terça-feira, 29 de março de 2011

A inflação de Fernando Pessoa

Escrito por Ernesto Palma







A "descoberta" de Fernando Pessoa tornou-se num culto e tem os seus sacerdotes. Vamos lá contribuir também para a inflação de Pessoa

Quando, no início dos anos quarenta... Não, com este estilo não há no jornal espaço que chegue. O que aconteceu foi que, naqueles tempos, Fernando Pessoa fora "descoberto" por Gaspar Simões, que lhe iniciou as "obras completas", por Álvaro Ribeiro, que lhe publicou os textos de prosa filosófica; por Casais Monteiro, que lhe reuniu e prefaciou uma antologia...

Este último escreveu nesse prefácio, com certo intuito de escândalo, o que hoje se afigura quase académico. Mais ou menos o seguinte: "Se dermos à história da poesia portuguesa a imagem de uma cordilheira, suas mais altas montanhas serão Camões, Bocage, Antero, Pascoaes, Pessoa e Régio".

Naqueles tempos, lembrava-se na tertúlia da "filosofia portuguesa" que Leonardo Coimbra manifestava uma desdenhosa indiferença para com as pretensões e veleidades filosóficas dos textos que F. Pessoa publicava na Águia e em revistas de Lisboa, o que parece ter magoado silenciosamente o poeta. Lembrava-se também que Pascoaes, tão admirado e exaltado por Pessoa, louvava nele a inteligência crítica mas nunca o espírito poético. E José Régio... Quando andava em ensaios o "Jacob e o Anjo", citei-lhe eu, em conversa do Parque Mayer, aquilo de "todos nós embalamos ao colo um filho morto". Régio deu um salto, fitou-me em riste e exclamou: "Aí está o único verso que Pessoa escreveu!"

Certo é que a "descoberta" e publicação das obras de Pessoa deslumbrou as gerações. O deslumbramento prolonga-se hoje numa espécie de culto que tem os seus sacerdotes - Gaspar Simões, Álvaro Ribeiro, António Quadros, António Telmo, talvez J. A. Seabra, talvez Jorge de Sena, talvez Eduardo Lourenço - e tem os seus vendilhões que o Estado abastece com a exclusividade do acesso ao famoso espólio: 26 000 textos inéditos.
O culto é tão avassalador que não permite o mínimo assomo de reflexão sobre a obra de Pessoa, nem sequer a simples lembrança daquelas atitudes de homens tão autorizados, responsáveis e sábios como Leonardo, Pascoaes e Régio.

Não há dúvida de que sempre que se levanta um templo a um homem é preciso esperar a ruína do templo para se conhecer o homem.

Aquilo de Leonardo, Pascoaes e Régio - a que poderíamos juntar uns tantos outros, talvez menos autorizados de talento, como Almada - guardarem suas distâncias em relação a F. Pessoa, é ou não é para ter em conta?

Aquilo de Régio só encontrar, em toda a volumosa obra do poeta, um único verso, é coisa de verdade? Que outro verso procurar, para mostrarmos que não?

Vamos direito à obra-prima, a Ode Marítima. Lemos, vamos lendo, o desespero apodera-se de nós. Linha a linha, tudo é efectivamente prosaico e com muitos ressaibos de românticas leituras, como se o esquema emergisse, luminoso, das nocturnas alucinações de Coleridge. Arrebata-nos, sem dúvida, mas não está feito por dentro, não tem versos. Será possível haver o poema e não haver os versos, como na velha anedota de Terêncio?

Passemos ao impacto, sempre perturbador, de "O Guardador de Rebanhos": "... tive um sonho como uma fotografia..." Claro que se não trata de um verso e o que nele se significa, e resume todo o sentido do poema, é ainda menos poético do que as palavras em que está dito. Perante o cadáver real de António, ali presente nos seus braços, Cleópatra sonha com "um imperador que também se chama António", isto no que é, talvez, o mais belo poema de Shakespeare que Pessoa tanto queria para modelo. Transitar da realidade ao sonho é, sim, sinal de poesia. Mas o contrário? E, para mais, não à realidade mas à fotografia, aos "fotógrafos" como Almada dizia de certos pintores realistas e abstractos.


Elisabeth Taylor, em Cleopatra (1963). Ver aqui e aqui



Recorremos então aos poemas líricos, aos que são de Fernando Pessoa sem heterónimo. A este entre mais belos: "Onda que enrolada tornas Serena ao mar que te trouxe..." Se o lermos, relermos, tornarmos a ler, o que ficamos a ler tem carência de música e, sem ela, cai num ritmo precipitado. Trata-se do poema para uma canção. Passemos aos poemas de litúrgica solenidade. "Vem, ó noite antiquíssima e Idêntica..." É "coisa mental", alimentada de cultura. A "coisa mental", começa no superlativo que o não seria se o que se lhe seguisse não fosse atributo insuportável "Idêntica". Aqui, a posição de Régio dá o braço à de Pascoaes, poeta supremo? Também Pascoaes tem um poema à noite que começa assim: "Lá vem a noite..." Peço ao leitor que repare: onde Pessoa diz "Vem, ó noite" Pascoaes diz "Lá vem a noite". O primeiro é um sacerdote carregado de vestes recitando uma invocação de cujo conteúdo não tem o saber congénito. O segundo, despe-se de tudo, até do saber congénito que possui, e, desnudado, fala à noite como Apuleio à Lua.

Espantoso, desgraçado, nunca assaz louvado Fernando Pessoa que quis pôr tudo em coisa nenhuma e coisa nenhuma em tudo. Do lado de fora do templo sacrílego que os pobres diabos que deslumbrastes insuflam de um coro que te envergonhará enquanto não fizer ruir as paredes, saúda-te, este teu irmão menor.

"Falhaste em tudo", disseste, raivoso, a ti mesmo enquanto espreitavas que o Esteves saísse da tabacaria. Acham para aí graça que tenhas dito isso de ti porque acham que o disseste como se fosses um deles e porque acham que tu não falhaste em nada. Mas o que disseste é verdade: falhaste em tudo!

Quiseste ser poeta e só conseguiste fazer poemas sem versos, como logo o astuto do Régio viu. Quiseste ser filósofo e, meu Deus!, como te estendeste ao comprido a falar de "estéticas não-aristotélicas" quando o tempo dessas estéticas já passara há mais de um século e quando nada sabias de "estética aristotélica" que é, aliás uma poética; ou a falar do Hegel (o que deves ter feito, suspeito eu, por ocultas rivalidades com o Coleridge) e nem sequer sabias dele o que o pobre do Antero sabia, e era muito pouco, através das leituras do Vera e servia-lhe apenas para discursatas bêbedas nas "repúblicas" coimbrãs (o Álvaro Ribeiro, com a sua ingénua astúcia fingiu não perceber, mas ao Leonardo não escapaste).

Quiseste ser dramaturgo, e aí estão inacabadas, tão frustres que inacabadas, essas tentativas de um "terceiro Fausto" e essa anedota - ah! como ta invejo! - que engenhaste para "O Marinheiro" mas não tiveste talento para pôr em teatro nem em poesia. (Sabes? Não é com entrechos que se faz teatro. Vê lá o Shakespeare que nunca escreveu uma peça com entrecho que ele engenhasse). Quiseste escandalizar, não escandalizaste ninguém e acabaste por ter um culto desses a quem devias escandalizar. Quiseste intrigar com aquela história dos heterónimos, que te consolavam do falhanço teatral, mas não conseguiste, decerto (decerto, porque tinhas muito mais talento do que ele) o apuro dos heterónimos do teu contemporâneo espanhol, o António Machado.


Retrato de Fernando Pessoa, de Mestre Almada (1954).


Falhaste em tudo! Até nos amigos. O Pascoaes ria-se de ti, e tenho razões para suspeitar que se continua a rir de nós todos. O Régio, que não era para rir, ficava furibundo como um profeta. O Leonardo, foi o que se viu. O Almada pintou-te aquele retrato para se vingar. O Mário, foi-se embora. O Cortes Rodrigues, foi embora (Sabes que o encontrei, já velho apoiado a uma camponesa jovem, no lombo de um monte em São Miguel, a olhar, só a olhar, o mar e o sol, suspenso e estático, para depois perguntar sem desprender os olhos: "Tu entendes isto, Maria?" E a rapariga respondeu: "Entendo, sim, senhor". Tu nunca tiveste coisas destas e mal conheceste por interposta pessoa, Fernando, logo te punhas a sofrer ou, para aliviar, a escrever mais um poema sem versos).

Falhaste em tudo, sim. Não o disseste, só por superior displicência e para distinguires, igualando-te, da tua lavadeira e do Esteves. Falhaste mesmo.

Não foi por falta de génio que falhaste. Génio tinhas a mais. Falhaste porque também tinhas em ti um demónio malévolo. E o que ainda estou para saber é se o que nos deixaste foi do génio ou foi do demónio.

Um abraço, apesar de tudo, do Ernesto Palma (in Leonardo, Ano II, n. 5/6, 1989).


domingo, 27 de março de 2011

O mito da Atlântida

Escrito por Platão




Estátua de Poseidon 











Sócrates - (...) se, por exemplo, alguém vir animais belos, quer pintados quer realmente vivos, mas em repouso, é tomado pelo desejo de os ver em movimento, esforçando-se em alguns desses combates que parecem convir aos seus corpos; pois o mesmo sinto eu relativamente à cidade que descrevemos. Com efeito, ouviria com prazer quem me relatasse que os esforços em que a cidade se envolve são combates que trava contra outras cidades; que se distingue ao partir para a guerra e, na guerra, manifesta as qualidades que adquiriu por via da educação e da instrução, seja nas operações militares, seja nas conversas e negociações com cada uma das cidades. Porém, quanto a estas coisas, ó Crítias e Hermócrates, conheço-me e sei que nunca serei capaz de elogiar suficientemente estes homens e esta cidade. No que me diz respeito, isso nada tem de espantoso; mas formei a mesma opinião acerca dos poetas, quer os do passado, quer os de agora; não é que despreze, seja de que maneira for, o género dos poetas, mas é claro para todos que a classe dos imitadores imitará com mais facilidade e maior excelência aquelas coisas no seio das quais foi instruída; e que aquilo que é exterior à instrução de cada um se tornará difícil de imitar adequadamente através das acções, e ainda mais difícil de imitar através das palavras. Já quanto ao género dos sofistas, embora pense que são muito experientes nos discursos e noutras coisas belas, receio que, errando de cidade em cidade, nunca dispondo de domicílio próprio, deixem escapar por completo aquilo que possam fazer e dizer os homens versados em filosofia ou em política, e tudo quanto estes realizam, quer na guerra, quer nos combates, relacionando-se uns com os outros por meio de actos e de discursos. Resta então o género dos que têm as vossas faculdades, que participa, por natureza e por instrução, em ambas, a filosofia e a política. A Timeu, aqui presente, que pertence à mais bem governada das cidades de Itália, Lócrida, e não fica atrás de nenhum dos seus habitantes, seja em fortuna ou em nascimento, foram confiados os mais elevados cargos e as maiores honras da cidade e, pelo menos em minha opinião, ascendeu aos cumes de todos os ramos da filosofia. Quanto a Crítias, todos os que aqui nos encontramos sabemos que não é ignorante em nenhuma das coisas que temos estado a discutir. No que diz respeito a Hermócrates, temos de confiar nos diversos testemunhos que afirmam que é competente para todas estas coisas, seja por natureza, seja por instrução. Foi por isso que ontem, considerando estes factores, e tendo-me vós pedido que discorresse acerca da constituição das cidades, acedi com todo o gosto a satisfazer-vos, sabendo que ninguém para além de vós, se o quisésseis, seria capaz de apresentar a sequência do argumento - de facto, tendo envolvido a cidade numa guerra conveniente, sois actualmente os únicos capazes de lhe proporcionar todas as coisas que pertencem a essa guerra. Tendo, pois, discorrido acerca das coisas que me foram atribuídas, compete-vos a vós tratar daquelas a que agora me refiro. Acordastes, depois de terdes discutido uns com os outros, conceder-me hoje a hospitalidade dos argumentos; pois aqui estou eu, preparado para eles, e ansioso por aquilo que vai ser-me oferecido.





Hermócrates - E com certeza, ó Sócrates, que, conforme disse aqui o Timeu, nem nos faltará a boa vontade, nem nos furtaremos ao compromisso. De tal maneira que ontem, logo que saímos daqui e chegámos a casa de Crítias, ao quarto que ele reserva aos hóspedes, e ainda antes, pelo caminho, reflectimos sobre estas coisas. Aqui o Crítias fez-nos um discurso que tem origem numa tradição antiga; repete-o agora, ó Crítias, aqui a Sócrates, a fim de que ele examine connosco se é apropriado ou inapropriado à injunção anterior.

Crítias - Assim farei certamente, se Timeu, o nosso terceiro conviva, estiver de acordo.

Timeu - Estou de acordo, sim.

Crítias - Ouve então, ó Sócrates, um discurso que, sendo muito bizarro, é totalmente verdadeiro, como afirmou certa vez Sólon, o mais sábio dos Sete Sábios. Sólon era parente e grande amigo do meu bisavô Drópides, como ele próprio declara muitas vezes nos seus poemas. Ele contou ao meu avô Crítias - e o ancião, por sua vez, contou-no-lo de memória - que no passado esta cidade realizou grandes e espantosas obras, que o tempo e o desaparecimento dos homens tornaram invisíveis. E havia uma que era a maior de todas. Talvez fosse conveniente recordarmo-nos dela agora, para te dar darmos graças, e simultaneamente louvarmos a deusa com justiça e com verdade na sua festa, como se lhe cantássemos um hino.

Sócrates - Falaste bem. Mas que obra é essa que Crítias refere, de que já ninguém fala, mas que terá sido efectivamente realizada por esta cidade na antiguidade, segundo aquilo que ouviu dizer a Sólon?

Timeu - Vou então expor-vo-la; trata-se de uma história antiga, que ouvi a um homem que não era novo. De facto, nessa altura, Crítias afirmava ter já perto de noventa anos, e eu teria no máximo dez. Encontrámo-nos por acaso no dia de Cureotis da Festa das Apatúrias [festa das Panateneias, celebrada em honra da deusa Atena]. A cerimónia que habitualmente tinha lugar durante a festa e se destinava a nós, as crianças, teve lugar como das outras vezes. Os nossos pais organizaram concursos de recitação de poemas. Foram declamados muitos poemas de muitos poetas e, sendo os poemas de Sólon uma novidade naquele tempo, muitos de nós cantámo-los. Então, alguém da nossa fratria, fosse por ter essa opinião, ou por um certo desejo de agradar a Crítias, declarou considerar que, para além de ser o mais sábio nas restantes coisas, Sólon era também, pela sua poesia, o mais liberal [homem livre] de todos os poetas. Então, o ancião - lembro-me muito bem - ficou completamente encantado e disse a sorrir:

- De facto, ó Aminandro, se ele não tivesse feito da poesia um passatempo, mas se tivesse aplicado como fizeram outros, e tivesse terminado o relato que trouxe do Egipto para cá, e se não tivesse sido forçado a negligenciar por completo a poesia da cidade aquando do seu regresso, sou de opinião de que nem Hesíodo nem Homero nem outro qualquer poeta teriam gozado maior reputação do que ele.


- E que relato era esse, Crítias? - perguntou Aminandro.

- Tratava ele - respondeu - do maior, do mais célebre e do mais digno de todos os empreendimentos em que esta cidade jamais se envolveu; porém, o tempo e o desaparecimento daqueles que o produziram impediram que esse relato chegasse até nós.

- Conta-nos desde o princípio - disse Aminandro - o que contava Sólon, e a quem ouviu esse relato como verdadeiro.

- Há no Egipto - disse ele -, no Delta, junto à extremidade onde a corrente do Nilo se divide em dois, uma província chamada Saítica, e a principal cidade desta província - de onde era natural o rei Amásis - tem o nome de Sais. De acordo com os seus habitantes, a fundadora da cidade foi uma deusa, cujo nome em Egípcio é Nêith, sendo Atena o seu nome grego, de acordo com os mesmos habitantes. Estes são muito amigos dos Atenienses e afirmam ser, de certa maneira, seus parentes. Ora, Sólon relatava que, tendo sido conduzido a essa cidade, foi muito apreciado por eles; e que, questionando os sacerdotes mais versados acerca das coisas antigas, descobriu que nem ele próprio, nem nenhum outro Grego, sabia quase nada, por assim dizer, acerca destas coisas. Certa vez, querendo levá-los a falar das coisas antigas, empreendeu falar-lhes das coisas mais antigas desta cidade, de Foroneu, de quem dizem ser o primeiro homem, e de Níobe, e narrou-lhes o mito de Deucalião e de Pirra, da forma como passaram pelo dilúvio e da geneologia dos seus descendentes; e, evocando o número de anos a que remontavam os acontecimentos referidos, esforçou-se por calcular os respectivos tempos. E um dos sacerdotes, que era muito velho, disse-lhe:

- Sólon, Sólon, vós, os Gregos, sois sempre crianças; um Grego não pode ser velho.

Ao ouvir isto, ele perguntou:

- O que queres dizer com isso?

- Sois todos jovens na alma - disse ele. - De facto, nenhum de vós tem nela opiniões antigas, recebidas por tradição, ou qualquer conhecimento encanecido pelo tempo. E a razão para isso é a seguinte. Os homens têm sido e continuarão a ser destruídos de muitas e variadas maneiras, as mais terríveis das quais se devem, quer ao fogo, quer à àgua, devendo-se as menos importantes a uma miríade de razões diversas. Com efeito, conta-se entre vós que Fáeton, o filho de Hélio, tendo atrelado o carro de seu pai, mas não sendo capaz de o conduzir pelo caminho de seu pai, pegou fogo a tudo o que havia sobre a terra, tendo ele próprio sido fulminado e destruído. Ora, isto é narrado sob a forma de mito, mas a verdade é a seguinte: verifica-se uma variação nos corpos que circulam no céu à volta da terra, produzindo, com longos intervalos de tempo, a destruição do que existe à superfície da terra por um excesso de fogo. E assim, todos quantos habitam nas montanhas e em lugares elevados e locais secos perecem em maior número do que aqueles que habitam junto aos rios e ao mar. Quanto a nós, o Nilo, que já nos salva noutras circunstâncias, também nos salva desta dificuldade, transbordando; mas quando os deuses inundam a terra, purificando-a por meio das águas, salvam-se aqueles que habitam nas montanhas, os vaqueiros e os pastores, mas aqueles que moram nas nossas cidades são arrastados pelos rios para o mar. Neste país, nem então nem em qualquer outro momento, corre a água do alto sobre os campos mas, pelo contrário, toda ela mana naturalmente de baixo. E diz-se que é daí que vem e é essa a razão pela qual são conservadas as mais antigas tradições. A verdade, porém, é que em todos os locais de onde os não afastem um frio excessivo ou um calor ardente, o género dos homens está sempre presente, seja em maior ou em menor número. E assim, tudo o que tiver acontecido, quer entre vós, quer aqui ou em qualquer outro local de que tenhamos ouvido, se for belo ou grandioso ou tiver qualquer outra coisa que o distinga, tudo isso terá sido escrito desde há muito e sido conservado aqui nos nossos templos. Entre vós, porém, e entre os restantes povos, todas as vezes que vos acontece estarem equipados com as letras e todas as coisas de que as cidades têm necessidade, de novo, passados os anos habituais e como se fosse uma doença, caem sobre vós e os outros os fluxos do céu, restando entre vós apenas os iletrados e os ignorantes, de tal maneira que voltais ao princípio, tornando-vos outra vez como que novos, sem nada saberdes, nem do que aconteceu aqui, nem do que se passou entre vós nos tempos primitivos. O certo é que as genealogias que traçaste há pouco, ó Sólon, passando em revista o que ocorreu entre vós, diferem muito pouco de histórias para crianças. Em primeiro lugar, apenas vos recordais de uma inundação da terra, quando tinha havido muitas outras anteriormente; por outro lado, não sabeis que o melhor e mais belo género dos homens nasceu no vosso país, nem que foi dele que nasceste, tu e todos os outros habitantes da vossa cidade, dado que sobreviveu uma pequena semente; e perdestes isto porque, ao longo de muitas gerações, os sobreviventes morreram sem terem registado a sua voz por meio da escrita. Mas houve um tempo, ó Sólon, antes da maior das destruições por meio das águas, em que a cidade que agora é Atenas era a melhor para a guerra, distinguindo-se ainda por ser a mais bem governada em todos os aspectos; diz-se que as obras mais belas foram aí produzidas, bem como as mais belas constituições, de entre todas aquelas de que ouvimos falar debaixo do céu.


Rio Nilo visto do espaço








Ouvindo isto, Sólon afirmava ter ficado maravilhado e, cheio de entusiasmo, ter imediatamente pedido aos sacerdotes que revissem com a maior precisão tudo o que dizia respeito aos cidadãos dos tempos antigos.

Ao que o sacerdote respondeu: - Com certeza que o farei, ó Sólon, quer por ti, quer pela vossa cidade e ainda mais pela deusa, a quem coube em sorte a vossa cidade e esta, as quais instruiu e educou, sendo a vossa a primeira das duas - com uma diferença de mil anos -, e tendo vós recebido a vossa semente de Gaia e de Hefesto, e a nossa a segunda. Afirmam os nossos escritos sagrados que a ordenação desta nossa cidade remonta a oito mil anos. Serão, pois, as leis daqueles cidadãos que viveram há nove mil anos que te explicarei de forma breve e, de entre as obras que realizaram, dir-te-ei qual foi a mais bela; para a exactidão dos pormenores, voltaremos depois atrás com calma, tomando e percorrendo os próprios escritos. Investiga então as suas leis, comparando-as com as desta cidade. De facto, encontrarás actualmente nesta cidade muitos exemplos de leis que existiam entre vós; em primeiro lugar, o género dos sacerdotes separado e posto à parte dos restantes; depois dele, o género dos artesãos, em que cada um exerce a sua profissão isolado, sem se misturar com os outros artesãos, o género dos pastores, o género dos caçadores e o género dos agricultores. Quanto ao nosso género dos guerreiros, viste certamente que permanece separado de todos os géneros; e a lei prescreveu que não se ocupe de nenhuma outra coisa, para além daquilo que diz respeito aos combates; por outro lado, quanto ao tipo de armamento que utilizam, composto por escudos e lanças, que nós fomos os primeiros, de todos os povos da Ásia, a utilizar, foram-nos mostrados pela deusa, da mesma maneira que vós fostes os primeiros a utilizá-los no vosso território. Já no que diz respeito ao pensamento, vês com certeza com que cuidado a lei se ocupou imediatamente dele na nossa cidade, começando pelo que diz respeito ao mundo ordenado, até às coisas da adivinhação e da medicina - que tem em vista a saúde -, partindo dos conhecimentos que são divinos para descobrir as coisas humanas, e fornecendo-nos todas as outras matérias que se seguem a estas. Tais foram, pois, no seu todo, a ordenação e a composição que a deusa estabeleceu, tendo sido vós os primeiros que assim ordenou; escolheu o local onde nascestes, considerando que havia nele um equilíbrio das estações capaz de produzir os homens mais bem dotados de pensamento. E, sendo esta deusa amante da guerra e amante do saber, procurou um local passível de vir a produzir os homens mais semelhantes a ela, e foi esse o primeiro que escolheu e estabeleceu. E é aí que vós habitais, servindo-vos destas leis, e governados por leis ainda melhores, sobrepondo-vos a todos os homens em todos os domínios da excelência, como convém àqueles que foram gerados e educados pelos deuses. Muitas e grandes foram, pois, as obras da vossa cidade, que foram registadas e são admiradas nesta cidade. Más há uma que se sobrepõe a todas pela sua grandeza e excelência. Com efeito, dizem os escritos que, a certa altura, a vossa cidade deteve uma potência insolente que, tendo partido ao ataque do oceano Atlântico, avançava simultaneamente por toda a Europa e pela Ásia. É que, nessa altura, esse oceano podia ser atravessado, porque havia uma ilha diante da passagem a que vós chamais os Pilares de Hércules [estreito de Gibraltar], que era maior do que Líbia a a Ásia juntas, e a partir da qual os navegadores de então podiam avançar para as outras ilhas, e partindo dessas atravessar para o continente que tinham diante, o qual circunda este verdadeiro mar. Efectivamente, tudo quanto existe no interior desta passagem de que falámos [o mar Mediterrâneo] assemelha-se a um porto de abrigo com uma entrada apertada; mas para além está o oceano, e a terra que o rodeia, a que podemos verdadeiramente chamar, com a maior correcção, um continente. Ora, nesta ilha da Atlântida constituiu-se uma grande e maravilhosa potência de reis, cujo domínio se estendia a toda a ilha, e a muitas outras ilhas, bem como a partes do continente. Já no que diz respeito ao lado de cá da passagem, governavam a Líbia até ao Egipto e a Europa até a Tirrénia [Itália Ocidental]. E esta potência, tendo reunido todas as suas forças num só exército, avançou para o vosso território e o nosso, e para todos os que se encontravam no interior dessa passagem, tentando conquistá-los num único ataque concertado. Foi então, ó Sólon, que a potência da vossa cidade se tornou manifesta a todos os homens, pondo em evidência a vossa excelência e os vossos recursos militares; efectivamente, erguendo-se acima de todas as outras, graças à sua força de alma e às suas artes guerreiras, primeiro conduzindo todos os Gregos, e depois ela própria isolada por necessidade, abandonada pelos restantes, correndo perigos extremos, venceu os invasores e arrebatou o troféu, evitando que aqueles que nunca tinham sido conquistados o fossem então, e libertou benevolentemente todos quantos habitamos no interior dos limites de Héracles. Nos tempos que se seguiram, porém, houve terramotos e inundações excessivas. E aconteceu que, durante um único dia e uma noite terríveis, todo o vosso exército foi devorado de uma só vez pela terra e a própria ilha de Atlântida se afundou no mar e desapareceu. Foi por isso que, actualmente, esse oceano se tornou inexplorável e impossível de atravessar, devido aos espessos lodos de superfície que a ilha depositou ao afundar-se.




Foram estas, ó Sócrates, em resumo, as coisas que disse o velho Crítias, que as tinha ouvido a Sólon. (in Timeu, Instituto Piaget, 2004, pp. 54-62).


sexta-feira, 25 de março de 2011

O sucesso do fracasso

Escrito por Olavo de Carvalho







Diário do Comércio, 27 de novembro de 2006

Todos os "movimentos sociais" atuantes no Brasil, sem exceção, bem como as entidades que os representam e as leis baseadas nas suas reivindicações, nasceram da seguinte maneira:

1. Com dez, vinte, trinta anos de antecedência, os intelectuais esquerdistas de maior peso discutem e elaboram os conceitos e a linguagem das novas idéias destinadas a revigorar e ampliar o movimento revolucionário mundial.

2. Em seguida essas propostas passam à alçada das grandes fundações bilionárias e organismos internacionais, onde o segundo escalão intelectual - técnicos, planejadores sociais, publicitários, ativistas - lhes dá o formato operacional para transmutá-las em propostas concretas.

3. Essas propostas são então espalhadas pelo mundo por meio de uma infinidade de livros, artigos, conferências, filmes, espetáculos de teatro, sempre subsidiados pelas mesmas fontes, mas apresentados como iniciativas independentes, de modo a dar a impressão de que a mudança planejada provém de uma fatalidade histórica impessoal e não de uma ação organizada. Ao mesmo tempo, desencadeia-se um conjunto de operações preventivas destinadas a neutralizar, reprimir e, se necessário, criminalizar toda resistência.

4. Só então as propostas chegam aos países do Terceiro Mundo, por meio de ONGs e agentes pagos que as inoculam primeiro nos círculos de intelectuais mais ativos, que as retransmitem aos estudantes e à mídia, não raro apresentando-as como suas criações pessoais e originalíssimas, de modo que a multidão dos aderentes não tenha a mais mínima idéia da existência de um empreendimento internacional organizado por trás dos efeitos políticos que se seguem inexoravelmente.

5. A última etapa é a produção desses efeitos, por meio dos agentes políticos – militância organizada, agentes de influência, legisladores – que transformam as propostas em leis e instituições.

Na última etapa, as origens intelectuais das propostas, bem como sua base internacional de sustentação financeira e organizacional, já se tornaram praticamente invisíveis para a população em geral, de modo que toda a discussão a respeito, destinada a fazer com que a adoção das novas medidas pareça surgir do fluxo normal e espontâneo da vida democrática, se atenha às definições nominais e aos aspectos mais periféricos das questões respectivas, sem possibilidade de examinar seja o esquema de poder que articulou a seu belprazer a situação de debate, seja as implicações históricas de longo prazo que advirão das transformações pretendidas. Quando essas conseqüências se revelam catastróficas, a culpa pelo erro que as produziu já está tão disseminada pela sociedade que toda tentativa de rastrear e responsabilizar os autores das propostas iniciais, caso ainda ocorra a alguém a tentação de empreendê-la, começa a parecer rebuscada e artificiosa como uma "teoria da conspiração".



Brasil



A primeira condição para a existência de um movimento conservador ou liberal é a formação de equipes de estudiosos qualificados para fazer esse rastreamento e expor aos olhos da multidão o processo inteiro da "transformação social", para que ela perca seu prestígio místico de fatalidade histórica ou vontade divina e possa ser discutida às claras como qualquer outro projeto de poder.

Infelizmente, as forças econômico-sociais cuja sobrevivência a longo prazo depende do sucesso de um movimento liberal-conservador – principalmente a classe empresarial que é a concorrente número um dos planejadores e burocratas iluminados – têm um horizonte de visão histórica muito restrito e dificilmente compreendem a necessidade de uma estratégia de longo prazo. Concentram-se na defesa dos seus interesses imediatos reais ou imaginários e, sem perceber, acabam colaborando com os planos mais vastos e gerais da esquerda, seja por meio de concessões conscientes que lhes parecem muito espertas na hora, seja por meio de resistências pontuais arbitrárias e inconexas que sempre podem ser absorvidas e neutralizadas no quadro maior da estratégia esquerdista, seja por meio da adaptação passiva, lenta e quase imperceptível à linguagem e à cosmovisão de seus inimigos.

O domínio do tempo histórico das transformações político-sociais tornou-se monopólio da elite esquerdista internacional. O mero fracasso econômico das propostas socialistas não diminui em nada o poder hipnótico que exercem sobre a multidão nem o controle hegemônico da esquerda sobre o processo histórico, porque esse fracasso é apenas um fato, e os fatos não se transformam por si em elementos de persuasão quando não integrados como símbolos num universo imaginário, isto é, quando não trabalhados dentro de um plano cultural abrangente e de longo prazo, precisamente o que falta por completo às forças liberal-conservadoras.

O próprio preconceito economicista que se apossou dessas forças, induzindo-as a esperar que a fraqueza econômica do socialismo se transmute automaticamente em fracasso político-cultural do movimento esquerdista, já mostra o quanto o imaginário liberal-conservador foi infectado e moldado pela cosmovisão esquerdista, hoje "onipresente e invisível" como a desejava Antonio Gramsci.

Desse preconceito, em simbiose com o imediatismo político, nasce o profundo desinteresse que os liberais e conservadores têm pelo debate interno de idéias na esquerda. Como o conteúdo desse debate lhes parece falso e alucinatório e por isso supremamente tedioso, não percebem que por trás dessa falsidade e alucinação há um método e uma estratégia. Nem muito menos que a falsidade louca de uma idéia jamais foi obstáculo ao seu sucesso político. Enquanto os liberais e conservadores discutem economia, criando esquemas saudáveis e racionais que jamais serão levados à prática, os esquerdistas, a salvo de qualquer fiscalização crítica da parte de seus adversários, inventam as mentiras e alucinações com que dominarão a consciência das multidões e conduzirão o processo histórico para onde bem entendam, com a facilidade com que um menino-pastor puxa um búfalo de uma tonelada pela argola do nariz.








Vou dar aqui um único exemplo de doutrina alucinatória que jamais vi despertar o interesse dos liberais e conservadores brasileiros e que por isso mesmo consegue praticamente dominar o ambiente universitário, cultural e midiático nacional, influenciando o curso dos acontecimentos e impondo derrotas humilhantes à racionalidade econômica liberal-conservadora.

Refiro-me à escola "desconstrucionista" de Jacques Derrida, Jean-François Lyotard, Paul de Man, Gianni Vattimo e outros, que torna inviável toda idéia de veracidade objetiva e instaura em seu lugar o primado da ficção militante.

Como em artigos vindouros pretendo abordar aqui vários fenômenos da política brasileira que jamais teriam podido produzir-se exceto num ambiente intelectual dominado por essa escola, a utilidade essencial de conhecê-la se tornará mais evidente nas próximas semanas.

Usei o termo "escola", mas os próprios desconstrucionistas o rejeitam. Também não aceitam que o desconstrucionismo seja definido como uma filosofia, um método de interpretação, um projeto acadêmico ou qualquer outra coisa. Não aceitam definição nenhuma, o que já coloca o recém-chegado na obrigação de escolher entre embarcar às cegas na aventura sem nome ou, ficando de fora, não poder criticá-la sem ser acusado de incompreensão leiga. À entrada do templo desconstrucionista, portanto, um cartaz em letras de fogo já anuncia: "Ame-o ou deixe-o." Mas deixá-lo significa excluir-se a si próprio da comunidade acadêmica e ser considerado um ignorante ou reacionário, um escravo do universo lingüístico pré-desconstrucionista e, portanto, um virtual objeto de desconstrução. Não há terceira alternativa entre desconstruir e ser desconstruído – e esta última hipótese não significa apenas ser objeto de análise corrosiva, mas de destruição social e profissional.

A desconstrução parte da premissa lingüística de Ferdinand de Saussure de que a língua é um sistema no qual o sentido de cada palavra é a diferença entre ela e todas as outras. O sacerdote supremo do desconstrucionismo, Jacques Derrida, joga essa premissa contra as pretensões científicas da própria lingüística, ao concluir daí que, se a língua é um sistema de diferenças entre signos, ela não tem qualquer referência a um "significado" externo. Tudo o que o ser humano diz, escreve ou pensa é apenas a exploração das possibilidades internas do sistema. Não tem nada a ver com "realidade", "fatos" etc. O universo inteiro ao alcance do pensamento humano é constituído de "textos" ou "discursos", mas, como não há nenhuma realidade externa pela qual esses discursos possam ser aferidos, não tem sentido falar de discursos "verdadeiros" ou "falsos". Não existe representação da realidade. Todo discurso é livre invenção de significados.









Obtida essa conclusão, Derrida interpreta-a em sentido nietzscheano, afirmando que, se o discurso não é representação da realidade, é expressão da "vontade de poder". Mas isso não quer dizer que por trás do discurso exista um "eu" manifestando sua vontade de poder. A idéia de um eu estável e autoconsciente é ela própria uma representação da realidade. Como nenhuma representação da realidade pode funcionar, o eu também não existe: só o que existe é o ato de poder que cria uma ficção chamada "eu". Se a língua estava totalmente separada da realidade por ser apenas um sistema de diferenças, o desconstrucionista vai agora separá-la do próprio sujeito pensante, acrescentando à mera "différence" a "différance", com "a", termo criado por Derrida para designar o intervalo de tempo entre o sujeito como autor do discurso e o mesmo sujeito considerado enquanto assunto do discurso. Em português ele não precisaria inventar esse trocadilho medonho, pois aí existe a palavra "diferição", sinônima de "adiamento", que, por aquela mistura de pedantismo e ignorância, típica do meio acadêmico nacional, os tradutores brasileiros se recusam a usar, preferindo o neologismo francês para dar a impressão de que se trata de uma nuance sutilíssima. Qualquer que seja o caso, Derrida está falando simplesmente de uma diferição, de um lapso de tempo: o eu do qual você fala não é nunca o eu que está falando. Mas, se é assim, o eu como assunto do discurso não está nunca presente a si mesmo. Separado do objeto pela circularidade do sistema, o discurso está também separado do sujeito pela diferição, ou, se preferem, "différance" (como diria Dirty Harry: Cazzo!). Diga você o que disser, ou pense o que pensar, será sempre uma ausência falando de outra ausência.

Se o eu não existe e o objeto que ele pensa também não existe, só o que existe é o ato de poder que cria uma ficção chamada "eu" e outra ficção chamada "objeto". O motivo que produz a necessidade de criar essa ficção é o desejo de escapar da morte, da aniquilação. Mas a morte é inescapável, é a "realidade". Portanto a função de todos os discursos é negar a realidade e a sua tradução cognitiva, a verdade. Nisso consiste o poder, a genuína liberdade. O Evangelho (João, VIII:32) dizia que a liberdade nasce do conhecimento da verdade. Para Derrida e os desconstrucionistas em geral, a liberdade consiste em negar a verdade, afirmando, com isso, o próprio poder.

No início alguns marxistas ficaram alarmados com a nova filosofia, que, ao negar a realidade, punha em xeque toda pretensão de conhecer as leis objetivas do processo histórico. Mas Derrida logo conseguiu acalmá-los, mostrando que, se o desconstrucionismo era ruim para a teoria marxista, era bom para o movimento revolucionário, dando-lhe não só os meios de corroer toda a cultura ocidental por meio da negação do significado em geral, mas também de afirmar o seu próprio poder ilimitadamente: livre das coerções da realidade objetiva, imune portanto a qualquer cobrança na esfera dos argumentos racionais, ele poderia impor sua vontade por todos os meios ficcionais possíveis, enquanto seus adversários, travados por escrúpulos de realidade e lógica, observariam inermes a sua ascensão irresistível.

Todo o empreendimento desconstrucionista é, de fato, uma resposta prática ao apelo formulado pelo marxista húngaro Georg Lukacs, ao perceber que o grande obstáculo ao comunismo não era o poder econômico da burguesia, mas dois milênios de civilização judaico-cristã. "Quem nos livrará da civilização ocidental?", perguntava angustiado Lukacs. Quem logo se apresentou como primeirão da fila foi o nazista Martin Heidegger. Destruição – Destruktion – é a palavra-chave de tudo o que ele fez na vida: desde escrever e depois desescrever Ser e Tempo até aplaudir a ascensão do Führer e recusar-se a esclarecer o assunto depois da II Guerra, deixando seus fãs numa dúvida perturbadora que dava à sua filosofia ainda mais sex appeal. A essência da filosofia de Martin Heidegger consiste em abolir o Logos, o verbo divino que faz a ponte entre o pensamento humano e a realidade externa, e colocar em seu lugar a "vontade de poder" do Führer. Heidegger foi o primeiro herói da guerra contra o "logocentrismo". A convergência entre seus esforços filosóficos e os objetivos de Georg Lukacs foi o pacto Ribbentropp-Molotov da filosofia. Mas Heidegger, afinal, não criou como substitutivo para a civilização judaico-cristã nada além da filosofia de Martin Heidegger, que só serve para quem a entende. Derrida et caterva transmutaram essa filosofia num projeto acadêmico indefinidamente subsidiável e num movimento político do qual milhões podem participar sem entender coisa nenhuma do que estão fazendo. Tinha de ser mesmo um sucesso triunfal.




Ainda mais triunfal foi essa ascensão no Brasil, onde o temor reverencial à moda acadêmica francesa, o prestígio sacral do discurso incompreensível e a síntese de pedantismo e ignorância que constitui a forma mentis inconfundível da nossa classe universitária erigiram o desconstrucionismo num culto fanático que não apenas repele contestações mas nem mesmo admite a existência delas.

Um traço peculiar do desconstrucionismo, que no Brasil foi acentuado até suas últimas conseqüências, é que, ao negar a existência da verdade, ele não abdica de atacar a "mentira". Quando ele o faz perante um público que desconhece a nuance específica que o termo tem para um desconstrucionista, a platéia acredita que ele está defendendo a "verdade". Mas, no círculo interno, sabe-se que não existe verdade. "Mentira", pois, é apenas aquilo que se opõe à ficção preferida do grupo desconstrucionista, à sua "vontade de poder". Inversa e complementarmente, o termo "verdade", ao ser usado pelo desconstrucionista perante os leigos, significará para estes uma representação adequada da realidade comprovável, mas, entre os iniciados, sabe-se que isto não existe e que o emprego do termo se destina apenas a explorar as ilusões do público para induzi-lo a submeter-se às ilusões e desejos do grupo ativista. Nesse sentido, pode-se e deve-se estigmatizar como "mentira" os fatos mais amplamente comprovados e impor como "verdade" qualquer mentirinha boba conscientemente inventada para vitaminar a "vontade de poder" do movimento.

Objetivamente falando, o valor inteiro do projeto desconstrucionista depende da premissa saussuriana de que o sentido de uma palavra é apenas a diferença entre ela e todas as outras. Essa premissa é falsa. Suponham a frase: "Jacques Derrida morreu." A diferença entre Jacques Derrida e todos os outros seres dotados de nomes humanos é a mesma quer ele esteja vivo ou morto. A diferença entre morrer e estar vivo, por sua vez, é a mesma quer você esteja vivo ou morto. Mas, se Jacques Derrida morreu, a diferença entre ele e todos os outros continua intacta, enquanto ele, o indivíduo Jacques Derrida, não será mais visto por aí dando palestras e encantando milhões de idiotas. Ou a expressão "Jacques Derrida" significa algo mais do que a diferença entre ela e todas as outras, ou tanto faz Jacques Derrida estar morto ou vivo. Do mesmo modo, uma frase como "Não há mais comida" é a mesma – e suas diferenças em relação a todas as outras são as mesmas -- quer você a diga como puro exemplo verbal ou como expressão de um estado de fato. A diferença neste último caso está na presença ou ausência física de comida, que não é a mesma coisa que a "ausência do objeto" na mera formulação saussuriana do significado como diferença entre uma frase e todas as demais. Esta diferença é a mesma com comida ou sem comida. A falta de comida não é bem isso.

Reparando em detalhes como esse, o próprio Jacques Derrida foi obrigado a moderar as pretensões do seu método, reconhecendo a existência de "indesconstruíveis" e, no fim, admitindo que entre eles estava – que raiva, pô! – o próprio Logos. Desconstrua você o que desconstruir, estará sempre, pelo simples fato de pensar e falar, dentro de um quadro de referências balizado pelo Verbo Divino ou por seus reflexos na tradição metafísica. No fim das contas, a Destruktion, como o projeto nazista, pode destruir muitas coisas em torno, mas se destrói a si mesma – e àqueles que embarcaram na sua proposta – em escala infinitamente maior. Proclamando que a liberdade consiste em negar a verdade, o desconstrucionista só exerce sua liberdade de viver da ficção e sentir um gostinho de poder até o momento em que a morte substitui todas as ficções por uma verdade "indesconstruível" e a vontade de poder pela impotência definitiva dos cadáveres. Expressão modernizada da revolta gnóstica contra a estrutura da realidade, o projeto desconstrucionista está destinado ao fracasso, mas o fracasso cognitivo pode ser um sucesso político-social, na medida em que arraste na sua voragem milhões de idiotas hipnotizados pela atração do abismo.







segunda-feira, 21 de março de 2011

A filosofia de Álvaro Ribeiro como Doutrina do Espírito

Escrito por Orlando Vitorino







1. De Álvaro Ribeiro dizia José Marinho que “pensava como o coração pulsa: sem cessar”. Almada Negreiros chamou-lhe “santo científico”. Pinharanda Gomes mantém-se firme em dizê-lo “um santo”, com todo o significado e todas as virtudes que a Igreja dá à palavra. Nenhum dos que com ele conviveram ou sabem ler com proveito seus livros, receia reconhecer que de homem algum ou pensador mais do que dele se pode dizer “um sábio”. E seus discípulos, desde António Telmo e António Quadros, desde Afonso Botelho e Braz Teixeira ao autor destas linhas, têm-no como “o mestre por excelência”.

Socialmente, quer dizer, nas consequências sociais da opinião que a ignorância contente de si formou dele, Álvaro Ribeiro foi, ainda é, um homem antipático e um filósofo odiado, daqueles que são para serem assassinados. Quem o quiser comprovar documentalmente, pode ler o que sobre ele infantilmente escreveram e publicaram um crítico versejador como Casais Monteiro e um crítico que não verseja como Eduardo Lourenço.

À medida que o homem vivo vai esquecendo, a antipatia e o ódio vão sendo substituídos por um cerrado silêncio hostil que faz o regozijo da estupidez universitária posta perante os livros admiráveis e únicos que ele nos deixou.

São esses livros escritos com estilo, palavra que, na acepção dada pelo próprio Álvaro Ribeiro, significa a singularidade inimitável do escritor. Seu estilo desenvolve-se numa sucessão de afirmações, isto é, de teses, ideias, conceitos, logismos, rigorosamente firmes, ou firmados, ou com firmamento, palavra que o filósofo contrapunha à de fundamento, corrente na linguagem filosófica germânica, como o céu estrelado e luminoso se contrapõe às funduras tenebrosas. As afirmações sucedem-se, não por extrínsecas justaposições, mas por deduções, silogismos e inferências que o escritor não perde tempo a descrever, antes entregando ao leitor a tarefa de a si mesmo provar capacidade de inteligência e entendimento filosóficos. Assim nos dão os livros de Álvaro Ribeiro o exemplo de como a filosofia se deve defender, nenhuma facilidade concedendo à mediocridade e à incultura. Não há filosofia de leitura fácil porque leitura fácil é a de imediato entendimento e o entendimento filosófico conduz-se por demoradas meditações. Álvaro Ribeiro gostava de lembrar o que Dante disse do filósofo: “mestre dos que sabem”. A sabedoria é mediadora.




O que vamos tentar dizer é para valer como advertências a quem, pelo pensamento de Álvaro Ribeiro, intentar iniciar-se na doutrina do espírito, na “doutrina imperitura” – escreveu José Marinho a fechar a sua teoria.

De doutrina se trata, não de teoria. Porque teoria é o que se vê e cumulativamente se pensa, e do espírito não há visão. Visão implica cisão, pois só se vê o que está separado ou cindido. O que se cinde e se separa é o ser, e compreende-se que José Marinho tenha chamado, à sua teoria da verdade, Teoria do Ser e da Verdade embora negando, por ilusório, “o ser enquanto ser”.

Espírito é o que une e a actividade do espírito é o pensamento. A doutrina do espírito começa por uma doutrina da palavra, primeiro porque não há pensamento sem palavra e a lógica é a ciência da expressão do pensamento em palavras, depois porque uma doutrina da palavra é também uma doutrina da linguagem e a língua é a tradição ou o repositório da sabedoria, finalmente porque a palavra está na origem, não como a visão, mas como o que se ouve e ora, como audição e oração que são sempre para unir, não para separar.

2. A doutrina do espírito e a teoria da verdade, uma representada por Álvaro Ribeiro, outra por José Marinho, são as duas faces da mesma filosofia. O seu mais simples entendimento passa pela compreensão dessa complementaridade da qual a oposição entre visão e oração é a primeira de uma sucessão de oposições.

Dissemos que a doutrina do espírito começa por uma doutrina da palavra. Sabemos que a teoria da verdade começa pela visão, por aquela visão a que José Marinho chamou “visão unívoca”. Como se conciliam ou mutuamente se completam visão e oração, ver e ouvir, ser e palavra? A resposta tem de ser procurada na tese que José Marinho enunciou dizendo que o “ser enquanto ser é ilusório”.

3. Enquanto a iniciação ainda está percorrendo a leitura dos textos, convém atender às condições em que os seus autores formaram o pensamento aí escrito.

A formação do pensamento de Álvaro Ribeiro é mais vagarosa e referenciada, do que a do pensamento de José Marinho. José Marinho é o autor de um só livro, Álvaro Ribeiro o de muitos livros.




Despertou ela, a formação do pensamento de Álvaro Ribeiro, no magistério de Leonardo Coimbra que logo libertou o discípulo da preocupação pelo cientismo, dominante nas mentalidades modeladas pela filosofia moderna e da qual o próprio Leonardo foi vítima num largo período da sua vida e da sua reflexão. O consequente estudo do platonismo, a que Álvaro Ribeiro dedicou os primeiros anos da maturidade, não lhe foi, porém, salutar. Leonardo afirmava, com boas razões, que “toda a filosofia é uma reactualização do platonismo”, mas os diálogos de Platão provocaram em Álvaro Ribeiro uma funda decepção, ao contrário do que aconteceu a José Marinho. Decepção tão funda que o levou a desvalorizar a mesma expressão dialogante e a minorar a arte do teatro.

O que se contrapõe ao platonismo é o aristotelismo, embora esta contraposição não seja aquela oposição irredutível que ainda se ensina nas escolas. Também aqui importa compreender como a teoria de Platão e a doutrina de Aristóteles são complementares.

É muito tarde que Álvaro Ribeiro descobre a filosofia aristotélica. Trata-se de uma filosofia que exige prévia e demorada aprendizagem que nem todos os pensadores têm tempo de vida para obterem. Era aqui que Álvaro Ribeiro lembrava o que Dante chamou a Aristóteles: “mestre dos que sabem”. Muito é preciso saber para se começar a entender o aristotelismo.

Nem sempre tal demora e tal saber são paralelos e pode acontecer, como aconteceu a Leonardo e a muitos dos grandes pensadores, ser-se um aristotélico que se ignora.

4. O caminho que levou Álvaro Ribeiro ao aristotelismo foi, primeiro, o da suspeita do “ser enquanto ser” que se prolongou na importância do dever-ser sobre o ser, da norma sobre o facto. A sua filosofia virá a ser uma filosofia do dever-ser, da norma, da rectificação ou do direito. Mas até chegar à filosofia do direito, longo foi o caminho percorrido e que Álvaro Ribeiro conseguiu percorrer porque “pensava como o coração pulsa”.

Aturada e minuciosamente se entregou, numa primeira aproximação do racionalismo, ao estudo do racionalismo extreme dos escolásticos que concluiu ser uma deturpação do racionalismo aristotélico como a “lógica formal” é uma adulteração do “organon”. Quando compreendeu, graças à doutrina da palavra, que não há pensamento autêntico sem radicação na sabedoria ou tradição que a língua guarda, e adoptou a designação de “filosofia portuguesa” para o seu próprio pensamento, ficou longe de valorizar a famosa contribuição “portuguesa” para a neo-escolástica e desdenhou os célebres, mas pouco ou nada conhecidos, “comentários conimbricenses”. Aludia com desdém às “Instituições Dialécticas”, de Pedro da Fonseca, que foram, até Kant e incluindo o mesmo Kant, o livro de referência dos lógicos da filosofia moderna.

Aristóteles


É, todavia, entre os escolásticos que vai encontrar o filósofo que, depois de Aristóteles, mais decidiu da formação do seu pensamento, Santo Anselmo.

Sabe-se como Santo Anselmo foi quem concebeu, enunciando-a na chamada “prova ontológica da Existência de Deus”, a identidade do pensamento e do ser na qual se vai fundar e alimentar todo o triunfante desenvolvimento da filosofia moderna, desde Descartes – substituindo a ideia anselmiana, ou pensamento objectivo, pelo cogito ou pensamento subjectivo, e o ser de Deus pelo ser do homem – até Hegel, substituindo a ideia pela razão e o ser pelo real. Nos três famosos apoftegmas – “da ideia de um ser perfeito ou Deus concluiu-se necessariamente a existência de Deus”, “cogito ergo sum” e “só o racional é real” – está traçado todo o percurso da filosofia moderna.

Não é, porém, a identidade ontológica que Álvaro Ribeiro recebe de Santo Anselmo, mas sim a prioridade da crença sobre o pensamento da qual extrairá a concepção de que não há filosofia sem tecnologia, assim regressando ao magistério de Leonardo com uma espécie de compromisso, firmemente sistematizado, entre as duas singulares afirmações do mestre, a de que “toda a filosofia acaba em religião” e a de que “a filosofia é a única oração eficaz”.

Adopta Álvaro Ribeiro a sentença anselmiana “credo ut inteligere”, que escreve em epígrafe do primeiro livro onde expõe o sistema do seu pensamento, A Arte de Filosofar e mantém, ora suposto ora expresso, em todos os momentos da sua filosofia como condição de autenticidade e veracidade do pensamento, a condição que não está apenas na origem mas também na finalidade de pensar: creio para pensar, penso para firmemente crer.

Terceiro filósofo decisivo é Hegel. O que dele decisivamente recebe é, primeiro, a reconstituição da lógica, mais propriamente do “Organon”, sobre as deturpações e adulterações da lógica formal dos escolásticos e de Kant. Interpreta, depois, a “ciência da lógica” hegeliana como “confirmação da lógica aristotélica”, assim contrariando os intérpretes mais aceites que nela vêem uma contrafacção do aristotelismo, logo, na verdade, enunciada, no primeiro parágrafo do tratado de Hegel. Nela descobre, a seguir, a restauração da mesma filosofia inviabilizada pelo kantismo, como expressamente pretendia Hegel (Introdução à “Ciência da Lógica”) mas não, como também Hegel pretendia, como uma restauração da metafísica. Recebe finalmente o que mais importa: a restituição do pensamento ao espírito, não porém o pensamento de uma “razão pura”, que Hegel herdou de Kant e Álvaro não pode aceitar, porque a razão é só humana, é “o nome do espírito do homem” e não há espírito absoluto.



Manuel Kant



Tais, entre os mais significativos, os estádios por que passou a formação da filosofia de Álvaro Ribeiro. Terá de os ter presentes a iniciação nessa filosofia, até a sua simples compreensão.

5. Para além dos estádios de formação, outras constantes se nos oferecem. Duas delas vamos agora referir: o evolucionismo e a misantropia.

Não nos demoraremos a distinguir o evolucionismo do nosso filósofo dos limitados evolucionismos que, quando ligados a algum progressismo como em muitos deles acontece, são ensombrados pelo absurdo “progresso infinito”. Sem este absurdo, estão eles decerto integrados no evolucionismo de Álvaro Ribeiro como a parte está integrada no todo, ou o acidente na essência. Mas não é por eles, por algum evolucionismo das espécies naturais ou das temporalidades sociais, institucionais e históricas, que se alcança o entendimento do autêntico evolucionismo.

A evolução é, sem dúvida, universal. Há evolução na natureza, há evolução nas instituições, há evolução no conhecimento ou ciência. Mas é no pensamento que reside a evolução de que todas as outras derivam. Mais rigorosamente: a evolução é o pensamento, pensar é evoluir e, uma vez que toda a realidade é penetrada de pensamento, a toda ela o pensamento imprime a evolução.

Logo no significado da palavra, ou no conceito que tal significado representa, evoluir é volver para fora ou para outro. Depois, a evolução conota-se, num sentido, com a educação, que é conduzir para fora, com a maiêutica, que é trazer para fora, com a existência, que é ser para fora. Conota-se, noutro sentido, com envolvimento e desenvolvimento, com o que envolve nas trevas, com o que rompe o envoltório para a luz. Conota-se, num terceiro sentido, com o movimento, e parece ser esta a conotação mais atendida e tratada por Álvaro Ribeiro, que por ela estabelece a relação com o aristotelismo, relação tão íntima que o leitor se interrogará: dizer evolução e dizer movimento é dizer o mesmo?

A filosofia moderna, prolongada e apoiada na ciência moderna, em especial na física, reduz o movimento à deslocação dos corpos. Ora na física aristotélica há, pelo menos e expressamente, quatro formas de movimento: além da deslocação, a mudança, o crescimento e a alteração. Mas se passarmos da física à biologia ou à psicologia, outras formas de movimento existem na natureza, na alma e no mundo. Sejam, por exemplo, a geração e a corrupção, a criação e a destruição, a ascendência e a decadência.

Álvaro Ribeiro observa que nem a natureza é sempre a mesma nem o homem nem o mundo. Não são as mesmas as formas e relações dos entes naturais, que as ciências físicas tendem a fixar num ilusório conhecimento perpétuo. Não é a mesma a humanidade de um grego antigo e um europeu moderno. Não é o mesmo o mundo com suas religiões, suas sociedades e povos, suas instituições. Mas verifica-se que, em vastas zonas do real, é a decadência que marca as diferenças.


Ora em sua ideia ou essência, a evolução só pode ser afirmativa. É evolução para o bem ou para a perfeição. Aqui se encontra Álvaro Ribeiro com o aristotelismo, o seu conceito de evolução com o conceito aristotélico de movimento. Ambos serão, essencialmente, a transição da potência ao acto tendo por finalidade a perfeição. Se é esse o sentido da evolução e sendo a evolução universal, como compreender a decadência, a corrupção, a destruição?

Ora observa-se que a decadência, com a corrupção e a destruição que lhe sucedem, é decadência nas “coisas”, quer dizer decadência no ser, nos factos, nos corpos, nas instituições.

Trata-se, assim, daquilo que Leonardo designava por coisificação, designação que Álvaro Ribeiro não conservou. E a coisificação aparece como forma negativa do movimento, reservando-se a evolução, sempre afirmativa, para o pensamento e a penetração do real pelo pensamento.

Álvaro Ribeiro não chegou a desenvolver a concepção de que esse mesmo movimento negativo atinge, depois da decadência, da corrupção e da destruição, a forma da saturnificação, onde tudo recomeça, retorna, ou na expressão de José Marinho, recorre. E ao que José Marinho entendeu como a cisão extrema, como o não-ser que está no extremo da cisão, corresponderia o movimento de saturnificação. Álvaro Ribeiro nunca admitiu, porém, o não-ser e o nada, “o mais profundo nada”, como dizia José Marinho.

Se a saturnificação é manifesta na biologia, afigura-se que as formas decadentistas do movimento não vão além da corrupção, e a corrupção terá por termo a morte que ou é a coisificação definitiva, a fossilização evanescente, ou o trânsito a outro estado do ser, a outro modo de existência. Álvaro Ribeiro considerou sobretudo a coisificação nas instituições, isto é, na política, na moral, no ensino e na ciência. As instituições envolvem a existência dos homens, e a decadência a que estão sujeitas traz aos homens a diminuição dos seus poderes naturais, da apetência pelo pensamento, das virtudes éticas e sociais. O homem é infeliz.

Aqui se traduz outra generalidade constante na filosofia de Álvaro Ribeiro, a misantropia. A decadência que as instituições causam ao homem é tão grave que atinge a sua mesma natureza biológica e espiritual. Tão grave que, tendo o cristianismo trazido ao mundo a verdade que o helenismo ignorou, o homem cristão é inferior ao homem grego como a lei dos três estados positivista, determinando toda a evolução na sucessão linear da teologia à metafísica e da metafísica ao cientismo, é inferior ao que Álvaro Ribeiro chama lei dos três estados aristotélica, determinando a sucessão cíclica da democracia à monarquia e da monarquia à aristocracia.



Nunca Álvaro Ribeiro perde de vista que o pensamento é operativo. O processo que utiliza tem como primeira fase o que chama análise, e tem por instrumento o logismo a que escolásticos e kantianos chamaram juízo. A análise revela o estado de decadência das instituições e das mentalidades, decadência determinada pela distância a que a realidade vivida está do pensamento, a cultura está do culto, as instituições estão das ideias. À análise sucede a dianoia que segue, naquela distância, os vestígios da adulteração das ideias, dos conceitos e dos sentimentos. A partir daí, desenvolve-se o processo do pensamento como especulação ou actividade do espírito, que tem o momento supremo no silogismo, isto é, na transição de uma verdade conhecida para a descoberta de uma verdade desconhecida.

Como o pensamento é operativo, contrapõe e impõe à realidade vivida a verdade que descobre e apreende. Assim se apresenta à realidade nas formas de norma ou com um carácter normativo.

A misantropia de Álvaro Ribeiro funde-se na observação de que a realidade é uma realidade em decadência. O carácter normativo do pensamento consiste em rectificar os erros que alimentam a decadência. Neste sentido se pode dizer que a filosofia de Álvaro Ribeiro é uma filosofia do direito, pois o direito é a rectificação. Álvaro Ribeiro diz que ao real empírico se opõe o ideal lógico.

A confirmação, se não a inspiração filosófica, da misantropia de Álvaro Ribeiro, encontrou-a ele em Sampaio Bruno que, por sua vez, a recebeu para além da análise, da reflexão das mitologias religiosas do paraíso perdido, da idade de ouro, da queda original. A existência do real condiciona a existência do homem e do mundo. A redenção é, todavia, possível, mas a esperança do homem tem sido iludida pelas religiões redentoristas. Porque só o pensamento será redentor, poderá travar e inverter o movimento de queda, e o novo Cristo que houver será um Deus filósofo, “um Cristo cujos milagres sejam argumentos".

É estranho que Álvaro Ribeiro tenha considerado Bruno “o fundador da filosofia portuguesa”, isto é, da sua própria filosofia. Porque Bruno é ainda um pensador demasiado cingido às “verdades” do conhecimento científico, seja embora para as refutar, e às “revelações” religiosas, seja embora para as discutir. É, de seu, um pensador mergulhado nas trevas originais ou pré-originais, sempre aberto aos vestígios de um caos cuja presença se prolonga desde as noites imemoriais e que só à ciência, ou às leis científicas, atribui poder para ordenar.

Ora o mundo da misantropia de Álvaro Ribeiro não é o mundo lúgubre da misantropia de Bruno. Entre uma e outra situa-se o pensamento luminoso de Leonardo, e Álvaro Ribeiro tem sempre expressamente presente “a maravilha da criação” (in Leonardo, Ano II, n.º 5/6, 1989, pp. 13-16).






sexta-feira, 18 de março de 2011

Que é a cisão?

Escrito por José Marinho







«Traduzida em francês, inglês ou alemão, esta obra seria a demonstração perfeita da superioridade da filosofia portuguesa sobre todas as suas rivais estrangeiras; ela permanece ignorada e esquecida aquém e além fronteiras, por culpa de todos nós, que não sabemos cultivar nem aproveitar as verdadeiras fontes das nossas riquezas espirituais. Síntese poderosa de todas as teses enunciadas na filosofia contemporânea, ela é além disso verificada por uma dinâmica de intenção mística. Ela realiza, com a superação da filosofia, a transcensão infinita que ao homem como tal é possível falar, dizer ou escrever».

Álvaro Ribeiro




DA CISÃO

Que é a cisão?

Tal o decisivo interrogar no seio do enigma, que longa e repetidamente surgiu e mais directamente assumimos quando se impôs aceitar o que designamos pelo nome difícil da noção bem mais difícil. Tal a interrogação em nós no momento de referir o que foi e está sendo ainda.

Para quem pensou o que chamamos cisão, surge com a inevitabilidade de não ter, como última, interrogação alguma, resposta alguma.

Se, escolhendo a via mais acessível, conotamos termo e conceito, alguma luz nos esclarece proveniente das correlações etimológicas e semânticas. Vemos, assim, como cisão evoca cindir, o que cinde, se cinde, e sugere imediatamente ruptura. Logo vemos também que cisão, como ruptura, mas com o súbito do cindir e cindir-se, está na origem do que já entre nós se chamou separatividade enquanto forma, estado ou processo do que se separa ou separou.

Aqui, porém, cabe advertência de extremas consequências. Ao escolher o termo mais adequado para tudo quanto gradualmente vieramos concebendo e importava adequadamente compreender, três ideias nos orientavam. Convinha, primeiro, nele se dissesse o mais súbito, instante do próprio instantâneo. Imperativo advinha, em segundo lugar, fosse dado por tal termo exprimir, ou chegar a exprimir, o lento e o mais lento da separatividade. Requeria-se, na instância terceira, como não menos significativo propriamente indicar não apenas o romper periférico ou medial, mas o que adviesse desde o mais profundo e o mais remoto do ser em nós e para nós. Pois tal verdadeiramente é a cisão em que somos e pela qual somos, tal a cisão em que é, e pela qual é, ou é como se não fosse, ou como o que não é para ser, tudo quanto existe - tal o que se impunha desde o princípio garantir e firmar.



No momento primeiro da determinação do conceito, da escolha do termo com as já mencionadas conotações, a cisão nos aparecia tão-somente como cisão do ser enquanto ser. E tal a cisão é, tal iniludivelmente a vive, no mais amplo e universal ou restrito e singular sentido, tudo quanto existe, tal o por que são, e logo não são, instante e tempo do existir, tal a cisão por virtude da qual surge, e queda, em sua aparente e obsessiva imensidade, destituído de vida manifesta e patente, tudo quanto não vive, tal o por que é tal qual é, ou tal qual é nos aparece, nas formas transientes e mais comuns, homem e consciência de homem, tal o que se memora e configura no mito originário, o de que emergem religião e ciência, em todo o sentido excelso ou já trivial.

Ao longo das nossas reflexões sempre em trânsito e recurso para este ponto singular, não nos iludíamos sobre as dificuldades da viagem. Viagem estranha e a mais insólita, pois não pode ela referir-se a algo dado de uma vez por todas no sentido do ser e da verdade, entrecruzamento incessante, incessante dispersão de caminhos, viagem na qual nasce o próprio viajante, novo sentido de viajar, via e ínvio destino da viagem.

Uma dificuldade primeira é a do enigma e mistério de toda a palavra, em sua génese, no sentido mais intrínseco, na significação movente: dificuldade essencial da palavra e de toda a palavra que emerge da cisão e tem de dizer o de que e por que emerge. Outra dificuldade é bem mais funda: e percorre desde o íntimo todo o movimento como tempo ou discurso na relação do que é para o que pensa, no mesmo sentido de um e de outro, e no saber do por que se ligam quando se ligam, ou do por que se separam quando se separam.

E a dificuldade é a da intrínseca e plena cisão, do que ela é, se para tudo é, do que em sua imensidade abrange ou nela não cabe, do que em sua insinuante e tenuíssima subtileza alcança ou lhe escapa, se a cisão é do ser enquanto cisão do ser; e, se não é cisão do ser, a dificuldade consistirá então em dizer o outro que é na cisão, ou que a cisão é, ou que pela cisão é.

Tal no início e no percurso primeiro da interrogação a cisão nos surgiu: como o outro e o por que sabemos que há o outro ou todo o outro do ser da visão unívoca, outro do que dissemos propriamente unívoco e substituímos ao equívoco universal, outro do uno que pela visão assumimos ou pelo ser da visão instantânea; mais profunda e dificultosamente emergia outro ainda, outro do ver, nos diferentes sentidos da visão, dados na extrinsecidade da relação ao que é, ou na intrinsecidade.


A cisão que dizemos, quanto é dado dizer, à que concebemos, quanto é dado conceber, todos os graus do saber excelso ou trivial simbolizaram como o por que há paraíso perdido, pecado original, ou conceberam como diverso ou o por que há diversidade, irresolúvel múltiplo ou caos, errático pensar e erro, mal, ou bem e mal.

Então, porém, queda a cisão, como o outro do mesmo que plenamente fosse, afectada do que chamaremos negatividade absoluta prematura, como o que é todo o não, todo o não-ser da não-verdade para o Nada incompreensível.

Tal a cisão ao mesmo tempo verdadeira e enganosa do ser enquanto ser, cisão que dissemos real mas queda irreal em sua mesma realidade na medida em que implica o que, ora como oculto, ora como secreto, permanece no ser que é para nós ou no que somos.

Dificuldade extrema então advinha que nas anteriores se implicava. Perante o sentido mais fundo da cisão, como cisão do ver e da mesma visão, nós tínhamos de cuidadosamente advertir e deixar para outros advertido que a mera cisão do ser enquanto ser é ilusória, tanto quanto o ser enquanto ser. Como, porém, essa é, em todo o caso, para os que vivem, a primeira, e única permanece para a maioria dos humanos, tínhamos de fazer voltar os olhos firme e, quanto possível, friamente, para aquele mesmo estádio onde emerge e demora a crença do crente, a acção obstinada do agente, e toda a forma de filosofia e ciência sem princípio no sublime e ao mesmo tempo abissal saber do que liga e do por que há ligar, do que separa e do por que há separar. Assim, nós também, pelos difíceis caminhos da dialéctica do sim e do não, tivemos de adiar quase para o fim o que constitui a cisão em seu princípio.




Num sentido nossa empresa se figurava fácil, e o mais fácil. Pois que é mais acessível a todo o homem, sensível ainda aos próprios bichos, do que haver sempre outro como ser, ou como forma, grau e estádio de ser, outro para ele mesmo, outro para cada um dos que são? Por certo, dizemos, a quem viveu do mais trivial viver, a quem pensou do mais trivial pensar, não pode certamente e de muitos modos deixar de oferecer-se, com o próprio ser e pensar e nas relações de ambos, o que chamamos cisão. Ela é então sensível, acessível concretamente, dir-se-ia, para todo o ser consciente. Isto mesmo, porém, a torna gradualmente suspeita ao que se interroga no autêntico e essencial sentido de interrogar. Pois se a cisão surge neste primeiro estádio como o que implica altereidade e alteração, como o que se revela outro ou se torna outro, como o que convém ao que se designa por irremediável trânsito e crise, afastamento, separação, distância infinita, desacerto, dispersão, desconcerto, desarmonia - queda aceite como o que ocorre no que é, ou a partir do que autenticamente é, como vir a não ser o que plenamente foi, o que foi que se amou ou se acreditou, o que se sentiu ou apreendeu ou concebeu como o que plenamente fosse.

Bem o mostra o uso comum e cultural dos termos aludidos e seus análogos, o qual marca extrema ruptura de linha contínua ou de processo contínuo, para então deixar de ser o que fora quanto consistente e indisputavelmente fora. Assim emerge de todo o amor, ou no seio do amor, o estranho outro do amor, assim a autêntica, iluminada ou esclarecida fé encontra o limite da crença ou suas obras, e intimamente sente emergir a inapreendida descrença em seu seio, assim o que pensou, com o que certamente pensava e presumia de saber o que é pensar, vê ou intimamente sente abortar seu pensamento, e a segurança sumir-se, um momento falaciosa, do próprio saber ou sua verdade.

Àqueles a quem foi dado na verdade do amor, da fé ou do pensamento segura ou obstinadamente persistir, a forma mais sensível e por isso mais gritante da cisão os espera. Tal é o sentido irrecusável e obsessivo do confluir incessante da vida na morte, incessante, como vamos advertir, em vários modos secretos ou patentes: pois todo o viver é no tácito e íntimo sentir, na reflexão limitada, ou sequer na comum experiência, desde o nascimento, constante cindir-se de outro ser, ou cindir outrem de si, ou cindir-se de si próprio o ser que nos foi dado ou assumimos.

Eis como todos os humanos, cientes ou inscientes, sábios ou ignorantes de saber e de filosofia, aceitam a cisão. Inevitavelmente a aceitam, porém, como terminal de tudo quanto somos, é ou foi em nós e para nós. Pois da mesma forma que ao enigma sentiram apenas como o que é enigmaticamente, ou já mais fundamente apreenderam o enigma de todo o ser para o homem, mas não alcançaram o enigma intrínseco do ser no saber de si e na relação intrínseca de saber e de ignorar e do porquê intrínseco da relação, assim agora aceitam a cisão como cisão do ser que fosse, desatendendo pensar outro que o ser na cisão, desatendendo pensar que o ser se assume sempre e em todas as suas formas como verdadeiro, como o que intencional e meditadamente chamamos ser da verdade, - e que, portanto, toda a verdade não só do ser do homem mas de todo o ser para o homem, é radical e originariamente afectada.


José Marinho


Assim, dizendo que o mero sentido da cisão do ser enquanto ser cumulativamente implica a outra e mesma e mais funda, a infinita e absoluta separatividade, sem a qual não tem sentido a relação de ser e verdade, a relação acessível, mas tão ilimitadamente funda, que a todo o momento referem os humanos, em todo seu pensar e dizer, como ser e não ser verdade - nós adiantamos nossa simbólica viagem pelas quase desertas regiões onde não há estradas, nem sequer veredas abertas, que de novo se não cerrem na densa floresta do ser atrás do solitário viandante (in Teoria do Ser e da Verdade, Guimarães Editores, 1961, pp. 63-69).


terça-feira, 15 de março de 2011

Decisão e Indecisão na Casa de Portugal (ii)

Escrito por Álvaro Ribeiro




Estamos efectivamente a observar que o animal racional vai desvalorizando e perdendo a razão na medida em que busca a técnica para se afastar da natureza. As mulheres assistem maliciosamente, ou de mente maliciosa, à loucura universal do sexo masculino, que para diminuir as distâncias no espaço e no tempo acelera a velocidade, e que tanto mais insectifica a sociedade quanto mais a mecaniza por um movimento sem inteligência. Afastada a arte pelo positivismo, a demência dos homens revela-se em que fazem do jogo um trabalho e do trabalho um jogo, como se a ociosidade e a negociosidade pudessem ter a mesma sorte na bolsa das mercadorias. Nas suas guerras sociais ou nos seus combates políticos, os homens públicos já não parlamentam acerca de razões, porque apenas discutem instintos, vontades e sentimentos que cobrem com as designações de interesses nacionais, sem nobreza universal. Ao positivismo, doutrina que teve por fim a eliminação da filosofia, devemos o descrédito do racionalismo e da razão. A crença passou para as variedades da experiência sensual, céptica ou mística, para a experiência científica, metafísica e religiosa. Contra a doutrina positivista clamam quantos preconizam o regresso à escolástica, isto é, ao graduado e progressivo exercício da razão libertadora e comunicativa, verdadeira educação do homem.

Para além da razão existe a fé. Num livro de filosofia, o ponto de fé, quer dizer, de quietação e de segurança a que há-de ser referido o movimento da inteligência, nunca pode deixar de ser a existência de Deus. Há que afirmar Deus essente e existente, porque o crer ou acreditar em Deus, confiar nas suas ameaças ou nas suas promessas, implica já questões menores de arbitrária subjectividade. O ateísmo, como já foi dito, não passa de uma forma de analfabetismo, isto é, incapacidade de ler a designação e a significação de uma palavra sagrada. Elucidado de que é um composto de corpo, alma e espírito, como verifica pela morte, pelo sono e pelo esquecimento, o homem sabe que deixando de pensar deixa de ser homem, deixa de verdadeiramente ser. Aceitável por cépticos e místicos, o argumento ontológico exerce um admirável principado sobre a razão. Logo, porém, a identidade entre o pensar e o ser vai descendo à relação entre o pensar e o agir, ou entre o pensar e os modos do jogo, da arte e do trabalho, numa degradação que causa escândalo à puridade intelectiva dos cépticos e dos místicos.

O livro intitulado Teoria do Ser e da Verdade é essencialmente constituído por uma teoria da cisão, ou seja, do princípio de divisão e de divórcio que afecta os seres. A cisão divina, a cisão cósmica e a cisão humana respondem e correspondem às três ciências filosóficas, designadas por teologia, cosmologia e antropologia. Para bem entender há que suprimir a logia, o logos ou o verbo. A cisão significa evidentemente acção ou paixão de dividir e de separar, separar as partes no composto ou dividir, abstractamente o uno. Mais tarde se dirá qual a causa ou qual o causador da cisão que surpreenderemos no método analítico. A fenomenologia da cisão é grandiosa, lúcida e terrivelmente exposta por José Marinho em páginas dignas de admiração, as quais anunciam quando não proclamam consequências que o leitor interessado ou inteligente não pode deixar de inferir. Tais inferências serão válidas na medida em que forem garantidas pelas outras noções que a cisão postula na arquitectura da Teoria do Ser e da Verdade. Do ponto de fé alcançado pelo argumento ontológico vão descendo duas linhas, ou mais, que figuram ângulos sem triângulos. Ao vértice falta a relação da altura com a base. Assim uma doutrina sem base dar-nos-á apenas a eloquente ilusão da emanação infinita ou abissal emergência de imagens que nem sequer chegam a ser simbólicas. A cisão explica as aparências e significaria a verdade se estivesse garantida por alcance ontológico. O pensamento escolástico, ao impugnar as névoas ou os fumos do misticismo ou do cepticismo, assenta na pedra filosofal os fundamentos racionais do pensamento cristão que caracteriza na verdade transitiva e operativa do símbolo para o sacramento.


Todos sabemos que o realismo da gnosiologia de Aristóteles afirma o vínculo substancial de todos os entes. Se nas antigas doutrinas religiosas vigorava a abissal distinção entre os deuses e os homens, com ou sem a interpretação idealista dos «deuses que o são para os homens», na revelação cristã a relação Deus-Homem ou Homem-Deus opera a transfiguração, a transformação e a transmutação do ser consciente, ou do ser racional, em maravilhosa irreversibilidade do movimento, do tempo e do espaço. O cristianismo não é religião que haja surgido no terceiro termo de qualquer dedução cronológica. A cisão extrema do politeísmo e do paganismo, se jamais existiu, foi na história redimida pela comunhão cristã. Sem a prática dos sacramentos e sem a prece matinal - sem a oração do pão e sem a oração da luz -, talvez seja impossível inteligir a unidade do ser no cristianismo, mas a liberdade de recusar os meios purificadores e salvadores do homem decaído mas redimido não vale de argumento contra a esperança da ressurreição da carne ou da reintegração dos seres, afirmada pela maioria das doutrinas iniciáticas. Só os positivistas julgam que a vida de Cristo terminou para sempre no calvário, e por isso representam o facto cristão na imagem do crucifixo, exaltando o sombrio instante da morte, sem aleluia, sem anunciação, sem ascensão. A fé, virtude teologal, superior às virtudes cardeais, culmina todavia no símbolo apostólico da vida eterna.

A doutrina da cisão atinge não só a teologia, mas também a antropologia. Estando, por várias vezes, figurada na Teoria do Ser e da Verdade a posição dos deuses contra os homens, em palavras de subtil ludicidade, seria de esperar que também nele fosse representada a oposição das mulheres aos homens, segundo um jogo antigo que no nosso tempo vai declinando já para a arte e também para o trabalho. Repreensível falta numa fenomenologia da cisão, já que é para todos evidente que da secção genésica emergem os sexos, já que a observação da criança, da tendência para o género, da previsão da hereditariedade merece ser demoradamente considerada no preâmbulo de uma ontologia do amor. Entendido como problema, segredo ou mistério, o amor representa sempre a sublime virtude criacionista, porque longe de ser a paixão consistente no aprender e no receber vive na acção generosa do dar e do ensinar. A inclusão dos entes racionais nos três grupos naturais dos homens, das mulheres e das crianças, superando a cisão crónica das eras, das épocas e dos séculos, propícia a todos os pensadores de dedução cronológica, paira acima da planificação usada pelos historiadores das religiões, das filosofias e das ciências. A humanização está longe de ser a ilusão dos humanistas, porque na consciência humana se espelhou a palavra divina, talvez perdida mas também prometida, e portanto infinita. A parábola cristã não revoga, porque apenas purifica e simplifica os mitos, os ritos e os símbolos de mais velhas teologias e teogonias.

A doutrina da cisão ilude e engana quando transita ou recorre do distinguir para o separar. Na sensação externa como na intuição interna um terceiro termo é dado, absorvente ou unificado. Em mais elevada ordem de pensamento, quando o juízo surge por virtude de objectivo, a dialéctica parece fortalecer a cisão. Os adjectivos prestam-se a figurar os contrários, pela facilidade conferida ao escritor para manipular os prefixos de negação e de privação. Tudo se opõe ao Nada, honrando um simples pronome indefinido com a inicial maiúscula, como se fosse um nome. A dialéctica não é via para a verdade, quando desfigurada em meio jogo sem arte nem trabalho.

A dialéctica superior tem o mérito de humilhar os intelectuais que ainda não sublimaram o instinto combativo, significante da pré-puberdade, intelectuais que, embora adultos ou veteranos, permanecem na indecisão mental da adolescência. O dialecto mostra-lhes os anversos e os reversos das questões, faz passar os rivais de uma margem para a outra, enfraquece as posições e as oposições, sem contudo professar, firmar ou afirmar os princípios comuns ou os lugares-comuns que determinam o ponto crucial do caminho para a verdade.






Logo, porém, que o instinto combativo, mas estéril, seja superado pela razão construtiva ou edificante, repugna ao homem qualquer doutrina sem base. O racionalista solicita que lhe seja conferido o primeiro grau de iniciação tradicionalmente representada pelos quatro elementos. É verdade que muitos homens não passam da Idade da Pedra, ligando gravemente e gramaticalmente palavra com palavra, como quem junta sólido com sólido, em coordenação ou subordinação; mas outros alcançam a plasticidade e a fluência da arte maior, incomparavelmente subtil. O homem pretende agir, mas agir iluminado pelo pensar. A seriedade da vida humana refuta as atitudes cépticas, hipócritas e sofísticas daqueles vaidosos e verbosos politicantes que, não contentes de estarem como homens superiores, pretendem ser tidos por super-homens, apenas porque chegaram mais depressa à verdade, e se gabam de em vida terem visto Deus.

É dos livros que o misticismo, ao atingir o extremo quietista, como o cepticismo, ao atingir o extremo sofístico, se consideram libertos de qualquer ética desdenhada ou desprezada pelo carácter partido ou parcial do seu pensar e do seu agir. A cisão abre luciferina via aos olhos que queiram ver a protagonia e a antagonia da tese e da antítese do mundo moral. A teoria da cisão, expõe, portanto, as dificuldades de uma ética sem pauta, sem regra, sem prazo, uma ética sem precisão nem decisão, uma ética da indecisão, como aquela a que aspiram quantos se esquivam a respeitar os direitos adquiridos, a pagar as dívidas e a cumprir os deveres, isto é, a reconhecer as obrigações de ordem civil, política e militar. O expediente de opor ao juízo parcial a compreensão una e omnímoda, com a exemplaridade do santo, não elimina, não exclui, não expulsa a dialéctica do sim e do não em paralelo com a distinção do mal e do bem, porque a guerra fogosa logo reaparece na mente do pensador que confere liberdade ao «heróico portador da negação extrema», dizendo que «quem nega tem profunda razão de negar». A razão, humilhada pelo cepticismo e pelo misticismo, emerge útil e servil no momento grave da polémica individualista. Certo é, porém, que da falta de ética resulta necessariamente a demissão da pedagógica, da política e da económica, com amarga decepção de quantos justamente esperam da filosofia qualquer decisão mental ou moral perante os problemas humanos, os segredos naturais e os mistérios divinos.

A teoria do separador, visão auroral de luz que se intensifica até se transformar em fogo, representa o incêndio que está devorando tudo quanto até agora parecia sexo e fixo, na ordem humana como na ordem cósmica e na divina. As mulheres sorriem maliciosamente da casa que arde para ser parte de casa ou cinza de casa, com ruína total do casamento, porque lá fora do lar já está proclamada e decretada a cisão humana pela igualdade dos sexos. Tudo se abisma do Nada, e da cisão emergem para a ilusão da nossa vida o amor e a fé. Eles explicam a paixão humana, fé sem acção, e implicam o respectivo engano, porque se firmam no que é apenas simbólico, de relação entre o patente e o secreto, mas de mínima, remota e inatingível verdade. O pensamento transforma e anula tanto o amor como a fé porque pensar é cindir e desunir. Frágil é a amizade humana, frustes as relações e as religiões, abstractas as condições do espaço e do tempo, ilusória a irreversibilidade do movimento. Seria, no entanto, impensável o ser em vertiginosa decadência para o caos se a verdade não postulasse a noção contrária à da cisão, que é o insubstancial substante.

Apresentada de perfil e sem minuciosa crítica, mas de modo a facilitar imparcial entendimento, a fenomenologia da cisão não representa todo o mérito da Teoria do Ser e da Verdade. O mais alto valor da obra está no ensaio de opor à fenomenologia do ser uma ontologia do espírito. Estas expressões de erudição universitária e de indústria editorial evocam, mas agora de propositada utilidade, os termos da filosofia eleática, da filosofia ateniense e da filosofia alexandrina (e assim dizemos porque não há unidade que se denomine filosofia grega, nem totalidade que se denomine filosofia antiga), como evocam também os densos, complexos e volumosos livros que a Alemanha exporta para consumo dos estudantes de filosofia. Hegel escreveu, como é sabido, uma Fenomenologia do Espírito, em réplica à ontologia do espírito que Kant estudou nos subjectivistas britânicos, Locke, Berkeley, Hume, e que teorizou como ontologia do intelecto (Verstand) aquém da razão cristã, humana e divina (Vernunft). O estudioso José Marinho, afectado por funda aversão contra a filosofia escolástica, na medida em que esta se apresenta como face exotérica do esoterismo cristão, deixou-se fascinar pela mística teutónica e consequentemente pelo idealismo alemão, pensando em luta contra as tendências normais e formais da filosofia portuguesa, que já do rubro fatalismo islâmico e do verde profetismo hebraico recebera aquele sinal activista e realista que na obra de Aristóteles figura em verdade perene e dominante.


Excluindo a razão e o racionalismo, por escolásticas presunções de possuir a verdade ou de a atingir apressadamente, excluindo também o intelecto e o intelectualismo por sucedâneos da razão que se exterioriza e objectiva em categorias, o pensador José Marinho mergulha até ao fundo, ao fundamento e ao fundamental da consciência humana para descobrir a interrogação. Pensar é interrogar. O inquérito avança até à fronteira dogmática entre a heresia e a ortodoxia. Quem interroga é a Esfinge, símbolo quadrivial dos estádios da evolução humana, em figuração quimérica. Junto dela as pirâmides, mas todas com base, obras de arquitectura. O enigma trivial dá prova ao comportamento humano, em seu duplo aspecto de interioridade e de exterioridade. Mas interrogar é sempre julgar, e do intelecto à razão ascende o homem pelo reconhecimento de que todo o ser e toda a verdade dependem daquele absoluto a que só por analfabetismo pode ser recusado o santo nome de Deus. A dialéctica do ser parcial perante o ser total, como a da verdade parcial perante a verdade total, desaparece insubstante na presença do substante, milagrosamente significado pela sagração da estrela ou da cruz. Cessa toda a divisão com o malefício do divisor no momento de entender que a multiplicação original, morrendo em cada instante de sacrifício, concorre efectivamente para a redenção final.

Saudamos no livro de José Marinho, no pensamento e no estilo admiráveis da Teoria do Ser e da Verdade, uma obra autêntica de filosofia que efectivamente nos obriga a cogitar, a meditar e a reflectir. A crítica dirá se as respectivas teses concordam entre si, para coerência do sistema, e se estão de harmonia com a cultura que nos cumpre propagar e defender. O livro surge na hora em que, perplexos ante as dificuldades opostas pelos estrangeiros ao pensamento nacional que estrutura a verdade da Pátria, buscamos as razões justificativas da posição que nos singulariza pelo modo de colaborar na redenção da Humanidade. Os estrangeiros, e com os estrangeiros os nossos emigrados ou turistas, arguem maliciosamente com a denúncia das tristes culpas, certos de que o ensino das escolas públicas, viciado pela frenesia cientista e tecnicista, tem revogado de geração para geração os valores defensáveis pela filosofia portuguesa. Aos escritores, e especialmente aos autores das obras de pensamento, tem sido efectivamente desleixado o poder de educar as novas gerações. Só eles constroem o futuro, já que o ser do homem é o seu pensar, e com o pensar se ilumina o agir. No passado repousam, ou adormecem, parentes, professores e sacerdotes, que repetindo palavras pretéritas esvaziam de conteúdo intelectual ou emocional as cerimónias em que por hábito colaboram, transformando as comemorações históricas em farsas revogáveis, dispersando em terras mortas o vínculo espiritual da tradição (ob. cit., pp. 273-278).