terça-feira, 29 de março de 2011

A inflação de Fernando Pessoa

Escrito por Ernesto Palma







A "descoberta" de Fernando Pessoa tornou-se num culto e tem os seus sacerdotes. Vamos lá contribuir também para a inflação de Pessoa

Quando, no início dos anos quarenta... Não, com este estilo não há no jornal espaço que chegue. O que aconteceu foi que, naqueles tempos, Fernando Pessoa fora "descoberto" por Gaspar Simões, que lhe iniciou as "obras completas", por Álvaro Ribeiro, que lhe publicou os textos de prosa filosófica; por Casais Monteiro, que lhe reuniu e prefaciou uma antologia...

Este último escreveu nesse prefácio, com certo intuito de escândalo, o que hoje se afigura quase académico. Mais ou menos o seguinte: "Se dermos à história da poesia portuguesa a imagem de uma cordilheira, suas mais altas montanhas serão Camões, Bocage, Antero, Pascoaes, Pessoa e Régio".

Naqueles tempos, lembrava-se na tertúlia da "filosofia portuguesa" que Leonardo Coimbra manifestava uma desdenhosa indiferença para com as pretensões e veleidades filosóficas dos textos que F. Pessoa publicava na Águia e em revistas de Lisboa, o que parece ter magoado silenciosamente o poeta. Lembrava-se também que Pascoaes, tão admirado e exaltado por Pessoa, louvava nele a inteligência crítica mas nunca o espírito poético. E José Régio... Quando andava em ensaios o "Jacob e o Anjo", citei-lhe eu, em conversa do Parque Mayer, aquilo de "todos nós embalamos ao colo um filho morto". Régio deu um salto, fitou-me em riste e exclamou: "Aí está o único verso que Pessoa escreveu!"

Certo é que a "descoberta" e publicação das obras de Pessoa deslumbrou as gerações. O deslumbramento prolonga-se hoje numa espécie de culto que tem os seus sacerdotes - Gaspar Simões, Álvaro Ribeiro, António Quadros, António Telmo, talvez J. A. Seabra, talvez Jorge de Sena, talvez Eduardo Lourenço - e tem os seus vendilhões que o Estado abastece com a exclusividade do acesso ao famoso espólio: 26 000 textos inéditos.
O culto é tão avassalador que não permite o mínimo assomo de reflexão sobre a obra de Pessoa, nem sequer a simples lembrança daquelas atitudes de homens tão autorizados, responsáveis e sábios como Leonardo, Pascoaes e Régio.

Não há dúvida de que sempre que se levanta um templo a um homem é preciso esperar a ruína do templo para se conhecer o homem.

Aquilo de Leonardo, Pascoaes e Régio - a que poderíamos juntar uns tantos outros, talvez menos autorizados de talento, como Almada - guardarem suas distâncias em relação a F. Pessoa, é ou não é para ter em conta?

Aquilo de Régio só encontrar, em toda a volumosa obra do poeta, um único verso, é coisa de verdade? Que outro verso procurar, para mostrarmos que não?

Vamos direito à obra-prima, a Ode Marítima. Lemos, vamos lendo, o desespero apodera-se de nós. Linha a linha, tudo é efectivamente prosaico e com muitos ressaibos de românticas leituras, como se o esquema emergisse, luminoso, das nocturnas alucinações de Coleridge. Arrebata-nos, sem dúvida, mas não está feito por dentro, não tem versos. Será possível haver o poema e não haver os versos, como na velha anedota de Terêncio?

Passemos ao impacto, sempre perturbador, de "O Guardador de Rebanhos": "... tive um sonho como uma fotografia..." Claro que se não trata de um verso e o que nele se significa, e resume todo o sentido do poema, é ainda menos poético do que as palavras em que está dito. Perante o cadáver real de António, ali presente nos seus braços, Cleópatra sonha com "um imperador que também se chama António", isto no que é, talvez, o mais belo poema de Shakespeare que Pessoa tanto queria para modelo. Transitar da realidade ao sonho é, sim, sinal de poesia. Mas o contrário? E, para mais, não à realidade mas à fotografia, aos "fotógrafos" como Almada dizia de certos pintores realistas e abstractos.


Elisabeth Taylor, em Cleopatra (1963). Ver aqui e aqui



Recorremos então aos poemas líricos, aos que são de Fernando Pessoa sem heterónimo. A este entre mais belos: "Onda que enrolada tornas Serena ao mar que te trouxe..." Se o lermos, relermos, tornarmos a ler, o que ficamos a ler tem carência de música e, sem ela, cai num ritmo precipitado. Trata-se do poema para uma canção. Passemos aos poemas de litúrgica solenidade. "Vem, ó noite antiquíssima e Idêntica..." É "coisa mental", alimentada de cultura. A "coisa mental", começa no superlativo que o não seria se o que se lhe seguisse não fosse atributo insuportável "Idêntica". Aqui, a posição de Régio dá o braço à de Pascoaes, poeta supremo? Também Pascoaes tem um poema à noite que começa assim: "Lá vem a noite..." Peço ao leitor que repare: onde Pessoa diz "Vem, ó noite" Pascoaes diz "Lá vem a noite". O primeiro é um sacerdote carregado de vestes recitando uma invocação de cujo conteúdo não tem o saber congénito. O segundo, despe-se de tudo, até do saber congénito que possui, e, desnudado, fala à noite como Apuleio à Lua.

Espantoso, desgraçado, nunca assaz louvado Fernando Pessoa que quis pôr tudo em coisa nenhuma e coisa nenhuma em tudo. Do lado de fora do templo sacrílego que os pobres diabos que deslumbrastes insuflam de um coro que te envergonhará enquanto não fizer ruir as paredes, saúda-te, este teu irmão menor.

"Falhaste em tudo", disseste, raivoso, a ti mesmo enquanto espreitavas que o Esteves saísse da tabacaria. Acham para aí graça que tenhas dito isso de ti porque acham que o disseste como se fosses um deles e porque acham que tu não falhaste em nada. Mas o que disseste é verdade: falhaste em tudo!

Quiseste ser poeta e só conseguiste fazer poemas sem versos, como logo o astuto do Régio viu. Quiseste ser filósofo e, meu Deus!, como te estendeste ao comprido a falar de "estéticas não-aristotélicas" quando o tempo dessas estéticas já passara há mais de um século e quando nada sabias de "estética aristotélica" que é, aliás uma poética; ou a falar do Hegel (o que deves ter feito, suspeito eu, por ocultas rivalidades com o Coleridge) e nem sequer sabias dele o que o pobre do Antero sabia, e era muito pouco, através das leituras do Vera e servia-lhe apenas para discursatas bêbedas nas "repúblicas" coimbrãs (o Álvaro Ribeiro, com a sua ingénua astúcia fingiu não perceber, mas ao Leonardo não escapaste).

Quiseste ser dramaturgo, e aí estão inacabadas, tão frustres que inacabadas, essas tentativas de um "terceiro Fausto" e essa anedota - ah! como ta invejo! - que engenhaste para "O Marinheiro" mas não tiveste talento para pôr em teatro nem em poesia. (Sabes? Não é com entrechos que se faz teatro. Vê lá o Shakespeare que nunca escreveu uma peça com entrecho que ele engenhasse). Quiseste escandalizar, não escandalizaste ninguém e acabaste por ter um culto desses a quem devias escandalizar. Quiseste intrigar com aquela história dos heterónimos, que te consolavam do falhanço teatral, mas não conseguiste, decerto (decerto, porque tinhas muito mais talento do que ele) o apuro dos heterónimos do teu contemporâneo espanhol, o António Machado.


Retrato de Fernando Pessoa, de Mestre Almada (1954).


Falhaste em tudo! Até nos amigos. O Pascoaes ria-se de ti, e tenho razões para suspeitar que se continua a rir de nós todos. O Régio, que não era para rir, ficava furibundo como um profeta. O Leonardo, foi o que se viu. O Almada pintou-te aquele retrato para se vingar. O Mário, foi-se embora. O Cortes Rodrigues, foi embora (Sabes que o encontrei, já velho apoiado a uma camponesa jovem, no lombo de um monte em São Miguel, a olhar, só a olhar, o mar e o sol, suspenso e estático, para depois perguntar sem desprender os olhos: "Tu entendes isto, Maria?" E a rapariga respondeu: "Entendo, sim, senhor". Tu nunca tiveste coisas destas e mal conheceste por interposta pessoa, Fernando, logo te punhas a sofrer ou, para aliviar, a escrever mais um poema sem versos).

Falhaste em tudo, sim. Não o disseste, só por superior displicência e para distinguires, igualando-te, da tua lavadeira e do Esteves. Falhaste mesmo.

Não foi por falta de génio que falhaste. Génio tinhas a mais. Falhaste porque também tinhas em ti um demónio malévolo. E o que ainda estou para saber é se o que nos deixaste foi do génio ou foi do demónio.

Um abraço, apesar de tudo, do Ernesto Palma (in Leonardo, Ano II, n. 5/6, 1989).


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