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segunda-feira, 28 de março de 2016

Mito e símbolo em António Quadros

Escrito por António Telmo




Rio de Janeiro



«(...) Como talvez já saiba, fui ao Brasil em Novembro [de 1986], onde durante 3 semanas fiz um curso sobre Pensamento Português na Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, de que lhe envio o programa por eles distribuído, quase completamente cumprido.

Foi um curso para um grupo de alunos de Mestrado e Doutoramento em Pensamento Luso-Brasileiro, cerca de 30, todos extremamente interessados, tão interessados que fundaram um Centro de Estudos de Pensamento Luso-Brasileiro, que eu próprio inaugurei com uma conferência.

(...) Ali fui encontrar gente a fazer teses sobre Bruno, Cunha Seixas, Leonardo Coimbra, Antero, Pascoaes, Eudoro de Sousa... e sobre si, caro António.

Ainda tentei trazer uma cópia da tese, feita à base da História Secreta de Portugal, pois a rapariga que a fez, muito inteligente e interessada, esteve em todo o meu curso. No entanto, ela não a deu a tempo, prometendo mandá-la pelo correio, mais tarde. Como agora estão lá em férias, todos se dispersaram, mas você tê-lá em Fevereiro ou Março, o mais tardar...».

António Quadros para António Telmo (Carta XIII, de 18.1.87, in António Quadros e António Telmo: Epistolário e Estudos complementares).


«(...) O António Quadros é dos que restam, o único que não "repele" a minha Teima ocultista, que não a teme, que a inclui numa das direcções da sua vida espiritual.

(...) Não vejo ninguém, a não ser o António Quadros, capaz de acompanhar Álvaro Ribeiro e de comigo o seguir neste ponto crucial. Ocultismo sem catolicismo, como talvez o entendesse F. Pessoa, não está dentro dos planos da "Ordem Templária", a que ele dizia pertencer. O prestígio que se fez à sua volta e o silêncio tumular que sempre se faz à volta de Álvaro Ribeiro explicam-se, talvez, assim. Afigura-se-me impossível separar dois relativos: a ortodoxia e a heterodoxia.

Todavia, as notícias que me dá de que "as coisas andam" no Brasil e em Portugal deixam-me muito contente.










(...) O meu livro História Secreta de Portugal, veja bem com teses à volta, não presta. Amo os outros dois [Gramática Secreta da Língua Portuguesa e Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões], os filhos desprezados da sorte. São duas mónadas de luz iluminando o meu espírito. Mas as pessoas preferem o ocultismo enterrado na pedra. O capítulo sobre Pascoaes onde pus alguma coisa da minha orientação quotidiana e iniciática de viver o mundo passa esquecido. Só influenciamos os outros pelo que não presta: a sombra da morte atrai muito mais do que a luz da vida. Escreveu Álvaro Ribeiro, numa carta ao Rafael, que só quem estivesse sacramentado deveria tentar decifrar os Painéis. Posso garantir-lhe que os Grandes Iniciados dos Jerónimos fizeram passar pela minha carne a sombra da morte. Mas isso é outra história...».

António Telmo para António Quadros (Carta XIV, de 22-1-87, in António Quadros e António Telmo: Epistolário e Estudos complementares).


«(...) Não procure mais a razão para o relativo apagamento da "Gramática Secreta..." e do "Desembarque...", perante a "História Secreta". Nesta, ainda você se coloca num plano de comunicação com uma cultura média do português universitário, atraído pelo oculto (e patriota). Mas naqueles livros, você sobe por aí acima, e quantos de nós o podemos acompanhar?

Sem degraus, é preciso subir à corda, à força de músculo (intelectual), penetrando em zonas que são estrangeiras à tal cultura média.

Dir-se-ia (e falo também por mim), que você se retira cada vez mais para o tal espaço ígneo e lhe parece uma concessão, um compromisso inaceitável descer um milímetro que seja, até ao nível de gente de mais pobres elementos.

Será a razão por que já não gosta da "História Secreta"? Porque os seus livros têm de ser para nós, como que provas iniciáticas cada vez mais exigentes, para nós e também para si próprio, já para além do estádio ou grau da "História Secreta". Mas pense no que é o nosso sistema de ensino e a nossa cultura dominante. Nós, que passámos pelo magistério do Álvaro Ribeiro e do Marinho, aprendemos alguma coisa, que é inacessível à maioria.

Não lhe estou a dizer para mudar. É preciso que alguém fale para os poucos. Estou apenas a dizer-lhe que entenda a grande fragilidade intelectual de quase toda a gente, além dos tabus e bloqueios de toda a ordem (incluindo, e estou de acordo consigo, os católico-eclesiástico-hierárquicos).


António Quadros e António Telmo



Note esta conversa que tive ao telefone com o António Marques Bessa (do grupo "Futuro Presente", "Século", J. Valle de Figueiredo, J. Nogueira Pinto). Elogiou-me por "Portugal, Razão e Mistério", falou de si com entusiasmo, a propósito da "História Secreta..." (não sabia sequer que você é irmão do Orlando), mas depois disse-me que não entendia nada do Álvaro Ribeiro, que não gostava dele, nem da filosofia portuguesa, a não ser as nossas formas históricas, literárias, etc. É assim mesmo...

(...) Também lhe queria dizer duas palavras sobre o problema catolicismo - ocultismo (...). A verdade é que não vejo contradição entre os dois termos: catolicismo e ocultismo. É claro que as heterodoxias marcam grandes divergências em relação às ortodoxias. Mas estas também, não são estáveis, têm um percurso sinuoso. Além de tudo o mais, se eu leio os ocultistas, não significa que vá concordar com tudo. Mas... a verdade é que há muito a aprender.

Sou, digamo-lo, um católico liberal. Não me sinto no mínimo inibido, em minha liberdade espiritual. Nem clericalista nem anti-clericalista. Faço hoje uma vida de sacramentos, embora o meu espírito flutue muito e se dirija para paragens aventurosas, faço-o fundamentalmente porque os sinto como constituindo laços vivos, concretos, tradicionais com o sagrado, com Deus, exigindo da nossa parte reverência e humildade, uma aproximação do povo, dos simples que só por aí acedem a uma vida do espírito superior à dos interesses quotidianos. (...) O que importa quanto a mim é uma linha geral para o alto, não importando muitos os acidentes de percurso. Concebo um Deus-Espírito, muito superior às nossas pequenas contabilidades e prejuízos terrenos. Muito superior às nossas estreitas ortodoxias, que aliás já foram heterodoxias e heresias para outros, ou são-no.

A Sua revelação está nos profetas, nos evangelistas, nos místicos, na Igreja, e está também na filosofia, e no esoterismo dos que quiseram ou querem ir mais longe do que o quadro mental oferecido eclesiasticamente e escolasticamente. A Sua revelação está também na linguagem, na ciência, na natureza, dentro de cada um de nós.

Você verá talvez melhor a minha posição no vol. II de "Portugal...", onde defendo um trinitarismo de predominância paraclética, mas... sem heresia, como penso que foi o de Dinis e Isabel, dos franciscanos espirituais e da Ordem de Cristo. Coincido pois com o que você diz sobre os templários e sobre a aproximação do catolicismo e do ocultismo - pelo menos do ocultismo de sinal cristão, isto é, não-oriental -, embora eu penda pessoalmente mais para um criacionismo cristão-liberal.

Ainda dois pontos:

Não acredite em si próprio quando me diz que a "História Secreta..." não presta. Talvez haja graus, do simbolismo expresso em pedra até ao expresso em poesia e palavra, mas todos convergem, todos são uma mesma linguagem poliédrica, com diferentes faces. Sobretudo, e este é um problema que eu também enfrento no curso do meu livro, o que o documento escrito tantas vezes cala, esconde, ou o que foi destruído em obras queimadas ou censuradas, ou ainda, o que foi dito no Capítulo de uma Ordem ou na pequena tertúlia de uma câmara ou de um café mesmo, escapa, passa no simbolismo da pedra, que não houve coragem para destruir pela sua monumentalidade, ou de que se perdeu a cifra, mas resta, à vista. Caso dos Painéis, como verá no meu livro: foram escondidos intencionalmente durante séculos, ao aparecerem dizem-nos agora muito que não ficou escrito, nem na literatura...

Painéis de Nuno Gonçalves




Ver aqui





(...) P. S. Não creio que seja eu o último que não repele a sua "teima ocultista". Ainda há pouco falei de si com o Jorge Preto. E o Rafael? E o próprio Orlando? E a Dalila?...».

António Quadros para António Telmo (Carta XV, de 29.1.87, in António Quadros e António Telmo: Epistolário e Estudos complementares).


«(...) Sobre a História Secreta. Quando a publiquei, o Álvaro Ribeiro escreveu-me uma carta, amável e elogiosa, mas nas entrelinhas decifrei a sua discordância quanto à orientação geral do livro. Tenho em meu poder também um esboço de História de Portugal que só a si mostrarei quando vier a Estremoz. Está traçado com a sua mão. Comparando-o com o meu livro, apanha-se a funda razão da discordância. Eu sei que isto pode perturbá-lo agora que o António está a preparar os volumes seguintes de "Portugal Razão e Mistério", mas sei também que acredita na sua estrela, e que nem o António nem eu somos o Álvaro Ribeiro. Comunico-lhe, no entanto, porque calculo que deve ter nisso grande interesse.

De resto, a correspondência que possuo do nosso Amigo, a quem o António e eu tudo devemos, revela aspectos não ainda saudados da sua filosofia, que é, na parte e no todo, a ter em conta uma correspondência, uma obra de Kabbalah. A propósito fiquei contentíssimo ao ler na sua carta o que já julgara saber, isto é, o seu repúdio do ocultismo oriental e a sua ligação com o ocultismo de sinal cristão. De resto, tudo quanto me diz sobre a sua posição religiosa que admite a evolução dos dogmas pela sua concepção de Deus como puro Espírito está, julgo eu, na linha exacta da Tradição portuguesa. "Para mim, Deus é o Espírito Santo", costumava dizer o Álvaro Ribeiro nos últimos dias. A sua perspectiva da Trindade Cristã é a d'"Arte de Filosofar". A cristianização do "orientalismo" é tratada, contra a filosofia alemã, no prefácio a um livro de Nietzsche e integrada na significação dos Descobrimentos».

António Telmo para António Quadros (Carta XVI, de 2 de Fevereiro de 1987, in António Quadros e António Telmo: Epistolário e Estudos complementares).


«Diz Pinharanda Gomes, a páginas 401 do seu livro [A Filosofia Hebraico-Portuguesa], que "a escola formal é a iniciação esotérica e que este é o princípio da maçonaria".

O conceito de escola formal é de Álvaro Ribeiro, que o expõe no livro a que deu, precisamente, este título. Mas funda-se ele no conceito aristotélico de forma como o que dá origem, não princípio, à existência das coisas, dos seres e do mundo e só se distingue da categoria primacial, a substância, porque esta não dá origem, mas é o que faz substância, é o que faz perdurar. O conceito da escola formal, tal como Álvaro Ribeiro o pensou, destina-se a assegurar que o ensino seja uma imitação da criação, ou do espírito, tal como a arte é uma imitação da natureza. Estamos sempre seguindo e actualizando o aristotelismo.


Ao acrescentar ao conceito de escola formal o de escola material, Álvaro Ribeiro concedeu ao nosso calão pedagógico que chama matérias aos assuntos tratados nas disciplinas escolares. A palavra matéria tem uma longa história de múltiplos sentidos mas que, todos eles, sobretudo o do materialismo característico da filosofia e da ciência modernas, acabam por cair perante o de Aristóteles. Comprovam os eruditos que foi Aristóteles quem primeiro deu conceito à palavra matéria (ou àquela que os latinos traduzem, com milagrosa correcção, por matéria). Ora, nesse conceito a matéria é, em si mesma, o nada. Não o nada no sentido que lhe deram os filósofos cristãos, como José Marinho, M. Heidegger ou Hegel, inspirados na imagem bíblica segundo a qual o mundo foi criado do nada, mas no sentido do nenhum, onde coisa alguma é, e do nenhures, onde coisa alguma existe.

Torna-se, portanto, surpreendente que Pinharanda Gomes transponha para a maçonaria o conceito de escola formal, e o conceito de escola, ou escolas materiais, dando o primeiro como o de iniciação esotérica e o segundo como o dos vários ritos maçónicos para, dentro deste quadro mental, desenvolver eruditamente as relações entre pensamento hebraico e a prática da maçonaria.

Não sei se o Pinharanda tem informações, que eu não possuo, de a maçonaria utilizar a designação de escola formal. Mas sei fundamentadamente que o aristotelismo é incompatível com a doutrina oculta de uma associação secreta. Acontece com Aristóteles o que ainda não acontecera com Platão: a filosofia, ou o saber autêntico, radicado no homem e no mundo, distinto do saber revelado, separa-se das religiões do oculto porque deixa de carecer do oculto para garantir a sua autenticidade, porque a autenticidade passa a ter a garantia no pensamento. É esta separação que dá origem à lógica.

O cristianismo herdou de Aristóteles a separação das religiões do oculto e é delas, sempre prontas a reaparecer onde e quando o pensamento se debilita e evanesce, que se alimentam os seus adversários. A maçonaria constitui um entre múltiplos exemplos históricos.

Pinharanda Gomes não estranhará que, a seguir à recensão de um livro tão rico e admirável como é o seu, eu me demore a discutir apenas uma questão. Trata-se, porém, de uma questão crucial nas circunstâncias culturais e políticas em que nos encontramos. E acresce o facto de eu ter sido o responsável por uma revista, publicada entre 1976 e 1978, e na qual colaborou, que teve o título, precisamente, de Escola Formal. Também aí não faltou quem visse o dedo da maçonaria a apontar o liberalismo, ou o neoliberalismo, que a revista preconizava e doutrinava.
A confusão da maçonaria com o liberalismo é uma imagem que nos ficou da monarquia constitucional e da 1.ª República, que ainda não se desfez. Reaparece com frequência na linguagem dos políticos, o que não tem qualquer significado intelectual, mas figura em todas as pastorais emanadas do episcopado português nos últimos seis ou sete anos, o que nos deixa perplexos. Entre nós, como nalguns outros países, o chamado regime liberal que resultou da Revolução Francesa foi, efectivamente, o regime dos mações. Acontece, porém, (e o actual neoliberalismo já o demonstrou à saciedade), que tal regime pouco ou nada teve a ver com o liberalismo, mas constituía a sua dissolução, com a consequente preparação do advento do socialismo. O rosto visível que, no nosso país, a maçonaria hoje oferece, impulsionando, apoiando e comandando o regime socialista constitucionalizado pela revolução de 25 de Abril, só serve de confirmação ao que estou esclarecendo. O neoliberalismo preconizado pela revista Escola Formal é o antípoda do socialismo.

Uma última observação: a escola formal é o que há de mais contrário, não só ao esoterismo maçónico como a todo o ocultismo. A filosofia tem, decerto, uma iniciação, mas não no sentido esotérico e ocultista que se tornou habitual atribuir a toda a iniciação. O ocultismo é um culto romântico, muito expandido nos nossos dias, e tanto mais sedutor quanto menos sábias são as inteligências e orgulhosas as subjectividades.

A filosofia é, por definição, o que se oferece, no seu todo, a todas as inteligências e só pode existir por residir totalmente na natureza de cada ser humano. "Um homem que não é um filósofo - disse o mestre da 'filosofia portuguesa' que é José Marinho - é tudo menos um homem". Que a maior parte dos homens não tenha a consciência disso, nem a reflexão nem o saber, que a maior parte dos homens o ignore e se satisfaça nos actos da vida prática e da vontade dominadora, ou sublime essa ignorância nas imagens e ritos do culto religioso, não pode significar que a filosofia dependa de um saber secreto e oculto. O que só se tornou acessível a alguns, raros, não significa que tal acessibilidade seja negada ou condicionada por alguma secreta iniciação ocultista. É possível que os homens, movidos pelo espírito do mal, que é a vontade de persistir na ignorância, e atormentando-se, torturando-se e mentindo uns aos outros, forcem os melhores de entre eles a uma existência segregada e, portanto, a uma acção segregada. É possível que a história de Portugal seja mais verdadeira no que tem de secreto do que no que tem de patente. É possível até que a verdade "não venha nem se vá"... Mas nada é oculto. 

Se tudo fosse oculto, como disse o poeta festejado, ou apenas o de que tudo depende, então não haveria, como também o poeta concluiu, nem procura nem crença, nem filosofia nem religião».

Orlando Vitorino («A Filosofia como Imagem da Pátria»).









Mito e símbolo em António Quadros


Estamos aqui reunidos celebrando o pensamento de António Quadros para o tornar presente na nossa lembrança e na nossa saudade. Nesta época de televisão em que todas as noites nos expomos sem vergonha ou defesa, ao bombardeamento da imagem, é bom, de vez em quando, não morrer de todo relendo um conto tradicional, não para regressar à infância, mas para nele vermos como a imagem pode ser um símbolo para os homens, quando a luz não é manipulada pelos computadores, mas se revela nas formas da verdade.

"Era uma vez uma princesa que, ao descer, logo vieram sete fadas. Cada uma delas dotou-a com uma virtude, mas a sétima marcou o seu destino de infortúnio".

Eis que entramos no reino dos mitos e dos símbolos.

Só as almas superiores concentram sobre si, ao nascerem para a vida, os sete poderes fatais, significados pelos planetas.

António Quadros era um espírito superior. No horóscopo que dele fez Vasco da Gama Rodrigues, o signo de Câncer na casa Segunda está povoado de estrelas juntas olhando o recém-nascido. A Lua no seu domicílio domina o céu.

António Quadros não gostou do horóscopo, viu com incómodo que ele o caracterizava como um espírito lunar. E não se libertou desse desgosto mesmo quando outros astrólogos lhe lembraram que a Lua é o espelho do Sol e lhe mostraram que a conjunção de tantos astros no mesmo lugar do horóscopo era o sinal de um destino superior.

Morreu exactamente na hora em que teve início a Primavera de 1993, ali onde a roda do tempo recebe o impulso que o liberta do nocturno Inverno. Refere René Guénon que os iniciados escolhem esse dia para morrer porque assim propiciam que a viagem no outro mundo se inaugure em condições altamente favoráveis. António Quadros não era um iniciado, mas Deus, queremos todos pensar, terá escolhido por ele. Assim seja!

Mais imperioso é o facto de Agostinho da Silva ter pedido para o levarem do hospital para casa onde queria passar o Domingo de Páscoa, dia em que de facto partiu.

A obra de António Quadros é uma obra de reflexão. Não é um filósofo operativo, um filósofo que não confunde a categoria de paixão com a categoria de acção. Reflectiu, com muitas vezes perfeita limpidez, as doutrinas solares dos seus mestres, cuja luz encheu daquela suavidade que a torna suportável e até aceitável pelas almas inferiores que a noite dominada pela televisão envolve. Por vezes há manchas nessa reflexão, como a do excessivo valor que atribuiu à doutrina do inconsciente de Carl Jung.

Esta doutrina aparece a explicar e a defender o mito do Encoberto contra a grosseria de António Sérgio. É sobre o livro de António Quadros Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista que diremos qualquer coisa nos poucos minutos que a cada um de nós são concedidos. Espero que essa coisa qualquer seja a coisa que se quer.









Neste livro, como em Portugal. Razão e Mistério, o mito aparece a interpretar a história, mas é sempre a história que decide no sentido do mito através da política. O mito do Encoberto é a forma que em Portugal assumiu o messianismo, mas, se no judaísmo a espera do Messias degenerou no marxismo e na utopia da sociedade sem classes, aqui, em Portugal, país onde manda Cristo, é a unidade católica, que harmoniza mas não destrói as diferenças dos indivíduos, das classes e dos povos, aquilo que aparece prometido no regresso do Rei e que, sem dúvida, estará confiado à Idade do Espírito Santo. Em consequência. António Quadros não se limitou a criticar e a refutar o optimismo progressista de Marx e seus sequazes, mas repudiou também o pessimismo dos esoteristas, apesar da simpatia que eles lhe mereciam, cuja doutrina resume deste modo: "O albedo do Quinto Império virá assim depois das fases alquímicas de putrefactio e nigredo; a luz do Espírito Santo, após a putrefacção e a morte virtual de todo um povo. A terra portuguesa, queimada, gasta, desperdiçada, a wasteland, povoada de hollow men, de homens vazios, é um Calvário, onde um povo-Messias, um povo-D. Sebastião, um povo-Cristo, é crucificado para ressuscitar em glória e salvar a humanidade. Este é, para Abellio, o mais subtil sentido do sebastianismo do Quinto Império".

Se eu tivesse vindo aqui com a intenção de expor a mitosofia de António Quadros (era assim que ele gostava de exprimir-se), já há muito que estaria empregado numa universidade. Toda a interpretação que não vai além de si própria é uma redução, porque é nisso que consiste a objectividade científica, conservando-se dentro dos seus limites. Prefiro ler Leonardo Coimbra e ouvir as suas palavras à saída da fonte, mesmo que o não compreenda, do que lê-lo simplificado numa apreensão mais ou menos correcta. Se o autor disse o que disse naquelas palavras, outras palavras desdizem necessariamente o que ele disse. Antes a fantasia subjectiva dos que atiram ao lado de Leonardo Coimbra e, ao irem procurar o que disseram, descobrem um mundo maravilhoso. Por muito respeito que nos mereçam os estudos de um filósofo que só são científicos quando deixamos a alma em casa, é bom, de vez em quando, que sigamos o movimento da nossa imaginação.

Todos sabemos que o espiritismo é uma aberração, mas comportarmo-nos perante os mortos, com quem convivemos e que amámos em vida, como se tivessem passado a inexistentes e fossem hoje um nada, além de estúpido é imoral. Por isso Álvaro Ribeiro, quando José Marinho partiu, falava dele, nos meses sucessivos em que permaneceu entre nós, como se não tivesse morrido e em tais termos e com tal verdade que alguns julgaram que pelo seu cérebro perpassasse a asa da alucinação.

Façamos o mesmo com António Quadros!



Orlando Vitorino e António Quadros  (1988).



Eu discuti com ele enquanto preparava esta evocação do seu pensamento. O que lhe disse foi mais ou menos o seguinte.

"O meu amigo, levado pelo seu inteligente e corajoso patriotismo, compromete excessivamente o mito do Encoberto com a história política de Portugal. O sebastianismo, como movimento social, é apenas um aspecto menor desse mito. Com o Bandarra o sebastianismo foi anterior a si próprio porque as Trovas foram publicadas antes de Alcácer-Quibir. Você dirá que as profecias do sapateiro de Trancoso nasceram de condições históricas socialmente análogas às que permitiram mais tarde, depois do descalabro da batalha, criar pelo inconsciente colectivo a ideia de um rei eternamente vivo. Se observarmos, porém, que ao mito do Encoberto corresponde uma sabedoria do Encoberto, de que a filosofia portuguesa foi até si a explicitação actual, terá de situar essa sabedoria muito antes do Bandarra com o nascimento da Ordem do Templo como Portugal. No reinado de D. Dinis, as condições sociais eram completamente diferentes. Havia um país pleno de força e de confiança em si próprio e, no entanto, todas as Cantigas de Amigo têm por tema a demanda do Encoberto.


Ai flores, ai flores do verde pino
se sabedes novas do meu amigo
Ai Deus y u é?


O Encoberto aparece aqui significado por três vogais: i u e. Y u é, que quer dizer, como sabe, e onde está? O verde pino deve ser interpretado, em sintonia com a ilha verde em que habita o rei, como a comunidade gnóstica e as flores como os seres iluminados supremos. A pinha, símbolo sempre presente na arquitectura manuelina, sendo o fruto dessas flores concentra em si ocultas as sementes na forma vegetal duma chama.

Quando o Padre António Vieira desocultou o Encoberto apresentando-o como D. João IV, quando interpretou o Fuão das Trovas do Bandarra, como João Duque de Bragança, o sebastianismo, no sentido que lhe dou de uma sabedoria esotérica, acabou e a Pátria entrou em decadência até esta miséria do nosso tempo em que o deus que cultuamos é o deus Mamon. A revelação do oculto não pode ser histórica. O oculto só se revela à alma".

António Quadros ouviu-me com aquele jeito tão seu de quem não se sabe se está a ouvir mas que é o modo de quem segue a sua estrela interior e disse-me brandamente: "Está bem. Mas tudo isso não invalida o que eu exponho no meu livro. Os Antónios Sérgios continuam aí" (in Sabatina de Estudos da Obra de António Quadros / Contributo bibliográfico, Lisboa, Fundação Lusíada, 1995, pp. 65-68).







sexta-feira, 14 de março de 2014

A Ilha do Amor no pensamento de Álvaro Ribeiro

Escrito por António Telmo






René Guénon



«(...) Apesar das afinidades que existem entre as tradições iniciáticas dos vários povos que as têm, o que permitiu a um estudioso como René Guénon afirmar que a mesma metafísica se exprime nelas por formas distintas, não me parecem acidentais algumas características dominantes na tradição hebraico-portuguesa que fazem dela um caso único que, por si só, altera a fisionomia de um pensamento que se pretende igual em todas as partes. Tratando de João de Deus, o modo de pensar o amor aparece-nos, logo, como decisivo do abismo que nos separa das várias correntes gnósticas dos três continentes interpolares.

O amor, não qualquer forma abstracta do amor, mas aquele que une o homem e a mulher, constitui, na gnose em geral, uma barreira impeditiva da ascese do ser pelos graus da realização espiritual. Daqui a prescrição de um de dois procedimentos, daquele que resiste ao impulso do instinto sexual, abrindo o caminho da castidade entendida como abstinência, e daquele que prepara igual caminho produzindo a saturação e o nojo pela entrega excessiva e desmesurada a todas as modalidades de erotismo. Como vedes, os dois procedimentos, conquanto antagónicos, visam o mesmo fim que é o da neutralização do amor. Podeis ver isto documentalmente exposto no livro magistral de Hans Jones sobre A Gnose.


Desde D. Dinis e demais trovadores galaico-portugueses com as Cantigas de Amigo, passando, no cume, por Luís de Camões com os poemas líricos e sobretudo com a Ilha dos Amores, até João de Deus, Eugénio de Castro e Florbela Espanca, a nossa poesia, com raras excepções, faz a exaltação da companhia física, celebrando em verso o "puro amor" cuja presença invisível se manifesta pela santidade das relações sexuais entre homem e mulher».


António Telmo («Influência da Cabala na Cultura Portuguesa»).


«(...) A espiritualidade franciscana ortodoxa não consegue evitar o surgimento de uma gnose franciscana, já laicista, como a dos Espirituais (esta tendência permaneceu no país e revive no pensamento contemporâneo de Pascoaes, de Junqueiro, de Jaime Cortesão), já escatológica, como a de Joaquim de Fiora e, na modernidade, em Raul Leal e Agostinho da Silva e, bem assim, no cristianismo paraclético e pentecostalista. A gnose renascentista (é então que a gnose ocidental verdadeiramente se assume como tal, a partir dos místicos como Paracelso) parece não achar fundo eco na condição portuguesa, em virtude do ambiente da reforma católica e da primazia do realismo da Segunda Escolástica, mas há motivações nos iluminados, nos grupos de piedade, nos rigores místicos de algumas comunidades monásticas e no ideário de pensadores, de que são exemplo o irenismo teológico de Damião de Góis e o reformismo dos seguidores das doutrinas de Erasmo. Porém, gnose como tal só ocorre no magistério reintegracionista teosófico de Martins Pascoal, criador de uma nova Maçonaria no ambiente do maçonismo francês, numa época em que a gnose maçónica se radicou no nosso país onde, segundo alguns (António Quadros, António Telmo...) a gnose templária veiculada pacificamente pela Ordem de Cristo, é superior à Maçonaria implantada no século XVIII em meios políticos e não religiosos. As tendências e as doutrinas gnósticas foram condenadas (1864) pela encíclica Quanta Cura e pelo anexo Syllabus, de Pio IX, que refere as componentes gnósticas: panteísmo, naturalismo, racionalismo, libertismo e ocultismo. As teses gnósticas prevalecem nos poetas panteístas e simbolistas como Pascoaes, que buscam "a face espiritual que o mundo tem" (Pascoaes, Regresso ao Paraíso), havendo assunções gnósticas no surrealismo (António Maria Lisboa e Mário Cesariny de Vasconcelos), se bem que a gnose sistematizada só se ache, ou no martinismo de Bruno, ou no teosofismo do visconde Figanière. Em todo o caso, Álvaro Ribeiro imprimiu à "filosofia portuguesa" um ideal gnóstico, ainda quando, por solução críptica, substituiu o termo gnose por "arte de filosofar"».

Pinharanda Gomes («Dicionário de Filosofia Portuguesa»).


«Num fim de tarde de Setembro de 1509, Afonso de Albuquerque observava a sala alta da torre de menagem de Cananor, onde se encontrava cativo. Algumas horas antes, Martim Coelho, por ordem do vice-rei, entregara-o ao comandante da fortaleza, que o prendeu na companhia de um pagem e de um criado, apenas. Aproximando-se da estreita janela que dominava o pátio da cidadela, ele distinguia, para além dos barracões da feitoria, a folhagem dos coqueiros desenhada no mar e coroando o telhado do hospital e da cruz da capela. Naqueles últimos dias de Setembro, o oceano branqueava ainda às últimas rajadas da monção. O barulho das ondas a rebentarem contra a falésia misturava-se ao grito das gralhas e à chilreada das crianças que regressavam à aldeia cristã.



Afonso de Albuquerque



Inclinando-se para a direita, Albuquerque conseguia avistar, através do fumo das fogueiras, um grupo de palhotas encostadas à muralha. Ali mesmo viviam algumas famílias, fruto dos amores entre portugueses e indianas de baixa casta. Todas as noites, elas caminhavam ao longo da base da muralha, para irem, em teoria, polir as jarras de cobre com a areia da beira-mar. Fora bem necessário transigir quanto às proibições e renunciar a impor aos homens uma castidade que, afinal, todos os dias era infringida. O medo do pecado mortal foi rapidamente vencido pelo charme das jovens malabares que vinham rondar à volta da fortaleza, na esperança de uma ligação com os soldados da guarnição militar. Habituadas a juntarem-se com os estrangeiros para tirar o proveito que pudessem, iam de seios nus, como todas as mulheres de condição inferior. O vice-rei não pudera fazer mais do que mandar baptizar à pressa as mais belas e dar-lhes autorização para viverem com os seus homens. Aquelas uniões nem sempre eram consagradas pelo casamento, mas davam origem a crianças cristãs, que usavam nome português, embora sem patronímico.

(...) Albuquerque não se cansava de repetir ao rei a firme decisão em acabar com os Mouros. Aquele ostracismo era partilhado por todos os companheiros, incluindo os comerciantes italianos. Piero Strozzi dizia a seu Pai que "andamos sempre com o credo na boca, tanto no mar como em terra. [...] De outro modo seria impossível resistir a tamanha multidão. A terra mais pequena daqui conta de trezentas a quatrocentas mil pessoas, que parecem formigas".

Só algumas mulheres receberam misericórdia: "Aqy se tomárão allguas mouras, mulheres alvas e de bom parecer, e alguns homens limpos e de bem quiseram casar com ellas e fiquar aquy nesta terraa... e eu os casei com elas e lhe dei o casamento ordenado de vosa alteza, e a cada hum seu cavalo e casas e terras e gado... averá hy quatrocentas e cymqoemta almas; estaas cativas e estas molheres que casão, tornam as suas casas e desenterram suas joyaas e suas arrecadas d'ouro e aljofar e Robis e colares e manylhas... e tudo lhe deixo a elas".


Albuquerque tratava as jovens esposas com todo o respeito, acompanhando-as ao seu lugar na igreja, tratando-as por filhas e indo visitá-las todos os dias, em êxtase, perante a gracilidade que tinham e dignidade na conduta. É inútil dizer que tais casados - casados assim ficariam para sempre designados os portugueses casados com mulheres indianas - foram os herdeiros dos bens imóveis dos Mouros. As tanadarias eram atribuídas aos mais honrados e instruídos; os outros beneficiavam de privilégios para exercer o trabalho que escolhessem. Albuquerque promovia um verdadeiro estado de graça; até aos degredados permitia que apagassem o passado e recomeçassem vida nova. E, ao mesmo tempo, convidava os Hindus a repovoarem a cidade, devolvendo-lhes casas e bens, cargos administrativos e militares, sem impor sequer conversão ao cristianismo. E, deste modo, lançava os fundamentos de uma sociedade nova, da qual eram excluídos os Muçulmanos. Entendia os casamentos mistos como resultado da vontade divina: "Me parece que noso senhor ordena isto e imcrina os coraçõees dos homeens por algua cousa de muyto seu serviço escomdida a nos..."».


Geneviève Bouchon («Afonso de Albuquerque. O Leão dos Mares da Ásia»).




A ILHA DO AMOR NO PENSAMENTO DE ÁLVARO RIBEIRO



«O mal é só o que os homens fazem aos outros por pensamentos, palavras e actos».



António Telmo


É só. Logo, para Álvaro Ribeiro, na natureza, criação divina, não há mal. É, no entanto, difícil, ou pelo menos apressado, concluir que o mal, na concepção de Álvaro, não tem origem, como ensina a Cabala, no mistério insondável de Deus. «O diabo, escreveu ele também, não é o inimigo de Deus, mas sim da natureza». E duas vezes alude a um misterioso agente intermediário que tem por fim monstruoso separar o homem da mulher.

Como quer que seja, a inveja dos homens que fazem mal por pensamentos, palavras e actos nasce do sofrimento que neles causa a felicidade dos outros no amor ou na filosofia. As melhores amizades têm sido envenenadas pelo intermediário que instiga a inveja.

Na natureza não há mal. As naturezas adoecem por acção do homem. No mundo criado a imaginação move o amor. A imaginação do homem pode, em certas condições, contrariar a imaginação divina pela magia que, neste caso, é propriamente aquela que se designa por negra. A medicina integral, isto é a filosofia, conforme se diz num admirável escrito de João Rêgo (1), é a que imita a imaginação divina lutando contra a doença. Enquanto integral actua contra a magia negra ali onde, como no ensino e na política, ela procede contra o amor e contra a filosofia.

Álvaro Ribeiro parece ter-se recusado a escrever sobre o problema do mal nas suas relações com o mistério insondável. Como se viu, não deixou de explicá-lo pelo seu segredo, que é a magia negra.

Tendo sido, como foi em vida, um filósofo que pôs o centro do seu pensamento na exaltação do amor entre o homem e a mulher, concitou a hostilidade dos sinistros instrumentos do mal que o agrediram com pensamentos, palavras e actos. Usou, por isso, de prudência no dizer. A palavra Cabala só quatro vezes aparece nas quatro mil páginas que escreveu para o público. Vestiu por vezes a pele do lobo para não ser devorado pelos lobos, mas a fidelidade constante à excelsa e bondosa doutrina é visível em cada proposição que pensou e escreveu.




Pinharanda Gomes classifica-o entre os «gnósticos» no seu Dicionário de Filosofia Portuguesa. Há, com efeito, em Álvaro Ribeiro o desgosto do mundo humano e a ideia de que a salvação vem pelo conhecimento. Como, porém, o conhecimento é interpretado em analogia com «O Homem conheceu a Mulher» do Génesis, o seu pensamento opõe-se a todas as correntes gnósticas que põem como condição do aperfeiçoamento humano a abstenção de relações sexuais ou a tolerância delas como um mal necessário, segundo o ensino de São Paulo. Deste ponto de vista, Álvaro Ribeiro não é um «gnóstico», é um adversário da Gnose.

Aquilo a que podemos chamar a baixa gnose e que perpetua degeneradamente o ensino de São Paulo, na impossibilidade de reprimir o puro, natural, santo impulso do amor entre o homem e a mulher, procedeu à sua conspurcação pelo cinema, pela imprensa, pela rádio, pela televisão, pela pornografia, fingindo defendê-lo ao tornar patente e público o que só é verdadeiramente pelo segredo e pela relação individual. A colectivização do acto sexual constitui a última e aparentemente decisiva, julgam eles, consagração da magia negra pelo socialismo. Compreende-se assim que o nome de Álvaro Ribeiro seja silenciado e odiado à esquerda e à direita.

O amor entre o homem e a mulher é, em primeiro plano, uma relação sem mácula de duas naturezas. Pela palavra, a relação natural torna-se transparente do sobrenatural. A sua socialização movimenta as palavras e as imagens obscenas que atraem o que no sobrenatural constitui o mais baixo e reles demonismo. A palavra é pelo pensamento como o acto é pela palavra. Só o pensamento, criando as palavras da imaginação amorosa faz nascer o acto que eleva e redime. O pensamento é, porém, como o filósofo diz, uma actividade invisível do espírito cujo meio próprio é o segredo e o mistério.

Assim se evidencia a íntima relação da filosofia com o amor. Pelo pensamento poderemos viver o mistério que é o universo, o imenso universo de que o amor entre o homem e a mulher assistido por Deus é a renovação miniaturial, mas infinita. O perfeito amor é o que corresponde a uma perfeita filosofia e essa é a de Deus que devemos procurar imitar.

O pensamento de Álvaro Ribeiro evolui pelo sistema das categorias fixadas por Aristóteles. Quando eu era moço, o filósofo entusiasmou-se a procurar a correspondência entre as categorias aristotélicas e o sistema hebraico das dez sefiras. Infelizmente, só alguns anos depois de nos ter deixado, encontrei a demonstração publicada em Filosofia e Kabbalah de que os dois sistemas se reflectem um no outro. Essa demonstração que passou despercebida em Portugal, movimentou certos meios iniciáticos franceses de vasta influência que nela viram a prova provada de que se deve rever a imagem que da Grécia e da sua filosofia foi formada e propagada pela filosofia alemã. Álvaro Ribeiro conhecia essa correspondência que explica o seu aristotelismo hebraico.

Cabe, então, interpretar pela árvore das categorias aquilo que, no ensino clássico de Aristóteles, se diz ser «a imanência da ideias», em oposição ao platonismo que as teria concebido separadas. O movimento é contrário ao do êxtase.








A contemplação não tem por fim libertar a alma da prisão natural, mas de fazer descer as influências dos mundos superiores aos mundos inferiores, tornando-as activas pela razão. Tal o sentido da crítica que o filósofo escreveu contra o misticismo e o cepticismo da Teoria do Ser e da Verdade do seu companheiro de viagem José Marinho.

Nos termos da Cabala, a contemplação tem por fim chamar Tipheret, orando, a Malkuth, através de Yesod. O processo é descrito no livro de A Santidade das Relações entre o Homem e a Mulher de Gikatila para que se cumpra em cada lar o mistério da encarnação de inteligências superiores. Álvaro Ribeiro não pôde ter conhecido este livro, traduzido do hebraico para o francês alguns anos depois da sua morte. É pela activação da inteligência que a união das sefiras inferiores, no plano fecundante de Yesod, prolonga a união das sefiras superiores. Daqui a suprema «dignidade do cérebro» insistentemente celebrada no segundo volume das Memórias de Um Letrado. Demora-se neste volume o filósofo a estudar as relações de Keter com Binah, cifrando a sua reflexão nos termos pelos quais Henrique Bergson descreve as relações do cérebro, «orgão de escolha e de acção» com a memória infinita.

Há, pois, uma educação sexual, mas não aquela que se propõe banalizar e desdivinizar o amor, «pondo a ferros a imaginação», como dizia José Marinho. Só pelo aprendizato da filosofia portuguesa o rapaz português e a rapariga portuguesa poderão aspirar à perfeição mental, cada um no seu género, criando as condições e as qualidades indispensáveis à celebração do «mistério supremo» (ver São Paulo, Epístola aos Coríntios).

Não é pela exposição e descrição das entranhas carnais, que só podem suscitar repulsa, que se faz educação sexual. É pelo aperfeiçoamento e desenvolvimento da alma masculina e da alma feminina. A alma é que é a amante.

Tal educação faz-se sem que a alma dê por isso. Ela não pode ainda saber que o estudo da gramática, da retórica e da dialéctica, da dança, da matemática, da astronomia têm por fim o matrimónio e a acção do homem e da mulher no plano terrestre de Asiah. Descobri-lo-ão, maravilhados, mais tarde.

É um pouco o que acontece neste escrito em que o leitor pode, talvez, sentir perturbada a corrente da leitura pelos termos hebraicos que designam e significam as sefiras. Sem que a sua alma dê por isso, sentir-se-á, porventura, chamada, nem que seja pela presença de uma vaga irritação, a imaginar o que ainda não sabe o que é.

Álvaro Ribeiro escreveu um volumoso livro sobre «A Literatura de José Régio». Dizia ele que cada filósofo tem o seu poeta com quem dialoga. José Régio terá sido o poeta do filósofo Álvaro Ribeiro.

A verdade, porém, é que, se quisermos encontrar um poeta cuja teoria do amor seja a que o filósofo pensou e ensinou, teremos de reconhecer que, bem mais exactamente do que José Régio, foi Camões quem versejou a sublime doutrina.

Neste sentido, tem inteira razão Fiama Hasse Pais Brandão quando defende serem Os Lusíadas a obra de um cabalista.

O leitor evocará logo a Ilha do Amor.

Menos se recordará das estrofes sobre Afonso de Albuquerque. As virtudes que exalta no herói estão, segundo ele, maculadas por um grande crime, o de ter castigado cruelmente um dos nobres que o seguiam por este se ter deixado enlear por uma beleza negra em cujo Paraíso de volúpia se deixou envolver. «O mal é só o que os homens fazem aos outros por pensamentos, palavras e actos» (in O Mistério de Portugal na História e n'Os Lusíadas, Ésquilo, 2004, pp. 259-263).


(1) A Medicina em Álvaro Ribeiro, Edições Tomé Natanael.







quinta-feira, 29 de agosto de 2013

José Marinho

Escrito por António Telmo








«REVISTA PRINCÍPIO: "Agostinho da Silva disse, numa das suas frequentes entrevistas, que os mesmos que, hoje, exaltam Fernando Pessoa são os que o silenciariam se ele fosse vivo"

TOMÉ NATANAEL: Reparem como o patriotismo de Fernando Pessoa é considerado um aspecto menor do que escreveu. Até D. Afonso V (Pessoa pensava que até D. João II) Portugal foi regido pelos Rosa-Cruzes; tal é, pelo menos, o ensino da Mensagem. A monarquia, com D. João III, passou para as mãos dos seus inimigos. Há o análogo disto na Europa, com a diferença que, nesta, a mutação dá-se mais cedo, quando aqui reinava D. Dinis. É então que se começa a trabalhar para a implantação do socialismo pela propaganda da noção de igualdade. Levou séculos, mas foi fácil. Bastou fazer passar a inveja por generosidade. O socialismo é, pois, obra dos Rosa-Cruzes. Tornou-se necessário para combater aqueles que se tinham apoderado da monarquia.

Hoje, porém, qualquer tentativa de derrubar os governos socialistas é aproveitada por estes últimos, que aparecem como os verdadeiros representantes da Pátria. Compreende-se assim que o monarquismo de Fernando Pessoa e o republicanismo de Sampaio Bruno sejam a mesma coisa. Não sei se me fiz compreender...».

«Conversando com Tomé Natanael» (entrevista inserta em António Telmo, Viagem a Granada).


«Os Budistas, para trabalharem para a convergência dos homens para o Segundo Advento, apresentaram sempre Jesus aos seus sequazes como um Adepto, pois, se o apresentassem como Deus, ou como Deus e Adepto ao mesmo tempo, nem seriam compreendidos nem aceites pelas populações budistas. Precisavam manter nelas o respeito preparador de Jesus; fizeram-no pondo-o como respeitável no nível que seria compreendido. Só a Teosofia é que, finalmente, declarou o Segundo Advento, e, ainda assim, como deveras lhe compete, não insiste muito na outra face da Figura, na face transcendente e divina.

Os Rosa-Cruz, por outra parte, tendo de ministrar, embora veladamente, o mesmo ensinamento a outras populações, apresentaram-no de diverso modo. Não se referiram, senão de modo tão velado que só o compreendesse quem pudesse compreendê-lo, a Jesus, ao Adepto; apenas aludiram ao Cristo, ao Filho de Deus. Assim nada, no que diziam, feria a fé católica ou cristã dos seus leitores.

Do mesmo modo não aludiram os Rosa-Cruz, em seus escritos, claramente à doutrina da reincarnação, elemento físico do ocultismo todo. Tal doutrina, embora contida em verdade no verdadeiro cristianismo, não está nele dada esotericamente. Ensiná-la seria ferir as populações cristãs, erguer o ódio das Igrejas cristãs, prejudicar a preparação que os seus livros serviam de efeituar». 

Fernando Pessoa (in António Quadros, Fernando Pessoa – Iniciação Global à Obra).






Zoroastro



«Entre os Egípcios, como entre os Persas da religião mazdeana de Zoroastro, como depois de Jesus, em Israel, como para os cristãos dos dois primeiros séculos, a ressurreição foi interpretada de duas maneiras: uma material, absurda; a outra espiritual, teosófica. A primeira é uma ideia popular, adoptada pela Igreja, depois da repressão do gnosticismo. A segunda é a ideia profunda, a ideia dos iniciados. No primeiro caso, o corpo material volta à vida, o que é, numa palavra, a reconstituição do cadáver decomposto ou disperso. Isso era o que se supunha que iria acontecer com a volta do messias no dia do juízo final. É inútil acentuar o materialismo grosseiro e absurdo de tal concepção.

Para o iniciado, a ressurreição tinha um significado diferente: ela relacionava-se com a doutrina da constituição ternária do homem, significando a purificação e a regeneração do corpo sideral, etéreo e fluídico, que é o próprio organismo da alma e de algum modo a cápsula do espírito. Essa purificação pode ocorrer desde esta vida, pelo trabalho interior da alma e um certo modo de existência. Para a maioria dos homens, ela só se efectua depois da morte. Isso para aqueles que de um modo ou de outro aspiraram à justiça e à verdade. No outro mundo, a hipocrisia é impossível. Lá, as almas aparecem como elas realmente são. Manifestam-se fatalmente sob a forma e a cor da sua essência. Se são más, aparecem tenebrosas e feias. Se são boas, aparecem irradiantes e belas. Tal é a doutrina exposta por Paulo, na Epístola aos Coríntios. Ele diz formalmente: "Há um corpo animal, há um corpo espiritual" (CORÍNTIOS, XV, 39-46). Jesus diz isso, simbolicamente, porém, com mais profundeza, para quem sabe ler entre as linhas, na entrevista com Nicodemos. Ora, quanto mais espiritualizada a alma, maior será o seu afastamento da esfera terrestre; quanto mais longínqua a região cósmica que a atrai, por sua lei de afinidade, mais difícil a sua manifestação aos homens.

Assim, as almas superiores só se manifestam aos homens no estado de sono profundo ou de êxtase. Então, fechados os olhos físicos, a alma, meio liberta do corpo, algumas vezes vê almas. Acontece entretanto que um grande profeta, um verdadeiro filho de Deus, manifesta-se aos seus de uma maneira sensível, em estado de vigília, a fim de melhor persuadir e impressionar os seus sentidos e imaginação. Nesse caso, a alma desencarnada consegue dar, momentaneamente, ao seu corpo espiritual, uma aparência visível por meio de um dinamismo particular que o espírito exerce sobre a matéria, mediante forças eléctricas da atmosfera e forças magnéticas dos corpos vivos.

Foi o que aconteceu com Jesus, segundo parece. As aparições mencionadas pelo Novo Testamento entram, alternadamente, numa ou noutra dessas categorias: visão espiritual, aparição sensível. É certo que, para os apóstolos, elas tiveram o carácter de uma verdade suprema. Seria mais fácil eles duvidarem da existência do céu e da terra do que da sua comunhão viva com Cristo ressuscitado. Essas visões comoventes do Senhor eram o que havia de mais radioso e mais profundo na consciência deles.






A ressurreição, entendida no sentido esotérico, como acabei de indicar, era ao mesmo tempo a conclusão necessária da vida de Jesus e o prefácio indispensável à evolução histórica do cristianismo. Conclusão necessária pois Jesus tinha anunciado isso muitas vezes aos profetas. Se ele teve o poder de aparecer-lhes depois da morte, com aquele esplendor triunfante, foi graças à pureza e força inata da sua alma, centuplicada pela grandeza do esforço e da obra realizados.

Visto do exterior e do ponto de vista terrestre, o drama messiânico termina na cruz. Embora sublime, falta-lhe o cumprimento da promessa. Visto de dentro, do fundo da consciência de Jesus, do ponto de vista celeste, ele tem três actos. A Tentação, a Transfiguração e a Ressurreição marcam os pontos altos. Em outros termos, essas três fases marcam: a iniciação do Cristão, a revelação total e o coroamento da obra. Correspondem àquilo que os apóstolos e os cristãos iniciados dos primeiros séculos chamaram os mistérios do Filho, do Pai e do Espírito Santo».

Eduardo Schuré («Os Grandes Iniciados»).


«Cristianismo é coisa dificílima e cristão homem raríssimo.

(...) Mas tudo está corrupto no homem porque lembramos a Cristo e queremos ser cristãos. É muito difícil, senão impossível, que as coisas fossem de outra maneira. E entretanto ser cristão retira a tudo o sentido e leva-nos a conhecer o espírito pelas exterioridades e a repetir em vez de criar.

O segredo de Cristo é que foi ele, sem querer ser o análogo do que antes fora».

José Marinho («Ensaios de Aprofundamento e outros textos»).




José Marinho


Lembro-o melhor na Brasileira do Rossio, junto a uma das colunas do velho templo maçónico, que hoje é Banco e então era Café, nos meus anos moços. Movia a cabeça com o garbo de uma águia, atento e flexível aos sopros invisíveis do Espírito, uma espécie de núncio apostólico da luz única. Aquela cabeça era um sol.






Tenho a honra de ter pertencido ao círculo que a sua palavra traçava. Naquele Café de mulheres perdidas, de actores vencidos, de traficantes e de chulos, de bombistas sem préstimo ou de revolucionários sem emprego, a filosofia, que não encontrávamos na Universidade, era uma lâmpada. Formávamos roda sobre a mesa preta, traçávamos o círculo por entre nuvens de fumo. As káfkicas baratas, pré-históricas, tão antigas como o tempo, corriam por todo o lado. À esquerda e à direita, ladeando o rectângulo da grande sala, havia límpidos espelhos paralelos que multiplicavam as imagens até ao infinito.

José Marinho produzia em quem teve a ventura de o conhecer a impressão de se estar, não perante um homem, mas perante o próprio pensamento. A postura do corpo, a maneira de olhar, a subtil e doce ironia do sorriso, o movimento aéreo das mãos,o próprio jeito de compor a gravata acompanhavam o movimento do seu espírito reflexivo. Era muito difícil segui-lo por onde ia. Quando um de nós, entusiasmado com uma ideia, lha dizia com alguma empáfia, não o contradizia, deixava-o para trás para que imaginasse à frente outras e melhores ideias e isto com um simples "Já passei por aí". Ele ensinou-nos a única religião irrefutável: a de uma inteligência cujo acto é impossível se não regressa continuamente à origem, ao segredo do próprio pensar, ao ponto sem dimensão donde tudo emerge. O pensamento nele era a demonstração de Deus. Por isso foi para nós, seus discípulos, um dos últimos rosacruzes.

Escreveu nessa época a Teoria do Ser e da Verdade, onde, pela visão unívoca e pela cisão, une, numa sucessão de logismos e de intuições, segundo o processo mental da corrente alterna, o que de mais revelador significam a cruz e a rosa. Nunca, porém, nos foi dado racionalizar a filosofia de José Marinho, de tão ligada ao seu misterioso ser singular, tão sua e de Deus e por isso inacessível.

Quinze anos volvidos, nos últimos meses que passou connosco, quis a fortuna que todos os dias almoçássemos juntos. Vi-o pela derradeira vez nesta vida numa cama de hospital. Levei os meus dois filhos, ele com cinco, ela com oito. A magreza de Marinho era impressionante. Era já só espírito. Dois dias depois falecia. Os médicos disseram que morreu em êxtase.

Nos últimos anos da sua vida, foi funcionário da Fundação Gulbenkian. Exactamente, FUNCIONÁRIO DE PSICOLOGIA, uma monstruosidade concordante com um mundo em que se desalojam Cafés para se edificarem Bancos e se evanesceu de todo a ideia arqueológica de iniciação filosofal.

Funcionário de psicologia! E de psicologia científica!... Com que suspicaz e penetrante ironia, mas também infinita cautela e até alguma caridade para seus confrades doutos, se referia ele à vil ocupação inglória do tempo da vida, em que fingia ou fazia por seguir uma ciência definitivamente refutada em todos os livros de gente e, portanto, também nos seus. Este conflito entre a secreta, séria e honrada obediência à luz da verdade e amor aos seus próximos que, enquanto homens e mulheres, participavam e comungavam, por este ou aquele modo, dessa mesma verdade, explica em grande parte o seu estilo de viver, em que compreensão e interrogação apareciam como um só movimento.

Fundação Gulbenkian


Entende-se assim por que José Marinho não tenha concitado o ódio dos outros homens. Um por um, evidentemente, na terrível miséria cheia de dignidade do seu seu individual. Mas o ser genérico dos homens reunido pela força dos egrégores, a que os poetas chamam molusco e a teologia diabo, na impossibilidade de o absorver e integrar, haveria de catapultá-lo para lá das portas da morte.

Que Deus tenha em paz a sua alma! (in Viagem a Granada, Fundação Lusíada, 2005, pp. 217-218).


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Louvor da Matéria

Escrito por António Telmo 




Mosteiro dos Jerónimos


«A cifra, primeira na ordem do reino, que cala o mistério da História de Portugal, é o "manuelino". Ponhamos, porém, esta afirmação no modo hipotético. Se ela vier a confirmar-se, isto é, se for possível demonstrar que por detrás do "manuelino" está uma organização esotérica, então, qualquer que ela seja, identificar-se-á com o Reino, porquanto os símbolos fundamentais do "manuelino" - a cruz da potência e a esfera armilar - eram simultaneamente os símbolos régios.

(...) Surge aqui, todavia, um dos mais perturbantes enigmas da História de Portugal. Alude Mário de Sampaio Ribeiro, no seu breve estudo Do Sítio do Restelo e das suas Igrejas de Santa Maria de Belém, a uma "reviravolta" que se teria dado no espírito de D. Manuel e que situa, com rigorosa precisão, em 1513, reviravolta que outros historiadores relacionam com uma mudança de atitude para com os judeus, de protector nos primeiros anos do seu reinado e de perseguidor nos restantes, mas que Sampaio Ribeiro, escondendo mais do que diz, refere às relações do rei com a Ordem de Cristo. A entrega a uma Ordem contemplativa como a dos Jerónimos do Templo de Santa Maria que pertencia de direito, conferido pelo Infante, à Ordem guerreira de Cristo, a súbita suspensão dos trabalhos nas Capelas Imperfeitas orientados por Mestre Boitaca, o afastamento deste da obra de edificação dos Jerónimos, tudo acontece na volta muito próxima do ano de 1513. Para Mário de Sampaio Ribeiro, Boitaca "foi talvez o último iniciado das confrarias de pedreiros livres que viveu entre nós". Conta Frei Jacinto de São Miguel que, tendo ele sido repreendido pelo rei por desrespeitar um grande do Reino, teria respondido: "Senhor V. A., em os seus reinos pode fazer quantos grandes quiser, mas não a um mestre Boytac porque isso só Deus o faz".

(...) A entrega do Mosteiro aos frades Jerónimos pode ser interpretada como o modo que o rei encontrou de assegurar a conservação dos conhecimentos iniciáticos, que, a ficarem na posse dos Cavaleiros de Cristo, dada a corrupção da Ordem (se é verdade o que afirma Mário de Sampaio Ribeiro), poderiam vir a perder-se definitivamente. Em resultado das investigações de Américo Castro, sabe-se hoje que os frades Jerónimos receberam dos fraticelli a ideia de Joachim de Flora que anunciava depois das idades do Pai e do Filho, a vinda do Paracleto. Convém consultar neste sentido, além do próprio Américo Castro (Aspectos del Vivir Hispanico), Almir Bruneti (A Lenda do Graal no Contexto Heterodoxo do Pensamento Português, Sociedade de Expansão Cultural, Lisboa, 1975) e os livros de Agostinho da Silva publicados pela Guimarães Editores, Reflexão e Aproximações, assim como uma entrevista que sobre o assunto deu ao suplemento literário A Ilha do Jornal da Madeira».

António Telmo («História Secreta de Portugal»).


«O projecto áureo português de um Império do Espírito Santo não é (...) documentável em termos de historiografia positivista, baseando-se unicamente em dados paleográficos. Tão pouco é apreensível na perspectiva epidérmica, reducionista ou deformante de uma teoria da história de cariz comtista ou materialista. Eis porque só o aproximaram ou intuíram, de mais perto ou de mais de longe, aqueles raros historiadores, pensadores e poetas que, partindo de uma filosofia do espírito, foram capazes de superar tais limitações teóricas ou ideológicas.


O espírito religioso e cavaleiresco de dedicação a uma causa sobre-humana, tal como se simboliza no ciclo romanesco da Demanda do Graal; a crença numa teoria providencialista da história, como a que subjaz à lenda de Ourique ou ao mito do Quinto Império; a convicção de que não há obstáculos terrenos que valham contra o serviço de Deus; a crença no valor sem limites da individualidade heróica, fundamento de uma concepção verdadeiramente aristocrática da vida; a pertença do Monarca, como do Cavaleiro ou do Clérigo, não tanto ao relativo da existência terrena (que tem obviamente valor e realidade), como ao que nela é presença do absoluto, investindo de transcendência a sua missão e o seu lugar neste mundo - são fenómenos estranhos à vivência moderna, dificultando pois a leitura do texto truncado, mas verídico, onde ficou expresso, para que o conhecêssemos, aquele projecto áureo. Mas são fenómenos que a clara razão obscurecedora do "século das luzes", o discurso da idade "positiva", a redução da grande complexidade psicológica e antropológica do ser humano à sua minimização pela ideia simplista da luta de classes ou pela obsessão de ver exclusivamente o interesse económico em todos os actos, enfim, o abstraccionismo do social, julgando poder eliminar a "diferença" qualitativa e decisiva do individual, não logram tocar, fazer desaparecer ou destruir».

António Quadros («Portugal, Razão e Mistério», II).


«Em absoluta acepção, depois de precavermos o risco de cair em uma interpretação mitológica da teologia - poderíamos inferir que o Mistério da Trindade de certa forma funciona e opera como símbolo da relação do espírito e da matéria, da acção e da paixão, da direita e da esquerda. O espírito é o elemento eidético, a matéria é o elemento dinâmico (leia-se: potencial), sendo a natureza o elemento noético. Um crente pode relacionar a glória do Pai, do Filho e do Espírito Santo, sem dúvida; e um descrente pode relacionar as noções de pai, mãe e filho. E veremos como o filho só é filho porque há pai e há mãe. Natureza não há por si, sem ter sido determinada na prévia cópula do sopro, do fogo e da água, do espírito e da matéria, como virtualidades específicas do ser, ou como atributos ônticos».

Pinharanda Gomes («Pensamento e Movimento»).





Louvor da Matéria


Igreja no Mosteiro dos Jerónimos



1. O «manuelino» é a arquitectura da Árvore, porque a matéria do mundo é a madeira.

2. A madeira é o que cresce indefinidamente, é o princípio da multiplicação sem divisão.

3. As árvores crescem em direcção ao Sol, mas quanto mais se aproximam da luz mais fundo mergulham as raízes na terra.

4. Alimenta-se de luz a árvore do mundo, como as pobres e belas árvores dos nossos campos.

5. A matéria é a árvore sephirótica.

6. Há corpos sem matéria de tão densos que são.

7. Todos os pontos da totalidade infinita estão unidos entre si por uma árvore invisível.

8. Esta árvore não cresce de baixo para cima, mas do alto para o abismo. Compete ao homem justo inverter em si a corrente que vem das alturas, concitando as vozes mais fundas do abismo a um cântico de louvor.

9. Eu sou o fruto da árvore; serei a semente que apodrecerá nas águas inferiores ou que germinará nas águas superiores, criando um novo futuro.

10. Os últimos produtos da árvore são as folhas secas, que dela se soltam, que se amontoam no chão do Outono, até que venha o vento frio do Inverno e as espalhe sobre a terra para formar o húmus onde as sementes germinarão.

11. As belas cores do Outono são o resultado da decomposição dos corpos (Gustavo Meyrink).

12. O mal são as cascas, o exterior, o rígido que está morto no vivo, mas que pode ser queimado, purificado no fogo do fim do mundo.

13. Em grego, matéria diz-se úlê, palavra que corresponde a silva no latim. Em português, matéria é madeira, que se arranca das florestas.


14. Se quando falamos em matéria pensássemos em madeira, não diríamos tantos disparates sobre o que ela é, sobre o que são as suas relações com o espírito. Aristóteles e Platão e os outros gregos pensaram a matéria através de uma palavra que tinha como sentido imediato madeira ou floresta. Foi uma grande vantagem.

15. Há ainda outra conotação, matéria e mater, matéria e mãe.

16. As raízes e as matrizes.

17. Uma árvore pode ter muitas raízes, mas o número exacto é três. Pode ter muitos ramos, mas o número exacto é sete.

18. Um ensinamento maçónico: ««O Grande Arquitecto do Universo edificou o Templo do Mundo sobre a Madeira».

19. Por isso a arte da carpintaria, que parece auxiliar a maçonaria, é-lhe anterior.

20. A planta do Templo é a árvore dos números e das letras. Por isso, uma árvore pode ter muitas raízes, mas o número exacto é três: keter, hochmah, binah, a coroa, a sabedoria e a inteligência. Daqui tudo deriva e tudo cresce, conhecendo o Abismo. Por isso uma árvore pode ter muitos ramos mas o seu número exacto é sete.

21. A suprema arte do carpinteiro trabalha com a matéria do mundo e os aprendizes têm de transformar-se em pássaros para não sentirem a vertigem sobre os altos andaimes.

22. Em tiferet, no centro dos centros, já não há o perigo de cair, porque o baixo é o alto e o alto é o baixo. O Sol não cai, imóvel no centro do seu sistema. Pois para que lado se há-de cair, se já não há lado?

23. O ser em si dos filósofos, o ser que em si tem o seu princípio, é como um pássaro que voa de ramo em ramo, sustentado, não pelas asas, mas pelo que move as asas.

24. O ser em si, livre por não ter o seu princípio noutro ser, é, mais do que o pássaro, o voo.

25. O pássaro foi pensado na ideia (em Aziluth) como voo puro, foi criado como arcanjo em Beriah, formado na energia de uma imagem em Yetzirah, feito como pássaro em Aziah. Mas de Keter a Malcuth, pela linha vertical, a ideia é um relâmpago, onde o pássaro é o voo e o voo o pássaro.

26. O pássaro dos Jerónimos, da coluna do oriente, é um galo, a visão imediata do Sol, a essência ígnea do homem redimida de seiva em flor vermelha.






27. Nos reis, em D. Manuel por exemplo, o galo é substituído pela águia, essa senhora dos vastos domínios do Sol, ser absoluto sem vertigens.

28. A vertigem é a sensação do vórtice que anima o mundo, sem se estar no centro desse vórtice. A sensação periférica.

29. E até lá? O pavor da queda e a sedução dela.

30. Meu Deus, que farei de mim quando me encontrar sem este corpo em que me estabeleci e firmo e que guarda a minha alma? (in Filosofia e Kabbalah, Guimarães Editores, 1989, pp. 23-25).