terça-feira, 1 de abril de 2014

Da Faculdade de Teologia e da crise espiritual do nosso tempo

Entrevista a João Ferreira




«Alheia às vicissitudes da cultura universitária, onde se deforma quando se reflecte, tem sido quase sempre inspirada por um espírito subtil e desconhecido a filosofia portuguesa...».

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


«(...) O projecto de uma Universidade Católica vinha desde o fim do século XIX, mas ele só se tornou realidade em 1967, abrangendo, entre outras Faculdades profissionais, as de Filosofia e de Teologia, em Lisboa, e, depois, noutros locais. A U. C. P. constituiu uma boa solução material, porque, já as Dioceses, já as Ordens religiosas, não podendo manter os Estudos próprios, passaram a matricular os poucos estudantes na referida Universidade. Do ponto de vista da economia do ensino, nada há a objectar, mas, do ponto de vista do pneuma da tradição carismática, é óbvio que os estudantes não recebem aí a genuína iniciação nas suas heranças espirituais. Os professores são provenientes de várias origens e naturalmente incorporam o que poderíamos chamar um ecletismo filosófico de obediência católica - à Escritura, à Tradição e ao Magistério - mas isento dos sinais desta ou daquela tradição espiritual, porque isso não incumbe à Universidade, mas às Dioceses e às Ordens. Significa isto um empobrecimento do pluralismo das religiões católicas, que só pode ser garantido, ou através da complementar existência da formação dentro das próprias Ordens, ou através da renovação dos estudos dentro delas, com abandono do recurso achado na Universidade. Estamos, de facto, perante uma crise, que fenecerá quando cada um dos institutos for capaz de retomar o exercício dos Estudos Internos e, pois, a genuína praxe escolástica».

Pinharanda Gomes («Aspectos da Filosofia Católica em Portugal na segunda metade do século XX»).


«Eis o momento para, em termos sumários, descrever como a Universidade pombalina tudo predispôs para que a razão humana declinasse nas trevas da ignorância. Tal processo, enquanto expressão dos despóticos desígnios do Marquês de Pombal, partiu de uma intervenção estatal em todas as estruturas públicas e particulares de ensino, visando fazer dos mestres funcionários ao serviço do Estado, ou agentes por ele nomeados, dirigidos e pagos. O fim perseguido pelo ministro josefino seria, então, o de preparar os quadros de uma administração que se queria politicamente centralizada, e como tal determinada por critérios utilitários de ordem económica, como os que, a título de exemplo, se patenteiam nos Estatutos da Aula do Comércio, aprovados a 19 de Abril de 1759.


No entanto, se é verdade que este processo parece ter surgido de uma acção exterior à Universidade, o seu êxito passou pela colaboração activa de membros a ela estreitamente ligados, como a do reitor-reformador Francisco de Lemos, ele próprio um homem da Igreja. Não deixa, porém, de ser interessante como a estatização pombalina, procurando transferir o "poder" da sociedade religiosa para o Estado, perseguiu desde logo os jesuítas com o beneplácito - se assim o podemos dizer - da Congregação dos Oratorianos, se bem que também posteriormente perseguida. A presença, pois, de eclesiásticos desempenhando funções em organismos estatais - tais como o prelado D. Tomás de Almeida enquanto Director Geral dos Estudos, bem como Frei Manuel do Cenáculo exercendo o cargo de presidente da Real Mesa Censória -, passa a ser, na época, uma constante significativa do acto de profanar a respectiva missão espiritual, dada a predisposição para servir fins temporais que, a curto e médio prazo, estariam na origem do ensino universitário decaído em ensino politécnico. Consequentemente, este processo acabaria por fazer da Universidade o agente dinamizador do poder estatal, tornando-a assim bastante poderosa pelo facto de poder determinar como se devem planificar o ensino, a política e a economia».

Miguel Bruno Duarte («Noemas de Filosofia Portuguesa»).


«A divulgação da ideologia pelo ensino conduz sempre à instauração do sistema político correspondente. A Universidade do Estado é a Universidade Pombalina. Foi criada com uma ideologia, a do iluminismo, da qual resultou o falso liberalismo do século passado. Ao iluminismo sucedeu o positivismo, comandado por Teófilo Braga, que deu origem ao liberalismo ignorante, corrupto, anti-clerical e anti-sindicalista da 1.ª República. O positivismo - como mostra H. Marcuse no livro "Razão e Revolução" - prepara mentalmente o marxismo. Com efeito, a nossa Universidade substituiu, nos anos quarenta, o positivismo pelo marxismo e o resultado foi a instauração do actual socialismo».

Orlando Vitorino («De uma sessão com estudantes na Faculdade de Direito de Lisboa», in Presidenciais 86).


Escola de Atenas, de Rafael (Museu do Vaticano).

«(...) Aristotelismo puro, haurido directamente nas fontes helénicas, talvez nunca existisse entre nós, o que não deve provocar estranheza de quem, habilitado pela erudição mais perfeita, reconhecer a dificuldade actual de circunscrever o puro aristotelismo. Tem fundamentação documental a verdade histórica de que existiu na Universidade de Coimbra uma linha ininterrupta de aristotelismo, mas de aristotelismo tomista. A conjectura de que houve fidelidade literal aos textos autênticos de Aristóteles terá de ser afastada, se admitirmos que os esforços dos escolásticos obedeceram sempre ao intento de compor o aristotelismo, lido em latim, com a religião medieva e a ciência moderna.

No século XVIII entraram em Portugal as doutrinas antiescolásticas que alegavam ser impossível conciliar a experimentação científica e a revelação cristã com o aristotelismo, ou seja, com a filosofia. As traduções e os comentários dos textos de Aristóteles foram expulsos do ensino público em consequência da reforma pombalina da Universidade de Coimbra, efectuada em 1772. O Marquês de Pombal, mais preocupado em definir a nova posição da Universidade perante a Igreja e o Estado, do que em dar nova orientação filosófica aos estudos superiores, não realizou obra que mereça estima dos pedagogistas».

Álvaro Ribeiro («Apologia e Filosofia»).


«(...) É inegável o substracto aristotélico duma grande parte do pensamento português. Desde os comentários de Pedro Hispano, desde Fr. João Sobrinho, Gouveias, Pedro da Fonseca e Conimbricenses, Fr. João de S. Tomás, toda a teoria de aristotélicos que se estende do século XVI ao XVIII, os estatutos das nossas universidades de Coimbra, Lisboa e Évora, onde se leu a Metafísica, o "De Anima", a Lógica, os "Parva naturalia", o "De coelo" e o "De gereratione" até muito tarde e se disputou solene e escolasticamente segundo a dialéctica aristotélico-escolástica - tudo revela a larga audiência que Aristóteles teve em Portugal. Até em autores eivados do espírito "moderno", em trânsito da cultura antiga para a cultura humanista e depois iluminista, o fundo substancial da exposição era tradicional e sobretudo aristotélico. Isto não quer dizer, que a mentalidade portuguesa fosse caldeada apenas pelos cânones de Aristóteles. Diversíssimas correntes entraram no pensamento português, embora nenhuma com tanta impetuosidade como a aristotélica. O senequismo e outras formas de estoicismo estão presentes desde S. Martinho de Dume até D. Duarte e D. Pedro, D. Fr. António de Sousa, Isaac Abrabanel, Belchior Belliago. O platonismo teve larguíssima simpatia entre muitos autores desde o augustinismo avicenizante de Pedro Hispano, Gomes de Lisboa, Álvaro Gomes, autor do livro da Corte Imperial, Leão Hebreu, de S. Agostinho de Macedo, Abraão Ferreira e nas escolas franciscanas em geral, onde surgiram alguns nomes famosos no escotismo universal, como são Fr. Pedro da Cruz (s. XVI), Fr. João da Encarnação (S. XVI), Fr. Mateus de Sousa (s. XVII), Fr. José Maria da Fonseca de Évora (s. XVIII) e Fr. António Melgaço (s. XVIII)».

João Ferreira («Existência e Fundamentação Geral do Problema da Filosofia Portuguesa»).






«(...) No quadro traçado pelos historiadores franceses e belgas, a Escolástica teria sido fundada nas aulas palacianas de Carlos Magno e garantida pela Igreja Católica na Universidade de Paris. Esta visão dos historiadores da Europa Central, que consideram ora a França ora a Alemanha como herdeiras da Antiguidade Clássica, ou do Império Romano, tem sido muito divulgada entre nós, sem que os professores dos seminários nem os professores universitários hajam sequer reparado em quanto ela obnubila as tradições orientalistas dos povos que na Idade Média habitaram a Península Ibérica».

Álvaro Ribeiro («Filosofia Escolástica e Dedução Cronológica»).




"A Restauração da Faculdade de Teologia na Universidade, seria o mínimo a exigir para se resolver a deficiência espiritual dos novos meios cultos"

Aos leitores da Flama de certo merecem interesse e proveito as declarações que sobre a cultura portuguesa faz o nosso entrevistado da semana. Formado na Universidade Gregoriana de Roma, defendeu tese sobre Pedro Hispano tendo, desde o começo da sua já longa carreira de escritor, prestado a maior atenção aos problemas culturais portugueses. Procurámos o Rev. P. e Dr. João Ferreira O.F.M. na tranquila e sossegada casa, pertencente à Ordem de S. Francisco de Assis, em que nas suas vindas a Lisboa costuma recolher-se. Muito conhecido e estimado nos meios intelectuais portugueses, o actual director da revista Itinerarium e professor no Seminário Francisco de Leiria, acedendo ao convite, recebeu-nos amavelmente e logo começámos a conversa pela pergunta seguinte:

- Tenho ouvido várias vezes dizer que a Universidade Medieval foi fundada pela Igreja Católica para cumprir fins apologéticos; mais concretamente, para combater as heresias. Será verdade?


Escrita carolíngia


- Os centros superiores de ensino medievais, excepção feita para as escolas palatinas de Carlos Magno e Frederico II, surgiram das escolas catedrais e monásticas mais importantes e foram promovidas por elementos da Igreja Católica. Assim aconteceu com os centros de Toledo, Paris, Oxford, Bolonha, Coimbra, Cambridge, Salamanca e Toulouse. A Universidade de Paris, considerada como o terceiro pilar do mundo cristão medievo, ao lado do Papa e do Imperador, foi especialmente dotada de privilégios e favores do Papa e do monarca francês. Ela surgiu espontaneamente do livre agrupamento de estudantes e professores de Notre-Dame, sujeitos à jurisdição do seu Chanceler (universitas magistrorum et scolarium). Apareceu a modo duma união cooperativa e com finalidade essencialmente cultural, agrupando-se com o decorrer do tempo e a exigência dos diversos ramos do saber, em quatro faculdades: teologia, filosofia (artes), direito e medicina. Uma intencionalidade primariamente cultural, não excluiu que a Universidade, formada de elementos clérigos e católicos na sua totalidade, não colocasse, dentro de um espírito corporativo integral, a sua investigação racional e científica sob a vigilância do magistério da Igreja, mormente em Paris, que ficou a ser, desde cedo, um centro semi-oficializado segundo as directivas de Roma. Mas este magistério não entrou, excepção feita para a teologia que se constrói em bases reveladas, como norma positiva de investigação. A autoridade da fé valia, na Universidade medieval, como em qualquer Universidade católica, apenas como norma negativa. Quer dizer: em virtude da sua adesão à lei cristã, os universitários católicos deviam abster-se de manter posições contrárias ao conteúdo doutrinal da sua fé.

Levado pelas suas interessantes considerações que nos faziam lembrar uma brilhante lição de história, afastava-se contudo o ilustre sacerdote do assunto que visáramos; recordámos-lhe, por isso, o nosso intento e retomando a palavra, prosseguiu o diálogo:

Túmulo de João XXI

- Depois deste preâmbulo, poderei responder mais directamente à sua pergunta: sou de opinião de que a Universidade medieval foi fundada, primariamente, para preencher as lacunas culturais do homem medievo, e só secundariamente serviu, em algumas e em certas Faculdades, para a apologia e zelo da fé. A Universidade de Paris, sob o interesse imediato dos pontífices, é o protótipo deste zelo pela ortodoxia: são conhecidas as intervenções de Inocêncio III, Gregório IX, Urbano IV, João XXI, etc., contra a intromissão das doutrinas árabes e contra Sigério de Brabante, Boécio de Dácia, etc.

A este propósito, o das relações dos pontífices com os catedráticos, lembrámo-nos de perguntar: - Qual a posição de Pedro Hispano na Universidade medieval?

- O papa português João XXI, vulgarmente conhecido pelo nome de Pedro Hispano, foi uma das figuras marcantes da Universidade medieval, na tríplice qualidade de estudante, de professor e de homem de governo. Como estudante, frequentou o Estudo de Paris, aplicando-se à aprendizagem de diversas disciplinas, entre as quais a dialéctica, a teologia, a medicina e a filosofia. Como professor, leccionou Artes em Paris e medicina em Sena, deixando-nos, como fruto desse magistério, preciosos comentários às obras dos mais ilustres pensadores e médicos ocidentais. E na qualidade de Pontífice da Cristandade, promoveu, em 1277, um inquérito na Faculdade de Artes de Paris, sobre os erros grassantes na Universidade.

A posição de Pedro Hispano na Universidade medieval sobressai ainda pelo influxo que tiveram suas obras no ensino universitário. As suas famosas Súmulas Logicais foram escolhidas como livro do texto obrigatório nas universidade europeias desde meados do século XIII até fins do século XVI. Esta difusão valeu-lhe um recorde de edições impressas. Conhecem-se cerca de 256 edições desse livrinho didáctico, além de centenas de manuscritos. Este primado dialéctico do pensador lusitano na formação dos espíritos cultos é-nos patenteado pelo elevado número de universidades que adoptaram as Súmulas como texto, o que foi apaixonadamente comentado por numerosos professores das Faculdades de Artes. Adoptaram as Súmulas como livro de texto e houve paixão no seu estudo: em Paris, Delft, Erfurt, Leipzig, Ingosltadt, Colónia, Cracóvia, Tubinga, Heidelberg, Viena, México, Coimbra e Lisboa, etc




- Quer-nos falar da repercussão do seu pensamento na Universidade portuguesa?

- A repercussão do seu pensamento nas Universidades portuguesas é ainda objecto de investigação. Pelo que se conhece, não parece ter sido grande. Segundo alguns autores, as universidades de Coimbra e Lisboa teriam adoptado as Súmulas como compêndio dialéctico. Ademais, é de crer que de tantos portugueses formados nas universidades da Europa Central, onde a sua dialéctica era a-b-c da promoção científica, trouxessem já essa preformação que transmitiram depois na cátedra portuguesa. De João Ribeiro, sabemos nós que, depois de se ter formado em Paris, e de ter revisto e editado o comentário de João Celaya, seu mestre, às Súmulas Logicais, conseguiu a cátedra de Lógica em Lisboa em 1527, onde havia de ter exposto as doutrinas lógicas de Pedro Hispano.

- Desejaria que dissesse aos leitores desta página da Flama alguma coisa sobre a crise da apologética em Portugal. Quais as respectivas causas? Poderá resolver-se o problema com a conciliação da filosofia portuguesa com a teologia católica? Ou continuaremos a adoptar a apologética estrangeira?

- Na pergunta, o meu amigo fala-me da crise da apologética católica em Portugal. Se pelo termo de crise deseja significar a falta duma conformidade entre a ordem ideal e a ordem real, no que diz respeito à aproximação entre o pensamento laico e o pensamento católico, julgo que a expressão é legítima. Como em tantos problemas que agitam o coração humano, também aqui ainda  não chegámos ao cume. As causas desta inadequação apologética são diversas e podem sintetizar-se nas seguintes: causas externas e internas, causas sociais e históricas.

Interior da Igreja do Mosteiro dos Jerónimos

Histórica e socialmente sabemos quão afastada andou desta adequação o século que nos precedeu. Com o sangue, herdámos dessa época muitos preconceitos e uma disposição que muito tem retardado a desejada conciliação entre razão e fé, entre cultura e teologia. A apologética não resolveu ainda entre nós, satisfatoriamente, o caminho para esta conciliação, porque além da irredutível posição de alguns sectores racionalistas, tem-se feito sentir a falta de centros teológicos que possam ser frequentados por leigos, assim como a nem sempre feliz escolha de cartilhas estrangeiras para transmitirem as verdades cristãs. Acresce ainda que nem sempre se tem dado entre nós a devida importância ao diálogo esclarecedor entre o pensamento laico e o escritor católico, com sentido de compreensão. Tais circunstâncias têm-se feito sentir no nosso meio, e são, sem dúvida, aspectos da crise.

Entretanto, a apologética católica tem um sentido vasto, qual é o de levar Deus ao homem, esclarecendo este sobre os motivos de credibilidade. Nesta amplitude, a conciliação da filosofia portuguesa com a teologia católica, entra como parte integrante do problema geral do destino espiritual do homem português.

Não há dúvida de que a apologética, com a dupla finalidade de demonstrar e defender a fundamentação da crença cristã, deve adequar-se na sua forma de estruturação externa na escolha dos temas a apresentar, à curiosidade de cada homem e de cada grupo étnico. Neste sentido serão inadequados, no ponto de vista de oportunidade, as publicações estrangeiras, dirigidas a um povo ou grupo determinado que não é o nosso, e que pelo seu sabor polémico local ou intencionalidade restrita, se destinam a outras nações.

Isto é importante tê-lo em vista, já que é muito difícil produzir um livro essencialmente universalista, desligado de circunstâncias e situações, que possa ser utilizado com igual eficácia em vários pontos do globo. Eis a razão por que convém sumamente a confecção de originais portugueses, feitos por portugueses, que transmitam uma apologética católica, mas também portuguesa.




- Pode-me dizer como é ensinada a filosofia no Seminário Franciscano de Leiria, tendo em vista que muitos Frades Menores são enviados para as Missões Católicas do Ultramar, onde existe o grave problema da desnacionalização das províncias ultramarinas?

- Os estudos do Seminário de Filosofia de Leiria, obedecendo aos princípios gerais da Santa Sé, que orientam os Seminários em geral, regem-se aproximadamente pelo teor dos Estatutos da Ordem Franciscana, emanados do governo geral da Ordem, com sede em Roma. Embora as normas da Igreja e da Ordem sejam a base da organização dos nossos estudos, há algumas normas peculiares adequadas ao meio ambiente.

Como orientação geral, procuramos dar uma sólida formação filosófica, não apenas com vista a um aperfeiçoamento especulativo, mas ainda como preparação para os estudos teológicos que se fazem seguir e para o bom desempenho da missão sacerdotal futura. O ensino procura ter um sentido pedagógico. Os nossos esforços tendem a criar nos nossos alunos a consciência da necessidade da sua formação, com a certeza de que, possuindo esta consciência de homens, teremos amanhã bons padres, bons apóstolos, e óptimos mensageiros da cultura entre os portugueses.

- No seu estudo comparativo das Universidades estrangeiras que conhece - italianas e espanholas - com a Universidade portuguesa, que opinião forma acerca da formação filosófica e teológica dos nossos diplomados pelas escolas superiores?

- Prevejo o interesse que muitos leitores teriam na resposta directa a esta pergunta. Contudo, pela nula experiência pessoal que possuo da vida universitária portuguesa, falta-me um dos termos para estabelecer qualquer confronto entre as universidades estrangeiras apontadas e a Universidade portuguesa. Pelos poucos diplomados que conheço fora da Universidade, também não saberei dizer, concretamente, nada sobre a sua real formação filosófico-teológica.

Universidade de Coimbra

- Julga conveniente a restauração da Faculdade de Teologia na Universidade de Coimbra?

- A restauração da Faculdade de Teologia na Universidade portuguesa seria o mínimo que, para já, se poderia exigir a fim de resolver, parcialmente, a deficiência espiritual dos meios cultos superiores. A escolha do lugar é problema secundaríssimo, quanto a mim: podia ser em Coimbra, em Lisboa, Porto ou Braga; e se fosse restaurada em cada um dos centros universitários, nada haveria a perder. O que importa, é um centro superior português onde se possa estudar teologia.

- Que pensa de uma Universidade Católica em Lisboa, especialmente defendida nestes últimos tempos pelo escritor Afonso Botelho, no livro O Drama do Universitário?

- A fundação duma Universidade Católica em Portugal tem sido, de há uns anos para cá, um assunto muito debatido. Destaco a atenção que lhe dedicaram Monsenhor Avelino Gonçalves, Henrique Marques, Zacarias de Oliveira e Leonardo A. Pereira na revista Lumen; os depoimentos do Rev. Prof. Lúcio Craveiro da Silva, S. J., e do Sr. António M. dos Santos da Cunha na colectânea Bracara Augusta; Henrique Marques na Brotéria, Afonso Botelho no livro O Drama do Universitário e Armando de Jesus Marques na revista bracarense Cenáculo.

De todos estes estudos ressalta a nota de que é inadiável a necessidade da criação dum centro superior de estudos dirigido pela Igreja. Esta inadiabilidade fundamenta-se essencialmente num ponto de vista interno: na crise espiritual do nosso tempo e na necessidade de proporcionar aos espíritos cultos católicos, a par da especialização técnica que a Universidade actual promove, o gosto e a cultura sobre assuntos referentes ao seu destino espiritual. Nestes moldes levaremos a nossa cultura a reaver aquela feição tradicional dentro duma nação que foi visceralmente católica. Por um lado externo não deixaremos também de recordar o esplendor e a boa acção das Universidades católicas na Bélgica, no Brasil, no Canadá, nos Estados Unidos da América do Norte, na França, na Itália, na Espanha, na Argentina e na Colômbia. Por tudo isto, penso que a Universidade Católica será uma presença necessária e complementar no ambiente universitário português, a que dará horizontes de nova problemática e de nova esperança. A fundação da Universidade Católica atenderá a educação mais integral dos membros que formam o grémio da Igreja Católica e abrirá novos horizontes na apologética em Portugal.


O voto da fundação da Universidade Católica, já emitido em 1953 no I Congresso Nacional Universitário Católico, em 1955, no I Congresso de Filosofia e em 1958 no I Congresso Nacional dos Institutos Religiosos, espera apenas pela hora da sua realização. Esperamos que seja para breve (in Flama, ano XIV, n.º 531, Lisboa, 9 de Maio, 1958, pp. 21-22).

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