sexta-feira, 14 de março de 2014

A Ilha do Amor no pensamento de Álvaro Ribeiro

Escrito por António Telmo






René Guénon


«(...) Apesar das afinidades que existem entre as tradições iniciáticas dos vários povos que as têm, o que permitiu a um estudioso como René Guénon afirmar que a mesma metafísica se exprime nelas por formas distintas, não me parecem acidentais algumas características dominantes na tradição hebraico-portuguesa que fazem dela um caso único que, por si só, altera a fisionomia de um pensamento que se pretende igual em todas as partes. Tratando de João de Deus, o modo de pensar o amor aparece-nos, logo, como decisivo do abismo que nos separa das várias correntes gnósticas dos três continentes interpolares.

O amor, não qualquer forma abstracta do amor, mas aquele que une o homem e a mulher, constitui, na gnose em geral, uma barreira impeditiva da ascese do ser pelos graus da realização espiritual. Daqui a prescrição de um de dois procedimentos, daquele que resiste ao impulso do instinto sexual, abrindo o caminho da castidade entendida como abstinência, e daquele que prepara igual caminho produzindo a saturação e o nojo pela entrega excessiva e desmesurada a todas as modalidades de erotismo. Como vedes, os dois procedimentos, conquanto antagónicos, visam o mesmo fim que é o da neutralização do amor. Podeis ver isto documentalmente exposto no livro magistral de Hans Jones sobre A Gnose.


Desde D. Dinis e demais trovadores galaico-portugueses com as Cantigas de Amigo, passando, no cume, por Luís de Camões com os poemas líricos e sobretudo com a Ilha dos Amores, até João de Deus, Eugénio de Castro e Florbela Espanca, a nossa poesia, com raras excepções, faz a exaltação da companhia física, celebrando em verso o "puro amor" cuja presença invisível se manifesta pela santidade das relações sexuais entre homem e mulher».


António Telmo («Influência da Cabala na Cultura Portuguesa»).


«(...) A espiritualidade franciscana ortodoxa não consegue evitar o surgimento de uma gnose franciscana, já laicista, como a dos Espirituais (esta tendência permaneceu no país e revive no pensamento contemporâneo de Pascoaes, de Junqueiro, de Jaime Cortesão), já escatológica, como a de Joaquim de Fiora e, na modernidade, em Raul Leal e Agostinho da Silva e, bem assim, no cristianismo paraclético e pentecostalista. A gnose renascentista (é então que a gnose ocidental verdadeiramente se assume como tal, a partir dos místicos como Paracelso) parece não achar fundo eco na condição portuguesa, em virtude do ambiente da reforma católica e da primazia do realismo da Segunda Escolástica, mas há motivações nos iluminados, nos grupos de piedade, nos rigores místicos de algumas comunidades monásticas e no ideário de pensadores, de que são exemplo o irenismo teológico de Damião de Góis e o reformismo dos seguidores das doutrinas de Erasmo. Porém, gnose como tal só ocorre no magistério reintegracionista teosófico de Martins Pascoal, criador de uma nova Maçonaria no ambiente do maçonismo francês, numa época em que a gnose maçónica se radicou no nosso país onde, segundo alguns (António Quadros, António Telmo...) a gnose templária veiculada pacificamente pela Ordem de Cristo, é superior à Maçonaria implantada no século XVIII em meios políticos e não religiosos. As tendências e as doutrinas gnósticas foram condenadas (1864) pela encíclica Quanta Cura e pelo anexo Syllabus, de Pio IX, que refere as componentes gnósticas: panteísmo, naturalismo, racionalismo, libertismo e ocultismo. As teses gnósticas prevalecem nos poetas panteístas e simbolistas como Pascoaes, que buscam "a face espiritual que o mundo tem" (Pascoaes, Regresso ao Paraíso), havendo assunções gnósticas no surrealismo (António Maria Lisboa e Mário Cesariny de Vasconcelos), se bem que a gnose sistematizada só se ache, ou no martinismo de Bruno, ou no teosofismo do visconde Figanière. Em todo o caso, Álvaro Ribeiro imprimiu à "filosofia portuguesa" um ideal gnóstico, ainda quando, por solução críptica, substituiu o termo gnose por "arte de filosofar"».

Pinharanda Gomes («Dicionário de Filosofia Portuguesa»).


«Num fim de tarde de Setembro de 1509, Afonso de Albuquerque observava a sala alta da torre de menagem de Cananor, onde se encontrava cativo. Algumas horas antes, Martim Coelho, por ordem do vice-rei, entregara-o ao comandante da fortaleza, que o prendeu na companhia de um pagem e de um criado, apenas. Aproximando-se da estreita janela que dominava o pátio da cidadela, ele distinguia, para além dos barracões da feitoria, a folhagem dos coqueiros desenhada no mar e coroando o telhado do hospital e da cruz da capela. Naqueles últimos dias de Setembro, o oceano branqueava ainda às últimas rajadas da monção. O barulho das ondas a rebentarem contra a falésia misturava-se ao grito das gralhas e à chilreada das crianças que regressavam à aldeia cristã.


Afonso de Albuquerque


Inclinando-se para a direita, Albuquerque conseguia avistar, através do fumo das fogueiras, um grupo de palhotas encostadas à muralha. Ali mesmo viviam algumas famílias, fruto dos amores entre portugueses e indianas de baixa casta. Todas as noites, elas caminhavam ao longo da base da muralha, para irem, em teoria, polir as jarras de cobre com a areia da beira-mar. Fora bem necessário transigir quanto às proibições e renunciar a impor aos homens uma castidade que, afinal, todos os dias era infringida. O medo do pecado mortal foi rapidamente vencido pelo charme das jovens malabares que vinham rondar à volta da fortaleza, na esperança de uma ligação com os soldados da guarnição militar. Habituadas a juntarem-se com os estrangeiros para tirar o proveito que pudessem, iam de seios nus, como todas as mulheres de condição inferior. O vice-rei não pudera fazer mais do que mandar baptizar à pressa as mais belas e dar-lhes autorização para viverem com os seus homens. Aquelas uniões nem sempre eram consagradas pelo casamento, mas davam origem a crianças cristãs, que usavam nome português, embora sem patronímico.

(...) Albuquerque não se cansava de repetir ao rei a firme decisão em acabar com os Mouros. Aquele ostracismo era partilhado por todos os companheiros, incluindo os comerciantes italianos. Piero Strozzi dizia a seu Pai que "andamos sempre com o credo na boca, tanto no mar como em terra. [...] De outro modo seria impossível resistir a tamanha multidão. A terra mais pequena daqui conta de trezentas a quatrocentas mil pessoas, que parecem formigas".

Só algumas mulheres receberam misericórdia: "Aqy se tomárão allguas mouras, mulheres alvas e de bom parecer, e alguns homens limpos e de bem quiseram casar com ellas e fiquar aquy nesta terraa... e eu os casei com elas e lhe dei o casamento ordenado de vosa alteza, e a cada hum seu cavalo e casas e terras e gado... averá hy quatrocentas e cymqoemta almas; estaas cativas e estas molheres que casão, tornam as suas casas e desenterram suas joyaas e suas arrecadas d'ouro e aljofar e Robis e colares e manylhas... e tudo lhe deixo a elas".


Albuquerque tratava as jovens esposas com todo o respeito, acompanhando-as ao seu lugar na igreja, tratando-as por filhas e indo visitá-las todos os dias, em êxtase, perante a gracilidade que tinham e dignidade na conduta. É inútil dizer que tais casados - casados assim ficariam para sempre designados os portugueses casados com mulheres indianas - foram os herdeiros dos bens imóveis dos Mouros. As tanadarias eram atribuídas aos mais honrados e instruídos; os outros beneficiavam de privilégios para exercer o trabalho que escolhessem. Albuquerque promovia um verdadeiro estado de graça; até aos degredados permitia que apagassem o passado e recomeçassem vida nova. E, ao mesmo tempo, convidava os Hindus a repovoarem a cidade, devolvendo-lhes casas e bens, cargos administrativos e militares, sem impor sequer conversão ao cristianismo. E, deste modo, lançava os fundamentos de uma sociedade nova, da qual eram excluídos os Muçulmanos. Entendia os casamentos mistos como resultado da vontade divina: "Me parece que noso senhor ordena isto e imcrina os coraçõees dos homeens por algua cousa de muyto seu serviço escomdida a nos..."».


Geneviève Bouchon («Afonso de Albuquerque. O Leão dos Mares da Ásia»).




A ILHA DO AMOR NO PENSAMENTO DE ÁLVARO RIBEIRO


«O mal é só o que os homens fazem aos outros por pensamentos, palavras e actos».


António Telmo

É só. Logo, para Álvaro Ribeiro, na natureza, criação divina, não há mal. É, no entanto, difícil, ou pelo menos apressado, concluir que o mal, na concepção de Álvaro, não tem origem, como ensina a Cabala, no mistério insondável de Deus. «O diabo, escreveu ele também, não é o inimigo de Deus, mas sim da natureza». E duas vezes alude a um misterioso agente intermediário que tem por fim monstruoso separar o homem da mulher.

Como quer que seja, a inveja dos homens que fazem mal por pensamentos, palavras e actos nasce do sofrimento que neles causa a felicidade dos outros no amor ou na filosofia. As melhores amizades têm sido envenenadas pelo intermediário que instiga a inveja.

Na natureza não há mal. As naturezas adoecem por acção do homem. No mundo criado a imaginação move o amor. A imaginação do homem pode, em certas condições, contrariar a imaginação divina pela magia que, neste caso, é propriamente aquela que se designa por negra. A medicina integral, isto é a filosofia, conforme se diz num admirável escrito de João Rêgo (1), é a que imita a imaginação divina lutando contra a doença. Enquanto integral actua contra a magia negra ali onde, como no ensino e na política, ela procede contra o amor e contra a filosofia.

Álvaro Ribeiro parece ter-se recusado a escrever sobre o problema do mal nas suas relações com o mistério insondável. Como se viu, não deixou de explicá-lo pelo seu segredo, que é a magia negra.

Tendo sido, como foi em vida, um filósofo que pôs o centro do seu pensamento na exaltação do amor entre o homem e a mulher, concitou a hostilidade dos sinistros instrumentos do mal que o agrediram com pensamentos, palavras e actos. Usou, por isso, de prudência no dizer. A palavra Cabala só quatro vezes aparece nas quatro mil páginas que escreveu para o público. Vestiu por vezes a pele do lobo para não ser devorado pelos lobos, mas a fidelidade constante à excelsa e bondosa doutrina é visível em cada proposição que pensou e escreveu.


Pinharanda Gomes classifica-o entre os «gnósticos» no seu Dicionário de Filosofia Portuguesa. Há, com efeito, em Álvaro Ribeiro o desgosto do mundo humano e a ideia de que a salvação vem pelo conhecimento. Como, porém, o conhecimento é interpretado em analogia com «O Homem conheceu a Mulher» do Génesis, o seu pensamento opõe-se a todas as correntes gnósticas que põem como condição do aperfeiçoamento humano a abstenção de relações sexuais ou a tolerância delas como um mal necessário, segundo o ensino de São Paulo. Deste ponto de vista, Álvaro Ribeiro não é um «gnóstico», é um adversário da Gnose.

Aquilo a que podemos chamar a baixa gnose e que perpetua degeneradamente o ensino de São Paulo, na impossibilidade de reprimir o puro, natural, santo impulso do amor entre o homem e a mulher, procedeu à sua conspurcação pelo cinema, pela imprensa, pela rádio, pela televisão, pela pornografia, fingindo defendê-lo ao tornar patente e público o que só é verdadeiramente pelo segredo e pela relação individual. A colectivização do acto sexual constitui a última e aparentemente decisiva, julgam eles, consagração da magia negra pelo socialismo. Compreende-se assim que o nome de Álvaro Ribeiro seja silenciado e odiado à esquerda e à direita.

O amor entre o homem e a mulher é, em primeiro plano, uma relação sem mácula de duas naturezas. Pela palavra, a relação natural torna-se transparente do sobrenatural. A sua socialização movimenta as palavras e as imagens obscenas que atraem o que no sobrenatural constitui o mais baixo e reles demonismo. A palavra é pelo pensamento como o acto é pela palavra. Só o pensamento, criando as palavras da imaginação amorosa faz nascer o acto que eleva e redime. O pensamento é, porém, como o filósofo diz, uma actividade invisível do espírito cujo meio próprio é o segredo e o mistério.

Assim se evidencia a íntima relação da filosofia com o amor. Pelo pensamento poderemos viver o mistério que é o universo, o imenso universo de que o amor entre o homem e a mulher assistido por Deus é a renovação miniaturial, mas infinita. O perfeito amor é o que corresponde a uma perfeita filosofia e essa é a de Deus que devemos procurar imitar.

O pensamento de Álvaro Ribeiro evolui pelo sistema das categorias fixadas por Aristóteles. Quando eu era moço, o filósofo entusiasmou-se a procurar a correspondência entre as categorias aristotélicas e o sistema hebraico das dez sefiras. Infelizmente, só alguns anos depois de nos ter deixado, encontrei a demonstração publicada em Filosofia e Kabbalah de que os dois sistemas se reflectem um no outro. Essa demonstração que passou despercebida em Portugal, movimentou certos meios iniciáticos franceses de vasta influência que nela viram a prova provada de que se deve rever a imagem que da Grécia e da sua filosofia foi formada e propagada pela filosofia alemã. Álvaro Ribeiro conhecia essa correspondência que explica o seu aristotelismo hebraico.

Cabe, então, interpretar pela árvore das categorias aquilo que, no ensino clássico de Aristóteles, se diz ser «a imanência da ideias», em oposição ao platonismo que as teria concebido separadas. O movimento é contrário ao do êxtase.






A contemplação não tem por fim libertar a alma da prisão natural, mas de fazer descer as influências dos mundos superiores aos mundos inferiores, tornando-as activas pela razão. Tal o sentido da crítica que o filósofo escreveu contra o misticismo e o cepticismo da Teoria do Ser e da Verdade do seu companheiro de viagem José Marinho.

Nos termos da Cabala, a contemplação tem por fim chamar Tipheret, orando, a Malkuth, através de Yesod. O processo é descrito no livro de A Santidade das Relações entre o Homem e a Mulher de Gikatila para que se cumpra em cada lar o mistério da encarnação de inteligências superiores. Álvaro Ribeiro não pôde ter conhecido este livro, traduzido do hebraico para o francês alguns anos depois da sua morte. É pela activação da inteligência que a união das sefiras inferiores, no plano fecundante de Yesod, prolonga a união das sefiras superiores. Daqui a suprema «dignidade do cérebro» insistentemente celebrada no segundo volume das Memórias de Um Letrado. Demora-se neste volume o filósofo a estudar as relações de Keter com Binah, cifrando a sua reflexão nos termos pelos quais Henrique Bergson descreve as relações do cérebro, «orgão de escolha e de acção» com a memória infinita.

Há, pois, uma educação sexual, mas não aquela que se propõe banalizar e desdivinizar o amor, «pondo a ferros a imaginação», como dizia José Marinho. Só pelo aprendizato da filosofia portuguesa o rapaz português e a rapariga portuguesa poderão aspirar à perfeição mental, cada um no seu género, criando as condições e as qualidades indispensáveis à celebração do «mistério supremo» (ver São Paulo, Epístola aos Coríntios).

Não é pela exposição e descrição das entranhas carnais, que só podem suscitar repulsa, que se faz educação sexual. É pelo aperfeiçoamento e desenvolvimento da alma masculina e da alma feminina. A alma é que é a amante.

Tal educação faz-se sem que a alma dê por isso. Ela não pode ainda saber que o estudo da gramática, da retórica e da dialéctica, da dança, da matemática, da astronomia têm por fim o matrimónio e a acção do homem e da mulher no plano terrestre de Asiah. Descobri-lo-ão, maravilhados, mais tarde.

É um pouco o que acontece neste escrito em que o leitor pode, talvez, sentir perturbada a corrente da leitura pelos termos hebraicos que designam e significam as sefiras. Sem que a sua alma dê por isso, sentir-se-á, porventura, chamada, nem que seja pela presença de uma vaga irritação, a imaginar o que ainda não sabe o que é.

Álvaro Ribeiro escreveu um volumoso livro sobre «A Literatura de José Régio». Dizia ele que cada filósofo tem o seu poeta com quem dialoga. José Régio terá sido o poeta do filósofo Álvaro Ribeiro.

A verdade, porém, é que, se quisermos encontrar um poeta cuja teoria do amor seja a que o filósofo pensou e ensinou, teremos de reconhecer que, bem mais exactamente do que José Régio, foi Camões quem versejou a sublime doutrina.

Neste sentido, tem inteira razão Fiama Hasse Pais Brandão quando defende serem Os Lusíadas a obra de um cabalista.

O leitor evocará logo a Ilha do Amor.

Menos se recordará das estrofes sobre Afonso de Albuquerque. As virtudes que exalta no herói estão, segundo ele, maculadas por um grande crime, o de ter castigado cruelmente um dos nobres que o seguiam por este se ter deixado enlear por uma beleza negra em cujo Paraíso de volúpia se deixou envolver. «O mal é só o que os homens fazem aos outros por pensamentos, palavras e actos» (in O Mistério de Portugal na História e n'Os Lusíadas, Ésquilo, 2004, pp. 259-263).


(1) A Medicina em Álvaro Ribeiro, Edições Tomé Natanael.






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