sábado, 29 de março de 2014

Positivismo e a arquitectura do nosso tempo

Entrevista a Fernando Morgado




Parte frontal do Partenon (Grécia).

«(...) J.L. – Onde começa a arquitectura?

 O.V. – Começa ou na Grécia ou no Céu ou no Céu ou na Grécia.

 J.L. – E o Egipto?

 O.V. – Aí, foi só geometria. Faltava a proporção para ser arquitectura.

 J.L. – Julguei que na Grécia só havia começado a filosofia.

 O.V. – A filosofia é o embrião que contém todas as artes.

 J.L. – Tudo, então, é filosofia?

 O.V. – Nada é sem filosofia...».

Orlando Vitorino («Filosofia e arquitectura ou não há imagem sem legenda»).


«(...) Seguir e perseguir metodicamente as metáforas, - eis um preceito libertador que recebemos das doutrinas mais antigas. Muitos dos que o proclamam, e aconselham, não o cumprem imediatamente. Exemplo notável é o daqueles escritores que, desatentos às leis da vida, não conseguem descobrir a mediação lógica entre a cultura da fraternidade universal e o culto prestado a nosso Pai.

(...) Ao verdadeiro artista não se põe o problema de exprimir sinceramente a sentimentalidade, mas o problema de constituir imagem sensível de uma realidade insensível. A esta imagem se dá o nome de símbolo. O artista incapaz de imaginar, de verter o insensível no sensível, tem de recorrer a símbolos já feitos por outrem, e tal é o caso quando a escola forma tradição.

A razão estética é a faculdade de ler símbolos. Raros homens a exercitam, porém; muitos são os que solicitam legendas para verem as obras de arte, porque sem legendas não saberiam ver. Entre o crítico de arte que descreve uma catedral em termos próprios de um mestre-de-obras, e um crítico literário que descreve um livro em termos de catalogador de biblioteca, há a medida comum da ignorância do que se trata.

A catedral é um conjunto de símbolos, como foi demonstrado por J.-K. Huysmans num livro admirado e admirável, mas para ler os símbolos de uma catedral é indispensável ser iniciado em teologia. Não entenderá os dizeres da rosácea quem não houver entendido o significado de rosa mística, e, portanto, da devoção do rosário. A fé total, que por isso mesmo se diz fé católica, ou ortodoxa, não repele a fé parcial dos heterodoxos, porque espera e atrai a conversão de todos os crentes.

A catedral é o termo da viagem alegórica do peregrino, do palmeirim ou do romeiro, imagem da nossa vida. Errar é próprio do homem, e só de quem se pode dizer que procura a verdade. Está na parábola do Filho Pródigo a melhor lição de prudência para os verdadeiros apologetas.

Catedral de Chartres (Paris).

É indispensável ao artista saber o simbolismo das mais simples figuras geométricas, e não apenas o significado útil para o desenho rigoroso, indispensável para o técnico. Quem não estudar este simbolismo será incapaz de imaginar qual o movimento que paralisou no desenho, qual o fluido que consolidou no volume, e atribuirá ao acaso o trânsito artístico do caos ao cosmos. Esquecidos os segredos tradicionais de decifração dos símbolos, ou cifras, a estética decai em mera doutrina da percepção, e na sua decadência arrasta a filosofia da arte.

As artes plásticas têm por fim representar visivelmente o invisível ou, melhor, o insensível, por divina graça da imaginação. Assim é na pintura, assim é na escultura, mas assim é, também, na arquitectura.

A utilidade de um edifício, se determina um problema técnico de construção, não exclui a finalidade monumental, que o artista imagina e desenha, consciente ou inconscientemente motivado por um ideal superior de cultura.

Todas as linhas das obras de arquitectura significam distâncias, ou, o que é o mesmo, constituem aquela escritura simbólica que só o apreciador, o crítico e o historiador da arte sabem decifrar. Quem disser que as linhas e as figuras não são intencionais, nada dizem, não falam, porque foram traçadas por capricho, acaso ou rotina, confundirá a mão do artífice inconsciente com a cabeça do artista inventor. É certo que muitos monumentos arquitectónicos são anacrónicos, mas essa certeza apenas prova um desacerto de expressão plástica, insinceridade ou atraso no sistema de educação.

Catedral de Colónia (Alemanha).

Imaginar o desenvolvimento, e imaginá-lo como a forma que quebra as figuras, é indispensável para saber ver, e nesse exercício se adquire o talento de quem imagina a figura oval quebrar-se para que a ave nasça, e na disformação prevê a figura da evolução. Imaginar a gravidade pela relação com a terra é um exercício que habilita a prever a conexão do nascer com o morrer. Imaginar o peso segundo o fio de prumo, e não segundo a lança, o peso em equilíbrio, é indispensável para chegar à original noção de que pesar é pensar».

Álvaro Ribeiro («A Razão Animada»).


«(...) Há uma história oculta de Portugal. Não dizemos isto no sentido em que de tudo se pode afirmar ter um aspecto oculto.

Pensamos que houve entre nós, senão connosco, uma organização esotérica que, de uma maneira perfeitamente consciente e intencional, procurou a partir desta Pátria, a que deu existência, redimir o mundo do mal e da divisão.

A existência de organizações secretas no mundo medieval é reconhecida unanimemente pelos historiadores, embora divirjam quanto à importância a atribuir-lhes no plano histórico. Uns consideram a sua influência decisiva, enquanto outros nem sequer se lhes referem quando procuram determinar as causas dos acontecimentos. Trabalhando sobre documentos de natureza especificamente historicista, como crónicas, registos notariais, etc., que representam, quase sempre, uma descrição exterior e já muito afastada do centro dos acontecimentos, não podem, evidentemente, por esse caminho, ter qualquer notícia daquilo que, por ser de natureza secreta, nem sequer era pressentido pelos próprios contemporâneos. Se tivessem um real amor da verdade, teriam de reconhecer noutro tipo de documentos a fonte verídica do conhecimento histórico.




Estamos a pensar, como o leitor já o adivinhou, nos vários documentos cifrados existentes na época que constitua objecto de estudo porque não há outra forma de expressão reveladora daquilo cuja natureza é, por definição, secreto. Em vão procuraremos noutro lado. Não poderíamos, evidentemente, esperar que outros que não os próprios nos tivessem dito o que só eles sabiam. Dizendo, calavam. Pelo dizer calando se define precisamente a cifra.

A cifra é o decifrável, embora a decifração não possa consistir noutra coisa que não seja a transposição, isto é, a metáfora. Explicada nos termos da língua comum, foge e escapa-se, e quando julgamos ter-lhe apreendido o sentido e mantê-lo preso num ponto já esse sentido está distante noutro ponto, noutro lugar de nós. Daqui a falta de força persuasiva para quem não seja capaz de situar-se no espaço mental feito de evidências em que se movem as metáforas, mas contra os historicistas há sempre o recurso de lhes mostrar que as suas explicações não explicam nada.

A cifra, primeira na ordem do Reino, que cala o mistério da história de Portugal, é o "manuelino". Ponhamos, porém, esta afirmação no modo hipotético. Se ela vier a confirmar-se, isto é, se for possível demonstrar que por detrás do "manuelino" está uma organização esotérica, então, qualquer que ela seja, identificar-se-á com o Reino, porquanto os símbolos fundamentais do "manuelino" - a cruz de potência e a esfera armilar - eram simultaneamente os símbolos régios».

António Telmo («História Secreta de Portugal»).


Mosteiro dos Jerónimos (Lisboa).


"Arquitectura serve hoje uma maquinação positivista contra o sacramento do matrimónio"

Foi-nos difícil encontrar o sr. arquitecto Fernando Morgado. Por fim, depois de muitas tentativas, conseguimos falar com o esclarecido escritor. Autor de inúmeros artigos sobre problemas de arquitectura, Fernando Morgado é um dos mais inteligentes e activos defensores da autonomia da cultura portuguesa. Visto que a Flama pretende nesta página estudar o problema universitário de uma perspectiva simultaneamente nacional e católica, este escritor aparece como um dos mais indicados para referir esse problema ao ensino das Belas-Artes. Quando finalmente fomos atendidos, prestou-se amavelmente ao diálogo.

- Gostaríamos de ouvir a sua opinião, na qualidade de arquitecto, sobre a arquitectura actual.

- Parece que hoje, já ninguém tem dificuldade em explicar pelo positivismo a arquitectura do nosso tempo. Basta olhar para ver. Para ver que não há uma intenção simbólica, uma significação espiritual de acordo com a nobre e antiga tradição artística dos construtores medievos, tal como se espelha na interpretação católica de Paul Claudel em L'Annonce faite à Marie. Subordina-se a arquitectura ao funcional, ao utilitário.

- Mas não será, sr. arquitecto, que ela deve visar o conforto, realizar todas as exigências de salubridade, higiene, bem-estar...

O entrevistado, sorrrindo, retorquiu: - certamente. Ocorre-me, por isso, algo importante. Não se pode conceber a casa sem a família. Quem casa quer casa. Se há que ter em vista, como muito bem se diz, a finalidade utilitária, toda a arquitectura deve ser orientada em função da família.

Ora, tal como hoje se constrói, com a redução das paredes ao mínimo indispensável para a separação - e não para o isolamento - das três zonas da casa não existe a possibilidade de se manter o que dá coesão à família, ou seja, o segredo da relação conjugal. Também com a interpenetração cada vez maior das habitações e a consequente promiscuidade vicinal...

- Ocorre-me o contraste entre o docel e os telhados de vidro...

- Isso mesmo. Fabrica-se com pedras, ferro e cimento, casas de vidro. Em vez de celas monacais, constrói-se células sociais. A arquitectura serve hoje uma maquinação positivista contra o sacramento do matrimónio...


- Tem-se esquecido a importância do lugar do tálamo na orientação das divisões.

- Claro. Tanto mais que é a mulher quem deve ser o elemento de ligação do arquitecto com a família, pois é ela quem sabe quais as relações dos familiares uns com os outros e, portanto, os requisitos da habitação que deve ter o seu lar. E tudo acontece ao invés, pois as famílias são forçadas na maioria dos casos a escolher uma casa como um fato feio, que, na maioria das hipóteses necessita ser emendado para servir.

- Sim, a tendência hoje observável é a de transformar a casa em local onde se dorme e se come...

- Nem sequer se prevê alojamento para os ramos ascendente e descendente da família. Repare que as casas raramente têm lugar para mais do que um filho e nenhum para os avós. Esses irão para os asilos.

Sem falar já na ausência do museu familiar e da biblioteca, o lar está reduzido a uma cama e à mesa. Note que hoje nasce-se na maternidade - que deveria chamar-se natividade - e morre-se no hospital.

- Hoje nasce-se e morre-se em comum. Dois dos acontecimentos mais importantes da vida humana, tão importantes que a Igreja os consagra nos sacramentos do baptismo e da extrema-unção, deixaram de pertencer à família. Poder-se-á de algum modo explicar este estado de coisas por uma decadência da arquitectura? Parece-me, pelo que o sr. arquitecto disse, que é possível ligar ambas as coisas.

- É útil que se considere a arquitectura disso responsável. Pessoalmente, não posso admitir uma arquitectura existindo independentemente duma filosofia. Em Portugal, duma filosofia portuguesa. É preciso não esquecer que as estruturas podem modificar o meio, se o meio não modificar as estruturas. E a vida que a arquitectura de hoje proporciona aos portugueses é diversa do modo português de viver.

Vista do Castelo de S. Jorge sobre Lisboa.

Note, porém, Francisco Sottomayor, que estou a referir-me à arquitectura que se faz e tem feito entre nós desde há trinta ou quarenta anos; isso não quer dizer que não haja arquitectos conscientes de que não se pode limitar a Arquitectura ao jogo de respeitar ou iludir regulamentos e posturas que cerceiam de tal modo as funções do arquitecto que bem pode dizer-se ser o poder público o único arquitecto possível em Portugal.

- Então acha que a legislação vigente não faculta a livre concepção da obra?

- Sim; a meu ver, a legislação em vigor, no que respeita às edificações urbanas, necessita de uma urgente e total revisão. Não é de continuar um estado de coisas em que o talento do arquitecto se mede pela habilidade em projectar edifícios que as leis autorizem, no mínimo espaço de terreno. Este ponto de vista, próprio do construtor industrial, não é admissível nos responsáveis pela arquitectura em Portugal.

- A quem atribui a orientação positivista da moderna arquitectura? Ao ensino que se ministra nas nossas escolas de Belas-Artes?

- Sim, o ensino é o grande responsável. A formação dos arquitectos é de tal modo precária, que só ao cabo de muitos anos de humilhante sujeição à técnica, se começam levantando vozes em defesa da prioridade da estética. A liberdade de imaginação, a possibilidade da infinitude de soluções que constituem a essência da arte arquitectónica, nas suas relações com o plano do pensamento, é sistematicamente ignorada nos programas das escolas de Belas-Artes. Os espíritos acham-se de tal modo inquinados pelo positivismo, que se não ouve nas aulas de arquitectura um indício sequer da percepção de uma simbólica.

- Quer dizer que se não estabelecem relações entre as expressões artísticas e o significado humano e transcendente das obras...

À esquerda, um mausoléu (Centro Cultural de Belém) a ensombrar o Mosteiros dos Jerónimos.

- Sim: ou tudo é o utilitário, ou tudo é o plástico, ou tudo é o utilitário e o plástico de mãos dadas. Na confusão da forma com a forma, do modelador com o modelado, da cabeça com as mãos, elegem-se linhas e volumes cuja adequação à finalidade da obra, quando exista, é meramente acidental. As escolas não falam do que seja a comunicação realizada pelo artista, já no plano trans-humano. É a técnica, com a sua grande sombra, que apaga e dilui a imaginação. Se o aluno não fizer uma formação pós-escolar, corre o perigo de se transformar no engenheiro (fabricante de engenhos, fabricante de máquinas de viver), na melhor hipótese. Atinge-se apenas a delimitação de dois campos: o dos tradicionalistas e o dos modernistas, que julgando-se em oposição de conceitos, mais não fazem do que apontar uns aos outros os mesmos defeitos e inépcias. Quer dizer, não há oposição de conceitos mas apenas de vontades. O que seja uma arquitectura nacional radicada nas características étnicas do nosso povo, mas actual não passadista, é ponto cuja discussão se não faz nas Escolas de Belas-Artes, nem antes nem depois da actual reforma.

- A ausência de conceitos que o sr. arquitecto vê na moderna arquitectura torna-se verdadeiramente contraditória quando ampliada à arquitectura religiosa. Ou isso não se verifica nas recentes atitudes perante a arte religiosa?

- Podia aplicar-se à moderna arquitectura religiosa o verso de Fernando Pessoa: "Embandeiraram o barco de maneira errada". Quer dizer, a construção do templo já não corresponde à simbologia mariológica contida na ladainha: porta caeli, turris eburnea, etc. O paradigma do templo português, como foi expresso em Quinhentos pelo Manuelino, não é o homem mas a mulher. Importa apenas criar para hoje o correspondente do manuelino, o atlântico actual, arquitectura dos mares, ou seja, de "Maria" (plural latino de Mare).

- Mais concretamente: a arquitectura religiosa, moderna, esquecendo a importância da porta no templo (símbolo da iniciação católica), do correspondente das colunas apocalípticas, das capelas laterais e respectivos luzeiros, a tendência, enfim, em transformar o templo numa sala de reuniões dos fiéis, perfeita quanto à acústica e aos lugares de estância, com a preocupação única de uma ambiência de fé sentimental, não cuida nem serve o culto dos fiéis na sua comunidade com o sobrenatural.

Repare você que os móveis de ajoelhar e sentar são aquilo que a palavra diz: móveis; portanto, não resultam da estrutura arquitectónica do tempo. Os móveis na Igreja são os fiéis. Lembre-se das antigas peregrinações e da charola das catedrais medievais.

Assim terminou esta entrevista em que o arquitecto Fernando Morgado nos permitiu colher declarações a que podemos justamente chamar notáveis. Notáveis porque merecem e devem ser notadas por todos quantos se limitam a olhar como espectadores, mais ou menos desinteressados, o problema da arquitectura religiosa dentro da arte moderna (in Flama, ano XIV, n.º 519, Lisboa, 14 de Fevereiro, 1958, pp. 5-6).

Lisboa











Ponte Salazar

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