forma demoníaca o original. A Virgem Maria era referida como "a grade prostituta" e Jesus "o imbecil que morreu na cruz". O seminarista que desempenhava o papel de padre devia despir-se completamente, sendo depois envolvido por um lençol sujo de excrementos e, pendurado ao pescoço, um falo confeccionado com sabão, miolo de pão e pulverizado com DDT. Na noite que antecedeu a Páscoa de 1950, os estudantes em curso de reeducação foram obrigados a passar diante do "padre" e a beijar o falo, dizendo: "Cristo ressuscitou" [V. Ierunca...].







[...] Em 1952, as autoridades romenas decidiram - sem sucesso - alargar a experiência de Pitesti, em particular aos campos de trabalho do canal Danúbio-Mar Negro. O segredo foi entretanto revelado pelas rádios ocidentais, obrigando a direcção comunista a pôr fim a esta "reeducação" em Agosto de 1952. Por ocasião de um processo, em 1954, Eugen Turcanu e seis dos seus cúmplices foram condenados à morte, mas nenhum verdadeiro responsável do aparelho policial foi atingido.

Finalmente, o terceiro exemplo entre os países que, em nossa opinião, acrescentaram um traço original à história da repressão comunista na Europa: a Bulgária e o seu campo de Lovetch. O campo foi instalado em 1959, sete anos depois da morte de Estaline, três anos volvidos sobre o discurso de Krushchov condenando os crimes estalinistas no XX Congresso do PCUS e num momento em que numerosos campos destinados aos presos políticos eram fechados, inclusivamente na União Soviética. A área de Lovetch não era extensa e a sua capacidade não excedia os mil presos. Mas o que nele se passava era atroz pelas matanças que os carrascos aí praticavam. Torturavam-se e executavam-se os presos da maneira mais primitiva: à paulada.

O campo fora aberto depois do encerramento do de Belene, bem presente na memória colectiva búlgara e onde se dava aos porcos os cadáveres dos detidos mortos ou assassinados.

Oficialmente, o campo foi criado para receber criminosos perigosos e malfeitores irrecuperáveis, mas os testemunhos vindos a lume a partir de 1990 demonstram no entanto que a maioria dos detidos eram para ali enviados sem julgamento: "Usa calças à ocidental, cabelo comprido, ouve música americana, fala as línguas dos nossos inimigos, o que lhe permite estabelecer contacto com turistas estrangeiros... vai para a prisão!" Assim, os detidos neste campo, neste centro de reeducação pelo trabalho, eram geralmente jovens.

Tzvetan Todorov, no prefácio do livro que apresenta o testemunho de prisioneiros, dos seus familiares e também de elementos do aparelho repressivo, resume assim o dia-a-dia em Lovetch:

"Durante a parada, logo pela manhã, o chefe da polícia (o representante da Segurança de Estado no campo) escolhe as suas vítimas; tem por hábito tirar do bolso um pequeno espelho, que lhes estende: "Olha pela última vez para a tua cara!" A cada um dos condenados é então dado um saco que servirá para transportar para o campo, à noite, o seu cadáver: são obrigados a levá-lo eles mesmos, como Cristo transportou a sua cruz até ao Gólgota. Passam então para o local de trabalho, no caso uma pedreira. É lá que irão ser espancados até à morte, os corpos enfiados depois nos sacos, fechados com um pedaço de arame. À noite serão trazidos para o campo, num carrinho de mão, pelos seus camaradas e os cadáveres empilhados por detrás das latrinas, onde ficarão - até perfazerem vinte, para melhor utilização do camião. Todos os que, durante o dia, não cumprirem as normas, serão distinguidos durante a parada do recolher: o responsável da polícia desenhará com um bastão, um círculo no chão à sua frente; os que forem convidados a entrar vão ser espancados".

Não foi estabelecido o número de mortos neste campo, mas mesmo que se trate apenas de algumas centenas, Lovetch - fechado pelas autoridades búlgaras em 1962 depois de um nítido abrandamento do seu regime interno em 1961 - é um símbolo importante da barbárie dos países comunistas. Teríamos vontade de falar aqui de "barbárie dos Balcãs", em referência ao livro sobre o terror nos Balcãs depois da Primeira Guerra Mundial, escrito por Henri Barbusse, um autor evocado a propósito das suas posições pró-estalinistas».

(«O Livro Negro do Comunismo»).



Localização dos gulags na URSS































Alexandre Soljenitsyne



«Aqueles que discordavam dos métodos de Estaline acabavam nos campos de trabalho, os gulags. Localizados nas áreas mais inóspitas da Rússia, os prisioneiros transformavam-se aí em escravos e trabalhavam até à morte. Enormes empreendimentos industriais como a barragem de Knieper e o canal de Bellmore tornaram-se um verdadeiro inferno para centenas de milhares que morreram durante a construção. Por alturas de 1933, quase um milhão de cidadãos soviéticos definhavam em campos de trabalhos forçados. Mais alguns milhões estavam em prisões, campos de deportação ou áreas de realojamento compulsivo. Ninguém estava livre de ser declarado inimigo e se Estaline descobriu muitos inimigos fora do Partido Comunista, descobriu igual número lá dentro.

No XVII congresso do partido, em Fevereiro de 1934, 300 membros mais antigos do partido votaram contra Estaline como líder do partido, a favor de Kirov. Estaline ficou furioso e a vingança foi rápida. Em Dezembro, Kirov foi assassinado - quase de certeza por ordem de Estaline - e Estaline aumentou os poderes da NKVD, a polícia secreta que começou a prender os seus adversários. Fabricaram-se provas e os bolcheviques mais influentes sofreram julgamentos nos quais foram forçados a confessar crimes ridículos que nunca poderiam ter cometido. As confissões eram arrancadas sob tortura. Dos 1200 delegados presentes no fatídico congresso, mais de 1100 foram presos, executados ou mortos em campos de trabalho. Dos 139 membros do Comité Central, 98 foram fuzilados. Os seus inimigos não eram apenas exterminados, desapareciam literalmente. No seu quartel na prisão de Lubianka, a NKVD, sob as ordens de Estaline, espalhou o terror por todo o país.

O Grande Terror de 1937-1938, logo a seguir às violentas campanhas de colectivização e industrialização, não deixou dúvidas acerca das consequências da desobediência, mesmo que encapotada. Não era um trovão isolado, mas uma terrível trovoada. As vítimas eram julgadas por troiki compostas pelo chefe local da NKVD, o secretário do partido e o procurador. Os julgamentos eram ridículos e sumários e as sentenças não permitiam qualquer apelo. O terror intensificava-se e praticamente todos aqueles que detinham postos políticos, administrativos ou de gestão viviam atemorizados.

Entre um milhão e um milhão e meio de pessoas foram mortas por batalhões de fuzilamento, maus tratos ou trabalhos forçados só nesses dois anos. Carrinhas e camiões com as palavras "Carne" ou "Vegetais" transportavam as vítimas para um bosque sossegado onde tinham sido secretamente preparados campos de tiro e abertas covas. Comboios repletos de vítimas passavam durante a noite pelas cidades, para evitar serem vistos pelo povo. O terror era caótico e confuso. Milhares dirigiam-se para a morte sem saberem porquê e proclamando a sua lealdade a Estaline, o Homem de Aço.

A União Soviética dos anos 30 do século XX será recordada acima de tudo pelas suas sangrentas purgas em todas as áreas da sociedade, política e privada. De 1934 a 1938 pelo menos 7 000 000 de pessoas desapareceram, incluindo líderes bolcheviques que Estaline expulsara entre 1925 e 1927, poetas, cientistas, gestores de empresas que não atingiram os objectivos de produção, e milhões de cidadãos comuns. Tudo isto aconteceu devido à personalidade e ideias de Estaline. Ele dirigia a máquina do Estado contra "elementos anti-soviéticos" e "inimigos do povo". Usou as vítimas como bodes expiatórios para as dores do país e, para sustentar os seus planos de industrialização precisava de manter as minas, as florestas e os estaleiros de construção constantemente fornecidos de trabalho escravo.

1911: Estaline nas mãos da polícia russa em São Petersburgo.







Trotsky (México, Agosto de 1940).




Furador de gelo usado em Trotsky






















Em seguida, Estaline dedicou a sua atenção ao exército. Queria ter a certeza de que as suas políticas estavam a ser concretizadas e quando a purga militar acabou, cerca de 40 000 oficiais tinham sido presos, quase 15 000 mortos e os restantes enviados para campos de morte. O comando superior das forças armadas foi praticamente exterminado.

Mesmo o exílio no exterior não trazia alívio. Trotsky foi apanhado no México em Agosto de 1940, sendo assassinado por elementos do NKVD. Estaline queria exterminar todos os opositores, mas principalmente aqueles que pertenciam ao partido há muito tempo e que sabiam que o seu passado glorioso não era mais do que ficção e que ele não era o verdadeiro sucessor de Lenine. Continuava a proclamar que tinha sido o único responsável pelo êxito da guerra civil.

Nenhuma unidade da vida social, incluindo a família, estava livre do controlo de Estaline. As denúncias estavam na ordem do dia. As raparigas eram recompensadas por denunciarem os pais às autoridades, mesmo que o crime fosse apenas o roubo de duas batatas de uma quinta colectiva. Mesmo as velhas camponesas inofensivas que murmurassem queixas sobre as condições de habitação, eram enviadas para os gulags. Anedotas sobre Estaline ou o Estado eram consideradas traição. Cada cidadão era um alvo e não importava que a sua culpa fosse verdadeira ou não, tão grande era a paranóia e a perseguição».

Miranda Twiss («Os Grandes Monstros da História»).


«Quebrar a resistência moral das nações, desorganizar a sua economia, exercer sobre a máquina do Estado acção paralisante é função atribuída ao comunismo em toda a parte onde o governo lhe está vedado. A diminuição até à impotência da força das nações que se lhe entregam é o maior serviço reclamado pelo país estrangeiro que o inspira, o apoia, o subsidia. De modo que sofrer um país a acção do comunismo quando no seu seio irrompeu, devido a causas que não puderam ser dominadas, é uma fatalidade contra que tem de lutar-se, fazendo apelo a todas as forças de ordem, para neutralizar-se os efeitos, à espera de melhores dias. Que se dêem possibilidades de desenvolver e organizar forças tão virulentas e corrosivas do organismo social, tão contrárias ao espírito da civilização de que somos filhos, onde com atenta vigilância podem ser mantidas em respeito, senão inteiramente neutralizadas, parece-nos cegueira que a paixão política pode explicar, mas os interesses da Nação claramente condenam (11 de Fevereiro de 1949).

[...] Ora, sendo tão graves os perigos, quer de influência externa quer de subversão social, trazidos pelo comunismo, que processos de defesa se utilizam para o contrariar?

Se não me engano, na Europa, salvo Portugal, a Espanha e a Suíça (embora esta última por motivos diferentes dos primeiros), e como na Europa, em quase todo o mundo, o comunismo goza da liberdade de propaganda e organização, bastando-lhe - o que não custa nada - declarar-se integrado no plano das forças políticas nacionais. Por muita parte está representado em assembleias, em numerosos países faz parte dos governos.

Este modo de proceder não pode deixar de significar ou que se considera o comunismo tão legítimo como outro qualquer programa partidário e apto à realização do interesse nacional ou que se espera torná-lo inofensivo num regime de absoluta liberdade política. Todos aliás temos ouvido dizer que os grandes remédios contra a doença comunista são: na Europa, a democracia e o socialismo; na América, a liberdade e o bem-estar geral.


Não me proponho hoje discutir estas teses, sobre as quais tenho naturalmente as maiores dúvidas; levar-me-ia longe o exame e ser-me-ia embaraçosa a referência a casos particulares que parecem contrariá-las. Direi apenas que, a meu ver, há-de ser muito difícil aos diversos Estados manter, partindo de tais princípios, uma linha rigidamente lógica; alguns que por ela se encaminharam regressam ao ponto de partida; os que receiam usar da autoridade vêem-se depois compelidos a empregar a violência e felizes se consideram quando, como é geralmente o caso, não são subvertidos por ela; sobretudo não há confiança na terapêutica, pois que os povos vivem receosos e intranquilos. O Mundo tem medo do comunismo e os sovietes servem-se dele para os seus fins (25 de Novembro de 1947).

O mundo tem medo do comunismo.

Qual a razão disso?

A principal parece ter sido à volta da ideia e do facto de se tratar de organização que, integrada no jogo das forças nacionais, recebe do estrangeiro a súmula doutrinal do seu programa e a orientação efectiva. Mas a mim não me parece razão bastante.

Através da história e ainda nos tempos de hoje, numerosos movimentos se têm verificado de inspiração estrangeira e muitos apoiados por esta ou aquela potência, têm infelizmente vingado contra a vontade e os verdadeiros interesses da nação que os suporta. A história está cheia destes pecados. De modo que, em face do comunismo, o que sobretudo importa não é saber que é protegido ou apoiado de fora - mas a essência da sua doutrina e as verdadeiras intenções da potência inspiradora.

Esta última referência repõe no tabuleiro todo o problema anterior - ou seja a Rússia na Europa e no Mundo, a sua vida de relação com os mais Estados, o valor prático para ela e a aceitação voluntária por sua parte daquele conjunto de princípios e de conceitos (uns pura emanação da moral, outros adquiridos e fixados pela experiência) sobre que deve viver e prosperar a comunidade internacional. Quer dizer, independentemente da execução do programa comunista, um problema continuaria de pé - o de saber-se a constituição da comunidade de nações por ela chefiada, que é o mesmo que dizer qual o grau de independência de cada país na gestão dos seus negócios internos e externos. Uma coisa me parece clara - a existência de pressões suficientes para se considerarem privilegiados ou preferentes os interesses da potência que a si própria teria reservado a posição de quase suserana. Já Hitler ou alguns dos seus sonharam essa construção: não julgo que a Europa no seu todo se pudesse submeter a semelhante fórmula.

Concebe-se que a Rússia, por amor de um interesse político seu, se alheie, fora de fronteiras, do comunismo, não como governo, mas como ideologia. O comunismo, porém, não se desinteressará de si próprio. Salvo o caso de partido assim etiquetado para usufruir algum prestígio exterior, mas de facto apostado apenas em conquistar posições de mando, o comunismo, como doutrina integral que é, tenderá a modelar os homens, as sociedades, as instituições públicas e privadas segundo as concepções que defende. De modo que ou se contradiz e se anula no puro jogo de forças políticas concorrentes ou há-de por todos os meios fazer a sua revolução.

Não cuide alguém que esta se limite a procurar corrigir desmandos, abusos, ilogismos, desacertos ou injustiças - tanto revela a actual organização social contra que temos de lutar sem descanso - nem a provocar a transferência do poder de uma para outra classe ou legitimar a transferência de bens de uns para outros indivíduos; trata-se de criar um tipo diferente de humanidade, outra civilização (se é que esta forma de me exprimir se pode considerar correcta). Pouco importa saber que o não logra, porque, frustrada a revolução, terá pelo menos conseguido a desordem (25 de Novembro de 1947).



Oliveira Salazar



[...] O comunismo é, pois, como movimento revolucionário e expressão de uma política internacional agressiva, o grande inimigo do momento, e a primeira contribuição que pode dar-se na ordem externa é contê-lo decisivamente no interior. É problema vital e urgente definir os meios apropriados.

As potências que se apelidam de democráticas parece descansarem em demasia no jogo dos partidos políticos e na movimentação eleitoral das massas, quando arregimentadas e rotuladas em maioria nos chamados partidos burgueses, nos quais se incluem mesmo os socialistas. Esta atitude, filha do hábito da luta entre forças concorrentes e por vezes complementares, passa, porém à margem da verdadeira actuação comunista e não pode, por isso, ter efeitos decisivos. O comunismo não é necessariamente um partido nem precisa de dispor de maioria: basta-lhe dispor de uma minoria, movida por uma e servida por uma técnica de proselitismo e de combate, técnica que é a síntese de tudo quanto a experiência e a psicologia descobriram para dominar e conduzir massas humanas.

O que se diz do partido político que não pressupõe formação, mas atitude de simpatia ou passiva concordância com um vago programa da ordem estabelecida, há-de dizer-se das ligas, das associações, dos congressos que se organizam para combater o comunismo: toda esta acção se dirige aos que dispõem já de certa posição de espírito ou se aprontam a tomar certa atitude de oposição, mas não formam os espíritos nem evitam que o comunismo deforme as inteligências e as vontades da massa neutra que é a grande maioria de um País.

Uma tendência generalizada deposita esperanças, também excessivas, na repressão directa das actividades comunistas, e eu estou longe de julgar essa repressão dispensável ou indiferente, antes me parece que se vão aproximando os tempos de mais ampla e severa actuação. Mas a força do proselitismo comunista exige imperiosamente uma acção intensiva de aliciação das inteligências à volta de um sistema de ideias que o repilam. Se a inteligência do século é trabalhada já no sentido da ansiedade e da insatisfação para aceitar as soluções integrais do comunismo, não se pode descansar na repressão, como se esta resolvesse todas as dificuldades (12 de Dezembro de 1950)».

Oliveira Salazar (in J. P. D'Assac, «O Pensamento de Salazar extraído dos seus discursos»).


«Está tudo pronto para o primeiro voo de pirataria aérea por motivos políticos da história da aviação comercial em todo o mundo.

[...] O sequestro é iniciado às 10h05 por Palma Inácio e Camilo Mortágua. Após 40 minutos no ar, calculam que o avião esteja fora do espaço aéreo marroquino, colocam uma braçadeira verde e vermelha no braço, levantam-se e, de arma em punho, irrompem pelo cockpit. José Sequeira Marcelino vê primeiro os canos das armas e só depois fixa os rostos dos dois assaltantes. "Mas que brincadeira é esta?", pergunta. "Tomámos este avião para uma operação de denúncia do regime de Salazar. Se não seguir as minhas orientações, assumo eu o comando do avião", responde Palma Inácio, com uma voz pausada e firme. "Cá estão eles, fomos apanhados", pensa o comandante, lembrando-se de um aviso feito dias antes pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros à TAP, segundo o qual podia estar preparado um assalto ao avião que fazia a ligação a Casablanca.



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Camilo Mortágua e Palma Inácio



Prometendo salvaguardar a segurança de todos a bordo, o chefe da operação explica que pretendem sobrevoar Lisboa, Barreiro e Faro para lançar panfletos contra a ditadura e depois aterrar novamente em Marrocos, no aeroporto de Tânger, onde tencionam pedir asilo. "Não tenho combustível para ir a Lisboa e voltar", procura esquivar-se Sequeira Marcelino. "Mostre-me o plano de voo", riposta Palma Inácio: "Sou piloto também e sei que temos gasolina". Apanhado em falso, o comandante experimenta invocar outro obstáculo: "Como é que se vai deitar os papéis? Eu não posso abrir as janelas do avião". "Pode, pode", assegura-lhe mais uma vez o assaltante: "Descemos abaixo de três mil pés e fazemos a despressurização. Depois, podemos abrir sem perigo as escotilhas de emergência e lançar os papéis". Perante a ameaça das armas e os conhecimentos de Palma Inácio, o piloto obedece".

Os assaltantes querem que o comandante fique sozinho no posto de pilotagem, mas Sequeira Marcelino convence-os da importância de manter na cabine o co-piloto, Raúl Teles Grilo, que é genro do ex-Presidente Craveiro Lopes, e o mecânico António Coelho. Este reconhece o líder dos revoltosos, seu antigo colega na Força Aérea, e pergunta-lhe se não se chama Palma Inácio. Mas o líder do grupo não se identifica - ao longo de toda a viagem, os cúmplices chamam-lhe "Teixeira", o apelido que consta no seu passaporte falsificado.

Além dos assaltantes, seguem a bordo sete tripulantes e doze passageiros, entre os quais dez estrangeiros e apenas dois portugueses: José Afonso da Silva e Luís Barbosa Duarte, quadros superiores da General Motors, que vestem fato e gravata. Amândio Silva teme que sejam agentes da PIDE e encarrega José Martins, o comando de aspecto mais intimidatório, de os vigiar.

A hospedeira Maria Pilar Blanco, de 22 anos, tem apenas cinco meses de experiência. Depois de ter servido os pequenos-almoços, vende tabaco e bebidas quando dá pela falta de cinco dos viajantes que seguiam nas filas da frente. Amândio Silva está de pé no corredor, diz que não quer comprar nada e não a deixa passar. Intrigada, a assistente de bordo pergunta-lhe pelos outros passageiros e o revolucionário assume que estão na cabine do piloto e tomaram conta do avião. A hospedeira não acredita, mas dirige-se à cabine traseira para contar o incidente à colega Maria Luísa Infante, ao comissário Orloff Esteves e ao mecânico António Coragem. Incrédulos, os homens olham para o corredor e vêem o passageiro, de braçadeira verde e vermelha e mão no bolso, parecendo dissimular uma arma. Interpelam-no e são informados de que o comandante já se submeteu, pelo que o resto da tripulação não tem outro remédio se não ceder também.

Amândio Silva deixa-os passar para o cockpit, onde encontram dois homens e uma rapariga de armas apontadas à equipa de pilotagem. "O que se passa?", pergunta o comissário. "É o que está à vista", responde o comandante, que lhe recomenda que tente manter a calma a bordo e pede aos assaltantes para guardarem as braçadeiras e evitarem mostrar as armas. O próprio Sequeira Marcelino inventa uma desculpa de ordem técnica e fala com dois franceses que viajam em primeira classe para mudarem de lugar. Correm-se as cortinas da divisória com a classe turística e fica assim livre o acesso às janelas de emergência de onde serão lançados os panfletos, sem que algum dos passageiros dê por alguma coisa.

Amândio Silva pede ao mecânico que vá ao porão e lhe traga as sete malas identificadas com um cordel na pega. O comandante quer ver os panfletos, para se certificar de que não são bombas, e dá instruções a António Coragem para preparar a abertura da janela de emergência, do lado esquerdo.



Pilar Blanco, Sequeira Marcelino (à direita) e António Coragem (à esquerda).




Sobre Lisboa, Sequeira Marcelino aproxima-se do aeroporto e parece dirigir-se à pista, sobressaltando Palma Inácio: "O que é que vão fazer?! Aterrar?! Ficamos aqui já todos! Se formos presos eles dão cabo de nós". Mas o comandante não chega a deixar o Mouzinho de Albuquerque tocar no chão. Avisa a torre de que vai fazer uma passagem aérea sobre Lisboa e volta a subir, sobrevoando o Hospital de Santa Maria em direcção ao Marquês de Pombal. É aqui que o mecânico abre a janela de emergência e ensina Helena Vidal, Fernando Vasconcelos e Amândio Silva como devem colocar os pés e o corpo para evitar acidentes enquanto lançam os panfletos pelo ar. Ao assistir ao gesto revolucionário, António Coragem entusiasma-se e pede: "Deixa-me deitar também".

Os lisboetas que estão na Baixa levantam as cabeças e surpreendem-se com o ruído do avião que passa tão perto dos prédios e de onde são lançados milhares de papéis, que começam a cair na Avenida da Liberdade, na Rua do Ouro e no Terreiro do Paço, onde, por caprichos do vento, entram pelas janelas de alguns ministérios do Governo de Salazar.

Os dois passageiros portugueses estranham a mudança de rumo e a reduzida altitude, mas uma das hospedeiras agrava-lhes a ansiedade, quando diz que só mais tarde poderão contar o que se está a passar. Temem um desastre iminente e comentam que deve haver uma avaria no trem de aterragem. Ou, em alternativa, eclodiu uma revolução em Lisboa e é isso que explica o adiamento da aterragem.

Do Terreiro do Paço, o avião da TAP vira à esquerda ao longo do rio Tejo, sobrevoa a Avenida 24 de Julho (onde fica o apartamento de Henrique Galvão) rumo a Alcântara e depois vira para Sul em direcção ao Barreiro, a vila operária onde Galvão nasceu - e que o capitão fez questão de incluir no itinerário da operação.

Ao lançar os panfletos, um dos elementos do grupo deixa cair a arma e, por instinto, a hospedeira Maria Luísa Infante precipita-se para apanhar a pistola do chão e a entregar ao assaltante. Orloff Esteves proclama: "É bom que se saiba que só estamos a fazer tudo isto porque somos obrigados pela força das armas!" Amândio Silva atira a pistola para um dos assentos e desafia-o: "E agora, vamos fazer ou não?" O comissário não reage. Confiante de que já nada irá perturbar o sucesso da operação, Camilo Mortágua sai da cabine de pilotagem, senta-se numa das filas da frente e diz em jeito de desabafo: "Foi fácil de mais".

Na margem Sul, minutos depois de milhares de pessoas terem apanhado os manifestos impressos em papel de arroz, Sequeira Marcelino aproveita uma distracção de Palma Inácio e comunica à torre de controlo do Aeroporto de Lisboa o que se passa. São exactamente 11h00. O diálogo com o controlador aéreo demora um minuto e meio:

" - Atenção Torre de Lisboa, TAP 114.

- Diga, diga.




Maria Luísa Infante, Raúl Teles Grilo (em cima à direita), Orloff Esteves (à esquerda em baixo), Alberto Coelho (à direita em baixo).



O meu avião foi tomado por comandos do Galvão e estou [com] sete pistolas aqui atrás, obrigaram-me a lançar papéis e vou para Tânger.

- Repita: o seu avião foi tomado por Galvão com pistolas apontadas regressando a Tânger?


- Sete pistolas apontadas aqui, pá tenho que ir para Tânger, obrigaram-me a lançar papéis.


- OK, mantenha a frequência.


- Tenho um pilo... Tenho um piloto a bordo, de maneira que não posso oferecer resistência. Tenho sete pilo... tenho aqui sete tipos armados e pronto.


- Aqui torre, entendido. Está-se a tratar já do seu caso, muito obrigado.


- Qual a altitude a que pretende regressar?


- Seguimos para Tânger agora e pronto.


- OK".


Assim que acaba a comunicação, o controlador de tráfego aéreo dirige-se ao gabinete do director do aeroporto, Rui Sampaio e Melo, e diz-lhe que um avião foi tomado por um "bando armado do Galvão", o que desencadeia uma série de contactos. O primeiro telefonema é feito para a direcção da PSP a pedir um piquete de reforço. Seguem-se as chamadas para a secretaria de Estado da Aeronáutica, para o comandante da base aérea militar do aeroporto e para o director-geral de Aeronáutica Civil.

Uma das telefonistas do aeroporto recebe ordens para se dedicar em exclusivo a estabelecer estas chamadas urgentes e oficiais, mas a agitação nos gabinetes é tal que rapidamente as linhas telefónicas ficam impedidas. Todos os meios são mobilizados para enfrentar o cenário de o avião sequestrado tentar uma aterragem em Lisboa - nesse caso o Super-Constellation seria cercado por agentes da PSP e bloqueado por viaturas motorizadas.

No cockpit, depois de sobrevoar o Barreiro, Palma Inácio dá ao comandante Marcelino instruções sobre o destino seguinte: "Agora vamos à malta fixe de Beja". São ainda lançados panfletos em Faro e quando o aparelho se aproxima da aldeia algarvia onde José Martins nasceu, no conselho de Silves, o emigrante vindo de Paris chora de emoção. Depois, mal disposto com as viragens bruscas ao longo do voo, vomita na casa de banho. Quando a hospedeira pergunta em voz alta "Quem foi o porco que sujou a sanita?", Martins acusa-se e vai limpar a porcaria.

Não costa algarvia, há dois navios de guerra portugueses, estrategicamente à espera do ataque por mar que Galvão simulara ir fazer com o intuito de enganar a polícia política. Para evitar um eventual ataque contra o avião, o comandante baixa ainda mais a altitude e passa por entre os dois navios, de forma a que nenhum possa disparar sem correr o risco de acertar no outro. Mas afinal os marinheiros acenam ao avião, descontraidamente.


O alerta de Sequeira Marcelino é interceptado por um avião militar onde segue o general Costa Macedo, ex-chefe do Estado-Maior da Força Aérea. Instantes depois, Gomes de Araújo, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, dá ordens para o Mouzinho de Albuquerque ser perseguido por dois caças da Força Aérea.

A sirene toca três vezes na Base Aérea de Monte Real, perto de Leiria. Os sargentos Adelino Lopes e João Roda interrompem um jogo de sueca com outros dois camaradas, correm para a pista, colocam os pára-quedas, saltam para os caças F-86 Sabre, ligam os motores e deslocam, sem saber qual é a emergência.

É já no ar que o centro de comando, em Monsanto, lhes dá instruções: "Falcões vermelhos, a vossa missão é sobrevoar as várias cidades do país, de Lisboa ao Algarve, à procura de um Super Constellation da TAP. Assim que o interceptarem, fazem os sinais convencionais para o obrigar a aterrar em Lisboa. Se ele se recusar, abatam o avião. Entendido? Faça-me o read back".

Adelino Lopes, que por ser o mais experiente liderara a parelha, repete as instruções que acaba de ouvir: "Entendido, se se recusar, abater o avião".

Está um dia de céu limpo. Atingem rapidamente a velocidade de cruzeiro, que equivale a cerca de 700 km/hora, passam o Tejo, sobrevoam Évora, Beja e todo o Algarve, sem encontrar qualquer avião. Informam disso mesmo a torre e pedem para regressar à base, pois começa a faltar o combustível.

Aterram em Monte Real após duas horas de voo e enquanto tiram os capacetes e despem os fatos encharcados em suor, são esperados por dois agentes da PIDE, que provocam o sargento Pereira: "Não viu o avião porque não quis. E não o abateu porque não quis abater". A discussão torna-se agressiva, o piloto diz que não admite que duvidem de si, e pouco depois são todos informados de que o avião da TAP tinha aterrado em Tânger antes de os caças terem descolado de Monte Real.

[...] Adelino Lopes tinha 29 anos e desconhecia ainda que o avião da TAP tinha sido desviado para lançar panfletos. Quase 50 anos depois, o capitão reformado da Força Aérea - que recebeu 15 valores - afirma que se tivesse visto o Mouzinho de Albuquerque e o piloto se tivesse recusado a acompanhá-lo para aterrar em Lisboa, teria procurado uma zona deserta, sem habitações no solo, e tê-lo-ia abatido: "Um militar cumpre instruções. Se eu não cumprisse uma ordem podia ser julgado num tribunal de guerra".

[...] Mesmo assim, a PIDE levantará oficialmente a suspeita de que a aviação militar não interceptou o aparelho por "negligência ou má-fé".

O Mouzinho de Albuquerque chega a Tânger às 12h20, três horas e cinco minutos depois de ter descolado de Casablanca - e com meia hora de atraso em relação ao que Palma Inácio e Henrique Galvão tinham combinado.


Amândio Silva faz um discurso de cinco minutos em francês e em inglês para informar os passageiros de que acabam de participar numa acção revolucionária contra a ditadura de Salazar, distribui-lhes alguns panfletos e pede-lhes desculpa pelo incómodo, uma vez que apenas seguirão para Lisboa depois de almoçarem no restaurante do aeroporto.

Os passageiros saem primeiro e, nos breves instantes em que os elementos da tripulação ficam a sós com os revolucionários, brindam com vinho e champanhe por tudo ter decorrido sem incidentes.

De boina preta e com o seu habitual uniforme, Henrique Galvão aguarda os operacionais no aeroporto, sorridente, ao lado do comissário da polícia de Tânger. Passou as suas últimas horas a falar com as autoridades marroquinas, para as informar do que estava a acontecer e a estudar soluções possíveis. Quando já só os seus operacionais estão no avião, à espera de saber se lhes concedem asilo político, o capitão sobe as escadas, entra no aparelho, beija Helena Vidal, abraça-se aos outros cinco cúmplices e dá os parabéns a todos. Palma Inácio diz-lhe com serenidade: "Missão cumprida".

Já fora do avião, Sequeira Marcelino quer ter a certeza de que não há bombas escondidas a bordo e pergunta: "O avião está limpo?" "Tem a minha palavra de honra", responde Palma Inácio. E promete pagar à tripulação um jantar em Portugal no mês seguinte - só se concretizará já depois do 25 de Abril.

O avião aterra em Lisboa às 15h48. A TAP emite um comunicado a reprovar o sequestro do aparelho, considera o crime tão grave que deve ser punido com pena máxima e anuncia a abertura de um inquérito: tanto a empresa como a PIDE desconfiam do comandante por acharem suspeita a alteração de última hora que o levou a trocar um voo para o Porto por esta viagem a Marrocos. A justificação de que pretendia ir ver um espectáculo de dança do ventre é pouco convincente. Apesar de todos os relatórios da Direcção-Geral de Aeronáutica considerarem a sua postura irrepreensível, fica suspenso de funções durante um mês».

Pedro Jorge Castro («O Inimigo N.º 1 de Salazar. Henrique Galvão, o líder do assalto ao Santa Maria e do sequestro de um avião da TAP»).


«Virá o fim, aparentemente iminente, da guerra da Argélia criar mais um problema político para Portugal em África? Isto é, será de prever que oficiais armados e treinados da FLN se desloquem para Angola através do Congo ou da Guiné? 

A Imprensa internacional tem, na verdade, publicado notícias de que as organizações estrangeiras responsáveis pelo terrorismo ao Norte de Angola, e que, por não haver encontrado ambiente propício, pôde ser dominado, estariam agora recrutando reforços entre efectivos da FLN, ou teriam enviado para a Argélia alguns dos seus sequazes para ali se treinarem e depois se infiltrarem em Angola através da fronteira norte. Apareceu até, há tempo, uma fotografia num grande jornal americano, mostrando no treino esses recrutas argelinos. Não sabemos se tais informações são ou não verdadeiras mas, para além das precauções que se impõem, retiramos daí dois pontos dignos de reparo. O primeiro é que certos sectores de opinião, que teimosamente se recusaram e ainda recusam a acreditar na nossa afirmação de que o terrorismo em Angola foi preparado, dirigido e lançado do exterior, são agora os primeiros a confirmar que a chamada "rebelião nacionalista" angolana depende exclusivamente da iniciativa estrangeira e é alimentada em fundos, material e pessoal, do exterior. Quer-nos parecer que tal confissão deveria ser acompanhada por firme reprovação, em nome dos princípios tão candidamente proclamados por esses sectores, da não intervenção nos negócios internos de cada país e da coexistência pacífica. Mas assim não acontece, e afigura-se que oficiais ou soldados argelinos serão considerados em tais sectores como "nacionalistas angolanos". Li há dias num jornal inglês de responsabilidade a notícia de que a Polónia estava procurando polacos que falassem português a fim de os enviar para Angola. Deverão também esses considerar-se "nacionalistas angolanos?"



Em segundo lugar, e confrontando essas informações com outras que todos os dias agora são publicadas acerca das recriminações e rivalidades entre dirigentes e os membros das referidas organizações, verifica-se que os responsáveis pelo terrorismo perderam a esperança de levar a pacífica população angolana a aderir ao seu movimento, não obstante as crueldades sobre ela praticadas com vista a engrossar, pela intimidação, as suas fileiras, para criar a aparência de se tratar de movimento interno. Falhado esse objectivo, restava o recurso que parece agora seduzi-los - pelo que a notícia, se nos põe de sobreaviso, não nos surpreende. Mas será curioso notar: o mundo considera os estrangeiros alistados nas forças catanguesas como "mercenários", cuja acção há que proibir; mas os estrangeiros que lançam o terror no Norte de Angola devem ser tidos como "nacionalistas angolanos!"».

Oliveira Salazar («Problemas Portugueses em África»).


«(...) A intervenção cubano-soviética em Angola, desde os inícios de 1975, e a sua posterior escalada, desmente a visão de que ela é produto de uma reacção à presença sul-africana. O vice-ministro das Relações Exteriores de Castro, Ricardo Alarcon, declara à imprensa estrangeira em Dezembro de 1975, que o envio de tropas cubanas para Angola havia começado na Primavera de 1975, para a base de Massangano.

Em Agosto, as baterias cubanas abrem fogo no Bié sobre o avião que transporta Jonas Savimbi. A 9 de Agosto, a UNITA decide declarar guerra ao MPLA e aos seus assessores cubanos; por essa mesma altura, a presença cubana começa a activar-se após a chegada do general Raul Dias Arguelles, que assume o comando das operações e estabelece uma "testa de ponte" em Angola, preparando a massiva irrupção posterior.

À medida que se aproximam as eleições, o MPLA, incentivado pelos conselhos do PC português, atiça a guerra civil em todas as frentes, e em especial contra a FNLA, nas imediações de Luanda. Mesmo assim, a luta estende-se também contra a UNITA. Os colonos de origem portuguesa ameaçam ser alvo do MPLA e inicia-se o êxodo».

Juan F. Benemelis («Castro, subversão e terrorismo em África»).


«De 1975 a 1989, Cuba deu apoio ao regime marxista-leninista do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA - ver contributo de Ives Santamaria), ao qual se opunha a UNITA de Jonas Savimbi. Aos inúmeros "cooperantes" e às dezenas de "conselheiros técnicos", Havana juntou um corpo expedicionário de cinquenta mil homens. O exército cubano comportou-se em África como em terreno conquistado. Os tráficos foram numerosos (dinheiro, marfim, diamantes) e a corrupção endémica. Quando, em 1989, os acordos de Nova Iorque sancionaram o fim do conflito, as tropas cubanas, na maioria negros, foram repatriadas. Mas as suas baixas estão avaliadas entre sete e onze mil mortos.

[...] Desde Outubro de 1974, as armas soviéticas vêm aumentar o potencial das milícias do MPLA, que beneficiam também do apoio da ala esquerda do exército português, reagrupado no Movimento das Forças Armadas (MFA). Influenciados pelo Partido Comunista Português, estes sectores podem então contar com a presença em Luanda, desde Agosto de 1974, do "almirante vermelho" Rosa Coutinho. No mês de Março de 1975, os primeiros elementos cubanos e soviéticos desembarcam em Angola. Fidel Castro explicará a posteriori a decisão: "A África é hoje o nó fraco do imperialismo. É lá que existem perspectivas excelentes para se poder passar do tribalismo ao socialismo sem ter de percorrer as várias etapas que tiveram de atravessar algumas outras regiões do mundo". Depois da dissolução do governo (8-11 de Agosto), o Vietnam Heróico acosta a Luanda: a bordo, várias centenas de soldados (negros, na sua maioria). Já são 7000 quando, a 23 de Outubro, a União Sul-Africana intervém maciçamente ao lado da UNITA, doravante relegada pelo Pravda para o estatuto de "força fantoche, armada pelos mercenários da China e da CIA com o auxílio dos racistas sul-africanos e rodesianos". [...] A 11 de Novembro de 1975, MPLA e UNITA proclamam cada um pelo seu lado a independência do país, enquanto se desenha um novo mapa daquela que era a pérola do Ultramar português: o MPLA domina os portos, o petróleo e os diamantes, isto é, grosso modo, o litoral; os seus rivais (entre os quais a UNITA conquista em breve a supremacia) apoiam-se no Norte e, sobretudo, nos planaltos centrais.






[...] Líder incontestado do Movimento, Agostinho Neto é negro, antigo assimilado, proveniente de uma família de pastores protestantes e "organizado" pelo PC português, de pró-sovietismo comprovado, desde os anos cinquenta. Fundado em 1956, o MPLA fundiu, no decurso das estadas que se multiplicaram na URSS ao longo dos anos sessenta, um bom número dos seus quadros dirigentes (como J. Mateus Paulo ou A. Domingos Van Dunem) no molde marxista-leninista que então vigorava. Ao estudo do socialismo científico juntava-se, para alguns deles (J. Njamba Yemina), uma formação militar adequada, na União Soviética ou nas escolas de guerrilha de Cuba. É na sequência da tomada do poder que o Congresso de Luanda (4-10 de Dezembro de 1977) compreende a necessidade de passagem de um movimento de tipo frentista para uma estrutura de vanguarda decalcada do modelo bolchevique e apta a assumir o estatuto de "partido irmão" no movimento comunista internacional. Com efeito, o novo "MPLA-Partido do Trabalho" foi de imediato reconhecido por Raul Castro, presente no Congresso, como o único "capaz de exprimir correctamente os interesses do povo trabalhador".

[...] Ministro da Administração Interna, rival de Neto, Nito Alves encontrava-se em Luanda quando dos acontecimentos de 25 de Abril de 1974... Na ausência da direcção exterior, conseguiu conquistar uma audiência não negligenciável junto dos negros urbanizados, negando nomeadamente aos brancos a nacionalidade angolana, salvo comportamento anticolonialista confirmado. Apoiou-se numa rede de comités de bairro, em nome de um "Poder popular" para cuja conquista não recuou perante as práticas mais estalinistas, pouco susceptíveis, aliás, de surpreender as suas vítimas, geralmente de obediência maoísta. Seguro das garantias que certamente lhe foram dadas pelos Soviéticos, pelos Cubanos e pelos comunistas portugueses, ensaiou um golpe de força a 27 de Maio de 1977 para tentar evitar a depuração desencadeada pouco tempo antes contra os seus partidários. Enquanto o fracasso da operação se tornava patente (nomeadamente em virtude da política de espera dos conselheiros estrangeiros de Nito Alves), Neto tomou a palavra na rádio: "Penso que o nosso povo irá compreender as razões pelas quais estamos a actuar com uma certa dureza contra aqueles que estão relacionados com estes acontecimentos". Acusados de "racismo, de tribalismo e de regionalismo", os desviacionistas foram objecto de uma depuração radical. Enquanto o Comité Central e o aparelho eram profundamente remodelados e os confrontos ensanguentavam a capital, a repressão alargava-se às capitais provinciais: em Ngunza (Cuanza Sul), 204 desviacionistas teriam sido abatidos apenas na noite de 6 de Agosto, o que iria dar alguma credibilidade aos números avançados depois de 1991 pelos sobreviventes, segundo os quais o MPLA teria realizado uma depuração de vários milhares dos seus membros nessa altura. Os comissários políticos das FAPLA (Forças Armadas) foram igualmente alvo da vigilância de Sapilinia, membro do Comité Central que chefiou pessoalmente a respectiva liquidação em Luena (Moxico)».

(«O Livro Negro do Comunismo»).


«Analise-se com cuidado o percurso de Mário Soares, desde o 25 de Abril até ao 11 de Março de 1975, ou mesmo antes, quando começou a tomar consciência de que o "poder" que tanto ambicionava e pelo qual lutara tão arduamente durante tanto tempo, parecia escapar-se-lhe e ameaçava cair nas mãos dos comunistas. É, no mínimo, curioso verificar que Cunhal, talvez um dos principais interessados em entregar à URSS a tutela dos territórios ultramarinos, nunca se envolveu directamente no processo de descolonização, limitando-se a sua acção a meras declarações de circunstância. Em quantos encontros desde Bruxelas, Londres, Dakar, Argel, Lusaka e outros locais, onde se decidiu o futuro das colónias portuguesas, participou o Dr. Álvaro Cunhal? Mas alguém, minimamente avisado, acredita que o patrão dos comunistas portugueses, esteve inactivo nesta matéria ou se limitou a simples espectador? Seria demasiado ingénuo pensar-se assim. Não deu a cara, como aliás a maioria dos comunistas, para não criar um clima de suspeição e até medo, mas não se limitou a ser um observador atento apesar de as coisas lhe correrem de feição. A sua acção e dos seus correligionários directos manteve-se oculta, mas altamente eficaz. Manobrava na sombra e sempre muito atento ao que se ia desenrolando em todos os quadrantes da vida nacional. Conhecia perfeitamente os objectivos da descolonização, possivelmente dera o seu contributo para a sua definição e a sua intervenção directa só faria sentido se o processo se desviasse clara ou perigosamente do que tinha sido planeado mesmo antes do 25 de Abril».

General Silva Cardoso («Angola. Anatomia de uma Tragédia»).


«Nunca pensámos que a independência seria o país convertido numa imensa prisão e num cemitério».

Luís Fernandes do Nascimento




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«O relógio do comunismo já soou todas as suas badaladas.

Mas o edifício de betão ainda não ruiu.

E não conviria que, em vez de sermos libertados, perecêssemos esmagados debaixo dos seus escombros.

[...] E não devemos imitar os Portugueses que abandonaram Angola e a deixaram na confusão e longos anos de guerra civil».

Alexandre Soljenitsyne («Como Reordenar a nossa Rússia»).


«Da autoria de José Pestana, transcrevo, com a devida vénia, da Revista Visão de 6 de Outubro de 1994, o artigo intitulado KGB recrutou oficiais das FA portuguesas. Numa Europa varrida pelo euro-comunismo, Álvaro Cunhal era um amigo com que se podia contar... 

"Álvaro Cunhal era, na Europa Ocidental, um dos comunistas em quem melhor se podia confiar", afirmou à VISÃO o major-general Oleg Kalugin, antigo chefe da contra-espionagem do KGB — o Primeiro Directório. "Toda a operação foi possível devido ao envolvimento do PCP", acrescenta, a propósito do desvio de arquivos da ex-PIDE/DGS para a embaixada soviética em Lisboa e, posteriormente, para Moscovo. "Os comunistas portugueses tinham os seus próprios amigos infiltrados nas forças de segurança e nos que tomavam conta dos arquivos da PIDE e foram eles que ajudaram a transportar os documentos para a nossa embaixada", recorda.

O antigo dirigente da polícia secreta soviética afirma que foram recrutados agentes entre os oficiais das Forças Armadas Portuguesas, no período que se seguiu ao 25 de Abril de 1974.

"Foram recrutados pelas afinidades ideológicas", acrescenta, esclarecendo que, por essa razão, não trabalhavam em troca de remuneração.

Na conversa com a VISÃO, Oleg Kalugin demonstrou um perfeito conhecimento da situação política e dos protagonistas do pós-25 de Abril. E revelou conhecer em profundidade a situação então vivida nas ex-colónias portuguesas. Acima de tudo, o ex-chefe da contra-espionagem soviética mostra que sabe do que está a falar.

Referindo-se a Álvaro Cunhal, Kalugin abriu um sorriso e disse que o antigo secretário-geral do PCP era um dos melhores amigos que os soviéticos podiam ter. E recorda que o euro-comunismo que varria a Europa e tinha a sua expressão maior no PC italiano de Enrico Berlinguer, provocava grande inquietação em Moscovo.

O ex-oficial soviético esclarece que o maior interesse era o de obter informações relativas ao funcionamento da NATO. Interrogado se os oficiais então recrutados ainda estão no activo, respondeu com um lacónico "não sei".

GROTESCO. Na sequência da Revolução portuguesa, e numa operação descrita como uma das mais audazes do mundo da espionagem, Oleg Kalugin conta, num livro acabado de publicar nos EUA, como simpatizantes comunistas portugueses passaram aos serviços secretos da União Soviética um camião carregado de documentos que permitiriam a Moscovo forçar alguns antigos agentes da PIDE a espiar para o KGB.






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A obra, intitulada precisamente O Primeiro Directório, escrita com a ajuda do antigo correspondente em Moscovo do The Philadelphia Inquirer, Fen Montaigne, foi editada pela St. Martin's Press, Nova Iorque. Numa das suas 364 páginas, o antigo oficial de Moscovo relata:

"Um dos mais grotescos episódios das operações europeias do KGB durante a minha comissão ocorreu em meados dos anos 70 em Portugal, logo a seguir à queda da ditadura de Salazar. O Partido Comunista Português era o terceiro maior da Europa (depois do italiano e do francês), e na segunda metade da década o socialismo e o comunismo gozavam de amplo apoio no país. A verdade é que nós tínhamos agentes em todos os escalões do serviço secreto português, e no caos que sucedeu à revolução socialista que derrubou Salazar (sic) os nossos agentes executaram um audacioso golpe. Certa noite, com o auxílio de toupeiras e simpatizantes no interior do aparelho de segurança, portugueses ao serviço do KGB foram de camião até ao Ministério da Segurança (sic) e tiraram de lá para fora um monte de documentação classificada, incluindo listas de agentes da polícia secreta que haviam trabalhado para o regime de Salazar. O carregamento foi entregue na nossa embaixada de Lisboa e mais tarde transportado por via aérea para Moscovo, onde os analistas gastaram meses a analisar todos esses papéis. Portugal era membro da NATO, de onde haver algum material sobre operações militares norte-americanas na Europa, se bem que de limitado interesse. Mas o material realmente importante era a lista de milhares de agentes e informadores que tinham trabalhado para a ditadura de Salazar - informação que os nossos funcionários posteriormente usaram para forçar alguma dessa gente a trabalhar para nós. Na história dos golpes de informação secreta da guerra fria, a operação portuguesa não terá sido um êxito colossal; mas pela sua absoluta audácia - safar do próprio Ministério da Segurança (sic) um camião repleto de material - poucas acções terão rivalizado com ela".

A referência ao inexistente "Ministério da Segurança" é explicável pela confusão instalada em Portugal nessa altura. As atribuições de segurança estavam repartidas entre diversos organismos, no seio dos quais simpatizantes de várias tendências políticas de esquerda lutavam pelo controlo das informações. Destacavam-se, entre eles, a 2.ª Divisão do Estado-Maior General das Forças Armadas e o Copcon. Mas quem, no seu perfeito juízo, poderia conceber, em plena guerra fria e num país da NATO, tão inacreditável operação?».

Fernando Pacheco de Amorim («25 de Abril. Episódio do Projecto Global»).


«A mesma atitude que [Álvaro Cunhal] tem para com a sua vida pessoal, tem-na com a memória colectiva do PCP, de que ele é, em grande parte, o depositário. Uma vez apontou para uma parede comprida de um anfiteatro e disse: "Eu não tenho arquivo pessoal, mas a minha documentação não cabia naquela parede". Mas preveniu logo a seguir que "os arquivos do PCP não estão abertos aos investigadores". Noutra altura firmou que "para os estudiosos, há sempre uma grande gulodice por arquivos. Mas há arquivos e arquivos", e os do PCP pertencem à segunda categoria, aqueles que não se revelam.

Autor, ele próprio, por escrito em textos oficiais ou por estudadas inconfidências, de praticamente tudo o que o PCP disse sobre a sua própria história, ninguém mais do que Cunhal está preso nela, enredado nas versões "oficiais" do que aconteceu. Embora admita que possa haver a prazo uma revisão da história "oficial" do PCP - "análises [...] certamente exigirão em muitos casos que os critérios sejam diferentes das análises que se fizeram em tal ou tal momento" -, nega que haja uma deliberada ocultação da história. O PCP não se estaria a comportar como os «partidos [que] estão a deitar fora o que não serve", mas não deixou, noutra altura, de dizer que estava a limpar as gavetas, não vá aparecer publicado o que não deseja.

[...] O problema do PCP não é com as "análises", é com os factos. No plano ideológico e político, Álvaro Cunhal tem uma concepção instrumental da história que tem a ver, acima de tudo, com a "identidade". Para Cunhal, a história tem sentido e direcção, logo uma retaguarda e uma vanguarda. Há quem esteja com a história e quem esteja contra a história.





Daí que a própria revelação ou ocultação dos factos têm a ver com a sua hierarquia em relação ao sentido dessa história. Uma história que não seja assim é percebida como uma invasão na identidade partidária, uma perigosa ruptura com essa hierarquia de acontecimentos. Está, para Cunhal, uma batalha em curso, usando a "história" do PCP como arma, e ele não quer ajudar os "inimigos" do partido. A "história" do PCP é, para ele, um instrumento de "luta" e, face a esta concepção da história, há "amigos" e "inimigos".

Num texto já antigo que escrevi, o primeiro que se publicou sobre a resistência do PCP ao conhecimento da sua história, e que suscitou na altura uma dura polémica porque o PCP e a esquerda o receberam quase como uma provocação, identifiquei os núcleos de omissão e manipulação que o PCP transportava consigo [José Pacheco Pereira, «Problemas da história do PCP», O Fascismo em Portugal. Actas do Colóquio Realizado na Faculdade de Letras de Lisboa em Março de 1980, Lisboa, Regra do Jogo, 1980]. Quase vinte anos depois, pouco mudou: os mesmos períodos malditos, as mesmas pessoas obliteradas dos acontecimentos, os mesmos documentos desaparecidos, os mesmos critérios de exclusão e inclusão do que é politicamente aceitável, é para esquecer.

De mal com a sua história, o PCP não consegue libertar-se não só da instrumentalidade, mas também dos fragmentos de "história oficial" que produziu e que qualquer investigação contraria. Resta-lhe uma resistência cada vez mais sem sentido - o silenciamento forçado dos seus militantes, os arquivos fechados, a incomodidade crescente, cada vez que se conhece mais sobre o que se passou.

O que daqui resulta é uma história que, para se fazer, tem de estar permanentemente a medir-se com a propaganda política que ocupa o seu lugar.

Mesmo os conhecedores da história do PCP poderão encontrar neste livro uma avaliação nova de muitos eventos e o surgimento do nada de muitas personagens que desapareceram da história com a mesma eficácia com que os reconstrutores de imagens soviéticos e chineses tiravam os dirigentes caídos em desgraça das fotografias. O resultado foi dar de novo vida a pessoas cuja existência foi deliberadamente varrida dos acontecimentos em que tiveram, muitas vezes, um papel principal. Com a emergência desse papel, todo um novo sentido de equilíbrio dos eventos surge aos nossos olhos.

A estes problemas acrescenta-se a dificuldade muito grande de tratar da actividade clandestina. A clandestinidade soterra os eventos num manto de segredo, compartimenta o conhecimento e redu-lo a um número muito pequeno de pessoas. Muito do que acontece nunca fica escrito em papel, e o que ficava estava até há pouco - e ainda está em grande parte - fechado nos arquivos inatingíveis dos partidos comunistas e da URSS. A investigação histórica de actividades clandestinas defronta uma enorme escassez de fontes escritas e uma reconstrução da memória a posteriori nos depoimentos orais.

[...] Mal decidi escrever esta biografia, comuniquei-o a Álvaro Cunhal. Posteriormente, fiz-lhe um pedido de entrevista, especificando as questões sobre as quais tinha dúvidas. Informei-o de que não tinha qualquer interesse em tratar nada na sua biografia pessoal que não permitisse a interpretação da sua vida política e que respeitaria a sua privacidade. Cunhal respondeu pelo silêncio. Está no seu direito, como eu estou no de escrever sobre esse silêncio.






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Como aconteceu com Álvaro Cunhal, algumas pessoas que foram próximas da sua vida e que participaram nos eventos descritos neste livro recusaram-se a prestar depoimentos ao autor. Houve casos em que, após uma aceitação inicial, seguiu-se uma recusa. Houve pressões para que não testemunhassem. Individualmente, cada um está no seu direito de falar ou não, mas é cada vez mais inglória a tentativa de, pelo silêncio, impedir que se faça a história do comunismo português.

[...] Uma biografia "autorizada" de Álvaro Cunhal seria, aliás, uma contradição nos seus termos e, se alguém pensar que a pode fazer, estará devidamente a ser conduzido pelo poder de um homem que conhece melhor do que muitos as fraquezas humanas e as soube e sabe usar. Fê-lo em situações muito mais complicadas do que a de reconstruir a sua vida de forma politicamente correcta, coisa que já fez e que certamente continuará a fazer, caso tenha oportunidade, usando sabiamente a sedução inevitável da sua própria personagem. Cunhal tem, aliás, uma predilecção particular para falar com jovens jornalistas, que ele sabe estarem seduzidos pela personagem, a quem conta o que quer e como quer, sem medo de ser contraditado ou sujeito a perguntas difíceis.

[...] O rastro de documentos que as actividades políticas de Cunhal deixaram foi drasticamente reduzido depois do 25 de Abril pela desaparição de vários arquivos do material sobre a sua acção política. Faltam nos arquivos da PIDE os mais importantes volumes documentais que lhe diziam respeito, em particular os que coligiam a informação operacional da polícia - relatórios de informadores, informações oriundas de serviços estrangeiros. Nos arquivos do Tribunal Militar Especial, faltam igualmente os processos de Cunhal de 1937 e 1940, que continham documentação anexa enviada pela PVDE, que apenas aí se encontrava.

O facto de, em todos os casos, a documentação sobrante ser a menos importante e se poder traçar até certo ponto o que falta e a sua importância mostra que estes arquivos foram expurgados de muita documentação relevante. Só muito penosamente e através da consulta de documentação redundante se pode reconstituir um pequena parte do que falta.

Do mesmo modo, os arquivos do PCP permanecem essencialmente fechados aos investigadores, mesmo para períodos cronologicamente remotos. É verdade que alguns investigadores, com o beneplácito do PCP, puderam selectivamente aí consultar documentos, mas, quando os mesmos documentos foram pedidos para este trabalho, não apareciam e ninguém sabia deles.

Nestas circunstâncias, este livro seria praticamente impossível sem as fontes soviéticas dos arquivos russos entretanto semiabertos. Elas foram o elementos inesperado na história do movimento comunista e permitem, pela primeira vez, avaliar o processo de decisão nos PC e o papel individual dos dirigentes comunistas nos eventos. Infelizmente, também aí reina, hoje, a arbitrariedade e os critérios pontuais e um agravamento crescente das condições de investigação».

José Pacheco Pereira («A biografia de um homem que não quer ser biografado», in Álvaro Cunhal. Uma Biografia Política, Vol. 1, 1999).




José Pacheco Pereira
























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Comunismo e Terrorismo


Nos anos vinte e trinta, o movimento comunista internacional concentrou-se na organização de insurreições armadas, todas elas malogradas. Abandonou então esta via de acção e aproveitou, durante os anos quarenta, as guerras de libertação nacional contra o nazismo ou o militarismo japonês e, nos anos cinquenta-sessenta, as guerras de descolonização, para criar verdadeiras formações militares, grupos de guerrilha que se transformaram pouco a pouco em tropas regulares, em verdadeiros exércitos vermelhos. Na Jugoslávia, na China, na Coreia do Norte, e mais tarde no Vietname e no Cambodja, esta acção permitiu aos partidos comunistas apoderarem-se do poder. Entretanto, o desaire sofrido pelas guerrilhas na América Latina - duramente combatidas por tropas especiais formadas pelos Americanos - incitou os comunistas a voltarem às acções ditas "terroristas" que tinham até então praticado pouco, continuando o atentado contra a catedral de Sófia, em 1924, a constituir uma excepção. É verdade que a distinção entre terrorismo puro e simples e a preparação de uma eventual insurreição armada é relativa - são muitas vezes os mesmos homens que operam no terreno, tratando-se embora de tarefas diferentes. Estas formas de acção não são, aliás, mutuamente exclusivas. Numerosos movimentos de libertação nacional, de acordo com a terminologia em vigor, combinavam terrorismo e guerrilha na sua acção armada, como, por exemplo, a Frente de Libertação Nacional e o Exército de Libertação Nacional na Argélia.

O caso argelino é interessante na medida em que os partidários da Argélia francesa vêem na insurreição nacionalista o resultado directo das manobras urdidas em Moscovo, encontrando uma confirmação adicional desta tese no facto - devidamente comprovado - de, durante a batalha de Argel (1956-1957), o Partido Comunista Argelino ter cedido ao chefe da FLN da capital, Saadi Yacef, os seus melhores especialistas em explosivos.

Significaria isto o enfeudamento do movimento nacionalista ao comunismo? No terreno, passava-se exactamente o contrário, o PCA era obrigado a submeter-se à liderança da FLN. Esta última beneficiava, no exterior, de um apoio político muito claro por parte da URSS. No entanto, com excepção de algumas operações muito limitadas dos serviços especiais, Moscovo teve sempre o cuidado de não se envolver directamente no conflito com a França. O fornecimento de armas à FLN estava a cargo do Egipto de Nasser, da Jugoslávia de Tito e, no que respeita ao bloco de Leste, da Checoslováquia, agindo «por procuração» (alguns quadros da FLN foram formados em Praga nas técnicas da clandestinidade). Os soviéticos optaram por manter-se à margem. Teriam tido o pressentimento de que a futura Argélia seria politicamente muito próxima deles, mas também muito ciosa da sua independência? A realidade é que os serviços especiais de Moscovo nunca tiveram autorização para observar de perto o santo dos santos do novo regime, a Segurança Militar, ao contrário do que aconteceu com a DGI cubana.

Outro exemplo da prudência soviética face aos movimentos nacionalistas menos acomodatícios: o caso irlandês. Apanágio do IRA (Irish Republican Army, fundado em Dublin quando da insurreição gorada da Páscoa de 1916), o «republicanismo» continuava a ser uma forma de pensar muito específica da Irlanda. Sem negligenciar a questão social, colocava o problema nacional (a partir de 1921, a reunificação da ilha, arrancando os seis condados do Norte à Coroa britânica), no centro de toda a actividade. No entanto, os pró-soviéticos oficiais, que iriam fundar, em 1933, o Communist Party of Ireland, afastavam-se cada vez mais das preocupações puramente nacionalistas, dando primazia à «luta de classes».










O IRA queria armas para combater os Ingleses. No período de entre as duas guerras, tentaram obtê-las na URSS. Por várias vezes, Moscovo iludiu delicadamente estes pedidos reiterados: não parecia sensato armar aquela gente demasiado independente e correr o risco de um conflito aberto com a Grã-Bretanha. O facto de várias centenas de membros da organização clandestina terem ingressado nas Brigadas Internacionais em Espanha em nada alterava os dados da questão. Em 1939-1940, quando o IRA empreendeu uma nova vaga de atentados à bomba na própria Inglaterra, a sua unidade mais secreta, composta por um pequeno grupo de militantes nacionalistas protestantes, e por isso mesmo menos suspeitos, foi infiltrada pelo aparelho comunista, animado nomeadamente por Betty Sinclair. Por toda a Europa, grupos de sabotadores, como os da rede de Ernst Wollweber, estavam preparados para atacar navios alemães, mas também britânicos e franceses. Na ocasião, Moscovo encarou a hipótese de utilizar o IRA. Sabotando certos navios de guerra de Sua Majestade, a organização clandestina camuflaria simultaneamente as operações soviéticas contra os ingleses. O projecto acabou, porém, por malograr-se totalmente. De tudo isto, Moscovo reteve uma certa desconfiança relativamente a estes Irlandeses dispostos a todas as alianças para conseguirem o equipamento de que necessitavam, mas que se recusavam a pagar por ele o justo preço político, submetendo a sua estratégia à de terceiros. No começo dos anos setenta, o IRA voltou a pegar em armas (e muitas vezes em explosivos, que eram a sua especialidade) contra os Britânicos, na sequência da revolta dos guetos católicos da Irlanda do Norte. Ao contrário do que afirma uma lenda tenaz, as armas e os explosivos utilizados não provinham, directa ou indirectamente, da URSS. Na realidade, o verdadeiro apoio situava-se e continua a situar-se do outro lado do Atlântico, no seio da comunidade irlando-americana.

A «mão de Moscovo» não é, pois, omnipresente. Mas nem por isso deixou de desempenhar um papel activo no apoio a certas formas de terrorismo no Médio Oriente. Partindo da premissa que as organizações palestinianas representavam um movimento de libertação nacional comparável à FLN, cedo os soviéticos reconheceram publicamente a OLP de Yasser Arafat e a sua principal componente, a El Fatah. Mas o KGB mantinha simultaneamente um olhar atento voltado para uma outra tendência do nacionalismo palestiniano, a FPLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina) do Dr. George Habash. Reclamando-se de um marxismo radical, este movimento, muito bem estruturado, organizava e reivindicava sem o menor complexo atentados terroristas e espectaculares desvios de aviões comerciais. Inaugurada em Julho de 1968 com o desvio de um Boeing da El AL, e em Dezembro com o atentado contra o aeroporto de Atenas, esta estratégia culminou em 1970, pouco antes do esmagamento dos palestinianos pelas tropas do rei Hussein da Jordânia. No aeródromo improvisado de Zarka, para onde tinham sido desviados, ficando os seus passageiros retidos como reféns, a FPLP fez explodir um Boeing da TWA, um DC-8 da Swissair e um Viscount VC-10 da BOAC.

Preocupado com esta viragem terrorista demasiado acentuada, um dos quadros da organização, Nayef Hawatmeh, decidiu-se pela cisão, em 1970-1971, fundando a FDLP (Frente Democrática e Popular para a Libertação da Palestina). Em nome do necessário «trabalho de massas» e do «internacionalismo proletário», essa organização, cada vez mais alinhada pelas posições comunistas ortodoxas, repudiou publicamente o terrorismo que ela própria tinha durante algum tempo continuado a praticar. Assim, a FDLP parecia, em princípio, o melhor aliado palestiniano dos comunistas. Mas, paradoxo apenas aparente, o KGB reforça, pela mesma altura, o seu apoio à FPLP. E como há sempre alguém mais extremista do que nós, o Dr. Habash depressa se viu ultrapassado pelo seu braço direito e «director de operações», Wadie Haddad, um antigo cirurgião dentista diplomado pela Universidade Americana de Beirute.

Um homem de experiência, este Dr. Haddad. Para Pierre Marion, ex-chefe da DGSE, os serviços especiais franceses, Haddad é o verdadeiro inventor do terrorismo moderno: «Foi ele que imaginou as estruturas; foi ele quem formou os principais responsáveis; foi ele que aperfeiçoou os métodos de recrutamento e de formação e foi ele que afinou as tácticas e as técnicas» (1).







Em fins de 1973, princípios de 1974, separou-se da FPLP para criar a sua própria estrutura, o FPLP-Cose (FPLP - Comando de Operações Exteriores), inteiramente dedicada ao terrorismo internacional, enquanto a organização de Habash se esforçava por levar por diante outras actividades, tentativas de operações de guerrilha contra o exército israelita e trabalho de massas nos campos de refugiados palestinianos.

O KGB tomou, no entanto, a decisão de apoiá-lo, como se pode comprovar por esta claríssima mensagem datada de 23 de Abril de 1974, com a referência 1071-1/05. Emitida pelo KGB, destinava-se a Leonid Brejnev em pessoa:

«O Comité para a Segurança do Estado mantém, desde 1968, efectivos contactos clandestinos com W. Haddad, membro do Bureau Político do FPLP, chefe das Operações Exteriores da FPLP.

Por ocasião do seu encontro com o chefe da rede do KGB no Líbano, em Abril último, Wadie Haddad expôs confidencialmente o programa dos projectos de actividades de subversão e de terrorismo da FPLP, cujos pontos essenciais abaixo se indicam».

Segue-se uma lista de objectivos visados, actos terroristas e subversivos no território de Israel, ataques contra os monopólios de diamantes, atentados contra diplomatas israelitas, sabotagem de instalações petrolíferas e dos petroleiros na Arábia Saudita, no Golfo e mesmo em Hong Kong.

E o KGB precisava:

«W. Haddad pede-nos que ajudemos a sua organização a obter certos tipos de material especial indispensáveis para acções subversivas. Ao colaborar connosco e ao pedir a nossa ajuda, W. Habbad sabe pertinentemente que, em princípio, reprovamos o terror e por isso não nos coloca questões relacionadas com este aspecto das actividades da FPLP. O carácter dos nossos contactos com W. Haddad permite-nos, de certa maneira, controlar as actividades do Serviço de Operações Exteriores, exercer sobre ele uma influência vantajosa para a União Soviética e realizar, para nosso interesse, através das forças desta organização, operações activas, sempre respeitando o necessário sigilo».

Um belo exemplo de linguagem dupla. A conclusão era evidente: ao diabo os princípios desde que se possa atingir o adversário sem se deixar apanhar. Transmitido a Suslov, Podgorny, Kossyguine e Gromyko, o documento foi aprovado a 26 de Abril (2).

O melhor aluno de Wadie Haddad foi um jovem venezuelano chamado Ilitch Ramirez-Sanchez, mais conhecido sob o pseudónimo de Carlos. Os dois homens foram postos a trabalhar com os sobreviventes de um grupo terrorista asiático, o Exército Vermelho Japonês, cujo itinerário é muito instrutivo. Criado nos finais dos anos sessenta, quando da radicalização do movimento estudantil nipónico e no auge da vaga maoísta, o EVJ entrou rapidamente em contacto com agentes norte-coreanos (existe uma importante comunidade coreana no arquipélago japonês). Estes últimos formaram os seus quadros e forneceram-lhes material, mas não conseguiram impedir o desencadear de uma sangrenta vingança entre «dissidentes» e «ortodoxos», no início dos anos setenta. Uma parte dos quadros do EVJ passou-se, de armas e bagagens, para o serviço dos Norte-Coreanos; presentemente refugiados em Pyongyang, fazem o papel de homens de negócios e de intermediários com o Ocidente. A outra parte decidiu internacionalizar ainda mais as suas actividades, alinhando com Wadie Haddad. São, assim, três membros do EVJ que, às ordens da FPLP, executaram a matança do aeroporto de Lod-Telavive, em Maio de 1972: 28 mortos.






O facto de a FPLP-Cose ter trabalhado intimamente com o banqueiro nazi suíço François Genoud, facto que foi revelado por Pierre Péan em O Extremista, com base nas confissões do próprio Genoud, não incomodava minimamente o KGB (3). Que também não via qualquer problema no espectacular desenvolvimento das actividades de Carlos às ordens da FPLP-Cose, primeiro, e, depois, por conta da sua própria organização.

A indulgência dos partidos comunistas relativamente aos extremistas do Médio Oriente não foi exclusivamente reservada a Carlos. Violentamente hostis a Yasser Arafat e à OLP, Abu Nidal e o seu Fatah-Conselho Revolucionário, primeiro ao serviço dos Iraquianos e depois dos Sírios, também foram beneficiados, embora em menor grau - julgavam-nos menos controláveis. O seu chefe, doente, conseguiu mesmo assim ser operado em segredo, ao abrigo da Cortina de Ferro.

Uma outra implicação directa dos países de Leste no terrorismo internacional moderno foi a manipulação da Rote Armee Fraktion (RAF - Fracção do Exército Vermelho -, a chamada pela imprensa «Grupo Baader») na Alemanha. Nascida da contestação estudantil, esta pequena organização, formada por cerca de cinquenta membros directamente activos e movimentando cerca de um milhar de pessoas, lançou-se, nos anos setenta, num terrorismo demonstrativo, visando especialmente os interesses americanos. Depois de 1977, quando do assassínio do «patrão dos patrões» da Alemanha Ocidental, Hanns Martin Schleyer, seguido da morte na prisão dos seus chefes, Ulrike Meinhof e Andreas Baader, o grupo encontrou refúgio do outro lado do Muro de Berlim, a troco de uma subordinação cada vez mais acentuada à STASI, da qual passou a ser, de certa forma, o braço armado oculto. Após a queda do Muro e da reunificação das Alemanhas, os últimos sobreviventes foram presos no Leste, onde residiam.

A manipulação de guerrilhas e de grupos terroristas nem sempre é fácil. Exige tacto e um sentido político muito apurado. Talvez tenha sido por esta razão que, em 1969-1970, o KGB, na pessoa de um dos seus mais brilhantes elementos, Oleg Maximovitch Netchiporenko, e com a ajuda dos Norte-Coreanos, decidiu criar, quase de raiz, um movimento às suas ordens, o Movimiento de Acción Revolucionaria (MAR), que viria a ser desmantelado pela polícia mexicana (4) em 1971. Certamente que o objectivo de uma manobra tão arrojada era pôr-se ao abrigo dos exageros, indisciplinas e outras iniciativas infelizes dos grupos castristas e paramaoístas. Alguns escaparam ao controlo dos seus supostos mentores. A FRAP (Frente Revolucionária Antifascista e Patriótica) espanhola namoriscou durante algum tempo os Chineses, e mais tarde, no início dos anos setenta, os Albaneses, na esperança, que se revelaria vã, de conseguir armas, tendo-se dissolvido para dar lugar aos GRAPO (Grupos de Resistência Antifascista do 1.º de Outubro). Quanto ao Sendero Luminoso peruano, de Abimael Guzmán, que originariamente se reclamava do maoísmo puro e duro, nomeadamente da «guerra popular prolongada», votava em contrapartida uma profunda execração a Deng Xiaoping e aos novos dirigentes de Pequim. Em Dezembro de 1983, tentou inclusivamente atacar a embaixada chinesa de Lima!

Em certos casos raros - porque o risco era demasiado grande na época moderna -, os países comunistas levaram a cabo, directamente, atentados terroristas por intermédio dos seus serviços especiais. Foi o que aconteceu em 1987, quando uma equipa de dois agentes norte-coreanos, um velho quadro experimentado, Kim Seung-il, e uma jovem, Kim Hyuon-hee, com três anos de formação na Academia Militar de Keumsung, abandonaram na escala de Abu Dhabi um transístor armadilhado a bordo de um avião da Korean Air (linha aérea sul-coreana), de partida para Banguecoque. A explosão provocou a morte de cento e quinze pessoas. Desmascarado, Kim Seung-il suicidou-se, enquanto Kim Hyuon-hee, presa, confessou tudo, tendo mesmo escrito um livro, no qual é ainda muito cedo para distinguir a parte da verdade da parte da sombra (5). Em todos estes casos, a realidade impõe-se: a Coreia do Norte é sem dúvida, em 1997, o único país comunista a praticar de forma sistemática o terrorismo de Estado.






















[...] Carlos: relações com uma quinzena de serviços secretos de países árabes e países do Leste.

Conforme ele próprio confessou ao juiz Bruguière, foi em 1969 que Ilitch Ramirez-Sanchez, filho de um advogado venezuelano grande admirador de Lenine (os seus três filhos chamaram-se sucessivamente Vladimir, Ilitch e Ulianov), encontrou pela primeira vez um membro da FPLP, Rifaat Aboul Aoun. Foi em Mosvovo, onde o futuro Carlos se aborrecia tremendamente na universidade, estudando Marxismo-Leninismo, Física e Química. Desiludido com a fraca actividade desenvolvida pelos partidos comunistas latino-americanos, Carlos sentia-se disponível para uma aventura violenta e radical. Foi o que encontrou no seio do FPLP-Cose, logo que chegou à Jordânia. Após um período de formação, ei-lo operacional no início de 1971, navegando facilmente pelos países da Europa Ocidental graças ao seu aspecto de filho de família abastada e cometendo mortíferos e espectaculares atentados.

Em Paris, no dia 27 de Julho de 1975, Carlos mata dois polícias da Direcção de Vigilância do Território e fere gravemente um terceiro. Em Dezembro, lidera um comando de assalto às instalações vienenses da OPEC, a Organização dos Países Exploradores de Petróleo. Balanço: três mortos e um bilhete de avião para a Argélia. Acompanhado pelos membros da sua equipa, alemães, saídos de um movimento esquerdista radical, as Células Revolucionárias, dirigidas por Johannes Weirich, desloca-se à Líbia, ao Iémen, ao Iraque e à Jugoslávia. E sobretudo à RDA, onde os serviços do MFS (Ministerium für Staatsichereit, ou seja, Ministério da Segurança do Estado, ou ainda, mais familiarmente, STASI) dedicam uma atenção muito especial às actividades deste extremista capaz de executar os golpes mais audaciosos.

O nome de código da sua organização no seio da STASI será «Separat». Em 1980, é enviado ao general Erich Mielke, chefe da STASI, um dossier ultra-secreto. O seu título é simplesmente este: «Projecto sobre a atitude a tomar por parte do MFS no tratamento e controlo do grupo Carlos». Na opinião de Bernard Violet, autor de uma biografia muito bem documentada (6), «Weinrich e Kopp (respectivamente o adjunto e a companheira de Carlos) não são, no verdadeiro sentido da palavra, agentes da STASI. Não levam a cabo missões a favor da RDA. Em compensação, são a passagem obrigatória entre os serviços especiais alemães orientais e os outros membros do grupo». E acrescenta, depois de nomear os seus sucessivos «contactos» na Alemanha Oriental, os coronéis Harry Dahl, Hörst Franz, Günter Jäckel e Helmut Voigt, que «Carlos sabia tudo sobre as relações que estes seus dois amigos mantinham com aqueles serviços».

Nada disso o impedia de interessar-se por estreitar contactos com os Romenos, ou de importunar a Segurança de Estado húngara com a sua propensão para fazer de Budapeste a sua base de retaguarda. O seu grupo, rebaptizado com o nome de Organização da Luta Armada para a Libertação Árabe, (ou braço armado), continuava a multiplicar os mais mortíferos atentados. Assim, o coronel Voigt, da STASI, atribuiu à «Separat» uma grande parte da responsabilidade no atentado de 25 de Agosto de 1983 contra a Casa de França de Berlim Ocidental, (dois mortos), cometido, segundo ele, por um outro grupo terrorista ligado ao bloco de Leste e sediado em Beirute, o ESALA (Exército Secreto para a Libertação da Arménia).




Emblema da Stasi




Antigo quartel-general da Stasi




Angela Merkel. Ver aqui
















Pode parecer surpreendente que o MFS tenha mostrado tanta indulgência em relação às operações do seu protegido, a menos que estivesse envolvido. A decisão foi tomada no vértice da pirâmide da STASI. Diz-se, mas esta interpretação de cariz psicológico não foi de modo algum provada, que Erich Mielke, o próprio chefe dos grupos de combate do KPD antes da guerra e culpado da morte de dois polícias em Berlim, se reviu na personalidade do terrorista venezuelano, bem como na dos membros do «Grupo Baader». É sem dúvida necessário ir mais longe, procurando uma convergência mais «objectiva» entre os grupos ligados ao terrorismo internacional e o MFS. Nem Mielke nem os dirigentes da Alemanha de Leste nos habituaram a uma sensibilidade romântico-revolucionária. Se o grupo Carlos manteve um relacionamento contínuo com uma quinzena de serviços secretos de países socialistas e do mundo árabe, não foi certamente por acaso (in «O Livro Negro do Comunismo», Quetzal Editores, 1999, pp. 403-410).


Notas:

(1) Pierre Marion, Mission impossible, Calmann-Lévy, 1991.

(2) Este texto, de que Paul Quinn, do Boston Globe, tornou público alguns excertos, foi integralmente publicado em francês por Les Nouvelles de Moscou (n.º 25, 23 Junho, 1992).

(3) Pierre Péan, L'Extrémiste, Fayard, 1996.

(4) John Barron, KGB, Bruxelas, 1975, Éditions Elsevier Séquoia, prefácio de Robert Conquest.

(5) Kim-Hyuon-hee, Dans la fosse aux tigres, Presses de la Cité, 1994.

(6) Bernard Violet, Carlos, Le Seuil, 1996.