terça-feira, 1 de março de 2011

Um filósofo singular: Álvaro Ribeiro

Escrito por Orlando Vitorino





Ao publicar, em 1943, o seu primeiro livro «O problema da Filosofia Portuguesa», Álvaro Ribeiro já tinha atrás de si uma longa carreira intelectual, sobretudo a de discípulo de Leonardo Coimbra, mas ainda assim só manifesta na literatura e na política. Na literatura, através de inumeráveis artigos, a maior parte deles não assinados, que publicara em todo o género de revistas e jornais, muitos deles provincianos ou marginais, como o mensário fadista «A Voz de Portugal». Na política, fora ele, com Pedro Veiga, o fundador e doutrinador da «Renovação Democrática», a única afirmação superior que o «esquerdismo» teve em Portugal mas que, naturalmente, os vulgares e triunfantes esquerdistas não querem nem podem atender; a ela pertenceram personalidades como Domingos Monteiro, Delfim Santos, Casais Monteiro, Eduardo Salgueiro ou António Alvim que, na maior parte, vieram a abandonar o «esquerdismo» para se distinguirem entre os nomes mais significativos da nossa vida literária.

Os anos que decorreram entre 1930 e 1943 foram, para Álvaro Ribeiro, anos de grandes dificuldades financeiras, de funda pobreza e até miséria. Licenciado, quando já estava decretada a sua extinção, pela Faculdade de Letras do Porto onde Leonardo Coimbra chegara a reservar-lhe um lugar docente, recusou-se a seguir, como a maior parte dos discípulos do grande filósofo, a carreira de professor liceal e veio para Lisboa à procura de um emprego que não encontrou. Trabalhava em «biscates», sobretudo em redacções dos jornais onde apurou um estilo noticioso e insinuante que conservou em muitas páginas, não as menos eloquentes, dos seus livros. Assim pobre, tinha ainda a seu cargo a mãe e uma criança do triste prédio onde vivia que, ficando de súbito orfã, ele adoptara. Mas nesse tempo podia aliar-se, a uma vida de licenciado desempregado, uma certa boémia lisboeta de clubes nocturnos e casas fadistas da qual, os que ainda a conheceram, falam com uma saudade deslumbrada. A pobreza e o desemprego têm a vantagem de deixar o tempo livre. Álvaro Ribeiro podia meditar demoradamente e ler muito. José Marinho disse-me um dia: «O Álvaro pensa como um coração pulsa: sem cessar».

Em seus anos de juventude, no Porto, lera até à exaustão as obras platónicas e sobre elas preparou ainda uma tese de doutoramento. Vindo para Lisboa, trocou Platão por Aristóteles, destruiu os escritos que fizera sobre o primeiro, passou até, e para sempre, a falar dele com certo desencanto. Mas nunca mais deixou de ler e estudar o segundo.

Às horas de leitura, nos cafés, durante a manhã, sucediam-se as horas de «conspiração» política, no final da tarde e princípios do serão. Era então que doutrinava e activava a «Renovação Democrática», em reuniões com os outros «conspiradores», todos mais abastados do que ele, alguns até com rendimentos e heranças, como Casais Monteiro e Domingos Monteiro. No intervalo das reuniões, quando cada um ia jantar a casa, Álvaro Ribeiro bebia um «garoto» numa leitaria e sentava-se num banco da Avenida à espera dos outros. Findas as horas da política, começavam as da boémia nocturna, o passeio pelos clubes onde se jogava o bingo e pelas casas de fados onde os pianos ainda acompanhavam as guitarras, coisa que, num artigo de «A Voz de Portugal», vituperou. Nos clubes e casas de fado, havia também as mulheres de «vida fácil» que Régio e Stuart pintaram e choraram no livro «O Fado». De uma chegou a sentir-se tão possesso que os amigos tiveram de o dissuadir de casar-se com ela. Assim difícil, pobre, quase miserável, este período da sua vida foi também o mais romanesco, e sobre ele veio mais tarde a escrever um romance que nunca publicou e acabou por destruir.
José Régio

Frustrada a 1.ª República, instalado e fortalecido o salazarismo, a «Renovação Democrática» foi desfeita. Dela ficou, além de uma série de opúsculos, entre os quais «Linha Geral da Nova Universidade» é para não esquecer, um volume com a sistematização da doutrina e o texto de uma constituição política. Álvaro Ribeiro aparecia, aos olhos do novo poder, como um inimigo, o que mais difícil lhe tornava a vida. Quando rebentou a guerra de Espanha e a política se exacerbou, chegou a ser ameaçado por «legionários», perseguido na rua e insultado nos cafés. Acabou por arranjar um emprego em que era uma espécie de «contínuo», não propriamente um «contínuo» para salvaguarda, sendo ele «licenciado», dos prestígios da Universidade. E uma vez terminada a guerra de Espanha e estabelecida a pacatez salazarista, um governante, Castro Fernandes, conseguiu colocá-lo em modesto lugar de um organismo corporativo onde se conservou toda a vida.

Entretanto, o moralismo salazarista havia abolido a boémia lisboeta. As casas de fado foram transformadas em atracções turísticas e os belos edifícios onde estavam instalados os Clubes viram-se ocupados por conspícuas instituições: um, por uma associação regional, a «Casa do Alentejo», outro pelo Secretariado da Propaganda Nacional, depois S.N.I. e agora Secretaria de Estado da Comunicação Social. A Censura (há sempre Censura) oficializa-se, e vai começar, com os subsídios ao cinema, ao teatro, às artes plásticas e à literatura, com as exposições, os concursos e os prémios, com a legislação proteccionista, a estatização da cultura, tarefa só agora completada, na forma mais asfixiante, pela 3ª República saída do «25 de Abril». A propósito de um romance com êxito, o deputado Gonçalves Rodrigues quase chegara a defender no parlamento, então designado por Assembleia Nacional, a exigência de uma «licença» da Universidade para se ser escritor. Repetia-se o exemplo da Universidade de Londres ao requerer à Rainha Isabel que «um tal W. Shakespeare fosse proibido de escrever comédias». Assim se instalou no nosso país, e não sabemos até quando permanecerá, uma «cultura oficial» aconchegada nas instituições, comandada pelas Universidades que controlam toda a acção cultural do Estado, em especial a do Ministério da Educação e, hoje, também a do Ministério da Cultura, e difundida pelos meios de comunicação social, no tempo do salazarismo condicionados pela Censura, hoje condicionados, mais intrinsecamente, pela respectiva estatização.

Álvaro Ribeiro, como todos os escritores e artistas, viu-se, pois, segregado da sociedade organizada. As sua teses da «filosofia portuguesa» viram-se, como se vêem ainda hoje, hostilizadas nos termos mais grosseiros pelos grupos instalados nas instituições universitárias. Mas com a segurança do emprego permanente, com a pacatez salazarista e com a tranquilidade que o ostracismo dá aos que não têm «vâs cobiças», pôde dedicar-se com incessante continuidade à meditação, à leitura e à escritura. Nunca deixando de aprofundar o aristotelismo, entregou-se, no decénio de 1935-1945, ao estudo da filosofia alemã, primeiro a de Kant, depois a de Hegel. Hegel era, então, um nome, que ofuscava os políticos, incapazes de o lerem e compreenderem porque era reivindicado, simultaneamente, pelo nacional-socialismo alemão e pelo internacional-socialismo russo como o seu primeiro inspirador. Álvaro Ribeiro várias vezes fez notar que a Constituição Política de 1933, elaborada sobretudo pelo monárquico Fezas Vital, era também de inspiração hegeliana. E um amigo de emprego contava que Castro Fernandes, ao nomeá-lo para o modesto lugar que lhe arranjou, lhe pediu que lhe expusesse o hegelianismo. Com a paciência da gratidão, Álvaro Ribeiro passou muitas horas no gabinete do governante tentando ensinar-lhe o que ao político não convinha ignorar.
A existência de Álvaro Ribeiro passou então a decorrer entre as horas do emprego, que eram apenas as do começo da tarde, e as horas de ler, escrever e conversar nos cafés: as da manhã, as do fim da tarde e as do serão. Como José Marinho viesse também para Lisboa no final dos anos 30, formou-se em torno dos dois uma tertúlia que durou até à morte de Álvaro em 1981. Aí se iniciaram ou exercitaram no convívio intelectual os homens mais representativos de sucessivas gerações, as de Eudoro de Sousa, José Blanc de Portugal, Jorge de Sena, António Quadros, António Telmo e Braz Teixeira; aí foram buscar inspiração, adequada informação ou vias de desenvolvimento, personalidades como José Régio, Almada Negreiros, Casais Monteiro, José Osório de Oliveira, Moura e Sá, Carlos Queiroz ou Cunha Leão. A doutrina do número de ouro, que dominou a arte de Almada, foi ali haurida; a «descoberta» de Fernando pessoa ali surgiu. O camoneanismo de Jorge de Sena, ali se formou. E bem assim o sebastianismo ou o anti-sebastianismo de José Régio, o lusitanismo de José Osório, o filosofismo de Moura e Sá. Ali tiveram origem muitas revistas literárias, desde «Litoral» de Carlos Queiroz, e «Atlântico», de José Osório, ao «57» e «Acto» de António Quadros, e aos «Teoremas de Teatro» e «Escola Formal» do autor destas linhas. Finalmente, o que havia de comum nas obras singulares de cada escritor ligado a esta tertúlia, alargou-se ao Brasil, e um período houve – que coincide com a fundação da «Revista Brasileira de Filosofia» – em que se formou a única colaboração real e fecunda que houve entre as culturas dos dois países. A tertúlia de Álvaro Ribeiro e José Marinho foi desde modo o mais significativo e decisivo «lugar» da história espiritual portuguesa. Outros «movimentos», ainda hoje mais falados, como o da «Presença» e o do «Orfeu», são sobretudo agrupamentos mais ou menos ocasionais em volta da publicação, mais ou menos duradoura, de uma revista literária. Exerceram decerto uma influência, marcaram sem dúvida uma data literária, mas foram principalmente uma actualização ou um acerto da literatura portuguesa com a actualidade europeia. A tertúlia de Álvaro Ribeiro e José Marinho, com a designação que se lhe veio a dar de «filosofia portuguesa», tem raízes mais originais, singulares e profundas, lança prolongamentos mais longe no presente e no futuro, contém a imagem da mesma filosofia englobando todos os ramos das artes e das letras. É um dos acontecimentos mais importantes da história de Portugal, afirmação que só estranhará quem não puder compreender a afirmação de N. Hartmann de que «os Discursos à Nação Alemã, de Fichte, foram um dos acontecimentos mais importantes da história universal».

Ao publicar, em 1943, o seu primeiro livro, «O Problema da Filosofia Portuguesa», Álvaro Ribeiro estava longe de prever que o seu nome ficaria para sempre ligado à designação de «filosofia portuguesa» e ao que por ela se entendeu.

O que por ela se tem entendido é da mais perturbante e confusa variedade. O que Álvaro Ribeiro entendeu é muito singelo e patente: se cada povo, ou cada pátria, é uma entidade espiritual, como a singularidade da língua demonstra, então corresponde-lhe, necessariamente, uma filosofia própria. Propôs-se, Álvaro naquele livro, descrever as condições, que são sobretudo didácticas, para que tal filosofia se exprima. Porque se ela não se exprimir, a entidade espiritual que é o povo, ou a pátria, tem o destino ameaçado, não viverá a existência que lhe é própria, depressa se evanescerá. Há hoje quem considere que tal evanescência é a fase em que o povo português se encontra.

O problema consistiria, pois, em criar as condições para a expressão da filosofia portuguesa. Mas não foi assim que foi entendido. O que se entendeu foi que Álvaro Ribeiro afirmava a existência histórica, literária, cultural e documental da filosofia portuguesa, coisa que a «cultura oficial» recusou e recusa admitir. Em dois sentidos a recusa.

O primeiro sentido, que tem António Sérgio por patrono ou padrão é o de que não houve, não há, nem pode haver uma filosofia portuguesa. Não a houve nem há, porque não temos, entre nós, filósofos. Não a pode haver porque a filosofia é universal e, portanto, incompatível com definições ou limitações nacionais. É certo que, reconhecem esses objectores, se fala de uma filosofia alemã ou inglesa ou francesa, mas dessas se pode falar porque estão referidas a povos que dispuseram efectivamente de muitos e grandes filósofos e representaram, cada um deles, um estádio na evolução da filosofia, o que não aconteceu connosco. Mesmo assim, trata-se apenas de uma maneira de falar.

A tais objecções responde facilmente Álvaro Ribeiro. Responde, primeiro, que não é nesse sentido que fala de «filosofia portuguesa»; depois, que, até nesse sentido, há em Portugal, desde Pedro Hispano e D. Duarte até Leonardo Coimbra, uma longa tradição de filósofos com decisiva projecção na filosofia universal, os quais só se ignoram porque nunca foram estudados; em terceiro lugar, que é precisamente por ser universal que a filosofia tem de ser nacional (José Marinho viria a dizer, ironicamente, que é por haver laranjas que há laranjas de Setúbal).


Pedro Hispano


O segundo sentido das objecções é o que identifica a afirmação da filosofia portuguesa com a afirmação de teses, de teorias ou de sistemas que seriam defendidos por Álvaro Ribeiro, por José Marinho, por Delfim Santos ou por Santana Dionísio na sequência do pensamento de Leonardo Coimbra, seu mestre comum, de Teixeira de Pascoaes e da «Renascença Portuguesa». Movidos pelos seus interesses de meros repetidores de algum mais recente e passageiro ou mais remoto e erudito pensador, tais objectores viam na tese de Álvaro Ribeiro uma ameaça ou risco. A eles se juntaram, naturalmente, todos os que, em domínios como a política e a estética, nada mais conseguem ser do que agentes das diversas doutrinas que, em cada momento, sucessivamente vão triunfando e desaparecendo em França, na Alemanha ou no mundo.

Esta segunda ordem de objecções desmorona-se por si mesma. Primeiro, porque a afirmação da filosofia portuguesa não é a afirmação de um sistema feito, mas de um sistema sempre a fazer. Depois, porque, não há psitacismo, por mais «actualizado» que se apresente, que não se apague depressa na sua superficial e transitória efemeridade.

Certo é, todavia, que, passados quarenta anos, estas duas ordens de objecções não cessaram de se acirrar contra a tese de Álvaro Ribeiro, agora já só ponto de partida de um «movimento» ou «escola» de filosofia garantida pelas obras que entretanto foram sendo realizadas. Numa prolixa página de um número de Novembro de 1982 do quinzenário «JL», um representante da Universidade sempre inalterável mas agora intitulada de nova (como Estado Novo ou Ordem Nova), vem à carga contra a filosofia portuguesa dando-a, nos termos já utilizados por António Sérgio há 40 anos, por cadaverosa e enterrada. Tão acirrada persistência, que demonstra decerto a vitalidade da filosofia portuguesa, também significa que a cultura oficial continua a ser hoje o que era ontem mas, passados que foram quarenta anos, ainda mais anquilosada.

A fecunda vitalidade da filosofia portuguesa manifesta-se, mais que na sua perduração, no desenvolvimento da tese inicial: de problema, que se tratava de resolver, passou a designação e constituição de uma escola de filosofia. Do que ainda não há, porém, adequada percepção é a de que esta «escola» se tornou muito mais de que a afirmação de uma exigência patriótica. A filosofia portuguesa passou a ser, já hoje é, a consciência da perpetuidade da filosofia clássica.

Por filosofia clássica, designam os compêndios universitários a filosofia antiga, isto é, a filosofia grega e os seus prolongamentos, em contraste com o que designam por filosofia moderna. Esta tem a sua origem sistematizadora em Duns Escoto, a determinação programática em Descartes, a sistematização em Kant e Hegel, e é ela que preside à formação das ciências positivas e às «culturas oficiais» contemporâneas. Também a filosofia clássica, sistematizada por Aristóteles, se viu, como a filosofia portuguesa, dada por cadaverosa e enterrada pela filosofia moderna. Mas ao que a filosofia moderna conduziu foi à negação de toda a filosofia, substituindo-a pela investigação científica e pela teoria social. Uma vez realizada a substituição, a morte da filosofia foi anunciada por doutrinadores como Marx e Marcuse e por pensadores como Nietzsche e Heidegger, os primeiros exultando, os segundos lamentando-se. Acontece, porém, que, sem a filosofia, a teoria social não passa de uma sistematização da violência e a investigação científica de uma profissionalização laboratorial que o insuspeito A.N. Whitehead considerou o flagelo que os alemães fizeram cair sobre a ciência mas ainda hoje encontra apologetas em doutrinadores como T. Kuhn. O que a teoria social deu e aí está, a «crise dos fundamentos da ciência» que atormenta os cientistas, confirmam a frustração dos substitutos da filosofia. Apenas um passo falta dar para concluir que o que está morto é isso que se designa por filosofia moderna.

Então se verá que a filosofia clássica jamais perdeu a vitalidade porque, ao contrário do abstraccionismo e do voluntarismo modernos, ela é, como se disse do pensamento aristotélico, a «filosofia natural do homem». Então se verá… Simplesmente acontece que foi isso o que a filosofia portuguesa já viu.

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