sábado, 29 de dezembro de 2012

A Revolta dos Boxers (ii)

Escrito por Bertrand Solet






Não sei há quanto tempo corremos. Mas, de repente, encontramo-nos bruscamente em frente do talude de terra que circunda T'ien-tsin. Tem quatro a cinco metros de altura e possui casamatas com canhões apontados para os locais estratégicos.

Arrastados pela própria velocidade, galgamos os degraus escavados na terra... e eis-nos no cimo da muralha que apresenta uma ligeira encosta para o exterior. Três metros mais abaixo, mesmo a nossos pés, há um empolamento de terreno.

- Vamos?

- Vamos lá, senhor!

Salto. Os meus calcanhares tocam o talude no local previsto; no momento em que vou perder o equilíbrio, salto de novo... O solo não é muito duro e a recepção efectua-se melhor do que pensara.

É agora a vez de Liu. É ainda mais ágil do que eu, tudo correrá bem. Infelizmente, no momento que começamos a correr através da montanha, os chineses aparecem no cimo do muro.

Param e gritam de decepção, hesitando em seguir-nos. Mas alguns soldados da guarnição tinham-se juntado a eles e estão armados. Atiram.

Corremos em ziguezague como os coelhos bravos da minha terra. Infelizmente, os arredores de T'ien-tsin quase não têm árvores nem arbustos! Acabamos por alcançar algumas palhotas e desaparecemos numa dobra de terreno atrás delas. Apercebemo-nos, então, que a minha coxa direita está a sangrar. Devo ter sido atingido por uma bala.

- Por aqui - diz Liu.

Continuamos a correr, mas eu tenho de abrandar o andamento. A perna começa a doer-me e coxeio. Tenho a impressão de que, se parar, não conseguirei prosseguir.

- Ajuda-me.

Penduro-me no pescoço de Liu, apoiando-me a ele, mas os meus pés prendem-se aos arbustos espinhosos...

Parece que os chineses renunciaram à perseguição, mas só parámos uma hora mais tarde.






Eu já não posso mais. Sinto as fontes a latejar e uma intolerável dor que atravessa-me a perna.

Deixo-me cair em terra, completamente esgotado.

- Estamos na margem do Pei-ho - diz Liu.

É verdade. A nossa chegada faz fugir uma magnífica garça-real e um bando de patos.

Liu arranca o tecido das calças, à volta da minha coxa, descobrindo uma ferida que já não sangra. Por sorte, parece que a bala não ficou. O criado de Sílvia mergulha na água do rio a fralda da sua camisa e aplica-a sobre a ferida... Nessa altura quase desmaio.

Liu acode-me, faz-me vir a mim, aspergindo-me com água. Não me posso mexer. Que faremos? Que nos irá acontecer? E a Sílvia em T'ien-tsin!...

- Temos de esperar, senhor - diz laconicamente, Liu.

E o dia passa assim... Nã tenho fome mas bebo muito. Liu traz-me água num pedaço de tecido encharcado que torce em frente da minha boca. À noite mal consigo dormir por causa da febre que me provoca pesadelos terríveis...

De manhã estou um pouco melhor.

- Vou regressar a T'ien-tsin, senhor - diz Liu. - Saberei notícias e trago qualquer coisa para comer. Eu não arrisco nada.

- De acordo.

Ele afasta-se... e eu penso se voltará. Afinal de contas é um chinês. Talvez vá prevenir os Boxers! Essa gente tortura antes de matar, ao que parece. Agarro no revólver que levara na véspera de manhã. Tem seis balas. Cinco para eles e a última para mim...

Espero. A perna continua a doer-me e não consigo levantar-me.

No entanto, a febre descera...

As horas escorrem lentamente. O rio está tranquilo. Os patos, as garças e as cegonhas parecem ter-se habituado à minha presença e aproximam-se.

Liu voltará ou não?

Não o senti aproximar-se... e Liu está à minha frente com um embrulho na mão.

- Trago arroz cozido, senhor, e frutos.

Sinto crescer água na boca... Mas, primeiro, as notícias:

- Então que se passa em T'ien-tsin?

- A cidade está na mão dos Boxers, senhor. A tropa está com eles e a população segue-os. Quanto aos europeus, refugiaram-se na concessão inglesa, em redor de Gordon Hall...








Gordon Hall é uma vasta construção no meio de um jardim, e onde se encontram os escritórios ingleses, a biblioteca, o salão de festas, o arsenal. A toda a volta há bancos e feitorias.

- Estão a ser atacados?

- Não, senhor, apenas sitiados. Mas o caminho de ferro foi destruído e os postes telegráficos abatidos...

Respiro fundo. Esta situação não pode prolongar-se. Há barcos de guerra na enseada de Ta-Ku, a quarenta quilómetros de T'ien-tsin. São alemães, franceses, japoneses e ingleses. Se não podem subir o rio, as canhoeiras podem fazê-lo, carregadas de tropas.

- Basta esperar, Liu, pois não vai demorar. Esses malditos Boxers vão fugir a toda a pressa...

Fito-o. Tem o rosto fechado.

- Parece que te não te agrada o que digo!

- Sou chinês, senhor.

- Mesmo assim, não estás com os Boxers, suponho?

Liu não responde e, depois, pergunta-me bruscamente:

- O senhor sabe como os alemães entraram em Kiao-Tchéon?

- Não muito bem...

- No fim de 1897, chegaram quatro navios de guerra em frente do porto. O contra-almirante Van Diedriks, que os comandava, lançou um ultimato à guarnição chinesa: "Têm três horas para partir. Depois começamos o bombardeamento". E foi assim que os alemães se instalaram na nossa terra, apenas pela lei do mais forte... Os alemães construíram o caminho de ferro, começaram a explorar as minas de carvão, sem pedir autorização a ninguém...

Não respondo, pois já ouvira falar dessa história.

- Todos os outros países - continua Liu - agem da mesma maneira, tanto a Inglaterra, como a França, o Japão, a Itália ou a Rússia... Chamam a isto "penetração, criação de zonas de influência"... E quem somos nós para nos deixar achincalhar assim? A China pertence aos chineses e a mais ninguém!

Olho-o, surpreendido. Que criado tão estranho...

- E porque voltaste para T'ien-tsin?

- A polícia perseguia-me por eu ser um cortador de tranças...





Apesar das dores, não consigo evitar uma gargalhada... Há alguns meses houve, com efeito, uma espécie de epidemia nas principais cidades chinesas: estudantes e membros de sociedades secretas começaram a cortar as tranças das pessoas, nas ruas. É preciso dizer que o uso das tranças fora trazido pelos invasores manchus... e que os patriotas ainda hoje não suportam... Era uma maneira de manifestar oposição!

- Mas - disse, retomando a seriedade - esses Boxers matam missionários, pessoas indefesas...

- Isso é verdade, senhor. Os Boxers são, na sua maioria, camponeses e, nos campos, as missões são o símbolo da penetração estrangeira... os Boxers querem que os estrangeiros se vão embora... assim como os manchus.

- A imperatriz é manchu e, no entanto, apoia os Boxers.

- A imperatriz é uma grande finória, senhor, Serve-se dos Boxers, mas tem medo deles. Fugiu de Pequim nos últimos dias, segundo me informaram. Não, senhor, não há nada de comum entre os manchus e os Boxers. Estes querem, como todos nós, imperadores chineses e menos miséria... Aliás, a sociedade secreta chamava-se originariamente os Punhos da Harmonia e da Justiça!

Não faço comentários. Os argumentos de Liu deixam-me pouco à vontade. É verdade que há diversas maneiras de encarar as coisas. Tudo depende do ângulo por onde se vêem...

Liu fica silencioso, como se tivesse falado demasiado. Contenta-se a preparar-me o arroz cozido que trouxera. Devoro-o. Se ao menos pudesse andar...

Começa a segunda noite. Que estará a acontecer em T'ien-tsin?

- Liu, porque continuas comigo?

- Porque está ferido, senhor?

Ficámos quietos, pois não há mais nada a fazer. É apenas no dia seguinte, a meio da manhã, quando vou ceder ao desencorajamento, que oiço no Pei-ho um burburinho significativo. E a alegria invade-me, de repente. Apesar da fraqueza e da dor que esta maldita coxa me provoca, ergo-me auxiliado por Liu, que também compreendera.

- Agite o seu lenço, senhor - diz-me. - Se virem um chinês, vão começar a atirar...





São realmente canhoeiras que aparecem no rio, com bandeiras francesas, inglesas e japonesas. Trazem os canhões apontados paras as margens e os convés cobertos de soldados armados.

Apercebem-se imediatamente e vem um barco em meu socorro. São zuanos que me agarram e transportam. Volto-me: Liu segue-nos e sobe a bordo connosco.

Um médico militar, barbudo e exuberante, trata da minha ferida:

- Não há gangrena, mas foi mesmo a tempo.

Anuncia que me vai enviar para Ta-ku onde está a flotilha das potências europeias: muitos navios, mais de cinquenta...

- Tomámos os fortes chineses, a aldeia dos pescadores está em ruínas, mas fica bem no Redoutable, o nosso navio almirante...

Recuso categoricamente ser repatriado. Quero acompanhar as tropas que vão entrar em T'ien-tsin, libertar os sitiados das concessões... e Sílvia. Contanto que se chegue a tempo!

Uma hora mais tarde, começa a batalha... Não participo dos combates, como é lógico, mas assisto das primeiras filas. Liu também, de cabeça baixa, imóvel e mudo. A tropa desembarca e sobe ao assalto das fortificações defendidas pelo exército regular chinês. Os canhões têm dificuldade em abrir brechas na famosa muralha de terra e são quarenta voluntários japoneses que se oferecem para utilizar dinamite...

A canhoeira onde me encontro sobe até às concessões, abrindo passagem a tiros nas barricadas instaladas pelos revoltosos... juncos, sampanas, barcaças...

O ar cheira a pólvora. E eis-nos junto do cais da concessão inglesa, atravancado, como de costume, com caixotes, tonéis e travessas de caminho de ferro.




Felicidade! Aí estão os sitiados. Talvez nem todos, infelizmente! Mas entre os que correm para nós,
de armas nas mãos e lágrimas nos olhos, aparece Sílvia. Grito o nome dela, que o ouve, e precipita-se para a passadeira, com ar radioso.

De repente, ouve-se um grito:

- Atenção! Os Boxers!

Num instante, estão todos abrigados atrás dos caixotes do cais ou da amurada da nossa canhoeira. Um dos seus canhões é imediatamente apontado para o grupo que acaba de surgir, descendo de Victoria Street, a  rua principal da concessão.

São cem, talvez duzentos, armados de varapaus, lanças, sabres. E Liu ergue-se, pronto a saltar para terra. Nesse momento estava precisamente a fixá-lo... Instintivamente grito-lhe o nome:

- Liu!

- Estou com eles!

- Agarrem-no! - berra um oficial.

Num abrir e fechar de olhos, Liu derrubou dois marinheiros que tentaram agarrá-lo à passagem, com dois magistrais pontapés, tal como eu vira praticar na outra manhã na praça. Salta para o cais e lança-se em direcção dos Boxers que se aproximam a correr.

- Apontar!

Fora o comandante quem lançara a ordem. As armas são levadas à cara. Alguém troça junto de mim:

- Agora é que se vai ver se eles são invulneráveis...

- Fogo!

Canhões e espingardas atiraram ao mesmo tempo. Quando se dissipa o fumo, Victoria Street está coberta de cadáveres.


A minha ferida cicatrizou e Pequim foi tomada de assalto por vinte mil soldados. Enviei ao meu jornal um relato dos acontecimentos que nunca será publicado pela simpatia que demonstro pelos Boxers. Outro correspondente chega a Pequim para me substituir. Eu fui chamado a França.

Evidentemente que Sílvia me acompanhará porque já nos casámos. Será a nossa viagem de núpcias... (in ob. cit., pp. 181-188).


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A Revolta dos Boxers (i)

Escrito por Bertrand Solet




A Imperatriz Ts'eu Hi


«A ocupação europeia vai durar perto de um ano, sem que a pilhagem se interrompa, e no meio de uma reconstrução precipitada empreendida pelos Chineses, que reedificaram à europeia os edifícios destruídos.

O governo chinês vê ser-lhe imposta uma indemnização de guerra que ascende a cerca de um bilião e oitocentos milhões de franco-ouros, cujas anuidades deverão ser pagas até 1940. Guarnições europeias permanecerão em Pequim e nas principais cidades chinesas: só serão evacuadas alguns anos antes da Segunda Guerra Mundial, sob a pressão dos novos ocupantes, os Japoneses.

Os aliados, por fim, exigiram a punição dos culpados, isto é, dos chefes dos Boxers. Tseu Hi resiste durante muito tempo antes de castigar aqueles que tinha apoiado. Sacrifica-os por motivos de Estado, para salvar o trono que, depois dela, passará para o pequeno príncipe Pu, filho do príncipe Tuan. Sob o nome de Pu Yi, será ele o último imperador da dinastia manchu. A derradeira humilhação da velha imperatriz é a publicação do decreto que condena os autores da revolta dos Boxers:

"Examinando as causas deste desastre, chegámos à conclusão de que é preciso procurá-las na ignorante arrogância de alguns dos nossos príncipes e ministros. Acreditando estupidamente no pretenso poder sobrenatural dos Boxers, foram levados a desobedecer ao Trono e a negligenciar as ordens expressamente dadas por nós a respeito do extermínio desses rebeldes.

Foi a loucura desses homens que levou o general Tung Fusiang a bombardear as legações.

Os ministros das potências amigas não deixarão de reconhecer que a revolta dos Boxers foi inclusivamente obra desses funcionários e que a acção ou a vontade do Trono não tiveram nela qualquer interferência. Castigámos os culpados sem fraqueza, e os nossos súbditos compreenderão assim a gravidade da recente crise..."».

Paul Ulrich («A Morte da Velha China», in Os Grandes Enigmas das Civilizações Desaparecidas).





A Revolta dos Boxers

Estou tão preocupado que mal noto a chegada de Sílvia ao gabinete do telégrafo. A mãe acompanhava-a de sombrinha na mão.



- Pode começar, senhor - acaba de lhe dizer o empregado - consegui uma linha. Dite lá...

- Para o jornal Le Gaulois, Paris. Aqui, Maurice Bardier a falar de Tien-tsin onde as autoridades francesas acabam de ser informadas de notícias graves. Há dois dias, 10 de Junho de 1900, a imperatriz-mãe, Ts'eu-hi, declarou ao Grande Conselho ser indispensável expulsar os estrangeiros. Imediatamente surgiram perturbações em Pequim onde foram mortos missionários, assim como o ministro da Alemanha, assassinado dentro do riquexó quando se dirigia ao palácio a protestar contra a expulsão dos diplomatas... Parece que a populaça sitia o bairro das legações onde os europeus se reuniram para tentar a defesa...

Levanto os olhos: a senhora de Montelon ouviu-me e parece sentir-se mal. Sílvia ampara-a... Impossível ir socorrê-la, pois o empregado do telégrafo continua a enviar, imperturbável, os seus pontos e traços para o espaço. Portanto continuo, erguendo os braços ao céu para mostrar o meu embaraço:

- O movimento da revolta conduzido pela imperatriz é organizado pela seita do Sino de Ouro saído da sociedade secreta do Lotus Branco, a que hoje chamamos os participantes Boxers. Recordemos que há dois anos os Boxers se declaram, principalmente, contra os estabelecimentos alemães na província de Xantungue...

- Senhor Bardier - interrompeu-me o empregado -, não vale a pena continuar, pois a linha foi cortada.

Não consegui evitar uma exclamação de contrariedade. Entretanto, a senhora Montelon viera a si:

- Meu Deus, Maurice, que notícias tremendas! Sempre pensei que os chineses eram velhacos e ingratos. Trouxemos-lhes a civilização, o caminho de ferro...

- Para melhor transportar as mercadorias que lhes compramos ao preço da chuva...

Não consegui evitar este remoque. Mas isso não impede que a mãe da Sílvia continue:

- E quanto à imperatriz... o Maurice sabe que ela não tem uma gota de sangue nobre nas veias?

- Sei, sim, minha senhora.

-Vínhamos mandar os parabéns a uma prima que faz anos... Um tumulto em Pequim; só nos faltava isso!... E eles abraçam-se!...


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De facto, Sílvia e eu estávamos quase a abraçar-nos. Estamos noivos e é para a encontrar que venho regularmente de Pequim, onde trabalho, até T'ien-tsin de noventa quilómetros de distância.

Entretanto, tento acalmar a minha futura sogra:

- Acabo de falar com o nosso cônsul que se dirigia para casa do cônsul inglês a fim de examinarem juntos as medidas a tomar, no caso de a revolta dos Boxers alastrar...

A senhora de Montelon, mulher de oficial, não se deixa abater por muito tempo. Ainda suspira quando se dirige ao empregado do telégrafo a quem vai entregar um telegrama para a prima, a expedir logo que a linha seja restabelecida.

Sílvia sorri e murmura-me ao ouvido:

- Liu está de acordo. Diz que é perigoso, mas mesmo assim está de acordo. Vai ter contigo amanhã de madrugada e leva-te roupas chinesas, para não dares nas vistas...

- Obrigado, minha querida!

- Mas tem cuidado contigo! Não quero ficar viúva antes de casar...

O dia decorre tranquilo. Não vem mais nenhuma notícia de Pequim, o que se justifica. Em T'ien-tsin, a cidade chinesa parece agitar-se. Os consulados distribuíram armas às famílias europeias: revólveres e carabinas. Há corpos de voluntários para montar guarda. Somos um milhar de europeus, dos quais a maior parte ingleses. Os chineses que nos rodeiam são novecentas vezes mais numerosos, e isso apenas na cidade!

Apesar do ambiente febril, não abandono o meu projecto, antes pelo contrário: Liu, o criado de Sílvia, prometeu-lhe deixar-me assistir a uma explicação dos Boxers, num dos bairros. Parece que são frequentes. Para eles, trata-se de galvanizar a população... Em todo o caso, isso interessa-me bastante. Há aí matéria suficiente para um artigo de arromba para o meu jornal.

Moro num dos dois hotéis da concessão inglesa, na margem de Pei-ho, um rio de fraco débito, arrastando vasa e onde a navegação só é possível em barcos de fundo chato ou house-boats, essas grandes barcaças cobertas que vão até Pequim. Eu prefiro o caminho de ferro, pois sempre é mais rápido...




Como combinado, Liu veio buscar-me de madrugada. No entanto, teve dificuldade em passar por causa das patrulhas europeias. Estranho rapaz, este Liu. Veio de Pequim e fala muito bem o francês e o inglês. Admiro-me que seja um simples criado, um empregado doméstico. Quando lhe fazemos perguntas, limita-se a rir.

No entanto, nessa manhã não ri. Enquanto visto, à pressa, uma túnica curta e umas calças largas e coloco na cabeça o barretinho preto, ele interroga-me:

- Não mudou de ideias, Senhor? A ocasião talvez seja mal escolhida.

- Não mudei, não!

- Tenha cuidado, senhor, nada de imprudências...

E diz isso quando me vê guardar uma pistola no bolso.

Saímos. Atravessamos a concessão inglesa e, depois, a francesa. Há uma ponte sobre o rio e que leva à estação, onde os japoneses se queriam instalar.

Nós vamos para o bairro chinês de Machiaku. As ruelas estão desertas. Liu caminha apressado. A dado momento pára e encostamo-nos a um muro de terra. Ouvem-se vozes, passa um grupo que distingo mal: são chineses que se afastam...

Retomamos o caminho. E em breve chegamos, felizmente. Liu manda-me entrar numa casa de tijolo. A porta abre-se depois de ele ter arranhado com a unha.

Está demasiado escuro para ver onde me encontro. Subimos umas escadas. Depois, sombras pequenas agitam-se à minha volta: adivinho crianças que uma ordem faz manter tranquilas.






- Sente-se aí - murmura Liu -, e verá tudo, senhor!

Aí é o ângulo de uma janela que dá, segundo me parece, para uma praça vazia a essa hora.

- Sobretudo, não se deve mexer, nem tocar na portada, senhor!

Aquiesço com uma certa impaciência. Por quem é que ele me toma?

A espera começa... Pouco a pouco aparece a luz do dia e com ela os primeiros mercadores chineses. Instalam-se mesmo no chão, apesar da sujidade, tirando dos cestos os produtos habituais: raízes, frutos, peixes... A praça está rodeada por casebres miseráveis. Em breve está cheia de gente e apercebo-me de que o barulho cresceu, quase sem dar por isso, e se tornou ensurdecedor!

De repente, Liu toca-me num braço.

- Aí estão, senhor! - murmura.

Acaba de sair, de uma ruela ao fundo da praça, uma vintena de homens armados de varapaus e chuços, saudados por um movimento geral de interesse. Os homens gritam, parecem chamar a multidão e tomá-la por testemunha. Na maneira de vestir não se distinguem dos outros camponeses chineses.

Em breve, homens e mulheres andrajosos os rodeiam e calam-se para ouvir um dos recém-vindos que lhes fala empoleirado num caixote.

- Que diz ele, Liu?

- Mais baixo, senhor!... Conta uma história, a de um letrado de aldeia que vai procurar um mandarim. Lamenta-se da invasão... e... dos estrangeiros desdenhosos... e.. dos ladrões de riquezas... Mas o mandarim é corrupto, não quer ouvir nada, nem fazer nada e o letrado concluiu que só tem um remédio contra os estrangeiros: aprender boxe, porque os camponeses não têm espingardas nem canhões.

A história é muito aclamada.






- Liu, o que é que diz a multidão?

- Prefiro não traduzir, senhor... Não são palavras amáveis para vós.

- Chamam-nos "diabos estrangeiros"?

- Isso não é nada, senhor, comparado com o resto...

E o criado de Sílvia sorri-me.

- Que fazem agora, Liu?

Queimam incenso sobre folhas amarelas e fazem súplicas às divindades. Pensam que os espíritos e os imortais vão sair das grutas e descer das montanhas para ajudarem os homens na prática do boxe...

- Aí está!

Aí está, de facto. Os Boxers acabam de instalar uma espécie de estrado improvisado, com caixotes e tábuas e sobem dois homens armados de varapaus.

Durante cerca de dois minutos assisto a um extraordinário combate simulado. Com maravilhosa rapidez, os combatentes atacam, defendem-se, recuam, avançam... Por momentos executam movimentos lentos, exemplificando como se pode desarmar um soldado com uma espingarda ou um revólver e, ainda, como atacar o inimigo.

- De perto, está bem, mas quando o inimigo está mais afastado? - pergunto.

- Os Boxers pretendem que têm fórmulas mágicas que os tornam invulneráveis às balas...

Fito Liu. Impossível descobrir-lhe no rosto se fala a sério ou se graceja, se acredita ou não no que diz.

Os gritos aumentam de instante para instante. Mas ainda não vi o melhor. Colocam dois caixotes no estrado a altura suficiente para que todos possam ver o que se vai passar... Mais uma tábua grossa. Um Boxer, de aparência vulgar, sobe ao estrado, depois à tábua. Salta de pés juntos para lhe provar a solidez e, depois, desce... A tábua fica à sua frente, à altura do peito. Concentra-se um instante e abate o cutelo da mão sobre a tábua.





A multidão ulula porque a tábua ficou partida em duas. Os Boxers aproximam caixotes e colocam-lhe em cima uma das metades da tábua partida. De novo o braço se ergue, se abaixa, e parte de novo a meio a tábua.

Confesso que estava pasmado. O Boxer tem uma força prodigiosa. A menos que se trate de um truque admiravelmente executado...

E ainda não acabou. Outros Boxers sobem ao estrado, com pesados tijolos de terra. E partem esses tijolos a murro, em conjunto, sempre aclamados pela multidão.

- Como é possível?

Liu parece ter compreendido o que penso. Há um brilho divertido nos seus olhos quando me responde:

- Foram os nossos antepassados que nos ensinaram isto, senhor. Não há batota alguma no que acaba de ver.

Não tivemos tempo de discutir o assunto porque a situação na praça acaba de evoluir rapidamente.

No estrado, um Boxer arenga para a assistência. Parece extremamente excitado. Liu muda de expressão:

- É preciso... é preciso que volte imediatamente... imediatamente.

- Que se passa?

O criado hesita, tem um ar extremamente aborrecido e parece não saber o que há-de fazer. Mas compreendo imediatamente, sem que ele precise de me explicar, porque os Boxers, brandindo os varapaus, preparam-se para abandonar a praça a correr, seguidos por grande parte dos espectadores. É uma revolta como em Pequim.






- Sílvia!

Não consegui evitar o grito, erguendo-me imediatamente:

- Vem daí, Liu.

- Senhor, senhor...

Nem sequer o ouço e corro para fora, galgando as escadas. Abro a porta da rua e corro em direcção das concessões... Lá fora há pouca gente e ninguém repara em nós.

Apenas, já é demasiado tarde. À medida que nos aproximamos, ouvimos cada vez mais nitidamente os tiros: as concessões estão a ser atacadas! Em breve temos a multidão à nossa frente. Impossível passar! Tento, ainda, duas ou três ruelas diferentes... nada a fazer!

Liu pára junto de mim, meio sufocado. Repousamos um pouco.

- Talvez - digo-lhe - consigamos aproximarmo-nos do Pei-ho e chegar a nado às concessões!

- Com certeza que há barricadas de juncos, senhor...

Mesmo assim, decido tentar. Mas tínhamo-nos aventurado demasiado, e em pleno dia! É um autêntico milagre ainda ninguém ter reparado no meu rosto pálido, como se diz na América. E os milagres não duram muito... Um grito. Outros mais. Os chineses, embora apressados a correr para as concessões, pararam e apontam-me o dedo.

- Fujamos, senhor!

O perigo dá-nos asas. Atrás de nós... uma autêntica multidão a perseguir-nos. Se parasse, seria imediatamente massacrado... (in «15 Histórias de Artes Marciais», Editorial Verbo, 1981, pp. 175-181).

Continua


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Os Senhores da Sombra (ii)

Escrito por Daniel Estulin





«Nenhuma organização reivindicou a responsabilidade pelo atentado ao World Trade Center».

Michael Pohly/Khalid Durán («Ussama Bin Laden e o Terrorismo Internacional»).


«Hoje, os Estados Unidos procuram destruir os mesmos acampamentos que a CIA ajudou a erguer para os guerrilheiros da Al-Qaeda. Robert Fisk, que conhece a região e que manteve contactos com Bin Laden no seu acampamento, diz numa entrevista que este não lhe pareceu ser o tal grande terrorista internacional que os EUA pretendem que seja. Pelo contrário, ele é um homem isolado e só, constantemente tentando saber o que se passa nas outras partes do mundo.

O anuário de referência Who's who?, desde 1999, que vem mencionando Bin Laden no meio dos magnatas, dos políticos e dos aristocratas e sem qualquer menção de um endereço conhecido: "Usamah bin Laden, chefe de guerrilheiros saudita".

No dia 11 de Setembro, tudo se alterou para Bin Laden. Se até aí as perseguições não lhe permitiam um sono sossegado, agora, cada minuto é de vigília e de espera. Não que a proximidade eventual da morte o atormente; Usamah disse um dia que o facto de continuar vivo quando tudo faria querer que não resistiria aos ataques soviéticos no Afeganistão, é para si como que um tempo extra sobre a Terra - um bónus de Alá - que vai aproveitando para O servir como melhor pode e sabe.

Quanto ao resto do clã Laden, e até ao ataque em Nova Iorque, a vida vinha decorrendo como se um dos seus membros não fosse já o homem mais procurado do mundo.

Contudo, a 15 de Setembro, numa reunião em Cannes, em casa do irmão Yeslam, ficou decidido o retorno de todos os membros da família para Djedda.

No dia 18 ao final do dia, cinco limusinas negras, escoltadas por funcionários do FBI, chegaram a uma zona reservada do aeroporto de Boston-Logan. Cerca de trinta árabes, todos de nacionalidade saudita, alguns mesmo com passaportes norte-americanos, dirigiram-se a uma das pistas onde os aguardava um Boeing 727 especial, com apenas quarenta luxuosos lugares de primeira classe. Uma semana após a destruição das torres gémeas, parte dos membros da família Laden, por ordem do rei Fahd, abandona os EUA, vindos do Texas, onde tinham passado o dia numa propriedade secreta. Antes da aterragem na Arábia Saudita, todos os Laden despiram os seus fatos cinzentos e enfiaram as túnicas brancas iguais à do irmão Usamah».

R. Carmo e C. Monteiro («Eu, Mujahid Usamah Bin Ladin, O Homem Invisível»).












«O wahhabismo é uma doutrina fanática fundada por Mohamed Ibn Abdelwahab (1703-1791) no século XVIII. Este último, descendente de uma linhagem de eruditos religiosos sunitas, recebeu uma educação rigorista inspirada na escola hanbalita. Mohamed Ibn Abdelwahab foi também profundamente influenciado pelas obras do erudito hanbalita Ibn Taïmiya (1236-1328) que, no século XIV, forneceu uma leitura literal da religião muçulmana reformando todas as interpretações até então realizadas. Condenava as diferentes crenças, tanto as interpretações como as práticas muçulmanas tradicionais, considerando-as como bidaa, isto é, inovações e heterodoxias contrárias às leis islâmicas. Este erudito iluminado justificara o assassínio de mulheres, crianças e velhos em tempo de guerra. Hoje inspira todos os assassinos islamitas.

Mohamed Ibn Abdelwahab reformara as suas opiniões religiosas com base na ideologia iniciada por Ibn Taïmiya. Convidou então todos os muçulmanos da península arábica a aderir ao que julgava ser a forma perfeita do Islão. A sua leitura extremista da religião ensinava que tudo o que surgiu no Islão depois da geração do Profeta e dos seus discípulos é uma bidaa, e portanto, na sua opinião, algo que deve ser combatido por todos os meios. Na sua opinião, o Islão puro é o do salaf [literalmente: os predecessores], ou seja, aquele que é praticado pelos companheiros do Profeta. Recusa qualquer ideia de modernização do Islão e qualquer evolução dos princípios islâmicos. Para ele, o Corão é um texto "válido em todos os lugares e em todos os tempos" e, por conseguinte, ninguém devia afastar-se da sua leitura literal.

(...) O wahhabismo foi endossado pela tribo de Al-Saud que reinava então pela força numa parte da península arábica e cujos descendentes se tornaram hoje os "servidores dos lugares santos do Islão". Foi esta aliança entre o sabre (Al-Saud) e a ideologia (Mohamed Ibn Abdelwahab) que deu nascença, em 1744, ao embrião daquilo que iria tornar-se a Arábia Saudita. Um juramento de fidelidade mútua entre o poderoso emir da região, Mohamed Al-Saud, e o poderoso teólogo Mohamed Ibn Abdelwahab selaria essa aliança. O wahhabismo torna-se então o guia oficial do emirado. As conquistas que os Saud empreenderam mais tarde na região acabaram por criar o reino da Arábia Saudita e os outros emirados do Golfo, Estados que os ocidentais e, nomeadamente, os britânicos, acabarão por desenhar com todas as suas linhas após a Primeira Guerra Mundial, no seguimento da queda do Império Otomano. O wahhabismo torna-se o sistema sócio-político oficial em vigor na Arábia Saudita e em todos os outros emirados. Todos estes Estados serão então regidos pela Sharia. Considerando a Sharia como lei divina, a Arábia Saudita e todos os emirados do Golfo estimam como nula qualquer lei de origem humana que entrar em contradição com ela. Assim acontece por exemplo com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, totalmente inaplicáveis num sistema que ainda hoje autoriza várias formas de escravatura, viola os direitos das mulheres, amputa os ladrões, lapida mulheres e homens adúlteros, etc.


Profeta Maomé recitando o Alcorão em Meca (gravura do século XV).


Miniatura persa que retrata a ascensão de Maomé ao céu.


Allah em árabe num medalhão na Hagia Sofia (Istambul).


Interior da Basílica de Santa Sofia





Quando os primeiros jazigos petrolíferos foram descobertos durante os anos 30, os britânicos e os americanos fizeram desse Estado teocrático dirigido por ditadores fanáticos e sanguinários o seu principal aliado na região. Fecharão naturalmente os olhos sobre todos os atentados aos Direitos do Homem e sobre todas as práticas supostamente contrárias aos seus valores.

Com o decorrer dos anos, a Arábia Saudita implementará uma estratégia baseada no dinheiro gerado por um maná petrolífero inesgotável, para propalar o wahhabismo através do mundo. Ao permitir a sua expansão, os sauditas queriam contrariar, desse modo, os defensores de outras correntes islâmicas enquanto os ocidentais procuravam abalar os nacionalismos que despontavam nos países árabes. Nas mesquitas de Meca e Medina, incitam-se os jovens muçulmanos vindos dos quatro cantos do mundo a rebelarem-se contra os seus regimes respectivos tanto mais que estes últimos eram, na maioria dos casos, aliados muito próximos da URSS. Este é outro motivo pelo qual os americanos e britânicos não se sentiam minimamente incomodados pela propagação desta doutrina violenta e obscurantista; muito pelo contrário, em plena guerra fria isso dava uma ajuda aos negócios da maioria dos países ocidentais. Os islamistas opunham-se então aos nacionalismos árabes como o do egípcio Nasser ou, mais tarde, o do sírio Al-Assad.

Além disso, a Arábia Saudita não tardará a tornar-se o financiador por excelência de todos os partidos e regimes islamistas sunitas, bem como de todos os movimentos islamistas através do mundo. Apoiará os micro-estados da península arábica e, mais tarde, o Paquistão, a Indonésia e todos os países que tinham decidido instaurar a "lei divina" na Constituição.

(...) Em 1979, Osama Bin Laden obtém o diploma de engenharia civil. Já frequenta os meios islamistas sauditas. Esse é também o ano em que o ayatollah Khomeiny triunfa com a sua "revolução islâmica" no Irão e em que o exército soviético invade o Afeganistão. Ainda estamos em plena guerra fria. Os estrategas da Casa Branca e do Pentágono elaboram um plano diabólico que vai permitir-lhes realizar um sonho que acarinham de longa data: enfraquecer a URSS e levar o Exército Vermelho a passar por aquilo que o Exército americano passara alguns anos antes no Vietname. Desta vez o teatro das operações será o Afeganistão, país povoado por etnias e tribos guerreiras que não terão decerto medo de enfrentar uma potência mundial.


Os americanos porão em prática a sua estratégia apelando a dois aliados que também tinham interesses estratégicos neste conflito: a Arábia Saudita e o Paquistão.

Para a Arábia Saudita esta guerra ia permitir exportar a ideologia wahhabita para as portas do continente asiático e instaurar um regime que defenderia a sua ideologia. E, para os sauditas, exportar o wahhabismo para o Afeganistão era mais importante do que para qualquer outro lado. Este país tem uma fronteira com o Irão de Khomeiny, um Estado teocrático que pratica um Islão xiita, profundamente hostil ao wahhabismo e, por conseguinte, à Arábia Saudita e ao seu regime, e susceptível de estender a sua "revolução" aos países vizinhos. O prolongamento do wahhabismo era portanto estratégico para a Arábia Saudita. Esta ideologia devia alcançar as portas do Irão e impedir o ayatollah Khomeiny de exportar uma "revolução islâmica" nascente.

Quanto ao Paquistão, tinha outras preocupações. Desde a sua criação em 1947, este país viveu sempre com a Índia, seu vizinho, uma situação que nem era bem de guerra nem propriamente de paz, pontuada periodicamente por conflitos. O Paquistão precisava de um aliado seguro nas suas fronteiras a Oeste e, sobretudo, de um Estado que não estivesse sob a alçada da Índia. Foi assim que os paquistaneses também se implicaram - indirectamente - na guerra. Formou-se então uma aliança tripartida, constituída pelos Estados Unidos, a Arábia Saudita e o Paquistão. Subtilmente, os membros desta "associação" dividiram os papéis entre si. Através da CIA, os americanos deviam armar e financiar os combatentes afegãos; através do seu exército e dos seus serviços secretos, o Paquistão devia treinar os combatentes e assegurar-lhes a logística, formando uma base de retaguarda para os guerreiros afegãos e, por fim, a Arábia Saudita, para além do financiamento, devia exportar não só a ideologia wahhabita como inflamar os jovens muçulmanos, transformando-os em combatentes pela "causa afegã". Hoje calcula-se que mais de 35 000 combatentes árabes partiram para as trincheiras afegãs entre 1979 e 1989. Vinham de uns cinquenta países; havia obviamente sauditas, mas também egípcios, magrebinos, iemenitas, sírios, iraquianos, etc.

Durante dez anos os americanos não cessaram de enviar armas, munições e material. A CIA supervisava de muito perto o desenrolar das operações. Segundo certas estimativas, a central americana de informação deixou três mil milhões de dólares no Afeganistão e tudo isto ocorria quase publicamente: Zbigniew Brzezinski ou ainda Warren Christopher, conselheiros de Jimmy Carter tal como, depois, conselheiros de Ronald Reagan, iam visitar regularmente os combatentes afegãos e árabes nos campos de treino.

Zbigniew Brzezinski




Ronald Reagan


Os sinais pré-anunciadores do que deveriam ser os mortíferos atentados islamistas contra soldados americanos e franceses no Líbano, em 1983, não chegaram para que os ocidentais tomassem consciência do perigo que o islamismo podia representar dentro de algum tempo. Os Estados Unidos e os seus aliados estavam decididos, antes de tudo, a combater a União Soviética e o comunismo, prosseguindo dessa forma, na sua cegueira, uma ajuda desmesurada aos defensores do islamismo jihadista.

Em Março de 1985, o presidente Ronald Reagan assina a directiva de segurança nacional n.º 166, que autoriza uma ajuda militar secreta aos combatentes afegãos. Esta iniciativa tinha como objectivo combater o exército soviético. A nova ajuda dos Estados Unidos foi marcada por um considerável aumento da quantidade de armas fornecidas. Não obstante, escaldadas pelas guerras secretas empreendidas pela CIA contra Cuba e o Laos, as autoridades americanas decidem não envolver os seus agentes em território afegão. A vertente operacional será assegurada pelos agentes do Inter Service Intelligence (ISI), o poderoso serviço paquistanês de informação, que traziam todo o seu saber em matéria de guerrilha aos chefes de guerra afegãos.

Utilizando os serviços de informação paquistaneses, a CIA desempenhava um papel-chave no treino dos combatentes afegãos, então chamados mujahedin ["combatentes da guerra santa"]. A conotação religiosa deste qualificativo e aquilo que ele podia comportar como sentido não embaraçava ninguém. Aliás, os combatentes apoiados pela CIA tinham integrado um estrito ensino religioso na sua preparação militar. Os Estados Unidos desejavam que fosse uma "guerra de religião" para os afegãos, e não uma guerra de libertação.

(...) Os americanos manipulavam os islamistas fazendo-os crer que os consideravam como "revolucionários que combatiam pela liberdade". Se nessa época emissários da administração americana visitavam campos de combatentes afegãos, isso não significava de modo algum que os homens de Washington estabelecessem laços directos com os combatentes. A central americana de informação "geria" estes combatentes através, nomeadamente, dos serviços secretos paquistaneses e sauditas. A esse propósito, a ideia segundo a qual Bin Laden teria sido um agente da CIA tem mais a ver com um fantasma jornalístico e intelectual do que com a realidade.


Vários motivos levam-me a dizê-lo com esta brutalidade. Em primeiro lugar, essa informação que ainda vai sendo alimentada em certos meios mediáticos demonstra um desconhecimento total da ideologia islamista. Com efeito, os integristas muçulmanos - sobretudo os da estirpe de um Bin Laden - não se autorizam estar a soldo de um não-muçulmano. Baseando-se no versículo corânico que estipula: "Não tomais os judeus e os cristãos como aliados...", os islamistas consideram como um "renunciador" qualquer muçulmano que milite pela causa de um não-muçulmano. Ora, Bin Laden nunca se teria aventurado a colocar-se nessa posição. Aliás, se a CIA tivesse divulgado nem que fosse a sombra de uma prova que mostrasse laços eventuais entre ela e o milionário saudita, este já teria sido eliminado pelos seus próprios homens pois, sempre ideologicamente falando, a execução do "renunciador" prima sobre a execução do "infiel". Em segundo lugar, na época da guerra contra a URSS, Bin Laden ainda não era o que é hoje. É certo que desempenhou um papel não negligenciável mas, para a CIA, ele era menos importante do que os chefes de guerra afegãos. Por fim, convém precisar que o próprio Bin Laden considera como um insulto a alegação pretendendo que ele foi um agente da CIA. Como todos os islamistas, foi manipulado pela CIA, mas nunca trabalhou para a agência de informações de Langley. Em Dezembro de 1998, durante uma entrevista concedida a Jamal Ismail, jornalista da Al-Jazira, o canal televisivo do Qatar, Osama negou categoricamente esta alegação, desafiando a administração americana: "...os americanos mentem quando pretendem que colaboraram connosco em dada altura e nós desafiamo-los a fornecerem qualquer prova. Muito pelo contrário, eles representavam um peso para nós. (...) Já nessa altura lhes éramos hostis e, graças a Alá, tivemos conferências desde essa época, em Hedjaz e Nejd, em que declarámos, há mais de doze anos, a necessidade de boicotar os seus produtos e de atacar as suas forças e a sua economia". Não é possível ser mais claro.

(...) A 23 de Agosto de 1996, Bin Laden divulga, a partir do Afeganistão, uma verdadeira "declaração de guerra" contra os USA. Na realidade, oficializa de certo modo as ameaças que não deixou de reiterar desde há uma década. Nessa declaração, promete aos americanos e aos seus aliados "uma guerra longa e impiedosa até à libertação dos Lugares Santos". Começa então a falar de Al-Qaeda nos meios especializados.

Já o suspeitam de ter estado por trás do atentado cometido a 25 de Junho de 1996 contra a base americana de Khobar, na Arábia Saudita, que causara dezanove mortos. Ele qualificará esta operação de "grandiosa", mas negará sempre a sua participação. Mais tarde descobriu-se que fora realmente uma operação da Al-Qaeda.

O que é a Al-Qaeda? Literalmente, a palavra significa "A Base", mas esta denominação não foi escolhida fortuitamente. Com efeito, a organização existe sob uma forma embrionária desde o final da guerra contra os soviéticos no Afeganistão. Ao recuperar os ficheiros do Maktab Al-Khadamat no final da guerra, Bin Laden conseguira ficar em contacto com os seus antigos "companheiros de armas" que mais tarde iriam formar a "base" da sua organização, isto é, Al-Qaeda. Com efeito, ao observar atentamente o organigrama da organização terrorista, é evidente que, em 1998, a estrutura dirigente, na ocorrência Bin Laden, Aiman al-Zawahiri, Mohamed Atef, Abu Mossab al-Zarqawi, etc., eram todos antigos "legionários" afegãos. É a partir dessa base de veteranos do Afeganistão, muitos deles regressados aos seus países de origem, que Bin Laden consegue criar uma organização de múltiplas ramificações. A ideia da criação de Al-Qaeda tinha aliás começado por germinar na cabeça de Abdallah Azzem por volta do final dos anos 80, e em 1988, ele evocou o assunto a três homens: Osama Bin Laden, Mohamed Atef, também conhecido como Abu Hafs, al-Masri, e Aiman al-Zawahiri, que se tornará o número dois da organização terrorista.









Na filosofia dos seus dirigentes, Al Qaeda devia servir nomeadamente como elemento federativo para todas as organizações islamistas espalhadas pelo mundo, que até então tinham objectivos divergentes e regionais: Al-Qaeda reuniu-as em torno de um único denominador comum: a realização de uma jihad planetária».

Mohamed Sifaoui («Onde está Bin Laden? O Jogo Duplo dos Americanos»).


«O termo "salafismo" designa a escola de pensamento que apareceu durante a segunda metade do século XIX e que defendia, por reacção à propagação das ideias europeias, o retorno à tradição dos "antepassados piedosos" (salaf). Os salafitas são, no sentido exacto do termo, "integristas" do Islão, hostis a qualquer inovação, descrita como "interpretação humana" da lei e da ordem divinas. Os "salafitas combatentes da jihad" são adversários dos Irmãos Muçulmanos, de quem denunciam a excessiva modernidade, que os leva a tomar demasiadas liberdades com a letra dos textos sagrados. Consideram que a situação no mundo muçulmano está madura para se passar à ofensiva, e conduzir, quando for ocasião, a jihad que levará à proclamação do Estado Islâmico.


Neste sentido são todos simultaneamente herdeiros do grupo egípcio chamado Tanzim al-Jihad (Organização da Jihad), que assassinou o presidente Sadate em Outubro de 1981, e de Abdullah Azzam.

Os salafitas combatentes da jihad têm uma filiação pessoal com os assassinos de Sadate, pois um bom número de militantes que gravitavam à volta destes, depois da sua prisão e do seu processo no Egipto, juntaram-se-lhes nos campos de Peshawar a partir de 1984-1985, quando começaram a ser libertados aqueles que tinham sido condenados às penas mais leves.

Quanto a Abdullah Azzam, que se manteve como Irmão Muçulmano de obediência estrita, ele está muito ligado ao establishment saudita a favor do qual canaliza o ardor dos militantes islamistas do mundo. Além do Afeganistão, todos os países muçulmanos "usurpados" têm, segundo ele, vocação para suportar a jihad que os conduzirá de volta à submissão à autoridade de um poder islâmico. Isso diz respeito antes de mais à sua Palestina natal, mas também à Andaluzia arrancada ao Dar el Islam pela Reconquista, às Filipinas da Frente de Libertação Moro, às Repúblicas muçulmanas da ex-União Soviética, vizinhas do Afeganistão, e ao Iémen do Sul ainda comunista nessa altura, particularmente execrado por Riade. Nesta lista de Estados "a libertar", misturam-se Estados cujos governos não são muçulmanos e outros em que os muçulmanos são maus crentes.








Afastado do mundo e das suas realidades, este grupo de militantes armados, treinados e alimentados por uma ideologia que chama ao combate para restaurar os direitos de Deus, pretensamente violados pelo mundo, os salafitas combatentes da jihad, vai virar-se rapidamente contra os principais Estados Ocidentais, como a França ou os Estados Unidos, que tinham servido anteriormente de aliados e depois de refúgio para alguns veteranos afegãos. Estes Estados vão tornar-se alvos de ataques terroristas que perturbarão os equilíbrios internacionais construídos depois do fim da guerra fria. Assim, alguns dirigentes dos combatentes da jihad, que deixam o Afeganistão depois do fim do conflito, procuram asilo na Europa, a partir de 1992, para reconstruírem aí redes de financiamento, de aprovisionamento das frentes, de informação e de comunicação, necessárias para a continuação da jihad com vista à instauração do Estado islâmico no Afeganistão e à preparação das futuras jihad noutros locais.

(...) Jeff Gerth e Judith Miller, jornalistas do New York Times, mostraram no decurso de uma investigação que [a] privatização do terrorismo era, sobretudo, imputável a homens ricos de negócios do Golfo Pérsico. Assim, escreveram eles: "A maior parte dos fundos destinados aos terroristas que atacam os americanos, israelitas e súbditos dos países ocidentais, vem de indivíduos ricos da Arábia Saudita ou de outros Estados do Golfo Pérsico, aliados dos Estados Unidos".

Perante esta nova forma de terrorismo, o departamento de Estado americano vai a pouco e pouco tentando recuperar do seu atraso na matéria. É por isso que o relatório anual do departamento de Estado, em 1995, sobre o terrorismo global, faz brevemente o ponto sobre o papel destes financeiros privados. Philip C. Wilcox, chefe do departamento de Estado para o contra-terrorismo, afirma que o Hamas e outros grupos de combatentes da jihad receberam em 1995 fundos provenientes de doadores de países do Golfo Pérsico, mas também dos Estados Unidos. Muitas vezes esses fundos com origem em árabes ricos são encaminhados para os grupos terroristas islâmicos por intermédio das organizações caritativas a que já nos referimos.

São os atentados antiamericanos no Médio Oriente que levaram os serviços americanos - o departamento de Estado, a CIA, o FBI e o ministério do Tesouro - a intensificar a sua vigilância sobre os potenciais apoios privados desses grupos. Mas combater esses carreiros de financiamento, muitos dos quais passam por organizações caritativas, é muito mais complexo do que identificar um Estado empregador de um grupo terrorista. Neste caso, basta decidir das sanções a aplicar-lhe, deixando-lhe o cuidado de resolver ele próprio o problema do seu terrorismo, se quiser obter o levantamento das sanções. Um exemplo entre mil: o caso Khalifah. Em 1996, Khalifah era detido nos Estados Unidos, acusado de ter financiado uma organização terrorista. Tinha sido condenado à morte, por contumácia, pela justiça jordana por ter estado implicado numa rede de financiamento de uma organização terrorista cujo objectivo era assassinar súbditos americanos e judeus. Segundo os serviços de informações jordanos, Khalifah também teria participado num caso de financiamento de um campo de treino nas Filipinas. Ora, em sua defesa, fez valer que era membro da International Islamic Relief Organization, uma organização caritativa financiada pelo governo saudita. É verdade que contra ele jogou o facto de outros membros desse grupo terem reconhecido que essa organização fornecia fundos ao Hamas. Quem é Khalifah? Um dos numerosos cunhados de Usamah bin Laden.





Com esta privatização progressiva do terrorismo internacional, Usamah bin Laden, que é disso o principal responsável desde o início da jihad afegã, introduziu na história do terrorismo, é necessário que se diga, uma mudança radical que mergulha mais ou menos no desconhecido os serviços de segurança e de contra-terrorismo do mundo».

Florent Blanc («Bin Laden e a América»).


«Em que mundo vivemos. Operações de propaganda e guerra psicológica de estados-nação em conflito dizem-nos que o preto é branco e o branco é preto, estas mentiras e falsidades criam zonas cinzentas, o reino das operações dos Senhores da Sombra. Pois, quando os governos operam em extremo secretismo, permitindo que as suas agências de informação funcionem com impunidade e sem fiscalização, então os nobres ideais da arte de governar podem ser sequestrados pelos Homens dos Bastidores, colocando os estados-nação uns contra os outros, numa dança hegeliana de conflito e resolução.

Os ataques em solo americano em 2001 foram alimentados por uma ameaça muito maior do que o simples ódio cego posto em acção por insurgentes islâmicos a partir dos seus refúgios no Afeganistão e no Paquistão. Esses actos provém de trás da paisagem bidimensional de lados opostos diariamente apresentada pelos sabichões e comentadores. Esses jogos de sombras perturbam-nos as vidas com corrupção descarada e agendas sobrecarregadas e fazem-nos saltar continuamente de uma "crise" para outra. Esta aberração, qual monstro escondido, conduz muitos actos, sejam eles de grupos fundamentalistas cristãos de direita, de conselhos de administração de companhias petrolíferas, de mesquitas Wahhabi, de bancos privados nos emirados do Golfo Pérsico, de centros hasídicos de "diamantes de sangue" na Europa e em Nova Iorque, ou de arsenais do antigo Pacto de Varsóvia.

Esta influência sinistra é confirmada por um número épico de "coincidências" e por relações documentadas entre a CIA, Nações Unidas, DEA, FBI, Interpol, autoridades belgas e britânicas, fundamentalistas cristãos e interesses da máfia russo-israelita. O motor que faz mover muitos acontecimentos que mudam o mundo não é a ideologia, não é a religião, não é a política e de certeza que não é o patriotismo. E o dinheiro parece mesmo motivar muitos participantes - peões voluntários daqueles que anseiam por controlar o futuro da humanidade.





(...) O regime dos Senhores da Sombra não quer más notícias, só boas notícias. A União Soviética era conhecida por uma política semelhante - não havia más notícias no velho Império. Desastres de aviação, tremores de terra, dissidentes e epidemias nunca eram cobertos pelos meios de comunicação social soviéticos. A comunicação social controlada pelos Senhores da Sombra está a adoptar gradualmente a mesma política - a guerra no Afeganistão não é para proteger o negócio da droga, mas antes para levar a democracia a uma terra desgraçada; a guerra no Kosovo não teve nada a ver com assumir o controlo dos recursos naturais mais valiosos do país, mas antes com a libertação de um povo oprimido e resignado, à procura da autodeterminação e, por essa razão, punidos pelos sérvios, armados em lobos maus; o assalto em toda a linha à Rússia tem de ser visto no contexto da comunidade internacional e construção de nações, e não com o aniquilamento do único país capaz de destruir dez vezes a aliança da OTAN...

(...) Nos dias sombrios da Segunda Guerra Mundial, o ministro nazi da propaganda, Josef Goebbels, percebeu isto perfeitamente: "Com voz ou sem voz, o povo pode ser sempre levado a fazer o que lhe mandem. É fácil. Basta dizer que está a ser atacado, e denunciar os pacifistas por falta de patriotismo, expondo o país a um perigo maior". Resulta em qualquer país e em qualquer época.

Na sequência imediata dessa guerra, um emigrado russo como eu, Vladimir Nabokov, escreveu um dos melhores romances distópicos do século XX, Bend Sinister. Num país imaginário, governado pelo Partido do Homem Comum, o seu protagonista filósofo é sistematicamente destruído por um Estado tirânico, "em guerra com os seus próprios súbditos". Bend Sinister defende a liberdade da mente individual não só de ditaduras estrangeiras, mas também da imposição da cultura de massas, da propaganda de massas e da mobilização das massas no seu próprio interior.

Porém, mesmo no seu romance mais político, concebido no calor da guerra, Nabokov passa do problema do momento para a força e o mistério da consciência: o poder da mente, do coração e da alma de uma pessoa para resistir à opressão política a que é sujeita. A resistência do romance em si, em nome da consciência, é contra o pensamento de grupo que nivela a mente humana individual».

Daniel Estulin («Os Senhores da Sombra»).




Os Senhores da Sombra



(...) Se o leitor ainda acreditar que não pode realmente haver um envolvimento institucional importante, com as mãos na massa no negócio da droga, será para si uma surpresa saber que, em finais de Junho de 1999, inúmeros serviços noticiosos, incluindo a Associated Press, relataram que Richard A. Grasso, então presidente da Bolsa de Nova Iorque, voou para a Colômbia, para se encontrar na selva com um(a) porta-voz de Raul Reyes, das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Estas são o principal aparelho narco-terrorista da Colômbia, como qual o governo dos EUA está em guerra não oficial.

O objectivo da viagem era «levar uma mensagem de cooperação dos serviços financeiros dos EUA» e discutir o investimento estrangeiro e o futuro papel das empresas dos EUA na Colômbia. O que tem que os EUA possam querer? Dinheiro - dinheiro da droga: mais um bilião de dólares em valores que têm vindo a ser acumulados na Colômbia há mais de trinta anos. São praticamente recursos ilimitados, que fazem crescer água na boca a Wall Street só de pensar em canalizá-los através dos seus mercados financeiros.

Claro que nem sempre é fácil. Se um americano for a um banco e depositar 10 000 dólares ou mais em dinheiro, o banco é obrigado por lei a preencher um relatório de transacção de divisas. Todavia, as grandes empresas podem embolsar um cheque de 100 milhões de dólares de qualquer barão da droga sem a mínima exigência de informação. Contudo, antes de poderem canalizar esse dinheiro para os próprios resultados anuais, algo tem de ser feito para o legitimar.

Ao contrário de há 150 anos, hoje os lucros do lucrativo comércio da droga são ilegais. É algo frequentemente esquecido pelas pessoas que procuram entender como funciona o nefasto negócio da droga. Antes desse dinheiro poder ser usado legalmente, tem de ser escondido e, posteriormente, branqueado. Não se pode esconder 700 mil milhões de dólares num colchão. «O dinheiro move-se tão depressa que, a menos que se domine os sistemas informáticos que o movimentam, ou o programa que o gere, seria impossível seguir-lhe o rasto» (8). A ignorância, principalmente quando as transacções de branqueamento são gigantescas, não é uma posição sustentável.

Além disso, as empresas podem ganhar uma fantástica quantia de dinheiro pedindo emprestado dinheiro ilegal a traficantes de droga e a países que negoceiam em drogas a uma taxa de juro inferior e branqueando-o com lucros astronómicos. Quando 100 mil milhões de dólares de dinheiro ilegal inútil são emprestados a cinco por cento a uma empresa gigantesca, esse dinheiro torna-se por sua vez legal e líquido.


Le Monde Diplomatique, a principal fonte de informações para os diplomatas internacionais, num artigo de investigação, descobriu serviços de informações dos EUA, bancos e outras empresas multinacionais no topo de uma enorme rede global de crime organizado e lavagem de dinheiro. Citou «cartéis, negócios e especulação com informações do interior, balanços fraudulentos, apropriação de fundos públicos, espionagem, chantagem e traição, entre uma grande quantidade de outras práticas duvidosas. No entanto, nada disto pode ser bem sucedido sem os governos estarem dispostos a manter, no mínimo, os regulamentos restritivos, a abolirem ou ultrapassarem as regras existentes, a paralisarem inquéritos... e a reduzirem ou conceberem amnistias perante qualquer multa» (9).

A CIA tem uma relação estreita com este sistema. Tem tido o seu nome relacionado com o negócio da droga durante a maior parte dos seus 60 e tal anos de existência. Quase todos os participantes-chave na história da agência têm tido uma relação especial com o sistema financeiro da América.

Clark Clifford: advogado e banqueiro de Wall Street. Antigo ministro da Defesa de Lyndon B. Johnson. Pronunciado por actos criminosos como presidente do First American Bankshares, banco controlado em segredo pelo banco corrupto da CIA para a droga, o BCCI, por ganhar 6 milhões de dólares em lucros de títulos do banco que comprara com um empréstimo sem garantias do BCCI.

Richard Helms: Director da CIA. Pronunciado e acusado por mentir ao Congresso em 1976. O seu advogado foi Clark Clifford.

Allen Dulles foi o principal espião americano do Office of Strategic Services [OSS, antecessor da CIA] na Suíça, encontrando-se com frequência com dirigentes nazis e cuidando dos investimentos dos EUA [leia-se Rockefeller] na Alemanha. Executivo da Standard Oil, uma empresa de Rockefeller. Ideólogo da CIA. Director desta no tempo de Eisenhower. Profissão: Sócio da mais poderosa firma de advogados de Wall Street, a Sullivan and Cromwell, e o responsável por inundar os EUA de LSD na década de 1960.

Bill Casey: o director da CIA no tempo de Reagan e veterano da OSS. Serviu no tempo de Nixon como presidente da Comissão de Garantias e Câmbios. Profissão: advogado de Wall Street e corretor da bolsa. Uma actividade secreta relacionada com as operações de tráfico de droga da CIA teve o nome de código Amadeus, cortina da CIA, gerindo branqueamento de dinheiros da droga através de uma série de bancos por todo o mundo. Cinco meses antes de falecer de um tumor cerebral inoperável reconheceu que a CIA tem estado envolvida no negócio da droga. Deixou uma declaração com a assinatura reconhecida no notário a garantir este facto, com Richard Nixon a assinar como testemunha (10).




Do Vietname ao Cambodja, do Laos ao Paquistão e Afeganistão, do Irão aos Contras e mais, a agência tem sido o bombo da festa preferido da esquerda progressista. Porém, não é apenas a CIA que está envolvida em droga até à ponta dos cabelos. No artigo mencionado acima, Le Monde Diplomatique afirmou explicitamente que «os serviços secretos do aparelho de estado mais poderoso do mundo [leia-se os EUA]... entraram na guerra económica», tornando-se «o sócio número um do crime financeiro internacional» (11). A  mesma acusação pode ser feita ao Serviço de Informações Externas britânico (MI6), à Mossad israelita, à DGSE francesa, ao FSB russo, já para não falar de agências de informações secretas de Marrocos, Colômbia, Honduras, El Salvador, Venezuela, Panamá, República Dominicana, Filipinas, etc.

Pondo de lado os contos de fadas populares, a Guerra do Vietname foi sobre drogas. Os franceses foram expulsos e o consequente vazio foi de imediato preenchido pela agência, que assumiu o comércio da droga, o seu processamento e distribuição. Desta simples perspectiva, pouco espaço fica para visões idealistas da Guerra do Vietname como o conflito entre o bem e o mal, nós contra eles, a Velha Glória contra a Foice e o Martelo, Soldados Cristãos Progressistas contra Comunas sem Deus. Não, foi outra coisa. Na relação simbiótica entre o poder económico e o militar, o dinheiro alimenta as forças armadas, e estas mantêm os recursos e os mercados. Guerra e drogas: um casamento feito no céu.

Christian de Brie e Jean de Maillard, noutro artigo brilhante para o Le Monde Diplomatique, edição de Abril de 2000 intitulado «Crime, A Maior Livre Iniciativa Do Mundo», descrevem um «sistema operativo» palpável de fluxo internacional de capital de droga: «Ao permitir que o capital flua sem controlo de um extremo do mundo para o outro, a globalização e o abandono da soberania juntaram-se para promover o crescimento explosivo de um mercado financeiro fora-da-lei. É um sistema coeso, intimamente ligado à expansão do capitalismo moderno e baseado numa associação de três parceiros: governos, multinacionais e máfias. Negócio é negócio: o crime financeiro é acima de tudo um mercado florescente e estruturado, regido pela oferta e pela procura. A cumplicidade dos grandes negócios e o laisser faire político são a única maneira de o crime organizado, em larga escala, conseguir branquear e reciclar os lucros fabulosos das suas actividades. As multinacionais necessitam do apoio dos governos e da neutralidade das entidades reguladoras para consolidarem as suas posições, aumentarem os lucros, resistirem à concorrência e esmagá-la, conseguirem realizar o «negócio do século» e financiarem as suas operações ilícitas. Os políticos estão directamente envolvidos e a sua capacidade de intervenção depende do apoio e financiamento que os mantêm no poder. Este conluio de interesses é uma parte essencial da economia mundial, o lubrificante que mantém as rodas do capitalismo a girar».

Por outras palavras, as drogas são um grande negócio, gerido, controlado e protegido por gente muito poderosa que trabalha em conjunto com instituições bancárias de topo nos dois lados do Atlântico, membros de vários governos e de empresas importantes, cujas acções são transaccionadas nas primeiras bolsas do mundo. Ao que parece, uma dessas instituições é a Hong Kong and Shanghai Corporation (BHSH).  A partir da segunda Guerra do Ópio (1858-1860), os bancos e empresas comerciais britânicos criaram a BHSH, «que até hoje serve de entreposto central para todas as transacções financeiras do Extremo Oriente relacionadas com o mercado negro do ópio e dos seus derivados em heroína» (12).




Outro suspeito é o Bank of Nova Scotia, do Canadá, agora com sede em Toronto. Por um lado, funciona como grande negociante de ouro e líder do mercado do ouro de Toronto, por outro, funciona como banqueiro para gigantescas empresas de extracção mineira canadianas a funcionarem no Terceiro Mundo. Segundo fontes bem informadas dos serviços de informações secretas dos EUA, o Bank of Nova Scotia pode ser um importante operador de dinheiro sujo nas Caraíbas, fazendo passar capital contra as restrições de divisas, uma grave violação das leis locais sobre divisas.

Como é que os bancos com grandes ares de respeitabilidade se enquadram no tráfico de drogas, com toda a sua sujidade inerente? Um modo consiste em financiar aquisições legítimas de empresas registadas e com licenças para negociarem como importadoras de produtos químicos. A Hong Kong and Shanghai Bank está mesmo no meio desse comércio por intermédio de uma empresa, a Tejapaibul, cujo banco é o BHSH. O que faz essa empresa? Importa para Hong-Kong quase todos os produtos químicos necessários para processar o ópio bruto, transformando-o em heroína pela diacetilação da morfina com anidrido acético, o insubstituível agente químico necessário para o processamento de heroína. O anidrido acético também é usado na conversão de celulose em acetato, componente das películas fotográficas e na produção da aspirina. Nesse caso deveria surpreender que os maiores mercados para o anidrido acético desviado continuem a estar no Afeganistão. Sei o que está a pensar. Talvez os afegãos sejam simplesmente mais susceptíveis às vulgares constipações do que qualquer outra pessoa no planeta.

As campanhas públicas recorrendo a uma linguagem dura foram cinicamente lançadas com toda a pompa e circunstância durante as eleições nacionais de governos na Europa e nos EUA, prometendo «dar luta aos barões da droga», não passam de um perfeito disparate. Conforme previamente observado, se os governos, o Parlamento Europeu ou o Congresso dos EUA, por exemplo, estivessem a falar a sério quanto à erradicação do negócio da droga, elaboravam leis que exigissem seguir meticulosamente o percurso do anidrido acético e de outros produtos químicos essenciais. Contudo, tal acção unilateral e decisiva desagradaria enormemente aos construtores do império (in ob. cit., pp. 145-151).


Notas:

(8) Michael Ruppert, op. cit.

(9) Ibid.

(10) Christian de Brie, «Thick as Thieves», Le Monde Diplomatique, 5 de Abril de 2001.

(11) Michael Ruppert, op. cit.

(12) Christian de Brie, op. cit.



Daniel Estulin cumprimenta e dedica os seus livros ao terrorista Fidel Castro. Ver aqui