sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

A Lança do Destino

Escrito por Trevor Ravenscroft




Lança, fresco de Fra Angélico



A Lança Sagrada em Echmiadzin















«En Thulé convergent donc deux traditions esotériques qui, au reste, ne diffèrent qu'au regard des profanes: un courant venant de la Thulé hyperboréenne, et une tradition d'Asie centrale. Ces deux courants ayant le même symbole: le savastika.

Thulé n'est d'ailleurs que la manifestation actuelle du germanisme souterrain dont nous avons décelé la source dans l'Ordre Teutonique. Germanisme constant, secret, agissant, chiliaste [ou millénariste], qui sait habilement s'adapter aux contingences historiques et qui ne s'occulte sous la pression de circonstances contraíres que pour reparaître dès que la conjoncture redevient propice».

Werner Gerson («Le Nazisme: société secrète»).


«O homem moderno é mais consciente quando está acordado no mundo dos sentidos, e vive uma total eliminação da autoconsciência durante o sono. Mas os atlantes viviam uma diminuição da consciência durante o dia, enquanto trabalhavam no mundo dos sentidos. À noite, viviam uma grande intensificação da consciência, na qual tinham uma visão consciente directa das hierarquias celestiais no Macrocosmo, com as quais tinham meios de comunicação mágicos.

A era Atlante passou por sete épocas, nas quais se desenvolveram em sucessão sete sub-raças, cada uma mantendo-se enquanto as outras se desenvolviam paralelamente. Segundo a Doutrina Secreta, essas sete sub-raças da Atlântida chamam-se rmoahals, tlavatli, toltecas, turanianos, arianos, acadianos e mongóis».

Trevor Ravenscroft («A Lança do Destino»).


«Os "iniciados" do grupo Tule estavam persuadidos de que [os] emigrados do Gobi compunham a raça fundamental da humanidade, a cepa ariana. Haushofer apregoava a necessidade de um regresso às origens", quer dizer, a necessidade de conquistar toda a Europa oriental, o Turquestão, o Pamir, o Gobi e o Tibete. A seu ver, esses países constituíam a "região-centro", e quem controlar essa região controla o globo».

Louis Pawels e Jacques Bergier («O Despertar dos Mágicos»).


«Na realidade, uma "autêntica doutrina oculta do nacional-socialismo" no verdadeiro sentido, com "corpus" orgânico, provavelmente nunca foi completamente elaborada. Existe pelo contrário uma componente cultural baseada na história esotérica, na cosmogonia esotérica e nas leis ocultas que o guiaram. O grupo de intelectuais que transforma a Thule em partido acredita nisso. E a escolha do símbolo é, neste sentido, importante, pelas interpretações que lhe estão ligadas, ainda que a forma dextrógira ou levógira não "implique necessariamente" versões diferentes ou opostas. Esta discussão tem sentido nas escolas ocultistas. Porém, o facto de Hitler ter sido o árbitro para escolher o símbolo é indicativo da sua influência.

Todas as versões oficiais, nazis e pós-nazis, apologéticas ou críticas, não esclarecem de onde possa derivar. Não da precedente actividade política, inexistente. Não de uma ordem do exército. Mayr e Röhm, pelos quais Hitler é obrigado a responder, são oficiais subalternos, o primeiro não deixa pistas, o segundo depressa fugirá para a Bolívia, por não ter expectativas na Alemanha e tornar-se-á homem de primeiro plano só anos depois e como chefe das SA. As pequenas seitas estão notoriamente apinhadas de personalidades que se consideram importantes, que querem distinguir-se e também a história alemã deste período o demonstra. E agora como é possível que um homem sem história, recentemente entrado no partido, logo seja chamado como dirigente, dele elabore o programa, dele escolha o símbolo cheio de significado?

A resposta é que Hitler é já conhecido num microcosmo que parte de Lanz e passa por Hess e Haushofer e talvez também por Ludendorff, o grande condutor de homens. É por esta via que Hitler é acreditado e, em breve Drexler e Feder serão também postos de lado para lhe deixarem a direcção do partido. Ele falará dos seus dotes - incontestáveis - de orador e de organizador, mas que se manifestarão depois e não antes».

Giorgio Galli («Hitler e o Nazismo Mágico. As Componentes Esotéricas do III Reich»).







«Sobretudo nos métodos actuais de ensinar História tem de se proceder a uma modificação radical. Poucos povos têm tanta necessidade de aprender História quanto o povo alemão; poucos povos a utilizam tão mal quanto o nosso. A nossa educação histórica deve ser orientada pela nossa experiência política. Não nos devemos irritar com os miseráveis resultados da direcção da coisa pública se não estivermos resolvidos a cuidar de uma melhor educação política. Em noventa e nove por cento dos casos, as consequências do nosso actual sistema de ensinar História são as mais deploráveis. Algumas datas e nomes, eis o que, habitualmente, fica do estudo da História. Não constam do mesmo as linhas gerais e claras da evolução. Tudo que é essencial, de importância, não é ensinado. Deixa-se ao maior ou menor talento dos indivíduos a descoberta da significação do dilúvio de datas e da sucessão dos acontecimentos. Por mais arrepiante que seja essa verificação, ela mantém-se incontestável. Basta, para prova disso, que se leiam com atenção os discursos dos nossos parlamentos, mesmo numa só sessão sobre os problemas políticos, até dos da política externa. Pense-se em que, ao menos pela importância da sua posição, esses parlamentares representam a elite nacional, e que eles, em grande parte, frequentaram as escolas secundárias e alguns até as superiores, e compreender-se-á como é insuficiente a cultura histórica desses homens. Teria sido muito melhor e mais útil à nação se eles nunca tivessem estudado História mas possuíssem intuições sadias.

Principalmente no ensino da História é que se deve tomar em consideração uma reeducação nos programas. A parte mais importante é o conhecimento das linhas gerais da evolução. Quanto mais se restringir o ensino a esse ponto de vista, tanto mais é de esperar que os indivíduos tirem proveito dos seus conhecimentos, o que é também de vantagem para a colectividade.

Não se estude História somente para saber o que aconteceu, mas para que ela possa orientar o futuro da nação.

Essa é a finalidade, o ensino da História é apenas um meio. Não se argumente que o estudo dessas datas referentes a indivíduos seja necessário a um fundamental estudo da História, a fim de que se possa encontrar a base para as linhas gerais da evolução. Essa missão compete ao especialista. O indivíduo normal não é, porém, um professor. Para aquele o estudo da História deve, em primeiro lugar, consistir em proporcionar-lhe as noções necessárias para que possa tomar atitude em face dos acontecimentos políticos da nação. Quem desejar ser professor que se aprofunde mais tarde nesses estudos. Esse, sim, terá que se ocupar com todos os pormenores, mesmos os mais insignificantes.

Sob todos os aspectos, o ensino actual da História é deficiente, pois para a maioria dos indivíduos é demasiado extenso e para os especialistas muito limitado.

(…) A educação geral, destinada a todos, deve ser obrigatória. O resto deve ficar ao arbítrio dos indivíduos.

A redução dos programas e das horas de estudo que assim se obteria seria aproveitada em benefício da cultura física, do carácter, da vontade, do poder de decisão.

A pouca importância que as nossas escolas, sobretudo as secundárias, hoje dão às exigências profissionais na vida pós-escolar é evidenciada pelo facto de homens saídos de três escolas diferentes poderem abraçar a mesma profissão. Daí se conclui que o importante é a educação geral e não a especial. Quando se trata de casos em que um verdadeiro conhecimento especializado se torna necessário, os programas das nossas escolas secundárias parecem deficientes.

A segunda modificação que se impõe aos nossos programas de ensino é a seguinte:

Nos tempos de materialismo de hoje, há preferência para que a nossa educação intelectual se oriente cada vez mais no sentido de especializações técnicas, como Matemática, Física, Química, etc. Por mais que isso seja necessário numa época em que domina a técnica, que se apresenta, pelo menos aparentemente, como constituindo as grandes características dos nossos dias, não se deve esquecer nunca o perigo que resulta para o povo uma tal orientação. A educação deve sempre e cada vez mais atender às exigências profissionais, fornecendo apenas as bases para futuras especializações.

Se não for assim, desperdiçar-se-ão forças que para a conservação do povo são muito mais importantes do que todos os conhecimentos especializados.

Não se deve afastar o estudo da história antiga, pois a história romana, bem apreciada nas suas linhas gerais, é e será sempre a melhor mestra, não só para o presente como para o futuro. O ideal da cultura helénica, na sua típica beleza, deve ser aproveitado. Não se deve destruir a grande comunidade racial pelas diferenciações entre os vários povos. A luta que hoje se agita tem o grande objectivo de, ligando a sua existência ao passado milenar, unificar o mundo greco-romano com o germânico.

Deve ser estabelecida uma diferença clara entre a educação geral e a especializada.

Uma vez que a última ameaça pôr-se ao serviço dos argentários, a educação geral, pelo menos na sua concepção ideal, deve continuar a servir de contrapeso àquela tendência.

É indispensável que estejamos aferrados à convicção de que a indústria, a ciência técnica e o comércio só podem florescer numa sociedade que oferece, pelos seus elevados ideais, as condições indispensáveis para aquele progresso. Esses ideais não consistem em egoísmo material, mas em capacidade de sacrifício e prazer de renúncia».

Adolf Hitler («Meín Kampf»).


«Perguntei-lhe como é que as pessoas atraíam um espírito. Ele disse-me que as pessoas se esforçavam primeiro por descobrir onde o espírito teria probabilidades de aparecer e depois punham armas no seu caminho, na esperança de que eles tocassem nas armas, porque se sabe que os espíritos gostam de parafernálias de guerra».

Carlos Castaneda («Conversas com D. Juan. Para Além da Realidade»).



No Palácio Imperial de Hofburg, Viena, Áustria.



A Lança do Destino


"Podem ser chamados de heróis, no sentido em que colhem o seu objectivo e a sua vocação, não do curso regular das coisas, sancionado pela ordem estabelecida; mas desse Espírito interior, ainda escondido sob a superfície, que colide contra o mundo exterior, como se fosse uma concha, e o desfaz em pedaços".

Filosofia da História
Georg Wilhelm Friedrich Hegel


Adolf Hitler sabia orientar-se entre as estantes da famosa Biblioteca tão bem como qualquer estudante universitário, pois passara a maior parte de um ano a estudar avidamente no calor e no sossego da sua enorme e bem mobilada sala de leitura.

"Os livros eram o seu mundo. Em Viena, usava a Biblioteca Hof tão diligentemente que uma vez lhe perguntei, muito seriamente, se tencionava ler toda a biblioteca, o que, claro está, provocou alguns comentários ríspidos. Um dia ele levou-me à biblioteca e mostrou-me a sala de leitura. Fiquei quase esmagado pelas enormes quantidades de livros, e perguntei-lhe como conseguia encontrar aquilo que queria. Ele começou a explicar-me o uso dos vários catálogos, o que me confundiu ainda mais". (1)

Na manhã seguinte à sua descoberta da Lança do Destino, Adolf Hitler não viera consultar, como era seu costume, uma selecção aleatória de livros para dar substância e apoio a um precário castelo de sonhos. Desta vez, entrou na sala de leitura com passos calculados e um único objectivo - seguir a história da Lança do Reich que se encontrava na Schatzkammer do Hofburg, através dos séculos, até antes de ser mencionada abertamente na História, durante o reinado do imperador alemão Otto, o Grande.

Não demorou muito até que um uso hábil dos catálogos e das várias obras, de referência histórica, lhe revelassem a existência de várias Lanças sobre as quais se afirmara, com mais ou menos bases, em algum período da História, serem a Lança que perfurara o lado de Jesus Cristo na Crucificação.

Adolf Hitler rapidamente ultrapassou a sua consternação perante esta inesperada reviravolta dos acontecimentos. Tinha a certeza de que uma busca diligente em breve revelaria qual era a verdadeira Lança de Longino. Sempre fora um apaixonado por História, a única disciplina em que brilhara na escola. Sentia apenas desprezo por todos os seus professores, excepto por um - "Eles não tinham qualquer compreensão para com os jovens; o seu único objectivo era encher-nos os cérebros e transformar-nos em macacos eruditos. Se algum aluno mostrava o mais pequeno vestígio de originalidade, era implacavelmente perseguido". (2)

Apenas o seu professor de História, dr. Leopold Potsche, um fervoroso nacionalista alemão, que Hitler afirmou ter sido um profundo efeito nos seus anos de formação, estava imune a estas críticas contundentes: "Ali estávamos nós, muitas vezes inflamados de entusiasmo, por vezes mesmo comovidos até às lágrimas… O fervor nacional que sentíamos, na nossa pequena escola, era usado por ele como instrumento de educação. Foi por ter tido um professor assim que a História se tornou a minha disciplina preferida". (3)

O jovem e sério Adolf Hitler, que mais tarde afirmaria que "Um homem sem sentido de história é um homem sem olhos nem ouvidos", (4) teve pouca dificuldade em separar os méritos das várias supostas lanças do centurião romano Longino que estavam espalhadas pelos palácios, museus, catedrais e igrejas da Europa.

Uma dessas lanças (ou, pelo menos parte dela, a haste), estava pendurada no grande salão do Vaticano, mas a Igreja Católica Romana não fazia qualquer reivindicação séria quanto à sua autenticidade. Outra lança encontrava-se em Cracóvia, na Polónia, mas Adolf Hitler rapidamente descobriu que se tratava de uma réplica exacta da Lança do Hofburg (sem o prego inserido), copiada por ordem de Otto III como presente para Boleslav, o Bravo, por ocasião de uma peregrinação cristã. Ainda outra lança, em relação à qual as reivindicações tinham mais substância, fora associada com o antigo padre cristão João Crisóstomo. Esta lança, que muitos acreditavam ser a lança forjada pelo antigo profeta hebreu Fineas, fora trazida de Constantinopla para Paris, no século XIII, pelo rei Luís, o Santo, no seu regresso das Cruzadas. Dizia-se que tinha atraído o interesse do grande escolástico dominicano Tomás de Aquino. Adolf Hitler ficou excitado por encontrar uma lança que parecia ter estado associada a uma lenda de destino mundial ao longo de toda a sua história. Esta lança, que remontava ao século III, fora aparentemente seguida por muitos historiadores até ao século X, ao reino do rei saxão Henrique I, o Passarinheiro, onde é mencionada pela última vez nas suas mãos, na famosa batalha de Unstrut, na qual a cavalaria saxã conquistou os saqueadores magiares. Depois desta batalha, a lança desapareceu misteriosamente da História, pois não estava presente na morte de Henrique, em Quedlinburg, nem na coroação do seu igualmente ilustre filho, Otto, o Grande, o primeiro detentor registado da Lança do Reich que se encontrava na Casa do Tesouro dos Habsburgos.






A Lança de Hofburg tem a sua primeira menção registada na antiga crónica saxónica da batalha de Leck (perto de Viena), onde Otto obteve uma vitória retumbante sobre as hordas mongóis, cujos formidáveis montados tinham levado a devastação até ao coração da Europa. A menção seguinte a esta Lança, também investida de poderes lendários, foi quando Otto se ajoelhou em Roma perante o Papa João XII, para ser tocado por ela no ombro, num ritual sagrado que estabelecia a sua reivindicação como sacro imperador romano.

Adolf Hitler, na altura já muito desdenhoso da incapacidade de intelectuais e eruditos com longos títulos, estava convencido de que as suas próprias pesquisas cobririam a lacuna e determinariam que fora esta Lança idêntica que passara, sem que houvesse registos, de pai para filho, ambos grandes heróis saxões. (5)

Seguindo o trajecto desta Lança através dos séculos e estudando as vidas ilustres e dinastias de poder da cadeia de homens que a possuíram e afirmaram dominar os seus poderes, Hitler ficou excitado ao descobrir que, século após século, a espantosa lenda da Lança fora cumprida, para o bem ou para o mal.

Maurício, o comandante da Legião Tebana, segurava a Lança nas mãos enquanto dava o seu último suspiro, quando fora martirizado pelo tirano Maximiano por se recusar a venerar os deuses pagãos de Roma. A Legião Tebana fora chamada do Egipto por ordem de Diocleciano, para comparecer numa assembleia maciça dos exércitos romanos em Le Valais (285 d. C.), onde teve lugar um festival pagão de sacrifícios para renovar o fervor decrescente das Legiões pelo Panteão dos deuses romanos.

Maurício, um cristão maniqueísta, protestara contra a ameaça de Maximiano de dizimar a sua legião por causa da sua fé cristã e, como último gesto de resistência passiva, ajoelhara-se em frente das fileiras dos seus próprios soldados, oferecendo-se para ser decapitado em vez deles. As suas últimas palavras registadas foram: "In Christo Morimur".

Os veteranos da Legião Tebana, inspirados por este exemplo de resistência passiva, preferiram morrer com o seu líder do que venerar os deuses romanos nos quais já não acreditavam. Nem mesmo a decapitação de um em cada dez homens conseguiu levá-los a mudar de ideais. No total 6.666 legionários - a força mais disciplinada da história militar romana - foram despojados das suas armas e ajoelharam-se para oferecer o pescoço à lâmina. Maximiano tomou a terrível decisão de massacrar toda a legião como uma oferta sacrificial aos seus deuses - o mais pavoroso ritual de sacrifício humano da História do mundo antigo. (6)

O martírio da Legião Tebana tinha tornado mais vulneráveis os pontos fracos do mundo pagão e aberto caminho à carreira meteórica de Constantino, o Grande, e à conversão do Império Romano ao cristianismo.

Constantino, o Grande, uma das figuras mais enigmáticas do mundo, afirmou ser guiado pela Providência quando segurou a Lança de Longino na batalha que marcou uma época, a batalha da Ponte Milvian, às portas de Roma. Esta batalha decidiu a liderança do Império Romano e conduziu directamente à proclamação do cristianismo como religião oficial de Roma.

Mais tarde, o astucioso Constantino usou os poderes "serpente" da Lança para derrotar a resistência passiva da "pomba", de modo a subjugar a nova religião, em subserviência às suas próprias ambições pessoais, de perpetuar o espírito marcial da Roma de Rómulo. Apertou contra o peito o sagrado talismã de poder e revelação, perante os Pais da Igreja reunidos no I Conselho Ecuménico de sempre, no qual, como "décimo terceiro apóstolo", vestido com a púrpura imperial, ele próprio teve a audácia de promulgar o dogma da Trindade e de o impor à Igreja. Na sua velhice, durante a construção da nova Roma em Constantinopla - um bastião que suportaria todos os ataques durante mil anos -, Constantino levou a Lança à sua frente quando percorreu os limites da localização da nova cidade, dizendo: "Sigo nos passos d'Aquele que vejo caminhar à minha frente".

A Lança desempenhara um papel notável ao longo dos séculos no gradual declínio do Império Romano, tanto na resistência às invasões do Norte e do Leste como na conversão dos Bárbaros à nova fé e à causa romana.

Hitler ficou impressionado com a forma como a Lança mudara de mãos geração após geração, passando de mão em mão numa cadeia de reclamantes que a detinham com motivos variáveis. Homens como Teodósio, que dominou os Godos com ela (385 d.C.), Alarico, o Audaz, o selvagem convertido ao cristianismo que reclamou a Lança depois de ter saqueado Roma (410 d.C.), e Aétius, "o último dos romanos" e o poderoso visigodo Teodorico, que atacou a Gália com a Lança para vencer as hordas bárbaras em Troyes e rechaçar o feroz Átila, o Huno (452 d.C.).








Justiniano, o fanático absolutista e eclesiástico, que reconquistou os territórios do antigo Império Romano e deu ao seu povo o famoso "Codex Juris", depositara na Lança a confiança no seu grande destino. Ergueu a Lança quando ordenou o encerramento das Escolas de Atenas, exilando os grandes sábios gregos do seu reino. Foi uma decisão fatal, que despojou a Europa medieval do pensamento, mitologia e arte gregos, e lhe conferiu essa qualidade especial de escuridão e preconceito, que foi rompida mil anos mais tarde na luz brilhante da Renascença italiana.

Nos séculos VIII e IX a Lança continuara a ser o próprio eixo do processo histórico. Por exemplo, o talismã mítico tornara-se uma verdadeira arma nas mãos do general franco Carlos Martel, (7) o Martelo, quando conduziu o seu exército numa miraculosa vitória sobre as forças congregadas dos Árabes em Poitiers (732 d.C.). A derrota teria significado que toda a Europa Ocidental teria sucumbido ao governo e religião do Islão.

Carlos Magno (800 d.C.), o primeiro sacro imperador romano, fundara a sua dinastia sobre a possessão da Lança e a sua lenda de destino histórico-mundial - uma lenda que atraiu os maiores sábios da Europa para prestarem serviço ao poder civilizador da causa franca. Carlos Magno travara quarenta e sete campanhas com a garantia dos seus poderes vitoriosos. E, mais do que isso, a Lança fora associada às suas fenomenais capacidades de clarividência, através das quais descobriu o sepulcro de São Jaime em Espanha, e aos seus misteriosos poderes de antecipar eventos futuros, que lhe tinham conferido uma aura de santidade e sabedoria. Ao longo da sua vida, este fabuloso imperador vivera e dormira sempre com o seu adorado talismã ao alcance da mão; só quando o deixou cair das mãos, no regresso da sua última campanha vitoriosa, os seus súbditos viram nisso, acertadamente, um augúrio de tragédia e da sua morte iminente.

Hitler ficou totalmente fascinado pela passagem da Lança pela época na qual tinham vivido todos os seus heróis de infância. Descobriu, para sua surpresa e encanto, que as grandes figuras alemãs que tinham preenchido os seus sonhos de juventude haviam possuído a Lança como aspiração sagrada das suas ambições, como talismã de poder.

No total, quarenta e cinco imperadores tinham reclamado a Lança do Destino como sua, entre a coroação de Carlos Magno, em Roma e a queda do Império Germânico, exactamente mil anos mais tarde. E que desfile de poder e galantaria! A Lança passara pelos milénios, como o próprio dedo do destino, sempre criando novos padrões de destino que, uma vez e outra, alteraram o curso da História da Europa.

Os cinco imperadores saxões que sucederam aos carolíngios na posse deste talismã de poder, homens como Otto, o Grande, tinham vivido vidas ilustres de significado histórico mundial.

No entanto, quem mais excitava a imaginação de Adolf Hitler eram os sete incríveis Hohenstauffens da Suábia, incluindo o lendário Frederico I, Barba-Roxa, e Frederico II, seu neto.

Aqui, de facto, estavam alemães de incomparável grandeza! Frederico I, Barba-Roxa (1152-90), que unira no seu sangue os inimigos Welfs e suábios, tinha as qualidades de um monarca que Hitler podia verdadeiramente admirar… cavalheirismo, coragem, energia ilimitada, grande alegria na batalha, amor pela aventura, uma iniciativa surpreendente e, acima de tudo, uma certa brusquidão que lhe dava ao mesmo tempo a capacidade de assustar e seduzir. Frederico I, Barba-Roxa, que julgava poder restabelecer o Império Romano sem as legiões romanas, conquistara toda a Itália, provando ser supremo até mesmo sobre o Pontífice Romano; derrotando Roma e conduzindo o ataque vitorioso ao Vaticano para expulsar o Papa para o exílio. Mais tarde, ajoelhara-se em Veneza com a Lança nas mãos e beijara os pés do Papa que em tempos derrotara, mas apenas como ardil para ganhar tempo para a reconquista da Itália. Finalmente Frederico I, Barba-Roxa morrera ao atravessar um curso de água na Sicília e a Lança caíra-lhe das mãos no instante preciso da sua morte. (8)

Eclipsando até mesmo o magnífico Barba-Roxa, havia ainda Frederico II Hohenstauffen (1212-50), que se erguera como um cometa brilhante na História europeia e a abalara até às suas fundações. Um homem de personalidade carismática, génio raro e lendários poderes ocultos, fluente em seis línguas, um Cavaleiro galante e poeta lírico, que inspirou os seus minnensingers a cantarem sobre o Santo Graal. O incomparável Frederico era também um mecenas das artes, um comandante capaz e corajoso no campo de batalha, um estadista de infinita subtileza e uma alma enigmática, em parte santo e em parte demónio. Criado na Sicília (que na altura fazia parte do extenso Império Germânico), este príncipe de sangue suábio falava árabe com os seus soldados sarracenos, mantinha um grande harém, redigiu a primeira tese científica (sobre falcoaria), acreditava na astrologia e praticava alquimia. Estimando a posse da Lança acima de todas as coisas, fez dela o ponto fulcral de toda a sua vida - recorrendo especialmente aos seus poderes durante as Cruzadas (nas quais Francisco de Assis uma vez transportou a Lança, numa incumbência de misericórdia) e ao longo das suas batalhas com os estados italianos e os exércitos papais. (9)



Brasão da Ordem dos Cavaleiros Teutónicos de Santa Maria de Jerusalém




Reino Teutónico entre 1309 e 1410



Ruínas do Castelo de Montfort (Israel).



Ruínas do Castelo Amouda (Turquia).




Selo Teutónico do século XIV



Moeda da Ordem Teutónica



Bandeira Teutónica



A mais importante descoberta de todas, para o jovem Hitler, enquanto reconstituía a história da Lança do Destino, não tinha a ver com imperadores nem com as suas dinastias de poder. Era a descoberta de que a Lança fora a inspiração para a fundação dos Cavaleiros Teutónicos, cujos actos cavalheirescos e corajosos, e cujos votos irreversíveis e disciplinas ascéticas, tinham sido a própria substância dos seus sonhos de infância.

Adolf Hitler passou três dias nas suas primeiras pesquisas hesitantes sobre a história da Lança de Longino. Talvez tenha sentido um arrepio na espinha enquanto caminhava pela biblioteca, para retirar das prateleiras as obras do grande filósofo alemão Georg Wilhelm Frederick Hegel, pois pensava Hitler que os homens que tinham reclamado a Lança ao longo da História e cumprido a sua lenda encaixavam na descrição de Hegel de Heróis Históricos Mundiais - "Heróis que cumprirão a Vontade do Espírito Mundial, o próprio plano da Providência".

"Podem ser chamados de heróis, no sentido em que colhem o seu objectivo e a sua vocação, não do curso das coisas, sancionado pela ordem estabelecida; mas de uma fonte oculta, desse Espírito interior, ainda escondido sob a superfície, que colide contra o mundo exterior, como se fosse uma concha, e o desfaz em pedaços.

… Mas ao mesmo tempo foram homens pensadores, que tinham uma visão das exigências do Tempo - que estava maduro para desenvolvimento. Esta era a verdade da sua era para o seu tempo.

… Eles sabiam este princípio nascente, o passo necessário e directamente sequencial no progresso que o seu mundo aceitaria; dele fizeram o seu objectivo, e gastaram a sua energia a promovê-lo. Os homens históricos - os heróis da época - devem portanto ser reconhecidos como os clarividentes: as suas acções são as melhores da sua época".

A filosofia de Hegel estava um pouco para além das capacidades do jovem Hitler, que não teria conseguido apreciar as distinções subtis, como os conceitos de Ser e Existência. Mas uma coisa em Hegel apelava-lhe, e essa era o facto de todo o sentido de moralidade parecer dissolver-se da alma do filósofo quando meditava sobre aquilo a que chamava "Heróis Históricos Mundiais".

"A História mundial ocupa uma posição mais elevada do que aquela onde tem lugar a moralidade, que é no carácter pessoal e na consciência dos indivíduos. As reivindicações morais, que são irrelevantes não devem ser trazidas à colisão com os feitos históricos e a sua realização. A litania de virtudes privadas - modéstia, humildade, filantropia e paciência - não deve ser erguida contra eles".

A ideia de Hegel, de que estes heróis tinham completa justificação para esmagar em pó tudo o que se atravessasse no seu caminho e os pudesse impedir de cumprirem o seu grande destino, apelava imenso ao grandioso sentido de missão no pensamento de Hitler.

Todo o cinismo em relação a si próprio, todo o cepticismo sobre a genuinidade da sua primeira e arrepiante experiência perante a antiga Lança de Hofburg, desvaneciam-se agora, enquanto lia de novo, com respiração suspensa, estas palavras de Hegel, que pareciam confirmar o papel desempenhado pela longa série de reclamantes da Lança do Destino. O seu sentido de missão estava agora inflamado ao ponto da dor. A Lança na Casa do Tesouro guardava a chave do Poder! A chave para o seu próprio destino histórico mundial!

De alguma forma, ele tinha de desvendar os seus segredos e dominar os seus poderes, para concretizar as suas próprias ambições pessoais para o povo alemão. Não poderia ser ele o imortal Siegfried, destinado a despertar os homens de sangue germânico do longo sono que se seguira ao Götterdämmerung? O herói do sol destinado a erguer os olhos de todos os alemães para a grandeza da sua herança espiritual?

A tarde ia já adiantada quando Hitler entrou na Schatzkammer, com respeito e medo no coração, para olhar pela segunda vez para a "Heilige Lance". Nos três anos seguintes ele faria incontáveis vezes esta mesma peregrinação, para inspecionar a antiga arma e partilhar dos seus segredos.

Mais uma vez, a sua experiência imediata foi de total estupefacção. Conseguia sentir algo estranho e poderoso emanar da ponta de ferro, algo que não conseguia identificar de imediato. Ficou ali parado muito tempo, perplexo pelo seu enigma impenetrável: "Estudando minuciosamente cada detalhe físico da sua forma, cor e substância, tentando ao mesmo tempo manter-se aberto à sua mensagem".

"Lentamente, apercebi-me de uma presença poderosa à sua volta - a mesma presença impressionante que sentira interiormente, nas raras ocasiões da minha vida em que sentira que um grande destino me aguardava".





Estandarte pessoal de Adolf Hitler



Aguarela pintada por Adolf Hitler, em 1914.







E agora ele começava a compreender o significado da Lança e a origem da sua lenda, pois sentia intuitivamente que era um veículo de revelação - "uma ponte entre o mundo dos sentidos e o mundo do espírito 'Geistliche Welt'."

Adolf Hitler afirmaria mais tarde que foi nesta ocasião, quando estava perante a Lança, que "Abriu-se perante mim uma janela para o futuro, através da qual vi, num único clarão de luz, um evento futuro pelo qual soube, para além de qualquer dúvida, que o sangue nas minhas veias se tornaria um dia o vaso do espírito popular do meu povo".

Adolf Hitler deixou a Casa do Tesouro do Hofburg com a convicção inabalável de que ele próprio avançaria um dia para reclamar a Lança do Destino para si, e que com ela cumpriria um papel histórico mundial.

O homem que, um dia, se tornaria Führer indisputado do Terceiro Reich, nunca contou o que viu naquele breve momento em que a Schatzkammer se dissolveu e foi transportado, num clarão de luz, para o futuro.

Talvez fosse uma visão de si próprio de pé, triunfantemente, em frente do Hofburg, proclamando às fileiras congregadas de nazis austríacos, na Heldenplatz, e às multidões de populares confusos e infelizes apinhados na Praça: "A Providência encarregou-me da missão de reunir os povos germânicos… da missão de restaurar a minha pátria ao Reich germânico. Acreditei nesta missão. Vivi para ela e acredito que a realizei agora". (10)

"Os eventos futuros lançam a sombra à sua frente", diz Goethe, o famoso poeta e transcendentalista alemão. Assim, talvez a previsão do jovem Hitler nessa tarde, vinte e quatro anos antes de ter chegado ao poder, tenha sido de natureza sinistra!

Fosse qual fosse a cena, triunfante ou sinistra, que se abrira perante ele, ela mudou garantidamente toda a sua atitude para com a vida. "Cheguei a esta cidade ainda meio rapaz, e deixei-a homem, tornado silencioso e grave", diz Hitler em Mein Kampf. A partir desse momento ele nunca mais desejou o conforto da amizade humana. Nessa mesma noite fez os preparativos para se mudar dos alojamentos que partilhara com August Kubizek. Agora era um homem que caminhava sozinho - um homem com um terrível e grandioso destino a cumprir.

"O que poderia ter levado Adolf Hitler a deixar-me sem uma palavra ou sinal?", queixou-se Gustl, quando regressou de férias e encontrou um quarto vazio em Stumpergrasse. (11)

(in Trevor Ravenscroft, A Lança do Destino, Editora Livros do Brasil, 2005, pp. 32-43).


Notas:

(1) Young Hitler, August Kubizek

(2) Mein Kampf

(3) Ibidem.

(4) "Um homem sem sentido de História - declarou Hitler - é um homem sem olhos nem ouvidos". Ele próprio afirmava ter um interesse apaixonado por História desde os seus dias de escola, e demonstrava uma familiaridade considerável com o curso da História europeia. As suas conversas eram salpicadas de referências e paralelos históricos. Mais do que isso: toda a disposição mental de Hitler era histórica, e o seu sentido de missão derivava do seu sentido de história.

(5) Heinrich Himmler, reichsführer-SS de Hitler, atribuiu aos melhores estudiosos da Alemanha, que se encontravam ao serviço da Divisão Nazi do Oculto, a tarefa de cobrir esta lacuna na história da Lança. Eles não tiveram sucesso. O dr. Walter Stein, através de um método singular de pesquisa histórica, envolvendo "expansão da mente", descobriu que Henrique I enviou a Lança para o rei inglês Athelstan, e que a mesma esteve presente na batalha de Malemesbury, na qual os dinamarqueses foram derrotados. A Lança foi oferecida a Otto, o Grande, por altura do seu casamento com a irmã de Athelstan, Eadgita. A condição imposta juntamente com a Lança como dote, era que as cidades de guarnição da Europa nunca fossem transformadas em cidades de comércio. Otto, o Grande, ficou conhecido como O Fundador de Cidades e, através dele, a nova economia da Europa emergiu da Idade Média.

(6) O espectáculo sangrento do martírio da Legião Tebana foi ultrapassado mil anos mais tarde pelo massacre monstruoso efectuado pela Inquisição Católica Romana dos cátaros e dos maniqueus albigenses, em Toulouse, onde 60.000 resistentes passivos - homens, mulheres e crianças - foram queimados ou passados a fio de espada num único dia. Só as câmaras de gás de Auschwitz e Mauthausen viriam a ultrapassar esta acção em crueldade bestial e intenção demoníaca.



Carlos Martel






Carlos Martel vencendo os árabes em Poitiers





Cruz Carolíngia





(7) Hitler, nesta altura, considerava Carlos Martel um dos seus grandes heróis. Mais tarde amaldiçoaria este líder franco: "Só no Império Romano e na Espanha, sob domínio árabe, foi a cultura um factor poderoso. Sob os Árabes, o padrão alcançado foi verdadeiramente admirável; para Espanha convergiam os maiores cientistas, pensadores, astrónomos e matemáticos do mundo, e lado a lado floresceu um espírito de doce tolerância humana e sentido de cortesia purista. Depois, com o advento da cristandade, vieram os Bárbaros. Se Carlos Martel não tivesse saído vitorioso em Poitiers - já aí se vê que o mundo caíra nas mãos dos judeus, tão cobarde era a Cristandade! -, muito provavelmente todos teríamos sido convertidos ao maometismo, o culto que glorifica o heroísmo e que abre o "Sétimo Paraíso" apenas ao guerreiro audaz. Então as raças germânicas teriam conquistado o mundo. Apenas a cristandade as impediu de o fazerem". - Hitler's Table Talk: 28 de Agosto de 1942.

(8) Adolf Hitler baptizou o seu refúgio montanhoso no baluarte do Ober Salzburg de "Barba-Roxa". Foi também o nome que deu ao ataque à Rússia - Operação Barba-Roxa.

(9) Adolf Hitler deu ordem para que as suas tropas travassem uma sangrenta acção de retaguarda enquanto os engenheiros removiam a Pedra Memorativa de Frederico II Hohenstauffen do campo de batalha, em Itália. A Pedra Memorativa foi depois levada para a Alemanha.

(10) Discurso de Hitler na Anschluss, depois da Operação Otto ter conquistado a Áustria para o Reich alemão (14 de Março de 1938).

(11) August Kubizek, Young Hitler - The Story of Our Friendship.







quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Do lugar inlocalizável do eu

Escrito por Fernando Pessoa








Brincava a criança
Com um carro de bois.
Sentiu-se brincando
E disse, eu sou dois!

Há um a brincar
E há outro a saber,
Um vê-me a brincar
E outro vê-me a ver.

Estou por trás de mim
Mas se volto a cabeça
Não era o que eu qu'ria
A volta só é essa…

O outro menino
Não tem pés nem mãos
Nem é pequenino
Não tem mãe ou irmãos.

E havia comigo
Por trás de onde eu estou,
Mas se volto a cabeça
Já não sei o que sou.

E o tal que eu cá tenho
E sente comigo,
Nem pai, nem padrinho,
Nem corpo ou amigo.

Tem alma cá dentro
'Stá a ver-me sem ver,
E o carro de bois
Começa a parecer.






sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

O génio nacional, a filosofia portuguesa e os tratantes da política

Escrito por Orlando Vitorino










«(…) Quanto à segunda forma [leviana ou assaz enviesada de abordar a filosofia portuguesa], decorre a mesma de um inquérito levado a cabo nas páginas da revista Vértice. Por conseguinte, já corria o ano de 1946, quando Eduardo Lourenço, perante a "pergunta-consulta" de um leitor sobre se havia ou não uma Filosofia Portuguesa, abre então o "inquérito" com o vil propósito de pôr a ridículo o pensamento de Álvaro Ribeiro, já na altura previamente exposto aos portugueses através de um opúsculo intitulado O Problema da Filosofia Portuguesa. Deste modo, afirma E. Lourenço que a concepção de Álvaro Ribeiro, tal como delineada naquele opúsculo, "é simplesmente absurda", pois supostamente preconiza "a filosofia como qualquer coisa que se aprende ou transmite tal e qual como a técnica de fazer o melhor parafuso", e, portanto, quando o autor pensa "em 'adoptar um sistema filosófico'”, fá-lo ainda "como quem diz usar uma certa marca de camisas ou água de colónia". No mais, o seu detractor rasgara as vestes perante o facto de Álvaro Ribeiro ter simplesmente afirmado que entre os portugueses se discutia "qual o sistema filosófico, entre os que na Europa mais benéfica influência exercem no pensamento contemporâneo", podia ser "importado, adoptado e difundido no ambiente cultural português". E tão patética, provinciana mesmo, fora decerto a sua má-fé, que só oportunamente circunscrita poderá realmente mostrar o portentoso calibre do artista: "Quem é que discute? Onde? Não se teria equivocado Álvaro Ribeiro ouvindo falar de importação de batatas da Dinamarca e automóveis de Detroit?"». 

Miguel Bruno Duarte («Noemas de Filosofia Portuguesa». Versão especialmente revista).


«As características da filosofia portuguesa encontram-se há muito enunciadas em obras de mérito, de talento e de génio. Se a alguns estudiosos pareceram até agora demasiado envolvidas em expressões de deficiente luminosidade racional, tornar-se-ão, porém, claras, nítidas e evidentes quando relacionadas com uma classificação realista das ciências filosóficas. Assim, se concedermos que a teologia, a antropologia e a cosmologia são as ciências fundamentais, e se com estas relacionarmos a filosofia do direito e a filosofia da arte, teremos o quadro onde mais bem se espelha a nossa aptidão para harmonizar a cultura com o culto.

Não tem sido, porém, este o critério adoptado no ensino liceal e superior. A filosofia dividida em quatro ou cinco partes, (psicologia, lógica, moral, teoria do conhecimento e metafísica), por imitação do que se observa na Europa Central, não pode ser disciplina que reconheça a autenticidade e a originalidade do pensamento português, e muito menos doutrina que estimule o desenvolvimento da nossa tradição. A adopção de um abstracto, parcial e falso universalismo, tem por consequência obrigatória, que parece necessária, a negação das filosofias nacionais, e, portanto, o desconhecimento da filosofia portuguesa».

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


«Ao dizer-nos, a nossa 4.ª Tese, que a filosofia não se referencia à ciência, podemos pois perguntar-nos qual a ciência que ela tem em vista. Evidente é concluir que se trata da ciência moderna. Reconhecemos como isso é limitativo, mas compreendemos que, dada a convicção generalizada que descrevemos, tenhamos de admitir a redução de todas as ciências à moderna, situação que ela própria criou. Mas perante esta situação, forçoso é acrescentar aqui o seguinte. É certo que em qualquer caso, isto é, perante qualquer ciência, a filosofia não carece de a ela se referenciar mas, no caso da ciência moderna, e ao contrário do que acontece com a clássica, é a própria ciência que impossibilita a referenciação uma vez que supõe e afirma a inexistência da filosofia, ela também dada como um estádio ultrapassado, já não no progresso da ciência única, mas no do pensamento que habita o homem. Momentos definitivos e decisivos desta afirmação, em Descartes apenas anunciada, são o kantismo, o positivismo e o socialismo. Como Hegel discursivamente demonstrou na "Introdução" à sua Ciência da Lógica, a crítica kantista corta o caminho a qualquer desenvolvimento do pensamento filosófico. O positivismo, por sua vez, faz condição da sua doutrina a extinção da filosofia, consistindo num progressismo que vem do que chama a idade teológica à idade filosófica, ou metafísica, e, extinta esta, avança hoje pela idade positiva na qual todo o pensamento possível se reduz a pensamento dos conhecimentos científicos. O socialismo, finalmente, fecha todo o pensamento, seja ele pretensamente filosófico, e todo o conhecimento, seja ele científico, numa teoria social».

Orlando Vitorino («As Teses da Filosofia Portuguesa»).







O génio nacional, a filosofia portuguesa e os tratantes da política


1. Nota prévia sobre a liberdade de expressão e de como ela não passa de uma tácita convenção que convém ter o cuidado de não denunciar.


O escrito que se vai seguir é o comentário a um artigo de J. Gaspar Simões recentemente publicado no “Diário de Notícias", artigo que, na generalidade do contexto, este comentário enaltece. Gaspar Simões, por sua vez, é uma personalidade que o autor do comentário muito respeita e admira.

Vivemos agora num regime político que constitucionalmente faz da liberdade de expressão um ponto de honra intocável e um princípio sobre o qual jamais admitirá fazer a mínima concessão. Vamos, então, pôr a hipótese de que o autor deste comentário propõe a sua publicação a um dos jornais em que o actual regime se espelha, seja ele um jornal estatizado, como aquele mesmo “Diário de Notícias”, seja ele o jornal de uma empresa privada mas ligados aos órgãos do regime, a, por exemplo, um qualquer partido político. A proposta seria inevitavelmente recusada. Por múltiplas razões.

Uma dessas razões, talvez a primeira, resulta de o comentário reconhecer, aliás em concordância com Gaspar Simões e na expressão que ele próprio emprega, a existência de “um escol de pensadores que, no nosso tempo quiseram resgatar o génio nacional”. A discordância com Gaspar Simões pode, portanto, gozar da liberdade de expressão constitucionalizada enquanto o nosso comentário não pode ser publicado. E é assim, assim tem de ser, porquê? Porque se há um “génio nacional” a resgatar, isso significa que a Pátria está a ferros ou, como dizia o Dr. Mário Soares, que “Portugal está amordaçado”. Se o escol que o quis resgatar nada conseguiu, como pretende Gaspar Simões, então sempre fica a dúvida se esse génio nacional existe efectivamente, e o artigo pode publicar-se. Mas se, como nós demonstramos, ele foi resgatado, então o regime vigente é responsável de os portugueses estarem entregues a ideologias e doutrinas importadas, é um regime de ocupação, e o nosso comentário não pode ter direito à liberdade de expressão.

Parece-nos ocioso, e até ofensivo para a inteligência do leitor que vai ler o comentário, apresentar mais algumas das outras múltiplas razões. A que apresentámos é suficiente para que o leitor conclua que a constitucionalizada liberdade de expressão não passa de uma figura de retórica, de uma formal convenção impossível de cumprir mas que ninguém deverá atrever-se a denunciar como tal. E se acaso lhe vierem com comparações, como a de entre hoje e o antigamente, lembrar-lhe-emos, prezado leitor, uma observação de um livro famoso mas pouco lido: “Nas ditaduras, a violência tem rosto visível; nas democracias, o rosto da violência é invisível”.

Para completa elucidação do leitor, devemos ainda acrescentar que o que começámos por apresentar como mera hipótese a propormos a qualquer jornal do regime a publicação deste comentário – não é apenas uma hipótese pois a proposta foi de facto feita e a publicação foi de facto recusada.

Restava-nos, então, recorrer a um jornal que esteja fora do regime e das convenções sobre a liberdade de expressão. Recorremos a “O Diabo” e ao desassombro da nossa amiga Vera Lagoa. Um jornal que se situa fora do regime, é necessariamente um jornal de oposição. Mas também aqui o regime estabeleceu uma outra tácita convenção: a de chamar oposição apenas àqueles sectores do sistema que, durante os períodos rotativos em que não dispõem dos poderes do Governo, fazem críticas, também por convenção inócuas e inconsequentes, aos sectores que, nesses períodos, têm nas mãos aqueles poderes. Quando ao Partido X cabe a vez de estar no Governo, o Partido Y é a oposição. Deste modo hábil e eficaz, mas sinistro, o sistema declara aos quatro ventos haver lugar para todos, situacionistas e oposicionistas, e assim se defende de ter de reconhecer a existência da verdadeira oposição que assim se vê encurralada numa actividade quase clandestina e esmagada com os epítetos mais atemorizadores: reaccionária, fascista, saudosista, etc.






Estabelece-se, por estes e outros meios, aquilo a que os gregos chamaram uma oligarquia. Há tempos, na tribuna da Assembleia da República, o primeiro-ministro Nobre da Costa avaliou esta oligarquia em 500 mil pessoas, resultado que obteve somando todos os filiados nos partidos políticos existentes. Já seriam, esses, apenas um vigésimo da população portuguesa. Mas não são tantos porque a maior parte daqueles filiados constituem as bases em que assentam os oligarcas. Estes limitam-se, de facto, às direcções dos partidos, a uma clientela que lhes está mais próxima e a uma minoria das Forças Armadas, e outras instituições que, como as Universidades, há muitos anos se tornaram imprescindíveis a quem, em qualquer regime, nos queira governar. Bem feitas as contas, a diferença quantitativa entre o total dos oligarcas no actual e no anterior regime ou não será nenhuma ou será a favor do anterior regime. Aliás, a maior parte deles são os mesmos.

Também por esta via terá o leitor de concluir que, já não apenas a liberdade de expressão, mas a liberdade como princípio geral, é apenas, no actual regime, uma figura de retórica política. A tácita convenção sobre a liberdade de expressão não é mais do que uma forma de a oligarquia se afirmar, se defender e se impor.


2. Comentário a um artigo de Gaspar Simões. O que ele assevera, exprimindo a versão da “cultura oficial” sobre a filosofia portuguesa e sobre José Marinho e como se corrigem as suas asserções. 


Ao longo da sua carreira de perfeito homem de letras, Gaspar Simões sempre suspeitou da filosofia e, muito especialmente, dos filósofos que, entre nós, atribuem à literatura uma dimensão a que os homens de letras, irreflectidamente, se consideram alheios. Sempre suspeitou, em suma, da “filosofia portuguesa”, designação que, já hoje impropriamente, continua a ser dada àqueles que, nos termos do próprio Gaspar Simões, constituem “o escol de pensadores que, no nosso tempo, quiseram resgatar o génio nacional”.

Naturalmente nos surpreendeu, portanto, que num nobre artigo publicado no “Diário de Notícias” de 2 do corrente, Gaspar Simões tenha assumido uma autoridade filosófica que nunca antes assumira e tenha, em consequência, exarado, sobre a filosofia portuguesa e sobre José Marinho, alguns juízos menos correctos num assunto que é o mais importante da vida espiritual portuguesa.

O que de mais grave contém o artigo de Gaspar Simões é a asserção de que José Marinho “não chegou a concretizar os termos desejados de uma autêntica especulação filosófica em tudo digna desse nome”. E mais adiante: “para ele, José Marinho, o pensar filosófico não pressupõe o rigor sistemático dos Descartes e dos Hegels mas, antes, o impreciso aventar de hipóteses que, de algum modo, permitem certos dos nossos poetas situar-se na esfera dos pensadores de mente filosófica”. E ainda: “nenhum dos discípulos do autor de A Alegria, a Dor e a Graça chegou a concorrer com ele obrando o prodígio que ele não obrou, que seria o de distinguir o poético do filosófico, o improviso da teoria, o aceitar o princípio de Hegel segundo o qual a ideia não tem pressa, coisa que, ao que parece, não se verificou em qualquer dos que entre nós filosofaram – muito em particular em Leonardo Coimbra – todos eles mais ou menos preocupados com a pressa da ideia”.

Tudo isto se afigura um desarrazoado de razões que importa corrigir. Vejamos rapidamente como, revertendo do fim para o início dos juízos enunciados.

O que Hegel disse, conviria traduzir-se por a verdade não tem pressa, expressão que ele, aliás, utilizou. E não o disse no sentido, que Gaspar Simões lhe atribui, de a verdade não ter pressa de ser escrita por este ou aquele pensador, mas no de se realizar e impor no mundo e no tempo. Aqui, o erro de Gaspar Simões é erro natural de um homem de letras. Mas até no errado sentido que atribui à sentença de Hegel, não haverá pessoa alguma a quem, como a José Marinho, ela menos se possa aplicar. Em vida, apenas publicou dois livros que, resistindo à pressão de amigos, companheiros e discípulos, vagarosos e demorados anos levou a elaborar. Gaspar Simões conheceu bem José Marinho – foi dos seus raros amigos de geração que me lembro de ter visto no enterro dele – e sabe certamente como assim aconteceu. Aliás – e aqui vem a diferença entre o filósofo e o homem de letras – um livro de filosofia poderá, por vezes, ser escrito depressa, mas é sempre demoradamente pensado. Em filosofia, ao contrário do que acontece na inspirada literatura, o que importa não é escrever, é pensar.






Diz depois G. Simões que nenhum dos discípulos de Leonardo Coimbra conseguiu fazer o que também ele não terá feito, a saber: distinguir o poético do filosófico. Ora acontece que, precisamente, e como G. Simões antes dissera, o que a “filosofia portuguesa” tem em conta é a verdade suposta ou contida na expressão, não a forma que a expressão adquire, coisa bem demonstrada, e de vários modos, por Leonardo Coimbra. Logo, Leonardo não podia ter feito o que G. Simões quer que ele tivesse feito e, no mesmo passo, dispensou os seus discípulos ou epígonos de o repetirem.

Que o pensar filosófico não pressupõe, para José Marinho, “o rigor sistemático dos Descartes e dos Hegels”, é a nova incorrecção de G. Simões. O que José Marinho na verdade entende é que a filosofia está para além, não do rigor sistemático, mas dos cânones lógicos que caracterizaram, não apenas Descartes e Hegel, mas toda a filosofia moderna. Ora a filosofia portuguesa está fora dos domínios da filosofia moderna. É, antes, uma filosofia clássica, não no sentido colegial de uma filosofia antiga, mas no da harmonia e conciliação entre a filosofia antiga e o cristianismo e no da persistência e vitalidade, em nossos dias, dessa harmonia. Sendo assim, é lamentável que G. Simões se tenha autorizado a acrescentar que “sempre, para José Marinho, a filosofia seja um impreciso aventar de hipóteses”. Lamentável, dizemos, porque “o impreciso aventar de hipóteses nada tem a ver com qualquer espécie de filosofia mas é apenas um momento do método das ciências derivadas da filosofia moderna, não da filosofia clássica.

Por fim, o mais grave. É quando G. Simões afirma que José Marinho “não chegou a concretizar os termos desejados de uma autêntica especulação filosófica em tudo digna desse nome. Claro que em tudo digna desse nome não há, nunca houve nem nunca haverá, entre nós como lá fora, especulação filosófica alguma. Aparte esta universal e humana impossibilidade, basta lembrar que José Marinho é o autor de um livro, “Teoria do Ser e da Verdade”, onde sistematicamente expõe tudo aquilo sem o qual não pode haver filosofia ou, nos termos de G. Simões, “autêntica especulação filosófica”. Trata-se de um livro único em toda a história da filosofia e, aparecendo em nossos dias, é o contrapolar positivo da certidão de óbito da filosofia moderna passada pelos últimos pensadores nórdicos, desde Kierkegaard e Nietzsche até Marcuse e Heidegger.

Isso que continua a designar-se por “filosofia portuguesa” é já, graças a José Marinho e Álvaro Ribeiro – que incompreensivelmente G. Simões não refere –, graças ao que, na epigonia de Leonardo, ambos pensaram e escreveram, é já de uma importância universal e de um significado a que, por enquanto, só os portugueses têm imediato acesso mas de que ainda estão longe, e impedidos de se aperceberem. Tão certo é, e mais uma vez se confirma, que “a verdade não tem pressa”.


3. As falsas “vítimas do fascismo”, os tratantes da política e o exemplo ético de José Marinho.


Tão sucintamente quanto possível, expusemos o que era nosso dever não deixar passar em claro. Outras, menos importantes, omissões, essas de carácter um tanto pessoal e um tanto político, poderemos ainda registar. Por exemplo: Gaspar Simões tem a rara probidade de dizer que José Marinho sofreu as consequências de se haver recusado, jovem professor do liceu, a um acto de subserviência a Salazar, enquanto a totalidade das “vítimas do fascismo” (é ele quem sublinha a expressão), vítimas que nada ou quase nada perderam, foram reconfortadas depois com benesses que não mereceram”. Das falsas vítimas a que assim se refere, toda a gente conhece alguns exemplares. O que não diz, e ninguém ainda disse, é que a quase totalidade delas ou faziam da oposição política ao regime salazarista uma carreira profissional ou eram tratantes de calculadas oposições políticas por si mesmas rendosas. Entre os primeiros, encontram-se os militantes ou funcionários do Partido comunista. Dos segundos, a gama é mais variada. Abrange, em primeiro lugar, certos advogados, como Salgado Zenha e Mário Soares, que se viam particularmente incumbidos, pelos marechais ou capitães de indústria do regime que publicamente consideravam opressor, de chorudos cargos e causas jurídicas, mais fictícias do que reais, que os fizeram enriquecer. Abrange depois, certos “escritores e artistas malditos”, como Bernardo Santareno e João Abel Manta, ou as suas organizações, como a do “Grupo 4”, que se viam privilegiadas pelas instituições oficiais do regime opressor na atribuição de prémios, subsídios, de encomendas, além de gozarem de utilização quase exclusiva da máquina de publicidade e de propaganda que hoje é, como já era então, descrita como um instrumento de opressão e obscurantismo. Abrange finalmente certos carreiristas, como Eduardo Lourenço, Vieira de Almeida e mais 50%, pelo menos, dos seus confrades universitários e ainda os 17 directores-gerais marxistas (segundo uma publicação do episcopado) dos 19 que havia no Ministério da Educação, que simultaneamente detinham o rendoso monopólio das Universidades do Estado fascista do qual se apresentavam como opositores, dando-se hoje ao execrando desfastio, como recentemente fez o primeiro citado, de acusar de serventuários do Estado fascista o “escol de pensadores que quiseram resgatar o génio nacional”, esses que, como José Marinho e Álvaro Ribeiro, se viram condenados à maneira mais dura de ganhar o pão e sempre tiveram fechadas as portas do lauto banquete em que “fascistas” e “vítimas dos fascistas” alegremente e odiosamente se banqueteavam juntos. Já é tempo de dizer estas verdades, que não são verdades sem pressa. Como é tempo de descrever os tais das “benesses que depois vieram a receber sem as merecerem”, como diz Gaspar Simões.



Saragago e E. Lourenço. Ver 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8






Pena é que Gaspar Simões tenha ignorado que a condenação de que José Marinho foi vítima, não se deveu apenas à recusa de assinar o telegrama a Salazar que todos os funcionários públicos então assinaram. É que ele, e com ele Almeida Braga, acrescentaram a esta recusa o envio de um outro telegrama que mais profundamente feriu o ditador. E pena é que também tenha ignorado que quando, depois do 25 de Abril, os assaltantes das “benesses que não mereceram” vieram incitar José Marinho a também apresentar a sua conta – os ordenados de cerca de 50 anos de professor do liceu, mais as respectivas actualizações, indemnizações, etc., somando uma verba de alguns milhares de contos – ele viu nisso uma indignada moral e recusou-se a fazê-lo.

Afirma também Gaspar Simões que José Marinho foi uma das “inteligências que o fascismo aniquilou” e que o posterior social-fascismo “enterrou… vivo”. Ora a verdade é que não houve, não há e não haverá forma alguma de totalitarismo que tenha poder para aniquilar inteligências como a de José Marinho. O que dele ficou no mundo – e aí estão os seus livros, os seus discípulos e os seus epígonos – é prova provada dessa impotência da política que por vezes desperta o desespero sanguinário dos políticos.

Entende, finalmente, Gaspar Simões que José Marinho, “frustrado como professor, homem espantosamente dotado para o professar teórico e especulativo do pensar filosófico, se viu condenado à escrita”. Parece assim ignorar o que foi, durante uma vida inteira e diariamente, o convívio dialogante travado entre Marinho e Álvaro Ribeiro e o que foi o magistério oral que, também durante a vida inteira e diariamente, José Marinho exerceu junto de sucessivas gerações.

Com tudo isto, não deixa de ser um nobre e leal artigo o de Gaspar Simões. É ele também mais um sinal de que, embora com seus vagares, a verdade vai abrindo caminho. E, aqui, este abrir caminho coincide com o facto de terem sido os últimos oitenta anos o período mais fecundo e original de toda a história espiritual portuguesa. Nele surgiram três dos seus quatro maiores poetas, Pascoaes, Pessoa  e Régio – e os seus três maiores pensadores: Leonardo, Marinho e Álvaro Ribeiro. É certo que, no mesmo período, o manto da “Senhora da Noite”, que Pascoaes via aproximar-se, ou da “noite antiquíssima”, que Pessoa invocava, traz consigo o “finis Patriae” desacertamente descrito por Junqueiro. Mas devemos também aqui lembrar a antiga sabedoria que um dos filósofos citados por Gaspar Simões gostava de lembrar: a de que o pássaro de Minerva levanta voo ao anoitecer.

Poderá o mundo ignorar a aventura espiritual vivida no anoitecer do nosso povo. Bastará, porém, que os portugueses se não vejam impedidos de a conhecer. Porque, como dizia Régio, “o mundo é vasto mas repete-se, e é fácil esgotá-lo…”. (in O Diabo, Lisboa, 26 de Outubro, 1982, p. 4).