sexta-feira, 18 de março de 2011

Que é a cisão?

Escrito por José Marinho







«Traduzida em francês, inglês ou alemão, esta obra seria a demonstração perfeita da superioridade da filosofia portuguesa sobre todas as suas rivais estrangeiras; ela permanece ignorada e esquecida aquém e além fronteiras, por culpa de todos nós, que não sabemos cultivar nem aproveitar as verdadeiras fontes das nossas riquezas espirituais. Síntese poderosa de todas as teses enunciadas na filosofia contemporânea, ela é além disso verificada por uma dinâmica de intenção mística. Ela realiza, com a superação da filosofia, a transcensão infinita que ao homem como tal é possível falar, dizer ou escrever».

Álvaro Ribeiro




DA CISÃO

Que é a cisão?

Tal o decisivo interrogar no seio do enigma, que longa e repetidamente surgiu e mais directamente assumimos quando se impôs aceitar o que designamos pelo nome difícil da noção bem mais difícil. Tal a interrogação em nós no momento de referir o que foi e está sendo ainda.

Para quem pensou o que chamamos cisão, surge com a inevitabilidade de não ter, como última, interrogação alguma, resposta alguma.

Se, escolhendo a via mais acessível, conotamos termo e conceito, alguma luz nos esclarece proveniente das correlações etimológicas e semânticas. Vemos, assim, como cisão evoca cindir, o que cinde, se cinde, e sugere imediatamente ruptura. Logo vemos também que cisão, como ruptura, mas com o súbito do cindir e cindir-se, está na origem do que já entre nós se chamou separatividade enquanto forma, estado ou processo do que se separa ou separou.

Aqui, porém, cabe advertência de extremas consequências. Ao escolher o termo mais adequado para tudo quanto gradualmente vieramos concebendo e importava adequadamente compreender, três ideias nos orientavam. Convinha, primeiro, nele se dissesse o mais súbito, instante do próprio instantâneo. Imperativo advinha, em segundo lugar, fosse dado por tal termo exprimir, ou chegar a exprimir, o lento e o mais lento da separatividade. Requeria-se, na instância terceira, como não menos significativo propriamente indicar não apenas o romper periférico ou medial, mas o que adviesse desde o mais profundo e o mais remoto do ser em nós e para nós. Pois tal verdadeiramente é a cisão em que somos e pela qual somos, tal a cisão em que é, e pela qual é, ou é como se não fosse, ou como o que não é para ser, tudo quanto existe - tal o que se impunha desde o princípio garantir e firmar.



No momento primeiro da determinação do conceito, da escolha do termo com as já mencionadas conotações, a cisão nos aparecia tão-somente como cisão do ser enquanto ser. E tal a cisão é, tal iniludivelmente a vive, no mais amplo e universal ou restrito e singular sentido, tudo quanto existe, tal o por que são, e logo não são, instante e tempo do existir, tal a cisão por virtude da qual surge, e queda, em sua aparente e obsessiva imensidade, destituído de vida manifesta e patente, tudo quanto não vive, tal o por que é tal qual é, ou tal qual é nos aparece, nas formas transientes e mais comuns, homem e consciência de homem, tal o que se memora e configura no mito originário, o de que emergem religião e ciência, em todo o sentido excelso ou já trivial.

Ao longo das nossas reflexões sempre em trânsito e recurso para este ponto singular, não nos iludíamos sobre as dificuldades da viagem. Viagem estranha e a mais insólita, pois não pode ela referir-se a algo dado de uma vez por todas no sentido do ser e da verdade, entrecruzamento incessante, incessante dispersão de caminhos, viagem na qual nasce o próprio viajante, novo sentido de viajar, via e ínvio destino da viagem.

Uma dificuldade primeira é a do enigma e mistério de toda a palavra, em sua génese, no sentido mais intrínseco, na significação movente: dificuldade essencial da palavra e de toda a palavra que emerge da cisão e tem de dizer o de que e por que emerge. Outra dificuldade é bem mais funda: e percorre desde o íntimo todo o movimento como tempo ou discurso na relação do que é para o que pensa, no mesmo sentido de um e de outro, e no saber do por que se ligam quando se ligam, ou do por que se separam quando se separam.

E a dificuldade é a da intrínseca e plena cisão, do que ela é, se para tudo é, do que em sua imensidade abrange ou nela não cabe, do que em sua insinuante e tenuíssima subtileza alcança ou lhe escapa, se a cisão é do ser enquanto cisão do ser; e, se não é cisão do ser, a dificuldade consistirá então em dizer o outro que é na cisão, ou que a cisão é, ou que pela cisão é.

Tal no início e no percurso primeiro da interrogação a cisão nos surgiu: como o outro e o por que sabemos que há o outro ou todo o outro do ser da visão unívoca, outro do que dissemos propriamente unívoco e substituímos ao equívoco universal, outro do uno que pela visão assumimos ou pelo ser da visão instantânea; mais profunda e dificultosamente emergia outro ainda, outro do ver, nos diferentes sentidos da visão, dados na extrinsecidade da relação ao que é, ou na intrinsecidade.


A cisão que dizemos, quanto é dado dizer, à que concebemos, quanto é dado conceber, todos os graus do saber excelso ou trivial simbolizaram como o por que há paraíso perdido, pecado original, ou conceberam como diverso ou o por que há diversidade, irresolúvel múltiplo ou caos, errático pensar e erro, mal, ou bem e mal.

Então, porém, queda a cisão, como o outro do mesmo que plenamente fosse, afectada do que chamaremos negatividade absoluta prematura, como o que é todo o não, todo o não-ser da não-verdade para o Nada incompreensível.

Tal a cisão ao mesmo tempo verdadeira e enganosa do ser enquanto ser, cisão que dissemos real mas queda irreal em sua mesma realidade na medida em que implica o que, ora como oculto, ora como secreto, permanece no ser que é para nós ou no que somos.

Dificuldade extrema então advinha que nas anteriores se implicava. Perante o sentido mais fundo da cisão, como cisão do ver e da mesma visão, nós tínhamos de cuidadosamente advertir e deixar para outros advertido que a mera cisão do ser enquanto ser é ilusória, tanto quanto o ser enquanto ser. Como, porém, essa é, em todo o caso, para os que vivem, a primeira, e única permanece para a maioria dos humanos, tínhamos de fazer voltar os olhos firme e, quanto possível, friamente, para aquele mesmo estádio onde emerge e demora a crença do crente, a acção obstinada do agente, e toda a forma de filosofia e ciência sem princípio no sublime e ao mesmo tempo abissal saber do que liga e do por que há ligar, do que separa e do por que há separar. Assim, nós também, pelos difíceis caminhos da dialéctica do sim e do não, tivemos de adiar quase para o fim o que constitui a cisão em seu princípio.




Num sentido nossa empresa se figurava fácil, e o mais fácil. Pois que é mais acessível a todo o homem, sensível ainda aos próprios bichos, do que haver sempre outro como ser, ou como forma, grau e estádio de ser, outro para ele mesmo, outro para cada um dos que são? Por certo, dizemos, a quem viveu do mais trivial viver, a quem pensou do mais trivial pensar, não pode certamente e de muitos modos deixar de oferecer-se, com o próprio ser e pensar e nas relações de ambos, o que chamamos cisão. Ela é então sensível, acessível concretamente, dir-se-ia, para todo o ser consciente. Isto mesmo, porém, a torna gradualmente suspeita ao que se interroga no autêntico e essencial sentido de interrogar. Pois se a cisão surge neste primeiro estádio como o que implica altereidade e alteração, como o que se revela outro ou se torna outro, como o que convém ao que se designa por irremediável trânsito e crise, afastamento, separação, distância infinita, desacerto, dispersão, desconcerto, desarmonia - queda aceite como o que ocorre no que é, ou a partir do que autenticamente é, como vir a não ser o que plenamente foi, o que foi que se amou ou se acreditou, o que se sentiu ou apreendeu ou concebeu como o que plenamente fosse.

Bem o mostra o uso comum e cultural dos termos aludidos e seus análogos, o qual marca extrema ruptura de linha contínua ou de processo contínuo, para então deixar de ser o que fora quanto consistente e indisputavelmente fora. Assim emerge de todo o amor, ou no seio do amor, o estranho outro do amor, assim a autêntica, iluminada ou esclarecida fé encontra o limite da crença ou suas obras, e intimamente sente emergir a inapreendida descrença em seu seio, assim o que pensou, com o que certamente pensava e presumia de saber o que é pensar, vê ou intimamente sente abortar seu pensamento, e a segurança sumir-se, um momento falaciosa, do próprio saber ou sua verdade.

Àqueles a quem foi dado na verdade do amor, da fé ou do pensamento segura ou obstinadamente persistir, a forma mais sensível e por isso mais gritante da cisão os espera. Tal é o sentido irrecusável e obsessivo do confluir incessante da vida na morte, incessante, como vamos advertir, em vários modos secretos ou patentes: pois todo o viver é no tácito e íntimo sentir, na reflexão limitada, ou sequer na comum experiência, desde o nascimento, constante cindir-se de outro ser, ou cindir outrem de si, ou cindir-se de si próprio o ser que nos foi dado ou assumimos.

Eis como todos os humanos, cientes ou inscientes, sábios ou ignorantes de saber e de filosofia, aceitam a cisão. Inevitavelmente a aceitam, porém, como terminal de tudo quanto somos, é ou foi em nós e para nós. Pois da mesma forma que ao enigma sentiram apenas como o que é enigmaticamente, ou já mais fundamente apreenderam o enigma de todo o ser para o homem, mas não alcançaram o enigma intrínseco do ser no saber de si e na relação intrínseca de saber e de ignorar e do porquê intrínseco da relação, assim agora aceitam a cisão como cisão do ser que fosse, desatendendo pensar outro que o ser na cisão, desatendendo pensar que o ser se assume sempre e em todas as suas formas como verdadeiro, como o que intencional e meditadamente chamamos ser da verdade, - e que, portanto, toda a verdade não só do ser do homem mas de todo o ser para o homem, é radical e originariamente afectada.


José Marinho


Assim, dizendo que o mero sentido da cisão do ser enquanto ser cumulativamente implica a outra e mesma e mais funda, a infinita e absoluta separatividade, sem a qual não tem sentido a relação de ser e verdade, a relação acessível, mas tão ilimitadamente funda, que a todo o momento referem os humanos, em todo seu pensar e dizer, como ser e não ser verdade - nós adiantamos nossa simbólica viagem pelas quase desertas regiões onde não há estradas, nem sequer veredas abertas, que de novo se não cerrem na densa floresta do ser atrás do solitário viandante (in Teoria do Ser e da Verdade, Guimarães Editores, 1961, pp. 63-69).


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